Read the book: «Um Reino de Sombras »

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Morgan Rice

Morgan Rice é a best-seller nº1 e a autora do best-selling do USA TODAY da série de fantasia épica O ANEL DO FEITICEIRO, composta por dezassete livros; do best-seller nº1 da série OS DIÁRIOS DO VAMPIRO, composta por onze livros (a continuar); do best-seller nº1 da série TRILOGIA DA SOBREVIVÊNCIA, um thriller pós-apocalíptico composto por dois livros (a continuar); e da nova série de fantasia épica REIS E FEITICEIROS, composta por três livros (a continuar). Os livros de Morgan estão disponíveis em áudio e versões impressas e as traduções estão disponíveis em mais de 25 idiomas.

TRANSFORMADA (Livro n 1 da série Diários de um Vampiro), ARENA UM  (Livro n 1 da série A Trilogia da Sobrevivência) e EM BUSCA DE HERÓIS (Livro n 1 da série O Anel do Feiticeiro) e A ASCENÇÃO DOS DRAGÕES (Reis e Feiticeiros – Livro n 1) estão disponíveis gratuitamente!

Morgan adora ouvir a sua opinião, pelo que, por favor, sinta-se à vontade para visitar www.morganricebooks.com e juntar-se à lista de endereços eletrónicos, receber um livro grátis, receber ofertas, fazer o download da aplicação grátis, obter as últimas notícias exclusivas, ligar-se ao Facebook e ao Twitter e manter-se em contacto!

Aclamações selecionadas para Morgan Rice

"Se pensava que já não havia motivo para viver depois do fim da série O ANEL DO FEITICEIRO, estava enganado. Em A ASCENSÃO DOS DRAGÕES Morgan Rice surgiu com o que promete ser mais uma série brilhante, fazendo-nos imergir numa fantasia de trolls e dragões, de valentia, honra, coragem, magia e fé no seu destino. Morgan conseguiu mais uma vez produzir um conjunto forte de personagens que nos faz torcer por eles em todas as páginas… Recomendado para a biblioteca permanente de todos os leitores que adoram uma fantasia bem escrita."

–-Books and Movie Reviews

Roberto Mattos

"A ASCENSÃO DOS DRAGÕES é um sucesso – logo desde o início… Uma fantasia excecional… Começa, como não podia deixar de ser, com as lutas e movimentações ordenadas de um protagonista num círculo mais amplo de cavaleiros, dragões, magia e monstros e destino… Toda a ornamentação da alta fantasia está aqui, desde os soldados e batalhas a confrontações com o próprio. Uma vencedora recomendada para qualquer um que aprecia a escrita de fantasia épica alimentada por protagonistas jovens adultos poderosos e confiáveis."

–-Midwest Book Review

D. Donovan, eBook Reviewer

"Uma ação carregada de fantasia que irá certamente agradar aos fãs das histórias anteriores de Morgan rice, juntamente com os fãs de trabalhos tais como O CICLO DA HERANÇA de Christopher Paolini…Fãs de ficção para jovens adultos irão devorar este último trabalho de Rice e suplicar por mais."

–-The Wanderer, A Literary Journal (referente a Ascensão dos Dragões)

"Uma fantasia espirituosa que entrelaça elementos de mistério e intriga no seu enredo. EM BUSCA DE HERÓIS tem tudo a ver com a criação da coragem e com a compreensão do propósito da vida e como estas levam ao crescimento, maturidade e excelência… Para os que procuram aventuras de fantasia com sentido, os protagonistas, estratagemas e ações proporcionam um conjunto vigoroso de encontros que se relacionam com a evolução de Thor desde uma criança sonhadora a um jovem adulto que procura a sobrevivência apesar das dificuldades… Apenas o princípio do que promete ser uma série de literatura juvenil épica."

--Midwest Book Review (D. Donovan, eBook Reviewer)

"O ANEL DO FEITICEIRO reúne todos os ingredientes para um sucesso instantâneo: enredos, intrigas, mistério, valentes cavaleiros e relacionamentos repletos de corações partidos, decepções e traições. O livro manterá o leitor entretido por horas e agradará a pessoas de todas as idades. Recomendado para fazer parte da biblioteca permanente de todos os leitores do género de fantasia."

–-Books and Movie Reviews, Roberto Mattos.

"Neste primeiro livro cheio de ação na série de fantasia épica Anel do Feiticeiro (que conta atualmente com 14 livros), Rice introduz os leitores ao Thorgrin de 14 anos "Thor" McLeod, cujo sonho é juntar-se à Legião de Prata, os cavaleiros de elite que servem o rei… A escrita de Rice é sólida e a premissa intrigante."

--Publishers Weekly

Livros de Morgan Rice
REIS E FEITICEIROS
A ASCENSÃO DOS DRAGÕES (Livro nº1)
A ASCENSÃO DOS BRAVOS (Livro nº2)
O PESO DA HONRA (Livro nº3)
UMA FORJA DE VALENTIA (Livro nº4)
UM REINO DE SOMBRAS (Livro nº5)
A NOITE DOS CORAJOSOS (Livro nº6)
O ANEL DO FEITICEIRO
EM BUSCA DE HERÓIS (Livro n 1)
UMA MARCHA DE REIS (Livro n 2)
UM DESTINO DE DRAGÕES (Livro n 3)
UM GRITO DE HONRA (Livro n 4)
UM VOTO DE GLÓRIA (Livro n 5)
UMA CARGA DE VALOR (Livro n 6)
UM RITO DE ESPADAS (Livro n 7)
UM ESCUDO DE ARMAS (Livro n 8)
UM CÉU DE FEITIÇOS (Livro n 9)
UM MAR DE ESCUDOS (Livro n 10)
UM REINADO DE AÇO (Livro n 11)
UMA TERRA DE FOGO (Livro n 12)
UM GOVERNO DE RAINHAS (Livro n 13)
UM JURAMENTO DE IRMÃOS (Livro n 14)
UM SONHO DE MORTAIS (Livro n 15)
UMA JUSTA DE CAVALEIROS (Livro n 16)
O PRESENTE DA BATALHA (Livro n 17)
TRILOGIA DE SOBREVIVÊNCIA
RENA UM: TRAFICANTES DE ESCRAVOS (Livro n 1)
ARENA DOIS (Livro n 2)
MEMÓRIAS DE UM VAMPIRO
TRANSFORMADA (Livro n 1)
AMADA (Livro n 2)
TRAÍDA (Livro n 3)
PREDESTINADA (Livro n 4)
DESEJADA (Livro n 5)
COMPROMETIDA (Livro n 6)
PROMETIDA (Livro n 7)
ENCONTRADA (Livro n 8)
RESSUSCITADA (Livro n 9)
ALMEJADA (Livro n 10)
DESTINADA (Livro n 11)
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Copyright © 2015 por Morgan Rice

Todos os direitos reservados. Exceto conforme permitido pela Lei de Direitos de Autor dos EUA de 1976, nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida, distribuída ou transmitida de qualquer forma ou por qualquer meio, ou armazenada numa base de dados ou sistema de recuperação, sem a autorização prévia da autora.

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Esta é uma obra de ficção.  Nomes, personagens, empresas, organizações, lugares, eventos e incidentes são produto da imaginação do autor ou foram usados de maneira fictícia.  Qualquer semelhança com pessoas reais, vivas ou falecidas, é mera coincidência.

Imagem da capa Copyright Algol, usada com autorização da Shutterstock.com.


 
“A vida é apenas uma sombra que passa, um pobre ator,
Que se pavoneia e agita por uma hora no palco. E depois, não mais é ouvida.”
 
--William Shakespeare, Macbeth


CAPÍTULO UM

O capitão da Guarda Real estava em cima da sua torre de vigia e olhava para baixo para as centenas de Guardiões, todos jovens soldados que patrulhavam as Chamas sob o seu olhar atento. Ele suspirava com ressentimento. Sendo um homem digno dos principais batalhões, sentia que era para si um insulto diário estar ali colocado, nos confins de Escalon, vigiando um grupo rebelde de criminosos que eles gostavam de chamar soldados. Aqueles não eram soldados – eram escravos, criminosos, rapazes, homens velhos, os indesejados da sociedade, todos alistados para vigiar uma parede de chamas que não havia mudado em mil anos. Era simplesmente apenas uma prisão glorificada e ele merecia coisa melhor. Ele merecia estar em qualquer lugar menos ali, posicionado para guardar os portões reais de Andros.

O capitão olhou para baixo, pouco interessado, quando outra escaramuça se seguiu, a terceira daquele dia. Aquela parecia ser entre dois rapazes crescidos, que lutavam por um pedaço de carne. Uma multidão de rapazes a gritar rapidamente se colocou à volta deles, incentivando-os. Só aquilo os conseguia entreter. Estavam todos demasiado aborrecidos, de pé a vigiar as Chamas dia após dia, todos desesperadamente com sede de sangue – e ele deixou-os ter a sua diversão. Se eles se matassem uns aos outros, tanto melhor – seriam menos dois rapazes para ele vigiar.

Ouviu-se um grito quando um dos rapazes levou a melhor o outro, enfiando uma adaga no seu coração. O rapaz ficou flácido enquanto os outros celebravam a sua morte, tendo rapidamente, imediatamente a seguir, pilhado o cadáver por qualquer coisa que pudessem encontrar. Foi, pelo menos, uma morte misericordiosamente rápida, muito melhor do que as lentas que os outros teriam de ali enfrentar. O vencedor deu um passo em frente, empurrou os outros para o lado, baixou-se e tirou o pedaço de pão do bolso do homem morto, guardando-o no seu próprio bolso.

Era apenas mais um dia em Chamas e o capitão ardia indignado. Ele não merecia aquilo. Ele tinha errado, em tempos, desobedecendo a uma ordem direta e como castigo tinha sido mandado para ali. Era injusto. O que ele não daria para ser capaz de voltar atrás e mudar aquele momento no seu passado. A vida, pensou, podia ser demasiado exigente, absoluta e cruel.

O capitão, resignado ao seu destino, virou-se e olhou para as Chamas. Havia algo sobre o seu sempre presente crepitar, mesmo depois de todos aqueles anos, que ele sentia ser sedutor, hipnótico. Era como olhar para o rosto do próprio Deus. Perdendo-se no brilho, pensava sobre a natureza da vida. Tudo parecia tão sem sentido. O seu papel ali – todos os papéis daqueles rapazes ali – pareciam tão sem sentido. As Chamas mantinham-se há milhares de anos e nunca iriam morrer e, enquanto ardessem, a nação de Trolls nunca conseguiria avançar. Marda bem podia estar do outro lado do mar. Se lhe competisse a ele, ele pegaria nos melhores rapazes e colocá-los-ia noutros lugares de Escalon, ao longo da costa, onde eles realmente fizessem falta, colocando todos os criminosos no meio deles até à morte.

O capitão perdeu a noção do tempo, como frequentemente lhe acontecia, perdendo-se no brilho das Chamas. No entanto, ao final do dia, de repente, semicerrou os olhos, em alerta. Ele tinha visto algo, algo que não conseguia entender bem. Esfregou os olhos, pensando que devia estar a ver coisas. No entanto, ao observar, lentamente ele percebeu que não estava a ver coisas. O mundo estava a mudar diante dos seus olhos.

Lentamente, o crepitar sempre presente, para o qual ele acordava todos os dias desde que ali tinha chegado, silenciou-se. O calor que emanava das Chamas desapareceu de repente, fazendo com que sentisse um arrepio, um verdadeiro arrepio, pela primeira vez desde que ali havia chegado. E então, ele viu a brilhante coluna de chamas vermelhas e alaranjadas, a que lhe tinha queimado os olhos, a que tinha iluminado o dia e a noite incessantemente, a desaparecer pela primeira vez.

Tinha desaparecido.

O capitão esfregou os olhos novamente, perguntando-se. Estava a sonhar? Ele viu as chamas a diminuírem até ao chão, como uma cortina a ser deixada cair. E um instante depois, já não havia absolutamente nada lá.

Nada.

A respiração do capitão parou. O pânico e a incredulidade lentamente apoderaram-se dele. Ele deu por si a olhar, pela primeira vez, para o que havia do outro lado: Marda. Ele tinha uma visão clara e desobstruída. Era uma terra preenchida de preto – montanhas pretas e áridas, rochas pretas e escarpadas, terra preta, árvores pretas e mortas. Era uma terra que não era suposto ele alguma vez ver. Uma terra que não era suposto ninguém em Escalon alguma vez ver.

Seguiu-se um silêncio estonteante e os rapazes lá em baixo, pela primeira vez, pararam de lutar entre si. Todos eles, congelados em estado de choque, viraram-se e ficaram boquiabertos. A parede de fogo tinha desaparecido e, lá do outro lado, encarando-os com avidez, estava um exército de trolls, ocupando a terra, ocupando o horizonte.

Uma nação.

O capitão ficou apavorado. Ali, a curta distância, estava uma nação de animais, dos mais repugnantes que já tinha visto, gigantescos, grotescos, deformados, todos empunhando alabardas enormes e todos pacientemente aguardando o seu momento. Milhões deles olhavam também, aparentando estar igualmente atordoados, uma vez que, obviamente, se tinham apercebido que agora não havia nada a separá-los de Escalon.

As duas nações permaneceram ali, encarando-se, olhando uma para a outra. Os trolls estavam radiantes com a vitória e os humanos estavam em pânico. Afinal, estavam ali simplesmente centenas de humanos contra um milhão de trolls.

Quebrando o silêncio, ouviu-se um grito, vindo do lado dos trolls, um grito de triunfo, seguido por um grande trovão, quando estes avançaram para o ataque. Eles ressoavam como uma manada de búfalos, erguendo as suas alabardas e decepando as cabeças dos rapazes atingidos pelo pânico que nem sequer conseguiam ter coragem para correr. Era uma onda de morte, uma onda de destruição.

O próprio capitão ficou na sua torre, demasiado apavorado para fazer alguma coisa, até mesmo para sacar da espada, à medida que os Trolls corriam na sua direção. Logo depois, ele sentiu-se a cair, enquanto a multidão enfurecida derrubava a sua torre. Aterrou nos braços dos trolls, gritando ao ser agarrado pelas garras deles e desfeito em pedaços.

E ali deitado no chão a morrer, sabendo o que ia acontecer a Escalon, um último pensamento atravessou-lhe a mente: o rapaz que fora esfaqueado, que tinha morrido por um bocado de pão, fora o mais afortunado de todos.

CAPÍTULO DOIS

Dierdre sentia os seus pulmões a comprimirem-se ao tropeçar de um lado para o outro, fora de pé, desesperada por ar. Ela tentava orientar-se, mas não conseguia, com as enormes ondas de água a fazê-la andar às voltas e o seu mundo a virar-se de cabeça para baixo uma e outra vez. Mais do que tudo ela queria respirar profundamente. O seu corpo inteiro gritava por oxigênio, mas ela sabia que fazê-lo significaria certamente a sua morte.

Ela fechou os olhos e chorou. As suas lágrimas fundiam-se com a água e ela questionava-se se aquele inferno alguma vez acabaria. O seu único consolo era pensar em Marco. Ela tinha-o visto a cair com ela na água. Tinha-o sentido a segurar a sua mão. E ela virou-se e procurou por ele. No entanto, ao procurar, ela não conseguia ver nada para além da escuridão e das ondas de espuma a rebentar e a atirá-la para baixo. Ela assumiu que Marco estava morto há muito tempo.

Dierdre queria chorar, mas o sofrimento vencia na sua mente qualquer pensamento de autopiedade, fazendo-a pensar apenas na sobrevivência. Quando ela pensava que as ondas não poderiam ficar mais fortes, estas atiravam-na ao chão, uma e outra vez, prendendo-a lá com tanta força que ela sentia como se todo o peso do mundo estivesse em cima dela. Ela sabia que não iria sobreviver.

Que ironia, pensava ela, morrer ali, na sua cidade natal, esmagada sob uma enorme onda criada pelo fogo do canhão dos Pandesianos. Ela preferia morrer de outra maneira qualquer. Ela podia, pensou, lidar com praticamente qualquer forma de morte – exceto com o afogamento. Ela não conseguia aguentar aquele sofrimento horrível, aquele balançar selvagem, sendo incapaz de abrir a boca e respirar o que cada gota do seu corpo tão desesperadamente ansiava.

Ela sentiu-se a ficar mais fraca, cedendo ao sofrimento – e, em seguida, assim que sentiu que os seus olhos estavam a ponto de se fecharem, assim que percebeu que não aguentava nem mais um segundo, viu-se, de repente, às voltas, a rodopiar rapidamente para o topo, com a onda a atirá-la para cima com a mesma força com que a tinha atirado para baixo. Ela elevou-se com o impulso de uma catapulta, apressando-se para a superfície, vendo a luz do sol e sofrendo com a pressão nos ouvidos.

Para sua surpresa, logo depois, ela chegou à superfície. Arfou, inspirando repentinamente, mais grata do que nunca. Engasgou-se, sugando o ar e, logo a seguir, para seu pavor, ela foi novamente sugada de volta para debaixo de água. Desta vez, porém, ela tinha oxigénio suficiente para sobreviver um pouco mais de tempo e, desta vez, a água não a levou tão para baixo.

Ela veio logo novamente para cima, para a superfície, inspirando um pouco mais de ar, antes de ser levada para baixo mais uma vez. Era sempre diferente, com as ondas a enfraquecer. Ao vir novamente à superfície, ela percebeu que a onda estava a chegar à ponta da cidade e a esmorecer.

Dierdre deu por si a passar os limites da cidade, a passar por todos os grandes edifícios que agora estavam debaixo de água. Ela foi levada novamente para debaixo de água, mas de forma lenta o suficiente para ser capaz de finalmente abrir os olhos e ver todos os grandes edifícios por baixo de onde já haviam estado. Ela via dezenas de cadáveres a passarem por ela a flutuar na água, como peixes, corpos cujas expressões sem vida ela tentava já afastar do seu pensamento.

Finalmente, sem Dierdre saber quanto tempo depois, veio à tona, desta vez para sempre. Ela era suficiente forte para lutar com a fraca onda final que a tentava sugar de volta para baixo e, com um último ímpeto, ela ficou à tona. A água do porto tinha entrado bastante por terra adentro e não havia lugar nenhum para onde a água pudesse ir. Logo depois, quando as águas recuaram, voltando apressadamente ao mar, Dierdre ficou sozinha algures num campo coberto de ervas.

Ali de bruços, com o rosto plantado nas ervas encharcadas, Dierdre gemia de dores. Ela ainda estava ofegante, com os pulmões a doerem-lhe, respirando profundamente e saboreando cada respiração. Sem forças, conseguiu virar a cabeça e, olhando por cima do ombro, ficou horrorizada ao ver que, o que tinha sido em tempos uma grande cidade, agora não era mais do que apenas mar. Ela apenas vislumbrou a parte mais alta da torre sineira, que estava um pouco fora de água, estranhando o facto de, em tempos, aquela se erguer no ar centenas de pés.

Completamente exausta, Dierdre finalmente deixou-se ir. O rosto dela caiu no chão enquanto ela permanecia ali deitada, deixando a dor do que havia acontecido apoderar-se dela. Se tentasse mover-se ela não conseguiria.

Momentos depois, ela estava a dormir, quase morta num campo remoto num canto do mundo. Mas fosse como fosse, estava viva.

*

"Dierdre", disse uma voz, acompanhada de um pequeno toque.

Dierdre tentou abrir os olhos, atordoada ao ver que o sol se estava a pôr. Gelada, com a roupa ainda molhada, ela tentou recompor-se, imaginando há quanto tempo estaria ali deitada, questionando-se se estaria viva ou morta. Em seguida, sentiu a mão novamente a tocar-lhe no ombro.

Dierdre olhou para cima e ali, para seu imenso alívio, estava Marco. Ele estava vivo. Ela ficou felicíssima ao vê-lo. Ele parecia espancado, abatido, demasiado pálido. Parecia que tinha envelhecido cem anos. No entanto, ele estava vivo. Fosse como fosse, ele tinha conseguido sobreviver.

Marco ajoelhou-se ao lado dela, sorrindo apesar de os seus olhos estarem tristes, olhos que não brilhavam com vida como antes.

"Marco", ela respondeu fracamente, espantada com a sua própria voz rouca.

Ela reparou que ele tinha um corte de lado no rosto e, preocupada, esticou a mão para lhe tocar.

"Pareces tão mal quanto eu me sinto", disse ela.

Ele ajudou-a a levantar-se e ela ficou de pé. O seu corpo estava em sofrimento de todas as dores e contusões, arranhões e cortes, acima e abaixo nos seus braços e pernas. No entanto, ao verificar cada membro, ela viu que não tinha partido nada.

Dierdre respirou fundo e preparou-se ao virar-se e olhar para trás. Como ela temia, era um pesadelo: a sua amada cidade tinha-se ido, agora nada mais do que uma parte do mar, sendo que a única coisa que se via era uma pequena parte da torre do sino. No horizonte, para além da torre, ela viu uma frota de negros navios Pandesianos, aproximando-se cada vez mais de terra.

"Não podemos ficar aqui", disse Marco apressadamente. "Eles estão a aproximar-se."

"Para onde é que podemos ir?", perguntou ela, sentindo-se desesperada.

Marco ficou a olhar para ela, em branco, claramente também sem saber.

Dierdre olhou para o pôr-do-sol, tentando pensar, sentido o sangue a pulsar-lhe nos ouvidos. Todas as pessoas que conhecia e amava estavam mortas. Ela sentia que já nada a prendia à vida, que não tinha nenhum lugar para onde ir. Para onde é que ela podia ir se a sua cidade natal tinha sido destruída? Para onde é que ela podia ir quando o peso do mundo lhe caía em cima dos ombros?

Dierdre fechou os olhos e abanou a cabeça em desgosto, desejando que tudo desaparecesse. Ela sabia que o seu pai estava lá, morto. Os seus soldados estavam todos mortos. As pessoas que ela tinha conhecido e amado durante toda a vida, estavam todas mortas, tudo graças a esses monstros Pandesianos. Agora não havia mais ninguém para detê-los. Que causa é que a podia fazer continuar em frente?

Dierdre, para seu pesar, desatou a chorar. A pensar no seu pai, ela caiu de joelhos, sentindo-se devastada. Chorou copiosamente, querendo morrer ali sozinha, desejando que ela tivesse morrido, amaldiçoando os céus por permitirem que ela vivesse. Porque é que ela simplesmente não se afogou naquela onda? Porque é que não podia simplesmente ter morrido juntamente com os outros? Porque é que a vida a tinha amaldiçoado?

Ela sentiu uma mão reconfortante no ombro.

"Está tudo bem, Dierdre", disse Marco suavemente.

Dierdre encolheu-se, envergonhada.

"Desculpa", finalmente disse, a chorar. "É só que… o meu pai … Agora eu não tenho nada."

"Tu perdeste tudo", disse Marco, numa voz pesarosa também. "Eu também. Eu também não quero prosseguir. Mas nós temos de o fazer. Não podemos ficar aqui e morrer. Seria desonrá-los. Seria desonrar tudo pelo qual eles viveram e lutaram."

No longo silêncio que se seguiu, Dierdre endireitou-se lentamente, percebendo que ele estava certo. Além disso, ao olhar para os olhos castanhos de Marco, que olhavam para ela com compaixão, ela percebeu que efetivamente tinha alguém. Ela tinha Marco. Ela também tinha o espírito do seu pai, a olhar para baixo, a olhar por ela, desejando que ela fosse forte.

Ela forçou-se a afastar aqueles pensamentos. Ela tinha de ser forte. O seu pai quereria que ela fosse forte. Ela percebeu que a autocomiseração, não ajudaria ninguém. E nem a sua morte.

Ela olhou para Marco podendo ver mais do que compaixão – ela também podia ver o amor por ela nos seus olhos.

Sem sequer estar plenamente consciente do que estava a fazer, Dierdre, com o coração a bater com força, inclinou-se e beijou-o inesperadamente nos lábios. Por um momento, ela sentiu-se transportada para um outro mundo e todas as suas preocupações desapareceram.

Lentamente chegou-se para trás, olhando para ele, surpreendida. Marco parecia igualmente surpreso. Ele agarrou-lhe a mão.

Incentivada e cheia de esperança, ela foi capaz de pensar com clareza de novo – e teve uma ideia. Havia mais alguém, havia mais um lugar, havia mais uma pessoa a quem recorrer.

Kyra.

Dierdre sentiu uma súbita onda de esperança.

"Eu sei onde devemos ir", disse emocionada e apressadamente.

Marco olhou para ela, questionando-se.

"Kyra", disse ela. "Nós conseguimos encontrá-la. Ela vai ajudar-nos. Onde quer que ela esteja, ela está a lutar. Nós podemos juntar-nos a ela."

"Mas como é que sabes que ela está viva?", perguntou.

Dierdre abanou a cabeça.

"Não sei", respondeu. "Mas Kyra sobrevive sempre. Ela é a pessoa mais forte que eu já conheci."

"Onde é que ela está?", perguntou.

Dierdre pensou e lembrou-se da última vez que tinha visto Kyra, a bifurcar para norte, para a Torre.

"A Torre de Ur", disse ela.

Marco olhava para ela, surpreso; em seguida, um lampejo de otimismo atravessou-se nos seus olhos.

"Os Sentinelas estão lá. Assim como estão outros guerreiros. Homens que podem lutar connosco", concordou ele abanando a cabeça, animado. "Uma boa escolha", acrescentou. "Nós podemos ficar seguros naquela torre. E se a tua amiga lá estiver, então melhor ainda. É a um dia de distância daqui a caminhar. Vamos. Temos de ser rápidos."

Ele agarrou na mão dela e, sem mais palavras, partiram. Dierdre estava otimista. Dirigiram-se ambos para a floresta e, algures no horizonte, para a Torre de Ur

CAPÍTULO TRÊS

Kyra preparava-se enquanto caminhava para um campo de fogo. As chamas subiam até ao céu e, depois, baixavam com a mesma rapidez, passando por todas as cores, acariciando-a enquanto ela caminhava balançando os braços. Ela sentia a intensidade das chamas, sentia que a envolviam, embrulhando-a num abraço ligeiro. Ela sabia que estava a caminhar para a morte e, no entanto, ela não conseguia ir para nenhum outro lado.

E ainda assim, de alguma forma, incrivelmente, ela não sentia dor. Ela tinha uma sensação de paz. Uma sensação de que a sua vida estava a terminar.

Ela olhou através das chamas e viu a sua mãe, que a esperava algures na outra extremidade, no lado oposto do campo. Ela teve uma sensação de paz ao saber, finalmente, que estaria nos braços dela.

Eu estou aqui, Kyra, chamou ela. Vem até mim.

Kyra espreitou pelas chamas apenas conseguindo distinguir o rosto da sua mãe, quase translúcida, ficando parcialmente escondida quando uma parede de fogo disparou. Ela caminhou mais para dentro das chamas crepitantes, incapaz de parar, até ficar cercada por todos os lados.

Um rugido cortou o ar, mesmo acima do som do fogo. Ela olhou para cima e ficou em êxtase ao ver um céu cheio de dragões. Eles circulavam e guinchavam e, enquanto ela observava, um enorme dragão rugiu e mergulhou na sua direção.

Kyra sentiu que era a morte que a vinha buscar.

Quando o dragão se aproximou, estendeu as suas garras e, de repente, o chão saiu debaixo dela. Kyra deu por ela a cair, sendo arremessada para terra, uma terra cheia de chamas, um lugar do qual ela sabia que nunca iria escapar.

Kyra abriu os olhos num sobressalto, respirando com dificuldade. Olhou ao redor, perguntando-se onde estaria, sentindo dor em todos os cantos do seu corpo. Doía-lhe a cara. Tinha a maçã do rosto inchada, latejante e, quando ela lentamente levantou a cabeça, com dificuldade para respirar, descobriu que o seu rosto estava envolto em lama. Ela percebeu que estava deitada com a cara na lama. Colocou lá as mãos lentamente fazendo força para cima e, depois, limpou a lama do rosto, perguntando-se o que estava a acontecer.

Um súbito rugido rasgou o ar. Kyra olhou para cima e ficou aterrorizada ao ver algo no céu que era muito real. O ar estava cheio de dragões de todas as formas, tamanhos e cores, todos a circular, a guinchar, a cuspir fogo para o ar, furiosos. Enquanto ela observava, um desceu e soprou uma coluna de chamas na direção do chão.

Kyra deu uma vista de olhos e assimilou os arredores, ficando surpreendida ao perceber onde estava: Andros.

Veio-lhe tudo à memória. Ela estava a voar em cima de Theon, a correr de volta para Andros para salvar o seu pai, quando foi atacada no céu por aquele bando de dragões. Eles tinham aparecido do nada, tinham mordido Theon e tinham-os atirado ao chão. Kyra apercebeu-se de que deveria ter desmaiado.

Agora, ela tinha acordado com uma sensação de calor, de gritos horríveis, de uma capital em caos e, ao olhar em volta, viu a capital em chamas. Por todos os lados, as pessoas estavam a correr pelas suas vidas, a gritar, enquanto o fogo descia em ondas, como uma tempestade. Parecia que o fim do mundo havia chegado.

Kyra respirava com dificuldade e ficou devastada ao ver Theon deitado ali perto, de lado, ferido, com o sangue a escorrer-lhe das escamas. Os seus olhos estavam fechados, com a língua pendurada de lado e ele parecia à beira da morte. Ela percebeu que a única razão pela qual ela e Theon ainda estavam vivos devia ser porque estavam cobertos por um monte de entulho. Eles deviam ter sido atirados para um edifício que desmoronou em cima deles. Pelo menos aquilo tinha-os mantido abrigados, fora de vista dos dragões lá em acima.

Kyra sabia que tinha de arranjar forma de ela e Theon saírem dali de uma vez por todas. Eles não tinham muito tempo até serem descobertos.

"Theon!", ela insistiu.

Ela virou-se e elevou-se, esmagada pelos escombros, conseguindo, finalmente, empurrar um enorme pedaço de escombros das suas costas, libertando-se. Ela então correu para Theon e freneticamente empurrou o monte de entulho de cima dele. Ela foi capaz de empurrar a maioria das rochas, mas não conseguiu empurrar de cima das costas dele a grande pedra que o prendia ao chão. Ela empurrou uma e outra vez, mas independentemente do quanto tentasse, a pedra não se mexia.

Kyra correu e agarrou o rosto de Theon, desesperada por despertá-lo. Ela acariciou as suas escamas, e, lentamente, para seu alívio, Theon abriu os olhos. No entanto, ele fechou os olhos novamente e ela sacudiu-o com mais força.

"Acorda!", exigiu Kyra. "Eu preciso de ti!"

Os olhos de Theon abriram-se novamente, ligeiramente. Em seguida, virou-se e olhou para ela. A dor e a fúria nos seus olhos suavizaram enquanto ele a reconheceu. Ele tentou mexer-se, para se levantar, mas era evidente que estava muito fraco; a pedra prendia-o ao chão.

Kyra empurrou a pedra furiosamente, mas desatou a chorar ao perceber que não conseguia fazê-la mover. Theon estava preso. Ele morreria aqui. E ela também.

Kyra, ouvindo um rugido, olhou para cima e viu que um enorme dragão, com escamas verdes perfurantes, os tinha visto. Ele gritou com fúria e, de seguida, começou a descer a pique na direção deles.

Deixa-me.

Kyra ouviu uma voz reverberando profundamente dentro dela. A voz de Theon.

Esconde-te. Vai para longe daqui. Enquanto ainda há tempo.

"Não!", gritou ela, tremendo, recusando-se a deixá-lo.

Vai, insistiu ele. Senão vamos morrer aqui os dois.

"Então vamos ambos morrer!", gritou ela, com uma determinação de aço a apoderar-se dela. Ela não iria abandonar o seu amigo. Nunca.

O céu escureceu e Kyra olhou para cima e viu o enorme dragão a descer a pique, com as garras estendidas. Ele abriu a boca, com filas de dentes afiados à vista. Ela sabia que não ia sobreviver. Mas ela não se importava. Ela não abandonaria Theon. A morte ia levá-la. Mas a cobardia não. Ela não tinha medo de morrer.

Apenas de não viver bem.

CAPÍTULO QUATRO

Duncan corria juntamente com os outros pelas ruas de Andros, mancando, dando o seu melhor para conseguir acompanhar o ritmo de Aidan, de Motley e da jovem que estava com eles, Cassandra, enquanto o cão de Aidan, Branco, lhe mordiscava os calcanhares e instava-o a continuar. A arrastar o seu braço estava o seu velho e confiável comandante, Anvin e, ao seu lado, o seu novo escudeiro Septin, dando o seu melhor para mantê-lo em movimento, ainda claramente em má forma ele próprio. Duncan podia ver o quão ferido estava o seu amigo e comovia-o ver que ele tinha ido naquele estado, arriscando a sua vida e viajado por todo aquele caminho para libertá-lo.

O variado grupo corria pelas ruas de Andros devastadas pela guerra, com o caos em erupção ao redor deles e com todas as probabilidades de sobrevivência contra eles. Por um lado, Duncan sentia-se muito aliviado por estar livre, muito feliz por ver o seu filho novamente, muito grato por estar com todos eles. No entanto, ao olhar para o céu, ele também sentia que tinha deixado uma cela para ser atirado para uma morte certa. O céu estava cheio de dragões a circular, a descer, que passavam por edifícios, destruindo a cidade ao expelirem as suas terríveis colunas de chamas. Ruas inteiras estavam repletas de fogo, bloqueando o grupo a cada esquina. As ruas, ao ficarem destruídas uma de cada vez, tornavam a fuga da capital cada vez menos provável.

Evidentemente, Motley conhecia bem aquelas ruelas e liderou-os habilmente, virando numa ruela após a outra, encontrando atalhos em todos os lugares, conseguindo evitar os grupos itinerantes de soldados Pandesianos, que eram a outra ameaça à fuga deles. No entanto, Motley, por muito astuto que fosse, não podia evitar os dragões e, ao virarem noutra ruela, esta ficou de repente, também, em chamas. Todos pararam nos seus trilhos, com as caras a arder do calor. E retiraram-se.

Duncan, coberto de suor ao recuar, olhou para Motley, não obtendo consolo porque, desta vez, Motley virava-se para todos os lados com a sua cara esculpida em pânico.

"Por aqui!", disse finalmente Motley.

Ele virou-se e levou-os por outra ruela. Eles agacharam-se por baixo de um arco de pedra, mesmo antes de um dragão ter enchido o local onde eles estavam com uma nova onda de fogo.

Ao correr, Duncan sofria por ver aquela grande cidade dilacerada, aquele lugar que ele tinha em tempos amado e defendido. Ele não conseguia evitar sentir que Escalon nunca iria ser devolvido à sua antiga glória. Que a sua terra natal estava destruída para sempre.

Ouviu-se um grito e Duncan olhou para trás e viu que dezenas de soldados Pandesianos os tinham visto. Eles estavam a persegui-los pelas ruelas fora, aproximando-se. Duncan sabia que não podia lutar contra eles e que não podia correr mais que eles. A saída da cidade ainda estava longe e o tempo deles tinha-se esgotado.

De repente ouviu-se um grande estrondo – e Duncan olhou para cima e viu um dragão a roubar a torre do sino do castelo com as suas garras.

"Cuidado!", gritou ele.

Ele saltou para a frente e atirou Aidan e os outros para fora do caminho imediatamente antes dos restos da torre caírem ao lado deles. Um grande pedaço de pedra aterrou atrás dele com um estrondo ensurdecedor, levantando um monte de pó.

Aidan olhou para o seu pai, em choque e gratidão. Duncan sentiu-se satisfeito por ter, ao menos, salvado a vida do seu filho.

Duncan ouviu os gritos abafados e virou-se apercebendo-se com gratidão que os escombros tinham, pelo menos, bloqueado o caminho dos soldados que os perseguiam.

Eles continuaram a correr. Duncan lutava para continuar, com a sua fraqueza e ferimentos, decorrentes do seu aprisionamento, a atormentá-lo; ele ainda estava subnutrido, ferido e mal tratado e cada passo era um esforço doloroso. No entanto, ele obrigou-se a continuar, se não por outra razão, para garantir que o seu filho e os seus amigos sobreviveriam. Ele não podia dececioná-los.

Eles viraram numa esquina apertada e chegaram a uma bifurcação. Fizeram uma pausa, todos a olhar para Motley.

"Temos de sair desta cidade!", gritou Cassandra para Motley, claramente frustrada. "E tu nem sequer sabes para onde estás a ir!"

Motley olhou para a esquerda, depois para a direita, claramente perplexo.

"Costumava haver um bordel nesta ruela que vai dar à parte de trás da cidade", disse ele, olhando para a direita."

"Um bordel?", replicou Cassandra. "Andas em boas companhias."

"Eu não me importo com as tuas companhias", Anvin acrescentou, "desde que nos tires daqui."

"Vamos esperar que não esteja bloqueado", acrescentou Aidan.

"Vamos!", gritou Duncan.

Motley começou a correr novamente, virando à direita, fora de forma e ofegante.

Eles viraram também e seguiram-no, todos esperançados em Motley enquanto ele corria pelas vielas desertas da capital.

Eles viraram uma e outra vez e, finalmente, depararam-se com uma arcada baixa de pedra. Todos se agacharam ao passarem por ela e, ao emergirem do outro lado, Duncan ficou aliviado ao encontrá-la aberta. Ele ficou emocionado ao ver, ao longe, o portão traseiro de Andros e, para lá daquele, as planícies e o deserto. Um pouco além do portão estavam dezenas de cavalos Pandesianos, amarrados, claramente abandonados pelos seus cavaleiros mortos.

Motley sorriu.

"Eu disse-te", disse ele.

Duncan correu com os outros, ganhando velocidade, sentindo-se de volta a si próprio, sentindo uma nova onda de esperança – quando, de repente, ouviu um lamurio que perfurou a sua alma.

Ele parou, escutando.

"Esperem!", gritou ele para os outros.

Todos pararam e olharam para ele como se fosse louco.

Duncan ficou ali, à espera. Poderia ser? Ele podia jurar que tinha ouvido a voz da sua filha. Kyra. Estaria ele a ouvir coisas?

Claro, ele deve ter imaginado. Como é que ela poderia estar aqui, em Andros? Ela estava muito longe daqui, do outro lado de Escalon, na Torre de Ur, sã e salva.

No entanto, ele não saiu dali depois de ouvi-lo.

Ele ficou ali, congelado, à espera – e, depois, ouviu-o novamente. Ele ficou todo arrepiado. Desta vez ele tinha a certeza. Era Kyra.

"Kyra!", disse ele em voz alta, arregalando os olhos.

Sem pensar, ele virou-lhes as costas, virou as costas para a saída e correu de volta para a cidade em chamas.

"Onde vais!?", gritou Motley atrás dele.

"Kyra está aqui!", disse ele, ainda a correr. "E está em perigo!"

"Estás louco?", disse Motley, apressando-se e agarrando-lhe o ombro. "Estás a correr para uma morte certa!"

Mas Duncan, determinado, empurrou a mão de Motley e continuou a correr.

"Uma morte certa", respondeu ele, "seria virar as costas à filha que eu amo."

Duncan não se deteve e virou sozinho numa ruela, correndo de volta para a morte, numa cidade em chamas. Ele sabia que isso significaria a sua morte. E não se importava. Desde que pudesse ver Kyra novamente.

Kyra, ele pensou. Espera por mim.

CAPÍTULO CINCO

O Santíssimo e Supremo Ra sentou-se no seu trono de ouro na capital, no seio de Andros, olhando para baixo para a câmara repleta com os seus generais, escravos e suplicantes, esfregando as palmas das mãos nos braços do trono, ardendo de insatisfação. Ele sabia que devia sentir-se vitorioso, saciado, depois de tudo o que tinha conseguido. Afinal, Escalon tinha sido o último bastião da liberdade no mundo, o último lugar no seu império não completamente sob sua subjugação e, nos últimos dias, ele tinha conseguido derrotar as forças de Andros, numa das suas grandes derrotas de todos os tempos. Ele fechou os olhos e sorriu, saboreando a imagem ao correr pelo Portão do Sul, sem entraves, ao arrasar todas as cidades a sul de Escalon, ao abrir caminho para norte, para a capital. Ele sorria ironicamente ao pensar que aquele país, em tempos tão abundante, era agora uma enorme sepultura.

Ele sabia que, a norte, Escalon não se tinha saído melhor. A sua armada tinha conseguido inundar a grande cidade de Ur, agora não mais do que uma memória. Na costa leste, a sua armada tinha ocupado o Mar de Lágrimas e destruído todas as cidades portuárias ao longo da costa, começando com Esephus. Dificilmente qualquer pedaço de Escalon ficava fora do seu alcance.

Acima de tudo, o comandante desafiador de Escalon, o agitador que tinha começado tudo aquilo, Duncan, estava numa masmorra enquanto prisioneiro de Ra. Na verdade, Ra olhava para fora e via o nascer do sol através da janela, estando louco de entusiasmo com a ideia de levar pessoalmente Duncan até à forca. Ele, pessoalmente, puxaria a corda e vê-lo-ia morrer. Sorria só de pensar. Hoje seria um dia bonito.

A vitória de Ra estava completa em todas as frentes – e mesmo assim, ele não se sentia saciado. Ra ali sentado em introspeção, tentava entender aquela sensação de insatisfação. Ele tinha tudo o que queria. O que é que o estava a incomodar?

Ra nunca se tinha sentido saciado, em nenhuma das suas campanhas, em toda a sua vida. Havia sempre algo que ardia dentro dele, um desejo por mais e mais. Mesmo agora, ele sentia isso. Que mais poderia ele fazer para satisfazer os seus desejos? Ele questionava-se. Para sentir que a sua vitória estava realmente completa?

Lentamente, teve um plano. Ele podia matar qualquer homem, mulher e criança que restassem em Escalon. Ele podia estuprar as mulheres e torturar os homens primeiro. Ele sorriu largamente. Sim, isso ajudaria. Na verdade, ele podia começar imediatamente.

Ra olhou para baixo para os seus conselheiros, centenas dos seus melhores homens, todos ajoelhados diante dele, de cabeças baixas, nenhum a ousar estabelecer contacto visual. Todos olhavam para o chão sem fazer barulho, como deviam. Afinal, eles tinham a sorte de estar na presença de um deus como ele.

Ra pigarreou.

"Tragam-me as dez mulheres mais bonitas que restam em Escalon imediatamente", ordenou, numa voz profunda que ressoava pela câmara.

Um dos seus servos abaixou a cabeça até tocar o chão de mármore.

"Sim, meu senhor!", disse ele, virando-se e saindo a correr.

No entanto, quando o servo chegou à porta esta abriu-se antes e um outro servo irrompeu na câmara, frenético, correndo diretamente em direção ao trono de Ra. Todos os outros na sala ficaram em sobressalto, horrorizados com a afronta. Nunca ninguém se atreveu a entrar numa sala, muito menos para abordar Ra, sem um convite formal. Fazer aquilo significava uma morte certa.

O servo lançou-se de cara ao chão. Ra olhou para baixo indignado.

"Matem-no", ordenou.

Imediatamente, vários dos seus soldados aproximaram-se a correr e agarraram o homem. Eles arrastaram-no para longe, em agitação e, enquanto isso, ele gritou: "Espere, meu grandioso Senhor! Eu vim trazer-lhe notícias urgentes – notícias que deve ouvir imediatamente!"

Ra deixou o homem ser arrastado para longe, não se importando com as notícias. O homem agitou-se durante todo o caminho, até que, finalmente, ao chegar à saída, com a porta prestes a fechar-se, ele gritou:

"Duncan fugiu!"

Ra, sentindo uma onda de choque, de repente, levantou a palma da mão direita. Os seus homens pararam, segurando o mensageiro à porta.

Carrancudo, Ra processou lentamente a notícia. Levantou-se e respirou fundo. Desceu os degraus de marfim, um de cada vez, com as botas douradas a ecoar, enquanto atravessava toda a câmara. A sala estava em silêncio, em tensão, quando ele finalmente parou bem diante do mensageiro. A cada passo que dava, Ra podia sentir a fúria a crescer dentro dele.

"Diz-me de novo", Ra ordenou, numa voz escura e sinistra.

O mensageiro tremeu.

"Lamento muito, meu Grande e Santíssimo Senhor Supremo", disse ele com uma voz trêmula, "mas Duncan fugiu. Alguém o ajudou a fugir das masmorras. Os nossos homens estão a persegui-lo pela capital enquanto estamos a falar!"

Ra sentiu o seu rosto a ruborizar-se, sentiu o fogo a queimá-lo por dentro. Ele cerrou os punhos. Não o iria permitir. Ele não se permitiria ser roubado do seu último pedaço de satisfação.

"Obrigado por me trazeres esta notícia", disse Ra.

Ra sorriu e, por um momento, o mensageiro pareceu relaxado, até começou a sorrir-lhe, enchendo-se de orgulho.

Ra recompensou-o efetivamente. Aproximou-se e, lentamente, colocou as mãos à volta do pescoço do homem e, em seguida, apertou e apertou. Os olhos do homem tornaram-se protuberantes na sua cabeça e ele agarrou os pulsos de Ra – mas foi incapaz de retirá-los. Ra sabia que ele não seria capaz de o fazer. Afinal, ele era apenas um homem e Ra era o Supremo e Santíssimo Ra, o Homem Que Foi Em Tempos um Deus.

O homem caiu no chão, morto. Ainda assim, dando a Ra pouca satisfação.

"Homens!", Ra trovejou.

Os seus comandantes ficaram alerta, olhando para ele com medo.

"Bloqueiem todas as saídas da cidade! Enviem todos os soldados que temos de forma a encontrar este Duncan. E enquanto estiveram a fazê-lo, matem até ao último homem, mulher e criança dentro da cidade de Escalon. AVANCEM!"

"Sim, Senhor Supremo!", responderam os homens, a uma só voz.

Todos eles saíram a correr da sala, tropeçando uns sobre os outros, cada um a correr para cumprir mais rapidamente do que os outros as ordens do seu mestre.

Ra virou-se a ferver e a respirar fundo e atravessou sozinho a câmara agora vazia. Ele saiu para uma ampla varanda com vista para a cidade.

Ra saiu lá para fora e sentiu o ar fresco enquanto inspecionava a caótica cidade lá em baixo. Ele ficou contente ao ver que os seus soldados ocupavam a maior parte dela. Questionava-se onde é que Duncan podia estar. Ele admirava-o, tinha de admiti-lo; talvez ele até visse algo de si próprio nele. Ainda assim, Duncan iria aprender o que significava atravessar-se no caminho do Grande Ra. Ele iria aprender a aceitar a morte graciosamente. Ele iria aprender a submeter-se, como o resto do mundo.

Começaram-se a ouvir gritos e Ra olhou para baixo e viu os seus homens a levantar as espadas e lanças e a esfaquear pelas costas homens, mulheres e crianças inocentes. Sob as suas ordens, começou a correr sangue pelas ruas. Ra suspirou, contentando-se e obtendo alguma satisfação com aquilo. Todos aqueles Escalonites iriam aprender. Era o mesmo onde quer que ele fosse, em todos os países que ele tinha conquistado. Eles pagariam pelos pecados do seu comandante.

Porém, um ruído súbito cortou o ar, ouvindo-se mesmo por cima dos gritos, tirando de forma sobressaltada Ra do seu devaneio. Ele não conseguia entender o que era ou porque é que o perturbava tanto. Era um burburinho baixo e profundo, parecido como um trovão.

Ao questionar-se se o tinha realmente ouvido, ouviu-o de novo, mais alto, percebendo que não estava a vir do chão – mas do céu.

Ra olhou para cima, perplexo, espreitando pelas nuvens, perguntando-se. O som ouviu-se uma e outra vez. Ele sabia que não era um trovão. Era algo muito mais ameaçador.

Ao examinar as nuvens cinzentas a deslizar, Ra, de repente, viu algo que nunca iria esquecer. Ele pestanejou, certo de que estava a imaginar. Mas independentemente do número de vezes que ele desviava o olhar, eles ainda lá estavam.

Dragões. Um bando inteiro.

Eles desceram para Escalon, com as garras estendidas, as asas levantadas, expelindo chamas de fogo. E voavam diretamente para ele.

Mesmo antes de ele conseguir processar o que estava a acontecer, centenas dos seus soldados lá em baixo eram incendiados pela respiração dos dragões, gritando, capturados pelas colunas de fogo. Mais centenas gemiam enquanto os dragões os despedaçavam.

Permanecendo ali, entorpecido em pânico, com descrença, um enorme dragão escolheu-o. Ele apontou para a sua varanda, levantou as suas garras e desceu a pique.

Um momento depois, ele cortou a pedra ao meio, não lhe acertando porque ele se agachou. Ra, em pânico, sentiu a pedra a dar de si sob os seus pés.

De seguida, ele sentiu-se a cair, agitando-se, gritando em agonia, para o chão lá em baixo. Ele tinha pensado que era intocável, melhor do que todos eles.

Mas a morte, afinal de contas, tinha-o encontrado.

CAPÍTULO SEIS

Kyle balançou o seu bastão com toda a sua força, cambaleando de exaustão ao atingir quer os soldados Pandesianos quer os trolls que se aproximavam dele por todos os lados. Ele derrubava homens e trolls à esquerda e à direita. As espadas e alabardas deles ecoavam ao baterem no bastão de Kyle, com faíscas a voar por toda parte. Mesmo ao derrotá-los, doíam-lhe os ombros. Ele estava a lutar contra eles há horas, estando agora cercado por todos os lados. Ele sabia que a sua situação era terrível.

Ao princípio, os Pandesianos e os trolls lutavam entre si, deixando-o livre para lutar com quem ele desejava, mas quando viram Kyle a derrubar todos ao seu redor, obviamente perceberam que era do seu melhor interesse juntarem-se contra ele. Por um momento os Pandesianos e os trolls pararam de se tentarem matar uns aos outros e, em vez disso, focaram-se antes em matá-lo.

Ao balançar e atirar para trás três trolls, um Pandesiano conseguiu esgueirar-se por trás de Kyle e golpear-lhe o estômago com a sua espada. Kyle gritou e cambaleou de dor, rodopiando para evitar o pior, ainda que estivesse a sangrar. Simultaneamente e antes de se conseguir esquivar, um troll ergueu um taco e bateu-lhe no ombro, atirando Kyle ao chão e fazendo-lhe cair o bastão da sua mão.

Kyle ficou ali ajoelhado, sentindo uma dor pelo ombro acima e abaixo, a latejar, enquanto tentava recuperar o fôlego. Antes de se conseguir recuperar, aproximou-se a correr mais um Troll, pontapeando-o no rosto, atirando-o de costas para o chão.

Um Pandesiano então avançou com uma longa lança, ergueu-a alto com ambas as mãos e baixou-a na direção da cabeça de Kyle.

Kyle, não estando pronto para morrer, desviou-se rodopiando e a lança espetou-se no chão mesmo ao pé da sua cara. Ele continuou a rebolar, pôs-se de pé e, ao ser atacado por mais dois trolls, agarrou uma espada do chão, girou e esfaqueou-os.

Outros tantos se aproximaram e Kyle rapidamente agarrou no seu bastão e atirou-os a todos ao chão, lutando como um animal encurralado e formando um círculo à sua volta. Ele ficou ali, a respirar pesadamente, com o sangue a escorrer-lhe dos lábios, enquanto os seus opositores formavam um denso círculo em torno dele, todos a aproximarem-se, com sangue nos olhos.

As dores no estômago e no ombro eram insuportáveis. Kyle tentava ignorá-las, tentava focar-se enquanto ali estava. Ele sabia que enfrentava uma morte iminente e consolava-se apenas por ter resgatado Kyra. Isso tinha feito com que tudo valesse a pena e ele estava disposto a pagar o preço.

Ele olhou para o horizonte e consolou-se por ela ter ficado longe daquilo tudo, por se ter ido embora nas costas de Andor. Ele questionava-se se ela estaria segura, rezando para que sim.

Kyle tinha lutado de forma brilhante, durante horas, um homem contra ambos os exércitos, matando milhares deles. No entanto, ele sabia que agora estava demasiado fraco para continuar. Eles eram demasiados e nunca pareciam terminar. Ele viu-se no meio de uma guerra, com os trolls a inundar a terra vindos do norte, enquanto os Pandesianos apareciam do Sul. Ele já não conseguia lutar contra ambos.

Kyle sentiu uma dor súbita nas suas costelas quando um troll investiu contra ele por trás e espetou-lhe nas costas o eixo do seu machado. Kyle virou-se com o seu bastão, decepando o troll na garganta, mandando-o ao chão – mas simultaneamente dois soldados Pandesianos aproximaram-se a correr e esmagaram-no com o seu escudo. Com uma dor de cabeça avassaladora, Kyle caiu para o chão e, desta vez, ele sabia, de vez. Ele estava demasiado fraco para se levantar novamente.

Kyle fechou os olhos e na sua mente passaram imagens da sua vida. Ele viu todos os Sentinelas, pessoas com que ele tinha servido durante séculos, viu todas as pessoas que ele tinha conhecido e amado. Acima de tudo, ele viu o rosto de Kyra. A única coisa que lamentava era que não a veria novamente antes de morrer.

Kyle olhou para cima quando três trolls hediondos se aproximaram, erguendo as suas alabardas. Ele sabia que tinha chegado o momento.

Ao baixarem-nas tudo ficou mais claro. Ele foi capaz de ouvir o som do vento; sentir realmente o cheiro do ar fresco e puro. Pela primeira vez em séculos, ele sentia-se verdadeiramente vivo. Ele questionou-se porque é que nunca tinha sido capaz de realmente apreciar a vida até estar quase morto.

De repente, enquanto Kyle fechava os olhos e se preparava para o abraço da morte, um rugido perfurou o céu, acordando-o do devaneio. Ele pestanejou e olhou para cima, vendo algo a surgir através das nuvens. Ao início pensou serem anjos que vinham para levar o seu corpo.

Mas depois ele viu que os trolls que estavam por cima dele estavam eles próprios congelados e confusos, todos à procura no céu – e Kyle sabia que era real. Era outra coisa.

E então, ao vislumbrar o que era o seu coração parou.

Dragões.

Um bando de dragões circulava, descendo a pique em fúria, expelindo fogo. Eles desciam rapidamente, com as garras estendidas, soltando a sua chama e, sem aviso, mataram centenas de soldados e trolls de uma vez. Uma onda de fogo desceu, espalhando-se e, em poucos segundos, os trolls que estavam sobre Kyle ficaram todos queimados. Kyle, ao ver as chamas a aproximarem-se, agarrou num enorme escudo de cobre ao lado dele e abrigou-se atrás dele, enrolando-se como uma bola. O calor era intenso quando as chamas lá tocavam, quase a queimar-lhe as mãos, mas ele manteve-se firme. Os trolls e os soldados mortos caíram em cima dele, com a sua armadura a protegê-lo ao vir mais uma onda de chamas, esta mais poderosa. Ironicamente, aqueles trolls e Pandesianos estavam agora a salvá-lo da morte.

Ele manteve-se firme, suando, mal capaz de suportar o calor enquanto os dragões mergulhavam a pique uma e outra vez. Incapaz de aguentar por mais tempo, ele desmaiou, rezando para que não fosse queimado vivo.

CAPÍTULO SETE

Vesúvio estava à beira do precipício, ao lado da Torre de Kos, olhando para as ondas do Mar do Arrependimento a rebentar, com o vapor a continuar a subir do local a partir do qual a Espada de Fogo se tinha afundado – e ele sorriu ironicamente. Ele tinha conseguido. A Espada de Fogo já não existia. Ele tinha roubado a Torre de Kos, tinha roubado Escalon do seu mais precioso artefacto. Ele tinha, de uma vez por todas, baixado as Chamas.

Vesúvio irradiava alegria, vertiginoso com a excitação. A sua mão da palma ainda latejava no sítio onde ele tinha agarrado a ardente Espada de Chamas e, ao olhar para baixo, ele viu nele a marca da insígnia. Ele passou o dedo ao longo das suas cicatrizes recentes, sabendo que iriam ficar lá para sempre, um sinal do seu sucesso. A dor era ofuscante, mas ele forçava-se a não pensar nisso, forçava-se a não se deixar incomodar por isso. Na verdade, ele tinha aprendido sozinho a desfrutar da dor.

Depois de todos aqueles séculos, agora, finalmente, o seu povo teria o que lhes era devido. Já não seriam relegados para Marda, para os confins setentrionais do império, para a terra infértil. Agora eles iriam vingar-se por terem sido colocados em quarentena por detrás de uma parede de chamas, inundariam Escalon, rasgá-lo-iam em pedaços.

Ele ficou muito entusiasmado, inebriado com aquele pensamento. Ele não conseguia esperar para voltar, atravessar o Dedo do Diabo, voltar para o continente e encontrar o seu povo no meio de Escalon. Toda a nação de trolls iria convergir em Andros e, juntos, um pedaço de cada vez, iam destruir Escalon para sempre. Tornar-se-ia a nova pátria dos trolls.

No entanto, ali a olhar para as ondas no local onde a espada se tinha afundado, algo atormentava Vesúvio. Ele olhava para o horizonte, examinando as águas negras da Baía da Morte e havia algo que persistia, algo que tornava a sua satisfação incompleta. Ao observar o horizonte, ele avistou ao longe um pequeno navio solitário, com velas brancas, que navegava ao longo da Baía da Morte. Navegava para oeste, para longe do Dedo do Diabo. Ao vê-lo ir, ele percebeu que algo estava errado.

Vesúvio virou-se para trás e olhou para a Torre ao lado dele. Estava vazia, com as portas abertas. A Espada tinha estado à espera dele. Aqueles que a guardavam tinham-na abandonado. Tinha sido tudo demasiado fácil.

Porquê?

Vesúvio sabia que o assassino Merk andava a perseguir a Espada; ele tinha-o seguido todo o caminho até ao outro lado do Dedo do Diabo. Então porque é que ele a iria abandonar? Porque é que ele estava a navegar para longe dali, para o outro lado da Baía da Morte? Quem era aquela mulher que navegava com ele? Será que ela havia estado a guardar aquela torre? Que segredos é que ela estava a esconder?

E para onde é que eles estavam a ir?

Vesúvio olhava para o vapor que subia do mar e, em seguida, olhava de novo para o horizonte. As suas veias latejavam. Ele não conseguia evitar sentir que, de alguma forma, tinha sido enganado. Que uma vitória completa lhe tinha sido arrancada.

Quanto mais Vesúvio pensava naquilo, mais percebia que algo estava errado. Era tudo demasiado conveniente. Ele observava o mar violento lá em baixo, as ondas a rebentar nas rochas, o vapor a subir e percebeu que nunca iria saber a verdade. Ele nunca iria saber se a Espada de Chamas se tinha realmente afundado até ao fundo. Se havia alguma coisa que lhe estivesse a escapar. Se sequer tinha sido a espada certa. Se as chamas se iam manter baixas, também.

Vesúvio, indignado, tomou uma decisão: ele tinha de persegui-los. Ele nunca iria saber a verdade até o fazer. Haveria algures uma outra torre secreta? Outra espada?

Mesmo se não houvesse, mesmo se ele tivesse conseguido tudo o que precisava, Vesúvio era famoso por não deixar as suas vítimas vivas. Sempre. Ele perseguia sempre cada último homem até à sua morte e, ficar ali de pé, a observar aqueles dois a escaparem-se do seu alcance, não lhe assentava. Ele sabia que não podia simplesmente deixá-los ir.

Vesúvio olhou para as dezenas de navios ainda amarrados às margens, abandonados, balançando descontroladamente nas ondas, como se estivessem a esperar por ele. E tomou uma decisão imediata.

"Para os navios!", ordenou ao seu exército de trolls.

Como um, eles agitaram-se para cumprir a sua ordem, correndo até a costa rochosa, embarcando nos navios. Vesúvio seguiu-os, embarcando na popa do último navio.

Ele virou-se, ergueu a sua alabarda e cortou a corda.

Um momento depois, ele estava pronto, acompanhado de todos os trolls, todos eles amontoados em navios, partindo pela lendária Baía da Morte. Algures no horizonte navegavam Merk e aquela miúda. E Vesúvio não iria parar, independentemente para onde tivesse de navegar, até que ambos ficassem mortos.

CAPÍTULO OITO

Na proa do pequeno navio Merk segurava-se à amurada, com a filha do ex-rei Tarnis ao lado dele, cada um perdido no seu próprio mundo enquanto eram sacudidos pelas águas agitadas da Baía da Morte. Merk olhou para as águas negras, varridas pelo vento, salpicadas com carneirinhos e não podia deixar de ser questionar sobre a mulher ao lado dele. O mistério em torno dela não deixava de se aprofundar desde que haviam deixado a Torre de Kos, embarcando naquele navio para algum lugar misterioso. O seu pensamento estava inundado de perguntas para ela.

A filha de Tarnis. Era difícil para Merk acreditar. O que é que ela estava a fazer ali, no fim do Dedo do Diabo, barricada na Torre de Kos? Estaria a esconder-se? Em exílio? Sendo protegida? De quem?

Merk sentiu que ela, com os seus olhos translúcidos, com a sua tez demasiado pálida e pose imperturbável, era de outra raça. Mas se assim era, então quem era a sua mãe? Porque é que ela tinha sido deixada sozinha a proteger a Espada de Chamas, a Torre de Kos? Para onde tinha ido todo o seu povo?

E mais premente, para onde é que ela os estava a levar agora?

Com uma mão no leme, ela dirigia o navio cada vez mais para a baía em direção a um qualquer destino no horizonte que intrigava Merk.

"Ainda não me disseste para onde é que estamos a ir", disse ele, erguendo a voz para se conseguir fazer ouvir por causa do vento.

Seguiu-se um longo silêncio, tão prolongado que ele não tinha a certeza se ela iria alguma vez responder.

"Então, diz-me pelo menos o teu nome", acrescentou, percebendo que ela nunca lhe o tinha dito.

"Lorna", ela respondeu.

Lorna. Ele gostou da forma como soava.

"As Três Adagas", acrescentou ela, voltando-se para ele. "É para lá que vamos."

Merk franziu a testa.

" As Três Adagas?", perguntou ele, surpreendido.

Ela simplesmente olhou em frente.

Merk, porém, ficou perplexo com a notícia. As ilhas mais remotas em todo o Escalon. As Três Adagas eram tão nas profundezas da Baía da Morte que ele não conhecia ninguém que alguma vez tivesse viajado até lá. Knossos, claro, a lendária ilha e fortaleza, era a mais afastada e a lenda sempre disse que tinha os guerreiros mais ferozes de Escalon. Eram homens que viviam numa ilha deserta de uma península deserta, na mais perigosa massa de água que havia. Falava-se que eram homens tão violentos quanto o mar que os cercava. Merk nunca tinha conhecido um em pessoa. Ninguém tinha. Eles eram mais lendários do que reais.

"Os teus Sentinelas retiraram-se para lá?", perguntou.

Lorna assentiu.

"Eles estão à nossa espera agora", disse ela.

Merk virou-se e olhou para trás, querendo dar uma última olhadela à Torre de Kos e, ao fazê-lo, ficou aterrorizado com o que viu: lá, no horizonte, a persegui-los, estavam dezenas de navios com as velas cheias.

"Temos companhia", disse ele.

Lorna, para sua surpresa, nem sequer se virou, assentindo simplesmente.

"Eles vão perseguir-nos até os confins da terra", disse ela calmamente.

Merk ficou intrigado.

"Mesmo tendo eles a Espada de Chamas?"

"Não era atrás da Espada que eles estavam.", corrigiu ela. "Era da destruição. Da destruição de todos nós."

"E quando eles nos apanharem?", perguntou Merk. "Não podemos lutar sozinhos contra um exército de trolls. Nem uma pequena ilha de guerreiros pode, não importa o quão ferozes eles possam ser."

Ela assentiu com a cabeça, continuando imperturbável.

"Nós podemos realmente morrer", respondeu ela. "No entanto, devemos fazê-lo na companhia dos nossos colegas Sentinelas, lutando por aquilo que sabemos que é verdadeiro. Ainda há muitos segredos guardados."

"Segredos?", perguntou ele .

Mas ela ficou em silêncio, observando as águas.

Ele estava prestes a questioná-la mais, quando uma ventania súbita quase virou o barco. Merk caiu de barriga, batendo na lateral do casco e deslizando sobre a borda.

Oscilando, ele agarrou na amurada para salvar a sua querida vida enquanto as suas pernas se afundavam na água. A água era tão gelada que ele sentiu que iria congelar até a morte. Ele ficou pendurado por uma única mão, quase todo submerso e, quando olhou para trás, ficou aterrorizado ao ver, de repente, um grupo de tubarões vermelhos que se aproximava. Ele sentiu uma dor horrível quando dentes se enfiaram na barriga das suas pernas e viu sangue na água que sabia que era seu.

De seguida Lorna aproximou-se e rachou as águas com o seu bastão; ao fazê-lo, espalhou-se uma luz branca brilhante sobre a superfície e os tubarões dispersaram. No mesmo movimento, ela agarrou na mão dele e arrastou-o de volta para o navio.

O navio endireitou-se quando o vento diminuiu e Merk sentou-se no convés, molhado, cheio de frio, a respirar com dificuldade e com uma terrível dor na barriga das pernas.

Lorna examinou a sua ferida, rasgou um pedaço de pano da sua camisa e envolveu-o em torno da sua perna, estancando-lhe o sangue.

"Salvaste-me a vida", disse ele, cheio de gratidão. "Havia dezenas daquelas coisas ali. Eles iam matar-me."

Ela olhou com intensidade para ele com os seus olhos azuis-claros hipnotizantes.

"Aquelas criaturas são a menor das tuas preocupações aqui", disse ela.

Eles navegaram em silêncio, com Merk a conseguir lentamente voltar a pôr-se de pé, a olhar para o horizonte, certificando-se que segurava a amurada com força, com ambas as mãos desta vez. Ele observava o horizonte, mas tanto quanto o conseguia fazer, não via nenhum sinal das Três Adagas. Ele olhava para baixo e examinava as águas da Baía da Morte com um novo respeito e medo. Ele olhava com cuidado e via grupos de pequenos tubarões vermelhos sob a superfície, quase invisíveis, escondidos principalmente pelas ondas. Ele sabia agora que entrar naquela água significava a morte – e ele não conseguia evitar questionar-se que outras criaturas habitariam aquela massa de água.

O silêncio aprofundou-se, pontuado apenas pelo uivo do vento. Depois de muitas horas passarem, Merk, sentindo-se desolado ali, precisava falar.

"O que fizeste com aquele bastão…", disse Merk, virando-se para Lorna. "Eu nunca vi nada parecido."

Lorna permaneceu inexpressiva, ainda a olhar para o horizonte.

"Fala-me sobre ti", ele pressionou.

Ela olhou para ele e depois olhou de volta para o horizonte.

"O que gostarias de saber?", perguntou ela.

"Qualquer coisa", respondeu ele. "Tudo."

Ela remeteu-se ao silêncio por um longo período e, então, finalmente, disse:

"Começa tu."

Merk ficou a olhar para ela, surpreso.

"Eu?", perguntou ele. "O que é que queres saber?"

"Conta-me sobre a tua vida", disse ela. "Qualquer coisa que me queiras dizer."

Merk respirou fundo virando-se e olhando para o horizonte. A sua vida era a única coisa sobre a qual ele não queria falar.

Finalmente, percebendo que tinha uma longa jornada pela frente, ele suspirou. Ele sabia que alguma vez teria de se encarar a si mesmo, mesmo não estando orgulhoso disso.

"Eu tenho sido um assassino durante a maior parte da minha vida", disse ele lentamente, pesarosamente, olhando fixamente para o horizonte, numa voz grave e cheia de repúdio por si próprio. "Eu não tenho orgulho disso. Mas eu era o melhor no que fazia. Eu era procurado por reis e rainhas. Ninguém podia rivalizar com as minhas habilidades."

Merk remeteu-se a um longo silêncio, preso em memórias de uma vida de que se arrependia, memórias de que ele preferia não se lembrar.

"E agora?", perguntou ela em voz baixa.

Merk estava grato por não detetar qualquer julgamento na sua voz, como habitualmente acontecia com os outros. Ele suspirou.

"Agora", ele disse, "já não é o que eu faço. Já não é quem eu sou. Eu comprometi-me a renunciar à violência. A colocar os meus serviços a uma causa. No entanto, por muito que tente, não consigo libertar-me disso. A violência parece encontrar-me. Há sempre, ao que parece, uma outra causa."

"E qual é a tua causa?", perguntou ela.

Ele ficou a pensar naquilo.

"A minha causa, inicialmente, era tornar-me um Sentinela", respondeu ele. "Dedicar-me ao serviço. Proteger a Torre de Ur, proteger a Espada de Chamas. Quando isso falhou, eu senti que a minha causa era chegar à Torre de Kos, para salvar a espada."

Ele suspirou.

"E, no entanto, aqui estamos nós, a navegar pela Baía da Morte, com a Espada desaparecida, os trolls a seguirem-nos e em direção a uma série de ilhas áridas", Lorna respondeu com um sorriso.

Merk franziu a testa, aborrecido.

"Eu perdi a minha causa", disse ele. "Eu perdi o meu propósito de vida. Eu já não me conheço a mim próprio. Eu não sei a minha direção."

Lorna assentiu.

"Isso é um bom lugar para se estar", disse ela. "Um lugar de incerteza é também um lugar de possibilidade."

Merk observava-a, perguntando-se. Ele estava tocado por ela não condenar. Qualquer outra pessoa que tivesse ouvido a sua história iria vilipendiá-lo.

"Tu não me julgas por quem eu sou", observou ele, surpreendido.

Lorna olhou fixamente para ele, com um olhar tão intenso que era como olhar para a lua.

"Isso era quem tu eras", ela corrigiu. "Não é quem tu és agora. Como é que te posso julgar por quem foste em tempos? Eu só julgo o homem que está perante mim."

Merk sentiu-se restabelecido pela sua resposta.

"E quem sou eu agora?", perguntou ele, querendo saber a resposta, sem ele próprio saber qual era.

Ela olhou fixamente para ele.

"Eu vejo um guerreiro bom", respondeu ela. "Um homem altruísta. Um homem que quer ajudar os outros. E um homem cheio de nostalgia. Vejo um homem que está perdido. Um homem que nunca se conheceu a si mesmo."

Merk pensava nas palavras dela que ressoavam dentro dele. Ele sentiu que todas aquelas palavras eram verdadeiras. Demasiado verdadeiras.

Um longo silêncio abateu-se entre eles, enquanto o seu pequeno navio oscilava nas águas, fazendo lentamente o seu caminho para oeste. Merk vigiava atrás vendo a frota de trolls ainda no horizonte, ainda a uma distância suficiente boa.

"E tu?", perguntou ele finalmente. "És filha de Tarnis, não és?"

Ela procurou o horizonte, com os olhos a brilhar e, finalmente, assentiu.

"Sou", respondeu ela.

Merk ficou surpreendido ao ouvi-lo.

"Então porque é que estavas aqui?", perguntou ele.

Ela suspirou.

"Eu tenho estado aqui escondida desde criança."

"Mas porquê?", pressionou ele.

Ela encolheu os ombros.

"Eu suponho que era demasiado perigoso ficar na capital. As pessoas não podiam saber que eu era a filha ilegítima do rei. Era mais seguro aqui."

"Mais seguro aqui?", perguntou ele. "Nas extremidades do mundo?"

"Eu fiquei a guardar um segredo", explicou ela. "Mais importante ainda do que o reino de Escalon".

O coração dele batia com força ao questionar-se o que poderia ser.

"Vais dizer-me?", perguntou.

Mas Lorna lentamente virou-se e apontou para a frente. Merk seguiu o seu olhar e lá, no horizonte, onde o sol brilhava sobre três ilhas áridas, erguia-se do oceano, a última fortaleza de pedra sólida. Era o lugar mais desolado e, no entanto, o mais belo que Merk já tinha visto. Um lugar distante o suficiente para armazenar todos os segredos da magia e do poder.

"Bem-vindo a Knossos", disse Lorna.

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