Read the book: «Notas d'arte»
António de Lemos
Notas d'arte

Publicado pela Editora Good Press, 2022
EAN 4064066410193
Índice de conteúdo
NO LIMIAR
I Impressões d'uma Exposição
II PINTORES PORTUENSES
III PINTORES PORTUENSES
IV Thadeu Maria d'Almeida Furtado
V PINTORES PORTUENSES
VI ESCULPTORES PORTUENSES
VII Exposição da Sociedade de Bellas-Artes de Lisboa
VIII PINTORES PORTUENSES
IX A MULHER ARTISTA
X NOVAS EXPOSIÇÕES D'ARTE
PINTORES PORTUENSES
XI Uma Exposição de Aguarellas
XII PINTORES PORTUENSES
XIII AMADORES PORTUENSES
XIV PINTORES PORTUENSES
XV EM FRENTE D'UM CARTAZ!...
XVI NA CRUZ
XVII AMADORES PORTUENSES
XVIII Novos quadros de ARTUR LOUREIRO
XIX AMADORES PORTUENSES
XX UMA EXPOSIÇÃO DE QUADROS
XXI Uma Exposição de Carneiro Junior
XXIII AMADORES PORTUENSES
XXIV Uma Exposição de Estatuetas
XXV MANUEL MONTERROSO
XXVI A BAIXELLA BARAHONA
XXVII CONCLUSÃO

PORTO
TYPOGRAPHIA UNIVERSAL (a vapor)
Travessa de Cedofeita, 54
1906
Ao INSTITUTO de ESTUDOS e CONFERENCIAS
Á SOCIEDADE de BELLAS ARTES
pelo que podem fazer em bem da Arte.
(Esboço para um retrato) VASCO FERREIRA
NO LIMIAR
Índice de conteúdo
(1904) Caricatura do dr. M. Monterroso
O philosopho Taine, dizia, ha bons vinte annos, no seu Curso Esthetico para:—A Arte é o reflexo dos costumes. E, de facto, assim é. A Arte vae evolucionando sempre na ordem directa do aperfeiçoamento e da illustração dos povos.
Assim, quanto mais illustrado fôr o publico, tanto mais perspicaz, mais estudioso e mais observador deve ser o artista, para que tenha o applauso geral e sincero a obra que executou e apresenta. E, é mesmo por isso que entre nós, os artistas, pintores e esculptores, dia a dia fazem, na incessante lucta pela vida, os esforços mais lidimos e mais honrados para resolverem esse enorme e sublime desideratum:—ser grande!
Infelizmente nem todos o podem conseguir. E, não o conseguem, porque para isso não são precisas só a boa vontade e a persistencia no estudo. Alguma coisa mais lhes é necessaria, e essa, primacial:—ter talento!
Felizes os que teem esse delicioso e bello predicado; porque esses, vão gloriosamente para diante e são verdadeiramente grandes.
Ha alguns annos, poucos ainda, a pintura entre nós era uma especie de Arte mystica, que apenas raros tentavam, n'um arroubamento de eleitos.
Esses mesmos, faziam a pintura a seu modo, dentro de restrictas e acanhadas normas, sem pensarem sequer que o fluido ether que nos cerca e enche triumphantemente toda a natureza, em pulverisações vibrantissimas de luz e de côr, precisa de ser estudado e quiçá pintado.
Mas, se elles limitavam os ambitos do seu modo de executar, era que o publico tambem não exigia mais, e a critica não se preoccupava absolutamente nada com isso.
Tanto elle como ella eram feitos por individuos, que ao visitar os museus e as exposições de pintura não tinham a intuição nitida e verdadeira da Natureza em todo o seu explendor, como manifestação psycologica da vista.
Habitualmente todos elles amavam a Natureza pelo simples consolo que lhes dava, quando ao domingo, deixada a cidade, iam para o campo, não para fruir o delicado encanto de admirar um bello panorama, mas... para gosar o pantagruelico prazer de devorar um gordo carneiro assado, com o seu alguidar de loiro e assafroado arroz de forno, ou a saborosa pescada frita, com negras azeitonas e fresca e appetitosa salada de alface, acepipes estes que copiosamente regavam com tinto de Basto ou espumoso verde de Amarante.
E, se um ou outro tinha uma tal ou qual intuição artistica, porque, lá fóra, nos grandes museus do estrangeiro, tinha visto qualquer cousa que lhe fizera notar tal, esse, ficava-se n'uma banal indifferença, sem se manifestar aggressivamente contra os systemas adoptados pelos pintores do seu tempo, que apresentavam nos seus quadros composições de convenção e feitas no ar morno dos atelieres, sem a inspecção constante e immediata dos motivos a pintar...
Uma Era nova e refulgente, desponta por fim, e os artistas que começavam pondo de parte os velhos preceitos archaicamente usados, saltam por sobre as barreiras das convenções e correm pelos Campos da Arte, fóra, em procura de elementos verdadeiramente verdadeiros, com que possam satisfazer as exigencias do publico mais illustrado e da critica mais independente que auctoritariamente se impõe, cheia de razão, para que nos seus trabalhos haja mais naturalidade e menos ficção.
E, é sob este refulgir de um novo sol, que orientado lá fóra, com as mais modernas noções d'Arte, estudando nas melhores e nas mais celebres escolas de pintura do Mundo, que nos apparece, entre outros, como Columbano, Malhoa, Salgado. Sousa Pinto, Marques de Oliveira, etc., etc., o grande, o sublime Silva Porto! Aquelle que para mim é o maior dos paysagistas portuguezes dos ultimos tempos. E que, com o seu modo de ser e de ver, marca d'uma maneira deslumbrante o inicio d'essa nova Era para a pintura portugueza.
Assombra-nos esse artista com os seus primorosos quadros feitos n'uma larguissima e franca sentimentalidade d'alma de homem de talento, exuberantes de verdade, geniaes de execução. Era um grande! Era um sublime artista!...
Mas, a Morte rapidamente o ceifa, avara de que elle tenha conseguido tão sincera, tão verdadeira e tão lealmente roubar á Natureza verdadeiros e flagrantes pedaços do seu grandioso Ser, para tão maravilhosamente os transplantar á tela.
Ao morrer porém Silva Porto tinha hasteado, bem alto e bem firmemente, a bandeira gloriosa sob que se devia agrupar a nova pleiade dos pintores portuguezes.
E, de facto, é sob a egide d'essa bandeira que a Arte em Portugal brilha hoje mais fulgurante, podendo pôr-se sem vergonha ao lado da Arte dos paizes onde Ella tem um culto mais largo e mais acerrimo.
Se não em quantidade, pelo menos em qualidade, os artistas portuguezes de nome, chegam onde podem chegar os artistas notaveis estrangeiros, sem temerem confrontos.
E isto porque Portugal d'hoje, embora os pessimistas não queiram, vae avançando intellectualmente um pouco na civilisação moderna.
E em taes circunstancias, como dizia Taine, ha bons vinte annos:—A Arte é o reflexo dos costumes.
Antonio de Lemos (Alvaro).
Cabeça de negra (Bronze) DUQUEZA de PALMELLA
NOTAS d'ARTE
Índice de conteúdo
I
Impressões d'uma Exposição
Índice de conteúdo
Ha muito tempo já, deveria ter vindo dizer da bella impressão que me causou a 1.ª Exposição organisada pelo
José Malhoa
Instituto de Estudos e Conferencias, mas os meus affazeres obrigaram-me, para gaudio dos meus leitores (pois critica incompetente como a minha quanto mais tarde melhor), a só hoje cumprir este dever.
Fui vêr a exposição sete vezes, e de cada vez que lá ia, novos encantos encontrava nos trabalhos expostos, pois a tentativa do Instituto teve o resultado mais brilhante que podia desejar-se.
Concorreram a este certamen desde os nossos melhores artistas até aos mais modestos amadores, e na generalidade todos se apresentaram dignamente, não obstante um critico d'arte ter dito, em um semanario d'esta cidade, que aquelles trabalhos eram meras chromolythographias. Uma duvida me assalta o espirito relativamente aos conhecimentos artisticos e criterio de tal critico. Saberá elle o que são chromolythographias? Mas, deixemos a cada um o seu modo particular de vêr... e de apreciar, e vamos ao que importa... Demais, a lua está tão alta?...
Vi, como disse, varias vezes os cento e dezesete quadros expostos, os dous bustos e o medalhão em marmore.
José de Brito
Dos trabalhos de esculptura direi apenas que os dous primeiros são obra de Fernandes de Sá, pensionista do Estado, que em Paris completa a educação artistica do seu muito talento. A cabecita de creança, em marmore, é um encanto, aquella boquita admiravel de bébé pedia milhares de beijos...
O medalhão de Joaquim Gonçalves é uma bella copia de um primoroso trabalho do grande mestre Soares dos Reis.
Agora, emquanto a quadros, ponho em primeiro logar, dôa a quem doer, os dous trabalhos de Malhoa, esse admiravel artista da Luz e da Côr. Eram um assombro os seus quadros.
Que grande calamidade—josé malhoa
O Gozando os rendimentos, estudado com cuidado e traçado largamente, empolgou-me por completo e fez-me gosar, conjunctamente com o personagem estudado, toda aquella commodidade natural de bom burguez que procura um amplo jardim publico para fazer socegadamente o seu chylo. Esta impressão forte que tive, confesso-o, foi devida talvez ao meu burguesismo.
No Que grande calamidade, as figuras trabalhadas com um rigor de verdadeiro mestre, são flagrantes na sua dor, ao verem o seu querido porco, morto na pocilga. Talvez que, se entre as cabeças das figuras e o rebordo do caixilho houvesse um pouco mais de tela, mais imponentes ellas ficariam.
E depois d'isto, de ter dito o meu modo de pensar sobre tão primorosos trabalhos, vou, salteando o catalogo, dar a nota dos quadros que mais me prenderam a attenção.
Chrysantemos—antonio costa
Marques de Oliveira, como sempre, distinctamente. É inegavelmente um grande desenhista. As suas Impressões de Espinho, são bellas e tanto, que uma foi adquirida pelo Instituto por indicação do jury competente. A Azenha, um encanto, Cabeça de estudo, um primor.
Greno, a fulgurantissima artista, bem, admiravelmente. Então os Pensamentos? Esse, era uma delicia.
Antonio Costa, para mim o unico pintor portuguez de flores, não desmereceu a sua grande fama e, os Chrysantemos e Na vindima, deram-me a prova evidente da sua muita aptidão para este genero de pintura.
Candido da Cunha
Candido da Cunha, um novo de muito talento, com o seu Ultimos raios de sol, que já conheciamos e que foi adquirido tambem pelo Instituto, com os seus—Mar calmo, Martyr e Barcos de pesca, merecem hoje, como sempre, os nossos elogios.
Julio Ramos, outro novo, paisagista apaixonado e distincto, dando ás suas paisagens um tom de verdade admiravel. O Macieiras em flor, em especial e as outras dezeseis telas, lindas a valer.
José de Brito, um mestre, talvez abusando um pouco das cores finas; todos os seus quadros são bons, mas para mim superior a todos é o Mulher do novello, estudo admiravelmente feito de uma velha repelenta, flagrantissima de verdade na expressão do rosto. Na Infancia de Diana,
João Augusto Ribeiro
bello estudo do nú, alguma coisa me desagradou á vista, especialmente um cão que se via nos ultimos planos...
João Augusto Ribeiro, bem nos seus pequeninos quadros Retalhos, Lar.
D. Lucilia Aranha, uma verdadeira artista, cheia de talento e de força de vontade, mais uma vez affirmou, com os treze quadros expostos, as suas aptidões artisticas.
Retrato de minha mãe torquato pinheiro
Torquato Pinheiro veio marcar n'esta exposição o seu logar definido e assente ao lado dos bons artistas. Um caminho encharcado, Manhã d'Abril, Margens do Leça, e todos os demais são feitos com alma de verdadeiro artista. Mas, a destacar, como primor de execução, o Retrato de minha Mãe, que é um trabalho notavel.
D'entre os amadores, extremarei D. Leopoldina Pinto, com as suas flores, especialmente o Pelargonios, que senti não tivesse preço para ser adquirido.
Mais artistas e amadores concorreram a este delicado certamen, mas, não me demorarei na enumeração dos seus trabalhos, porque isso iria ainda muito longe e os meus leitores, decerto, se até aqui chegaram, já bastante se tem aborrecido da semsaboria d'esta minha despretenciosa prosa, que do modo algum aspira ao nome de critica.
II
PINTORES PORTUENSES
Índice de conteúdo
JULIO COSTA
Convidado a delinear um artigo sobre o pintor portuense Julio Costa, pensei primeiro esquivar-me a tal empreza porque me julgo insignificantemente pequeno para fallar d'este artista.
Julio Costa
Mas, antepondo a esse primeiro impulso a amizade que lhe dedico, resolvi acceitar o encargo, e, tal como posso, desempenhar esta missão.
Será um artigo despretencioso, sem preoccupação do estylo ou requinte de forma, um artigo modesto como eu e como o temperamento do pintor illustre de quem me vou occupar.
Não conheço escolas, não discuto artistas, não cito nomes estrangeiros, nem rebusco particularidades de metier.
Quando me occupo da pintura e de pintores nacionaes digo simplesmente, indiscretamente, a impressão que os quadros me deixam. Nada mais. E hoje, ao traçar estas linhas a respeito de Julio Costa, não venho, acreditem, fazer a apreciação, pretenciosa ou sabia, da obra d'esse pintor; venho simplesmente deixar-lhe, sob o seu nome já aureolado pela critica consciente, o laurel amigo da minha admiração.
E posto este preambulo, ahi vae o que me parece dever dizer do Julio Costa.
Portuguez de nascimento e condição, alma que se espande na mais suave de todas as alegrias—a familia—Julio Costa vem, de ha tempos para cá, vivendo quasi exclusivamente para os seus parentes, para os seus discipulos e para os seus trabalhos.
Conselheiro João Franco julio costa
É um d'estes homens com quem, mesmo sem fallar, se sympathisa logo á primeira vista.
É lhano de trato, affavel, de maneiras delicadas, cavaqueador emerito, tendo sempre um dito alegre para retorquir a um remoque que se lhe atire. Nunca deixa de chalacear, a não ser quando tem algum dos seus doente. Então, sim, então abate-se todo na dôr d'aquelle que soffre e deixa-se levar n'essa corrente de magua que o subjuga brutalmente.
É uma luminosa alma dada ao bem e a tudo quanto é bom, e d'ahi a uncção deliciosa e meiga com que elle concebe os seus quadros de genero.
Hoje, posto em foco, pelo brilhantismo dos seus ultimos trabalhos, deve orgulhar-se de ser um dos pintores preferidos nas commemorações aos homens notaveis do nosso paiz.
O retrato é inegavelmente o genero que Julio Costa mais accentuadamente trata e que mais em evidencia o tem collocado.
O retrato de El-Rei pintado para o salão do Tribunal da Relação, os retratos de Oliveira Martins, Dr. Ricardo Jorge, João Ramos, Dr. Eduardo Pimenta, Conselheiro Campos Henriques, Conselheiro João Franco, e muitos outros, são affirmações publicas do que digo.
O primeiro, é largo de ideia, magestatico de pose, tocado de iriadas côres, pois assim o pedia o grande do personagem. Collocado no amplo salão do Tribunal toma um aspecto soberbo, que nos infunde respeito.
Oliveira Martins—julio costa
O segundo, em que a figura de Oliveira Martins, essa imagem de santo e de philosopho, se nos apresenta sentada em larga cadeira de espaldar, em posição natural de quem entretem uma conversa, ao contemplal-o, como que se escuta a sua voz de mestre, que discreteia sabiamente sobre os intrincados problemas economicos do nosso paiz, ou sobre os notaveis factos da nossa historia.
E todos os outros, todos, são verdadeiras obras primas.
Não esquecerei fallar do seu ultimo trabalho, do retrato do Conselheiro João Franco, o homem forte e duro que emprehendeu, n'um arranco de verdadeiro portuguez, remodelar, n'um molde novo e n'uma nova orientação, a marcha dos negocios publicos.
D'esse retrato já eu disse, quando tive occasião de o ver pela primeira vez, o seguinte:
«É grande, na magestade da sua tela ricamente emmoldurada, o retrato do snr. Conselheiro João Franco.
«Absorve por completo a nossa attenção. Está executado n'um correctissimo desenho, tocado d'uma distincta tonalidade de côres, n'um flagrante de pose e de semelhança. Ao retrato do Conselheiro João Franco só lhe falta fallar para ser o proprio.
«Quanto mais o contemplamos, mais correcto e mais perfeito achamos este trabalho. A figura parece que se destaca da tela, tal é a perspectiva que Julio Costa lhe deu; ás vezes como que a vemos mexer-se. Depois, ha um não sei que de vida, que nos faz imaginar que os olhos se movem, que os labios se vão descerrar para fallar.
«E as roupas, que delicada feitura, que nuances de verdade! Na facha que ella ostenta, vermelha, ha reflexos de moiré.
«O retrato em questão não é simplesmente um retrato; é mais do que isso:—é um quadro».
Todos estes seus trabalhos nos encantam e deslumbram, porque Julio Costa sabe apanhar tudo quanto vê em volta de si. Sabe ver, que é o essencial. D'ahi o colher a expressão da Impressão. Mas a Impressão escolhida, não da natureza selvagem, mas sim da natureza civilizada e culta.
Julio Costa é um civilizado! É um delicado! É um raffiné (desculpem o francez).
E é esse effeito de raffinerie e essa predilecção pela impressão escolhida que elle transporta aos seus retratos.
Elle conhece bem o indefinivel e delicado interesse que se desprende das linhas d'um rosto.
Elle sabe que nada é tão impressionante, para nós que contemplamos os quadros, como essas figuras immoveis e mortas... mas que estão vivas!...
E os seus retratados vivem nos seus retratos.
Em uma palavra, Julio Costa não pinta um retrato do seu modelo... pinta o retrato.
Cada uma das nossas sensações, das nossas emoções, dos nossos sentimentos, cada um dos nossos desejos, das nossas esperanças, dos nossos pensamentos secretos altera constantemente a nossa physionomia.
A cada minuto, a cada segundo, qualquer de nós se transforma, e deixamos de ser então semelhantes a nós mesmos. Mas, Julio Costa sabe discernir n'essas fugitivas transformações aquelle momento, que é sempre da nossa figura, sabe fixar na mobilidade imperceptivel das linhas d'uma physionomia o seu aspecto caracteristico. Sabe reunir n'um gesto a multiplicidade das nossas attitudes.
E é por isso que Julio Costa, ao pintar o retrato, tem uma grande preponderancia sobre outros artistas.
Demais a mais elle possue o que falta a muitos outros, uma bella correcção no desenho.
Que o desenho não é só como muita gente pensa o esqueleto da pintura.
Não, o desenho é uma parte integral d'ella, o desenho é a propria pintura.
Já um celebre pintor francez, cujo nome não recordo agora, dizia dos seus desenhos—A côr dos meus desenhos... como se o desenho não fora unicamente uma apresentação do claro escuro.
Mas é que a pintura sem um bom desenho, onde se definam os tons e meios tons, onde se delineem as distancias e as perspectivas, seria uma coisa chata, sem vida, sem relevo.
O Soler architecto, esse bello rapaz cheio de talento que a Morte avidamente nos levou ha um bom par d'annos, dizia-me uma tarde em que me fazia uma prelecção sobre as vantagens do desenho:—«Olhe, se você quizer um bom quadro desenhe-o primeiro em todas as suas minudencias, com todos os seus effeitos de perspectiva, com todos os seus claro-escuros e, depois, a esmo, cubra isso com as tintas d'uma paleta e terá um bom quadro. Olhe que n'isto de pintura o desenho é tudo».
E de facto assim é: para se poder pintar bem o que é preciso primeiro é saber desenhar. E Julio Costa sabe desenhar. D'ahi o elle dar aos seus trabalhos uma corecção distincta.
Mas, Julio Costa não é só notavel no retrato. Julio Costa é-o tambem em outros generos de pintura. No assumpto religioso deu este artista provas indiscutiveis das suas aptidões.
O Calvario, que elle pintou para a egreja do Bomfim, é o melhor attestado do seu savoir faire. D'essa obra prima, que veiu abrir uma polemica entre um critico da Palavra e o conego Alves Mendes, dizia este ultimo no seu opusculo—A
O Calvario—julio costa
crucificação de Jesus:—Outros quadros de egual natureza adoecem de monotonia e languidez. Este não. É tal a firmeza do desenho, tal a riqueza das tintas, tal e tanta a genial inspiração artistica, que a gente admira irresistivelmente e applaude enthusiasticamente esta magistral pintura de Julio Costa.
Que melhor e mais auctorisada opinião que a d'este pintor da oração, este artista genial da palavra, que desenha com o seu verbo inexgotavel os mais fulgurantes e mais flagrantes quadros? Como consagração a um artista não as tenho visto melhores nem mais perfeitas.
Quando Julio Costa se entretem a fazer o quadro de genero, tambem, n'esses momentos, não deixa o seu nome em má posição. Ahi, como nos outros trabalhos, elle sabe dar aos seus typos e aos seus assumptos o quer que seja de suggestivo, de impressionante.
Não é cousa simples enumerar a sua obra, porque ella não é uma insignificancia.
No entretanto, como é do meu desejo levar o mais longe possivel a resenha dos seus trabalhos, ahi vae o titulo d'alguns d'elles, que mais se notabilisaram nas exposições onde teem apparecido.
Em primeiro logar colloco eu o No Vago, uma pastoral
A Ti Anna—julio costa
de côr, como lhe chamou Oliveira Alvarenga. Era uma larga tela que resumia um delicado poema d'amor. Em plena primavera, sob a luz do lindo sol, uma moçoila trigueira e forte, de seios proeminentes, encostada a um pedaço de terreno alto e florido, sonha n'um vago presentimento triste. Ia para os trabalhos do campo, levava a sua foice, o seu cesto vindimeiro, o seu chapeu de palha; marcára ao namorado uma entrevista, na esperança d'um doce idyllio, mas o tempo passa, o namorado não vem, e ella, na sobrexcitação do seu amor e do seu ciume, vae desfolhando malmequeres que ora lhe dizem sim, ora lhe dizem não, e, por ultimo, como que adormece n'uma febre d'amor, olhos semi-cerrados, com o pensamento esvoaçando no vago... Eis o quadro, que figura lá fora, em Berlim, para onde foi vendido.
Não esquecerei a Romeira, uma fresca rapariga que, em descantes alegres, parte para a romaria.
E uma Cabeça de estudo, que appareceu na exposição de Arte de 1894, uma linda cabeça de rapariga de olhos vivos, labios de coral e com o seu lenço de xadrez multicor, que é um encanto!
O retrato do Quinsinho Souto Mayor, é um estudo de creança finamente trabalhado com o seu vestidinho de velludo, onde assenta uma romeira de renda, tão bellamente pintada, que dava a perfeita illusão de que eram rendas que alli estavam collocadas sobre a tela.
O Vencido, que é um bom trabalho tambem, consiste em um rapazito que, após uma refrega com outros, sae com um braço deslocado; que suavidade de côr, que tristeza nos olhos humidos!
O retrato da Ti Anna, essa velhita encarquilhada que, no fundo do seu casebre, junto da lareira, vai fiando a loira estriga a pensar no tempo lindo que passou, quando era rapariga e cantava ao desafio nas esfolhadas e nas espadeladas, é soberbo. Hoje, a pobre velha canta as tristes canções com que embala os netos, e fia o linho com que veste os filhos, que outras, que são novas, vão espadelando a rir e a cantar. E tudo isto se traduz n'aquelle quadro, e todo este romance se vê alli representado n'uma sentida impressão e n'uma ideal concepção.
O Costume dos arredores do Porto, é tambem um lindo quadro—uma cabecita de rapariga do campo cheia de vida e de frescura.
E a Mimalha e a Varanda dos Mangericos e mil outros trabalhos d'elle?...
Ah! mas vae muito longo este artigo e o leitor não tem obrigação nenhuma de estar infinitamente a ler-me; por isso, ponto.
Julio Costa é para mim um pintor que sabe muito da sua arte, digam lá o que disserem, e se, dentro da sua modestia, não gostar do que eu agora digo d'elle que me perdoe porque eu só sei dizer o que penso, e isso muito rudemente ainda.