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Joaquim Carlos Paiva de Andrada
Relatorio de uma viagem ás terras do Changamira

Publicado pela Editora Good Press, 2022
EAN 4064066411305
Índice de conteúdo
RELATORIO
I
Viagem de Gouveia a Changamira e regresso a Gouveia
II
Algumas considerações relativas á politica interna dos districtos de Manica e de Tete
III
Considerações relativas á politica a seguir com alguns paizes que envolvem a provincia de Moçambique
RELATORIO
Índice de conteúdo
Quando regressei a Gouveia, da viagem que fiz ás terras de Gungunhana, julguei conveniente não partir para Manica sem conferenciar com Manuel Antonio de Sousa que tinha ido a Moçambique, e que, demorado de semana para semana em Quelimane, só chegou a Gouveia no dia 17 de agosto.
N'esse mesmo dia chegaram tambem ahi uns pretos vindos de Manica, dizendo que acabavam de apparecer em Macequece uns landins perguntando por fazendas minhas que deviam ali estar, e que só por se acharem bem guardadas e por ter a gente do paiz assegurado que taes fazendas não existiam, é que provavelmente os landins não roubaram algumas.
Não vi n'esta noticia motivo que me impedisse a partida para Macequece, mas em attenção á opinião de Manuel Antonio e de um principe ou grande de Manica, meu antigo guia n'essa terra, que ha algum tempo esperava Manuel Antonio em Gouveia, resolvi não ir para Manica, sem ter conhecimento do resultado da missão que Gungunhana tinha enviado a Lisboa, e aproveitar o tempo da demora forçada para visitar um paiz a que me referi no relatorio da viagem ás terras dos landins, e onde de facto importava com mais urgencia chegar do que á antiga feira portugueza de Manica, objectivo principal da missão de que fui encarregado.
Por estes motivos, resolvi partir sem demora n'esta direcção.{4}
I
Índice de conteúdo
Viagem de Gouveia a Changamira e regresso a Gouveia
Índice de conteúdo
Fome no paiz. Uma circumstancia tornava extremamente difficil a realisação d'esta viagem; a falta de chuvas tinha motivado a perda das colheitas de mantimento, milho, mapira, mechoeira e nachenin, e a fome era quasi geral em toda a Africa austral. Os homens na Gorongosa, no Barue, por toda a parte, andavam espalhados pelo mato a grandes distancias para apanhar fructos e raizes, que traziam ás povoações para matar a fome ás mulheres e ás creanças, o que muitas vezes não conseguiam, morrendo muita gente por falta de alimento. N'este relatorio só desejo tratar do que importa ser conhecido para basear trabalhos futuros; não fallarei portanto das miserias que fui presenceando, nem das extraordinarias difficuldades que encontrei em mover-me com umas oitenta cargas n'um paiz que se achava em tão desgraçadas condições.
Relatorio e mapa de Mauch De todos os nomes que me eram conhecidos pela leitura do relatorio de Mauch e do mappa que o acompanha, apenas o de Caterere me era tambem citado em Gouveia, e como ahi havia bastante gente que conhecia o paiz que eu queria visitar, logo suppuz que Mauch teria mal escripto os nomes que foi ouvindo, e esperei ir achando no progresso da viagem a equivalencia entre os nomes de Mauch e os que me indicavam em Gouveia. Foi portanto para as terras do regulo ou mambo Caterere que primeiro me dirigi.
Viagem pelo Barue Entre estas terras e Gouveia está apenas comprehendido o antigo reino do Barue. Como é já sabido, o rio Inhandue, que banha Gouveia, separa o Barue do praso Gorongosa, e como se vê no mappa junto, o rio Caurese, importante e caudaloso affluente do Aruenha, separa o Barue da terra de Caterere que se chama Guessa. O Barue, na parte exactamente comprehendida entre Gouveia e a povoação do Caterere, acha-se despovoado e não havia caminho aberto n'essa direcção; por isso, parti de Gouveia dirigindo-me mais para o norte até á aringa de Inhangona, e d'ahi voltando para sudoeste segui para a aringa de Tumbura indicada no mappa, quasi na fronteira do Barue e na latitude da povoação do Caterere. Tendo partido de Gouveia em 26 de agosto, só cheguei á aringa de Tumbura em 5 de setembro.
Esta viagem por caminho que se abra directo, o que se obtem logo que tres ou quatro filas de carregadores ou cypaes por elle tenham passado, e em condições normaes, póde ser feita em tres dias.{5}
Do Tumbira á aringa do Bonga, capitão do Caterere. Tinha combinado com Manuel Antonio que esperaria na aringa de Tumbura que um dos capitães d'elle Manuel Antonio fosse adiante com um presente da sua parte ao Caterere, avisando-o da minha visita de amisade, e que só depois da volta do emissario é que eu saíria do Barue para Guessa; mas como o mencionado capitão, que devia ter-se juntado a mim poucos dias depois da minha partida de Gouveia, não apparecesse; como por informações obtidas na localidade eu soubesse que podia passar do Barue directamente para a terra de Inhachiranga, atravessando o Aruenha a jusante da foz do Caurese, ponto onde termina a terra de Guessa, e me fosse assegurado por um homem de Inhachiranga que se achava em Tumbura, que a terra era curiosa de visitar pelas lavagens de oiro que ahi faziam e que encontraria n'ella o melhor acolhimento; como ainda mais eu quizesse quanto possivel evitar a perda de tempo, resolvi arranjar carregadores em Tumbura que me levassem a Inhachiranga, para ahi, aproveitando o tempo com o estudo do paiz, esperar o capitão de Manuel Antonio que devia ir ao Caterere annunciar a minha visita.
Parti no dia 10 de setembro, mas os carregadores e guias, em logar de me levarem directamente ao Aruenha, ou, o que a isso teria equivalido, pelo caminho que trouxe na volta, indicado no mappa, o que apenas atravessa a ponta não habitada da terra de Guessa, comprehendida entre o Caurese e o Aruenha, talvez com a idea de encurtar duas ou tres horas de serviço, levaram-me por caminho um pouco mais ao sul, que me conduziu ao Caurese em altura tal que, ao atravessar o rio, me achei de surpreza junto á aringa de um capitão do Caterere chamado Bonga.
Rio Caurese. O Caurese tem aqui uns 50 metros de largo e excellente agua com approximadamente uma altura media de 1 metro em toda a largura do leito que é de areia. Tem porém de espaço a espaço grandes rochas, e o rio até á foz é absolutamento improprio para a navegação. Vi-o na estiagem e tendo havido grande secca. No tempo das chuvas engrossa muito, e mesmo em seguida a um só dia de grande chuva não dá passagem a vau.
Foi no dia 11 de setembro que cheguei á aringa do Bonga. Os carregadores de Tumbura, a quem eu nada tinha que dar de comer, não podendo por preço algum comprar-lhes mantimento, voltaram para trás, ficando em um acampamento junto á aringa com os motores (cargas) e os meus muleques.
Como era de esperar, o chefe da aringa, logo que eu passei por ella, e não me achava em condições de seguir com os carregadores que trouxe do Barue, não me facilitou a marcha, para diante, apesar de eu lhe dizer que ia só até Inhachiranga para ahi esperar o capitão que devia preceder-me na visita que eu desejava fazer ao Caterere, o instou muito para que não saisse de Guessa sem primeiro ir visitar o mambo. Vi-me assim moralmente obrigado a ir á povoação do Caterere, para onde parti no dia 12, seguindo o caminho indicado no mappa.
Visita ao Caterere. Tendo, ao chegar proximo da povoação na tarde do dia 13, feito avisar o mambo da minha visita, cheguei na madrugada do dia 14 á{6} aringa que se chama de Inharichinga. A primeira entrevista com o mambo Caterere ou Gutuqui, foi logo muito cordial. Dei-lhe alguns presentes de pouco volume e peso que commigo tinha levado, como colares de coral, espelhos, barretes, camisas, pannos ricos, explicando-lhe que só ali me achava para satisfazer aos desejos do seu capitão Bonga, pois desejava ter sido precedido por um capitão de Manuel Antonio, que trazia um bom presente de fazendas e um recado de amisade de seu amo. Por varias vezes Caterere me disse que Manuel Antonio lhe viria fazer guerra, e que o trataria como tratou ao Macombe, rei do Barue. Procurei fazer desapparecer esta idéa, repetindo-lhe que pelo contrario Manuel Antonio lhe mandava um presente de amisade, e explicando-lhe que o Rei de quem Manuel Antonio era subdito, não queria guerra, mas amisade, não só com Caterere, como com todos os regulos visinhos, e que para estreitar relações de amisade eu a todos tencionava visitar. Durante o dia fez-me Caterere repetidas visitas á palhota onde fiquei, e aconselhou-me a que, em logar de ir para Inhachiranga na margem esquerda do Aruenha, fosse para uma povoação de um Camunda, na margem direita e portanto ainda da terra de Caterere, podendo eu d'ahi ir ver os logares proximos onde gentes de Guessa e das terras vizinhas costumam lavar ouro.
Levava commigo uma das armas Winchester express pertencentes ao districto de Manica. O mambo quando a viu pediu-me para lh'a explicar, e como estas armas são muito certeiras e permittem um tiro muito rapido, fiz da porta da aringa, em seguida e em differentes direcções, fogo contra delgados troncos de arvores a grandes distancias, ficando o mambo muito admirado quando foi junto ás arvores ver o resultado dos tiros. Cito esta circumstancia para acrescentar que, apesar de eu ter ido só com tres muleques e estar morando na aringa, vieram pouco depois dizer ao mambo que a gente das proximas povoações tinha fugido ao ouvir os tiros, suppondo que era guerra!
A aringa do Caterere é pequena, e muito fracamente construida; tem proximo uns montes de rochas que a commandam completamente.
Com as repetidas perguntas que a varios fiz a respeito da passagem de Mauch por estas terras, ha uns vinte annos, convenci-me que ninguem tem idéa d'este viajante.
A latitude de 17° 30' 30", que achei para esta aringa, concorda com a posição em que Mauch a poz na sua carta.
Não parece que o paiz tenha sido visitado por estrangeiros, e não conhece esta gente senão Tete, Sena e sobretudo o nome de Gouveia. Empregam varias palavras portuguezas. Estranhei ouvir-lhes dizer quando fallavam commigo: senhor, pois que os nossos pretos nas cidades, e os proprios brancos fallando de outro branco com os pretos, fazem uso da palavra mosungo.
Não vi entrar preto algum na minha palhota ou na do mambo sem que primeiro dissesse: licença, palavra que parece de uso commum, não só em Guessa, como nas outras terras onde depois estive.
Recebi do Caterere muitas informações ácerca dos mambos e campos de oiro que me ficavam para a frente; soube tambem que da aringa{7} a Manica são cinco dias de caminho, havendo apenas entre as duas terras a de Munhama, que se atravessa em dois dias. Não se passa pelo Aruangua, o que prova que este rio nasce a leste do caminho seguido.
Não consentiu o mambo que eu partisse sem ser seu hospede durante uma noite. Na madrugada do dia 15 voltei ao meu acampamento no Caurese, onde cheguei na manhã seguinte; vindo com um grande do mambo, que me acompanhou para communicar as ordens do Caterere e facilitar o transporte das cargas para a margem do Aruenha.
Partida do Caurese para o Aruenha ou antes Quenha. No dia 17 parti de junto da aringa do Bonga para a margem do Aruenha, onde cheguei, com duas horas de passeio junto á aringa de Camunda, pequena povoação rodeada de fraca estacaria, fazendo o acampamento a jusante d'esta aringa.
O rio tem aqui uns 100 metros de largura, mas a agua corre por varios braços serpenteando na areia, não cobrindo todo o leito. Informaram-me de que o rio, bastante ainda para jusante da foz do Caurese, tem varias rochas que lhe atravessam o leito; penso porém, que será navegavel vindo do Zambeze até pelo menos á affluencia do rio Mazoc. Rio Aruenha ou antes Luenha. Já nas minhas viagens pelo Zambeze para Tete, tinha notado que os pretos chamam Luenha ao rio que em as nossas cartas chamamos Aruenha, e que afflue no Zambeze em Massangano, onde está construida a celebre e vergonhosa aringa do Inhaúde ou do Bonga. No mappa do Levingstone tambem este rio tem o nome de Luenya. É tambem Luenha o unico nome que agora lhe ouvi dar, e parece-me preferivel adoptar esta designação, não só por ser a verdadeira, mas porque melhor se distingue de Aruangua; e são dois nomes que como rios ou commandos militares do districto de Manica muitas vezes haverá a citar reunidos.
Ouro no Luenha. Nos dias 18 e 19 fui com gente da povoação de Camunda, ver os logares onde costumam lavar oiro no rio. Os terrenos em que n'esta altura corre o Luenha não são auriferos, e o oiro só se encontra, renovado todos os annos depois das cheias, nas pequenas porções de areia que fica retida entre as grandes rochas que atravessam o rio. Os pretos e pretas, que lavam admiravelmente com a batea, podem com utilidade extrahir o oiro que cada anno é retido nos mesmos logares, e assim o fazem ha seculos, mas o lavar estas areias, por causa da sua pequena quantidade, embora sejam relativamente ricas, nunca poderia pagar a uma companhia europêa. É muito provavel que no proprio leito, atraz d'estas barras, onde ha profundidade de agua e onde os pretos nunca lavam, haja accumulado de ha seculos oiro mais grosso, e quando o paiz esteja frequentado pelos brancos, é provavel que venha a proceder-se a trabalhos n'estes logares com bons resultados, mas é claro que a pesquiza do oiro para os que primeiro cheguem será muito mais interessante nos proprios terrenos d'onde o oiro é annualmente arrancado e arrastado pelas aguas.
Rio Mupa. Na visita que fiz á Massanga, ou foz do Caurese vi que o rio Mupa não é um affluente do Caurese como está marcado na carta de Mauch mas, um pouco mais abaixo, directamente affluente do Luenha.{8}
Mambo Schomali de Mauch. Descobri, emquanto estava n'este acampamento do Luenha, quem era o mambo Schomali, que Mauch cita como sendo o chefe das terras que constituem a parte mais rica dos Campos do Imperador Guilherme.
É um pequeno mambo da terra de Macaha, chamado Machamare. Já de ha muito tinha conhecimento do nome da terra e de outros nomes do mambo, que tambem se chama Chibinda e Inhaúbinda. Serviu-me de confirmação á equivalencia entre o nome de Machamare e o de Schomali o encontrar nos dois rios Inhamussice e Munhoque, dois rios auriferos da terra de Macaha, os equivalentes aos rios Iantsitsi e Noke da carta de Mauch. Achei interessante que os pretos que lavavam n'um logar ou barra do Luenha chamado Biriuide, me dissessem, que todo o oiro que até ali chegava era proveniente do rio Inhamussice, precisando a proveniencia do oiro, quando o Luenha no seu vasto curso drena um paiz muito extenso e recebe muitos outros affluentes. Por esta indicação é de suppôr que as areias do Luenha acima da affluencia do Inhamussice não tenham oiro algum, tornando evidente que é por este affluente que os diggers devem subir nas suas pesquizas.
Pouco depois de chegar a este acampamento do Luenha, vi que nada me aconselhava a que ahi me demorasse e procurei arranjar carregadores para continuar na viagem.
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