Read the book: «Confissões de amor»

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Editado por Harlequin Ibérica.

Uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

Núñez de Balboa, 56

28001 Madrid

© 2018 Sara Craven

© 2020 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

Confissões de amor, n.º 1835 - setembro 2020

Título original: The Innocent’s One-Night Confession

Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd.

Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial. Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.

Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência. ®

Harlequin, Sabrina e logótipo Harlequin são marcas registadas propriedades de Harlequin Enterprises Limited.

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Imagem de portada utilizada com a permissão de Harlequin Enterprises Limited. Todos os direitos estão reservados.

I.S.B.N.: 978-84-1348-494-5

Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.

Sumário

Créditos

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

Capítulo 12

Capítulo 13

Capítulo 14

Se gostou deste livro…

Capítulo 1

– Vamos, Becks. Conta– me tudo. Como é ele na cama?

Alanna Beckett quase se engasgou com o seu sumo de laranja e limão e lançou um olhar de apreensão à sua volta pelo apinhado bar de vinhos.

– Susie, por amor de Deus!, baixa a voz. Não podes perguntar essas coisas.

– Pois acabo de o fazer – ripostou Susie, imperturbável. – Tenho uma sede de informação que nem sequer este maravilhoso vinho consegue saciar. Pensa bem. Vou seis meses para os Estados Unidos e deixo-te sozinha no apartamento tão eremita como sempre. Volto a casa com medo de que tenhas adotado um gato, começado a usar camafeus ou que tenhas começado a ir a aulas noturnas de croché e, em vez disso, encontro-te praticamente noiva. Aleluia!

– Não – protestou Alanna. – Isso não é verdade. Não é nada disso. Ele só me convidou para a festa dos 80 anos da sua avó, apenas isso.

– Uma festa familiar importante na sua casa de campo. Isso é sério, Becks. Portanto, conta-me os detalhes. Chama-se Gerald, não é?

– Gerard – corrigiu Alanna. – Gerard Harrington.

– Também conhecido como Gerry?

– Que eu saiba não.

– Ah! – Susie assimilou aquilo. – Descrição física completa, verrugas incluídas?

Alanna suspirou.

– Roça o metro e oitenta, atraente, loiro, olhos azuis… e sem verrugas.

– Que tu saibas. Como se conheceram?

– Salvou-me de ser atropelada por um autocarro.

– Santo Deus! – exclamou Susie. – Onde e como?

– Perto da Bazaar Vert de King’s Road. Ia distraída e saí do passeio para a estrada. Ele agarrou-me e puxou-me para o passeio.

– Deus o abençoe – Susie olhou-a fixamente. – Isso não é próprio de ti. Pode-se saber com o que ias a sonhar?

Alanna encolheu os ombros.

– Pareceu-me ver alguém que conhecia – hesitou, pensando com rapidez. – A Lindsay Merton.

– Lindsay? – repetiu Susie, confusa. – Mas vive com o seu marido na Austrália.

– E decerto por lá continuam – replicou Alanna, amaldiçoando-se. – Portanto, quase fui atropelada por causa de um deslize.

– E que fez o Gerard depois?

– Naturalmente, eu estava algo trémula. Portanto, levou-me à Bazaar Vert e pediu à encarregada que me preparasse um chá muito doce – Alanna estremeceu. – Quase teria preferido que me atropelassem.

– Não, não é verdade – corrigiu-a Susie. – Pensa no pobre condutor do autocarro. E como é que o teu cavaleiro andante tem tanta influência sobre as senhoras pretensiosas da Bazaar Vert?

– Um primo dele é dono da cadeia. O Gerard é o diretor-executivo.

– Ena! – exclamou Susie. – Ou seja, ganha muito bem e ainda por cima é ecologista. Querida, estou impressionada. Não se diz que quando alguém nos salva a vida, ficamos a pertencer-lhe para sempre?

– Isso são tolices – retorquiu Alanna. – E aqui ninguém pertence a ninguém. Estamos apenas a conhecer-nos. E a festa é apenas mais um passo nesse processo.

– Para ver se a avó dá a sua bênção? – Susie torceu o nariz. – Acho que não gostaria disso.

– Bom, até pode gostar de mim. Além disso, é um fim de semana no campo e eu estou a pensar relaxar e deixar-me levar. E não vou para a cama com o Gerard – acrescentou. – Para o caso de teres alguma dúvida quanto a isso. Em Whitestone Abbey há quartos separados.

Susie sorriu.

– E decerto rezam juntos à tarde – disse. – Mas talvez ele saiba onde encontrar um palheiro – ergueu o seu copo. – A ti, minha orgulhosa beleza. E que o fim de semana torne realidade todos os teus sonhos.

Alanna sorriu e bebeu outro golo do seu sumo amargo de laranja e limão. Afinal, isso podia mesmo acontecer.

E talvez ela pudesse por fim começar a esquecer o seu pesadelo secreto. Começar a viver a sua vida plenamente sem se martirizar com a recordação da vergonha que a transformara numa reclusa voluntária.

Toda a gente cometia erros e era ridículo que levasse tão a sério aquele seu lapso. Embora fosse algo que nada tinha a ver com ela, não precisava de continuar a censurar-se por isso nem permitir que tal envenenasse a sua existência meses a fio.

– Mas porquê? – perguntava-lhe Susie com frequência. – Está na hora de nos divertirmos, portanto, esquece os teus autores e os seus malditos manuscritos por uma noite e vamos sair as duas. Todos gostariam muito de te ver. Estão sempre a perguntar por ti.

E Alanna utilizava invariavelmente a desculpa do trabalho, datas limite, cada vez mais responsabilidades… E a possibilidade muito real de a empresa ser comprada, o que levaria, quase inevitavelmente, a despedimentos.

Explicava, de um modo muito razoável que, para garantir o seu emprego, tinha de dedicar-se plenamente a ele, o que para ela não era nenhum sacrifício porque adorava o que fazia.

E, ainda por cima, tinha criado para si esta persona de profissional do escritório, uma mulher calada, dedicada e amavelmente distante. Prendia a sua nuvem de cabelo cor de mogno escuro com um gancho de prata na base da nuca. Tinha deixado de realçar os seus olhos verdes e as suas longas pestanas com sombra e rímel, restringindo o seu uso de maquilhagem a um toque de batom, mas tão discreto que parecia quase invisível.

E só ela sabia a razão pela qual tinha adotado aquela camuflagem deliberada. Nem sequer tinha dito a Susie. Ela era a sua melhor amiga desde os tempos da escola e agora era também a sua colega de apartamento. Tinha-lhe proporcionado alegremente o refúgio que precisava para fugir do seu estúdio, que não passava de um quarto com cozinha dentro e uma casa de banho partilhada, e agora mostrava-se completamente deliciada com o aparente renascimento de Alanna.

Embora não pensasse abandonar aquela versão atual de si mesma. Tinha-se habituado a ela e dizia-se que era melhor prevenir que remediar.

E Gerard parecia gostar dela tal como ela era, embora talvez pudesse mudar um pouco de rumo sem o surpreender demasiado.

Dependendo, claro, de como corresse tudo na festa da sua avó.

O convite tinha-a surpreendido. Gerard era inegavelmente encantador e atento, mas a sua relação até ao momento podia qualificar-se de contida. Embora ela não tivesse nada a objetar quanto a isso, muito pelo contrário.

No primeiro dia tinha aceitado jantar com ele porque se tinha posto em perigo para a salvar e teria parecido uma falta de educação recusar.

E tinha descoberto que podia relaxar-se e desfrutar de uma noite agradável na sua companhia. Só ao terceiro encontro é que ele lhe deu um beijo de boa noite, até então limitara-se a roçar-lhe os lábios.

Não tinha sido precisamente um beijo Martini, como lhe chamava Susie. Para seu alívio, Alanna não se tinha excitado. E ao mesmo tempo, dava-lhe confiança pensar que não tinha nenhuma objeção séria a ele voltar a beijá-la. E quando o fez, gostou de aperceber-se de que começava a gostar.

– Andamos a sair junto – disse-se, um pouco divertida com a sua ideia de um cortejo antiquado, mas também agradecida. – E desta vez – acrescentou com fervor, – não meterei a pata na poça.

De qualquer modo, era consciente de que o próximo fim de semana em Whitestone Abbey podia ser um ponto de inflexão na relação e que ela talvez não estivesse preparada para isso.

Por outro lado, recusar o convite podia ser um erro ainda maior.

Com essa ideia, gastara uma parte das suas poupanças num vestido azul marinho, cingido e que lhe chegava até aos tornozelos em camadas alternadas de seda e rendas, recatado o suficiente, na sua opinião, para agradar à avó mais exigente, mas que realçava ao mesmo tempo as suas estreitas curvas de um modo que Gerard poderia apreciar.

E que usaria durante o coquetel do sábado para amigos e vizinhos e no jantar formal da família que decorreria a seguir.

– Espero que não te aborreças mais que a conta – tinha-lhe dito Gerard. – Noutros tempos, a minha avó seria capaz de dançar toda a noite, mas acho que começa a sentir o peso da idade. Mas não imagines uma velhota de rendas com cheiro a lavanda. Ainda monta a cavalo todos os dias antes de tomar o pequeno-almoço, seja verão ou inverno. Tu montas a cavalo?

– Já o fiz – tinha respondido ela. – Até de ter saído de casa para ir para a universidade e dos meus pais terem decidido mudar-se para uma casinha com jardim, uma que podiam tratar em vez de cuidarem de um prado imenso e de um estábulo.

– Traz botas – tinha-lhe dito ele com um sorriso. – Emprestamos-te um chapéu e vou mostrar-te toda a zona como manda a lei!

Alanna tinha-lhe retribuído o sorriso.

– Isso seria maravilhoso – comentara, cada vez mais convencida de que a quase octogenária Niamh Harrington devia ser uma mulher formidável.

Já para não falar do resto da família.

– A mãe do Gerard é viúva e o seu falecido pai era o filho mais velho da senhora Harrington e o único varão – disse-lhe Susie nessa noite enquanto jantavam no apartamento. Contou com os dedos. – Depois há a sua tia Caroline e o tio Richard, com o seu filho e a sua esposa, mais a sua tia Diana, o seu esposo Maurice e as suas duas filhas, uma casada e a outra solteira.

– Meu Deus! – murmurou Susie. – Espero, para o teu bem, que usem etiquetas com os nomes. Crianças?

Alanna espetou uma gamba com o garfo.

– Sim, mas com amas. Tenho a impressão de que a senhora Harrington não aprova os métodos modernos de educação das crianças. Também teve uma terceira filha chamada Marianne – acrescentou, – mas ela e o seu esposo morreram e não me parece que esperem que o filho assista à celebração.

– Melhor assim – retorquiu Susie. – Já são demasiados – fez uma pausa. – O filho da Marianne é o dono da Bazaar Vert?

Alanna encolheu os ombros.

– Suponho que sim. O Gerard não me falou muito dele.

– Parece-me que vai ser um fim de semana complicado – comentou Susie.

As complicações, de facto, começaram na sexta-feira de manhã, na reunião de aquisições das sextas-feiras.

Quando terminou, Alanna entrou no seu pequeno escritório, fechou a porta com o pé e praguejou.

– Oh, Hetty! – murmurou. – Onde estás quando preciso de ti? – perguntou, embora soubesse perfeitamente que estava em licença de maternidade.

De facto, era por isso que Alanna tinha sido promovida temporariamente a diretora da ficção romântica da editora Hawkseye na ausência da sua chefe.

Ao princípio tinha adorado, mas tinha acabado por dar-se conta de que estava numa zona de guerra, onde o inimigo era Louis Foster, que dirigia a lista de ficção para homens, inclinada principalmente para a escola de pensamento de «sangue e entranhas», mas que incluía também algumas celebridades literárias e outras coisas mais, como Alanna acabava de descobrir.

Tinha ido à reunião para vender uma autora nova, com um estilo fresco e uma perspetiva inovadora, que ela própria tinha descoberto.

Tinha falado com entusiasmo da sua descoberta, mas tinha chocado com a determinação de Louis, que opinara que não poderia recomendar um investimento de tão alto risco numa completa desconhecida.

– Sobretudo – tinha acrescentado, – porque o Jeffrey Winton me disse no outro dia, enquanto almoçávamos, que queria ampliar a sua linha editorial e o que sugeriu soa muito parecido ao que propõe a jovem da Alanna. E, claro, teríamos o nome de Maisie McIntyre, que se vende por si só.

Jeffrey Winton era um autor de livros de sucesso que usava um pseudónimo feminino e escrevia sagas rurais, a tal ponto adocicadas que Alanna até sentia dor de dentes só de lê-las.

Além disso, era um autor de Hetty, portanto, que raio fazia Louis a almoçar com ele e a debater projetos futuros?

Embora ela, desde então, preferisse não se aproximar dele, após o seu único encontro com o rotundo autor de Amor na fornalha e A pousada do prazer. E pior ainda, o que se tinha seguido depois.

Todo o que tinha tentado apagar da sua memória reaparecia agora de repente com todos os seus detalhes, deixando-a momentaneamente enjoada.

E Louis aproveitou-se disso para convencer os outros, enquanto a ela lhe restava a missão de dizer a uma autora em que acreditava que, afinal, não poderia oferecer-lhe um contrato.

E aquilo, além disso, serviria provavelmente para aproximar Louis um passo mais do seu objetivo de unir a ficção comercial de homens e mulheres sob a sua liderança.

E para cúmulo, umas horas depois teria o seu primeiro encontro com a família Harrington, para o que seguramente precisaria de toda a segurança em si mesma que conseguisse arranjar.

Olhou para a mala de fim de semana que estava a um canto e que continha calças de ganga e botas, juntamente com o vestido caro embrulhado em papel de seda e a moldura artesanal de prata que escolhera como presente de aniversário para sua anfitriã.

Considerou por um momento declarar-se vítima de um vírus misterioso, mas pôs isso de parte.

Depois de ter falhado à sua autora, não faria o mesmo a Gerard, principalmente porque percebia que ele também estava nervoso com o fim de semana.

Tinha de fazê-lo por ele e pela possibilidade de um futuro juntos, se é que a simpatia mútua acabaria por abrir caminho ao amor.

Um começo cauteloso para um final feliz. Como tinha de ser.

Era disso que ela precisava. Não uma queda apaixonada para a culpa e para o risco de um desastre. Isso, como todas as outras recordações más, tinha de ficar no esquecimento.

A viagem decorreu sem incidentes. Gerard conduziu com destreza o seu espampanante Mercedes enquanto falava da abadia e da sua turbulenta história.

– Diz-se que a família que a comprou na época Tudor subornou os oficiais do rei para que expulsassem os monges e que o abade os amaldiçoou – comentou. – Fosse verdade ou não, o certo é que depois houve anos difíceis, em grande parte devido aos problemas com o jogo e a bebida de uma série de filhos primogénitos, tanto que o meu tataravô, Augustus Harrington, a comprou baratíssima. E como era um homem respeitável e muito trabalhador, dedicou-se ao restauro de Whitestone.

– Ainda resta muito do edifício original? – perguntou Alanna.

– Muito pouco, tirando os claustros. Os proprietários da época Tudor derrubaram quase tudo.

– Vândalos! – Alanna sorriu-lhe. – Suponho que a manutenção não seja pera doce.

Gerard ficou em silêncio um momento.

– Não – disse. – Talvez a maldição do abade seja essa. Disse que a propriedade seria eternamente uma pedra ao pescoço dos donos.

– Eu não acredito em maldições – murmurou ela. – E até uma pedra vale a pena, quando há uma história assim.

– Eu penso da mesma maneira – disse ele. – Mas não é uma opinião universal. Em qualquer caso, terás de julgar por ti mesma – acelerou um pouco. – Já estamos quase a chegar.

Subiram mais uma colina e, ao chegarem lá em cima, Alanna viu a massa sólida de pedra esmaecida da abadia recostada pelo vale abaixo, com as suas altas chaminés a elevarem-se para o céu e as suas janelas com os seus pinázios a brilharem ao sol da tarde.

De ambos os lados da estrutura principal, sobressaíam duas alas estreitas que guardavam um grande pátio, onde se via já um bom número de veículos.

Gerard estacionou o Mercedes entre um Jaguar e um Audi, à direita dos degraus de pedra que levavam até à entrada principal. Enquanto Alanna esperava que tirasse a bagagem, deu por si a abrir a pesada porta de madeira e apareceu uma mulher de cabelo grisalho com um elegante vestido vermelho, que fez uma pala com a mão para conseguir vê-los a aproximarem-se.

– Chegaram – disse, cortante. Voltou-se para um homem alto que a tinha seguido para o exterior. – Richard, diz à mãe que o Gerard finalmente chegou.

– E boa tarde também para ti, tia Caroline – Gerard sorriu com cortesia. – Não te incomodes, tio Richard. Já lho digo eu.

– Mas esperávamos que chegassem há uma hora – a sua tia apertou os lábios enquanto entrava num impressionante átrio com painéis de madeira. – Não faço ideia de como isto irá afetar a hora do jantar.

– Imagino que o jantar será servido quando a avó quiser, como sempre – retorquiu Gerard, imperturbável. – Permite-me apresentar-vos a Alanna Beckett. Querida, estes são os meus tios, o senhor e a senhora Healey.

Alanna apertou-lhes a mão e cumprimentou-os com cortesia.

– Está toda a gente à espera no salão – disse a senhora Healey. – Deixe a mala aí, menina Beckett. A governanta vai levá-la para o seu quarto – olhou para Gerard. – Tivemos de fazer umas alterações de última hora. Portanto, a tua convidada fica agora na ala este, ao lado da Joanne – olhou para Alanna. – Receio que terão de partilhar a casa de banho.

– Estou habituada – retorquiu Alanna com um sorriso. – Divido um apartamento em Londres.

A senhora Healey assimilou a informação sem fazer comentários.

– Então vamos – disse a Gerard. – Sabes que a tua avó não gosta de esperar.

Gerard e Alanna começaram a andar atrás dela.

– Não te preocupes com a tia Caroline – sussurrou o primeiro. – Desde que a minha mãe foi viver para Suffolk, leva demasiado a sério o seu papel de anfitriã da casa.

Pouco depois entraram numa grande sala de teto baixo, com uma lareira de pedra numa ponta, grande o suficiente para assar um boi.

Os móveis, principalmente sofás longos e macios e cadeirões fundos, todos com estofo num cretone já desbotado, não eram propositadamente envelhecidos de um modo elegante. Tal como os tapetes gastos pelo chão de madeira escura e as cortinas verdes de damasco que emolduravam umas amplas portas de vidro, eram simplesmente velhos.

A sala estava cheia de gente que ficou em silêncio quando eles entraram. Alanna sentiu-se incomodada. Teria preferido que conversassem, nem que fosse só para apagar do ruído dos seus saltos no chão de madeira e dissimular o facto de que todos olhavam fixamente para ela quando Gerard a levava em direção à avó.

Niamh Harrington era uma mulher baixinha e gordinha, com olhos azuis brilhantes, bochechas coradas e muito cabelo branco, cor de neve, que usava apanhado em cima da cabeça e que dava a impressão que poderia cair a qualquer momento.

Estava sentada no meio do sofá mais longo, à frente das janelas abertas. Falava animadamente com a rapariga loira que tinha ao lado, mas interrompeu-se quando Gerard se aproximou.

– Querido rapaz – ergueu a cara para que ele a beijasse. – Portanto, esta é a tua encantadora rapariga.

Examinou Alanna com atenção e esta teve, por um momento, o impulso absurdo de retroceder. A senhora Harrington sorriu.

– Isto é maravilhoso. Bem-vinda a Whitestone, querida.

Alanna não esperava que a sua anfitriã tivesse aquela pronúncia irlandesa, embora imaginasse que o nome «Niamh» deveria ter-lhe dado uma pista.

– Obrigada por ter-me convidado, senhora Harrington – disse. – Tem uma casa linda.

A mulher fez um gesto de desagrado com uma mão cheia de anéis.

– Já conheceu melhores dias – voltou-se para a rapariga que tinha ao lado. – Mexe-te um pouco, Joanne, querida, e deixa a Alanna sentar-se ao meu lado e falar-me de si mesma.

Gerard olhava em redor.

– Não vejo a minha mãe – disse.

– A pobre Meg está lá em cima a descansar. Suponho que a viagem desde Suffolk a tenha deixado esgotada – a senhora Harrington suspirou. – Deixa-a por agora. Tenho a certeza de que já estará boa à hora do jantar.

Alanna viu que Gerard apertava os lábios, mas não disse nada.

– Bom – comentou a senhora Harrington. – O meu neto disse-me que és editora.

– Edito ficção comercial para mulheres – comentou Alanna.

– Esse é um trabalho que invejo. Não há nada que eu goste mais do que um livro. Uma boa história sumarenta e não demasiado sentimental. Talvez possas recomendar-me alguns livros que gostes.

«Pode recomendar-me um livro para uma idosa que gosta de ler?»

Era quase o mesmo pedido que tinha ouvido numa livraria de Londres um ano atrás, mas dessa vez fora com uma voz profunda de homem. E o começo do pesadelo que tanto precisava esquecer. Tentou reprimir um calafrio instintivo.

– Tens frio, e não me admira, agora que se levantou a brisa da tarde – Niamh Harrington falou mais alto: – Queres entrar já, Zandor? E fecha essas portas atrás de ti. Há uma corrente de ar e não podemos permitir que a convidada do Gerard morra de frio só porque tu queres andar pelo terraço.

Alanna teve a sensação de que estava mesmo gelada. Olhou para as suas mãos, que apertava tanto no colo que tinha os nós brancos.

– Zandor – repetiu com incredulidade. Zandor?

Não, não era possível. Estava tão nervosa que tinha ouvido mal. Devia ser isso.

– Peço-te desculpa, avó. A ti e à bela amiga do meu primo. Temos de esforçar-nos para que não lhe aconteça nada de mal.

Alanna obrigou-se a levantar os olhos e olhar para a figura alta e escura, em contraluz, que estava enquadrada pelas portas de vidro.

Era o homem de cujo quarto tinha fugido há tantos meses atrás e que lhe tinha deixado recordações que a atormentavam desde então.

E pelas piores razões possíveis.

Capítulo 2

Ele fechou atrás de si as portas do terraço com muito cuidado e avançou, com as suas longas pernas numas calças pretas e a sua camisa a condizer, aberta até ao meio, oferecendo a Alanna uma visão não desejada do seu peito cor de bronze e a recordação de que, quando tinha fugido da sua cama no encontro anterior, ele não vestia roupa alguma.

– Talvez devêssemos apresentar-nos como deve ser – disse ele com calma. – Chamo-me Zandor Varga. E você?

Ela conseguiu falar, embora com uma voz rouca muito diferente da sua habitual.

– Alanna – engoliu em seco. – Alanna Beckett.

Ele assentiu, observando-a com os seus olhos de um cinzento pálido.

– É um prazer conhecê-la, menina Beckett. O meu primo Gerard teve sempre um gosto extraordinário.

Deu meia volta e Alanna sentiu-se aliviada, mas sabia que o alívio seria apenas passageiro. Aquilo não tinha acabado. O dia que tinha começado mal acabava de piorar mil vezes.

Compreendeu então que naquele dia em Chelsea não tinha imaginado coisas. Que como dono da cadeia Bazaar Vert, ele tinha ido à sucursal de King’s Road, onde ela o tinha visto por breves instantes. E Gerard provavelmente tinha acabado de acompanhá-lo lá fora onde tinha ido em seu resgate.

A senhora Harrington, certamente, não tinha detetado nada de estranho, pois a conversa tinha voltado ao tema dos livros.

– Middlemarch – disse. – Leu esse? Um livro maravilhoso, mas que tonta a jovem Dorothea para casar com esse homem tão empertigado. E tudo para depois saltar da frigideira para o fogo com aquele outro tipo – fez uma careta de desprezo. – Um inútil. Porque é que raparigas decentes se sentem atraídas por homens assim?

Alanna conseguiu sorrir.

– Não faço ideia. Mas continua a ser uma grande novela.

«E foi o que eu disse ao seu neto, que a comprou para si há mais ou menos um ano».

– Não é altura de nos prepararmos para o jantar, mamã? – perguntou então a senhora Healey. – Sei que não vamos pôr um vestido de gala esta noite, mas estou certa de que a menina Beckett, por exemplo, gostaria de refrescar-se. A Joanney pode conduzi-la ao seu quarto.

A senhora Harrington deu uma palmadita na mão de Alanna.

– Tenho de deixar-te ir, querida rapariga – disse, – mas teremos muito tempo para conversar.

Joanne, a loira que antes estava sentada ao lado da sua avó, não só era bonita, como parecia claramente predisposta a ser amigável.

– É melhor ela falar contigo do que comigo – confessou quando subiam as escadas. – A avó tem o costume de fazer perguntas cujas respostas já conhece. Mas isso não acontecerá contigo.

Alanna confiou que assim fosse.

– E tu sabes de literatura – prosseguiu Joanne. – Eu, a única coisa que leio é as revistas de coscuvilhices no cabeleireiro e a Kate é como eu, embora ela possa usar o Mark e o bebé como desculpa para não ler porque não tem tempo.

Quando chegaram à parte de cima da impressionante escada de pedra, virou à esquerda.

– Estamos aqui, na zona das solteironas, suponho, embora tu não o sejas, porque és a namorada do Gerard.

– É um pouco cedo para chamar-me isso – disse Alanna com cautela. – Só andamos a sair há umas semanas.

– Mas trouxe-te aqui. Expôs-te a todos os Harrington – Joanne soltou um risinho certeiro. – Decerto que a avó já esteve a analisar se as tuas ancas são boas para ter filhos. O pai dela tinha uma fazenda de garanhões em Tipperary e ela afirma ser descendente de Brian Boru. Portanto, quererá saber tudo da tua família. Não pode haver ramos suspeitos na árvore familiar.

Alanna sobressaltou-se.

– Estás a brincar.

– Nem um pouco – Joanne fez uma careta. – Leva isso muito a sério – abriu uma porta. – Tu dormes aqui. Espero que fiques confortável – acrescentou, duvidando. – A casa de banho fica entre o teu quarto e o meu. É pequeno porque antes era um quarto de toucador, mas tem sempre água quente e ambas podemos fechar a porta dos quartos e não ouviremos ruídos quando uma ou a outra estiver lá dentro.

Olhou para o seu relógio.

– Venho buscar-te dentro de uns quarenta minutos. Parece-te bem?

Alanna assentiu com a cabeça.

Uma vez a sós, sentou-se na ponta de um colchão bastante duro e olhou em redor. Era um quarto antiquado, com uma janela estreita, e parecia mais escuro ainda por causa dos móveis pesados, de princípios do século anterior, e pelo papel pintado, cheio de grandes e chamativas rosas.

Tinham deixado a mala aos pés da cama. Tirou o vestido de noite para o dia seguinte e arrumou-o no cavernoso armário.

Decidiu que Joanne podia ser indiscreta além de simpática e que provavelmente deveria estar cautelosa com ela. Mas talvez fosse uma fonte de informação valiosa e talvez pudesse fazer-lhe algumas perguntas, como quem não quer a coisa.

Porque tinha a impressão de que o outro neto de Niamh Harrington estava algo fora do círculo familiar.

O seu primeiro instinto, uma vez mais, era fugir dali. Inventar uma urgência no trabalho e voltar para Londres. Mas isso faria Zandor Varga pensar que ela tinha medo dele e Alanna não queria dar-lhe esse prazer.

O seu dilema imediato era o que vestir nessa noite. Claro, tinha levado um vestido, um de linho, preto e até ao joelho. Não era o que levava quando conheceu Zandor, mas parecia-se demasiado para seu gosto. Por outro lado, sentia-se já pegajosa com a roupa com que tinha viajado e a saia estava muito enrugada.

Tomou um banho rápido na banheira antiquada, vestiu-se com rapidez e escovou o cabelo até este luzir. Pôs um colar de argolas de prata e acrescentou uma pulseira a condizer.

Disfarçou a palidez com um pouco de blush e disfarçou as linhas tensas da boca com um batom rosa.

Agarrou o frasquinho de perfume, mas hesitou. Usava sempre uma fragância de azáleas, da linha de Lizbeth Lane, uma jovem designer cuja loja tinha visitado com Susie ao chegar pela primeira vez a Londres. Pensou que Zandor a reconheceria se se aproximasse o suficiente e voltou a arrumá-la.

Tentava acalmar-se com respirações de ioga quando Joanne bateu à a sua porta.

– Pronta para o covil dos leões? – perguntou, animada. – Estás muito bonita. O teu cabelo tem uma cor incrível, é parecido com a mesa de mogno antiga da sala de jantar da minha outra avó, a avó Dennison.

Suspirou.

– Eras para ter ficado com outro quarto, mas Zandor chegou inesperadamente e mudaram-te. Ninguém sabia que virias. Suponho que é outra vez uma questão de dinheiro, o que significa a luta de sempre. Acho que é injusto fazer-lhe isso no fim de semana do seu aniversário. Por outro lado, suponho que devemos estar agradecidos por ele não ter trazido a Lili.

Viu o olhar inquisidor de Alanna e corou.

– Oh! Sou uma boca-aberta. Ouve, esquece que a mencionei, por favor.

– Esquecido – assegurou-lhe Alanna, que acabava de comprovar que tinha acertado em cheio quanto ao talento de Joanne para a indiscrição.

Mas era interessante que o senhor Varga precisasse de dinheiro, o que sugeria que talvez a Bazaar Vert se ressentisse também com a crise económica, como outros negócios importantes.

Gerard não tinha mencionado nada disso, mas ela também não lhe tinha contado os seus medos sobre a compra de Hawkseye. Não estavam nesses termos.

E agora já nunca o estariam, o que podia ser dececionante, mas não era o fim do mundo. Teria sido muito pior se ela e Gerard tivessem avançado mais na relação antes de descobrir a identidade do seu primo.

Em qualquer caso, tudo aquilo terminaria dentro de quarenta e oito horas e ficaria livre para seguir com a sua vida.

E não tinha necessidade de perguntar-se quem era Lili. Seria decerto a mais recente mulher a partilhar a cama de Zandor. Pois podia ficar com ele.

– Cá estás tu, querida – Gerard foi ao seu encontro assim que entraram na sala, puxou-a para si e, para surpresa dela, deu-lhe um beijo demorado na boca.

Quando levantou a cabeça, Alanna afastou-se, consciente de que tinha corado, não de prazer, mas de vergonha, e também de raiva por causa daquela segunda demonstração de um comportamento muito pouco característico nele.

Dispunha-se a perguntar-lhe o que raio estava a fazer quando viu que Zandor os olhava com os seus olhos prateados brilhantes e uma cara que parecia talhada em pedra escura.

Alanna atirou o cabelo para trás e forçou os lábios num sorriso sedutor. Zandor virou-se bruscamente e afastou-se.

Gerard pegou-lhe na mão.

– Anda cumprimentar a minha mãe.

– Está melhor? – perguntou Alanna.

O seu tom era forçado. Enquanto cruzavam a sala, era consciente dos olhares e encolhimentos de ombros que os presentes trocavam, como se a família de Gerard estivesse tão surpreendida com aquele beijo como ela.

– Ela não tinha problema nenhum – comentou Gerard com um sorriso triste. – Ela e a avó tiveram sempre uma relação tensa. Ela costuma alegar sofrer enxaquecas quando está aqui.

– Oh! – murmurou Alanna, concluindo que a Abadia Whitestone parecia albergar muitas tensões e a diferentes níveis.

Meg Harrington estava instalada num cadeirão, esbelta e elegante com calças brancas de seda e uma camisa larga em tons de azul, ferrugem e ouro. O seu cabelo loiro ostentava um corte moderno e caro e a sua maquilhagem era impecável.

Quando Gerard as apresentou, sorriu com amabilidade a Alanna e depois agarrou um copo de pé alto da mesa que estava ao lado do seu cadeirão e estendeu-o ao seu filho.

– Enche-mo, por favor – disse. – Não sabia que o meu filho trazia uma amiga – comentou quando ele se afastou. – Já se conhecem há muito tempo, menina Beckett?

– Há apenas umas semanas.

A mulher arqueou as sobrancelhas.

– E aceitou acompanhá-lo aqui? É incrivelmente corajosa.

Alanna encolheu os ombros.

– Sou filha única. Por isso, uma reunião familiar como esta diz-me muito – fez uma pausa, esperando que a mentira não soasse tão ridícula quanto lhe parecia a ela. – A avó do Gerard foi muito simpática.

– Não duvido – retorquiu Meg Harrington, secamente.

– E a casa é incrível – acrescentou Alanna. – Tem uma história muito interessante.

– Uma ruína – respondeu a mãe de Gerard. – Na última fase da decadência. Estava a pensar sair, mas eis que chega a minha bebida.

Mas não era Gerard quem a trazia.

– Estás a afogar as tristezas, tia Meg? – perguntou Zandor, estendendo-lhe o copo.

– A anestesiá-las – respondeu a senhora. – E perguntando-me que mais surpresas nos esperam – fez uma pausa. – Presumo que tenhas vindo sozinho?

Ele apertou os lábios.

– Claro. E mais por negócios do que por prazer.

– Nada de novo, portanto. Desejo-te sorte – a mulher ergueu o seu copo. – Saúde. Porque não trazes algo de beber à amiga de Gerard? – perguntou. A sua voz soava divertida. – Parece que a pobre rapariga precisa de uma.

– Não – apressou-se Alanna a responder. – Obrigado. Estou bem. A sério.

Voltou-se e afastou-se, só para descobrir que Zandor caminhava ao seu lado.

– Andas novamente a fugir, Alanna? – perguntou calmamente.

Ela olhou em frente, consciente de que estava com a pulsação acelerada e tinha corado.

– Estou à procura do Gerard.

– E certamente esperas outro encontro amoroso – ele parecia divertido. – No entanto, convocaram-no para a biblioteca para uma conversa privada com a avó Niamh e não quererão que os interrompam – fez uma pausa. – Porque não nos servimos um copo e o tomamos no terraço enquanto conversamos um pouco? Acho que deveríamos ter uma conversa. Não achas?

Alanna respirou fundo.

– Pelo contrário, não temos nada para conversar – disse com frieza. – E já não bebo álcool. Certamente não preciso explicar-te porquê.

– Se tem algo a ver com o nosso encontro anterior, tens sim. A não ser que queiras insinuar que acabaste na cama comigo porque estavas bêbada.

– Adivinhaste – ela apertou os punhos atrás das costas. – E esse foi o meu primeiro erro. Felizmente, não foi fatal.

– Não acredito – retorquiu ele. – Após mais alguns copos de champanhe, eu ter-me-ia considerado agradavelmente relaxado.

– Certamente que sim – replicou ela. – E eu não tenho mais nada a dizer. Portanto, deixa-me em paz, por favor.

– Como tu me deixaste a mim? Mas eu deixei-te em paz quase um ano. E queres saber uma coisa? Descobri que isso já não me interessa. Muito menos agora que voltei a ver-te, e numas circunstâncias tão interessantes.

Zandor sorriu, mas o sorriso não lhe chegou aos olhos.

– E antes que te lembres de outra réplica desagradável, lembra-te que esta sala está cheia de gente que acha que nos conhecemos hoje e talvez se pergunte porque nos estamos a dar tão mal tão depressa.

– Por outro lado – disse ela, – pelo que ouvi, parece que tu tens o hábito de chatear as pessoas.

– Pois continua a ouvir mais coisas. Pode ser que algumas te surpreendam. Mas compreende que mais dia menos dia teremos essa conversa – disse ele.

Afastou-se e ela voltou-se para a porta, impulsionada pela necessidade de estar sozinha para pensar.

Mas Joanne encontrou-a.

– O Zandor fez-se a ti? – perguntou, nervosa. – Meu Deus! É o cúmulo. Deve ter mulheres a caírem-lhe aos pés por todo mundo. Portanto, não precisa de andar por aí a chatear – acrescentou com paixão. – Sinceramente, Alanna, não acredites em nada do que ele diga.

– Não te preocupes, não o farei.

– Além disso, – acrescentou Joanne, mais alegremente, – és a rapariga de Gerard, não és?

«Mentira», pensou Alanna. «A verdade é que neste momento não sei quem sou nem o que faço aqui».

Ergueu o queixo.

– Claro que sim – retorquiu.

– E os meus pais morrem de vontade de conhecer-te – Joanne levou-a até ao outro lado da sala. – Mas não te preocupes. A tia Caroline e a minha mãe não são nada parecidas. Ninguém diria que são irmãs.

A senhora Dennison era uma mulher alta e forte, cujo cumprimento foi tão caloroso quanto o seu sorriso.

– Lançaram-te às feras – disse, bem-humorada. Fez-lhe um sinal para que se sentasse ao seu lado. – Receio que não nos encontres no nosso melhor momento, mas não culpes o Gerard. Ele não podia saber o que ia acontecer – voltou-se para o seu esposo. – E agora parece que a minha mãe convidou o Tom Bradham para amanhã à noite. Mais problemas.

Maurice Dennison encolheu os ombros.

– Ela ressuscita com isso, querida. Relaxa-te e deixa que seja a Caroline a preocupar-se com o pormenor de onde sentará as pessoas – olhou para o seu relógio. – É quase hora de jantar. Vou buscar Kate e Mark à zona infantil e trazê-los cá para baixo.

– A minha mãe – disse Diana Dennison quando o seu marido se afastou – deve ser a única bisavó do mundo que continua a pensar que às crianças o melhor é vê-las pouco e nunca as ouvir. Portanto, elas só descem uma vez por dia, à hora do chá. E os seus pais, por seu lado, escolhem passar grande parte do tempo lá em cima com eles.

Suspirou.

– Os pais do Mark ficariam encantados por poderem ficar com eles, e eles iriam divertir-se muito na quinta, mas a minha mãe insiste sempre em que os tragam quando convoca a família – abanou a cabeça. – Não consigo perceber porquê. Nunca gostou de crianças. Nem sequer das suas, se a memória não me falha – acrescentou, secamente.

Sorriu de novo para Alanna.

– Escandalizei-te, não foi? Mas o Gerard não se importará que saibas como é a nossa vida aqui.

– Acho que deveria deixar claro que conheço o Gerard há muito pouco tempo – retorquiu Alanna.

A senhora Dennison encolheu os ombros.

– Certamente, isso não o incomoda, ou não te teria convidado. E fico contente. Vou dizer ao meu sobrinho que será um tonto se te deixar escapar.

– Senhora Dennison, por favor… – murmurou Alanna com ansiedade.

A mulher suspirou.

– Desculpa-me, mas gosto do Gerard e quero voltar a vê-lo feliz. No entanto, se não queres, não direi nem uma palavra – sorriu com malícia. – Deixemos a natureza seguir o seu curso. Aí vem a minha irmã. Presumo que esteja na hora de passarmos à sala de jantar.

O jantar foi longo e lento, mas esteve muito longe do pesadelo que Alanna temia. Por um lado, porque a comida era excelente e, por outro, porque deu por si sentada num extremo da mesa, longe de Gerard e, por sorte, mais longe ainda de Zandor.

Os seus vizinhos mais próximos eram Desmond Healey, uma cópia calma e humorística do seu pai, e a sua bela esposa, ambos entusiastas do teatro, e divertiu-se a conversar com eles.

Quando acabou o jantar, era já tarde o suficiente para permitir-lhe desculpar-se e retirar-se para o seu quarto, após se assegurar de que Zandor não estava à vista.

Tinha reparado que Niamh Harrington também faltava e Gerard tinha desaparecido, provavelmente para continuar a sua reunião anterior. Portanto, podia fugir para o seu quarto sem mais demonstrações de afeto por parte dele e fechar a sua porta à chave.

Quando se preparava para se deitar, pensou no comentário da senhora Dennison sobre como desejava que Gerard «voltasse a ser feliz». Nunca tinha reparado que ele fosse infeliz.

Abriu as cortinas para deixar entrar o luar e tentou acomodar-se num colchão que era duro e tinha altos e baixos.

Estava quase a dormir quando ouviu baterem calmamente à porta. Ergueu-se sobre um cotovelo e viu a maçaneta a girar lentamente.

Permaneceu em silêncio e imóvel até voltar à sua posição inicial, quando ouviu uns passos a afastaram-se pelo corredor.

Tinha-se ido embora. Alanna nem precisava de perguntar-se a identidade do visitante.

Capítulo 3

Alanna acordou muito cedo na manhã seguinte, consciente de que tinha passado uma noite desassossegada com sonhos que, felizmente, não recordava claramente.

Saiu da cama e aproximou-se da janela, onde uma capa espessa de nevoeiro obscurecia a vista do jardim.

Para este, no entanto, o céu vermelho prometia outro dia de calor.

Vestiu o robe, que condizia com a camisa de noite e aninhou-se no banco almofadado à janela.

Arrependia-se de ter ido para ali. Não só a família pensava que tinha uma relação séria com Gerard, como, além disso, tinha de lidar com a realidade de Zandor, uma vez mais a perturbar a sua vida e a sua paz mental.

Tudo aquilo tinha começado num evento de «encontro com os leitores», protagonizado pelo odiado Jeffrey Winton. E durante o qual ela só sentia dores nos pés.

Tinha tirado discretamente um sapato de salto de agulha e flexionado os dedos. Não eram sapatos para estar em pé, mas Jeffrey tinha tido a ideia de ela ficar em pé ao seu lado em vez de sentada à mesa.

Alanna não tinha planeado passar a noite de sexta-feira numa livraria, ouvindo-o falar da sua vida, da sua carreira de escritor, da sua encarnação como Maisie McIntyre e dos seus planos futuros perante uma multidão de mulheres que o idolatravam.

Izzy, a publicista encarregada de acompanhá-lo, tinha ido para casa à tarde com uma enxaqueca e Alanna era a única disponível na editora quando Hetty tentara encontrar um substituto.

– É muito simples – tinha-lhe dito, sem ligar aos seus protestos. – Só preciso de alguém que lhe passe os livros para que ele os assine e que faça avançar a linha de admiradores. Ah!, e ele gosta que o seu assistente se vista bem – acrescentou, olhando para as calças de ganga, a t-shirt e os ténis de Alanna. – Sapatos incluídos. Também costuma assinar todos os livros que enviamos para que a livraria não os possa devolver. Portanto, tenta impedi-lo porque o dono da SolBooks não gosta nada disso.

Quando o senhor Winton já estava há quase meia hora a descrever como tinha aprendido a ligar com o seu lado feminino para poder escrever os acontecimentos adoráveis e extravagantes das suas sagas rurais, Alanna começava a descobrir as suas tendências assassinas.

No seu quarto tinha manuscritos para ler, música que para ouvir, uma tigela de sopa seguida de uma batata asada com queijo fundido para saborear e um robe antigo, mas confortável, para vestir.

E tinha de trocar tudo isso para estar ali com o único minivestido preto que tinha e uns sapatos que lhe esmagavam os dedos.

Desejava que alguém se levantasse e perguntasse:

– E qual é o seu comentário aos rumores de que a sua esposa escreve mais de cinquenta por cento dos seus livros?

Mas, claro, isso não aconteceu.

Os fãs, cuja entrada incluía um copo de vinho, engoliram por completo o mundo de sonho de Maisie McIntyre e estavam enfeitiçados e desejosos de chegarem ao monte de exemplares de Verão no refúgio do pastor que Clive Solomon, o dono da livraria, trazia do armazém.

Alanna estava a voltar a pôr o sapato no pé quando se deu conta de que havia um recém-chegado que parecia ter acabado de vir da rua. E que, ao contrário do resto do público, era homem.

Também era alto, muito moreno, atraente embora não de um modo convencional, e levava um elegante fato cinzento, camisa branca imaculada e gravata vermelha.

Alanna começou a andar para ele, consciente de que o homem também estava a olhar para ela. Ele sorriu e ela descobriu, surpresa, que sentia a tentação de fazer o mesmo.

– Receio que este seja o lançamento de um livro, um evento privado. Ou tem entrada? – perguntou.

– Não – ele olhou em volta. – Pensei que a loja tinha decidido abrir até mais tarde. Já que estou aqui, pode recomendar-me um livro para uma idosa que gosta de ler?

Ela hesitou.

– De que tipo de histórias gosta ela? – perguntou.

– Histórias boas, com muitas personagens – ele franziu o sobrolho. – Aquele é o autor? – perguntou baixinho.

– Sim – sussurrou Alanna. – Mas não me parece que ela fosse gostar dos livros dele – fez uma pausa. – Já leu Middlemarch, de George Eliot?

– Não faço a menor ideia. Você gostou?

– É um dos meus livros preferidos.

– Pois está comprado – disse ele. Sorriu e Alanna sentiu um tremor estranho e profundo.

– Deixo-o com o senhor Solomon – murmurou, ao ver que o dono se aproximava deles. – Tenho de voltar para o meu autor.

– Para desgraça minha – disse o homem moreno e atraente. E ela corou e voltou a correr para a mesa.

Durante o aplauso do final da palestra, permitiu-se olhar para a porta, mas o desconhecido tinha-se ido embora e ela reprimiu uma pontada de deceção.

A assinatura de livros correu bem, embora Alanna não tivesse gostado do senhor Winton lhe ter chamado «minha encantadora assistente» nem da sua insistência para que se aproximasse mais da sua cadeira quando ela preferia manter as distâncias.

Já tinha notado com nervosismo os olhares de soslaio que lhe tinha lançado às pernas e ao decote e sentiu-se agradecida quando a fila começou a diminuir e as pessoas começaram a ir-se embora, mesmo que contrariadas. Clive Solomon recolhia os copos usados e Alanna recordou a advertência de Hetty e decidiu acrescentar fita extra às caixas por abrir do armazém, para o caso do senhor Winton se lembrar de continuar a autografar exemplares.

Agarrou a fita e começou a trabalhar, e estava tão absorta, que não se deu conta de que tinha companhia até Jeffrey Winton começar a falar.

– Isso é muito malandro da tua parte, querida. Deverias promover as minhas vendas, não as dificultar.

Ela endireitou-se.

– Acho que já se foram embora todas os clientes, senhor Winton – retorquiu. Teria gostado que ele não estivesse a bloquear-lhe o caminho para a porta e que Clive Solomon não estivesse noutro sítio qualquer a guardar o vinho que tinha sobrado.

– Mas amanhã entrarão outras – murmurou ele num tom jovial. Aproximou-se um passo mais. – No entanto, és jovem e podes convencer-me a não fazer queixa de ti à Hetty.

– Não te iria servir de nada – murmurou Alanna baixinho. Retrocedeu, mas deu por si encurralada entre o corpo volumoso dele e as estantes de aço.

– Isto é, se estás disposta a ser amável comigo – acrescentou ele.

Lambeu os lábios com expetativa e aproximou-se um pouco mais, ao mesmo tempo que levava a mão para a bainha do vestido dela.

Alanna perguntou-se qual seria o castigo por dar uma joelhada entre as pernas a um autor de bestsellers. Mas antes que pudesse correr esse risco, interveio outra voz.

– Ainda não acabaste, querida?

O cliente dos olhos prateados tinha voltado e apoiava-se no umbral da porta com ar casual, sorrindo-lhe e ignorando Jeffrey Winton, que se tinha voltado, com a cara vermelha e furioso por causa da interrupção. – Prometeste-me o resto da noite, lembras-te?

– Estou pronta – respondeu ela com voz rouca. – Só me falta recolher o casaco e a mala.

Passou à frente do senhor Winton e recolheu as suas coisas no pequeno escritório. Felicitou o senhor Solomon por uma noite bem-sucedida e juntou-se ao seu salvador à porta da livraria.

Ele ajudou-a a vestir o casaco.

– Parece que cheguei no momento certo – comentou.

– Sim – disse ela com um arrepio. – Ainda nem consigo acreditar – respirou fundo. – Não sei como lhe agradecer – fez uma pausa. – Mas por que voltou? Mudou de ideias sobre o livro?

– Não. Queria convidá-la para jantar comigo.

Ela hesitou. A pulsação batia-lhe com força.

– É muito amável – disse. – Mas não é necessário.

– Não estou de acordo – retorquiu ele. – Para começar, gostaria de continuar a nossa conversa sobre literatura inglesa. E, além disso, não gosto de comer sozinho.

– Mas nem sequer sei o seu nome.

– Zandor – disse ele. – E tu és…?

Ela engoliu em seco.

– Alanna.

– Pois já sabemos os nossos nomes. E podemos tratar-nos por tu. O resto pode esperar.

Zandor parou um táxi que apareceu de repente e a ela passou-lhe pela cabeça que aceitar o convite dele poderia significar saltar da frigideira para o lume.

Uma ideia que ficou reforçada quando viu Jeffrey Winton sair de SolBooks e lançar-lhe um olhar venenoso. Sinal de que não deveria ser bom perdedor.

Entrou no táxi com medo e Zandor reparou assim que ela se sentou ao seu lado.

– Que se passa? – perguntou.

– Lamento, mas não tenho fome – respondeu ela. – Queria ir para casa, por favor.

– Vives com a tua família?

– Não.

– Vives com alguém?

– Não.

Zandor assentiu.

– Nesse caso, acho que é melhor o plano para jantar. Tiveste uma experiência desagradável, mas comida e boa companhia vão ajudar-te a esquecê-la. Remoê-la em solitário, não.

– Para ti é fácil falar – replicou ela. – Tu não corres o risco de perderes o teu trabalho por causa do que aconteceu esta noite. O Jeffrey Winton vende muitos livros. Se diz algo contra mim, em quem pensas que irão acreditar?

Zandor franziu o sobrolho.

– Posso falar com o teu chefe e contar-lhe o que vi. Parece um homem razoável.

Alanna deu-se conta de que ele pensava que ela trabalhava na SolBooks, mas decidiu não contar a verdade. Quantos menos detalhes pessoais partilhassem, melhor.

E estava demasiado alterada para discutir sobre o jantar. Além disso, ele tentava ser amável e o mínimo que podia fazer era ser educada.

E estava em dívida para com ele, não? Afinal, eles eram como dois barcos que se cruzavam na noite. Nada mais. Olhou pela janela para os anúncios iluminados, que de repente pareciam desfocados.

E deu-se conta, horrorizada, de que estava a chorar.

Ouviu Zandor murmurar algo e sentiu-se puxada para ele. Cedeu ao consolo de sentir-se aninhada nos seus braços e apoiou a cabeça no seu ombro. Ele pôs um lenço branco imaculado na mão dela.

– Que homem tão vil! – soluçou Alanna. – Se não tivesses aparecido… Se não tivesses voltado…

– Chiu! – sussurrou ele, acariciando-lhe o cabelo com gentileza. – Já passou. Agora estás segura.

E ela chorou até reduzir o lenço a uma bola de tecido molhada.

– Sinto-me estúpida – disse com voz rouca, depois de acabar de arruinar o lenço ao assoar o nariz.

– Não é necessário – ele afastou uma madeixa de cabelo húmido da testa e ela sentiu o roçar dos seus dedos a vibrar em cada centímetro da sua pele.

O táxi parou, Zandor pagou a viagem e Alanna deu por si à frente de uma fachada imponente que se anunciava como o Hotel Metro-Imperial, onde um porteiro de farda agarrava e mantinha abertas umas elegantes portas de vidro.

– Por que viemos aqui? – perguntou ela, quando cruzavam o átrio de mármore em direção aos elevadores.

– Para jantarmos – ele pôs-lhe uma mão no cotovelo. – Não tive tempo para reservar mesa noutro lugar, mas a comida é boa.

E, no minuto seguinte, estavam no elevador, que subiu rapidamente um andar atrás de outro até chegar ao último.

– Isto é o restaurante?

– Não, é a cobertura. Fico aqui alojado quando estou em Londres – respondeu Zandor.

Abriu a porta com o seu cartão-chave e entraram numa sala de estar decorada em madeira clara e marfim, onde havia sofás de pele.

Ele apontou para uma porta na parede da frente.

– Se queres refrescar-te um pouco, entra por ali e em frente encontrarás uma casa de banho – fez uma pausa. – Gostas de massa?

– Sim – confessou ela, hesitante.

– Pois é o que vou pedir.

Alanna entrou no quarto, que era também enorme e com uma cama gigante, com uma manta roxa. Em frente, de facto, estava a casa de banho, com duche e banheira. Um olhar para o espelho que estava acima dos dois lavatórios, revelou a Alanna que, efetivamente, precisava de ajeitar-se. Tinha o rosto vermelho e marcado pelas lágrimas e talvez tivesse sido essa a razão de que seu acompanhante não tivesse escolhido um restaurante público.

Quando voltou para a sala de estar, depois de lavar a cara e de se maquilhar discretamente, encontrou um empregado a pôr uma mesa para dois ao lado de uma janela enquanto outro estava ocupado com uma garrafa envolta em papel dourado e um balde de gelo.

Zandor tinha-se instalado no sofá, sem casaco, com a gravata afrouxada e os botões de cima da camisa desabotoados. Olhava atenciosamente para um computador portátil que estava na mesinha de centro à sua frente, mas fechou-o ao aproximar-se e sorriu-lhe.

– Sentes-te melhor? – perguntou.

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