Read the book: «Casamento por conveniência»

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Editado por Harlequin Ibérica.

Uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

Núñez de Balboa, 56

28001 Madrid

© 2002 Emma Darcy

© 2019 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

Casamento por conveniência, n.º 690 - agosto 2020

Título original: The Arranged Marriage

Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd

Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial.

Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.

Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência.

® Harlequin, Sabrina e logótipo Harlequin são marcas registadas propriedades de Harlequin Enterprises Limited.

® e ™ são marcas registadas por Harlequin Enterprises Limited e suas filiais, utilizadas com licença.

As marcas em que aparece ® estão registadas na Oficina Española de Patentes y Marcas e noutros países.

Imagem de portada utilizada com a permissão de Harlequin Enterprises Limited.

Todos os direitos estão reservados.

I.S.B.N.: 978-84-1348-545-4

Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.

Sumário

Créditos

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

Capítulo 12

Capítulo 13

Capítulo 14

Capítulo 15

Capítulo 16

Capítulo 17

Capítulo 18

Se gostou deste livro…

Capítulo 1

Isabella Valeri King olhou para a sobrinha do marido, aprovando a força que via no rosto de Elizabeth. Aquela mulher, considerada matriarca dos King de Kimberley, compreendia o que significava a família: propriedade, herança, conceitos passados de geração para geração.

Tinha de haver casamento.

E filhos.

Elizabeth tinha três filhos, todos casados há cerca de um ano, um deles esperando o primeiro filho. Ela podia estar satisfeita. Mas Isabella não estava. Dos seus três netos, apenas Alessandro planeava casar-se, e não era uma união que ela aprovasse.

A mulher que Alessandro escolhera não era a melhor para ele.

Mas como fazê-lo entender?

E como convencê-lo a desistir dela?

O casamento aconteceria em Dezembro, depois da colheita da cana-de-açúcar. Estavam em Maio. Isabella dispunha de seis meses para mostrar a Alessandro que Michelle Banks nunca se adaptaria ao seu estilo de vida. Era egoísta, vaidosa, mas muito astuta quando decidia abrir o seu próprio caminho, e certamente usara o sexo para envolver Alessandro e conquistá-lo.

Por quanto tempo a atracção poderia durar depois do casamento?

E uma mulher tão determinada a manter o corpo esbelto não podia pensar em ter filhos. Michelle concordaria em dar à luz ao menos um bebé, ou lançaria mão de adiamentos, desculpas e recusas directas?

– Esta é uma localização maravilhosa, Isabella – elogiou Elizabeth, admirada, olhando além da Enseada de Dickinson, para o canavial do outro lado.

Estavam sentadas ao lado da fonte, a beber chá, e a paisagem vista dali era muito diferente da de Kimberley. Ali havia o verde intenso do norte de Queensland, e em torno de toda a terra dominada pelo Homem existia a floresta tropical, tão primitiva nas suas características únicas como o coração vermelho da Austrália.

Isabella lembrou-se de como a terra fora conquistada com esforço; o trabalho duro de limpeza, as folhagens traiçoeiras e as plantas venenosas, o calor, a humidade, as febres, as serpentes. Nascera entre os canaviais, filha de imigrantes italianos, há setenta e oito anos.

Com excepção do breve período passado em Brisbane, quando conhecera e se casara com Edward King, antes de ele e o seu irmão, Enrico, terem ido para a guerra na Europa, aquele sempre fora o seu lar, naquela montanha sobre Port Douglas. Para lá tinha retornado, uma das viúvas da guerra, para dar à luz o filho que Edward deixara no seu ventre antes de partir, o seu amado Roberto.

– O meu pai escolheu este lugar para a minha mãe, que era de Nápoles – explicou Isabella à visitante. – Ela queria estar perto do mar.

Elizabeth sorriu, demonstrando o seu apreço pela história.

– É muito romântico… o seu pai construiu este castelo para a mulher amada!

– Não exagere – corrigiu ela com um sorriso indulgente. – É só uma villa. Como as velhas villas de Roma. Antigamente, este lugar era conhecido como Villa Valeri. Mas, como o meu irmão não voltou da guerra e eu me casei com Edward, os meus filhos e netos carregam o nome King. Depois da morte do meu pai, os habitantes daqui passaram a chamar à propriedade Castelo King, e o nome foi adoptado por todos.

– Isso entristece-a? Afinal, o seu pai construiu este lugar e deu-lhe o nome da sua família, e agora a villa é conhecida como Castelo King por conta do nome do seu marido.

Isabella balançou a cabeça.

– O sangue do meu pai ainda está aqui. É isso que teria contado para ele. Ver perdurar o que construiu e saber que os seus descendentes não só preservam, mas também fazem crescer o património que ele começou a reunir. Sei que entende o que digo, Elizabeth.

Ela assentiu.

– E também sei que tem ideia de como é difícil conquistar tudo isto. – Precisava de discutir o seu problema com uma mulher que pudesse compreendê-lo. – Também temos desastres aqui nos trópicos. Vocês enfrentam a seca. Nós temos os ciclones. Perdi o meu filho vítima de um deles. Foi uma época muito difícil. Roberto tinha morrido, as plantações estavam devastadas…

Um tempo de perdas em todos os sentidos.

– Às vezes penso que os desastres forjam o carácter humano – opinou Elizabeth. – É preciso ter força para superá-los, para suportar…

– Para lutar. Para preservar o que se tem – acrescentou Isabella com firmeza.

Talvez fosse a convicção na sua voz, mas Elizabeth olhou-a com um misto de respeito, consideração e orgulho. O que via ela? Ambas tinham cabelos grisalhos, olhos escuros e colunas erectas. Isabella era quase duas décadas mais velha, mas não se sentia idosa. O seu rosto exibia mais rugas, e ela provavelmente experimentava mais dores e desconforto do que a mais nova, mas, na alma, o fogo da vida ainda ardia intenso, chamas que continuariam luminosas e fortes por todos os anos que ainda tivesse pela frente.

– Fez do seu pai um homem orgulhoso, Isabella. Preservou este lugar para os seus netos crescerem, transformarem-se em homens e conquistarem tudo o que têm. Ontem, quando fomos conhecer as plantações, Rafael e eu ficámos muito impressionados.

– Mas tudo pode acabar facilmente. O ciclone que tirou a vida a Roberto e à sua esposa… – Balançou a cabeça com enorme tristeza. – Quero os meus netos casados e com filhos para salvaguardar o futuro de toda esta herança, mas eles não me ouvem.

– Alex…

– Você conheceu a noiva dele no jantar de ontem. O que acha de Michelle Banks?

Uma certa hesitação antecedeu a resposta.

– Bem, ela é… educada, polida…

Isabella riu do comentário cauteloso.

– Como um diamante – disse. – Brilhante, sedutora, requintada, mas com um coração duro como a rocha mais resistente. Aquela jovem não é capaz de dar nada de si mesma a ninguém.

– Está infeliz com a escolha do seu neto.

– Ela não será uma boa esposa.

Elizabeth assentiu, demonstrando compreensão do dilema em que Isabella se encontrava.

– Se não aprova a noiva de Alex, deve procurar outra mulher para ele. Antes que seja tarde demais.

– Eu? E como poderia fazer tal coisa? Alessandro jamais aceitaria um casamento arranjado. Ele é orgulhoso, independente, obstinado…

– O meu filho mais velho, Nathan, desperdiçou anos preciosos da sua vida com mulheres inadequadas. A sua vida sempre esteve ligada à terra, como a de Alex.

– Sim, Alex ama a terra, mas Michelle não partilha desse sentimento. Para ela, a agricultura é apenas uma fonte de riqueza. Mais nada.

– Saí em busca de uma mulher que pudesse atender às necessidades de Nathan. E encontrei-a mulher. Como previa, Nathan identificou nela a sua alma gémea e também foi capaz de atender às suas expectativas. O casamento é muito feliz e harmonioso.

– Você encontrou Miranda para Nathan?

– Sim. Eu pu-los em caminhos destinados a cruzarem-se e rezei para que tudo desse certo. As minhas preces foram atendidas.

– Ah! Os caminhos devem cruzar-se… com uma certa ajuda, é claro!

– Não é tão óbvio. É preciso exercer alguma pressão para aproximá-los. É impossível controlar tudo. Se não houver química…

– Elizabeth! Que mulher não se sentiria atraída por Alessandro?

– Entendo o seu ponto de vista. Mas… e ele? Alex também deve sentir-se atraído pela mulher em questão. Miranda é uma mulher linda. E Michelle é…

– Já ouviu falar em milagres da cosmética? A beleza daquela jovem tem a profundidade da pele.

– Mas ela é sedutora. Sabe usar de todos os artifícios para se tornar sensual.

– Pele e osso! Alessandro precisa de uma mulher com ancas largas para abrigar muitos bebés e seios fartos para amamentá-los. Uma mulher que saiba preparar e apreciar uma refeição de verdade. Alguém que não viva como um coelho, comendo apenas folhas de alface e cenouras.

Elizabeth riu.

– Bem, não se esqueça que Alex vai ter de se sentir atraído pela mulher em questão. Levando em consideração o tipo físico de Michelle, eu não escolheria ninguém muito rechonchuda.

– Mas a candidata ideal pode ter curvas nos lugares certos, não?

– Você conhece-o bem, Isabella. Sabe que a atitude é mais importante que tudo. Alex precisa de alguém que possa ser sua companheira em todos os sentidos.

– Uma companheira. Sim, você tem razão. Uma companheira que queira ter filhos.

Isabella estava satisfeita com a conversa.

Era bom receber a visita de Isabella com o seu novo companheiro, o argentino Rafael Santiso, um homem bom e generoso. Ele lembrava-lhe o seu pai, um homem de visão.

Alessandro também podia ser um homem de visão… se abrisse os olhos e visse o que tinha de ser visto para fazer tudo dar certo. E ela poderia ajudá-lo a ver. Ia encontrar a mulher certa e pô-la-ia diante dele.

Capítulo 2

– Gina! Venha até aqui imediatamente!

Gina Terlizzi abandonou as flores que ajeitava num arranjo e correu para a sala da frente, sem entender porque é que a sua presença era solicitada com tanta urgência. Como proprietária da florista, a sua tia preferia lidar com os clientes pessoalmente.

O motivo estava ali, diante dos seus olhos, fazendo o seu coração bater mais depressa. Marco, o seu filho de dois anos e meio, estava ao colo de uma mulher de cabelos grisalhos e olhos escuros. Não era uma mulher qualquer, mas Isabella Valeri King, a lendária matriarca da família King.

A florista ficava em Cairns, e o Castelo de King estava localizado em Port Douglas, setenta quilómetros a norte, mas toda a comunidade italiana em Queensland conhecia e respeitava aquela mulher.

– É a mãe deste menino? – perguntou ela, com o rosto aristocrático a expressar reprovação.

Gina olhou para a criança que, no colo da septuagenária, parecia fascinada pelos cabelos brancos.

– Sim, sou eu. Marco, o que fizeste? Por que não estás no quintal?

O garoto sorriu, triunfante.

– Fiz uma escada de caixas e abri o portão.

O que significava que não podia voltar a ter a certeza da sua segurança ali na florista.

– Porque é que abriste o portão?

– Para andar de bicicleta.

– Ele estava na rua, a pedalar no triciclo a alta velocidade, e quase me atropelou – acusou a mulher.

– Lamento muito, senhora King, e agradeço-lhe por tê-lo trazido até aqui. Pensei que ele estivesse a brincar no quintal.

– O seu filho parece ser um grande empreendedor. Os meninos são aventureiros por natureza. É necessário ter sempre em mente essa característica e canalizá-la para actividades produtivas.

– Tem razão. Obrigada mais uma vez, senhora King.

A mulher olhava-a de maneira estranha, como se analisasse e catalogasse cada detalhe da sua aparência; os longos cabelos castanhos, a franja sobre a testa, os olhos cor de âmbar, a boca ampla, a estrutura óssea do rosto, o pescoço longo, os seios fartos sob a blusa sem mangas, a cintura estreita, as ancas largas, as pernas grossas e os pés delicados calçados por sandálias.

Era embaraçoso, como se estivesse a ser estudada por ser uma criatura descuidada que não se dava ao trabalho de cuidar do filho pequeno. O que não era verdade. Gina orgulhava-se de ser uma boa mãe. O problema era que Marco podia ser imprevisível e incontrolável em alguns momentos.

– Soube que é viúva.

– Sim, sou – respondeu Gina surpresa.

– Há quanto tempo?

– Há dois anos.

– Talvez o menino precise de um pulso masculino.

– Marco tem tios.

– Você é uma mulher jovem, atraente… Não está a ser cortejada por ninguém?

Qual era o problema daquela mulher, afinal?

– Eu… não conheci ninguém que…

– Era muito ligada ao seu marido?

– Sim.

– Isso não é bom para o menino. Passa a maior parte do dia a trabalhar, sem poder supervisioná-lo adequadamente, lutando pela sobrevivência, quando um marido poderia prover o vosso sustento e tirar essa carga dos seus ombros.

– Eu sei, mas… – Gina balançou a cabeça. Sabia que a tia estava a ouvir toda a conversa, e temia que se ofendesse. Afinal, o emprego em part-time na florista era um favor, especialmente porque podia levar Marco com ela todos os dias.

Se o menino passasse a criar problemas…

Maldição! Sabia que ouviria um sermão quando Isabella Valeri King partisse. No entanto, a senhora King parecia não ter pressa. Depois de ter feito o seu pequeno sermão, ela optou por um discurso diferente.

– Soube que também canta em casamentos.

– É verdade. – Como é que ela sabia tantas coisas a seu respeito?

– O seu agente enviou-me uma cassete com algumas canções. Tem uma voz adorável.

Finalmente a compreensão.

– Obrigada.

– Sabe que o Castelo King é usado para a realização de casamentos?

– É claro que sim! – Mas só para as cerimónias mais luxuosas e exclusivas.

– Estou sempre à procura de bons cantores, e há muito tempo que ando a pensar em testar uma voz poderosa no nosso salão de baile. Lá, a acústica é diferente da de um estúdio de gravação.

O salão de baile! Gina nunca estivera lá, mas as histórias sobre o castelo eram muitas. Estaria diante de uma oportunidade de ser contratada para cantar nos mais requintados casamentos? Poderia pedir um cachê muito mais alto. Afinal, teria de viajar de Cairns para Port Douglas, o que tornaria o trabalho mais caro. As possibilidades eram muitas e excitantes!

– Pode ir ao castelo no domingo à tarde?

– Sim. – Faria qualquer coisa para agarrar a sua grande oportunidade.

– Óptimo. Às três em ponto. E leve o menino consigo. – Ela olhou para Marco e, depois de uma certa hesitação, colocou-o no chão. Era surpreendente, mas ele permanecera quieto durante todo o tempo, sem tentar libertar-se como costumava fazer. Era como se estivesse fascinado pela mulher que falava com a sua mãe com tanta autoridade. – Tu vais visitar a minha casa com a tua mãe, Marco.

– Posso pedir a alguém para cuidar dele – sugeriu Gina, temendo que o comportamento imprevisível do filho pudesse prejudicar o seu teste.

A sugestão mereceu um olhar severo.

– Não faça isso. O seu filho é um menino encantador, e vou gostar de vê-lo a correr e a brincar na propriedade. Tomaremos chá e deixaremos a criança gastar energia junto à natureza.

– É… muito generoso da sua parte. Obrigada.

– Agora fica com a tua mãe, Marco. E não voltes a andar de bicicleta na rua. Não é seguro.

Obediente, ele aproximou-se de Gina e segurou a mão dela.

– Quantos anos ele tem?

– Dois e meio.

– Ele é ágil para a idade. E também fala muito bem. – O comentário revelava surpresa e admiração. – Deixei o triciclo ao lado da porta.

– Obrigada.

– Estarei à vossa espera no domingo. Às três.

– Estaremos lá, senhora King. E obrigada mais uma vez.

Faltavam dez minutos para as três da tarde. Gina parou o seu pequeno Honda Swift sob uma das pérgulas cobertas por parreiras que flanqueavam os degraus do Castelo King. Aquela era a área de estacionamento para visitantes, e o facto de o seu carro ser o único ali aumentava o nervosismo que a consumia.

Levava uma cassete com algumas canções gravadas na sua mala, mas talvez nem precisasse dela. Não sabia se cantaria acompanhada por alguma melodia ou se apenas a sua voz seria avaliada durante o teste. Bem, pelo menos tinha a cassete com o acompanhamento, caso precisasse dela. O espelho retrovisor comprovava que a maquilhagem estava intacta, embora fosse suave. Apenas delineador para realçar os olhos, rímel e batom. Lavara e secara o cabelo com o auxílio de uma escova, e as ondas suaves que emolduravam o seu rosto caíam sobre os ombros como um manto sedoso. Esperava ter a aparência de uma cantora profissional.

Marco tinha adormecido no seu assento de segurança. Gina vestira-o com calções azul-marinho, camisa às riscas vermelhas e brancas e calçara-lhe sandálias. Com os cabelos escuros e encaracolados e os olhos quase negros, a criança ficava encantadora usando cores fortes, e naquele dia estava especialmente lindo. Para ela, Gina tinha escolhido um vestido amarelo limão de corte direito e simples. Sem mangas, o traje possuía apliques em azul-marinho que lhe conferiam elegância e davam-lhe um ar profissional e chique. E precisava de confiança naquele dia.

Cautelosa, soltou o cinto de segurança do assento de Marco e acordou-o antes de o tirar do carro. Felizmente, ele nunca acordava mal-humorado.

– Estamos no castelo, mamã?

– Sim, querido. Vou fechar o carro e caminharemos até lá.

– Não consigo vê-lo.

– Espera um minuto. Temos de subir a escada.

Enquanto subiam os degraus, os olhos do menino permaneciam fixos na torre que dominava a colina. Havia uma lenda contando que Frederico Stefano Valeri construíra aquela torre para que a sua esposa pudesse ver os barcos a voltar do mar e os canaviais que ardiam durante a colheita.

– Podemos ir lá acima, mamã?

– Hoje não, querido. Mas vamos conhecer o salão de baile. Soube que há grandes bolas cobertas de espelhos penduradas no tecto, e a madeira que reveste o piso foi cortada de forma a criar desenhos interessantes.

Por todas as partes era possível ver samambaias, folhagens exuberantes e flores tropicais. Do lado da escada partia um caminho calcetado sobre um relvado impecável. Alguns metros à frente havia um alpendre sustentado por colunas graciosas, e logo depois dele abria-se a entrada para o castelo. Era uma área espaçosa em cujo centro havia uma fonte cercada por grupos de mesas e cadeiras. Num desses grupos estavam três pessoas, e Gina experimentou uma forte tensão ao reconhecê-las.

Alex King conversava com a avó. Alex King e a sua noiva. Vira a foto publicada no jornal que anunciara o noivado, e por isso podia identificá-los. O homem já tinha alguém especial na sua vida. Além do mais, nunca tivera uma oportunidade de conhecê-lo realmente. No entanto, se existia um homem capaz de fazê-la virar a cabeça e suspirar, esse homem era o «Rei do Açúcar».

Amara Angelo, o marido, e ele tinha sido a sua vida real. Alex sempre fora uma fantasia impossível. Mas, ao sentir o seu olhar atento enquanto se aproximava do grupo levando o filho pela mão, ela experimentava intensos arrepios e temia que todos pudessem ouvir as batidas do seu coração. Nunca vira homem mais belo! Grande e forte, ele possuía um ar de autoridade insuperável, como se fosse capaz de lidar com tudo o que surgisse no seu caminho. Definitivamente um rei, comparado a outros da sua espécie.

Ele sorriu para Marco, e o sorriso transformou os ângulos duros do seu rosto. Os olhos brilhavam para o seu filho, olhos surpreendentemente azuis, em contraste com a pele morena e os cabelos negros típicos da sua origem italiana. Os olhos claros deviam ter sido herdados do pai. De qualquer maneira, eles acrescentavam um carisma ainda maior à presença imponente de Alex.

Gina devia ter-se dirigido à ponta da mesa ocupada por Isabella, mas, sem pensar, atraída de forma magnética pela beleza perfeita de Alex King, caminhou na direcção oposta. Ele levantou-se para cumprimentá-la, e nesse momento Gina teve consciência do quanto era alto e forte. A sua cabeça mal conseguia alcançar a altura dos ombros largos.

– O meu neto, Alessandro – apresentou-o Isabella de onde estava. O sorriso benevolente aliviou a tensão e o temor de Gina. Pelo menos não fora rotulada de mal-educada ou grosseira. – E a noiva dele, Michelle Banks.

Gina assentiu e sorriu. A resposta foi um sorriso gelado formado por lábios carnudos e pintados de vermelho brilhante. A beleza da mulher era quase desmoralizante! Loura, usava os cabelos presos num carrapito clássico, realçando assim o rosto harmonioso e os olhos verdes e amendoados. O pescoço gracioso separava a cabeça de um corpo esbelto como o de uma modelo.

Ela usava uma camisola de tecido elástico e gola alta, e as cores vibrantes da estampa contrastavam com as calças pretas de cintura baixa. Um traje perfeito para mulheres de seios pequenos, ancas estreitas e curvas modestas.

Gina sentiu-se gorda. O que era uma estupidez, porque nunca fora sequer roliça. Tinha proporções diferentes das de Michelle Banks, certamente, mas era só isso. Então, por que o argumento não amenizava o peso que se instalara no seu coração? Aquele era o tipo de mulher com quem Alex King pensaria em casar. Com quem se casaria.

– Gina Terlizzi e o seu filho, Marco – Isabella concluiu as apresentações.

– É um prazer conhecê-los. – O tom profundo e sonoro provocou um arrepio nas costas de Gina. – Os Terlizzi sempre foram uma família de muito respeito. Continuam no ramo dos barcos pesqueiros?

– Quase todos os homens da família, pelo menos – respondeu ela, surpreendida por descobrir que Alex os conhecia.

Há muitos anos, o pai dele, Robert King, tinha financiado o início do empreendimento dos Terlizzi. O seu bisavô, Frederico Stefano Valeri, iniciara a tradição de oferecer financiamentos a imigrantes italianos interessados em estabelecer os seus negócios naquela região, onde os bancos se negavam a ajudá-los. Todos sabiam que os King estavam sempre dispostos a ouvir e discutir uma boa proposta, mesmo quando todas as instituições financeiras se negavam a considerá-la. A decisão final era tomada a partir da capacidade de sucesso do empreendedor, não nas garantias que ele podia oferecer, e ninguém jamais deixara de saldar as suas dívidas com os King.

– Tu és a viúva de Angelo, não? – indagou Alex em tom simpático.

Ela assentiu, atónita por ele conhecer também o nome do seu marido.

– Lembro-me de ter lido alguma coisa sobre ele ter ido buscar um navegante solitário cuja embarcação encalhou nos recifes.

– Uma tempestade surpreendeu-o no caminho. Os dois pereceram – contou Gina com a voz embargada pela emoção.

– Um homem corajoso. E uma perda dolorosa para ti e para o teu filho. Espero que a tua família esteja a cuidar bem de vocês.

– Oh, sim, muito bem.

– Que bom. A minha avó contou-me que vieste para cantar. Não queres uma bebida antes do teste? Por favor… – Apontou para as cadeiras vazias do outro lado da mesa, diante da sua noiva. – O que preferes? Vinho, sumo de fruta, água…?

– Água, obrigada.

– E tu, Marco?

– Sumo, por favor.

– Apenas meio copo, por favor – pediu Gina ao sentar-se. – Ele acaba sempre por entornar o líquido de um copo cheio.

– Entendo.

– É cantora profissional? – perguntou Michelle Banks.

– Canto em alguns eventos, coisas como casamentos, baptizados e outras festas, mas não posso dizer que vivo da minha música.

– Presumo que se tenha preparado de alguma forma – a mulher insistiu.

– Sim, fiz aulas de canto e participei de alguns concursos ao longo dos anos. Sempre consegui colocar-me entre os três primeiros qualificados.

– Então, por que não tenta a carreira artística?

– Nem todas as mulheres põem a carreira em primeiro plano – interferiu Isabella com tom seco.

Michelle encolheu os ombros.

– Se a sua voz é realmente boa, considero um desperdício não tirar proveito dela.

Porque é que a noiva de Alex sentia necessidade de colocá-la em evidência com as suas perguntas persistentes? Michelle tinha tudo o que outras mulheres podiam invejar, inclusive o homem que colocara um anel de noivado no seu dedo.

– Não era o tipo de vida que eu queria – respondeu Gina com sinceridade. – Quanto a ter uma boa voz – olhou para Isabella, – estou aqui para que a senhora King possa julgar se correspondo aos seus requisitos.

– E eu estou ansiosa para ouvi-la – afirmou a mulher com um sorriso animador. – Se canta mesmo como ouvi na cassete… – Isabella olhou para o neto. – Talvez queiras contratá-la para cantar no teu casamento, Alessandro.

Silêncio. Desconforto. Gina percebeu que a tensão que pairava sobre a mesa era anterior à sua presença. Quieta, sorveu alguns goles do copo de água e esperou pelo desfecho da situação.

Michelle Banks olhou para o noivo como se exigisse o seu apoio. Ele moveu-se na cadeira com evidente desconforto, mas havia paciência nos seus olhos.

– Nonna, já discutimos esse assunto. Michelle quer um harpista, não uma cantora.

– Já sei o que ela quer. E tu? Não tens vontade própria?

– O dia é da noiva.

– É essa a tua opinião, Michelle? Também achas que a cerimónia de casamento pertence apenas à noiva e que o noivo deve concordar com todos os seus desejos?

Michelle sorriu com frieza.

– Alex também gostou da ideia do harpista.

– Não acredito que uma harpa ou qualquer outro instrumento musical possa gerar o calor e a emoção proporcionados por uma voz humana.

– É uma questão de gosto. A harpa é muito elegante.

– Realmente. No entanto, creio que mesmo numa ocasião elegante e requintada deve haver espaço para demonstrações de afecto. Especialmente se a ocasião for um casamento. Afinal, trata-se de uma celebração de amor, não? – Virou-se para Gina sem esperar pela resposta. – Pronta para cantar?

– Quando quiser, senhora King. – Pegou na mala. – Trouxe uma fita com o acompanhamento necessário. Existe algum equipamento no salão de baile, ou…?

– Oh, sim, temos todo o equipamento necessário. Alessandro ligará o sistema de som e providenciará o controlo remoto para que possa parar a cassete entre uma canção e outra.

Gina sentiu o coração oprimido. Ele também estaria presente? Notou uma linha de aborrecimento na testa de Michelle, mas limitou-se a agradecer.

– Será um prazer – respondeu Alex King.

Teria uma audiência complexa. A noiva de Alex, por exemplo, já se mostrava propensa a um julgamento mais crítico.

Isabella levantou-se, um sinal de que todos deveriam fazer o mesmo. Gina removeu o copo das mãos de Marco e colocou-o em pé.

– Agora vamos ver o salão das bolas com espelhos, mamã?

– Sim, querido.

– Anda, Marco – Isabella chamou o garoto, estendendo a mão para que ele a segurasse. – Quero mostrar-te tudo enquanto a tua mãe se prepara para cantar para nós.

O menino aceitou o convite sem nenhuma hesitação, os olhos iluminados pelo entusiasmo. O que o tornava tão acessível àquela mulher, se normalmente era desconfiado e arisco com estranhos em geral? Era como se Marco se sentisse atraído pelo poder que emanava daquele corpo envelhecido, um poder conferido pelos anos vividos como matriarca de uma grande família.

Nem mesmo Michelle Banks ousaria desafiá-la, embora Gina pudesse sentir a hostilidade da jovem enquanto o grupo se dirigia ao salão de baile. De repente, teve a sensação de estar a ser usada como arma por Isabella. Seria apenas um instrumento numa batalha subtil travada contra a noiva do seu neto?

Esperava que não.

Precisava daquela oportunidade. Queria um contrato duradouro, uma fonte de rendimento estável através da qual pudesse construir um futuro melhor e mais sólido para ela e para Marco. Para isso, teria de ser aprovada. E as condições não eram as melhores, dadas as correntes eléctricas que a atingiam vindas de todos os lados. De alguma forma, tinha de ignorá-las e concentrar-se em cantar.

Além de tudo o que estava em jogo, odiaria fracassar diante de Alex King. Detestaria ser alvo da sua piedade e dar à sua noiva bons motivos para criticar a sua apresentação.

Tinha de cantar bem.

Ou morreria de vergonha e humilhação.