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Camilo Castelo Branco
A Morgadinha de Val-D'Amores/ Entre a Flauta e a Viola
Theatro Comico de Camillo Castello Branco

Publicado pela Editora Good Press, 2022
EAN 4064066409999
Índice de conteúdo
ADVERTENCIA
A MORGADINHA DE VAL-D'AMORES
FIGURAS
ACTO PRIMEIRO
SCENA I
FREDERICO (só)
SCENA II
PANTALEÃO, DOIS CREADOS, E OS TAMBORILEIROS
SCENA III
PANTALEÃO E OS DOIS CREADOS (QUE POUSAM AS VASILHAS)
SCENA IV
SCENA V
MORGADINHA, JOÃO LOPES, E AS CANTADEIRAS
SCENA VI
MORGADINHA E JOÃO LOPES
SCENA VII
MORGADINHA
SCENA VIII
PANTALEÃO, MACARIO, E A MORGADINHA
SCENA IX
MACARIO E A MORGADINHA
SCENA X
JOÃO LOPES, ESPREITANDO A MORGADINHA, E DEPOIS FREDERICO
SCENA XI
MORGADINHA, OS DOIS CAMPONIOS QUE VÃO PASSANDO, E DEPOIS FREDERICO
SCENA XII
MORGADINHA
SCENA XIII
MORGADINHA E FREDERICO
SCENA XIV
OS MESMOS E PANTALEÃO
SCENA XV
PANTALEÃO E FREDERICO
SCENA XVI
MORGADINHA, PANTALEÃO, E O BANDO DAS MOÇAS E TOCADORES QUE APARECERAM NA TERCEIRA SCENA
ACTO SEGUNDO
SCENA I
TODOS OS DESCRIPTOS (GRUPO DA MORGADINHA E COSME GIRALDES)
SCENA II
OS MESMOS, E AS FIGURAS ABAIXO DESCRIPTAS EM LOGAR COMPETENTE
Scena I do Auto
ADONIS E MANASSÉS
Scena II do Auto
VOZ D'UMA PASTORA, CANTANDO DENTRO
Scena III do Auto
O VELHO SIMEÃO E RUIVA
Scena IV do Auto
ENTRAM PASTORINHOS E PASTORINHAS
Scena V do Auto
UM REI TURCO E DEPOIS OUTROS FIGURÕES
Scena VI do Auto
Scena VII do Auto
OS MESMOS E UM ANJO, QUE SE METTE EM MEIO DOS DOIS REIS
SCENA III
OS MESMOS, EXCEPTO OS PERSONAGENS DO AUTO
SCENA IV
MACARIO, COSME E PANTALEÃO
SCENA V
COSME E MACARIO
SCENA VI
MACARIO E FREDERICO
SCENA VII
FREDERICO, JOÃO LOPES, E CABOS
SCENA VIII
FREDERICO, CABOS, UM DESCONHECIDO, E CAMPONIOS
ACTO TERCEIRO
SCENA I
PANTALEÃO E MACARIO
SCENA II
OS MESMOS E A MORGADINHA
SCENA III
OS MESMOS E JOÃO LOPES
SCENA IV
MORGADINHA, JOÃO LOPES E DEPOIS FREDERICO
SCENA V
OS MESMOS E PANTALEÃO
SCENA VI
FREDERICO, MORGADINHA E JOÃO LOPES A INTERVALOS
SCENA VII
OS MESMOS, PANTALEÃO E JOÃO LOPES
SCENA VIII
PANTALEÃO E A MORGADINHA
SCENA IX
SCENA ULTIMA
ENTRE A FLAUTA E A VIOLA
PERSONAGENS
ACTO UNICO
SCENA I
ANICETO, VICTORINA, CREADO
SCENA II
ANICETO E VICTORINA
SCENA III
ANICETO E O CRIADO QUE VEM COM O CASTIÇAL
SCENA IV
GUTERRES E O CREADO
SCENA V
ANICETO SAINDO COM O CASTIÇAL EM PUNHO
SCENA VI
ANICETO E VICTORINA SAHINDO DA ALCOVA
SCENA VII
GUTERRES
SCENA VIII
ANICETO E GUTERRES
SCENA IX
GUTERRES
SCENA X
JOSÉ PIMENTA E GUTERRES
SCENA XII
ANICETO E GUTERRES
SCENA XIII
GUTERRES (só)
SCENA XIV
JOSÉ PIMENTA, GUTERRES, VICTORINA, NO QUARTO E DEPOIS NA SCENA, ANICETO MAIS TARDE, E O CREADO
ADVERTENCIA
Índice de conteúdo
Da parte musical da primeira comedia d'este livro se encarregou o distincto maestro Francisco de Sá Noronha, quando a comedia se escreveu com destino a ser representada em Lisboa. Sendo importantissimo para o bom exito theatral o subsidio da musica n'esta composição, e sobrevindo rasões que desviaram o nosso amigo Noronha de collaborar comnosco em tamanha futilidade, não pôde por isso a comedia ser submettida á opinião das platêas. Quem a lêr agora tem de benevolamente disfarçar o seu fastio de leitura de versos, feitos ou copiados das canções populares, para se cantarem.{vi} Por via de regra, taes trovas são sempre asperas ou dissaboridas na declamação, mórmente as que formam o Auto do nascimento do menino Jesus, consoante elle se figura nas aldêas do Minho ainda hoje.
Com referencia á farça não temos que pedir desculpa. Seria desvanecimento irrisorio recearmos nós que a ponderosa e grave critica se descesse até coisa tão pequena.
A MORGADINHA DE VAL-D'AMORES
Índice de conteúdo
COMEDIA EM TRÊS ACTOS
FIGURAS
Índice de conteúdo
D. JOANNA COGOMINHO DE ENCERRABODES, morgada de Val-d'Amores, filha de
PANTALEÃO COGOMINHO DE ENCERRABODES.
FREDERICO ARTHUR DA COSTA, Escrivão da Fazenda de Santo Thyrso.
COSME JORDÃO, Deputado por Guimarães.
MACARIO MENDES, Boticario de Santo Thyrso.
JOÃO LOPES, Lacaio e confidente da Morgada.
FIGURAS DO AUTO DOS TRES REIS MAGOS.
Creados, cantadeiras, camponezes, musicos e outros personagens.
Scenas da actualidade.
ACTO PRIMEIRO
Índice de conteúdo
Ao fundo, portão de quinta com sua enorme pedra de armas e ameias lateraes. O restante do palco figura uma alameda e estrada.
SCENA I
Índice de conteúdo
FREDERICO (só)
Índice de conteúdo
(Frederico é um homem entre 28 e 33 annos que traja quinzena e calças pretas apertadissimas em corpo de extrema magreza e aprumo. O chapéo é de fórma ingleza e alto para tornar mais aguçada a figura. A cabelleira bironniana em crespas ondulações. Bigodes encerados e picantes nas guias retezadas. A luneta d'um vidro sem aro obriga-o a caretear, abrindo a bocca de esguêlha quando fixa mais attentamente a morgada. Os seus movimentos, quando lhe fôr necessario fugir, hão de ter tal velocidade que simulem o rapido perpassar d'um duende. A agilidade da rotação do pescoço deve dar-lhe o que quer que seja de authomatico e fantasmagorico.)
A razão diz-me que eu estou em perigo de ser moído por estes selvagens do Minho; mas o coração, este intestino onde o amor e a coragem habitam, diz-me que não vacille. A rasão argumenta-me{12} que eu, escrivão de fazenda no concelho de S. Thyrso, não devo arrojar as minhas desenfreadas ambições até á mão da morgadinha de Val-d'Amores; mas o coração, esta republica intima que me esbraveja no peito, impelle-me para ella, mandando-me lêr n'aquelle brazão (apontando) o epitaphio da fidalguia de raça, e o monumento levantado não ás tradições ineptas, mas á restauração da dignidade humana. Além d'isto, eu, homem de aspirações gigantes, eu, poeta de audaciosos raptos d'alma, eu, que junto á poesia elevada a poesia profunda, preciso de me arranjar. Sou escrivão de fazenda; mas esta posição não quadra aos meus instinctos. Ás vezes como que sinto escaldarem-se-me as arterias com sangue de principe, e me quer parecer que algum de meus avós foi mais ou menos illudido por alguma das minhas avós. Reconheço, como filho d'este seculo, que a democracia matou a nobreza mascarando-se ella de fidalga; assim é; porém, ao mesmo tempo, não sei que filtros me circulam no intimo peito, quando vejo esta morgada e lhe entrevejo na fronte o sangue azul das veias. Sobre tudo, o que mais me incita a querer-lhe com a adoração{13} dos Paulos e dos Romeus é a precisão que tenho de me arranjar.
Eu já manobrei por mares tempestuosos. Um dia consultei a minha vocação; e, como me sentisse um dos muitos desventurados que cáem n'este mundo sem vocação, fiz-me litterato. Os litteratos fazem-se a si proprios, por serem cousa que a Biblia não diz que o Creador fizesse nos sete dias de creação. Um sujeito olha para si como Deus para as trevas, e diz «fiat lux» faça-se o litterato; «et lux facta est», e o litterato fez-se. Eu prometto não dizer mais nada em latim, por que tambem não sei mais do que isto.
Feito litterato, escrevi como toda a gente que quer escrever. Preparava-me para coordenar uma Historia Universal em 25 volumes com 26 de supplemento, quando se me offereceu um logar de noticiarista n'um diario de Lisboa. A minha reputação estava quasi estabelecida, quando a empreza me despediu por semsaborão, como se fosse obrigatorio ser engraçado no paiz mais desgraçado do mundo. Voltei o meu espirito para a historia universal, e cheguei até a procurar n'um Almanak onde era a Torre do Tombo com tenção de lá ir consultar os pergaminhos.{14} N'este proposito estava eu, sentindo já os calores da gloria, quando me encarregaram de traduzir uma comedia franceza para o Gymnasio. Puz de parte a Historia Universal, e traduzi a comedia com um esmero indigno do resultado, porque ella foi pateada visto que tinha, segundo disseram os criticos, uns gallicismos que lhe corrompiam a virgindade elegante do texto. Ora eu então fiz-me critico, animado pela grande copia de sandices que se escreveram contra a minha traducção. N'este modo de vida achei vantagens extraordinarias, sendo a primeira a dispensa de saber alguma coisa. Um critico, no jardim das lettras, representa uma toupeira em jardim de flores; é temivel porque remeche e estraga tudo; levanta impólas de terra, e suja quando não desvasta a mimosa vegetação. Eu fiz destroços grandes e escalavrei muitas reputações litterarias, já por amor da arte, já por amor do estomago, esta coisa onde um homem de genio não póde crear a luz, porque isto aqui (indicando o estomago) é um abysmo que só recebe a luz pela bocca. Mas a final, as obras litterarias que appareciam eram já de natureza que o arpéo da critica não lhes ferrava a{15} unha. Entreguei-me ao genero chamado reclame, e comecei a chamar a attenção do paiz para toda a coisa impressa, poema ou tragedia, romance ou farça. Este officio, posto que o mais aviltante da vida d'um escriptor, é o mais lucrativo no mundo patarata, em que eu me atasquei. A consciencia pezava-me pouco, se o estomago sahia pezado de casa do emprezario do theatro ou do editor do romance. Afoguei muitos escrupulos em sopa de camarão. Mas o sangue de principe, este não sei quê que me faz cócegas nos miolos, mostrou-me a indignidade da minha missão na terra, e desde logo atirei um vôo atrevido ás regiões aquilinas da politica. Estudei trez dias as questões de fazenda em Portugal, e entendi-as tão claramente como se fossem questões da minha fazenda. Percebi que o paiz estava como eu tal e qual: foi-me facil escrever uma serie de artigos nos quaes provava que a maneira de matar o deficit era... sim eu provava que a maneira de matar o deficit, esse cancro roedor das entranhas do meu paiz, era... sim eu provava... não me lembra agora o que provei... o certo é que me despacharam escrivão de fazenda de Santo Thyrso,{16} provavelmente para matar o deficit. Eis que chego, e vejo a Morgadinha... (Ouvem-se os tamborileiros) Não convem que estes barbaros me vejam parado em frente do portão da mulher amada... (Sáe).
SCENA II
Índice de conteúdo
PANTALEÃO, DOIS CREADOS, E OS TAMBORILEIROS
Índice de conteúdo
Entram ao terreiro e páram tocando em frente da porta trez tamborileiros, um de bombo, e os outros com caixas de rufo. Pouco depois abre-se a porta, e sáe PANTALEÃO, com dois creados de lavoura, um dos quaes distribue canecas de vinho, que despeja d'um pichel vermelho, pelos tamborileiros, que se descobrem.
1.º Tamborileiro (o do Zabumba)
Biba o incelentissimo morgado a mai'la snr.ª morgadinha!