Read the book: «O humor da minha vida»

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Editado por HarperCollins Ibérica, S.A.

Núñez de Balboa, 56

28001 Madrid

Citações nas páginas 176, 177, 178, 184, 188, 189, 190, 191, 193, 207, 208, 209 e 212 da edição em papel, correspondente aos capítulos 12 e 13, reproduzidas sob autorização © Sogyal Rinpoche, O Livro Tibetano da Vida e da Morte, Editorial Presença, 7.ª edição, tradução de Isabel Andrade.

The Tibetan Book of Living and Dying, edição revista de Sogyal Rinpoche. Copyright (c) 1993 de Rigpa Fellowship. Autorização concedida pela HarperCollins Publishers.

As citações da AECC (Asociación Española Contra el Cáncer) foram tiradas de www.aecc.es.

As menções a Rafael Santandreu foram autorizadas pelo próprio autor.

As menções a Enric Benito e a www.alfinaldelavida.org foram autorizadas pelo próprio autor.

Título em português: O humor da minha vida

Título original: El humor de mi vida

Tradutora: Fátima Tomás da Silva

© 2021, Paz Padilla Díaz

© 2021, para esta edição HarperCollins Ibérica, S.A.

© 2021 do prólogo «Viver, rir e aprender a morrer», Enric Benito

© 2021 do prólogo «Transformar a nossa mente num Ferrari», Rafael Santandreu

© 2021 do prólogo «Caminha com o coração», Verónica Cantero

Todos os direitos estão reservados, incluindo os de reprodução total ou parcial em qualquer formato ou suporte.

Revisão editorial: Paco Gómez Padilla

Desenho da capa: CalderónStudio

Desenho de interiores e paginação: Raquel Cañas Hernández

Fotografia da autora: Iván Martín

ISBN: 978-84-9139-664-2

Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.

Índice

Créditos

Dedicatória

Prólogo: Viver, rir e aprender a morrer, por ENRIC BENITO

Prólogo: Transformar a nossa mente num Ferrari, por RAFAEL SANTANDREU

Prólogo: Caminha com o coração, por VERÓNICA CANTERO

O humor da minha vida

Introdução. Amor, morte e humor

1. O Largo e a Larga

2. Vinte anos não são nada

3. Sodoma e Maldivas

4. Com papéis

5. Ouviste o mesmo que eu?

6. Não estamos preparados para morrer

7. Primeiros contactos

8. Só sei que nada sei

9. Mzungu

10. Tarzan

11. Negacionismo

12. A arte de morrer bem

13. A nova perceção

14. Dona Lola

15. Que pena dela!

16. Tes quiero may lof

Agradecimentos

Ao meu Antonio,

pela sua generosidade, a sua bondade,

a sua honestidade, a sua integridade,

a sua força e a sua luz,

por me fazer sentir única,

por me amar tanto.

Contigo, não faltava nenhuma peça ao puzzle,

eras perfeito.


A vida é uma caixinha de surpresas. Em julho de 2020 ligaram-me da Sociedade Espanhola de Cuidados Paliativos a pedir permissão para dar o meu número de telefone a alguém que insistia em querer falar comigo. Tratava-se de uma atriz que, há poucos dias, acabara de perder o marido e conhecia os meus vídeos no YouTube. A intermediária acrescentou a sua opinião, dizendo que a pobre devia estar muito afetada e queria pedir apoio para o seu desconsolo.

Tratava-se da Paz, que me ligou ao fim de algumas horas e, desde o começo, desmontou o falso alarme de «possível viúva desconsolada a pedir apoio para um luto complicado». Com a sua voz cantarina, cheia de energia e entusiasmo, a primeira coisa que me disse — acentuando e prolongando o «i» — foi:

— ENRÍÍÍÍC! Estava desejosa de te agradecer por me teres ajudado tanto com os teus vídeos para poder acompanhar o meu Antonio.

Surpreendi-me com a sua maturidade, a sua vitalidade e a sua coragem e alegrei-me com a troca de perspetiva de «ajudar alguém que estava a sofrer» pela de poder partilhar a experiência que se dá nestes momentos e que poucos chegam a descobrir.

Tivemos uma conversa longa em que descobri que a Paz, acompanhando o seu amor até à beira do mistério que é morrer, fizera um processo pessoal que mudara o seu olhar sobre a vida. Estava comovida com isso e interessada em falar com alguém que conseguisse entendê-lo.

Depois de anos a viver estas experiências ao lado da cama, alguns de nós comprovaram que o amor é mais forte do que a morte e que quem se aproxima, sem medo e com amor, a acompanhar o processo de alguém amado, com frequência, descobre o presente de aprender diretamente que a morte não existe e sai transformado. Sofre o que se chama uma metanoia, uma mudança de perspetiva.

Quando a pessoa que morre vai em paz, na medida em que estamos ligados a ela, podemos receber esta herança de sentir a continuidade do importante, da solidez do subtil e da inefabilidade do transcendente e esta experiência muda-nos a vida.

Pareceu-me uma maravilha que alguém com a energia, sensibilidade e potencial impacto social da Paz pudesse ter vivido este processo. E alegrei-me por ter podido ser de alguma ajuda.

Desde o princípio, a Paz soube que o que viveu e aprendeu com esta experiência não era algo que queria só para ela e que queria partilhá-lo, talvez por perceber o sofrimento que se associa à ignorância tão grande de algo tão importante como a vida não ter fim.

Depois desta primeira conversa, tivemos outras e, numa delas, pediu-me algo que voltou a tirar-me da minha zona de conforto: Convidou-me para a acompanhar num programa de televisão que nunca vejo e tentei escapulir-me, dizendo-lhe que a minha filha não me perdoaria, pois, em casa, somos do âmbito académico e os programas de telerrealidade não têm prestígio. A sua perseverança fez-me ver que havia algo em que ambos, a Paz e eu, concordávamos: A necessidade de mostrar às pessoas uma nova perspetiva do morrer que nos levará a uma compreensão maior do viver. E, ignorando as minhas reservas, acabei por aparecer em Sálvame Deluxe para apoiar esta mulher — já amiga —, cuja coragem a levou a mostrar publicamente, poucos meses depois do falecimento do marido, uma forma saudável, realista, construtiva e sem hesitações — apesar do ambiente em que vivia — de enfrentar uma perda e sair com mais sabedoria.

Noutra das nossas conversas, a Paz disse:

— Quero escrever um livro sobre a minha experiência.

E soube logo — a intuição é a forma como a verdade me chega — que seria algo que valeria a pena e decidi fazer o prólogo. E aqui estou.

Vamos ao livro. Em primeiro lugar, obrigado, Paz, pela tua generosidade e pela tua coragem para mostrar ao mundo as tuas lembranças, reflexões e experiências, frequentemente íntimas e sempre próximas, autênticas e, com frequência, comovedoras. Li-o quase de uma assentada e comovi-me, senti ternura — teria adorado conhecer a tua mãe! — e, às vezes, senti um nó na garganta, mas, sobretudo, ri-me muitíssimo.

Dito isto, que é o mais importante, passando de leitor a prefaciador, devo dizer algo menos pessoal ou mais profissional sobre o livro e acrescentarei algumas coisas neste sentido.

Mari Paz: O relato é uma das formas de libertação da tensão e a descrição elaborada de uma experiência como esta, para além de dar sentido ao vivido, também mostra um caminho — o que transitaste através da dor, do amor e do humor — que pode servir de guia para que os outros aproveitem a tua vivência e que os alcançará fácil e profundamente.

No morrer, como noutras situações graves da vida, há duas coisas que são úteis: A sensatez e o sentido de humor. O humor ajuda a aliviar a atmosfera, a situar o processo de morrer na sua verdadeira perspetiva e a desmontar a seriedade intensa da situação.

Acho que o humor, quando é sábio e surge do amor, nos transporta para um nível de consciência que relativiza a realidade e supõe uma forma de inteligência amorosa que nos liga rapidamente com o mais íntimo de nós e nos abre para, suavemente, integrar a dor, aceitar a perda e manter a perspetiva de que somos mais do que o nosso sofrimento. Através do humor, nos momentos difíceis, este ajuda-nos a perceber que a vida que nos sustenta não se fecha com o que, agora, parece que nos arrasta ou nos atinge, há outra forma de ver e este olhar abre-se com a porta da gargalhada, da alegria, que não é incompatível, como bem diz a Paz, com a tristeza própria do luto.

Entre gargalhadas, piadas e brincadeiras, a Paz vai dando pistas de como manter a coragem e a confiança no meio do caos aparente. Mostra como o sentido comum e o sentido de humor são importantes, mas não os únicos, e explica-nos a sua atração e interesse pela meditação ou deixa-nos pérolas de sabedoria como: «A tristeza não é um antónimo de felicidade. Não são incompatíveis, não é por estarmos tristes que não podemos ser felizes. A tristeza é parte natural do processo de luto e, como parte natural, devemos aceitá-la, parar de resistir.»

Há capítulos que me pareceram sublimes. Não percam o discurso maravilhoso da Paz no funeral do Antonio. Não é de estranhar que, do outro lado, lhe mande o seu perfume! — Entenderão quando lerem!

E partilha coisas que, de uma perspetiva padrão, quer dizer, da de alguém que não sofreu ou que não soube integrar e transcender o sofrimento, podem parecer afirmações insólitas, como quando diz: «E este ano, aprendi a celebrar a morte. A não ter o menor medo dela. A aceitar o curso inevitável da vida. A acompanhar os entes queridos na sua viagem com amor. Um amor puro, branco e inesgotável. A amar-me e cuidar de mim. A desfrutar de qualquer detalhe de beleza e de bondade do presente imediato. E o que a experiência me ensinou foi que, para aprender tanto, a única coisa que não podemos esquecer é de rir.»

Têm isto garantido se começarem o livro, espero, como a Paz deseja, que também vos sirva para «refletir sobre a importância de viver, sobre a nossa passagem efémera por este mundo»; aceitar «que devemos preparar-nos para as nossas mortes vindouras.»

Com frequência, pedem-me algum livro para alguém que sofreu uma perda recente sobre como lidar com o luto e o que conheço e costumava recomendar era do estilo de autoajuda que, apesar de servirem, não cumprem realmente as minhas expectativas. Agora, sei que livro vou recomendar: ESTE!!

OBRIGADO, PAZ, em nome de todos os que vão desfrutar e aprender com esta experiência que nos ofereces!

DR. ENRIC BENITO


Desde criança, quis ser cientista. Pelo menos, desde que li A origem das espécies, de Charles Darwin, com catorze anos de idade. E nunca acreditei em superstições, fantasmas ou milagres. Só no que os meus olhos conseguem ver e os meus sentidos, verificar. No entanto, na minha vida, tive a oportunidade incrível de saber que a magia existe. Ou algo muito parecido com a magia: O poder do pensamento para modelar a nossa mente, a nossa vida emocional e a nossa felicidade.

O filósofo Epicteto, no século I desta era, nasceu escravo. Os seus pais eram escravos e ele foi vendido, ainda bebé, a um amo novo que o levou para longe, para a capital do império, Roma.

Depressa se constatou que o pequeno era sobredotado. Aprendeu a ler e a escrever, sozinho, antes dos quatro anos e nunca parou de demonstrar a sua genialidade. Mas a sua maior façanha foi que, embora escravo, ele estava decidido a ser feliz.

E, assim, o pequeno Epicteto descobriu que a felicidade está na mente e não nos factos que nos acontecem. A frase dele é: «Não é o que nos acontece que afeta, mas o que dizemos a respeito do que nos acontece.» Há mais de vinte anos, dedico-me a ajudar as pessoas a fazer essa mesma descoberta. A perceber que se a esposa o deixar e se sentir deprimido não é porque foi deixado, mas pelo que disse depois: «Meu Deus, nunca mais voltarei a ser feliz! Que horror, estou sozinho!», etc.

Embora pareça mentira, vi várias vezes que tudo depende do nosso diálogo interno, da nossa avaliação do que nos acontece. E as pessoas mais fortes e felizes, como Epicteto, sabem que, aconteça o que acontecer, poderão fazer coisas valiosas por si mesmas e pelos outros. A sua filosofia torna-as imensamente fortes; muito harmoniosas; extremamente capazes de amar.

Quando era jovem, eu também — como muitos — me incomodava com ninharias, tinha medos irracionais e queixava-me sem parar. Mas tive a sorte de descobrir a psicologia cognitiva — ou do pensamento — e, depois disso, a minha vida emocional não parou de melhorar.

No ano passado, como a Paz, tive uma perda importante. O meu pai faleceu depois de uma doença prolongada. E, durante três dias, senti uma tristeza enorme: A maior tristeza que alguma vez experimentei. Mas, ao mesmo tempo, foi uma experiência bonita. Os meus quatro irmãos, eu e a minha mãe estivemos especialmente unidos. Os meus amigos e familiares estiveram lá. E, dentro do meu coração, sabia que não tinha acontecido nada de mal ao meu pai. Juntos, honrámos a sua memória e encontrámo-nos para nos amar com o mesmo amor que aprendemos com ele. E dissemos um «até breve», porque sabíamos que a vida passa tão depressa que, dentro de pouco, estaríamos todos juntos outra vez.

Passaram esses dias e o meu coração ficou novamente em forma e plenamente feliz. Penso no meu pai muitas vezes, falo com ele e não sinto nenhuma tristeza. Antes pelo contrário, sinto alegria por o ter tido por perto durante tanto tempo. Sei que, se não fosse pela minha autoeducação emocional com psicologia cognitiva, não teria lidado tão bem com a sua perda. E essa é apenas uma das maravilhas que se consegue com esta magia chamada inteligência emocional.

E não é só algo que me aconteceu. Recebi centenas de cartas de leitores dos meus livros que me relataram experiências semelhantes; pessoas que, depois de se educarem mentalmente, viram, um pouco espantadas, como enfrentavam a vida — e a morte — de outra forma.

Com a filosofia pessoal correta, a vida é muito fácil. Com os pensamentos adequados, só vemos abundância e oportunidades. Com a atitude própria dos mais fortes e felizes, tudo é um jogo apaixonante. Mas, primeiro, temos de estudar, de conhecer bem a mente e de a treinar para que funcione como um Ferrari.

A Paz é uma dessas pessoas que tem um motor Ferrari na cabeça. Teve uma grande professora, a mãe, que lhe deu a sua primeira licenciatura em inteligência emocional. No entanto, depois, soube inscrever-se em todos os mestrados que a vida lhe ofereceu.

Agora, nesta nova etapa que teve de viver, a Paz não ficou para trás. E aproveitou o que o universo lhe enviou para aprender a amar ainda mais.

Adoro a Paz. É inteligente, divertida, positiva, amorosa, bela e, acima de tudo, generosa. Tanto que não consegue impedir-se de querer transmitir a sua alegria de viver aos quatro ventos. E, há um tempo, não para de partilhar o melhor presente que podemos dar aos outros: Uma visão pletórica e radiante da vida, uma filosofia maravilhosa do bom viver.

Brindo a ela.

RAFAEL SANTANDREU

Psicólogo e autor de Nada é assim tão grave


A Mari Paz Padilla está a oferecer-nos um tesouro maravilhoso, a sua experiência de conexão profunda com o amor desde um dos graus mais elevados, o humor e a compaixão.

Quando conheci o Antonio no meu consultório, era um homem incrédulo e cheio de dúvidas a respeito do que se passava com ele; isso sim, sabia perfeitamente que, apesar de não estar muito convencido de que essas sessões poderiam influenciá-lo, estava disposto a fazer o que a Mari Paz lhe pedira e, por esse amor que sentiam um pelo outro, aceitou começar comigo uma viagem que não sabíamos onde chegaria e até quando seria.

Depois de passar algum tempo comigo a tratar da sua experiência de vida, disse-me:

— Verónica, não sei muito bem como vai isto, mas sei que me sinto em paz, sinto-me tranquilo. — Esse foi um presente bonito, isso e o sorriso que o acompanhava.

A Mari Paz Padilla conheceu a dor de ver como «o amor da sua vida» se ia embora sem prévio aviso, e também conheceu a dor de se despedir de uma mãe. Respeitou essa dor e aceitou-a da forma mais bonita: Abraçando o momento sem julgamentos, temores, comparações ou vontade de que acabasse, simplesmente, permitiu que essa dor, ao ser aceite e ouvida, ganhasse a forma mais elevada, AMOR, um amor que não pode explicar-se, mas que nos convida a celebrar a vida, nos convida a rir-nos, nos convida a entender, nos convida a partilhar com os outros para podermos ajudá-los com a sua experiência, nos convida à calma, mas, sobretudo, nos convida a transformar-nos e a continuar a vida com uma visão diferente, uma visão mais amorosa e plena, uma visão de gratidão e paz.

Para mim, é uma honra e um presente ter estado na vida do Antonio. Para mim, é uma bênção estar a partilhar o caminho com a Mari Paz e ter sido testemunha, no palco principal, de todo o processo que viveu.

O que vão encontrar aqui são lágrimas de amor, humor e valentia, portanto, preparem a melhor poltrona de casa para desfrutar de cada página deste livro.

VERÓNICA CANTERO



Isabel Allende deixou-nos, para a posteridade, uma entrevista realizada na primavera de 2020, no início da voragem pandémica. Nela, reconhecia que vimos para o mundo para perder tudo e que, quanto mais se vivia, mais se perdia. Perdia-se o medo de ver morrer os pais e as pessoas queridas. Também garantia que era um erro viver com receio de algo que ainda não acontecera e que o que devíamos fazer era gozar do que temos e viver o presente.

A escritora chilena afirmou que, quando a sua filha Paula faleceu, há vinte e sete anos, perdeu o medo da morte para sempre. Ao vê-la a morrer nos seus braços, apercebeu-se de que era como o nascimento, uma transição.

Algo tão óbvio como difícil de aceitar. Diz a letra do famoso bolero que vinte anos não são nada; no entanto, dois mil e vinte anos — depois de ver como foi 2020 — sempre é qualquer coisa.

O ano de 2020 foi um ano de perdas. Sem prévio aviso, perdemos contacto físico, sofremos perdas económicas, perdemos liberdades de algum modo, perdemos empregos, sem nos aperceber, perdemos direitos, perdemos tempo, perdemos vidas humanas e quase perdemos as estribeiras. Tudo menos o medo. Este não só não se perdeu, como parece ter-se transformado numa epidemia paralela com uma curva em pleno crescimento exponencial, para a qual não existe uma vacina antimedo nem se espera que exista.

Em qualquer meio de comunicação social ou reunião, ouvimos como se catalogou o ano de 2020, como um «ano bisagra». Um ano de mudanças profundas nas nossas vidas. No meu caso, se tenho de lhe chamar ano bisagra, a bisagra é do tamanho das que articulam a porta da catedral de Santiago de Compostela. Faz-se referência constante à importância deste «ponto de inflexão» nas nossas vidas. No entanto, não paramos para pensar na utilidade nula de um ponto de inflexão se não vier acompanhado de um ponto de reflexão. De uma pausa, de uma análise e de uma introspeção.

Ao princípio, não parava de ouvir «sairemos melhores desta». A pandemia mostrou o desejo latente generalizado de modificar um modelo socioeconómico injusto e insustentável, que mostrou as poucas-vergonhas com as primeiras mudanças. Se sair melhores desta como sociedade significa desenvolver uma maior consciência coletiva e solidariedade com o próximo, por enquanto, estamos atrasados. Uma coisa é o desejo de mudança e, outra, a vontade de mudança. Para que se produza uma mudança, deve existir uma vontade de mudança real. Para além da tentativa de anulação que o sistema convenientemente exerce sobre nós por sistema — apesar da redundância —, o principal impedimento para a mudança individual continua a ser o medo. Vivemos com medo.

Como algumas e alguns saberão, num breve espaço de tempo desse ano maldito, tive de aceitar duas perdas enormes e impossíveis de substituir: A minha mãe e o amor da minha vida, o Antonio. Não sei se por azar do destino ou pela graça de Deus — pois os dados já estão lançados — tive de enfrentar o medo mais ancestral do ser humano: O medo da morte.

No comovente romance Paula, onde Isabel Allende relata a sua vivência ao acompanhar a filha na sua doença até à morte nos braços dela, escreveu que o que não deixava escrito para a eternidade no papel se diluía nas suas lembranças. Partilho com ela uma desconfiança idêntica na memória. Bastaram apenas mais de quarenta anos de constantes desorientações. Portanto, devido ao desejo, ou melhor dizendo, à necessidade de salvaguardar este fragmento da minha vida, decidi aplicar a mesma terapia e protegê-lo do passar do tempo no papel. Para sempre, para mim e para quem o quiser.

Amor, morte e humor. É disso que este livro trata. Três palavras que escapam das cercas de arame farpado que os seres humanos se esforçam para construir à volta delas. Três palavras destinadas a coexistir. Não morremos de amor, como costuma dizer-se, morremos se não amarmos e, para podermos morrer sem medo, é necessário amar a vida.

Também ninguém pode negar que a arma de sedução maciça mais potente é a comédia. Nada gera um vínculo tão forte entre duas pessoas como rir-se juntas de alguma coisa, por muito estúpida que seja. Da mesma forma que não se faz humor sem amar o ser humano, sem querer fazer as outras pessoas felizes, nem é possível fazê-lo com medo. Não podemos rir-nos com medo. A manifestação do humor é uma consequência direta da inteligência. Parte de uma ideia ou ocorrência do cérebro que causa prazer ao mesmo. Um sofisticado mecanismo evolutivo que o homem desenvolveu para esquivar os medos instintivos. Quando conseguimos rir-nos racionalmente dos nossos medos, estes desaparecem. Portanto, amor e humor são os dois únicos mecanismos que conheço para perder o medo da morte e, sem a morte, quem sabe se tudo o resto valeria a pena. Para crescer, precisamos de conhecer, investigar, aprofundar e falar sem tabus e com mais frequência sobre estas três palavras na nossa vida diária.

Nas páginas seguintes que, no momento em que escrevi isto não sei quantas serão no fim, não esperem encontrar, queridas e queridos leitores, uma tragédia romântica mórbida de sofrimento e dor. Se era o desejado, parem imediatamente. Shakespeare está ao fundo do terceiro corredor, na segunda prateleira do lado direito. Aqui, encontrarão uma história de amor contada com humor, sem papas na língua, sem disfarces e, o mais importante, sem medo. Uma viagem em que aprendi mais sobre a vida, o amor, o acompanhamento de um paciente moribundo, a morte e sobre mim mesma do que alguma vez imaginei. Espero que desfrutem e que, chegado o caso, vos sirva de ajuda.

Age restriction:
0+
Release date on Litres:
23 October 2024
Volume:
184 p. 24 illustrations
ISBN:
9788491396642
Copyright Holder::
Bookwire
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