Read the book: «O Primeiro de Maio»
Pinto da Rocha
Talitha: evangelho em tres actos

Publicado pela Editora Good Press, 2022
EAN 4064066409319
Índice de conteúdo
PERSONAGENS
INTERPRETAÇÃO
PRIMEIRO ACTO
SCENA I
Joaquina e Ruy
SCENA II
Os mesmos, Padre João e Talitha
SCENA III
Padre João , Ruy e Talitha
SCENA IV
Os mesmos e Joaquina
SCENA V
Padre João e Ruy
SCENA VI
Ruy e Talitha
SCENA VII
Os mesmos e Joaquina
SEGUNDO ACTO
SCENA I
Joaquina e Padre João
SCENA II
Os mesmos e Ruy
SCENA III
Padre e Ruy
SCENA IV
Os mesmos e Joaquina
SCENA V
O mesmos, Joaquina e Talitha
SCENA VI
Talitha e Ruy
SCENA VII
Os mesmos e Padre
SCENA VIII
Padre e Talitha
TERCEIRO ACTO
SCENA I
Joaquina , só
SCENA II
Joaquina e Ruy
SCENA III
Os mesmos e Talitha
SCENA IV
Os mesmos, Padre , raparigas e rapazes
SCENA V
Os mesmos, Marqueza e Escudeiro
SCENA VI
Marqueza e Padre
SCENA VII
Os mesmos e Talitha
SCENA VIII
Os mesmos, Joaquina e Ruy
RESPOSTA Á CRITICA INDIGENA
RESPOSTA Á CRITICA INDIGENA
PERSONAGENS
Índice de conteúdo
| Talitha, céga | 18 annos |
| João Fulgencio, cura da aldeia | 80 " |
| Dr. Ruy de Ornellas, medico | 25 " |
| Joaquina, irmã do cura | 65 " |
| Marqueza de Rilma | 50 " |
| UM ESCUDEIRO—CAMPONEZAS—LAVRADORES | |
A acção passa-se em uma aldeia da Provincia de Traz-os-Montes, Portugal
———
ACTUALIDADE
INTERPRETAÇÃO
Índice de conteúdo
| NO RIO DE JANEIRO EM 1906 | |
|---|---|
| Talitha | Maria Falcão |
| Joaquina | Jesuina Saraiva |
| Marqueza de Rilma | Barbara Wolckart |
| João Fulgencio | Chaby Pinheiro |
| Ruy de Ornellas | Henrique Alves |
| NO RIO GRANDE DO SUL EM 1907 | |
| Talitha | Maria Falcão |
| Joaquina | Maria Pinheiro |
| Marqueza de Rilma | Olivia de Almeida |
| João Fulgencio | Chaby Pinheiro |
| Ruy de Ornellas | João Lopes |
A Talitha subiu á scena, pela primeira vez, no Theatro Apollo, do Rio de Janeiro, em Agosto de 1906, na festa artistica da eximia actriz Maria Falcão.
E tomando a mão da menina disse-lhe:
—Talitha cumi:—Filhinha levanta-te.
Novo Testamento. S. Marcos, V. 41.
PRIMEIRO ACTO
Índice de conteúdo
Jardim, na residencia do Cura.—Á direita, um banco de pedra junto a um poço: á esquerda, frontaria da casa. Grade ao fundo, com portão.—Vista de estrada e campo.
SCENA I
Índice de conteúdo
Joaquina e Ruy
Índice de conteúdo
Joaquina
Louvado seja Deus! Como está bello e forte!
Ruy
É verdade, Joaquina, o clima aqui da terra
encheu-me novamente o coração de alento.
Posso dizer que entrei neste bondoso lar
vigiado, sem dó, pelos olhos da morte.
E agora, a luz do Sol, os perfumes da serra,
as aguas desta fonte, o sadio alimento,
o seu cuidado santo, amigo e tutelar,
fizeram-me robusto.
Joaquina
E Deus não lhe fez nada?
Ruy
Foi elle quem salvou a minha mocidade,
porque a divina mão que fez os céos e os montes,
que deu flores á terra e deu frescura ás fontes,
que faz vibrar a luz e a voz da passarada,
que impelle a nuvem branca em plena immensidade,
um dia vos creou as almas caridosas
que vivem nesta casa, humildes e serenas,
felizes com o Bem, suaves como as rosas,
mais simples do que o trigo, a neve e as açucenas!
Joaquina
Então, menino, crê tambem que Deus existe?!
Ruy
De certo, minha amiga.
Joaquina
E não é um hereje,
dessa raça maldita e negra que desmente
as obras do Senhor?
Ruy
Ingenua creatura!
É tão alegre a crença e não crêr é tão triste,
que mesmo sem querer o coração da gente
acredita num Deus que todo o mundo rege,
num Pae que assim te deu alma simples e pura!
Faz tanto bem, Joaquina, acreditar em Deus
e adormecer á noite abrindo a consciencia
aos beijos do luar, sorrir de madrugada
á frescura que vem do azul ethereo e vasto,que o nosso olhar ascende ás amplidões dos céos
sem esforço nenhum, como a espiral da essencia
que se evola da flôr, se a abelha delicada
lhe poisa na corolla o vôo leve e casto!
Joaquina
Bemdito seja Deus! Não póde imaginar
como eu fico contente ouvindo assim fallar!...
Ruy
Mas que idéa fazia então de mim? Julgava
talvez que eu fosse atheu?
Joaquina, benzendo-se
Deus me perdôe... pensava!
Ruy
Como poude a sua alma angelica e tão boa
fazer-me, sem motivo, essa enorme injustiça?
Joaquina
Ah! mas não foi por mal, nem o pensei á tôa:
eu nunca o vi rezar, eu nunca o vi na missa...
E a gente vê só cara e não vê corações...
Ruy
E se o visse, Joaquina!...
Joaquina
E que é que me servia
o ver-lhe o coração?
Ruy
Nada, é certo. Entretanto
conheceria bem as minhas intenções,
a esperança que faz brotar, em cada dia
que passa, um pensamento alegre, puro e santo...
Joaquina, interrompendo
É, mas diz o rifão que está o inferno cheio
de boas intenções!...
Ruy
Tem razão; mas não minto
se lhe disser tambem, lealmente, o que sinto:
ás vezes mais parece um verdadeiro inferno
este peito infeliz...
Joaquina, benzendo-se
Abrenuncio, menino!...
Mas que blasphemia a sua e que peccado feio!...
Um homem que acredita em Deus, bondoso e eterno,
em Deus Nosso Senhor, não diz tal desatino!...
Virgem Maria! Credo!
Ruy
Alma boa de santa!...
A tua vida inteira adormeceu. A aurora
já para ti não tem aquelle brilho vivo
que a primavera, em luz, alastra pelos campos...
Tudo se transformou em outra vida; agora
a fonte já soluça, a brisa já não canta;
aos teus olhos a lua é d'um fulgor esquivo,
o sol não tem calor, o céo já não é glastro,
as estrellas febris parecem pirilampos;trazes o teu olhar constantemente a rastro;
sómente a fé te anima; é por isso que extranhas
o inferno abrasador que muita vez domina
a minha mocidade.
Joaquina, com sorriso
Isso me bacoreja
algum amor perdido ahi por essas eiras...
Ruy
É possivel, quem sabe? Os ares das montanhas
tem caprichos assim, póde bem ser, Joaquina!
Joaquina, cariciosa
E diga-me, que olhar é esse que negreja
a sua vida alegre? Ha tantas feiticeiras!...
Ruy, enleiado
Que olhar?
Joaquina, interrompendo
Mas é segredo?
Ruy
É, por ora é segredo...
Joaquina
Ah! não confia em mim?! bem sei, bem sei, tem medo
que eu descubra o mysterio, a princeza encantada
que assim lhe traz a vida em tantas amarguras...
Ruy
Não é mysterio, não. É... cousa complicada!...
Joaquina
Faz muito bem zelar a flôr dos seus amores;
não os conte a ninguem; se acaso as desventuras
lhe roubarem o somno agarre-se com Deus...
tomando-lhe a mão e fallando-lhe ao ouvido
Reze constantemente á Senhora das Dôres.
Acceite este rosario e tenha-o por bordão.
É bemaventurado aquelle que padece,
porque é delle, menino, o reino azul dos céos...
E Deus a quem promette estende sempre o pão;
reze e será feliz... Essa alma bem merece...
Ruy
Santa velhinha, santa...
Joaquina, tapando-lhe a bocca
E nem um ai, silencio...
Olhe quem vem ali...
Ruy, voltando-se
O Padre João Fulgencio
e Talitha; meu Deus!... Pobre, infeliz Talitha!...
Joaquina, a Ruy
Parece que ficou um tanto atrapalhado...
Ruy, encobrindo a verdade
Sempre que a vejo, assim tão cheia de bondade e
céga...
Joaquina
Então, que sente?...
Ruy
Uma dôr inaudita,
que reveste de luto as minhas alegrias:
Ha tanta luz espalhada
na concha astral dos espaços!
E os olhos della tão baços!
E a fronte tão macerada!
SCENA II
Índice de conteúdo
Os mesmos, Padre João e Talitha
Índice de conteúdo
Talitha vem apoiada ao braço de padre João
Padre
Pois Deus Nosso Senhor nos dê muitos bons dias.
assenta Talitha: a Ruy, apertando-lhe a mão
Como passou a noute?
Ruy
Assim; mais descançado...
Sonhando... E o Senhor Cura?...
Padre
Eu? Ah! na minha idade
já se não dorme; eu passo a noute toda em claro,
de rosario na mão, pedindo a Deus por nós!
E quando surge o dia e mal o Sol desponta,
dando o braço a Talitha, encaminho-me á Egreja.
Talitha
Diz a missa que ou ouço...
Padre
E é raro, muito raro,
voltarmos ella e eu, da Egreja a casa, sós.
Ás vezes vem comnosco esse infeliz sargento
que arrasta por ahi o longo soffrimento,
velho e cego tambem, e eu, mortiça candeia,
a conduzir os dois pelas ruas da aldeia!
Talitha
Mas o senhor doutor, por mim nunca dei conta,
nem uma vez, sequer, nos acompanhou! Veja!
No emtanto está comnosco ha sete mezes, não?
Joaquina
Isso mesmo eu já disse...
Ruy
Eu dei a explicação...
Talitha
E poder-se-á saber? Não é curiosidade?
Padre
Talvez seja, talvez...
Ruy
Não é!
Talitha
Então ouçamos!...
Ruy
Eu rezo no silencio o santo sacrificio,
no fundo de minh'alma elevo o meu altar,
sob o docel azul das minhas esperanças!...
Padre
E eu sem conhecer mais essa novidade!...
Talitha
Qual?
Padre
Esta que o Doutor nos deu, mas aprendamos...
Ruy
Padre não é sómente aquelle que a rezar
esgota uma existencia ao peso do cilicio
e vae pelas manhans, feliz como as creanças,
curvar humildemente a fronte e a consciencia,
na sombra da capella, aos pés do Redemptor...
Talitha
Mas ha d'outros, então?
Padre
Eu não conheço, filha!
Ruy
Sacerdote é tambem aquelle que tem culto
ao qual offereceu toda a sua existencia.
Padre, quem se dedica um dia com fervor
a amar alguem na terra a cujos pés se humilha,
tambem é sacerdote...
Padre
E eu, sacerdote, exulto
ouvindo do seu labio esta expressão severa.
Joaquina, que tem guardado silencio, enlevada pelas palavras de Ruy
Bemdito seja Deus! menino, quem me dera
conhecer a mulher que tem um filho assim...
Talitha
Só eu não posso vêl-o!...
Ruy, entre alegre e enleado
Obrigado, Talitha!
Talitha
Não tem que agradecer, disse-o sinceramente!
Que póde desejar mais uma céga, diga?...
Padre
Mas conforma-te, filha, espera que o Senhor,ouvindo-me a oração, tenha pena de mim
e acuda com remedio ao mal dessa desdita!
Ruy
Como eu fôra feliz...
Joaquina
E eu seria contente!...
Ruy
Se pudesse voltar, ó minha boa amiga,
aos seus olhos de céga o perdido fulgor!...
Talitha
Nunca mais, nunca mais...
Padre
Porque é que te condemnas
se toda a nossa vida é uma esperança apenas?...
Talitha
Se é toda de esperanças esta vida,
já me fugiu aquella que voava
bem junto do meu seio e que roçava
sobre a minh'alma a aza foragida.
Nem sei onde ella vae, talvez perdida
nao volte a mim por não morrer escrava
na escuridão da noite immensa e cava
dos meus olhos sem luz e sem guarida...
Nunca mais fulgirás, dôce promessa,
na minha treva densa e prematura,
como o branco luar em noite espessa.
Se vive, o olhar dos cégos não fulgura,
dorme na sombra e de sonhar não cessa
na tristeza sem fim da noite escura!
Ruy
Não descreia, Talitha, as suas illusões
não fugiram, por ora, esparsas na lufada!
Quem foi que lhe roubou a ultima esperança,
que braços sem caricia, ou duras privações
lhe puderam vibrar tão rude punhalada?
Pois bem, toda a minh'alma alegre se abalança
a dizer-lhe, Talitha:—o seu formoso olhar
tão cheio de fulgor, um dia ha de voltar...
Joaquina
Só milagre de Deus!
Padre
E Deus póde fazel-o:
é Pae de todos nós!
Talitha, com desanimo
Tenho rezado tanto!
Ruy
Implore mais ainda, espere, tenha crença!
Talitha
Tenho pedido muito e tanto me flagello
que banho as orações nas bagas do meu pranto
e aqueço-as ao calor da minha dôr immensa.
A mesma escuridão tremenda me apavora,nem um raio do luz, nem um vago lampejo;
nunca mais hei de vêr o campo que se inflora
nem do luar terei um luminoso beijo...
Padre
A tua redempção ainda não surgiu...
Joaquina, pondo as mãos
Eu tenho tanta fé!
Ruy
O meu presentimento
não sei o que me diz...
Talitha
Que o coração sentiu,
que a sua alma pensou nessa dôce ventura,
eu creio porque sei quanto é nobre e bondoso.
Mas eu creio tambem que o meu cruel tormento
sómente acabará no chão da sepultura,
onde tudo tem fim, embora tenebroso!...
Padre, olhando o céo
Perdôa-lhe, Senhor, ella ignora o que diz...
Se tem soffrido tanto esta pobre infeliz!...
Talitha
Eu sei bem o que disse; a minha crença é essa.
Ha muito que eu imploro ao céo a protecção
e rezo com fervor á dôce Conceição,
pedindo-lhe, a chorar de dôr, que não esqueça
a minha noite escura e tristemente agrestecomo a sombra que faz a copa de um cypreste.
Aos pés do seu altar curvei-me como escrava
e emquanto pela igreja o incenso espiralava,
e as simples orações subiam na espiral,
fechei-me na mudez do meu fervor mental
e fiz uma promessa...
Ruy, com interesse
E então qual foi, Talitha?
Talitha
Votar a minha vida ao divino serviço,
se um dia terminasse o meu padecimento;
nem peço mais a Deus, é tudo o que cubiço.
Ruy
E se tornar a ver?
Talitha
Entrarei num convento
a vestir o burel de freira Carmelita.
Padre, crente, pondo as mãos
Se Deus te ouvisse, filha!
Joaquina, com uncção religiosa
E o Bom Jesus quizesse!...
Ruy, com amargura
Se tivera valor a minha humilde prece!...
Talitha, curiosa
Se tivera valor, que lhe faria, Ruy?
Ruy
Não pediria a Deus esse milagre extremo...
Talitha
Porque?
Ruy
Porque seria arrancal-a da treva
e lançal-a de novo em mais cruel negrura.
Juntando toda a fé que de minh'alma flúe
eu iria pedir, como um favor supremo,
que as almas alevanta e os corações eleva,
que me guiasse a mão na lucida aventura
de devolver-lhe um dia ao seu olhar perdido
aquelle brilho antigo e aquelle ardor de outr'ora
que faziam inveja ao proprio olhar de Flóra!
Padre
E seria capaz?
Joaquina
Credo!
Sae
SCENA III
Índice de conteúdo
Padre João, Ruy e Talitha
Índice de conteúdo
Ruy
E tão convencido
estou de que o Senhor a mão me guiaria
nesse instante feliz, que não hesitaria
um momento sequer... A simples catarata
é facil de operar e em dez dias exactos
Talitha voltaria á luz que o céo desata
e que dá vida á terra, aos fructos e aos regatos!...
Pense, Talitha, pense e permitta que eu faça
esse dôce milagre.
Talitha
E eu tornarei a vêr
o presbyterio, a fonte, a madrugada, as aves,
as abelhas sugando o mel dos jasmineiros?
Ruy
Os seus olhos verão a luz da eterna graça
no sorriso gracil da alvorada, ao nascer
nas bandas do oriente em nuvens tão suaves,
como um rebanho astral de timidos cordeiros!
Talitha
E que mais hei de vêr?
Ruy
Que mais? Verá tambem
um velhinho a sorrir com lagrimas na face,e uma velhinha branca e trémula a chorar,
e ao pé delles, alegre, o olhar de mais alguem,
numa dôce oração tão leve e tão feliz,
como se a propria brisa aqui se demorasse
um momentinho só tambem para rezar!
Talitha, alegre
E eu voltarei de novo aos encantos da luz?
E hei de vêr tambem o jardim do mosteiro
onde floresce a fé que a nossa vida arrima,
as rosas enfeitando a Virgem que as anima,
o corpo de Jesus exanime e trigueiro,
entre cirios a arder, deitado sobre a cruz?...
E então assim feliz...
Ruy, interrompendo
E então, Talitha, e então?
Talitha
Rezarei pelo Ruy, tão bom, tão generoso,
que trouxe ao meu olhar escuro e tormentoso
a esmola angelical d'um lucido clarão!
SCENA IV
Índice de conteúdo
Os mesmos e Joaquina
Índice de conteúdo
Joaquina, entrando
Padre Cura, uma carta.
Padre
Uma carta? Mas donde?
recebe-a e examina
Hum! e de quem será?
Talitha
Joaquina, dê-me o braço...
Joaquina dá-lhe o braço. A Ruy
Dr. Ruy, até já.
ao cura
Até já, meu Padrinho...
Ruy, que se tem conservado triste
Talitha!...
Talitha, voltando-se
Meu Senhor!...
Ruy, indo a ella
Perdão, Talitha... nada!
Talitha
Arrependeu-se, não? E tambem não responde...
Desconfia de mim?... Outro tanto eu não faço
Doutor, a seu respeito; eu bem sei, adivinho...
Ruy, com interesse
Que foi que adivinhou?
Talitha, com malicia
Uma coisa adorada...
que só tres corações conhecem bem: o seu,
o della, e o Senhor que tudo vê do céo...
Ruy, admirado
Della, Talitha, quem?
Joaquina, com intenção
Daquella princesinha
d'olhos da côr do céo, vestida de andorinha...
Talitha
Ouviu, Doutor, ouviu?
Ruy
Juro...
Talitha, interrompendo
Não jure falso!...
a Joaquina
Vamos, Madrinha, embora: é tempo de almoçar.
sahem
SCENA V
Índice de conteúdo
Padre João e Ruy
Índice de conteúdo
Desde que recebe a carta, Padre João lê com a maior attenção. Pela sua face corre toda a expressão de espanto que vae recebendo. Quando sahem Joaquina e Talitha, o Padre conclue a leitura e fica a meditar. Ao approximar-se Ruy, suspende-se.
Padre
Esta agora é que foi!
Ruy
E que foi, Senhor Cura?
Padre
Quem sabe? Póde ser um pequeno precalço,
mas póde ser tambem que venha de mistura
alguma dôr maior. E não posso evitar!...
Ruy
O que essa carta diz deixou sua alma afflicta:
um segredo talvez que vive no seu seio?!...
Padre
Foi, sim, mas ja não é. Agora só receio
que m'a levem daqui...
Ruy
Que a levem? quem?
Padre
Talitha...
Ruy
E quem a levará deste remanso augusto?
O convento, a promessa?...
Padre
Oh! não...
Ruy
Não tenha susto!
E quem mais poderá, nesse caso, arrancal-a
do lar em que nasceu?
Padre
A Mãe...
Ruy, surprehendido
Ah! mas... então...
Padre, baixinho
Então... já percebeu?! Ella foi engeitada...
Eis aqui o segredo em que esta vida abraço.
baixa a cabeça, scismando
Ruy, depois de uma pausa
Oh! meiga creatura!
Padre
E não poder salval-a!...
Ruy
Engeitada!...
Padre
Sim, sim. Ao romper da alvorada.
Ha muito tempo já. Inda no céo brilhava
a estrella da manhã; vieram procurar-me;
bateram ao portal com desusado alarme...
Ergui-me e fui abrir; a neve branqueava
os campos e eu pensei que um pobre moribundo,
no momento supremo em que deixava o mundo,
quizesse receber da minha propria mão
o balsamo final da santa extrema-uncção,
e abri desta choupana a porta sempre franca.
Parecia o jardim uma toalha branca.
Era um frio cruel, cortava como fôsse
o gume de uma faca e o fio de uma fouce...
Sahi, olhei em roda e já não vi ninguem.
No céo luzia só a estrella de Bethlem!
Não sei porque a fitei nesse feliz momento.
Um silencio profundo amordaçava o vento;
dormia a natureza um somno indefinido,
vibrou então no espaço um timido vagido...
Estremeci de horror...
Ruy, com anciedade
Era a pobre Talitha?!
Padre
Approximei-me e vi, aqui junto do banco
um cestinho de verga envolto em panno branco.
Banhou-me o coração uma dôr infinita.
Na tragica mudez da alvorada deserta
tomei nas mãos, tremendo, a delicada offertae agasalhei-a ao peito, assim, para aquecel-a
como quem agasalha o corpo de uma estrella
que tombasse do céo...
Ruy, com mais anciedade
E esse penhor amigo?!...
Padre
A meu lado cresceu e formou-se o thesoiro,
alma rica de luz, feita de amor e d'oiro.
Parece que ao romper daquella madrugada
tão fria, tão cruel, mas tão abençoada,
que eu lembro com saudade e que inda hoje bemdigo,
teve o banho castalio, o baptismo de luz
da mesma estrella exul que baptisou Jesus.
Por isso é que minh'alma agora não sopita
a magua de perdel-a...
Ruy
E quem terá coragem
energica e viril de arrebatar Talitha
ao seu amor leal e bom, dôce miragem,
no deserto feliz desta velhice austera?
Padre
A mãe que a vem buscar...
Ruy
A mãe não tem direito...
A mãe que engeita a filha é peior que uma fera!
Padre
Mas é mãe!...
Ruy
Sim, será, sem coração no peito.
Padre
Engana-se, doutor, a mãe que hoje a reclama,
depois de tanto tempo, é que lhe tem amor...
Ruy
Como a engeitou, então?
Padre
A fera tambem ama...
Quem sabe o que terá soffrido essa mulher?
Sabe-o sómente o céo, calcule-o quem puder.
E diz-me o coração que vou perdel-a em breve.
Erguendo as mãos ao céo
Não me tires, meu Deus, esse gentil penhor!
Repara que já tenho os cabellos de neve,
tão tremulas as mãos, e os labios descorados,
como sonhos que vão batidos e levados
num extremo soluço... O que eu tenho no mundo,
pouco mais é que um ai e o golpe agora é fundo!
Enxuga os olhos e sáe
SCENA VI
Índice de conteúdo
Ruy e Talitha
Índice de conteúdo
Ruy vê sahir o Padre e fica pensativo, fitando os olhos no chão, sentado no banco de pedra. Depois de uma pausa, Talitha desce, tacteando, até junto delle.
Talitha
Padrinho, então não vem?
Ruy, sobresaltado
Ah! Talitha...
Talitha
Perdão!
Pensei que estava aqui...
Ruy
Já se foi...
Talitha
Obrigada...
Vae retirar-se
Ruy
Talitha!
Talitha
Senhor Ruy!
Ruy
O seu bom coração
inda não lhe contou, baixo, muito baixinho,
quasi a tremer de medo e susto, um segredinho,
diga, não lhe contou?
Talitha, com muita simplicidade
Que pergunta engraçada!
Ruy
E vive então sereno?
Talitha
Ah! Sim, tenho certeza!
Ruy
É bem feliz, Talitha, a sua singeleza!
Outro tanto, porém, ao meu já não succede
que o sinto palpitar acceleradamente,
como quem vae fallar e o soffrimento impede.
Talitha
Eu bem lh'o disse ha pouco...
Ruy
Entretanto eu lhe juro...
Talitha, interrompendo
Não jure que é peccado a jura de quem sente
que não diz a verdade. É mais bello e mais puro
não negar.
Ruy
Tem razão, mas eu não disse, ainda
qual era o juramento...
Talitha, ingenua
E qualquer que elle seja...
Ruy
Diga, diga o que sente...
Talitha
Ha de ser...
Ruy, curioso
Ha de ser?
Talitha
Não digo...
Ruy
Diga, sim, a sua voz bemvinda
ha de me dar a esmola honesta e bemfazeja
que a minh'alma sem luz precisa de viver.
E do seu labio casto apenas um sorriso
vale mais que uma estrella e rasga um paraiso.
Talitha
Assim o quer, direi; jamais o seu protesto
póde ser verdadeiro...
Ruy
E porque não, Talitha?...
Talitha
Não sei, não sei porque. A jura é como o gesto
que abala fortemente, a nossa vida agita,
mas passa e foge...
Ruy
Ah! sim, quando falla sómente
o labio, sem fallar tambem o coração...
Ah! de certo que assim o labio sempre mente.
Mas quando o sangue estúa e faz tremer a mão
de quem jura, Talitha, ou quando a fronte em braza,
apenas num momento, empallidece e tomba,
bem como se a roçára a ponta fria da aza
feita de gelo e dôr de alguma extranha pomba,
quando um homem que sempre olhou de frente o sol
tem medo de encarar o olhar de um rouxinol,
e treme até de ouvir-lhe a voz encantadora,
quem sempre ouviu sorrindo a furia rugidora
do vento e dos trovões...
Talitha, interrompendo
Então?...
Ruy
Assim revela
que é grande, generoso e casto o sentimento
que apenas se traduz e que tão mal se vela
na gaze pueril d'um simples juramento!
Talitha, ingenua
Quem foi que o ensinou a fallar assim?
Ruy, timido
Digo?...
Talitha, ingenua
E porque não? Quem foi?...
Ruy, timido
Nem mesmo eu sei, Talitha!
Talitha, insistido
Nem sabe onde aprendeu?
Ruy, sorrindo
Quer aprender commigo?
Talitha, ingenua e triste
Não me quer responder, nem confessa, nem nega...
Se eu pudesse aprender, de que valera á céga
saber fallar assim?
Ruy, triste
Á céga?
Talitha, simples
E á Carmelita?...
Ruy, ancioso
Á Carmelita!... e quem lhe disse que os seus olhos
recuperando a luz, como duas estrellas,
irão illuminar as fragas e os escolhos
das montanhas da Syria, entre as monjas Carmellas?
Quer sepultar-se em vida?
Talitha
E não é cemiterio
maior a escuridão deste pavor funereo,
sem vêr o sol que doira as nuvens do poente,
sem vêr a lua assim como um berço dolente
embalando no azul um sonho que não morre,
não vêr duma colmeia o mel que filtra e corre
como um rio de luz nascendo num enxame,
sentir e adivinhar a suprema belleza
da madrugada em flôr, das noites constelladas,
dos mares e do céo, de toda a natureza,
ter olhos e não vêr, inda haverá quem chame
vida a tal vida? Não! Mais negras, mais cerradas
do que esta noite immensa e triste, sem estrellas,
não póde ser, de certo, a solidão das cellas,
e o sol que tudo aquece, aquecerá de leve
a macerada fronte á monja que não teve
nem um seio de mãe que um dia a amamentasse,
nem a luz d'um olhar na pallidez da face,
e nem um coração...
Ruy
Talitha!
Talitha, ingenua
Meu doutor!
Ruy, com intenção
Um coração?
Talitha, ingenua
Qual foi?
Ruy, tomando-lhe a mão
O meu...
Talitha, comprehendendo, envergonhada
O seu?
Retira a mão
Ruy, enleiado
Perdoe.
Pausa prolongada
Talitha, implorando
Que mal lhe fiz?
Ruy
Rasgou-me o coração, Talitha;
e pensará, talvez, que não me fere a dôr
de vêl-o assim rasgar?
Talitha, humilde, implorando
Mas creia, Ruy, que foi
sem que eu desse por isso. E se o mal está feito
seja agora gentil e não me rasgue o peito.
Esqueça a minha falta, esqueça esta maldita,
não se lembre da céga e deixe-a definhar
na torva escuridão desta noite polar...
Ruy
E se eu não conseguir tirar do pensamento
o seu casto perfil, celeste e macilento,
se a minh'alma quizer viver escravisadaunindo o meu destino á corrente doirada
que me prende, sorrindo, ao seu cruel martyrio,
se o meu olhar prefere esse apagado cirio
dos seus olhos de céga á lucida manhan
do amor sentimental de alguma castellan,
como esquecel-a então?
Joaquina apparece ao fundo
Talitha, triste
Não creio...
Ruy
Mas porque?
Já tão cedo a sua alma angelica descrê
da minha que, arrastada á fimbria azul da sua,
por toda a parte a segue e a seu lado fluctua?
Não recorda, Talitha, o dia amargurado
em que eu entrei aqui perdido e quasi morto?
Não se lembra da noite em que eu fui condemnado?
Não se lembra talvez das horas de conforto
que os seus olhos sem luz e a sua bocca em flôr
me trouxeram a rir, como um remedio santo
da minha vida enferma á cruciante dôr?
Não recorda talvez que esse supremo encanto,
essa graça divina, aligera e bemdita
a vida me salvou?
Talitha
Não creio...
Ruy, curioso
É tão cruel!
Porque razão não crê, a minha alma fiel
simplesmente traduz o que a sua entendeu?
Talitha, com intenção
Só porque a sua mão na minha não tremeu.
Ruy
Entretanto, Talitha, eu amo-a...
Talitha, tremula
Ruy!...
Ruy, apertando-lhe a cintura
Talitha!
Beija-lhe docemente a mão
Talitha
Ah! E eu sem poder vêr o labio que me beija!...
Que destino fatal, que desgraçada eu sou!
Ruy
Não foi a minha bocca ardente que a beijou.
Foi o dôce rumor da abelha que voeja
sugando á sua mão de branca flôr de liz
o magico licôr, o aroma delicado,
que vem do rosicler florido e perfumado,
no sangue que palpita em vibrações subtis!!
Talitha
Mas, Ruy, o seu amor não ve como eu sou pobre!!
Ruy, interrompendo
Pobre sou eu que peço a esmola angelical
desse affecto gentil que a vida transfigura.
Talitha
Tão pobre que não tenho um Pae que me conforte,
nem caricias de mãe que veja esta tortura...
Ruy
A sua alma divina essa tortura encobre...
Talitha
Tão pobre que este olhar perdido é glacial
como um floco de neve, e a desfazer fluctúa...
Ruy
Os seus olhos sem luz tem mais fulgor que a lua.
Talitha
Engeitada ao nascer vivo esperando a morte...
Ruy
Alma branca de luz que illuminaste
a ventura das minhas esperanças,
bemdito seja o véo de negras tranças
que sobre a minha vida desnastraste!
Bemdito seja nesse dôce engaste
das palpebras subtis brancas e mansas
o mesto olhar que cobre de bonanças
a vida deste amor que tu salvaste!
És para mim a linha do horisonte,
curva do céo, á noite, constellada,
agua lustral de uma sagrada fonte,
toda a ambição dest'alma allucinada,
e a nuvem que circumda a minha fronte
como um disco de treva avelludada...
Talitha, de mãos postas
Meu Deus, e nunca mais, nunca mais hei de vêl-o!...
Ruy
Sim, Talitha, verá; o meu maior desvelo
ha de ser o fulgor do seu formoso olhar.
SCENA VII
Índice de conteúdo
Os mesmos e Joaquina
Índice de conteúdo
Joaquina, que tem ouvido tudo, feliz e contente, vem descendo com lentidão e junto de ambos exclama:
Caia a benção de Deus neste formoso par...
Ruy e Talitha, surprehendidos, afastam-se
Ruy, recuperando a serenidade
Talitha assim o quiz!
Talitha, perturbada
A culpa não foi minha...
Joaquina, sorrindo e acariciando-a
A culpada fui eu que te deixei sósinha!
CAE O PANNO
SEGUNDO ACTO
Índice de conteúdo
Sala de visitas em casa do Cura; tudo muito simples. Janellas e portas. Um oratorio com lampada. Um pequeno orgam.
SCENA I
Índice de conteúdo
Joaquina e Padre João
Índice de conteúdo
Conversando alegremente
Joaquina
Graças a Deus, chegou por fim o grande dia...
Padre
É verdade, é verdade! irmã, quem nos diria
que a linda pequenita...
Joaquina
A formosa engeitada...
Padre
Que Deus nos enviou naquella madrugada
inclemente de inverno...
Joaquina, interrompendo
E parece-me ainda
vêr a neve a cahir num pó macio e branco
no cestinho de vime, ali, ao pé do banco...
Padre
E eu tenho aqui no ouvido aquella prece linda
que rezaste ao Senhor quando ella adormeceu
depois de ter mamado...
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