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Alberto Pimentel

Poetas do Minho I - João Penha


Publicado pela Editora Good Press, 2022

goodpress@okpublishing.info

EAN 4064066410865

Índice de conteúdo

I

II

III

IV

Preço 250 reis

I

II

III

IV

Preço 250 réis

Ortografia original.

(Ver Ortografia actualizada.)

ALBERTO PIMENTEL

Poetas do Minho

I

JOÃO PENHA

BRAGA

CRUZ & C.ª—EDITORES

MDCCCXCIV

POETAS DO MINHO

BRAGA

TYP. «MINERVA COMMERCIAL»

José Maria de Souza Cruz

1893

ALBERTO PIMENTEL

Poetas do Minho

I

JOÃO PENHA

BRAGA

LIVRARIA ESCOLAR DE CRUZ & C.ª

EDITORES

Aquelle meu espirito opulento,

Que vivia na luz dos sonhos bellos,

Jaz ha muito nas ruinas dos castellos,

Que no ar edifica o pensamento.

João Penha.

«... Quem publica um livro não o faz para o ler, publica-o para que os outros o leiam. Quer, portanto, produzir um effeito qualquer, effeito que, em todo o caso, não pode ser o do somno: para este ha o opio, a belladona e o Codigo do Processo Civil.»

João Penha.

I

Índice de conteúdo

Ha quinze dias, João Penha e eu, sentados no mesmo banco do americano, vinhamos do Senhor do Monte para Braga, e conversavamos de litteratura. Nomes de auctores, nomes de livros, recordações dispersas, do tempo em que elle redigia a Folha em Coimbra e eu lhe enviava do Porto algum insignificante auxilio de collaborador, passavam rapidamente na precipitação{8} tumultuante do dialogo, a cada momento interrompido pelas paragens do tramway, pela entrada e saida de passageiros, pela voz auctoritaria do conductor, que explicava em dialecto calaico:

—Bai cheio. Num ha logar.

Tendo João Penha alludido a mais de um dos poetas, que constituiram a constellação academica da Folha, para entrelembrar casos e anecdotas da bohemia coimbrã, disse-lhe eu de repente:

—Por que não escreve as suas memorias de Coimbra?

—Não tenho tempo, respondeu elle. Encheriam tres volumes.

Tres volumes, de certo, porque João Penha foi o chefe de um cenaculo numeroso, que viveu na alegria e nas lettras, que teve aventuras e triumphos, e que legou aos cursos subsequentes uma gloriosa historia ainda hoje rememorada com prestigio na tradição academica.{9} Elle, erguido no pedestal que o voto unanime dos seus contemporaneos lhe havia consagrado, via do alto, como um idolo, toda a nervosa multidão da academia, que o adorava, observava todas as evoluções caprichosas d'essa legião gentilissima de rapazes talentosos, que se moviam em torno d'elle, conhecia todos os segredos da biographia de uma geração, que ha de ficar eternamente lembrada. Tres volumes, pelo menos, e não seriam de mais.

Mas percebe-se que lhe custe metter hombros a um labor de reconstrucção historica em que a penna seria como um estilete a revolver dolorosamente o coração saudoso do escriptor. Eu mesmo, que apenas segui de longe toda essa altivola mocidade academica, ouvindo reproduzida a distancia a sua voz no phonographo litterario da Folha e de uma boa dezena de poemas, eu que senti rolar até mim a lava candente do vulcão sem assistir{10} ás tempestades explosivas da cratera, eu proprio experimento a vaga nostalgia da Coimbra d'aquelle tempo vendo envelhecer em Lisboa, na prosa da burocracia, do fôro, do professorado e do parlamento, os poetas que ha vinte annos constituiam a ala victoriosa dos novos commandada por João Penha.

E, mais infelizes ainda, os que hoje não fazem leis, nem minutas, nem aggravos, nem compendios, dormem prematuramente o somno da morte na apotheóse serena, sem invejas, mas tambem sem desillusões, d'aquelles que, como Gonçalves Crespo, brilharam pelo clarão do seu talento, e passaram como um meteoro fugitivo.

Tive Gonçalves Crespo por companheiro na Redacção da Camara dos Pares. O seu espirito doirava-se ainda de um reflexo de alegria, sem constrangimento, que era como que o ultimo elo da sua tradição academica. Tinha passado de Coimbra para Lisboa serenamente,{11} sem tempestades da vida, que envelhecem a alma antes do alvejar da primeira cã. Na paz domestica do seu lar, a morte foi como um salteador que surprehende um viajante a dormir na pousada, e o estrangula entre dois braços de ferro n'um momento. Os outros que ficaram ainda, são como as arvores no outomno, que dia a dia vão sendo sacudidas e abaladas pela nortada agreste, que annuncia o inverno.

É difficil adivinhar hoje na melancolica indiferença de Simões Dias, que passa atravez de Lisboa com o ar desleixado de um provinciano aborrecido, aquella brilhante alma meridional do poeta das Peninsulares, onde cantavam serenatas da Andaluzia e rouxinoes do Mondego.

Candido de Figueiredo, cuja musa era das mais crentes, embora não fosse das mais vulcanicas, cançado de repartir os restos da sua mocidade entre a cáthedra de professor{12} e a Secretaria da Justiça, correu ao encontro da velhice, denominou-se voluntariamente Caturra, atirou-se ás questões de philologia, e conseguiu tornar-se rabujento contra os que escrevem aereonauta com um e superfluo.

Este correctissimo poeta da Folha é hoje um suicidio ambulante. Mata-se a ensinar a lingua portugueza a quem a não quer saber. Já um ministerio lhe receitou, como distracção, o Governo Civil de Villa Real. Candido de Figueiredo viu o Marão resplandecente de neve, e não o cantou. Apenas recolheu a Lisboa, deu-se pressa em publicar Novas licções praticas da lingua portugueza.

Não era poeta, poeta de fazer versos, embora tivesse começado por ahi, como todos, mas tinha assomos de graciosa imaginação quando romantisava na Folha as lendas do alto Alemtejo, um que só doutorou em direito, e estuda e encalvece como todo o bom lente, e apenas sai dos braços de Minerva na{13} Universidade para os braços do senhor José Luciano no Parlamento.

Esse, José Frederico Laranjo, tão amante de fallar nos palratorios de Coimbra, vai estando tão mudado hoje, que já ninguem treme de medo quando elle pede a palavra na camara.

—E Junqueiro? o nosso astral Guerra Junqueiro? perguntar-me-ha o luciolante apostolado que o rodea na cervejaria do Camanho.

Junqueiro, se houvessemos de dar credito a todas as suas apprehensões pathologicas, está «precocemente chegado, pelo soffrimento, ao occaso da vida».[1] Sinceramente desejo que os factos venham desmentir esta apprehensão.

Mas Guerra Junqueiro, meus senhores,{14} era na Coimbra d'aquelle tempo, na Folha principalmente, a promessa florescente de um lyrico primoroso, depois transviado, e a meu vêr atormentado, pela preoccupação constante de reformar a esthetica[2], a technica[3], o olympo dos romanticos[4], o paraizo dos catholicos[5], de fundar escola e de attingir a perfeição suprema no seu melhor livro, que, segundo o seu proprio conceito, são os Simples.

E talvez não sejam.

Em Coimbra, Guerra Junqueiro era, como{15} todos os outros, um satellyte que gravitava em torno de João Penha, o chefe incontestado, antes adorado, do cenaculo, da bohemia, e da Folha.

O tempo rolou a sua pesada mole por sobre as illusões d'esses rapazes que eram então a fina flôr da geração academica. D'elles, os que não estão ainda velhos por fóra, começam a descair na tristeza, não direi do occaso da vida, como apprehensivamente affirmou de si mesmo Guerra Junqueiro, mas da experiencia dura do mundo.

João Penha, o primaz da tribu, é advogado em Braga, trabalha honestamente para sustentar a sua familia. Está ao corrente de todas as novidades litterarias que a França inventa e exporta, porque as recebe directamente de Pariz em primeira mão, mas atura todos os dias, no seu escriptorio, uma chusma de clientes, que ás vezes, o que o contraria muito, o assaltam em plena rua, já depois{16} d'elle ter fechado o seu escriptorio ás duas horas da tarde, invariavelmente.

Outro dia, João Penha ia para o Bom Jesus do Monte, em serviço—disse-me elle—ás sete horas da manhã. A seu lado, no tramway, um demandista estopante gritava para vencer a dureza de ouvido do advogado.

—O que eu quero, berrava o cliente, é ganhar a queston do rego. Porque, snr. doutor, no rego é que está a grande maroteira d'ella. (Ella era a parte contraria, uma mulher).

Questão d'aguas: a mais generalisada especie de litigios no Minho.

João Penha, de charuto ao canto da boca, ouvia imperturbavelmente resignado e silencioso. Os outros passageiros sorriam disfarçadamente das phrases equivocas do demandista. Filado pelo cliente, João Penha era, n'aquella hora, sob o céu azul, radioso de sol, uma victima do Direito, que legisla sobre regos e outras coisas mais;—do Direito que{17} elle podera amenisar em Coimbra com as satyras escriptas na aula, com os sonetos publicados na Folha, com a bohemia alegre das Camêllas e do Homem do gaz.

Agora, em Braga, o Direito esmagava-o como a clava de Hercules. Fazia dó, fazia pena vêr João Penha torturado nos colmilhos de um litigante obsesso, a quem elle não podia responder, com um repente de Bocage, n'um epigramma vingador.

Não me atrevi a arrancar João Penha das garras do cliente. Mas á volta do Bom Jesus, tornando a encontrar-nos no mesmo americano, interpuz-me ao demandista e a elle, e conversamos de varia litteratura,—muralha da China Contra a qual esbarraram, infructiferamente, duas investidas do brácaro Chicaneau, que parecia recortado dos Plaideurs de Racine.

Aqui esta no que veio a dar aquelle bello espirito do maior improvisador e do maior bohemio da Coimbra de ha vinte annos!{18}

Ó salgueiraes do Mondego, lamentai-o! Ó musa alegre da tasca das Camêllas, cobre de luto a tua face mésta! Ó fina flôr dos rapazes d'esse tempo, chorai por elle e.... por vós!

Colhi em Braga informações sobre o viver de João Penha transformado. Tem, como advogado, uma grande clientella posto não vá nunca ao tribunal. Mas a sua competencia em questões do civel não soffre rivalidade. Escrevendo nos processos, é um jurisconsulto de primeira ordem.

Ás duas horas da tarde fecha impreterivelmente o escriptorio. Os clientes voltarão, se quizerem, no dia seguinte. Mas voltam sempre.

Á noite, João Penha, invariavelmente de luvas pretas, monoculo posto, frequenta a confeitaria do Anacleto á rua de S. Marcos. Uma coincidencia leva-me a suspeitar que João Penha rivalisa na gulodice de bolos finos com o glorioso Sampaio da Revolução, de veneranda memoria. Vindo todos os annos á Povoa{19} de Varzim, na epoca de banhos, é na confeitaria contigua ao Café Chinez que elle apparece ás noites, sempre de luvas, correctamente vestido, sobraçando ás vezes um pacotinho de doces.

Que ao menos o saboroso bôlo de côco possa adoçar as horas amargas da sua banca de advogado!

—Snr. dr., dizia-lhe o demandista quando todos apeiamos do americano no Campo de Sant'Anna, olhe que a queston do rego tem furo. Num m'a avandone.

E João Penha, sorrindo, voltado para mim, repetia-me:

—Não se esqueça de lêr a Nature de Hollinat. É soberba!

Ó salgueiraes do Mondego, lamentai-o! Ó musa alegre da tasca das Camêllas, cobre de luto a tua face mésta! Ó fina flôr dos rapazes d'esse tempo, chorai por elle e... por vós!{20} {21}

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Release date on Litres:
15 January 2025
Volume:
60 p. 1 illustration
ISBN:
4064066410865
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Bookwire
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