Read the book: «Ficção científica clássica. Histórias. Versão em português»
© Fedir Tytarchuk, 2025
ISBN 978-5-0068-2295-5
Created with Ridero smart publishing system
Ficção científica clássica. Histórias

Fedir Tytarchuk
Em vez de prefácio e explicação
Bom dia para você, estimado leitor destas linhas. O autor dos contos a seguir gostaria de expressar sua gratidão pelo fato de que, em nossa era de rolagens infinitas e memes curtos, é raro encontrar um leitor que se atreva até mesmo a pegar um livro nas mãos, quanto mais lê-lo por completo, refletir sobre ele e tornar o que foi extraído parte do seu mundo interior. Espero que você seja justamente esse leitor.
Então, sobre o que é este livro?!
Em suas mãos está uma coletânea de obras predominantemente de caráter fantástico. Por que predominantemente?! A questão é que, de algum tempo para cá, os limites do que chamamos de obra fantástica se tornaram tão difusos que parece que a própria fantasia bateu à nossa porta e se tornou parte do nosso cotidiano. Diferente das décadas de 60—70, auge do que se chamava ficção científica ou simplesmente “dura”. Naquela época tudo era mais simples, pelo menos é assim que parece ao autor. Mas hoje, novamente na opinião dele, é muito mais interessante.
Mas não vamos nos perder em devaneios históricos, voltemos a esta coletânea. Então…
Ela reúne obras de Fedir Tytarchuk, que nunca haviam sido publicadas ou sequer traduzidas para o português. A “língua materna” dessas obras é o russo, às vezes o ucraniano, e por isso, ao traduzi-las para o português, procuramos preservar a ironia, o humor e as construções rebuscadas típicas desses textos.
Nesta coletânea encontram-se tanto contos isolados de alguns ciclos do autor, como, por exemplo, Roblings ou O Escritório Criativo de Sua Excelência, quanto obras independentes que não se relacionam entre si.
Os textos são ricos em humor, ironia e, por vezes, até sarcasmo. À primeira leitura podem parecer mais recreativos do que portadores de reflexões profundas, mas acredite: como em qualquer obra de múltiplas camadas, por trás da leveza e da ironia sempre é possível distinguir aquilo que realmente interessa e preocupa o autor.
A temática desta coletânea, como já mencionado, é a fantasia. Mas o autor não se restringe a esse tema. Em seu “arsenal” também há uma série infantil sobre a menina Alionka e os Trenzinhos que vivem em uma floresta encantada… Ou então obras muito mais “intensas”, próximas do art house ou do romance urbano (como exemplo, Eu lhe concedo desprezo) que, esperamos, também venham a ser traduzidas do russo e ucraniano para outros idiomas. E, acredite, o “repertório” do autor não se limita a isso…
Neste momento, porém, você segura em mãos suas obras do gênero fantástico e, se desejar, se os contos lhe agradarem, pode escrever ao autor, compartilhar sua opinião e, se quiser, até apoiá-lo para que mais de seus textos sejam traduzidos para outras línguas. Infelizmente, as regras desta editora não permitem colocar o endereço eletrônico logo no início do livro (apenas em sua parte final). Portanto, os contatos poderão ser encontrados ao folhear ou rolar o livro até o final.
E sim, as ilustrações… A editora solicita que seja indicado o crédito do material gráfico utilizado no livro (são as regras), e por isso aqui fica o registro: todas as imagens presentes nesta obra pertencem ao autor e foram feitas ou por ele mesmo, ou a seu pedido/encomenda por sua esposa e filha, cujos perfis também estarão indicados na parte final do livro.
E agora, estimado leitor – siga em frente, leia e aproveite!!!
Contente
Em vez de prefácio e explicação
De um Ciclo – “Bureau Criativo de Sua Santidade”
– Bureau Criativo de Sua Santidade
De um Ciclo – “Dias de Trabalho”
– Dias de Trabalho. Pessoas comuns.
– Uma história banal. Ou um dia de trabalho de um simples funcionário de mercearia.
– O Porão dos “Senhores do Mundo”
De um Ciclo – “Roblings / Contos para Roblings”
– Fábula sobre o Criador
– Último Dia de Verão
– Próton Fresco
– “Problema” e o capitão Bestolotch.
Ciclo “O Alegre Trem Chu-Chuhin e Seus Amigos”
– Introdução…
– Como Baba Yaga quis fundir o trem Choo-Chukhin em colheres.
Obras fora de ciclos
– O Universo do Grande Show
– “Mundo Espiritual”
– “Bebê Uhu-Uhu e o primeiro Halloween.”
– Bar “Mercenário-Pinóquio”.
– Para quem você é necessário, Sem?
Em vez de posfácio
De um Ciclo – “Bureau Criativo de Sua Santidade”
Bureau Criativo de Sua Santidade
– Olá, gênios da criatividade e da brincadeira! – entrou no recinto o alto e magro Alavur. Seu parceiro, baixinho, magricela, mas muito carismático, Zalibvang apenas acenou, rolando na cadeira com rodas e tomando um líquido espesso de cor resinoso.
– O bronzeado está infernal! Só que a auréola ficou azulada… – comentou ele. – Como foram as férias?
– Férias! – caiu em sua cadeira Alavur. – Só restaram memórias.
– E então? – o início do dia de trabalho no departamento criativo sempre era monótono e entediante, por isso Zalibvang exigia detalhes.
– As praias do inferno – um pedaço do paraíso! – citou ele a criação comum deles, feita antigamente especialmente para divulgar o turismo no inferno.
– Será que é tão maravilhoso quanto nos nossos cartazes?
– Eu diria que nossos cartazes não mostram nem uma centésima parte dos prazeres que o inferno pode oferecer a um turista.
– Mas não confunda turismo com imigração! – riu Zalibvang. – Espero que ainda haja pecadoras no inferno? – piscou para o colega.
– Há muito disso por lá! – o líquido viscoso tipo resina saiu da máquina e caiu no fundo da xícara de Alavur. – Entretenimento para todos os gostos! Prostituição legalizada com beatas e solteironas, safáris em monstros ou costeletas de línguas de falastrões! Todos os dez pecados em execução! Não é vida, é um doce sonho paradisíaco!
– Só que nosso salário dá para algumas semanas nesse paraíso! – sorriu Zalibvang.
– Nossa situação não é das piores, – retrucou Alavur. – Crise. O fluxo de novas almas cresce a cada dia, na Terra então nem se fala, então não temos motivo para reclamar…
– Isso é verdade, – concordou Zalibvang. – Esses dias, enquanto você estava ausente, um do departamento de análise de queixas dos fiéis – aqueles que lidam com reclamações nas seções “para consideração da chancelaria do Todo-Poderoso”, “para alimentar caldeirões”, “confusão nociva” e coisas do tipo, – explicou Zalibvang, tomando a segunda xícara da substância resinoso. – Quase virou pai?
– E daí? – não entendeu o colega.
– Peraí, não interrompa! – disse Zalibvang. – Chegou uma reclamação pela linha deles. Uma fiel suplicou dizendo algo como: “Um anjo celestial entrou nos meus aposentos e me possuíu! Disse que nosso filho seria senhor do mundo…” E coisas do tipo. Em outra situação, tais casos seriam enviados para os caldeirões do inferno, mas aqui o novato, do mesmo setor, viu perigo em um possível precedente histórico que levou… Bem, você sabe aonde.
– Pois é, tivemos que suar para promover o “filho de Deus”. Na minha opinião, o resultado foi excelente!
– Então o jovem demônio percebeu o risco e enviou tudo “para onde devia”!
– Sério?! – espantou-se Alavur. – Para lá? – apontou para cima.
– Exatamente! – confirmou Zalibvang. – E lá, como você sabe, não gostam de brincadeiras.
– É mesmo, Yezhov, Müller, Beria e o ferroso Félix não foram treinados à toa…
– E eles tinham escolha?
– Isso é outra história, – tentou retomar Alavur. – E quanto a esse falso pai?
– Localizaram a reclamante, a interrogaram minuciosamente, ela logo se retirou para o mosteiro, acreditando no contato com as forças do inferno, mas o “pai” foi pego…
– E?
– Era um pequeno funcionário do mesmo departamento de análise de queixas. Aproveitou-se da posição. Ao revisar queixas, selecionava essas – mulheres devotas e ingênuas de aldeias remotas, estudava seu modo de vida… – sorria Zalibvang, achando a história divertida. – Assim era: de dia, discreto funcionário de terceira categoria, à noite – um maníaco sedutor.
– Oh, como! – surpreendeu-se Alavur. – Ninguém ainda cancelou a proibição de relações com terráqueos! – resumiu ele. – Na sua época, já passamos por muitos incidentes desse tipo.
– Se ele tivesse ido apenas pelo “Seduzir os tutelados”, o caso teria acabado aí, – piscou Zalibvang. – Mas o Serviço de Segurança e Arbitrio Divinos não pode permitir deslizes com tais ninharias. Então o rapaz foi por um caminho totalmente diferente! – o líquido na xícara acabou, e ele jogou a xícara na mesa com desprezo. – Aqui cheira a “Usurpação do trono e do nome do Todo-Poderoso”. Então, ele está indo para a torre.
– Pois é, a torre – é uma punição que eu não desejaria nem ao inimigo, – estremeceu Alavur. – Ser lançado no mundo humano, nesse abismo de paixões, desordem e arbitrariedade…
– E ainda ser obrigado a cumprir todos os mandamentos divinos!
– Isso sim é a mais alta medida de injustiça! – concordou Alavur. – E por que nós os inventamos mesmo?
– Porque era necessário, – acenou Zalibvang com conhecimento de causa. – Caso contrário, o conceito não se completaria.
– Você sabe melhor, – concordou o colega. – E quanto ao rapaz? O que vai acontecer? Consegue se safar ou… vai para baixo?
– Esse demônio se safar dos anjos da SSBiP? Não me faça rir. Assim que eles pegam um demônio em suas garras, então…
– Às vezes penso que seria melhor se os demônios comandassem a SSBiP. Com eles, ao menos, dá para negociar.
– Pensamentos heréticos te visitam! – esbravejou Zalibvang. – E entre nós, todos os nossos pensamentos e atos podem estar documentados na Chancelaria Celestial.
– Mesmo que estejam, eu não disse nada herético, – corrigiu-se Alavur. – Para o protocolo, – gritou para o alto, emitindo risadinhas ao mesmo tempo. – Houve tempos em que demônios comandavam o serviço… E davam conta…
– Você exagera… – acenou Zalibvang, sem se preocupar.
– E sabe como são as diabretes do inferno?! – jogando as mãos para trás da cabeça, mergulhou em doces lembranças Alavur. – Pernas longas, nádegas firmes e expostas, cascos bem cuidados. E os olhos! Olhos cheios de fogo!! Nada a ver com nossas pálidas e auréoladas pombinhas de olhos de azul-cornflower.
– Isso é para apreciadores! – discordou Zalibvang. – Tem gente que prefere santidade exagerada…
– Com certeza não você! – bateu Alavur no ombro do colega. – Quem de nós foi casado com uma demônia?
A história do matrimônio com a de olhos de fogo, Zharin, era um tema doloroso para Zalibvang, mesmo após dois anos e pouco. A paixão deles durou pouco, mas deixou uma ferida viva no coração dele. No fim, Zharin foi embora para o curador de seu departamento, com quem ela foi apresentada por Zalibvang em um dos encontros.
– Bem, deixa pra lá, – percebendo seu deslize, ajustou Alavur. – Enquanto eu estava fora, o que de novo aconteceu aqui?
Zalibvang, perdendo o desejo de brincar e fofocar, voltou ao trabalho:
– Segundo os dados do departamento de análise, a popularidade de Sua Santidade, ou seja, o Todo-Poderoso, caiu abaixo da linha vermelha. Todas as religiões e ideologias estão perdendo influência sobre os fiéis. Prêmios como o paraíso ou o comunismo, promessas de punição eterna ou falta de dinheiro no mundo deles não levam mais ninguém a Deus. O mundo está se tornando ímpio e mergulhando no pecado.
– Oh! Que grande descoberta! – sorriu Alavur. – A popularidade de Sua Santidade cai há séculos. O ciclo de vida desta civilização já passou do auge e está em declínio.
– E lá em cima, decidiram, – Zalibvang apontou para o teto de maneira tão significativa que Alavur calou-se. – Decidiram que medidas paliativas não bastam mais.
– Como assim não bastam? – surpreendeu-se Alavur. – Talvez uma nova religião?
– Não vai dar! – cortou Zalibvang. – Lembras como nós, tempos atrás, criámos as primeiras religiões primitivas?!
– Lembro bem! – riu Alavur. – Todas essas venerações ao sol nascente e danças em volta do totem ou da fogueira. Ah, bons tempos. Naquele período estávamos com o vento a nosso favor… Acabámos de começar, depois da equipa antiga… Tinha muito trabalho.
– A Humanidade então era fragmentada – esse é um facto. A cada tribo a sua religião, as suas crenças, os seus santuários…
– Mas admita, naquela altura também fomos preguiçosos. Copiávamos formas de adoração ao sol e divindades da noite…
– Faltava tempo e forças – concordou Zalibvang. – E agora os investigadores na Terra quebram a cabeça: como é que crenças e mitos tão semelhantes surgiram em tribos isoladas, sem contacto entre si?
– Procuram ancestrais comuns. Inventam lendas… Devíamos aprender com eles. – brincou Alavur.
– Pois, pedimos um estagiário e um assistente entre os recém-apresentados na altura… Não deu certo.
– E como nos divertimos com os olímpicos! – riu Alavur, mergulhando em lembranças.
– É, na altura bebemos demais – aquele tema não era dos preferidos de Zalibvang. – Bebemos, e o projecto incendiou. Era urgente canalizar o nascente tecido cultural para o rumo desejado…
– Então criámos o culto aos bebedores, à beleza feminina e…
– …e aos sacrifícios! – ironizou Zalibvang.
– Se a dor de cabeça pós-ressaca podia ser atribuída à carne estragada – lembrou o parceiro – e quem disse “Que tudo arda em chamas!”?
– Pois, saiu engraçado. E curiosamente a ideia foi aprovada logo à primeira pelo Conselho.
– Voltámos de uma festa. Pensávamos na mesma direcção… – recordou Alavur. – Lembro-me sobretudo da batalha pela promoção do ateísmo. Durou dois anos o debate: não destruiria isso a fé em Sua Santidade? Não desviaria o povo? Não conduziria o poder às forças demoníacas?
– Foi uma batalha feroz – concordou Zalibvang. – Os de auréola defendiam, com espuma na boca, a santidade e a infalibilidade de Sua Santidade; a horda de cascos exigia mudanças e liberdades para o rebanho terrestre…
– No fim tivemos o que tivemos: um compromisso que não agradou ninguém, mas que foi executado com rigor de instrução e, por isso, produziu resultados imprevistos.
– É assim mesmo! – assentiu Zalibvang. – Lembras quando na instrução houve um erro sobre o número de dedos para o sinal da cruz…
– Por causa de um pequeno lapso, rebentou uma guerra na Terra. Então, nova religião não é opção?
– Não – zombou Zalibvang. – O departamento de análise diz que a população terrestre desenvolveu imunidade a ensinos religiosos e ideológicos diversos; a adoração da “carteira dourada”, claro, não conta – isso não engrandece Sua Santidade.
– Então o conceito: bem-estar ligado à fé em Sua Santidade…
– Dinheiro é prerrogativa daquele cujo nome não se pronuncia…
– Então deem-lhe um profeta ou um santo!
– O último dos profetas acabou os seus dias num hospital psiquiátrico…
– E se for uma guerra regional em nome da fé?
– Já lançámos umas cinco dessas. Lutam, e o resultado é o mesmo…
Sem darem conta, a conversa saiu do tom de gossip e passou a questões de trabalho.
– Perturbação social…
– Houve. O plano de renascimento foi pensado de outra forma…
– E então?
– O sistema obsoleto desabou e abriu caminho ao que conduziu à queda da fé e, como consequência, à perda das posições. Por isso, não brincamos mais com perturbações sociais. Tabu.
– E uma revolução cultural?
– Teve. A mais recente – sexual…
– Pois… – Alavur lembrou-se de como os demónios roçavam as mãos com satisfação ao ver os resultados dessa actividade. Dizem que Sua Santidade chegou a suspeitar dos nossos criativos de conivência com os demónios e com Aquele cujo nome evitavam mencionar.
– Crise de cosmovisão!
– Sim, o mundo está numa crise única. A certa escala, mais ou menos – ninguém nota…
– Nova pseudo-religião?
– Não sabemos que fazer com as antigas. E combater as emergentes é tarefa complicada.
– Cataclismo natural?
– Se acontecer, será com consequências catastróficas. Aqui tudo indica que se caminha para…
– Estás a falar de uma limpeza?
– Sobre ela mesma! – sorriu Zalibvang. – E se não encontrarmos uma solução aqui, tudo terminará por causa dela.
A última limpeza, que entrou em muitas religiões como o Dilúvio Universal, foi uma reação à perda de controle da situação. Alguém poderia questionar tal decisão, mas o que foi decidido Lá, não se discutia.
– Estás a falar a sério? – não acreditava Alavur nos próprios ouvidos.
– Mais sério não há – confirmou Zalibvang. – Informação pelos canais mais confiáveis.
Alavur conhecia bem todos esses canais. Uma secretária num dos departamentos, que havia se soltado em circunstâncias picantes. Às vezes, Alavur suspeitava que, pelo número de aventuras lascivas, Zalibvang se sentiria melhor nos penates demoníacos, mas nascido “à luz”, permanecia com auréola e servia no departamento criativo de Sua Santidade.
A limpeza não era novidade e cada vez alterava o equilíbrio de poder, tanto dentro da hierarquia quanto entre os de auréola e os demoníacos. Estes últimos sempre tentavam desviar a atenção de Sua Santidade, se não reivindicar o trono. Muitos especialistas, necessários na presença de um mundo populoso, tornavam-se inúteis e, na melhor das hipóteses, permaneciam com salários mínimos, esperando mudanças na situação, ou simplesmente eram despedidos num dia. O departamento criativo era um deles – ferramenta de Sua Santidade, cérebro e fonte de ideias que, em outras circunstâncias, seriam completamente desnecessárias.
Na última vez, Alavur e seu parceiro se viraram como puderam: suportaram, passaram o tempo, até inventaram xadrez e jogaram até desmaiar. Mas desta vez, não sabiam o que os aguardava.
Dizer que Alavur e Zalibvang eram bem vistos por Sua Santidade seria exagero. Como seres criativos, às vezes usando substâncias proibidas, mantendo relações com o campo inimigo, aceitando presentes e até mantendo relações com fêmeas do ramo demoníaco, não cumpriam todos os critérios da santidade registrada nos documentos fundamentais da chancelaria de Sua Santidade. Enquanto lançavam ideias não convencionais e as realizavam, muito lhes era perdoado.
Às vezes falhavam, pecavam, divulgavam segredos, cometiam adultério e atrasavam prazos. Frequentemente eram criticados. Culparam-nos pelo comportamento. Temiam-nos por possíveis manobras com recomendações para execução de programas. Dois profetas, enviados à Terra conforme suas instruções, ameaçaram severamente prejudicá-los, sendo proibido por decisão de Sua Santidade se aproximarem de Alavur e Zalibvang.
Não eram amados, como não se ama excêntricos que bagunçam a rotina da chancelaria. Demônios acumulavam dossiês detalhados sobre eles, procurando maneiras de capturá-los, suborná-los, comprometer ou difamá-los – apenas para que seguissem políticas específicas. Houve até discussões sobre introduzir um número equilibrado de demônios no grupo, mas Sua Santidade rejeitou essa iniciativa, repreendendo Aquele cujo nome não é pronunciado…
– Aconteceu que Sua Santidade, por razões conhecidas só por ele, tratava os criativos com certo favoritismo, embora nada fosse totalmente óbvio – ele aparentemente queria ter à mão alguém capaz de surpreendê-lo com algo novo, trazer variedade e agitar as águas do pântano da chancelaria.
No caso da limpeza, quando decisões sobre o destino de muitos fossem tomadas, provavelmente todas as questões relativas a centenas de milhares de funcionários, grandes e pequenos, seriam remetidas ao departamento de pessoal – e estes, em primeiro lugar, tratar-se-iam deles. Alavur e Zalibvang, de algum modo, tiveram a imprudência de incluir os pessoalistas entre os executores do projeto de criação de uma igreja na Terra. Eles cumpriram – alistaram milhares de seus adeptos – e passaram a odiar os criativos com fúria. Após as demissões, sem demora, a SSBiP (Serviço de Segurança e Arbítrio Divinos) trataria do assunto. Zalibvang, de alguma forma, havia se envolvido com as filhas do dirigente perpétuo daquele departamento, e esse chefe já teria esmagado Zalibvang com as próprias mãos se não fosse… E agora havia essa possibilidade.
Zalibvang estremeceu ao imaginar aqueles olhos azuis impassíveis…
“Não! – conteve-se. – Não haverá limpeza! É preciso achar uma solução!”
– E pra quando precisa a resposta? – como se tivesse lido seus pensamentos, perguntou Alavur.
– Hoje! – sussurrou Zalibvang.
– Hoje?! – a surpresa foi total. – Mas um ano, dois para coletar informações, o mesmo para processá-las… Fazer testes, projetos exaustivos, testar a teoria… Preparar a apresentação? Quando faríamos tudo isso?
– Aqui é bem mais simples – sorriu Zalibvang, amargo. – Eles só precisam de uma ideia. Qualquer ideia que possa salvar a situação. Se até às quatro horas de hoje não houver algo – está tudo perdido. Dizem que Sua Santidade está cansado da humanidade. Das suas pequenas intrigas. Da desobediência, da deturpação de sua palavra, de tudo…
– Castigar… – murmurou Alavur.
– Castigos já não adiantam. Você sabe disso tão bem quanto eu… Então…
– Então temos de lançar uma ideia…
– E salvar a humanidade! – declarou Zalibvang, pomposo. – Alguma ideia?
***
– Clássico?! É isso mesmo? – sussurravam Alavur e Zalibvang, encostados à parede na sala de reuniões.
– Claro! – concordou o segundo.
Segundo sua experiência, ideias criativas que explodiam a atmosfera do departamento por longas horas, geralmente, não eram compreendidas por sujeitos “de linguagem travada e pensamento desequilibrado” (citação) sentados em cadeiras de couro humano. Convencer esses indivíduos de que a revolução sexual daria frutos apenas séculos depois, e não imediatamente como exigiam, ou explicar o motivo de fracassos em projetos de nacionalismo reacionário, simplesmente nunca funcionava. Por isso, sempre prevalecia o clássico preferido – modelos testados e compreendidos por todos, que, a cada vez, davam cada vez mais falhas, mas continuavam servindo, na mente dos responsáveis, como padrão de ideia diligente e de qualidade.
– Hoje você está um espetáculo! – pinçou Zalibvang pelo glúteo, disse Jarine, piscando com seus olhos flamejantes. – Estou até pensando em voltar pra você! – piscou novamente. Sacudindo os glúteos firmes, cobertos por uma saia fina de material da moda trazido da Terra, afastou-se em direção ao grupo dos “poderosos deste mundo”.
Zalibvang engoliu em seco. Um calor percorreu seu corpo. Memórias do passado, das noites quentes e dias de torturante ciúme, voltaram à tona. “Não importa o que digam, essas diabretes são muito mais atraentes que os nimbonianos!” – refletiu, percebendo sua reação sexual, algo totalmente inapropriado para um nimboniano. “Mas o que fazer?! – consolou-se – Trabalhando com material humano, criando programas para eles que devem atingir resultados específicos, queira ou não, é preciso mergulhar no mundo deles, participar da sociedade e absorver todas as regras que guiam suas decisões.”
Essa explicação já os havia salvado várias vezes quando surgiam questões sobre comportamento antissocial, análises de bebedeiras, interação com a prole demoníaca ou pedidos de comunicação experimental com almas recém-falecidas. Sua Santidade não os encobria – na verdade, ele provavelmente ficava ainda mais insatisfeito que qualquer outro —, mas enquanto houvesse resultado e permissão de Sua Santidade, tudo lhes era perdoado.
– Não perca a cabeça! – Jarine também olhou para Alavur, fascinada. Circulavam rumores de que ele já constava entre seus admiradores, mas esse assunto jamais surgia na presença de Zalibvang, que havia passado cerca de um ano lidando com ela.
Com passos medidos e elegantes, exibindo a graça de suas patas bem cuidadas, e ocasionalmente ressaltando a elegância com o movimento da cauda finalizada em tufinho, ela se aproximou do grupo de demônios e nimbonianos, deslizou a mão pelas costas de um deles e quase imediatamente entrou em conversa.
– Muito bem, então será clássico! – murmurou Zalibvang, sem desviar os olhos dela, embora lhe ardia por dentro a vontade de propor sua própria ideia, que certamente seria rejeitada. Ele sabia disso. Sabia perfeitamente, mas algo dentro dele não lhe dava paz, exigindo que fizesse algo em sinal de protesto.
– Excelente! – bateu Alavur em seu ombro. Sua posição afastada, fora do grupo dos “poderosos deste mundo”, era facilmente explicável. Como especialistas juniores, não possuíam as regalias dos membros do Conselho. Mas, devido à sua função e à atenção especial que Sua Santidade dispensava ao departamento criativo, atuavam no Conselho como conselheiros e principais desenvolvedores. Eles entendiam perfeitamente a dualidade de sua posição, que também afetava a atitude dos membros do Conselho, obrigados a compartilhar o mesmo espaço com os condicionalmente admitidos. Por isso, a relação com os criativos não era exatamente fria, mas suficientemente tensa. A elite não queria ver entre si alguém que… Mas eram obrigados a aceitá-los. E seu descontentamento silencioso era, naturalmente, descarregado em pequenos aborrecimentos direcionados justamente aos criativos.
O espaço, localizado em um dos prédios mais altos, em um penthouse de vidro, com vista deslumbrante para o Paraíso circundante, no horizonte obscurecido pelas nuvens de fumaça provenientes do infame Inferno mais adiante, se encheu com a presença de Sua Santidade. Ninguém podia se gabar de ter visto Sua Santidade pessoalmente, mas sua presença era imediatamente sentida. O efeito virtuoso e perdoador provocava reverência em todos, e todos os presentes, abandonando suas tarefas e preocupações, apressaram-se em ocupar os lugares ao redor da grande mesa oval. Irritar Sua Santidade era um risco alto demais, pois seus critérios de avaliação e lógica diferiam radicalmente de qualquer padrão conhecido e frequentemente eram simplesmente incompreensíveis.
– Proponho que comecemos – sugeriu Sua Santidade. Naturalmente, ninguém ouviu qualquer som; as palavras surgiam diretamente em suas mentes. Este era um dos motivos pelos quais os membros do Conselho não gostavam de Zalibvang e Alavur – Sua Santidade podia se dirigir seletivamente àqueles que considerava competentes em determinado assunto, sem informar os demais. Cada um imediatamente começava a suspeitar do pior e sentia-se prejudicado. Irritar-se ou censurá-lo não tinha sentido – chances de ser expulso do Conselho eram altas; mas descarregar a frustração nos criativos? Isso sempre era possível.
– O motivo de nossa reunião não é segredo para ninguém. Mas, para que todos entendam sobre o que se trata e não surjam dúvidas sobre a necessidade de medidas radicais, peço ao chefe do departamento de análise que apresente um breve relatório sobre a situação na Terra e o nível de controle dos processos em curso – disse Sua Santidade.
– Boa tarde, estimados colegas! – levantou-se Tsifiron, um santo magro, imerso em si mesmo e em seus cálculos, que ameaçavam escapar por causa dos óculos antigos apoiados no nariz. – A análise conduzida por nosso departamento envolveu a coleta de informações tanto em campo quanto por meio de entrevistas com os que chegaram ao céu…
– Obrigado pela descrição da metodologia – interrompeu Sua Santidade. – Por favor, apresente as conclusões.
– Sim, claro – engasgou-se Tsifiron. Seu halo imediatamente ficou vermelho de nervosismo. Os analistas, como vários outros departamentos, eram quase exclusivamente nimbonianos, pois Sua Santidade confiava pouco nos diabretes astutos. Não que ele não confiasse neles – eram especialistas em sua área, os nimbonianos eram especialistas na deles. Cada um em seu lugar e com suas tarefas.
– Os indicadores integrais de Virtude Humana e Lealdade à adoração há muito não ultrapassam o nível vermelho, o que indica…
– Suas metodologias de avaliação estão incorretas! – contestou o demonio corpulento, que há cerca de cem anos supervisionava o setor de religiões e ideologias alternativas. Tendo sido guerreiro no passado e por vocação, graças aos esforços daquele cujo nome não se menciona, tornou-se administrador, mas não perdeu sua astúcia guerreira e a traiçoeira habilidade típica dos demônios. Os criativos, que desenvolveram ao longo dos últimos cem anos várias religiões e uma dezena de ideologias, viam os resultados de sua implementação entre as massas humanas exclusivamente como peculiaridades do curador e de seus métodos. O curador, por sua vez, rejeitava todas as críticas, sendo um demônio autoritário e intolerante a objeções, atribuindo tudo ao material humano, a erros cometidos no planejamento e desenvolvimento, bem como às intrigas de outros departamentos. Ele afirmava com total confiança que não havia erro algum de sua parte, que não poderia haver, e que tudo não passava de artimanhas de seus inimigos.
– As metodologias foram desenvolvidas e testadas ao longo de milênios – rebateu Cifiron, sem desviar os olhos da folha de papel. – A tensão nos últimos anos aumentou em uma vez e meia, a probabilidade de uma guerra em grande escala chegou a setenta e cinco por cento, o nível de religiosidade e devoção caiu para vinte e cinco por cento. A grande maioria dos crentes segue religiões tradicionais de tribos em estado de Idade da Pedra, distantes dos centros de civilização. Entre os grupos civilizados, o nível de devoção e a disposição para sacrificar-se por Sua Santidade diminuem a cada ano… O coeficiente de correlação entre o desenvolvimento das civilizações existentes e a queda da fé é de noventa e oito por cento…
– Isso tudo está bem – interrompeu um dos demônios, sem entender uma palavra do que fora dito. – Mas o que isso significa?
– Tudo é extremamente simples! – respondeu Simon, o nimbonos. – O mundo está indo ladeira abaixo! – a piada agradou aos presentes, e se não fosse pela presença de Sua Santidade, sempre impassível, o riso teria tomado a sala inteira.
– Isso é compreensível – a presença de Gidivul, curador de cerca de cinquenta projetos dos quais entendia tão pouco quanto das almas humanas, explicava-se pela cota daquele cujo nome não se menciona. A completa incompetência de Gidivul em qualquer questão era plenamente compensada por sua natureza agressiva e absoluta lealdade àquele cujo nome não se menciona. – Quem é o culpado? E o que fazer? – perguntou ele com arrogância.
– A situação chegou a um impasse – continuou Cifiron, o de óculos. – Todas as nossas últimas ações tiveram caráter mais cosmético e sua eficácia foi menor que qualquer crítica – os olhares dos presentes imediatamente se voltaram para os criativos, encolhidos em suas cadeiras.