Read the book: «"Casamento de sociedade" Comprometida com um xeque - A Esposa Secreta»

Editado por Harlequin Ibérica.
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Núñez de Balboa, 56
28001 Madrid
© 2002 Sharon Kendrick
© 2019 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.
Casamento de sociedade, n.º 689 - agosto 2020
Título original: Promised to the Sheikh
Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd
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Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.
Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência.
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I.S.B.N.: 978-84-1348-544-7
Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.
Sumário
Créditos
Comprometida com um xeque
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
A esposa secreta
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
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Comprometida com um xeque
SHARON KENDRICK
Capítulo 1
Por alguma razão chamavam «Leão do Deserto» ao homem cuja silhueta se apoiava na janela. A sua pele bronzeada era sinal de boa saúde e o seu cabelo preto era como uma crina de ébano. A magnificência do seu corpo musculoso deixara mais do que uma mulher a suspirar, enquanto ele se movimentava com a graça de um leão.
O xeque Rashid de Quador era um homem a quem era melhor não contrariar, costumava ser imperturbável, como um leão, e tinha a certeza de ser o rei de tudo o que havia à sua volta.
Mas naquele momento os seus olhos brilharam de desagrado.
– Repete o que disseste, Abdullah – ordenou, com uma voz profunda e controlada.
O seu criado engoliu em seco, nervosamente, e começou a dizer:
– Desculpe-me, Excelência…
– Repete o que disseste – voltou a dizer.
Abdullah tossiu e declarou:
– Correm boatos… Correm boatos pela cidade, xeque.
– Atreves-te a falar-me de boatos? – inquiriu, com impaciência.
– Quando se trata da sua Excelência, sim… Preciso de o fazer.
– E?
– O seu povo está inquieto, xeque.
O xeque franziu as sobrancelhas pretas e declarou:
– Há mais rebeliões? Insurreições que deva controlar?
– Não, não… Não é nada disso, xeque. O seu povo aceita ser governado com mão de ferro. O povo de Quador vive feliz. Tem comida suficiente e a certeza de que o nosso perfil no mundo moderno é brilhante…
– Deixa-te de elogios! – protestou Rashid. – Não preciso deles!
– Sim, xeque… – suspirou Abdullah. – O povo de Quador quer saber porque é que ainda não tem esposa – concluiu, com um sorriso fraco.
– Esposa? – Rashid ficou tenso. – O meu povo não tem o direito de se meter nesses assuntos! Terei esposa quando for o momento certo… E serei eu a decidir isso! – pensou nos olhos de Jenna e mudou o tom de voz para um tom mais suave e com um entoar de desconfiança. – No entanto, há mais qualquer coisa que não me estás a dizer, não é, Abdullah?
– Sim – replicou o empregado, engolindo em seco. – Apareceram alguns artigos de jornais estrangeiros através da Internet…
– Através da Internet! Essa Internet é obra do demónio! – exclamou Rashid. – Deveria ser proibida!
– Sim, mas é impossível impedir o progresso.
– E o que é que se diz exactamente na Internet? – quis saber Rashid.
– Humm… a sua relação com uma certa mulher de Paris está a causar certa inquietude.
– A minha relação com Chantal? – Rashid sentiu uma pontada de desejo, ao pensar nos atributos físicos da sua amante. – A minha amizade com Chantal não é novidade.
– Precisamente! – replicou Abdullah. – É uma relação demasiado duradoura e estão preocupados que se possa tornar na sua esposa!
Rashid praguejou em francês, uma das sete línguas que dominava.
– O meu povo é doido? Tu sabes quem é a minha noiva!
– Sem dúvida – murmurou Abdullah.
– Não sabem que um homem tem muitas necessidades? – continuou Rashid. – O que Chantal me dá não tem nada a ver com casamento! – franziu a boca. – O meu destino não é casar com uma mulher dez anos mais velha do que eu! Não me poderia dar a descendência numerosa que precisarei ter um dia!
– Foi o que pensei, Excelência – replicou Abdullah, com um suspiro de alívio, quase imperceptível. – Porque é que não esclarece isso perante todo o mundo? Ainda não terá chegado o momento de ter descendência?
Rashid suspirou e virou-se mais uma vez para a janela.
Teria chegado o momento? Sentir-se-ia preparado?
Era conhecido pela sua natureza resoluta e pela sua inteligência e poder de decisão. Não demorou mais do que um segundo a lembrar-se do que estava planeado para ele desde a sua infância. E, como resposta, inclinou silenciosamente a cabeça.
Abdullah era o seu conselheiro de maior confiança e os boatos deveriam estar a ter certo peso para que ele tivesse tido a coragem de os transmitir.
E não era boa ideia que prevalecesse sobre a sua imagem um ar de incerteza que enfraquecesse a sua posição.
Rashid virou-se e, com um gesto imperturbável, declarou:
– Está bem. Que se cumpra o meu destino – os seus olhos brilharam com fria aceitação. – Mandarei buscar Jenna – declarou, suavemente. – O casamento celebrar-se-á quando estiver tudo pronto.
No interior do bonito apartamento de Nova Iorque, o telefone começou a tocar e Jenna deu um salto.
– Brad, podes responder o telefone, por favor? – gritou.
– Já vou.
Ainda húmida do duche, Jenna entrou na sala envolta numa toalha. Era ele, sabia-o. Não sabia como, mas sabia.
Ficou tensa. Depois lembrou-se de que a sua vida tinha mudado. Aquelas promessas que tinham sido feitas poderiam quebrar-se. O laço que existira entre eles enfraquecera. Seria inconcebível que ele agora exigisse o que ela tinha mais desejado e que naquele momento receava.
– Jenna? – ouviu Brad dizer, com a sua pronúncia americana. – Sim, está aqui. Um momento, por favor – entregou o auscultador a Jenna.
Ainda a tremer, Jenna agarrou no auscultador.
– Sim?
Fez-se um silêncio do outro lado.
– Jenna?
Era ele. Teria reconhecido aquela voz em qualquer ponto do planeta. Talvez porque nenhum homem falava como ele. Com a suavidade do aço e a sensualidade de um predador.
Jenna engoliu em seco. A sua faceta de mulher moderna sentiu a tentação de dizer: «Quem é?», mas pensou melhor. Fingir que não o reconhecera teria sido uma injustificada mancha ao seu ego… e todos sabiam que o xeque Rashid de Quador tinha um ego tão grande como a área dos Estados Unidos!
– Rashid – replicou ela, com cautela. Ouviu uma exclamação como resposta e soube que, de alguma maneira, o incomodara.
– Como estás? – inquiriu ela, em inglês.
– Quem atendeu o telefone? – inquiriu ele, inesperadamente na mesma língua.
Jenna pensou dizer que aquilo não era da sua conta, mas percebeu que era inútil. Ele achava-se no direito de tudo.
– Um amigo. Brad.
– Brad? Um homem? Tens um homem no teu apartamento?
Jenna sentiu irritação. O que era válido para ele, não era válido para ela. Mas seria melhor tomá-lo com bom humor. Não o fizera rir muitas vezes no passado, quando todos os seus sonhos de juventude tinham explodido ao saber que género de homem é que ele era? E o que fizera.
– Parece que sim! – brincou ela. – A não ser que esteja disfarçado e eu não tenha dado por isso!
Rashid sentiu-se incomodado.
– E há quanto tempo é que esse tal Brad é teu amigo?
Jenna apertou o auscultador com fúria. Ela não lhe pertencia! Mas ele tinha a astúcia de uma raposa e sabia dar-lhe a volta. Ainda não sabia o que Rashid queria e até àquela altura seria melhor seguir o seu jogo e responder como ele esperava que ela fizesse.
– Oh, há muito tempo que somos amigos! Telefonaste para conversar? Ou queres alguma coisa em particular?
Na realidade, o que Rashid teria gostado de fazer naquele momento era atirar Brad para fora do apartamento dela com um soco, mas preferiu não mostrar as suas emoções e ciúmes. Tinha a certeza de uma coisa, Jenna era pura como a neve das montanhas de Quador. Jenna…
Era dele, só dele…
– Não gosto nada disso – declarou ele. – Queres explicar-me o que é que está a fazer aí? Ou costumas receber homens no teu apartamento?
«Outra vez a sua arrogância», pensou Jenna.
Lembrou-se dos seus sonhos em relação a ele e o que sofrera ao descobrir a verdade sobre Rashid. Não permitiria que ele derrubasse as defesas que tanto lhe tinham custado construir!
– O que é que queres, Rashid? – inquiriu ela.
– Acho que foi um erro ter-te deixado estudar na América – observou ele.
– Não concordo.
– Atreves-te a descordar do teu xeque? – interrogou, trocista.
Jenna forçou um tom de prazer e declarou:
– Noutras alturas não puseste nenhuma objecção.
– Porque convenceste o teu pai de que te deveria deixar viajar! És muito persuasiva, Jenna!
– O que está feito, feito está. O passado é passado – murmurou ela. – Então, Rashid… Diz-me a que é que devo o prazer deste telefonema. Que surpresa!
Rashid franziu o sobrolho. Uma grande surpresa e ainda ficavam várias coisas para explicar.
– E onde está a tua irmã? Ela concorda que esse teu amigo esteja no teu apartamento, numa relação tão íntima contigo que até atende o telefone? – gritou Rashid.
– Oh, não sejas antiquado!
– Eu sou antiquado e ainda não respondeste à minha pergunta. A tua irmã aprova que o teu amigo esteja aí contigo?
– Nadia aprova a minha relação com Brad – declarou Jenna, com certo receio, ao imaginar a expressão do rosto de Brad.
Se Rashid soubesse que a sua irmã estava apaixonada por Brad! E que estavam a morar naquele apartamento como marido e mulher!
– É um bom homem – replicou Jenna, tentado dissimular o tremor da sua voz.
– Era um bom homem – corrigiu Rashid.
– O que é que queres dizer com isso?
– Oh, estou só a afirmar um facto, minha doce Jenna… Simplesmente, que a tua vida em Nova Iorque e Brad serão uma coisa do passado.
– Acho que és tu quem deve dar explicações – declarou Jenna.
– Não adivinhas? – ele lembrou-se com saudades do cabelo castanho dourado e dos olhos cor de âmbar de Jenna, tão diferentes dos olhos das outras mulheres de Quador.
Mas ela devia à sua herança americana por parte da sua mãe algo mais do que o seu aspecto. Perguntou-se como seria a sua vida de mulher independente em Nova Iorque e quantos amigos masculinos teria.
– Chegou o momento, Jenna – declarou ele, suavemente.
O sentido do inevitável começou a bater no seu sangue. Rashid aceitara o seu destino apaixonadamente e aquele destino não era duro para ele.
Jenna não podia acreditar que ele estivesse a referir-se ao que ela suspeitava.
– O momento de quê?
A boca de Rashid torceu-se. Tinham tido pouco contacto nos últimos quatro anos. Alguns encontros formais em companhia dos seus tutores, quando ela fora visitar a sua família. E quando vira o seu cabelo dourado e as curvas quase pecadoras do seu corpo, que a roupa folgada de Quador não conseguira esconder. Rashid quase ficara contente pela presença da sua escolta. Compreendera perfeitamente a necessidade dos seus acompanhantes.
Ela enviara-lhe algumas cartas desde Nova Iorque, nas quais descrevia uma vida que parecia aborrecida com o excesso de trabalho. E, por isso, tinha estado disposto a suportar a sua curta temporada de liberdade. Como esposa dele, esperariam que dedicasse a sua vida a obras de caridade e aquela mudança parecera-lhe uma boa maneira de se habituar.
Jenna era uma mulher inteligente. Tinha sido melhor permitir-lhe uma pequena porção de liberdade do que amarrar completamente as suas asas.
Rashid franziu o sobrolho e replicou:
– Acho que sabes muito bem ao que me refiro, Jenna. Está na altura de voltares para Quador e tornares-te na minha esposa!
A mão de Jenna tremeu.
– Que proposta tão romântica! – ela riu, quase histérica. E viu que Brad abria os olhos incrédulo.
– Se o que procuras em mim é um romance, será melhor que esqueças – declarou ele. A oposição de Jenna começava a excitá-lo.
Ela tentou manter a calma e acrescentou, com desespero:
– Não podes querer que seja a tua esposa, Rashid.
A excitação de Rashid tornou-se em irritação. Um pouco de resistência ficava bem, mas tanta começava a irritá-lo. Ela deveria estar a suspirar de gratidão!
– Os meus desejos não são o mais importante – acrescentou Rashid, com frieza. – O acordo foi feito há muito tempo, como sabes. Mas podes ter a certeza de que eu satisfarei todas as tuas necessidades como minha esposa, Jenna, não duvides.
Ela ouviu o tom profundo e sensual da sua voz e começou a tremer. Sabia bem ao que ele se referia. A sua mestria na cama era bem conhecida.
Mas Jenna duvidava que pudesse dar mais, dar amor. Para ele amar seria um sinal de fraqueza.
– Rashid… não podes falar a sério…
– Achas que te tornas provocante opondo-te… mas deixa-me dizer-te uma coisa, Jenna. Vais ser minha e voltarás para Quador imediatamente, percebeste?
Ela fez um esforço para aceitar o inevitável, sabendo que era uma parvoíce negar-lhe pelo menos a segunda parte da sua ordem. Ela voltaria para Quador e seguir-lhe-ia o jogo. Dentro em breve, Rashid não quereria casar com ela, mas sentir-se-ia satisfeito consigo mesmo por ter tomado aquela decisão.
– Ainda hesitas? – acrescentou Rashid. – Talvez queiras que manda alguém buscar-te…
– Não! – protestou ela. – Reservarei uma passagem no próximo voo.
– Terás um carro à tua espera em Quador para que te leve ao palácio.
E desligou a comunicação.
Capítulo 2
Jenna desligou o telefone.
– Jenna, o que é que aconteceu? – inquiriu Brad.
– Sabes quem era?
Brad anuiu.
– Oh, sim! Nadia contou-me muitas histórias sobre a sua arrogância. Teria de ser surdo para não imaginar que era Rashid. O que é que te disse? Pareces abatida.
– Primeiro vou vestir-me – declarou Jenna, a tremer de frio. – Depois conto-te tudo.
Vestiu rapidamente umas calças de ganga e uma T-shirt. Penteou o cabelo húmido e olhou-se no espelho.
Tinha que actuar rapidamente! Rashid nunca casaria com uma mulher que não achasse atraente!
Voltou para a sala. Brad tinha feito café e ela aceitou uma chávena e sentou-se no sofá.
– Conta-me… – pediu Brad.
Jenna suspirou.
– Quer casar comigo.
Brad quase entornou o café.
– O que é que estás a dizer?
Jenna pousou a chávena e acrescentou:
– Talvez me tenha expressado mal. Na realidade, não acredito que queira casar comigo. Mas acho que é algo que pensa que deve fazer pela honra. Foi um acordo entre os nossos pais há muito, muito tempo.
– Jenna, não estou a perceber…
– Vou tentar explicar. O falecido pai de Rashid e o meu pai eram muito amigos e, quando eu ainda era um bebé, decidiram que se eu reunisse certas condições… certos critérios, seria a esposa de Rashid.
– E quais eram esses critérios? – inquiriu ele.
– Físicos, por exemplo, deveria ser do agrado de Rashid.
– Bom, não acho que haja dúvida sobre isso, não é? – riu Brad.
Ela encolheu os ombros.
– Acho que cumpro com essa condição.
– Falas como se estivesses a falar de um móvel ou de uma coisa!
– É possível que se trate de uma coisa do género – declarou Jenna, lembrando-se do último encontro com ele, com aqueles olhos pretos fitando-a com desejo.
– Qual é o outro critério?
– O óbvio. Devo ser virgem… mas não me apetece falar disso.
– Pois… – anuiu Brad. – Mas há qualquer coisa que não me estás a contar, Jenna. Não me parece que a ideia seja repugnante para ti. Tenho visto fotografias do homem e é muito atraente…
Jenna engoliu em seco. Era verdade.
– Oh, não é nada disso! É um homem espectacular, só que a América mudou-me. Com o que aprendi agora, talvez não queira o que antigamente queria.
– Perdi-me nas tuas reflexões! – protestou Brad.
– Quando vim para os Estados Unidos, tive acesso à liberdade da imprensa pela primeira vez e li o que diziam as revistas da sociedade sobre o estilo de vida de Rashid!
– Estou a começar a perceber – afirmou Brad.
– Rashid é quase doze anos mais velho do que eu… Quando era criança costumava proteger-me…
Ele levara-a com ele para todos os lados durante a sua infância. Ela sempre o admirara. E quando tinha catorze anos suspirara por ele ao vê-lo montado no seu cavalo preto, um magnífico garanhão…
Durante a sua relação com ele, tinha-o feito rir, tinha brincado com ele e Rashid tinha tolerado o que em qualquer outra pessoa teria tomado como sinal de insurreição… E ela tinha sentido que o mundo começava e acabava com Rashid…
– Então, o que é que aconteceu para que agora o detestes dessa maneira?
– Detestá-lo? Não, não o detesto.
– Pela maneira como falas, parece que o odeias…
«Ódio?», pensou Jenna. Na realidade, amara-o sempre. Mas seria sempre um amor não correspondido, insuficiente para a mulher em que se tornara.
Quando fizera dezoito anos, a relação entre eles mudara profundamente. Rashid começara a distanciar-se dela. A atmosfera começara a ser tensa. A relação confortável entre eles tinha-se evaporado…
E ela tivera saudades da antiga relação.
– Rashid não tentou casar comigo quando tive idade para isso – declarou ela. – E o meu orgulho não me permitiu demonstrar-lhe a minha desilusão. Não tive vontade de ficar em Quador e disse que desejava conhecer melhor o país da minha falecida mãe, que queria conhecer a minha terra natal.
Rashid também tivera experiências naquele sentido. Os seus pais tinham morrido num acidente de avião e os seus direitos e heranças tinham chegado mais cedo do que alguém antecipara. Não só tivera que suportar a dor da perda, mas tivera que começar a governar o país. A transição do poder não tinha sido fácil. Muitas pessoas tinham duvidado da sua capacidade para dominar aquelas terras e Rashid tivera que o demonstrar pela força.
Lembrava-se de como Rashid tinha demorado a dar a sua aprovação e consultara o pai dela para que ela viesse estudar direito para os Estados Unidos.
– Reconheço que a sua aprovação para que eu saísse do país me confundiu um pouco, mas depois percebi. A verdade dói… – declarou ela.
– Que verdade?
– Sobre o seu estilo de vida. Que parva que fui! Pensei que como era o meu noivo não andaria com outras mulheres! Mas soube que andava com modelos e actrizes desde a sua adolescência. Tinham-me ocultado essa informação quando estava em Quador, mas quando cheguei aqui, soube tudo. Inclusive agora tem uma amante!… Tem uma mulher em Paris e telefona-me para que me case com ele!
– Tens a certeza? – inquiriu Brad, horrorizado.
– Sim, chama-se Chantal e é a sua favorita. Certamente vai ocupar o quarto de hotel ao lado do nosso na nossa lua-de-mel… São esses os costumes de Quador!
– E o que é que vais fazer, Jenna? Não irás aceitar uma relação assim, pois não?
– Oh, não! – Jenna sorriu. – Voltarei para Quador e vou convencer Rashid de que não sou a mulher com quem quer casar.
– E como é que vais fazer isso? – inquiriu Brad.
– Não te preocupes comigo, Brad – ela estremeceu. – Vou pensar em alguma coisa.
– Mas preocupas-me…
– Não te preocupes. Não me vai obrigar a fazer nada que eu não queira ou que não esteja de acordo com os meus princípios morais.
– Sim, claro – replicou Brad, não muito convencido.
Jenna agitou o seu cabelo ruivo, como uma égua preparando-se para uma corrida.
– Vou reservar a passagem e vou dar uma volta pelas lojas.
O avião de Rashid aterrou em Paris. Uma limusina preta estava à sua espera para o levar ao luxuoso apartamento num selecto bairro da cidade.
Como sempre, um discreto guarda-costas precedeu-o, enquanto outro o seguiu, quase oculto das pessoas.
– Podem deixar-me, agora – declarou Rashid.
– Mas, Excelência…
– Deixem-me! Sabereis da minha presença dentro de alguns minutos – replicou Rashid.
O guarda-costas olhou para ele como se pusesse uma objecção, mas era inútil opor-se à vontade de Rashid.
– Sim, Excelência – declarou.
Rashid bateu à porta. Tinha chave, mas sabia que já não a poderia usar.
A porta abriu-se e Chantal apareceu. Tinha estado à sua espera, pois um telefonema avisara-a da sua visita.
– Chéri, a tua visita inesperada alegra-me muito – murmurou Chantal, provocativamente.
Rashid deu um passo atrás e abanou a cabeça e, embora Chantal parecesse desiludida, acompanhou-o até à imensa sala com uma espectacular vista sobre Paris.
Rashid observou-a pela última vez. Como amante tinha sido inigualável. Não parecia ter quarenta e quatro anos. Tinha um corpo melhor do que muitas mulheres de vinte.
– Um copo, chéri? Ou preferes que te prepare um banho? – murmurou Chantal, com uma voz sensual.
Noutros tempos teria aceite as duas coisas. E teria satisfeito o seu desejo por aquele corpo envolto em seda.
Mas agora já não.
Rashid abanou a cabeça.
– Tenho um carro à minha espera.
– Então?
– Chantal, tenho que te dizer uma coisa…
Chantal ficou imóvel, suspeitando de algo.
– Diz-me, chéri. Não me deixes em suspense.
– Vou casar.
Chantal não reagiu. Aspirou profundamente o fumo do seu cigarro.
– Deveria congratular-te, então? – inquiriu ela, friamente.
Rashid sorriu. Era difícil adivinhar quais eram os verdadeiros sentimentos de Chantal. Nunca os mostrara e aquela era uma das qualidades que ele mais valorizava nela.
– Obrigado.
Chantal voltou a aspirar o fumo do cigarro.
– Quem é ela?
– Jenna.
Chantal anuiu e deixou entrever um gesto de desagrado.
– A rapariga que é meio americana? A que mora em Nova Iorque?
Rashid franziu o sobrolho.
– Sim.
– Deve estar muito contente.
A boca de Rashid fez uma careta. Jenna deveria ter mostrado mais entusiasmo, mas não o fizera.
– Que mulher não estaria? – inquiriu Chantal, com tristeza. Apagou o cigarro e começou a desabotoar o vestido. – Então, vai ser a nossa última vez, chéri? Ou continuarás a ter tempo para mim depois de casar?
Ele olhou para os seios dela e sentiu a urgência do desejo, mas aplacou-o com decisão.
– Não, já chega! – exclamou.
– Tens a certeza, chéri?
– Sim, tenho a certeza. Abotoa o vestido!
Ela fitou-o durante um instante.
– Podes ficar com o apartamento – acrescentou Rashid.
– Obrigada – agradeceu Chantal.
Ele sabia que ela iria aceitar.
– Trouxe-te um presente – apontou para uma caixa.
– O que é?
Rashid abriu-a. Perante os olhos de Chantal apareceram várias fileiras de diamantes. Ele reparou no brilho de prazer do olhar dela.
– Pelos serviços prestados? – inquiriu ela.
Ele abanou a cabeça.
– Como um pequeno sinal de gratidão pela nossa agradável relação.
– Não é preciso que acabe, Rashid – declarou ela, alarmada. – Sabes isso.
Sim, ele sabia. Ela poderia ser dele quando e onde ele quisesse. Jenna não precisava saber. Tinha numerosos conhecidos que o encobririam sem questionar nada, esperando que ele se comportasse como o seu pai.
– Acabou, Chantal – replicou. – Toma o teu tempo, escolhe o que gostares mais e Abdullah virá buscar o resto.
– Então, é assim?
– Sabias que isto iria acontecer algum dia. Era inevitável. Por isso, deixemo-nos de lamentações e lembremos o passado com carinho. Está na hora de me ir embora. O meu avião está à minha espera.
Chantal anuiu e declarou com um nó na garganta:
– Adeus, chéri.
– Adeus, Chantal.
Rashid deu meia volta quando ela gritou:
– Espera!
Ele sabia o que ela ia dizer.
– Se alguma vez… mudares de opinião, sabes que estarei à tua espera.
Ele sorriu friamente e replicou:
– Adeus, Chantal.
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