Read the book: «Obsessão implacável - Amante para se vingar»

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Editado por Harlequin Ibérica.

Uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

Núñez de Balboa, 56

28001 Madrid

© 2022 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

N.º 119

© 2010 Lucy Gordon

Obsessão implacável

Título original: The Greek Tycoon’s Achilles Heel

Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd.

© 2009 Melanie Milburne

Amante para se vingar

Título original: Castellano’s Mistress of Revenge

Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd.

Estes títulos foram publicados originalmente em português em 2011

Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial. Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.

Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), acontecimientos ou situações são pura coincidência.

® Harlequin e logótipo Harlequin são marcas registadas propriedades de Harlequin Enterprises Limited.

® e ™ são marcas registadas por Harlequin Enterprises Limited e suas filiais, utilizadas com licença. As marcas em que aparece ® estão registadas na Oficina Española de Patentes y Marcas e noutros países.

Imagem de portada utilizada com a permissão de Dreamstime.com

I.S.B.N.: 978-84-1105-411-9

Sumário

Créditos

Sumário

Obsessão implacável

Prólogo

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

Capítulo 12

Amante para se vingar

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

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Prólogo

O resplendor das luzes de Las Vegas perdia-se no céu nocturno. Os hotéis e os casinos buliam com a agitação de sempre, e o dinheiro corria sem parar. No entanto, o Palace Athena brilhava mais do que qualquer outro. Nos seis meses desde que abrira, ganhara a fama de ser mais ostentoso do que a concorrência e, naquele dia, consagrava-se como um dos maiores, com a celebração do casamento de Estelle Radnor, a estrela de Hollywood. O dono do Palace, mais inteligente do que os outros, recebera a honra de organizar o evento oferecendo tudo e a bonita Estelle, que também não era parva quando se tratava de dinheiro, tinha aceitado sem pestanejar.

Os convidados acabaram no casino e a noiva tirou muitas fotografias a jogar aos dados com o seu novo marido, a abraçar uma jovem magra e anódina, e, novamente, a tentar a sorte nos dados. O dono observava tudo com uma expressão de satisfação.

– Aquiles, meu amigo… – disse, virando-se para um jovem que contemplava a cena com uma expressão de sarcasmo.

– Já te disse. Não me chames assim.

– Mas o teu nome trouxe-me sorte. Os teus conselhos de transformar este lugar num sítio autenticamente grego…

– Mas não seguiste nem um desses conselhos.

– Bom, os meus clientes acham que é grego e isso é que importa.

– Claro! A aparência é tudo. Nada mais importa – murmurou o jovem.

– Estou a ver que hoje estás um pouco pessimista. É o casamento? Sentes inveja deles?

Aquiles virou-se, com um olhar feroz.

– Não digas tolices! – exclamou. – Tudo o que sinto é aborrecimento e repulsa.

– As coisas não te correram bem?

O jovem encolheu os ombros.

– Perdi um milhão e antes que acabe a noite provavelmente terei perdido outro. E depois?

– Anda e junta-te à festa.

– Não fui convidado.

– Achas que vão rejeitar o filho do homem mais rico da Grécia?

– Não vão ter oportunidade. Vai ter com os teus convidados.

Afastou-se uma figura esbelta e solitária, seguida de dois pares de olhos, os do homem que acabava de deixar e os da adolescente feia que a noiva tinha abraçado pouco antes. Sem se afastar muito da parede, para não chamar a atenção, escapuliu-se até aos elevadores e subiu até ao quinquagésimo segundo andar para contemplar a vista.

Lá em cima, tanto as paredes como o tecto eram de vidro grosso e os visitantes podiam olhar à sua volta sem perigo. Lá fora havia uma passagem para os empregados e o serviço de limpeza de vidros, mas os clientes não podiam aceder a ela, a menos que soubessem o código.

Maravilhada, a jovem contemplava a vista aos seus pés quando, de repente, ouviu um ruído atrás de si. Ao virar-se, reconheceu o jovem que estava na festa. Escondeu-se entre as sombras e viu-o a aproximar-se dos vidros.

A divisão era iluminada apenas por algumas luzes, para que se pudesse apreciar melhor a vista. No entanto, a penumbra desenhava os rostos que por ali passavam. A jovem olhava para ele, intrigada. Os seus traços eram finos e bem definidos, sérios e sombrios. Era o rosto de um rapaz, mas havia uma tristeza neles que quase roçava o desespero, a agonia de quem carregava um cruz pesada, um fardo insuportável…

De repente, o jovem fez algo imprevisível que a fez tremer de medo. Introduziu um código no controlo de segurança e a porta de vidro deslizou, até se abrir por completo. Não havia mais nada que o protegesse de uma queda terrível.

O gemido abafado de Petra fê-lo virar-se.

– O que está a fazer aqui? – perguntou-lhe, claramente incomodado. – Está a espiar-me?

– Claro que não! Volte para dentro, por favor – rogou-lhe ela. – Não o faça.

Ele recuou um pouco, mas não se afastou muito da beira.

– O que raios quer dizer? Não ia fazer nada. Precisava de respirar um pouco de ar fresco.

– Mas é perigoso. Pode cair sem querer.

– Sei muito bem o que estou a fazer. Vá-se embora e deixe-me em paz.

– Não – disse ela, desafiante. – Eu tenho o mesmo direito que você de apanhar ar. Está-se bem aí fora?

– O quê?

Apanhando-o de surpresa, a jovem passou-lhe à frente e situou-se ao seu lado. Ao pôr um pé lá fora sentiu a força do vento e ele teve de a agarrar.

– Mulher estúpida! – gritou-lhe. – Eu não sou o único que pode ter um acidente. Quer morrer?

– E você?

– Vamos para dentro.

Fê-la entrar com um puxão e, então, pela primeira vez, olhou-lhe para a cara.

– Não nos vimos lá em baixo?

– Sim. Estava no Zeus Room – disse ela, indicando o casino. – Eu gosto de observar as pessoas. Não podiam ter-lhe dado um nome melhor.

– Então, sabe quem é Zeus? – perguntou ele, levando-a para um sítio onde pudessem sentar-se.

– Era o rei dos deuses gregos – disse ela. – Vigiava o mundo desde a sua cadeira, situada no cimo do monte Olimpo, dono e senhor de todas as coisas. Suponho que seja assim que se sentem os jogadores quando começam a apostar, mas os pobres idiotas não demoram muito a dar-se conta da realidade. Perdeu muito?

Ele encolheu os ombros.

– Um milhão. Deixei de contar depois de algum tempo. E o que faz você num casino? Não creio que tenha mais de quinze anos.

– Tenho dezassete anos e sou… uma das convidadas do casamento.

– Ah, claro… – disse ele, fingindo não ter reparado naquela pequena hesitação na sua resposta. – Vi a noiva a tirar uma fotografia contigo. És uma das damas de honor?

Ela olhou para ele, com sarcasmo.

– Tenho aspecto de dama de honor? – perguntou-lhe, levantando os braços e olhando para o vestido que, embora caro, não era muito bonito.

– Bom…

– Eu não gosto muito de tirar fotografias e muito menos diante de toda aquela gente.

O jovem olhou-a fixamente. Ela falava com uma resignação implacável. Não havia o mínimo sinal de autocompaixão naquele tom irónico.

Não usava maquilhagem, usava o cabelo muito curto e era evidente que não se incomodara em melhorar a sua aparência de alguma forma.

– E chamas-te…?

– Petra. E tu és Aquiles, não és?

Ao ouvi-la, ele franziu o sobrolho.

– O meu nome é Lysandros Demetriou. A minha mãe queria chamar-me Aquiles, mas o meu pai pensou que era demasiado sentimental. Por fim, chegaram a um acordo e Aquiles é o meu segundo nome.

– Mas o homem que estava contigo lá em baixo chamou-te assim.

– Para ele, é importante que eu seja grego, porque se supõe que neste lugar tudo seja grego.

– Que parvos! – comentou ela, rindo-se suavemente.

De repente, os seus olhares encontraram-se.

Ele era tal como tinha imaginado. Olhos profundos, traços perfeitos e um toque de orgulho e intransigência que só podia reflectir-se no rosto de alguém habituado a que lhe fizessem as vontades. No entanto, também havia uma escuridão naquele olhar impenetrável que não parecia encaixar.

– Estaleiros Demetriou?

– Sim.

– A maior empresa da Grécia – disse ela. – Se não os quiserem, então, não valem a pena. Se não os comprarem hoje, fá-lo-ão amanhã. Se alguém se atrever a contrariá-los, então, espreitam entre as sombras, à espera do momento para atacar.

– Algo parecido – disse ele.

– Ou, caso contrário, atiram-nos às Fúrias.

Ela referia-se às três deusas gregas da raiva e da vingança, com o cabelo de serpentes e olhos que choravam sangue. Esses temidos demónios atacavam as suas vítimas sem piedade.

– Porque tens de ser tão melodramática?

– Não consigo evitá-lo, neste sítio grego prefabricado. Mas porque não estás em Atenas, a dar cabo dos teus inimigos?

– Já me fartei disso – disse ele, num tom brusco. – Que se desenrasquem sem mim.

– Ah, não me digas que estás zangado!

– O quê?

– Durante a guerra de Tróia, Aquiles apaixonou-se por uma rapariga. Ela pertencia à outra facção. Era sua prisioneira. Mas teve de a libertar, portanto, retirou-se da batalha e encerrou-se na sua tenda. Por fim, voltou para a luta, mas acabou morto. Tu podias ter acabado da mesma forma quando foste lá para fora.

– Já te disse que não tinha intenção de morrer, embora, sinceramente, me seja indiferente viver ou morrer. Aceito o que vier.

– Ela fez-te sofrer muito?

Na penumbra, mal conseguia ver o seu rosto, mas sabia que a fulminava com o olhar. Os seus olhos frios refulgiam na escuridão, lançando-lhe uma advertência.

«Chega!», ouviu as Fúrias a gritarem-lhe. «Foge antes que te mate!»

Mas ela não era dessas.

– Ela? – perguntou ele, num tom ameaçador.

A jovem pôs-lhe a mão sobre o braço, com suavidade.

– Desculpa – sussurrou. – Não devia ter dito isso.

Ele levantou-se de repente e foi até à janela aberta. Contemplou a escuridão infinita da noite. A jovem seguiu-o em silêncio.

– Fez-me confiar nela – disse ele, com um fio de voz.

– Mas, às vezes, é bom confiar.

– Não. Ninguém é tão bom como pensamos e, mais tarde ou mais cedo, a verdade acaba por aparecer. Quanto mais se confia em alguém, pior é quando nos traem. É melhor não criar ilusões.

– Mas isso é terrível. Não acreditar em nada, nem em ninguém. Não amar, nem ter esperança. Não ser feliz… Nunca.

– E nunca sofrer – disse ele, num tom mordaz.

– E não voltar a estar vivo. Seria como estar morto em vida. Não percebes, libertar-te-ias da dor, mas também perderias todas as coisas pelas quais vale a pena viver.

– Nem todas. Resta sempre o poder. Podes sempre tê-lo se renunciares a tudo o resto. É a única coisa que importa. O resto não passam de fraquezas.

– Não – disse ela, com brusquidão. – Não deves pensar assim se não quiseres arruinar a tua vida.

– E o que sabes da minha vida? – perguntou-lhe ele, zangado. – Não passas de uma menina. Alguma vez te fizeram sentir vontade de partir tudo, até não restar nada, nem sequer tu mesma?

– E o que ganhamos ao destruirmo-nos?

– Não nos transformamos… Nisto – disse-lhe, apontando para o coração.

Petra não teve de lhe perguntar o que queria dizer. Apesar de ser jovem, parecia estar à beira do desespero e não seria preciso muito para o fazer saltar para o vazio.

A pena e o terror apoderaram-se dela. Uma parte do seu ser queria fugir daquela criatura que acabaria por se transformar num monstro se ninguém se interpusesse no caminho dele. No entanto, a outra parte dela queria ficar e salvá-lo.

De repente, sem aviso de nenhum tipo, ele fez o que a fez decidir-se, algo terrível e maravilhoso ao mesmo tempo. Baixou a cabeça e deixou-a cair contra o ombro dela, várias vezes, como se batesse contra uma parede, sem esperança. Aflita, ela apertou-o entre os braços e segurou com uma mão aquela cabeça atormentada, obrigando-o a ficar quieto. Podia sentir a agonia, o desespero… Era como se só ela pudesse consolá-lo naquele mundo cruel.

Por cima do ombro dele conseguia ver o abismo que se abria aos seus pés. Nada se interpunha entre o chão e ele, nada excepto ela mesma. Agarrou-o com força e, em silêncio, ofereceu-lhe tudo o que tinha para dar. Ele não resistia. Parecia que ficara sem forças.

A pouco e pouco, fê-lo recuar e, então, olhou-lhe para a cara. A acritude e a agonia tinham-se desvanecido e no seu lugar tinha aparecido uma profunda tristeza misturada com resignação, como se tivesse encontrado alguma paz, embora incerta e efémera.

Finalmente, Lysandros esboçou um leve sorriso. No seu interior crescia o desejo de a proteger, tal como ela tinha feito com ele. Ainda restava bondade no mundo e estava ali, naquela rapariga, demasiado inocente para entender o perigo que corria por estar ao seu lado.

Acabaria por se corromper, como todos os outros.

Mas, naquela noite, não. Ele não o permitiria. Marcou um código e a porta de vidro fechou-se.

– Vamos – disse, conduzindo-a para os elevadores.

Pouco depois, estava à frente da porta do seu quarto.

– Entra, vai para a cama e não abras a porta a ninguém.

– E tu, o que vais fazer? – perguntou ela.

– Vou perder mais dinheiro e depois vou pensar um pouco.

Não quisera dizer aquelas últimas palavras, mas já era tarde.

– Boa noite, Aquiles.

– Boa noite.

Também não queria fazer o que fez de seguida, mas, antes que pudesse ter consciência disso, inclinou a cabeça e beijou-a nos lábios.

– Entra e tranca a porta.

Ela assentiu com a cabeça e fechou a porta. Pouco depois, ouviu-a a trancá-la. Resignado a continuar a perder, voltou para as mesas. No entanto, a sua sorte mudou de forma misteriosa e, uma hora mais tarde, já tinha recuperado tudo.

Outra hora mais tarde, já tinha ganhado o dobro. Um amuleto… Era o que ela era. Tinha-lhe lançado um feitiço e a sua sorte tinha mudado de repente.

«É uma pena nunca mais voltar a vê-la», pensou, sem saber que estava enganado.

Sim, voltaria a vê-la.

Quinze anos depois.

Capítulo 1

A mansão Demetriou ficava situada nos subúrbios de Atenas, sobre uma colina de onde se avistavam as terras que a família sempre tinha considerado suas. Até àquele momento, a única coisa que lhes tinha feito sombra fora o Pártenon, o templo clássico construído mais de dois mil anos antes, o ponto mais alto da Acrópole, mas quase invisível da sua posição do outro lado da cidade. No entanto, há algum tempo que um novo edifício eclipsava a majestosa Villa Demetriou. Tratava-se de um falso Pártenon, erigido por Homer Lukas, o único homem da Grécia que se atrevera a desafiar a família Demetriou ou os deuses milenares que guardavam o templo original.

Mas Homer estava apaixonado e, logicamente, tentava impressionar a sua noiva no dia do casamento. Naquela manhã de Primavera, Lysandros Demetriou estava à porta do casarão, a contemplar Atenas, incomodado por ter de perder tempo a assistir a um casamento estúpido, quando, na verdade, tinha muitas coisas importantes para fazer. De repente, ouviu um ruído atrás de si e virou-se. Era Stavros, um velho amigo do seu falecido pai que vivia perto dali. Tinha o cabelo branco e estava demasiado magro, o resultado de uma longa vida de excessos.

– Vou para o casamento – disse. – Vim, caso quisesses que te levasse.

– Obrigado. Agradeço-te – disse Lysandros, com frieza. – Se chegar cedo, ninguém se ofenderá se partir cedo.

Stavros soltou uma gargalhada.

– Estou a ver que os casamentos não te deixam nada sentimental.

– Não é um casamento. É uma exibição – disse-lhe, com sarcasmo. – Homer Lukas caçou uma estrela de cinema e quer mostrá-la a toda a gente. E as pessoas desejar-lhe-ão felicidade e depois insultá-lo-ão nas suas costas. Eu só lhe desejo que Estelle Radnor lhe torne a vida impossível. Com um pouco de sorte, fá-lo-á… E porque tiveram de se casar em Atenas? Não chegava um daqueles hotéis gregos falsos, como da outra vez?

– Porque o nome de Homer Lukas é sinónimo de estaleiros gregos – disse Stavros. – Depois do teu, claro – acrescentou rapidamente.

Durante anos, as empresas das famílias Demetriou e Lukas tinham monopolizado o ramo da indústria naval, não só na Grécia, mas também em todo o mundo. As famílias eram inimigas, rivais, mas tentavam sempre manter as aparências diante da opinião pública, porque era mais rentável assim.

– Suponho que possa ser um verdadeiro enlace por amor – disse Stavros, com cinismo.

Lysandros arqueou os sobrolhos.

– Um verdadeiro…? Quantas vezes já se casou ela? Seis? Sete?

– Tu é que devias saber. Não foste convidado para um dos seus casamentos há anos?

– Não fui convidado. Naquele momento, hospedava-me no hotel de Las Vegas onde se celebrou o copo-d’água e vi o espectáculo ao longe. Voltei para a Grécia no dia seguinte.

– Sim. Eu lembro-me. O teu pai estava muito confuso. Contente, mas confuso. Pelos vistos, tinhas-lhe dito que não querias voltar a saber nada do negócio. Desapareceste durante dois anos e então, de repente, apareceste e disseste-lhe que estavas pronto para voltar para o trabalho. O teu pai tinha medo de que não estivesses à altura depois de… Bom… – parou ao ver o olhar sombrio de Lysandros.

– Sim – disse, num tom comedido que era muito mais arrepiante do que um grito. – Bom, isso foi há muito tempo. O passado está lá atrás.

– Sim, e o teu pai ficou finalmente convencido das tuas capacidades. Os seus medos desapareceram porque voltaste transformado num verdadeiro leão, capaz de aterrorizar toda a gente. Estava muito orgulhoso de ti.

– Bom, esperemos que consiga aterrorizar Homer Lukas. Caso contrário, estarei a perder as minhas faculdades.

– De qualquer forma, deves ter cuidado – disse Stavros. – Não parou de te ameaçar. Diz que os fizeste perder milhões, a ele e ao seu filho. Inclusive, chegou a dizer que lhos roubaste.

– Eu não roubei nada. Simplesmente, ofereci um negócio melhor ao cliente – disse Lysandros, com indiferença.

– Mas foi à última hora – disse Stavros. – Pelos vistos, estavam prestes a fechar o negócio. O cliente tinha a caneta na mão, prestes a assinar, quando lhe tocou o telefone. E eras tu. Deste-lhe uma informação privilegiada que só poderias ter obtido de uma forma… pouco honrada.

– Não penses que foi para tanto – disse Lysandros, encolhendo os ombros. – Já fiz coisas piores – acrescentou, num tom arrogante e cínico.

– E foi assim – disse Stavros, continuando a história. – O homem largou a caneta, cancelou o negócio e entrou no teu carro. Dizem por aí que Homer fez oferendas interessante aos deuses do Olimpo para que leves o castigo que mereces.

– Mas, até agora, continuo sem castigo, portanto, se calhar, os deuses não estavam a ouvi-lo. Dizem que inclusive chegou a resmungar um palavrão quando viu o meu convite para o casamento. Espero que o tenha feito.

– A sério que não vais levar ninguém contigo?

Lysandros assentiu com a cabeça, sem lhe dar muita importância. Estava habituado a assistir a muitos casamentos por obrigação, às vezes, acompanhado de sócios ou amigos, mas nunca com uma mulher. Isso teria chamado a atenção dos media e não queria que a mulher ficasse com uma ideia errada. Uma mulher despeitada podia provocar muitos danos e ele não queria esse tipo de confusões mediáticas.

– Muito bem. Vamos – disse Stavros.

– Receio que tenha de me atrasar um pouco.

– Mas acabaste de dizer que ias comigo…

– Sim, mas, de repente, lembrei-me de uma coisa que tenho de fazer. Até logo.

A contundência da sua despedida foi tal que Stavros não se atreveu a insistir mais.

O carro esperava-o à frente da porta. No banco de trás estava a sua esposa, que se tinha recusado a acompanhá-lo a ir chamar Lysandros. Dizia que aquela casa desolada e sombria encaixava perfeitamente com o homem sinistro que vivia nela.

«Como pode viver num sítio tão grande e silencioso, sem família, só com alguns empregados?», tinha-lhe perguntado ela mais de uma vez. «Arrepia-me. E não é a única coisa nele que me faz tremer», acrescentara, pensando que não era a única que tinha essa opinião.

Na verdade, quase toda a Atenas estaria de acordo com ela.

Stavros entrou no veículo e contou-lhe o que tinha acontecido com Lysandros.

– E porque mudou de ideias e não quer vir connosco?

– A culpa foi minha. Fui suficientemente parvo para mencionar o passado e então mudou por completo. É muito estranho que tenha apagado aquele período como se nunca tivesse acontecido e, no entanto, é o que o impulsiona a fazer tudo o que faz. Vê o que acaba de acontecer. Um minuto antes, estava bem e, de repente, estava desejoso de se livrar de mim.

– Pergunto-me porque vai sair cedo do copo-d’água.

– Provavelmente, vai ter com aquela… Gatinha.

– Se te referes a… – não chegou a dizer o nome. – Eu não lhe chamaria «gatinha». O seu marido é um dos homens mais influentes de…

– E isso torna-a uma ordinária de categoria – disse Stavros, sem medir as suas palavras. – E, neste momento, está a tentar manter as distâncias para disfarçar um pouco. O seu marido fê-la entrar nos eixos. Ouviu os rumores.

– Provavelmente, sempre soube – disse a sua mulher, com cinismo. – Há homens nesta cidade que não se importam que as suas mulheres durmam com Lysandros.

Stavros assentiu.

– Sim, mas parece-me que ela se envolveu demasiado. Começou a criar expectativas, portanto, Lysandros insinuou alguma coisa ao marido, para que a tivesse com rédea mais curta. E o marido, que não é estúpido, sabe o que lhe convém.

– Nem sequer Lysandros pode ser tão cruel e desumano…

– É exactamente o que é e, no fundo, sabemo-lo muito bem – disse Stavros, num tom cortante.

– Pergunto-me se terá um coração em algum sítio.

– Não tem nenhum e é por isso que afasta as pessoas.

Quando o carro atravessou o portão, Stavros não conseguiu evitar olhar para trás. Lysandros estava à janela, a contemplar o mundo com ar pensativo, como se tudo lhe pertencesse e não soubesse muito bem como geri-lo.

Permaneceu ali de pé até o carro desaparecer e, então, virou-se para o quarto, tentando esclarecer as ideias. Aquela conversa tinha-o afectado demasiado e tinha de resolver aquilo o quanto antes.

Pouco depois, estava a chegar ao falso Pártenon dos Lukas. Saiu do carro, olhou à sua volta e não teve outro remédio senão admitir que Homer gastara muito bem o dinheiro. O grande templo da deusa Atena tinha sido recreado até ao último detalhe, tal como devia ser na época em que fora construído.

De repente, tocou-lhe o telemóvel. Era uma mensagem de texto.

Lamento tudo o que disse. Estava zangada. Parecia que estavas a afastar-te justamente quando estávamos mais unidos. Por favor, telefona-me.

Estava assinado com uma inicial. Lysandros respondeu imediatamente.

Não te preocupes. Tinhas razão. É melhor acabarmos. Perdoa-me por te magoar.

Esperava que fosse o fim, mas, um minuto mais tarde, recebeu outra mensagem.

Não quero acabar. Não sentia tudo o que disse. Vemo-nos no casamento? Podíamos falar.

Desta vez, estava assinada com o seu nome. Ele respondeu:

Sempre soubemos que não podia durar. Não podemos falar. Não quero submeter-te aos falatórios.

A resposta chegou em poucos segundos.

Não me importa. Amo-te. Tua para sempre.

Lysandros leu a mensagem, sem acreditar. Uma loucura estranha parecia ter-se apoderado dela.

A sua resposta foi muito breve.

Desejo-te o melhor para o futuro. Por favor, apaga todas as mensagens do teu telefone. Adeus.

Depois, desligou o telemóvel. Era simples silenciar uma máquina, mas apagar o coração podia ser um pouco mais complicado. No entanto, ele tinha aperfeiçoado a técnica durante muitos anos e a sua mestria era à prova de qualquer mulher do planeta.

Excepto de uma.

Mas nunca mais voltaria a vê-la.

A menos que tivesse muito azar.

Ou sorte.

– Estás fabulosa!

Petra Radnor esboçou um sorriso ao ouvir o elogio de Nikator Lukas.

– Obrigado, querido irmão.

– Não me chames assim. Eu não sou teu irmão.

– Mas sê-lo-ás dentro de algumas horas, quando o teu pai se casar com a minha mãe.

– Irmão adoptivo, no máximo. Não somos parentes de sangue e posso suspirar por ti, se quiser.

– Não. Tu serás o irmão que sempre quis. O meu maninho.

– Maninho! Sou mais velho do que tu!

Era verdade. Ele tinha trinta e sete anos, enquanto ela tinha apenas trinta e dois. No entanto, havia qualquer coisa infantil nele que era íntimo. Ele admirava-a muito e ela entendia porquê. A magricela Petra da adolescência tinha florescido com a idade e, embora não fosse bonita segundo a definição de Hollywood, podia considerar-se atraente. Tinha uma personalidade faiscante que resplandecia nos seus olhos expressivos e num sentido de humor apurado. Para desviar a atenção de Nikator, começou a falar de Debra, a aspirante a actriz que o acompanhava naquela noite.

– Estão espectaculares esta noite. Todos verão como és sortudo.

– Eu preferia ter vindo contigo – disse ele, suspirando.

– Oh, pára! Depois de todo o trabalho que Estelle teve para que ela te acompanhasse, devias estar agradecido.

– Debra é maravilhosa – admitiu. – Pelo menos, Demetriou não conseguirá estar à altura.

– Demetriou? Queres dizer Lysandros Demetriou? – perguntou Petra, de repente. – O verdadeiro Lysandros Demetriou?

– Não há necessidade de o dizeres assim, como se fosse importante – disse Nikator.

– Parece que é. Não estava…?

– Isso não importa. Provavelmente, não virá com nenhuma mulher.

– Ouvi dizer que tem fama de mulherengo.

– É verdade. Mas nunca as exibe em público. Demasiada confusão, suponho. Para ele, são descartáveis. Dir-te-ei uma coisa. Provavelmente, mais de metade das mulheres convidadas para este casamento já passou pela sua cama.

– Odeia-lo, não é? – perguntou ela, com curiosidade.

– Há alguns anos, relacionou-se com uma rapariga da minha família, mas tratou-a muito mal.

– Como?

– Não sei os detalhes. Ninguém sabe.

– Então, se calhar, foi ela que o tratou mal – sugeriu Petra. – E ele pode ter reagido mal porque estava desiludido.

Nikator fulminou-a com o olhar.

– E porque pensas algo parecido?

– Não sei – disse ela, confusa.

Uma voz misteriosa acabava de sussurrar alguma coisa na sua mente, mas não era capaz de distinguir as palavras. Era uma voz que vinha de muito, muito longe, uma voz que a perseguia há anos. Tentou ouvir, mas só encontrou silêncio.

– Ela fugiu e, pouco tempo depois, ouvimos dizer que estava morta. Foi há muitos anos, mas naquela época ele já sabia como apunhalar pelas costas. Tem cuidado. Assim que souber que pertences à família, tentará seduzir-te, só para demonstrar que consegue fazê-lo.

– Seduzir-me? – repetiu Petra, com humor. – Mas o que achas que sou, uma rapariga indefesa? Depois de tanto tempo no mundo do cinema, aprendi a usar o cinismo como arma de defesa. Acredita em mim. De facto, às vezes sou eu quem seduz.

Os olhos de Nikator brilharam.

– Ah, nesse caso… – disse, levantando as mãos.

– Vá – disse ela, com firmeza. – Já está na hora de ires procurar Debra.

Para alívio de Petra, ele afastou-se. Havia algumas facetas de Nikki que eram preocupantes, mas isso podia esperar. Supunha-se que seria um dia feliz.

Verificou a máquina fotográfica. Naquele dia, haveria um verdadeiro exército de fotógrafos profissionais pela sala, mas Estelle, que chamava sempre pelo nome, embora fosse sua mãe, tinha-lhe pedido que tirasse fotografias privadas para a família.

Viu-se ao espelho uma última vez e, então, franziu o sobrolho. Tal como Nikator dissera, estava esplêndida, mas o que servia para outras mulheres, não servia para a filha de Estelle Radnor. Era o grande dia da noiva e só ela tinha o direito de monopolizar toda a atenção.

– Qualquer coisa um pouco mais discreta – murmurou, vendo-se ao espelho, e foi procurar um vestido mais escuro e simples, quase puritano.

Vestiu-o, apanhou o cabelo num coque e voltou a ver-se ao espelho.

– Melhor. Agora, ninguém reparará em mim – disse.

Durante os seus trinta e dois anos de vida, tinha aprendido a viver na sombra da sua mãe, sempre tendo o cuidado de não eclipsar a estrela. No entanto, isso já não era um problema. Ela adorava a sua mãe, mas a sua vida era noutro lugar.

A noiva já se mudara para a mansão e, naquele momento, ocupava a suíte que pertencia à senhora da casa. Petra foi ter com ela.

E, então, as coisas começaram a piorar.

Estelle deu um grito quando viu a sua filha.

– Querida, no que estavas a pensar quando vestiste esse vestido? Pareces uma perceptora da época vitoriana.

Petra, que já estava habituada à pouca subtileza da sua mãe, não levou a mal.

– Pensei que seria melhor ser um pouco discreta. És tu quem tem de chamar a atenção de toda a gente. E estás absolutamente maravilhosa. Vais ser a noiva mais bonita do mundo.