Read the book: «Pacto de paixão - Inocente no paraíso»
Editado por Harlequin Ibérica.
Uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.
Núñez de Balboa, 56
28001 Madrid
© 2020 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.
N.º 59 -dezembro 2020
© 2011 Maureen Child
Pacto de paixão
Título original: The Temporary Mrs. King
Publicada originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd.
© 2011 Kathleen Beaver
Inocente no paraíso
Título original: An Innocent in Paradise
Publicada originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd.
Estes títulos foram publicados originalmente em português em 2013
Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial.
Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.
Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência.
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Imagem de portada utilizada com a permissão de Harlequin Enterprises Limited.
Todos os direitos estão reservados.
I.S.B.N.: 978-84-1375-282-2
Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.
Sumário
Créditos
Pacto de paixão
Capítulo Um
Capítulo Dois
Capítulo Três
Capítulo Quatro
Capítulo Cinco
Capítulo Seis
Capítulo Sete
Capítulo Oito
Capítulo Nove
Capítulo Dez
Capítulo Onze
Capítulo Doze
Inocente no paraíso
Capítulo Um
Capítulo Dois
Capítulo Três
Capítulo Quatro
Capítulo Cinco
Capítulo Seis
Capítulo Sete
Capítulo Oito
Capítulo Nove
Capítulo Dez
Capítulo Onze
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Pacto de paixão

Capítulo Um
– Acho que nos deveríamos casar.
Sean King engasgou-se com a cerveja e, deixando a garrafa sobre o balcão, começou a tossir enquanto olhava para a mulher que tinha estado a ponto de o matar com cinco palavras. Ainda que ela valesse a pena. O seu cabelo era quase tão negro como o dele, os seus olhos de um azul mais claro do que o seu. Tinha os pómulos altos, as sobrancelhas arqueadas e uma expressão de feroz determinação. Exibia um vestido de verão amarelo que deixava a descoberto duas pernas fabulosas e umas sandálias com florzinhas brancas que mostravam uns dedos com as unhas pintadas de vermelho.
– Casar-nos? Não achas que antes devíamos… sei lá, jantar juntos?
Ela olhou para o empregado, como quem comprova que não estava a escutar a conversa.
– Sei que deve parecer um pouco esquisito…
Sean soltou uma gargalhada.
– Esquisito é pouco.
– Mas tenho as minhas razões.
– Ah, folgo em sabê-lo – Sean tomou outro golo de cerveja e pousou a garrafa. – Até logo.
Ela deixou escapar um suspiro.
– Chamas-te Sean King e estás aqui para uma reunião com o Walter Stanford…
Intrigado, Sean olhou-a fixamente.
– As notícias correm depressa nesta ilha.
– Ainda mais depressa quando o Walter é teu avô.
– Avô? Isso significa que tu és…
– Melinda Stanford – interrompeu ela, olhando em redor.
Para ser a neta rica e mimada do proprietário da ilha, parecia um pouco assustadiça.
– Importas-te que prossigamos a conversa numa mesa? Não quero que ninguém nos oiça.
E Sean entendia porquê. Pedir em casamento um homem que nunca tinha visto em toda a vida não era a maneira mais normal de se apresentar. Bonita, sem dúvida, mas parecia não estar boa da cabeça.
Sem esperar resposta, Melinda dirigiu-se a uma mesa desocupada. Sean observou-a, tentando decidir se devia segui-la ou não.
Trinta anos antes, o bar do hotel devia ser o mais luxuoso da ilha, mas esses dias de glória tinham passado. Os soalhos de madeira estavam tão carcomidos que nem várias capas de verniz poderiam dissimulá-lo. As paredes precisavam de várias demãos de pintura. Ainda que restasse um ou outro laivo art deco, pensou Sean. Os espelhos redondos, as mesas retangulares com rendilhados ou apliques nas paredes estilo Tiffany. Era um lugar lindo, mas estava a precisar de obras.
Se fosse seu, Sean derrubaria a parede da entrada para substituí-la por uma de vidro, desse modo os clientes teriam uma fabulosa panorâmica do mar. Conservaria o estilo art deco. Deformação profissional, pensou.
Mas aquele bar não era seu e havia uma mulher linda, ainda que estranha, à sua espera.
Como só tinha o encontro com Walter Stanford no dia seguinte e tinha várias horas livres… Sean sorriu para si mesmo enquanto se sentava diante dela, esticando as pernas.
Segurando a garrafa de cerveja sobre o estômago, inclinou a cabeça de lado para estudá-la em silêncio durante uns segundos, esperando que se explicasse. E não teve de esperar muito.
– Sei que vieste cá para comprares o lote de North Shore.
– Não é segredo nenhum – disse ele, tomando outro gole de cerveja. – Certamente todos na ilha sabem que os King estão a negociar com o teu avô.
– Sim, é verdade – assentiu Melinda, pondo as duas mãos sobre a mesa. De alguma forma, conseguia ter um aspeto cândido e incrivelmente sexy ao mesmo tempo. – Lucas King esteve cá há dois meses, mas não chegou a acordo com o meu avô.
Irritante, mas verdade, pensou Sean. De facto, ele também tinha tido uma conversa telefónica com Walter e não tinha corrido bem. E essa era a razão pela qual tinha ido ali em pessoa.
Tesouro era uma das ilhas privadas mais pequenas das Caraíbas e Walter Stanford, que era praticamente um senhor feudal ali, tinha investimentos na maioria dos negócios e vigiava a ilha como um pastor alemão.
O seu primo, Rico, queria construir ali um exclusivo resort com a ajuda da construtora King, que pertencia a Sean e aos meios-irmãos, Rafe e Lucas. Mas antes tinham de conseguir o lote, de maneira que andavam há meses a tentar convencer Stanford de que um hotel da cadeia King seria ótimo para a ilha porque criaria postos de trabalho e atrairia turistas endinheirados.
Rico tinha estado ali pessoalmente para falar com Stanford, seguido de Rafe e Lucas, mas nenhum dos três tinha conseguido nada. De maneira que era a vez de Sean, cujo encanto e simpatia costumavam convencer qualquer um.
– Eu não sou o Lucas – disse-lhe. – E farei um acordo com o teu avô, garanto-to.
– Não contes com isso, é muito casmurro – replicou Melinda.
– Não conheces os King. Nós inventámos o termo «casmurro».
Suspirando, Melinda inclinou-se um pouco para diante e o decote do seu vestido abriu-se, permitindo-lhe ver um sutiã de renda.
– Se queres mesmo o lote, há uma maneira de consegui-lo.
Rindo, Sean abanou a cabeça. Sim, era lindíssima, mas ele não estava à procura de esposa. Conseguiria o lote à sua maneira e não precisaria da ajuda de ninguém.
– A única maneira de consegui-lo é casando-me contigo?
– Exatamente.
– Não falas a sério, pois não?
– Completamente a sério.
– Estás a tomar medicação? – troçou Sean.
– Não, ainda não – respondeu ela. – Olha, o problema é que o meu avô está a fazer campanha para me ver casada e com filhos.
Sean fez uma careta. Os seus irmãos e muitos dos seus primos e amigos tinham-se casado ultimamente, mas ele não tinha intenção de o fazer. Já tinha passado por isso e tinha sobrevivido para o contar. Ainda que ninguém da sua família soubesse nada sobre o seu breve e desastroso casamento.
E não se pensava casar outra vez.
– Pois então boa sorte – disse-lhe.
Mas quando se ia levantar da cadeira, ela deu-lhe o braço e o arrepio que lhe provocou o toque da sua mão apanhou-o desprevenido…
E ela também parecia ter sentido algo porque desviou a mão de imediato.
Não importava, pensou Sean. Podia sentir-se atraído por uma mulher sem fazer nada a esse respeito. De facto, não se deixava levar pelo seu membro viril desde que tinha dezanove anos.
– Ao menos podias ouvir-me – insistiu Melinda.
Franzindo a testa, Sean voltou a sentar-se. Não estava interessado no que pudesse dizer, mas para quê arriscar-se a ofender um membro da família Stanford?
– Muito bem, sou todo ouvidos.
– Quero que te cases comigo.
– Sim, isso já eu sei, mas porquê?
– Porque é o mais lógico.
– Em que universo?
– Tu queres o lote para que o teu primo construa um hotel e eu quero um marido temporário.
– Temporário?
Ela riu suavemente, um som rico e musical, o cabelo negro flutuando em redor da cara como uma auréola.
– Pois claro – respondeu. – Pensavas que te estava a propor um casamento para a vida? Com um homem que não conheço?
– Foste tu quem me propôs casamento inclusive antes de me dizeres o teu nome.
– Sim, bom… – Melinda ficou séria. – A questão é que quando vires o meu avô, ele vai sugerir a venda do lote em troca deste casamento.
– Como sabes?
– Porque já tentou quatro vezes.
– Não tentou com o Lucas ou o Rafe.
– Porque eles já são casados.
– Ah, é verdade. Porque estaria a tentar dar sentido àquela loucura?
– O meu avô oferecer-te-á a venda do lote; em troca casas comigo e eu peço-te que aceites. Será um casamento temporário.
– Durante quanto tempo? – Sean não podia crer que estivesse a fazer essa pergunta. Ele não queria uma esposa, temporária ou não. O único que queria era comprar o lote.
Melinda franziu a testa, pensativa.
– Eu acho que dois meses seriam suficientes. O meu avô acha que inclusive um casamento arranjado poderia converter-se em algo real caso se lhe dê tempo, mas eu não.
– Também acho – assentiu Sean.
– Mas se fôssemos casados, ainda que só durante dois meses, o meu avô pensaria que tentámos e, simplesmente, não correu bem.
– E elegeste-me a mim como marido temporário… porquê?
Ela recostou-se na cadeira, tamborilando sobre a mesa com os dedos. Tentava parecer composta e calma, mas não podia dissimular o nervosismo.
– Tenho andado a pesquisar-te um pouco.
– O quê?
– Ouve, não vou casar com qualquer um.
– Ah, pois claro – disse ele, irónico.
– És formado em Ciências Informáticas e, ao terminares a carreira, meteste-te no negócio com os teus meios-irmãos. És um técnico, mas também és aquele a quem todos acodem quando há problemas – Melinda fez uma pausa e Sean olhou-a, perplexo. – Vives numa antiga torre de água remodelada em Sunset Beach, Califórnia, e adoras as bolachas que a tua cunhada faz.
Franzindo a testa, Sean tomou outro gole de cerveja. Não gostava nada que o tivesse pesquisado.
– Não te interessam os compromissos – prosseguiu ela. – És um monógamo compulsivo…
– Quê?
– Que andas com uma mulher atrás de outra. As tuas ex-namoradas falam bem de ti e isso diz-me que és boa pessoa, ainda que não sejas capaz de manter uma relação.
– Desculpa? – Sean não saía do seu assombro.
– A tua relação mais longa foi na universidade e durou nove meses, mas não consegui descobrir o que se passou…
E não o faria, pensou ele, que já tinha tido mais do que suficiente. Bonita ou não, estava a começar a exasperá-lo.
– Bom, acabou-se – disse-lhe. – Conseguirei o lote e fá-lo-ei à minha maneira. Não estou interessado nos teus enredos, de modo que tenta com outro, bonita.
– Espera aí… – Melinda olhava-o com uns olhões azuis e Sean vacilou. – Sei que tudo isto soa muito esquisito e desculpa se te ofendi.
– Não me ofendeste – assegurou ele. – Mas não estou interessado.
Melinda sentiu uma onda de pânico. Tinha metido a pata na poça, mas não podia arriscar a que Sean King a recusasse.
– Deixa que comece de novo, por favor.
Sean olhou-a, receoso, mas não se levantou da cadeira e isso pareceu-lhe um bom sinal. Mas por onde começar? Desde que soube da visita de Sean King tinha andado a planear emboscá-lo, daí que tivesse pesquisado a sua vida. Mas não tinha pensado como ia explicar tudo aquilo sem parecer uma demente.
– Bom, deixa-me começar outra vez – Melinda respirou profundamente. – A questão é que quando me case terei acesso a uma verba com a qual poderei viver toda a vida. Adoro o meu avô, mas ele é um homem muito antiquado que acha que as mulheres têm de se casar e ter filhos. Não para de me procurar marido e pensei que se pudesse escolher eu…
– Muito bem, isso eu entendo – interrompeu Sean. – Mas porquê eu?
– Porque isto nos beneficiaria aos dois – respondeu ela. – Tu consegues o lote e eu consigo a verba.
Ele fez uma careta, nada convencido.
– Poderia pagar pelo teu tempo – sugeriu Melinda.
– Não penso aceitar que me pagues para me casar contigo – replicou Sean, indignado. – Não preciso do teu dinheiro.
Essa reação disse-lhe que tinha escolhido bem. Milhares de homens teriam aceitado tal proposta, mas o seu fideicomisso, por importante que fosse para ela, certamente não era mais que uns trocos para Sean King. E ao sentir-se ofendido com a proposta deixava claro que era um homem com personalidade.
– Muito bem. Mas o teu primo e tu querem construir um hotel em Tesouro, não querem?
– Sim.
– E para isso, precisam de um terreno.
– Claro.
– E para conseguir o lote precisam de mim. Sei que não acreditas, mas deverias – disse Melinda ao ver que não parecia convencido. – Combinaste com o meu avô de manhã, não foi?
– Vejo que sabes tudo.
– Por que não jantamos juntos esta noite? Talvez assim te possa convencer.
Sean esboçou um meio sorriso que a fez engolir em seco. Era um homem muito bonito que transpirava encanto e…
E aquilo poderia ser perigoso, pensou com os seus botões.
– Jantar, eh? – repetiu ele, deixando a cerveja sobre a mesa. – Muito bem, eu nunca recuso a oportunidade de jantar com uma mulher bonita. Mas advirto-to: não estou interessado em casar.
– Eu sei. Por isso é que és perfeito.
Sean abanou a cabeça, rindo.
– Ainda não percebi se estás louca ou não.
– Não, não estou louca. Simplesmente, sou decidida.
– Bonita e decidida – murmurou ele. – Uma combinação perigosa.
– Há um restaurante muito bom na ilha: Diego’s. Vemo-nos lá às oito.
– Às oito no Diego’s – recordou-lhe ele, levantando-se.
Melinda observou-o enquanto se afastava. Era alto e fibroso e movia-se com a graça dos homens seguros de si mesmos. Na realidade, Sean King era mais do que tinha imaginado.
Só esperava que não fosse mais do que ela pudesse lidar.
– Que sabes da Melinda Stanford, Lucas? – Sean estava no cais, a contemplar os barcos de pesca dirigindo-se ao porto, com o smartphone colado à orelha.
– É a neta do Walter – respondeu o meio-irmão.
– Sim, isso já eu sei.
– E o que mais te interessa dela?
– Conheceste-a na ilha?
– Só a vi durante um instante – respondeu Lucas. – A minha estadia foi muito breve.
– Pois – assentiu Sean, pensativo.
– Temos problemas? O famoso encanto de Sean King não está a funcionar?
– Nem sonhes. Disse-te que conseguiria o lote e fá-lo-ei.
– Então boa sorte com o velho. Acho que está imunizado contra o encanto pessoal.
– Isso é o que vamos ver – disse Sean.
Capítulo Dois
– Um lugar muito romântico para tratar de um assunto de negócios – comentou Sean enquanto se sentava diante dela.
Melinda fez um esforço para sorrir, ainda que não lhe apetecesse. Aquilo era demasiado importante e não devia cometer um único erro. Tinha de convencer Sean King para que se casasse com ela…
– Não era minha intenção procurar um lugar romântico, só queria que estivéssemos sossegados.
– Pois conseguiste ambas as coisas – disse Sean.
O empregado foi nesse momento tomar nota do pedido e os dois olharam para a ementa antes de pedirem o jantar. Sean pediu-lhe um copo de vinho e apoiou os braços na mesa, à espera. A sua expressão permanecia inescrutável e Melinda não sabia se era bom ou mau sinal. Mas só havia uma forma de descobrir.
– Sinto muito ter-te soltado aquilo de repente.
Sean encolheu os ombros.
– Não acho que haja uma boa forma de propor casamento a um estranho.
– Sei que tudo isto te deve parecer muito estranho, mas deves entender que o meu avô é muito protetor comigo porque sou a única neta.
– Tanto que tenta casar-te à força toda?
Melinda ergueu-se na cadeira. Ela podia queixar-se tudo o que quisesse do avô, mas não deixaria que ninguém, especialmente alguém que não o conhecia, se metesse com ele.
– Só me tenta proteger, à sua maneira.
– E se tu fosses uma tímida donzela da Idade Média, entenderia – replicou Sean.
Aquilo não tinha começado bem, mas Melinda decidiu ignorar os comentários. Não entendia e era lógico.
– Os meus pais morreram num acidente de avião quando eu tinha cinco anos e o meu avô ocupou-se de mim desde então.
– Ai, lamento, não sabia.
Sean franziu a testa enquanto tomava o copo de vinho que o empregado acabava de deixar sobre a mesa, mas Melinda continuava sem saber o que pensava porque a sua expressão era inescrutável. Ela, em troca, costumava ser direta e sincera… bom, não estava a ser exatamente sincera com o avô, mas há anos que o tentava fazer mudar de opinião e era impossível.
– O meu avô pertence a uma geração que acredita em proteger as mulheres e está a fazer-se velho – Melinda suspirou. – Tu vens de uma grande família e tens uma relação muito estreita com os teus irmãos. Essa é outra razão pela qual te contei os meus planos, pois entendes a lealdade familiar.
– Sim, é verdade – admitiu ele. – Entendo os motivos do teu avô, o que não entendo é por que estás tu disposta a aceitar essa imposição.
Melinda puxou a bainha do vestido, mas não conseguia que lhe cobrisse os joelhos.
– Porque o adoro e não quero que se preocupe…
– E?
Tinha razão, havia mais uma coisa.
– E como te disse, uma vez casada terei acesso ao meu fideicomisso.
– E casando-te comigo, não te preocupará que o teu novo marido fuja com o dinheiro.
– Exatamente – assentiu ela.
– E quanto duraria o casamento?
– Já te disse, dois meses – respondeu Melinda, mais animada. Há meses que esboçava o plano e, de momento, Sean King permanecia sentado diante dela. Não tinha dito que sim, mas também não se tinha levantado e ido embora.
– É tempo suficiente para convencer o meu avô de que ao menos tentámos.
– E quando o nosso casamento «fracassar», achas que tentará deixar de te casar?
– Sim, acho que sim – Melinda mordeu os lábios. – Espero que sim. Estou cansada dos homens que tentam ganhar o favor do meu avô. Além do mais, esta é minha única possibilidade de conseguir o fideicomisso à minha maneira. Serei casada, como ele quer, mas será um marido escolhido por mim e o tipo de casamento que eu quero.
– Estou a ver.
A brisa agitava a franja de Sean, levantando-a.
– Se aceitares, divorciar-nos-emos passados dois meses – prosseguiu Melinda. – Eu conseguirei o meu fideicomisso, tu conseguirás o teu lote e depois divorciar-nos-emos. Que te parece?
Sean ainda estava convencido que aquela jovem tomava algo que não devia tomar. E no entanto…
Passando um braço pelas costas da cadeira, estudou-a atentamente.
Uma noite quente, vinho fresco e uma bela mulher sentada em frente dele. No seu mundo, tudo isso soava lindamente. Melinda Stanford era perfeita. Era linda, disso não tinha a menor dúvida. Mas talvez estivesse um pouco maluca.
Ainda que isso não significasse que não fosse tomar em consideração a sua proposta. De facto, há horas que matutava nela.
O seu avô, Walter Stanford, tinha recusado todas as ofertas da construtora. Não estava interessado, por alta que fosse a verba que lhe oferecessem. Ou não lhe interessava mesmo o dinheiro ou estava tão louco como a neta. Mas não, o velho não estava louco. Era muito astuto.
Walter sabia o que queria e não estava disposto a aceitar menos. Como podia um King criticar isso? Eles faziam o mesmo; jamais aceitavam uma negativa e nunca desistiam quando queriam algo.
Sean sorriu ao pensar que certamente Walter e ele se dariam às mil maravilhas.
– Porque sorris? – perguntou-lhe Melinda.
– O quê?
– Estás a sorrir.
Parecia incomodada, como se achasse que se estava a rir da sua oferta. Uma oferta que talvez tivesse feito já a outros homens, pensou então.
– Quantas vezes já tentaste isto? – perguntou-lhe.
Melinda franziu a testa.
– Tu és o primeiro.
– E porquê eu?
– Já te disse, tenho andado a ler coisas sobre ti.
– Sim, mas devias ter decidido antes que eu seria o candidato ou não te terias incomodado a fazê-lo. Ela mordeu os lábios.
– Eu sabia que o meu avô estava em negociações contigo e quando vi uma fotografia tua numa revista… enfim, pareceu-me que tinhas um rosto afável.
– Afável? – repetiu ele. – Um gatinho é afável, um velhinho é afável. Os homens, especialmente os King, não são afáveis.
– Já estou a ver – murmurou Melinda.
Tinham-lhe chamado divertido, bonito, inteligente e algumas vezes frio ou distante. Mas nunca afável. Que fotografia sua poderia ter-lhe dado essa impressão?
– Onde viste essa fotografia?
– Numa revista de mexericos – Melinda tinha corado, como quem se envergonha de reconhecer que tinha lido uma dessas publicações. – Estavas num jogo de futebol com um dos teus irmãos…
Sean assentiu com a cabeça.
– Com o Lucas. Todos os anos vamos juntos ao primeiro jogo da temporada.
Mas se a sua secretária não lhe tivesse mostrado a foto, não teria sabido. Ele nunca prestava atenção aos fotógrafos, sempre pendentes da família King.
– Na fotografia estavas a sorrir e parecias muito simpático.
– Bom, isso é melhor do que afável.
Em geral, Sean tinha uma atitude descontraída nos negócios, algo para o qual os seus oponentes nunca estavam preparados. Mas no que se referia às mulheres, a maioria não o descreveria como afável. Ou, pelo menos, era o que esperava.
– A questão é que parecias um homem com o qual poderia falar disto e quando descobri que virias à ilha pessoalmente decidi…
– Decidiste mentir ao teu avô.
– Não lhe vou mentir porque na realidade casar-nos-íamos.
Sean teve de dissimular um sorriso. Aparentemente, Melinda Stanford jogava com regras próprias e isso era algo que admirava. Inclusive podia ver que, do seu ponto de vista, ele era o marido temporário perfeito.
O jantar chegou antes que pudessem dizer mais nada e, durante uns minutos, concentraram-se nos pratos. A comida era excelente, o ambiente melhor ainda e a linda mulher que tinha diante era ouro sobre azul.
Melinda não parecia disposta a preencher o silêncio com uma conversa incessante e Sean começava a descontrair. Não era um silêncio incómodo, pelo contrário. Era como se fossem uma equipa…
Uma equipa?
– Tens vivido aqui toda a vida? – perguntou-lhe.
– Desde os cinco anos – respondeu ela, voltando a cabeça para o mar. A maré tinha descido e havia um casal a passear pela areia, ao luar. – É uma ilha linda e, como o meu avô não permite que os grandes cruzeiros atraquem aqui, os clientes costumam ser gente endinheirada que procura intimidade.
– Eu sei – Sean assentiu, sorrindo. – Os King também fazem os seus trabalhos de casa.
– Então saberás que Tesouro é o lugar perfeito para construir o resort – disse ela, deixando o garfo e a faca sobre o prato.
– Estou de acordo.
Era mais que perfeito, quase como se tivesse sido desenhado especificamente para se ajustar aos seus planos. O hotel de Rico no México era muito moderno, lindo e elegante, mas o de Tesouro seria diferente. O seu primo queria fazer algo especial, algo de que todo o mundo falasse.
E com a construtora King atrás, assim seria. O projeto básico já estava feito, a equipa preparada para partir para a ilha. O único de que precisavam era o beneplácito de Walter Stanford.
– Também seria bom para Tesouro – disse Melinda. – Temos uma pequena construtora na ilha, o meu avô criou-a há vinte anos e acho que seria uma grande ajuda para a tua.
– Sim, claro.
Sean também sabia disso. Naturalmente, os King levariam os seus próprios homens, mas contratar gente da ilha faria com que as coisas se mexessem mais depressa e criaria boas relações com os ilhéus.
Tudo seria perfeito… se não se importasse de casar com ela para o conseguir.
Os olhos de Melinda brilhavam à luz das velas e o seu sorriso era tão bonito que Sean teve de fazer um esforço para não o beijar…
– Estás a ouvir?
– O quê? Sim, pois claro, a construtora.
– Estava a dizer que isto poderia ser bom para todos. Tu consegues o lote para o hotel, a população de Tesouro conseguiria postos de trabalho e…
– E tu consegues o fideicomisso.
– Isso mesmo – Melinda tomou um gole de vinho.
– Que me dizes? Casas comigo?
Duas palavras que o faziam sentir um arrepio. Sean tinha jurado não voltar a cometer o erro de se casar, mas aquilo era diferente.
A primeira vez que disse: «Sim, quero» tinha sido um desastre. Desta vez conseguiria algo para além de um divórcio rápido. Desta vez, ele deteria o controlo. Seria ele a dizer quanto tinha terminado, ele a dar meia volta.
E desta vez, o seu coração não estaria envolvido.
De maneira que assentiu com a cabeça.
– Muito bem, temos um acordo.
O sorriso de Melinda deixou-o sem ar.
Ela deu-lhe a mão e, como tinha ocorrido na primeira vez, assim que roçou a sua pele sentiu uma descarga que lhe subiu pelo braço até lhe chegar ao torso, fazendo com que lhe batesse o coração.
Se Melinda tinha sentido o mesmo não se notava, de maneira que tentou dissimular, lutando contra uma atração que era mais poderosa do que teria esperado.
– Só há mais uma coisa – disse ela então.
– O quê?
– Nada de sexo.
Sean observou-a em silêncio durante um longo minuto até que, por fim, Melinda teve de afastar o olhar.
Aquela era uma experiência nova para ele. A maioria das mulheres mostrava-se interessada em conhecê-lo… inclusive tinha recusado uma jovem muito bonita no bar do hotel umas horas antes. Mas o seu cabelo loiro e os seus olhos castanhos não o tinham atraído nada porque não deixava de pensar em Melinda Stanford.
A mulher que se queria casar com ele, mas não ir para a cama com ele.
Que se estava a passar? Não podia ter imaginado a atração que havia entre eles. E por sinal, não estava a imaginar a dimensão do seu próprio desejo por aquela mulher. Se se tivessem conhecido noutro lugar, noutras circunstâncias, teria tentado seduzi-la para que passassem juntos o fim de semana. E não tinha a menor dúvida de que tê-lo-ia conseguido.
Então qual era o problema?
– Nada de sexo – repetiu Sean.
– Para quê complicar as coisas? Este é um acordo benéfico para os dois, mas não um casamento a sério, de modo que não vejo motivo para…
– …irmos para a cama.
– Isso mesmo – assentiu Melinda.
– Ah, ena, isto está a melhorar – murmurou Sean.
– São só dois meses – recordou-lhe ela. – Não acho que isso te vá matar.
– Acho que conseguirei controlar-me – disse ele, trocista. Ainda que devesse admitir que não seria uma festa. Desejava-a e ser casado com ela… a atração aumentaria com o contacto?
Talvez devesse ligar a Rico para lhe perguntar se estava disposto a construir o resort noutro lugar. Mas ele sabia que era Tesouro ou nada. Aquele lugar era perfeito para o que queriam.
Qualquer um que quisesse fazer negócios ali tinha que lidar com Walter Stanford e Stanford era um homem que conhecia o valor da privacidade, o qual era perfeito para o resort que tinham em mente. Os multimilionários iriam ali para desfrutar longe dos grupos massificados de turistas e, sobretudo, dos paparazzi.
Tudo era perfeito.
Salvo pelo assunto do casamento.
– Além do mais… – começou ela a dizer.
– Há mais? Tens uma masmorra na qual me pensas encerrar? Ou talvez queiras que viva a pão e água durante os próximos dois meses.
– Não digas parvoíces.
Sean abanou a cabeça.
– Queres que nos casemos e vivamos juntos, mas vais-me privar do mais divertido do casamento.
Melinda pigarreou, nervosa, e Sean soube que sentia o mesmo que ele. Quanto tempo aguentaria a regra do celibato?, perguntou-se, sem poder dissimular um sorriso. Aquilo começava a ficar interessante.
– Não vamos fazer isto por diversão…
– Claramente.
– E há outra coisa… esta é uma ilha muito pequena, de modo que não te poderias deitar com mais ninguém. O meu avô descobri-lo-ia em seguida.
Sean ficou tenso.
– Quando dou a minha palavra, cumpro-a.
Melinda assentiu com a cabeça.
– Só queria que ficasse claro.
– Está claro, não te preocupes.
– Então vamos em frente?
Sean olhou-lhe para os olhos azuis e disse a si mesmo que era um erro, mas não encontrava outra maneira de conseguir o que queria.
– Sim, vamos em frente.
Não podia acreditar que fosse fazê-lo. Não podia crer que ia casar outra vez. E o casamento não seria mais real do que o anterior.
Mas ao menos tinha a certeza de que o casamento não significaria nada.