Read the book: «O último comboio para a liberdade»

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Editado por HarperCollins Ibérica, S.A.

Núñez de Balboa, 56

28001 Madrid

O último comboio para a liberdade

Título original: The Last Train to London

© 2019, Meg Waite Clayton, LLC

© 2020, para esta edição HarperCollins Ibérica, S.A.

Publicado originalmente pela HarperCollins Publishers LLC, New York, U.S.A.

Tradutor: Fátima Tomás da Silva

Reservados todos os direitos, inclusive os de reprodução total ou parcial em qualquer formato ou suporte.

Esta edição foi publicada com a autorização da HarperCollins Publishers LLC, New York, U.S.A.

Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos comerciais, acontecimentos ou situações são pura coincidência.

Desenho da capa: Andrea Guinn

Imagens de capa:

© Mark Owen/Trevillion Images (chico)

© Serjio74/olga che/Shutterstock (estación de tren)

1ª edição: Junho 2020

ISBN: 978-84-9139-494-5

Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.

Sumário

Créditos

Nota da autora

Primeira parte. A época anterior. Dezembro de 1936

Na fronteira

Rapaz conhece rapariga

Rubis ou imitação

Velas ao amanhecer

Em busca de Stefan Zweig

Um pouco de chocolate ao pequeno-almoço

Giz nos sapatos

O paradoxo do mentiroso

A maior máquina de escrever do mundo

A busca

Klara van lange

Através da janela, às escuras

Auto-retrato

Pés descalços na neve

Exposição da vergonha

Junto ao cais

Diamantes, não imitações

Motorsturmführer

Decisões

As matemáticas da canção

Kipferl e chocolate quente vienense

Um código errado

Escrever entrelinhas

A teoria do caos

Cartões de baile vazios

O Anschluss

Segunda parte. A época intermédia. Março de 1938

Depois de se recusar a dançar

Decisões

Dia de limpeza

O ficheiro

Os problemas que não podemos antecipar

A saudação da vergonha

Entrelaçadas

Hitler

Truus no hotel Bloomsbury

As portas do inferno

Transferência

O problema judeu na Áustria

Na grande roda

Abandonar

As amizades vão e vêm

Leitura

Amável

Confissão

Fingir

A coisa mais simples do mundo

Crisálida

Grandes esperanças

O preço do chocolate

Os lençóis brancos da morte

Na fronteira

Uma distracção

O andar dos empregados

Cuidados

Velhos amigos

–Sara–

Assalto

Um é sempre melhor do que zero

A noite de cristal

Uma noite fora

Pai

À espera

As notícias

Ave-maria

Combater o fogo

Sem escapatória

Abandonado

Apenas um apelido

Os gémeos

Ajuda para o pai

À procura do pai

O rapaz com bombons no bolso

Poder de princesa

Bloomsbury, Inglaterra

Uma mulher com visão

Botas brilhantes

Gavetas vazias

O debate de Westminster

Saída, sem visto

O pedido do visconde Samuel

Desejos grandes e pequenos

Otto

Em busca de Stephan Neuman

Clandestino

Desafio

Toda essa tinta

Prometo

O gueto de Leopoldstadt

Viena

Não está dentro da nossa jurisdição

Um menino muito bom

Walter

O hotel Bristol

Sem saída

No canal

Escondido na sombra

A cela

Começa o interrogatório

A promessa

Continua o interrogatório

E, agora, a saia

Quem se ri por último

A forma de um pé

Algo divertido

Uma mulher de amesterdão

Qualquer criança que corra perigo

Deuses diferentes

Tira de papel

Binário

Mesmo que nos desterrem, nos expulsem e nos injuriem

Mesmo separados

A mala

Despedida

Números

Colar

Um rapaz judeu de dezassete anos

A outra mãe

Quinhentos

Fraldas húmidas

Tjoek-Tjoek-Tjoek

Gémeos que desaparecem

Meninos sem número

O paradoxo de Eichmann

O infinito escondido

Noutra direcção

Carl Füchsl

Juntos

Desmontagem

No hotel Metropole

As luzes de Harwich

Harwich

Dovercourt

Um visto de saída de outro tipo

Terceira parte. A época posterior. Janeiro de 1939

Coelho número 522

Dezanove velas

Os não eleitos

Outra carta

Na praia

Um bebé num comboio

Irmãos

O paradoxo de Kokoschka

Na estação de comboio de Praga, 1 de setembro de 1939

Faculdade Newnham, Cambridge

Estação londrina de Liverpool street: 3 de setembro de 1939

Paris: 10 de maio de 1940

Ijmuiden, Holanda: 14 de maio de 1940

Quarta parte. E então…

Agradecimentos

Para Nick

e em memória de

Michael Litfin

(1945-2008),

que contou as histórias do

Kindertransport ao meu filho

e que, por sua vez, mas transmitiu,

a Truus Wijsmuller-Meijer

(1896-1978)

e às crianças que salvou.

«Lembro-me: Aconteceu ontem ou há uma eternidade…

E, agora, o menino vira-se para mim. “Diga-me”, pede-me, “O que fez com o meu futuro, o que fez com a sua vida?”… Uma pessoa íntegra pode fazer a diferença, a diferença entre a vida e a morte.»

— Elie Wiesel, no seu discurso de aceitação do Prémio Nobel da Paz, entregue em Oslo no dia 10 de dezembro de 1986.

NOTA DA AUTORA

Depois da anexação alemã do país independente da Áustria em março de 1938 e da violência da «Noite de Cristal» naquele mês de novembro, começou uma tentativa extraordinária de levar dez mil crianças para a Grã-Bretanha. Embora seja uma obra de ficção, este livro foi baseado no Kindertransport de Viena gerido por Geertruida Wijsmuller-Meijer, de Amesterdão, que começara a salvar pequenos grupos de crianças em 1933. Para as crianças, era conhecida como Tante Truus.

Primeira parte A ÉPOCA ANTERIOR DEZEMBRO DE 1936

NA FRONTEIRA

Uns flocos grossos suavizavam a paisagem da janela do comboio: Um castelo coberto de neve numa colina nevada erguia-se como um fantasma entre a tempestade de neve. O revisor gritava: «Bad Bentheim; chegámos a Bad Bentheim, na Alemanha. Os passageiros que vão seguir para os Países Baixos devem mostrar os seus documentos.» Geertruida Wijsmuller — uma holandesa de queixo e nariz pronunciados, com a boca grande e os olhos de um cinzento de caxemira — beijou o bebé que tinha ao colo. Beijou-o uma segunda vez e deixou os lábios na sua testa suave. Entregou-o à irmã e tirou o quipá ao irmão do meio. «Es ist in Ordnung. Es wird nicht lange dauern. Dein Gott wird dir dieses eine Mal vergeben», respondeu Truus às queixas das crianças, na sua própria língua. «Não faz mal. Será apenas um instante. O vosso Deus vai perdoar-vos desta vez.»

Quando o comboio parava, o menino pequeno aproximou-se da janela, gritando: «Mamã!»

Truus tentou arranjar-lhe o cabelo enquanto seguia o seu olhar através do vidro manchado de neve: Os alemães em filas ordenadas na plataforma apesar da tempestade, um bagageiro com um carrinho cheio de malas, um homem curvado com um cartaz que anunciava um alfaiate. Sim, também lá estava a mulher que o menino via. Uma mulher magra, vestida com casaco escuro e um cachecol, de pé junto do carrinho das salsichas, de costas para o comboio, enquanto o menino a chamava novamente: «Mamã!!!»

A mulher virou-se, dando uma trinca gordurosa à sua salsicha, enquanto levantava o olhar para os letreiros informativos da estação. O menino fez um ar triste. Não era a mãe, claro.

Truus aproximou-o dela e sussurrou: «Já passou, já passou», incapaz de fazer promessas que não podia cumprir.

As portas do vagão abriram-se com um assobio alto e muito barulho. Um guarda fronteiriço nazi da plataforma esticou o braço para ajudar uma passageira que saía do comboio, uma alemã grávida que aceitou a sua ajuda com uma mão enluvada. Truus desabotoou os botões de pérolas das suas luvas amarelas de couro e afrouxou os punhos ornados. Tirou as luvas e o couro prendeu-se num anel de rubi situado entre outros dois anéis enquanto, com mãos que já começavam a enrugar-se e a encher-se de manchas, limpava as lágrimas do rapaz.

Arranjou-lhes o cabelo e a roupa, dirigindo-se a eles pelo seu nome, mas sem perder um segundo, atenta à fila minguante de passageiros.

— Muito bem — disse, limpando a baba do bebé enquanto os últimos passageiros desembarcavam. — Vão lavar as mãos, como praticámos.

O guarda fronteiriço nazi já estava a subir as escadas.

— Vá lá, apressem-se, mas lavem muito bem as mãos — indicou Truus, com calma. E disse à menina: — Mantém os teus irmãos na casa de banho, querida.

— Até voltares a calçar as luvas, Tante Truus — concluiu a menina.

Era necessário que não parecesse que Truus estava a esconder as crianças, mas também não queria tê-las demasiado perto durante a negociação. «Não fixamos o olhar no que se vê, mas no que não se vê», pensou e levou inconscientemente o rubi aos lábios, como um beijo.

Abriu a mala, algo mais delicado do que teria levado se soubesse que regressaria a Amesterdão com três crianças. Procurou no seu interior, tirando os anéis enquanto as crianças, agora atrás dela, se afastavam pelo corredor.

À frente dela, apareceu o guarda fronteiriço. Era um homem jovem, mas não o suficiente para não ser casado ou para não ter filhos.

— Vistos? Tem vistos para sair da Alemanha? — perguntou a Truus, a única adulta que restava no vagão.

Truus continuou à procura na mala, como se fosse pegar nos papéis que lhe pedia.

— As crianças podem ser difíceis, não é? — replicou, com amabilidade, enquanto tocava no seu passaporte holandês, ainda na mala. — Tem filhos, agente?

O guarda ofereceu-lhe a ameaça de um sorriso.

— A minha esposa está grávida do nosso primeiro filho. Talvez nasça no dia de Natal.

— Que sortudos! — exclamou Truus, sorrindo devido à sua sorte enquanto o guarda olhava para onde se ouvia o barulho da água a correr e as crianças a tagarelar. Deixou que o homem assimilasse aquela ideia: Em breve, teria um bebé, tal como o pequeno Alexi, que cresceria até se transformar num jovem como Israel ou a sua querida Sara.

Truus brincou com o rubi, reluzente e quente no anel solitário que usava.

— Imagino que tenha algo especial para a sua esposa, para celebrar a ocasião.

— Algo especial? — repetiu o nazi, devolvendo-lhe a sua atenção.

— Algo bonito para que possa usar todos os dias, para recordar um momento tão especial. — Tirou o anel e acrescentou: — O meu pai ofereceu isto à minha mãe no dia em que nasci.

Com dedos firmes e pálidos, ofereceu-lhe o anel de rubi, juntamente com o seu passaporte.

O jovem aceitou apenas o passaporte, examinou-o e olhou novamente para a parte traseira do vagão.

— São seus filhos?

As crianças holandesas podiam incluir-se nos passaportes dos pais, mas, no dela, não aparecia nenhuma.

Virou o rubi para que refletisse a luz e disse:

— As crianças são o mais prezado que existe.

RAPAZ CONHECE RAPARIGA

Stephan saiu pela porta e desceu os degraus cobertos de neve a correr, com a mochila a bater contra o casaco da escola enquanto corria para o Burgtheater. Parou perto da papelaria: A máquina de escrever continuava lá, na montra. Puxou os óculos pelo nariz, colou os dedos ao vidro da montra e fingiu escrever.

Continuou a correr, abrindo caminho entre a multidão de Christkindlmarkt, com o cheiro do vinho quente com especiarias e do pão de gengibre, dizendo: «Desculpe, desculpe! Desculpe!», com o gorro puxado até às orelhas para evitar que o reconhecessem. A família era boa: A sua riqueza provinha da empresa de chocolates fundada com o seu próprio dinheiro e mantinham as suas contas na sucursal de Haber do Banco Rothschild. Se chegasse aos ouvidos do pai que empurrara outra idosa na rua, aquela máquina de escrever continuaria a estar mais perto da árvore de Natal de Rathausplatz do que da árvore que tinham na sala de inverno em casa.

Cumprimentou o idoso do quiosque de imprensa.

— Boa tarde, herr Kline!

— Onde deixou o seu casaco, jovem Stephan? — perguntou o idoso.

Stephan olhou para baixo — voltara a deixar o casaco na sala de aula —, mas só diminuiu a velocidade quando chegou a Ringstrasse, onde um protesto nazi bloqueava o caminho. Dirigiu-se para a entrada do metro, coberta de cartazes colados, e desceu os degraus metálicos para a escuridão do mundo subterrâneo vienense, para sair depois pelo lado da rua onde era o Burgtheater. Atravessou as portas do teatro e desceu os degraus de dois em dois até à barbearia da cave.

— Jovem Neuman, que bela surpresa! — exclamou herr Perger, arqueando as sobrancelhas brancas por trás dos seus óculos, tão pretas e redondas como as do próprio Stephan, embora menos sujas de neve. O barbeiro baixou-se e apanhou com a pá os últimos bocados de cabelo daquele dia. — Mas cortou o cabelo recentemente…

— Só um corte rápido. Já passaram semanas.

Herr Perger endireitou-se e atirou os cabelos para o lixo. Depois, pousou a vassoura e a pá junto de um violoncelo apoiado na parede. «Enfim, a memória não é tão rápida numa mente idosa como numa mente jovem, imagino», comentou, com carinho, apontando com a cabeça para a cadeira. «Ou talvez não seja tão rápida na mente de um jovem com dinheiro a mais.»

Stephan deixou cair a mochila da escola e algumas páginas da sua nova peça espalharam-se pelo chão, mas o que importava? Era apenas herr Perger. Tirou o casaco, acomodou-se na cadeira e tirou os óculos. O mundo tornou-se impreciso, o violoncelo e a vassoura pareciam um casal a dançar a valsa num canto e a cara que aparecia no espelho por cima do laço poderia ser a cara de qualquer pessoa. Tremeu quando herr Perger o cobriu com a capa. Stephan não gostava nada dos cortes de cabelo.

— Ouvi dizer que vão começar os ensaios de uma nova peça — comentou. — É do Stefan Zweig?

— Ah, sim, és um grande admirador do herr Zweig. Como pude esquecê-lo? — redarguiu Otto Perger, troçando, de certo modo, com Stephan, mas com carinho. Além disso, herr Perger conhecia todos os segredos dos dramaturgos, das estrelas e do teatro. Os amigos de Stephan não sabiam de onde tirava todos os seus exclusivos. Pensavam que conhecia alguém importante.

— A mãe do herr Zweig continua a viver aqui, em Viena — indicou Stephan.

— E, mesmo assim, não costuma anunciar as suas visitas quando vem de Londres. Bom, a risco de te dececionar, Stephan, a nova peça de teatro é do Csokor, 3 de novembro de 1918, sobre a queda do império austro-húngaro. Especulou-se muito sobre se se representará finalmente ou não. Receio que o herr Csokor tenha de viver sempre com a mala feita. Mas disseram-me que segue em frente, embora com um termo de responsabilidade que garante que o autor não tenciona ofender nenhuma nação do antigo império alemão. Um pouco disto, um pouco daquilo, o que for necessário para sobreviver.

O pai de Stephan teria dito que aquilo era a Áustria, não a Alemanha. O levantamento nazi fora sufocado há anos. Contudo, Stephan não se importava com a política. Stephan só queria saber quem seria o protagonista da peça.

— Não queres tentar adivinhar? — sugeriu herr Perger, enquanto virava Stephan para ele na cadeira. — Tens muito jeito, se bem me lembro.

Stephan manteve os olhos fechados e voltou a tremer involuntariamente, ainda que, por sorte, nenhuma madeixa de cabelo lhe caísse na cara.

— Werner Krauss? — disse.

— Aí está, finalmente! — exclamou herr Perger, com um entusiasmo surpreendente.

O barbeiro virou novamente a cadeira para o espelho e Stephan assustou-se ao ver — impreciso, sem os óculos postos — que herr Perger não se referia à sua resposta, mas falava com uma menina que saíra, como um girassol surreal, da ventilação situada na parede por baixo do seu reflexo. A menina parou à frente dele, com os óculos sujos, as tranças loiras e os seios incipientes.

— Ai, Žofie-Helene, a tua mãe vai passar a noite inteira a limpar-te esse vestido — queixou-se herr Perger.

— Não era uma pergunta muito justa, avô Otto, porque há dois protagonistas masculinos — indicou a menina alegremente, com uma voz que fez Stephan tremer, como o primeiro si bemol do Ave Maria de Schubert. A sua voz e o som lírico do seu nome, Žofie-Helene, para além da proximidade dos seus seios…

— É a lemniscata do Bernoulli — disse ela, tocando num fio de ouro que tinha ao pescoço. — O polinómio X ao quadrado mais E ao quadrado elevado ao quadrado é igual ao produto de X ao quadrado menos E ao quadrado multiplicado por dois A ao quadrado.

— Eh… — Stephan corou ao perceber que o apanhara a olhar para os seios dela, embora ela não soubesse.

— O meu pai ofereceu-mo — declarou. — Também gostava de matemática.

Herr Perger tirou-lhe a capa, entregou-lhe os óculos e não aceitou o cuproníquel, dizendo que, desta vez, não teria de pagar. Stephan voltou a guardar as páginas da peça na mochila, porque não queria que aquela menina a visse. Também não queria que soubesse que tinha uma peça de teatro e que imaginava que conseguiria escrever algo que valesse a pena ler. Parou, confuso: O chão estava totalmente limpo?

— Stephan, esta é a minha neta — indicou Otto Perger, com a tesoura ainda na mão e a vassoura e a pá sem tocar junto do violoncelo. — Žofie, é possível que o Stephan esteja tão interessado no teatro como tu, embora goste mais de ter o cabelo bem arranjado.

— É um prazer conhecer-te, Stephan — disse a menina. — Mas não vieste para fazer um corte de cabelo que não precisavas?

— Žofie-Helene — repreendeu-a herr Perger.

— Estava a ver-vos enquanto falavam. Não precisavas de cortar o cabelo, portanto, o avô Otto fingiu que to cortava. Mas, espera, não me digas! Deixa-me adivinhar. — Olhou à volta: Para o violoncelo, o bengaleiro, o avô e, novamente, o próprio Stephan. Reparou na mochila. — És ator! E o avô sabe tudo sobre este teatro.

— Acho que descobrirás em breve, Engelchen, que o Stephan é escritor — indicou Otto Perger. — E deves saber que os grandes escritores fazem coisas muito estranhas só para viverem a experiência.

Žofie-Helene olhou para Stephan com um interesse renovado.

— És mesmo escritor?

— Vão… Vão oferecer-me uma máquina de escrever no Natal — indicou Stephan. — Ou, pelo menos, é o que espero.

— Fazem máquinas especiais?

— Especiais?

— Não é estranho ser canhoto?

Stephan olhou para as mãos, confuso, enquanto ela voltava a abrir o ralo de onde saíra e entrava na parede de gatas. Segundos depois, voltou a espreitar.

— Então, anda, Stephan. Os ensaios estão quase a acabar — replicou. — Não te importarás de sujar um pouco essa tua roupa de escritor, pois não? Para viver a experiência.

RUBIS OU IMITAÇÃO

Um dos botões de pérolas do punho ornado da luva de Truus soltou-se quando, com o bebé ao colo, tentou agarrar o menino. Estava tão absorta no teto abobadado e imenso de ferro fundido da estação de Amesterdão que quase caiu ao sair do comboio.

— Truus! — gritou o marido, enquanto dava a mão ao menino e o deixava na plataforma. Também ajudou a menina a sair, assim como Truus e o bebé.

Já na plataforma, Truus aceitou o abraço do marido, um gesto público pouco frequente.

— Geertruida — disse —, a frau Freier não podia…?

— Por favor, não comeces com isso agora, Joop. Está feito e tenho a certeza de que a esposa desse guarda agradável que nos permitiu atravessar a fronteira precisa mais do que nós do rubi da minha mãe. Onde está o teu espírito natalício?

— Meu Deus, não me digas que te arriscaste a subornar um nazi com uma imitação.

Deu-lhe um beijo na face.

— Dado que nem tu és capaz de distinguir a diferença, querido, não acho que algum deles consiga descobrir num futuro próximo.

Joop riu-se, apesar de tudo. Pegou no bebé ao colo, segurando-o de forma incómoda, embora conseguisse acalmá-lo. Era um homem que adorava crianças, mas que não tinha filhos, apesar de ter passado anos a tentar. Truus pôs as mãos nos bolsos, pois já não tinha o calor do bebé, e apalpou a caixa de fósforos de que se esquecera por completo. Era um tipo estranho, o médico do vagão que lha dera. «Sem dúvida, foi enviada por Deus», dissera, olhando para as crianças com carinho. Dissera que tinha sempre consigo uma pedra da sorte e que queria que ficasse com ela. «Para que a senhora e as crianças estejam a salvo», insistira, abrira a caixinha e mostrara-lhe uma pedra plana muito antiga que não teria nenhum propósito se não fosse uma pedra da sorte. «Nos funerais judeus, as pessoas não oferecem flores, mas pedras», explicara e isso fizera com que fosse impossível rejeitar a oferta. Depois, saíra em Bad Bentheim, antes de o comboio passar da Alemanha para a Holanda e, agora, Truus estava em Amesterdão com as crianças, pensando que talvez houvesse um pouco de verdade naquela história sobre a boa sorte que, supostamente, aquela pedra tão feia concedia.

— Bom, pequeninho — disse Joop ao bebé —, quando cresceres, terás de fazer algo extraordinário para que o risco da minha esposa louca valha a pena. — Se se preocupava com aquele resgate não planeado, não ia objetar, tal como quando as suas viagens para tirar crianças da Alemanha eram planeadas. Deu um beijo na face do bebé. — Tenho um táxi à espera.

— Um táxi? Deram-te um aumento no banco enquanto estava fora? — brincou Truus. Joop era banqueiro, frugal até ao extremo, embora continuasse a chamar namorada à esposa depois de duas décadas.

— Seria uma caminhada grande até casa do teu tio desde a paragem do elétrico, mesmo sem a neve — explicou —, e o doutor Groenveld não quererá que a sobrinha e os sobrinhos do amigo cheguem congelados.

O amigo do doutor Groenveld. Isso explicava tudo, pensou, enquanto saíam para a rua cheia de árvores cobertas de neve, com caminhos sujos e gelo nos canais. Era assim que costumava distribuir-se grande parte da ajuda do Comité de Interesses Judeus: Sobrinhos de cidadãos holandeses; amigos de amigos; os filhos de amigos de sócios empresariais. Com frequência, as relações acidentais determinavam o destino.

THE VIENNA INDEPENDENT

A CASA ONDE HITLER NASCEU TRANSFORMA-SE NUM MUSEU

As relações entre a Áustria e a Alemanha continuam estancadas, apesar acordo de verão

Por Käthe Perger

BRAUNAU-AM-INN, ÁUSTRIA, 20 de dezembro de 1936. O dono da casa onde Adolf Hitler nasceu abriu duas das suas divisões ao público como museu. As autoridades austríacas em Linz permitiram tal exposição pública sob a condição de que só se permita a entrada a visitantes alemães, não austríacos. No caso de se permitir a entrada de visitantes austríacos no museu ou de se transformar num lugar de manifestação para os nazis, o museu fechará. O museu foi possível como resultado do acordo entre a Áustria e a Alemanha, de 11 de julho, para recuperar as «relações de caráter normal e amistoso» entre as nossas nações. Segundo o acordo, a Alemanha reconhecia a soberania plena da Áustria e admitia que a nossa ordem política é um assunto interno sobre o qual não exercerá nenhuma influência. Uma concessão por parte de Hitler, que se opõe ao encarceramento de membros do partido nazi austríaco por parte do nosso governo.

VELAS AO AMANHECER

Com inquietação, Žofie-Helene aproximou-se das sebes cobertas de neve e do portão de ferro do palácio de Ringstrasse. Levou a mão ao cachecol cor-de-rosa aos quadrados que a avó lhe oferecera no Natal, tão suave como a carícia da mãe. Aquela casa era maior do que todo o seu bloco de apartamentos e muito mais decorada. Os quatro andares com colunas — o andar de baixo com portas e janelas arqueadas, mas os superiores com janelas altas e retangulares que davam para varandas com corrimões de pedra — eram coroados por um quinto andar de um tamanho mais modesto, decorado com estátuas que pareciam segurar o peso do telhado de ardósia ou proteger os empregados que deviam viver lá em cima. Aquela não podia ser a casa de alguém real, muito menos de Stephan. Contudo, antes de conseguir virar-se, um porteiro com capa e cartola saiu da guarita para lhe abrir o portão e, quando as portas esculpidas da entrada se abriram, Stephan desceu os degraus a correr, tão limpos de neve que parecia verão.

— Olha! Escrevi uma peça nova! — exclamou, oferecendo-lhe o manuscrito. — Escrevi-a com a máquina que me ofereceram no Natal!

O porteiro sorriu com carinho.

— Jovem Stephan, não quer convidar a sua amiga a entrar?

* * *

O interior da mansão era ainda mais imponente, com lustres de cristal e chão de mármore com desenhos geométricos, uma escada imperial e obras de arte extraordinárias: Troncos de árvores no outono com a perspetiva alterada; uma vila costeira situada numa colina, muito plana e pitoresca; um retrato estranho de uma mulher que se parecia muito com Stephan, com os mesmos olhos sedutores, o nariz comprido e reto, os lábios vermelhos e aquela covinha quase impercetível no queixo. A mulher do retrato tinha o cabelo apanhado e as faces rasgadas com um vermelho que era inquietante e, ao mesmo tempo, elegante. Parecia mais um rubor bonito do que uma ferida, embora Žofie não conseguisse evitar pensar no segundo. A Suíte Número 1 para Violoncelo de Bach saía de uma sala enorme onde os convidados conversavam junto de um piano, que tinha a tampa coberta de ouro levantada e, ali, pintado por baixo, havia um pássaro branco com um trompete nas garras.

— Ainda ninguém a leu — redarguiu Stephan, em voz baixa. — Nem uma palavra.

Žofie olhou para o manuscrito que lhe ofereceu novamente. Queria realmente que o lesse naquele momento?

O porteiro — Rolf, conforme Stephan lhe chamou —, interveio:

— Espero que a sua convidada tenha tido um Natal feliz, jovem Stephan.

Stephan, ignorando o comentário, disse a Žofie:

— Estava há uma eternidade à espera que chegasses a casa.

— Sim, Stephan, a minha avó está bem e passei um Natal bonito na Checoslováquia, obrigada por perguntares — troçou Žofie-Helene e as suas palavras foram recompensadas com um sorriso de aprovação por parte de Rolf, enquanto este lhe guardava o casaco e o cachecol novo.

Leu depressa, só a primeira página.

— Tem um começo maravilhoso, Stephan — elogiou.

— Achas?

— Vou lê-la toda esta noite, prometo-te, mas, se insistires que conheça a tua família, não posso ir carregada com o manuscrito.

Stephan espreitou para a sala de música. Depois, agarrou no manuscrito e subiu as escadas a correr. Acariciou cada uma das estátuas da escada e continuou a subir mais para além do segundo andar, onde as portas da biblioteca estavam abertas e, no seu interior, se viam mais livros do que Žofie teria achado que pudessem ter.

Uma mulher elegante de peito plano estava a dizer, na sala: «… O Hitler está a queimar livros… Os mais interessantes, devo acrescentar.» A mulher parecia-se muito com Stephan e também com a mulher do retrato com as faces vermelhas, embora usasse o cabelo com um risco ao meio e caísse para os lados com caracóis largos. «Esse homenzinho vil diz que o Picasso e o Van Gogh são uns incompetentes e uns mentirosos.» Tocou num colar de pérolas que tinha ao pescoço com uma volta, tal como o da mãe de Žofie, mas este dava uma segunda volta que chegava até à sua cintura, com esferas tão perfeitas que, se alguma vez partisse o fio, sairiam a rodar, sem dúvida. «Diz que “a missão da arte não é desfrutar da imundície pela imundície”, como se tivesse ideia de qual é a missão da arte. E depois eu é que sou histérica?»

— Histérica não — respondeu um homem. — Essa palavra é tua, Lisl.

Lisl. Então, aquela era a tia de Stephan. Adorava a tia Lisl e também o marido, o tio Michael.

— De facto, a palavra é do Freud, querido — corrigiu Lisl, alegremente.

— São os modernistas que chateiam o Hitler — comentou Michael, o tio de Stephan. — O Kokoschka…

— Que, é claro, obteve o lugar na Academia das Artes que o Hitler considera que devia ter sido para ele — interrompeu Lisl. — Os desenhos do Hitler obtiveram uma qualificação tão baixa que nem sequer pôde apresentar-se para o exame formal, conforme lhes disse. Teve de dormir num refúgio para homens, comer numa sala de jantar comunitária e vender os seus quadros às lojas que precisavam de alguma coisa para encher as molduras de fotografias vazias.

Enquanto o grupo se ria com o seu relato, uma porta abriu-se no outro extremo do vestíbulo. Um elevador! Um menino levantou-se de uma cadeira situada no seu interior; uma cadeira de rodas linda (que obviamente não era dele) com apoio de braços acolchoados e o assento e as costas de vime, com coroas circulares de proporções perfeitas nos braços de latão e nas rodas. O menino entrou no vestíbulo, arrastando um coelho de peluche pelo chão.

— Olá! Deves ser o Walter — replicou Žofie. — E quem é o teu amigo, o coelho?

— Este é o Peter — respondeu o irmão de Stephan.

Peter Rabbit. Žofie desejou não ter gastado a sua prenda em dinheiro. Podia ter comprado um Peter com um casaco azul como aquele para a irmã, Jojo.

— O meu pai é o que está junto do meu piano — indicou o menino.

— O teu piano? — perguntou Žofie. — Sabes tocar?

— Não muito bem — respondeu o rapaz.

— Mas nesse piano?

O menino olhou para o piano.

— Sim, é claro.

Stephan voltou a descer as escadas, com as mãos vazias e, então, Žofie reparou no bolo de aniversário que havia na sala, com velas acesas ao amanhecer que se consumiam ao longo do dia, a dois centímetros por hora, como era a tradição na Áustria. Junto do bolo, havia uma bandeja com um sortido de bombons fabuloso, alguns de chocolate de leite, outros de chocolate preto e todos de formas diversas, mas cada um decorado com o nome de Stephan.

— Stephan, é o teu aniversário? — Dezasseis velas pelo seu aniversário e uma para lhe trazer sorte. — Porque não me disseste?

Stephan acariciou o cabelo de Walter e, nesse momento, acabou a canção de violoncelo.

— Eu! — exclamou Walter. — Quero fazê-lo! — E foi a correr para o pai, que aproximou um banco do gramofone.

— E, agora, o Zweig fugiu para Inglaterra e o Strauss compõe para o führer. — Estava a dizer a tia Lisl, palavras que chamaram a atenção de Stephan. Žofie-Helene não acreditava nos heróis, mas permitiu que Stephan a arrastasse para a sala para poder ouvir falar dos seus.

— Deves ser a Žofie-Helene! — exclamou a tia Lisl. — Stephan, não me tinhas dito que a tua amiga era tão bonita. — Tirou alguns ganchos do coque de Žofie e deixou-lhe o cabelo solto. — Sim, assim está melhor. Se tivesse um cabelo como o teu, também não o cortaria, independentemente da moda. Lamento que a mãe do Stephan não possa conhecer-te, mas prometi contar-lhe tudo sobre ti, portanto, tens de me contar tudo.

— É um prazer conhecê-la, frau Wirth — replicou Žofie. — Mas continue a conversa sobre o herr Zweig ou o Stephan nunca me perdoará.

Lisl Wirth deixou escapar uma gargalhada calorosa, com o queixo ligeiramente orientado para o teto muito alto.

— Atenção, todos, esta é a filha da Käthe Perger. A editora do Vienna Independent. — Virou-se para Žofie e acrescentou: — Žofie-Helene, esta é a Berta Zuckerkandl, jornalista, tal como a tua mãe. — Dirigiu-se aos outros. — A mãe que, devo dizer, tem mais coragem do que o Zweig ou o Strauss.

— A sério, Lisl — objetou o marido —, falas como se o Hitler estivesse na nossa fronteira. Falas como se o Zweig vivesse exilado, quando, na verdade, está na cidade agora.

— O Stefan Zweig está cá? — perguntou Stephan.

— Estava no Café Central há menos de trinta minutos, a falar sem parar — indicou o tio Michael.

Lisl Wirth viu o sobrinho e a amiga a sair a correr para as portas da entrada enquanto Michael perguntava porque Zweig abandonara a Áustria.

— Nem sequer é judeu — comentou. — Pelo menos, não praticante.

— Disse o meu marido gentil — repreendeu-o Lisl, com carinho.

— Casado com a judia mais bonita de Viena — disse ele.

Lisl viu como Rolf parava Stephan para lhe entregar o casaco desgastado da rapariga. Žofie-Helene pareceu tão surpreendida quando Stephan lho segurou que Lisl quase desatou a rir-se. Com dissimulação, Stephan inalou o cheiro do cabelo da rapariga quando estava de costas para ele e Lisl questionou-se se Michael alguma vez cheirara o seu cabelo quando eram namorados. Ela era um ano mais velha do que Stephan era naquele momento.

— O amor juvenil não é maravilhoso? — perguntou ao marido.

— Está apaixonada pelo teu sobrinho? — inquiriu Michael. — Não sei se o encorajaria a sair com a filha de uma jornalista demagoga e agitadora.

— Qual dos seus pais achas que instiga mais as massas, querido? — perguntou Lisl. — O pai que, conforme nos disseram, se suicidou num hotel de Berlim em junho de 34, a mesma noite em que morreram tantos opositores do Hitler? Ou a mãe que, viúva e grávida, se encarregou do trabalho do marido?

Viu Stephan e Žofie a desaparecer pela porta, seguidos pelo pobre Rolf, que corria com o cachecol esquecido da rapariga, de um tecido bonito cor-de-rosa aos quadrados.

— Bom, não saberia dizer se essa rapariga está apaixonada pelo Stephan — comentou —, mas, certamente, ele está encantado com ela.

EM BUSCA DE STEFAN ZWEIG

— Ai, mein Engelchen com os seus admiradores: O dramaturgo e o parvo! — exclamou Otto Perger para o cliente. Não via a neta desde antes do Natal, mas ouviu-a a descer as escadas no outro extremo do vestíbulo, a conversar com o jovem Stephan Neuman e com outro rapaz.

— Espero que prefira o tolo — respondeu o homem, dando uma gorjeta generosa a Otto, como sempre. — Os escritores não têm jeito para o amor.

— Receio que esteja um pouco apaixonada pelo escritor — comentou Otto —, embora não saiba se se apercebe. — Fez uma pausa, desejava atrasar o cliente durante o tempo suficiente para lhe apresentar Stephan, mas o homem tinha um motorista à espera e as crianças pareciam ter parado, como costumava acontecer com os jovens. — Bom, alegra-me que tenha desfrutado da visita à sua mãe — comentou.

O homem foi-se embora apressadamente e encontrou-se com os jovens na entrada. Já estava a subir as escadas quando olhou para trás e perguntou:

— Qual de vocês é o escritor?

Stephan, que estava a rir-se de alguma coisa que Žofie dissera, nem sequer pareceu ouvir, mas o outro rapaz apontou para ele.

— Boa sorte, filho. Agora mais do que nunca, precisamos de escritores com talento.

Foi-se embora e os jovens entraram na barbearia. Žofie anunciou que era o aniversário de Stephan.

— Feliz aniversário, jovem Neuman! — exclamou Otto, enquanto abraçava a neta, que se parecia tanto com o pai que quase pôde ouvir o filho na sua voz acelerada. Viu Christof nos seus óculos sujos. Até o seu cheiro era o mesmo: Amêndoas, leite e raios de sol.

— Era o herr Zweig — disse o amigo.

— Quem, Dieter? — perguntou Stephan.

— Jovem Stephan, o que estiveste a fazer na ausência da nossa Žofie? — perguntou Otto.

— Estava sentado ao nosso lado no Café Central antes de o Stephan chegar. O Zweig. Com a Paula Wesseley e a Liane Haid, que parece muito velha.

Otto hesitou, sem querer admitir que aquele rapaz tão tolo tinha razão.

— Receio que o herr Zweig tivesse de apanhar um avião, Stephan.

— Era ele? — Stephan ficou tão dececionado que, com o cabelo em pé no cocuruto, apesar dos esforços de Otto, pareceu um menino pequeno. Otto gostaria de lhe garantir que teria outra oportunidade de conhecer o seu herói, mas parecia-lhe improvável. A única coisa de que tinham falado — ou a única coisa de que Zweig falara enquanto Otto o ouvia — era se Londres estaria suficientemente longe de Hitler. Herr Zweig sabia como Christof morrera, o filho de Otto; sabia que Otto entendia como uma fronteira podia ser fraca.

— Espero que sigas o conselho que o herr Zweig te deu, Stephan — comentou Otto. — Disse que, agora mais do que nunca, precisamos de escritores com talento.

O que já era alguma coisa. Aquele grande escritor encorajara Stephan, embora o rapaz não tivesse ouvido.

* * *

Adolf Eichmann mostrou ao novo chefe gordo, o Obersturmführer Wisliceny, o Departamento Judeu de Segurança e acabou na sua própria secretária, junto da qual estava sentado o Tier, o pastor alemão mais bonito de Berlim.

— Meu Deus, está tão quieto que parece dissecado — comentou Wisliceny.

— O Tier está muito bem treinado — declarou Eichmann. — Seriamos capazes de nos livrar dos judeus e de passar a assuntos mais importantes se a Alemanha tivesse tanta disciplina como ele.

— Treinado por quem? — perguntou Wisliceny, ocupando a cadeira do próprio Eichmann para mostrar a sua patente superior.

Eichmann ocupou a cadeira das visitas e estalou os dedos uma vez para que o Tier fosse ter com ele. Assegurara a Wisliceny que o Departamento de Segurança II/112 funcionava como a seda, ainda que, na verdade, fosse uma seda rasgada e amarrotada. Operavam em três pequenas divisões no Palácio Hohenzollern, enquanto a Gestapo, com o seu próprio escritório judeu e muitos mais recursos, aproveitava para os desgastar. No entanto, Eichmann aprendera da pior forma que as queixas eram piores para quem se queixava.

— O seu artigo sobre o «Problema Judeu», Eichmann, é muito interessante. A ideia de conseguirmos fazer com que os judeus abandonem a Alemanha se desmantelarmos os seus alicerces económicos aqui, no Reich. Mas porque haveríamos de os obrigar a emigrar para a África ou para a América do Sul e não para outras nações europeias? O que importa para onde vão, desde que nos livremos deles?

Eichmann respondeu com educação.

— Não queremos que as suas capacidades acabem nas mãos de países mais desenvolvidos que possam beneficiar em detrimento do nosso, acho eu.

Wisliceny semicerrou os seus pequenos olhos prussianos.

— Acha que os alemães não conseguem sobreviver melhor do que os estrangeiros ajudados por uns judeus de que desejamos livrar-nos?

— Não. Não! — protestou Eichmann, pondo uma mão na cabeça do Tier. — Não me referia a isso.

— E a Palestina, que o senhor inclui como país «atrasado», é território britânico.

Eichmann, ao ver que aquilo iria de mal a pior, perguntou a Wisliceny qual era a sua opinião sobre o assunto, submetendo-se a um discurso compridíssimo e cheio de tolices e fanfarronadas apoiadas por uma falta absoluta de conhecimento. Ouviu como fazia sempre, armazenando partes para o futuro e escondendo a sua própria informação. Aquele era o seu trabalho, ouvir e assentir enquanto os outros falavam, e fazia-o bem. Com frequência, trocava o seu uniforme por roupa de rua para se infiltrar e observar mais de perto os grupos sionistas de Berlim. Desenvolvera uma estrutura de informadores. Recolhia informação da imprensa judia. Recolhia informação sobre o Agudat Israel. Tratava das denúncias com discrição. Lidava com as detenções. Ajudava nos interrogatórios da Gestapo. Até tentara aprender hebreu para fazer melhor o seu trabalho, embora aquilo lhe tivesse corrido mal. Agora, todos em Berlim tinham ouvido falar daquela estupidez. Oferecera-se para pagar três marcos por hora a um rabino para que lhe ensinasse a língua quando poderia simplesmente tê-lo detido para o ter como prisioneiro e para que o ensinasse sem ter de pagar.

Vera estava convencida de que aquele erro fora a razão pela qual aquele prussiano ignorante conseguira o lugar de diretor do Departamento Judeu, que devia ter sido para Eichmann. Tivera de se conformar com uma simples promoção para sargento técnico, com as mesmas tarefas de sempre, mas com menos pessoal devido à purificação do partido. Contudo, Eichmann sabia que essa não era a razão por que lhe tinham negado a promoção. Quem teria imaginado que ser especialista em assuntos sionistas o transformaria num perito demasiado valioso para «se distrair» com responsabilidades administrativas? Se as pessoas queriam subir no escalão nazi, era melhor serem cachorrinhos de um prussiano com um diploma em teologia, uma gargalhada asquerosa e nenhuma experiência em algo concreto.

Só depois de Wisliceny se ir embora naquele dia e de Eichmann ter arrumado a secretária é que permitiu que o Tier se mexesse. «Lindo menino», elogiou, acariciando-lhe as orelhas pontiagudas e parando na parte interna, cor-de-rosa e aveludada. «Divertimo-nos um pouco agora? Acho que merecemos um pouco de diversão depois dessa tolice, não achas?»

O Tier sacudiu as orelhas e inclinou o focinho comprido, tão expectante como Vera antes do sexo. Vera. Naquele dia, era o seu segundo aniversário de casamento. Estaria à espera dele no seu apartamento pequeno de Onkel-Herse-Strasse com o seu filho, de cujo nascimento Eichmann tivera de falar com o Rasse und Siedlungshauptamt das SS, tal como tivera de falar do seu casamento, depois de provar primeiro que Vera era de descendência ariana. Devia ir diretamente para casa, para ver os olhos grandes de Vera, as sobrancelhas lindas e o rosto rechonchudo e forte, com esse corpo voluptuoso que lhe parecia muito mais sugestivo do que o das mulheres magricelas que estavam tanto na moda.

Porém, decidiu dar uma volta, seguido pelo Tier. Atravessou o rio e deambulou pelo gueto judeu, indo de rua em rua, só pelo prazer de ver como, apesar do bom comportamento do Tier, as crianças fugiam ao vê-los.

UM POUCO DE CHOCOLATE AO PEQUENO-ALMOÇO

Truus baixou o jornal e olhou para o outro extremo da mesa do pequeno-almoço.

— A Alice Salomon foi exilada da Alemanha — informou, sem conseguir evitá-lo ao ler a notícia. — Como é que os nazis podem fazer isto? Uma pioneira em saúde pública internacionalmente aclamada e que não é uma ameaça para ninguém? É idosa e está doente e, além disso, é apolítica.

Joop deixou o seu hagelslag no prato e uma apara de chocolate caiu do pão, enquanto outra ficava na comissura dos lábios.

— É judia?

Truus olhou pela janela do terceiro andar, por cima dos vasos do parapeito, para Nassaukade e para o canal, para a ponte e para Raampoort. A doutora Salomon era cristã. Para além de muito devota, provavelmente, de uma família como a de Truus: Cristãos que apreciavam os presentes de Deus e que tinham partilhado esses presentes, acolhendo crianças belgas durante a Grande Guerra. No entanto, dizer a Joop que os alemães tinham exilado uma cristã preocupá-lo-ia e não queria dar-lhe razões para se interessar pelo que planeara fazer naquele dia. Albergara a esperança de conseguir ir à Alemanha para se encontrar com Recha Freier e ver o que mais poderia fazer para ajudar as crianças judias de Berlim que, agora, já não podiam ir às escolas públicas, mas a sua mensagem não obtivera resposta. No entanto, já falara com a senhora Kramarsky para que lhe emprestasse o carro. Pelo menos, poderia atravessar a fronteira e ir à quinta dos Weber.

— Segundo parece, tem antepassados judeus — respondeu, o que tinha a vantagem de ser verdade, mas, mesmo assim, desviou o olhar para o papel pintado às flores e para as cortinas que tinham de ser limpas naquela divisão em que tinham tomado o pequeno-almoço desde que se tinham casado. Duvidava que os antepassados de Alice Salomon explicassem porque fora expulsa da sua pátria.

— Geertruida — começou a dizer Joop e Truus preparou-se. O seu nome sempre lhe parecera aborrecido e insubstancial antes de conhecer Joop — quer fosse Geertruida ou Truus —, mas parecia-lhe lindo na voz do seu marido. Mesmo assim, não costumava chamá-la pelo seu nome completo.

O que faz com que um casamento funcione é estar sempre em guarda, dissera-lhe a mãe, na manhã do seu casamento, e quem era Truus para desafiar o conselho da mãe, fazendo ver que aquele costume de Joop — usar o seu nome completo quando tencionava dissuadi-la de fazer alguma coisa — a punha em guarda?

Agarrou no guardanapo e aproximou-se para limpar a apara de chocolate da boca de Joop. E, assim, o marido voltou a ser o funcionário chefe e diretor impoluto do Banco De Javasche que fora quando tinham ficado noivos.

— Amanhã para o pequeno-almoço, vou fazer broodje kroket — informou, antes que Joop conseguisse começar a perguntar como tencionava passar o dia. Aquele croquete de carne guisada por cima de um pãozinho era a sua comida favorita. Só de a mencionar, ficava de bom humor e distraía-se.

GIZ NOS SAPATOS

Stephan olhava para a porta enquanto Žofie apagava metade de uma demonstração matemática que cobria o quadro todo.

O seu professor, alarmado, disse: «Kurt…»

Um homem mais jovem que estava com eles assentiu, olhando para Žofie. Stephan sentia-se um pouco como o médico em Amok, a personagem de Zweig que se obceca tanto com uma mulher que não quer ir para a cama com ele que começa a persegui-la. No entanto, Stephan não estava a perseguir Žofie. Sugerira que fosse buscá-la à universidade, independentemente de ser verão e de não haver ninguém a ter aulas.

Žofie deixou cair o rascunho e, alheia ao giz que tinha no sapato, começou a encher novamente o quadro com símbolos. Stephan tirou um diário da mala e anotou: «Deixa cair giz no sapato e nem sequer se apercebe.»

Só depois de Žofie-Helene ter acabado a equação é que reparou na sua presença. Sorriu, tal como Hèlène em Amok quando sorri no meio da sala de baile com o seu vestido amarelo. Até o nome era parecido.

— Isto faz sentido? — perguntou Žofie ao homem mais velho. Depois, virou-se para o jovem. — Se não, posso explicar-lhe amanhã, professor Gödel.

Žofie entregou o giz a Gödel e foi ter com Stephan, agora alheia aos dois homens. O mais velho disse: «Extraordinário. E quantos anos diz que tem?» O outro, Gödel, respondeu: «Só tem quinze.»

O PARADOXO DO MENTIROSO

Stephan protegeu-se da chuva, entrando no edifício da Chocolates Neuman, situado no número 2 de Schulhof, seguido por Žofie. Conduziu-a por um lance de escadas de madeira que descia até uma cave cavernosa e, com os sapatos molhados, foram deixando rastos invisíveis na escuridão fria de pedra, enquanto a conversa dos chocolateiros do andar de cima ficava para trás.

— Hum… Chocolate — comentou ela, sem medo.

Como teria podido imaginar que uma rapariga tão inteligente como Žofie podia ter medo de alguma coisa, que poderia usar essa desculpa para lhe apertar a mão, tal como Dieter fazia sempre que ensaiavam uma peça nova? O giz apagara-se do sapato de Žofie enquanto corriam à chuva, mas Stephan continuava sem conseguir esquecer todos esses símbolos que escrevera no quadro, matemática que ele nem sequer sabia como se denominava.

Puxou uma corrente para acender a luz do teto. Entre as sombras, surgiram paletes repletas de caixas encostadas às paredes irregulares de pedra. Só de estar ali, as palavras amontoavam-se na sua mente, embora já raramente escrevesse ali em baixo, agora que tinha a máquina de escrever em casa. Abriu uma caixa com o pé-de-cabra que pendia do gancho situado no poste do último degrau e desatou um dos sacos de juta que havia lá dentro: Grãos de cacau com um cheiro tão familiar que, com frequência, parecia tudo menos chocolate, tal como um rapaz cujo pai escrevia livros poderia acabar por se cansar de ler, por muito impossível que pudesse parecer-lhe.

— Vais oferecer-me uma dentada — declarou Žofie-Helene.

— Dos grãos? Não podem comer-se, Žofie. Bom, talvez se estivesses cheia de fome.

Pareceu tão dececionada que Stephan guardou as palavras com que tencionara impressioná-la: Moldar o chocolate era como coordenar um balé, derretendo, arrefecendo e mexendo para que todos os cristais se alinhassem para deixar o paladar em êxtase. Êxtase. Supunha que, de todos os modos, não conseguiria usar essa palavra com Žofie, a não ser que a escrevesse numa peça.

Correu pela escada para ir buscar um punhado de trufas e, ao regressar, descobriu que Žofie já não estava lá.

— Žofie?

Ouviu a voz Žofie por baixo das escadas.

— Deviam guardar os grãos de cacau aqui em baixo. A temperatura de uma cave é mais constante quanto mais elevado for o gradiente geotérmico.

Stephan olhou para a roupa elegante — que escolhera para a impressionar —, mas, mesmo assim, agarrou na lanterna do gancho e pôs-se por baixo das escadas para descer os degraus para a cave inferior. Continuava sem ver Žofie. Baixou-se para entrar no túnel baixo situado no outro extremo da cave e apontou a lanterna para os sapatos de Žofie, para as pernas dobradas e para o rabo por baixo da saia. Estava no fundo do túnel, com o vestido um pouco levantado por causa do movimento, de modo que, por um instante, antes de o tecido deslizar, viu a pele pálida das suas coxas e da parte posterior dos joelhos.

Žofie voltou a baixar-se para o túnel e o seu rosto ficou iluminado pelo círculo de luz.

— É um termo novo, o gradiente geotérmico — explicou. — Não faz mal se não o conheceres. Quase ninguém conhece.

— A câmara superior é mais seca, o que é melhor para o cacau — explicou ele, enquanto a alcançava. — Além disso, é mais fácil pôr e tirar coisas daí.

Aquela passagem criara-se de forma natural, não como a passagem de cimento construída por baixo da Ringstrasse, junto do Burgtheater. Parecia que acabava num monte de pedras a vários metros de distância, mas não era assim. As coisas funcionavam dessa forma naquele submundo, naquele labirinto de passagens antigas e câmaras que percorria as profundidades de Viena: Havia sempre uma forma de continuar a avançar se se procurasse durante o tempo suficiente. A humidade baixa naquela parte era a razão por que o bisavô comprara o edifício da Chocolates Neuman. Chegara a Viena sem nada quando tinha dezasseis anos, a mesma idade que ele tinha naquele momento, para viver nas águas-furtadas de um edifício sem elevador nos subúrbios de Leopoldstadt. Fundou o negócio do chocolate com vinte e três anos e comprou aquele edifício para o expandir quando ainda vivia nas águas-furtadas, antes de construir o palácio de Ringstrasse, onde a família de Stephan vivia agora.

— Podia ter esperado até explicares aquela equação aos professores — indicou Stephan.

— A demonstração? Não é necessário explicar ao professor Gödel. Estabeleceu os teoremas da inclusão que transformaram o campo da lógica e da matemática quando era pouco mais velho do que nós, Stephan. Adorarias as demonstrações dele. Usou o paradoxo de Russell e o paradoxo do mentiroso para demonstrar que, em qualquer sistema formal adequado para a teoria numérica, existe sempre uma fórmula que não pode provar-se e também existe a sua negação.

Stephen pegou no diário que tinha na mala e escreveu: O paradoxo do mentiroso.

— Esta mesma frase é falsa — declarou ela. — A frase tem de ser verdadeira ou falsa, não é assim? Mas, se for verdadeira, então, como ela própria diz, é falsa. Mas, se for falsa, então, é verdadeira. Portanto, tem de ser verdadeira e, ao mesmo tempo, falsa. O paradoxo de Russell é ainda mais interessante: O conjunto de todos os conjuntos que não fazem parte de si próprios faz parte de si próprio ou não? Entendes?

Stephan apagou a lanterna para esconder que entendia muito pouco. Talvez o pai tivesse algum livro de matemática que explicasse o que Žofie estava a dizer. Talvez isso ajudasse.

— Agora, nem sequer sei onde estás! — exclamou Žofie.

No entanto, Stephan sabia onde ela estava. Sabia, graças à sua voz, que a sua cara estava a trinta centímetros de distância, que se se inclinasse para a frente, talvez conseguisse beijá-la.

— Stephan, continuas aí? — perguntou ela, com um pouco do mesmo medo que ele também sentia às vezes quando estava naquele submundo escuro, onde as pessoas poderiam perder-se e não voltar a sair. — Ainda sinto o cheiro do chocolate, mesmo aqui.

Stephan apalpou as trufas que tinha no bolso e tirou uma.

— Abre a boca e deita a língua de fora. Assim, poderás saboreá-lo — sugeriu.

— Não podes.

— Podes.

Ouviu que humedecia os lábios e sentiu o cheiro da frescura do seu hálito. Pôs-lhe uma mão no braço, para se localizar ou talvez para a beijar.

Riu-se, nervosa, um som como o de uma pomba que não era próprio dela.

— Mantém a boca aberta — pediu, com suavidade, enquanto adiantava a mão, até sentir o calor da sua respiração nos dedos e deixar a trufa na sua língua. — Deixa-a na boca — sussurrou-lhe. — Deixa-a assim, para durar e saboreares cada momento.

Desejava apertar-lhe a mão, mas como podia apertar a mão a alguém que se transformara tão depressa na sua melhor amiga sem pôr a amizade em risco? Pôs as mãos nos bolsos e voltou a acariciar as trufas. Pegou noutra e pô-la na boca, não porque desejava comer chocolate, mas para partilhar a experiência; a escuridão que os rodeava e o barulho da água mais adiante, produzido pela chuva que entrava através de um ralo e se filtrava pelas profundidades, em direção ao canal, ao rio ou ao mar, enquanto o chocolate derretido lhes aquecia a língua.

— É verdadeiro e, ao mesmo tempo, falso que posso saboreá-lo — declarou ela. — O paradoxo do chocolate!

Stephan inclinou-se para a frente, pensando que talvez se arriscasse, que talvez a beijasse e, se se afastasse, fingiria que chocara com ela na escuridão. Contudo, um bicho de algum tipo (certamente, um rato) passou a correr ali perto e Stephan acendeu a lanterna num ato reflexo.

— Não digas a ninguém que te trouxe aqui — pediu. — Se voltarem a descobrir-me, vão fechar-me para sempre no meu quarto, por causa dos vândalos. Mas não é fantástico? Alguns destes túneis são apenas escoadores, que convém evitar quando chove muito, e outros são esgotos, que evito sempre. Mas há salas inteiras aqui em baixo. Criptas cheias de ossos. Colunas que podiam ser, não sei, da época dos romanos. É uma rede subterrânea usada por espiões e assassinos, habitantes e freiras. É o meu lugar secreto. Nem sequer trago os meus amigos aqui.

— Nós não somos amigos? — perguntou Žofie-Helene.

— Não somos… O quê?

— Não o mostras aos teus amigos, mas mostraste-mo, portanto, pela lógica, não sou tua amiga.

Stephan riu-se.

— Nunca tinha conhecido alguém que conseguisse ser tão tecnicamente brilhante e estar tão absolutamente enganado. De todas as formas, não to mostrei, encontraste-o.

— Portanto, então, somos amigos porque não mo mostraste?

— Claro que somos amigos, idiota.

O paradoxo da amizade. Era uma amiga e, ao mesmo tempo, não era.

— Estes túneis vão até ao Burgtheater? — perguntou ela. — Podíamos fazer uma surpresa ao avô. Ou melhor ainda! Podemos ir ao escritório da minha mãe? É perto de St. Rupert’s e também do nosso apartamento. Os túneis chegam até lá?

Stephan costumava percorrer os mesmos caminhos quando estava lá em baixo para não se perder, mas sabia chegar até St. Rupert’s e ao seu apartamento. Encontrara várias rotas diferentes desde que tinham acabado as aulas, embora não fosse como o médico de Amok, porque não estava a persegui-la. Poderia levá-la e dar uma volta grande, pelas criptas situadas por baixo da catedral de St. Stephen, e atravessar os três níveis do que, uma vez, tinham sido um convento. Poderia levá-la por baixo da Judenplatz, os restos de uma escola subterrânea do Talmude de há séculos. Talvez até a levasse a ver os velhos estábulos. Assustar-se-ia ao ver os crânios dos cavalos? Conhecendo Žofie, adoraria. Bom, talvez reservasse os estábulos para ele, pelo menos, por enquanto.

— Muito bem — acedeu. — Por aqui, então.

— Que comece o jogo! — exclamou ela.

— Queria dizer-te que já acabei O Sinal dos Quatro — comentou. — Trago-to amanhã.

— Mas eu não acabei o Kaleidoscope.

— Não tens de mo devolver. Podes ficar com ele para sempre, digo. — Ao ver a reticência no seu rosto, acrescentou: — Tenho outro exemplar. — Embora não fosse verdade. Contudo, gostava de pensar que uma metade do seu conjunto de dois volumes estaria nas mãos de Žofie ou imaginá-lo na sua estante enquanto ela lia de noite. — Já tinha um exemplar quando a tia Lisl mo ofereceu no meu aniversário — mentiu. — Gostaria que ficasses com ele.

— Não tenho um exemplar extra de O Sinal dos Quatro.

— Vou devolver-to, prometo — troçou, entre gargalhadas.

Passou ao lado da pilha de escombros e junto de uma escadaria de metal que subia em círculos até ao topo da passagem, onde havia uma tampa de esgoto octogonal com oito triângulos metálicos cujas pontas se tocavam no meio e que podia empurrar-se para baixo ou podia ser puxada da rua. Passaram ao lado da escada e, depois, desceram por uns degraus metálicos até chegar a uma passagem larga e abobadada, feita de blocos empilhados. Um rio corria junto de um caminho com corrimão, iluminado por uma lâmpada gradeada que pendia do teto e que projetava as suas sombras grandes contra a parede.

— Esta parte é de quando desviaram o rio para o subsolo para expandir a cidade — explicou a Žofie, enquanto apagava a lanterna. — Também ajudou a prevenir a cólera.

A passagem acabava de forma abrupta, mas a água seguia o seu curso através de uma arcada mais pequena, como a que havia junto do Burgtheater, e era preciso mergulhar e nadar entre a porcaria para continuar a avançar. No entanto, naquele ponto, havia umas escadas que subiam até uma passarela metálica situada por cima da água, com um rolo de corda e um colete salva-vidas pendurados no corrimão, pelo sim pelo não. Atravessaram a passarela, desceram e recuaram pelo outro lado do rio até entrar noutro túnel mais estreito e mais seco. Stephan reacendeu a lanterna e iluminou imensos escombros.

— Este é outro sítio em que parte do túnel desabou, talvez durante a guerra, como junto do túnel pequeno que dá para a nossa cave do cacau — explicou e guiou-a através do buraco estreito que havia entre o desmoronamento e a parede do túnel. Ao passar para o outro lado, apontou com a lanterna para um portão fechado com cadeado. Mais à frente, havia uma confusão de caixões e ossos humanos que pareciam organizados por partes do corpo, para além de uma pilha cuidadosamente montada e composta apenas de crânios.

A MAIOR MÁQUINA DE ESCREVER DO MUNDO

Stephan estava há talvez um quarto de hora a guiar Žofie-Helene pelo subsolo quando chegaram a uma escada circular que levava a outra tampa de esgoto octogonal perto do escritório da sua mãe. Havia outra saída mais próxima, na mesma rua do seu apartamento, mas era apenas uns degraus metálicos que chegavam até um ralo que pesava demasiado para conseguirem levantá-lo. Saiu para a rua e deu-lhe a mão para a ajudar a subir, embora depois lhe custasse soltá-la. Voltou a tapar a entrada com um pontapé e seguiu-a até ao escritório do jornal da mãe dela, onde havia um homem a usar a maior máquina de escrever que alguma vez vira.

— É um linótipo — explicou Žofie. — É automático, como as máquinas do Rube Goldberg. Compõe os textos para a tiragem do jornal.

— É difícil de aprender? — perguntou Stephan ao tipógrafo, imaginando que conseguiria compor o texto de uma peça com aquela máquina. Para fazer cópias agora, usava papel de decalque e esmurrava as teclas com força, mas, como não podiam fazer-se muitas cópias dessa forma, tinha de escrever para elencos pequenos ou repetir o mesmo texto várias vezes. — Já sei escrever à máquina.

— É impressionante que saibas tanto, Stephan — disse Žofie-Helene.

— Eu sei muito?

— Sobre o subsolo, o fabrico do chocolate, o teatro e escrever à máquina. E gostas de o dizer. Quando falo, as pessoas olham para mim como se fosse um bicho-do-mato. Mas tu és um pouco como o professor Gödel. Às vezes, também dizes que me engano em coisas.

— Disse que te enganaste com alguma coisa?

— Disseste que não podia comer grãos de cacau. E falaste da cave — replicou ela. — Às vezes, digo coisas erradas só para ver quem se apercebe. Quase ninguém percebe.

No escritório da diretora, havia uma menina mais pequena do que Walter a pintar, sentada a uma secretária, enquanto uma mulher que devia ser a mãe de Žofie falava ao telefone.

— Jojo, pintaste-me alguma coisa bonita? — perguntou Žofie, pegando na irmã ao colo e girando com ela enquanto a pequena se ria às gargalhadas. Stephan também quis dar voltas em círculos, embora não gostasse muito de dançar.

A mãe indicou com um dedo que estava prestes a acabar a chamada, enquanto, pelo auscultador, dizia: «Sim, é evidente que o Hitler não vai achar graça, mas também não acho graça às suas tentativas de obrigar o Schuschnigg a levantar o veto ao partido nazi austríaco. E, dado que a minha opinião não vai travar as suas tentativas, tenho a certeza de que não devia permitir que nos impeça de publicar o artigo.» Acabou a chamada e pousou o auscultador. «Oh, Žofie, o teu vestido! Outra vez não.»

— Mãe, este é o meu amigo, Stephan Neuman — apresentou-o Žofie. — Chegámos até aqui da fábrica de chocolate do pai através de…

Stephan lançou-lhe um olhar de aviso.

— O pai dele fabrica os melhores bombons — concluiu ela, em vez disso.

— Ah, portanto, és esse Neuman? — perguntou Käthe Perger. — Espero que nos tenhas trazido alguns desses bombons!

Stephan sacudiu as mãos na aba da camisa e tirou as duas últimas trufas do bolso. Viu que estavam um pouco sujas.

— Meu Deus, era uma brincadeira! — exclamou Käthe Perger. Aceitou uma das trufas antes de conseguir guardá-las e pô-la na boca.

Stephan retirou a sujidade da outra e ofereceu-a à irmã de Žofie.

— Žofie-Helene — disse Käthe Perger —, acho que te superaste em inteligência ao escolher um amigo que não só anda por aí com bombons no bolso, mas, aparentemente, desfruta tanto de lavar a roupa como tu.

Stephan olhou para a roupa, coberta de porcaria. O pai ia matá-lo.

Depois de Stephan se ter ido embora, Žofie disse à mãe:

— É apenas um amigo, mas um é sempre melhor do que zero, embora o zero seja mais interessante em termos matemáticos.

A irmã mais nova entregou-lhe um livro e ela sentou-se e pô-la ao seu colo. Abriu-o na primeira página e leu: «Para Sherlock Holmes, ela é sempre a mulher.»

— Não sei se a Johanna está pronta para um Escândalo na Boémia — queixou-se a mãe.

Žofie adorava essa história, sobretudo, a parte em que o rei diz que é uma pena que Irene Adler não esteja ao seu nível e Holmes lhe dá a razão. O rei quer dizer que a menina Adler não é tão inteligente como ele e Sherlock Holmes quer dizer que é mais inteligente. Žofie também gostava do fim, quando Irene os vence a todos e Sherlock Holmes não quer aceitar o anel que o rei lhe oferece, mas quer a fotografia da menina Adler, para se lembrar de que foi vencido pela inteligência de uma mulher.

— É canhoto — disse Žofie. — Refiro-me ao Stephan. Achas que isso é estranho? Perguntei-lhe uma vez, mas não me disse.

A mãe riu-se e foi um som redondo como o zero lindo no meio de uma linha que se prolonga para o infinito em ambas as direções, a positiva e a negativa.

— Não sei, Žofie-Helene — disse à filha. — Achas estranho ser boa a matemática?

Žofie pensou nisso por uns segundos.

— Não exatamente.

— Talvez os outros achem que és diferente — continuou a mãe —, mas tu és assim, sempre foste. Suponho que aconteça o mesmo ao teu amigo.

Žofie deu um beijo no cocuruto de Jojo.

— Cantamos, Jojo? — perguntou. E começou a cantar, acompanhada de Jojo e também da mãe. — A lua nasceu, as estrelas douradas brilham no céu sem nuvens.

THE VIENNA INDEPENDENT

AS LEIS NAZIS CONTRA OS JUDEUS

«NÃO SURGEM DO ÓDIO»

Comissário de Justiça: As leis surgem do amor pelo povo alemão

Por Käthe Perger

WÜRZBURG, Alemanha, 26 de junho de 1937. Durante a reunião nacional-socialista celebrada hoje, o Comissário da Justiça alemão Hans Frank insistiu que as leis de Nuremberga foram criadas “para proteger a nossa raça, não porque odiamos os judeus, mas porque amamos o povo alemão”.

“O mundo critica a nossa atitude para com os judeus e considera-a demasiado dura”, declarou Frank. “Mas o mundo nunca se preocupou com quantos alemães honestos foram expulsos do seu lar pelos judeus no passado.”

As leis, instauradas no dia 15 de setembro de 1935, revogam a nacionalidade alemã aos judeus e proíbem-nos de se casar com pessoas “de sangue alemão”. Um “judeu” define-se como qualquer pessoa que tenha três ou quatro avós judeus. Milhares de alemães convertidos de outras religiões, incluindo padres e freiras católicos, consideram-se judeus.

Com a aprovação das leis de Nuremberga, os judeus alemães não podem aceder ao tratamento nos hospitais municipais, os oficiais judeus foram expulsos do exército e os estudantes universitários foram proibidos de se candidatar para os exames de doutoramento. As restrições suavizaram-se com os preparativos dos Jogos Olímpicos no ano passado, em Garmisch-Partenkirchen no inverno e verão, em Berlim. Contudo, depois, o Reich intensificou os seus esforços de “Arianização”, despedindo trabalhadores judeus e transferindo os negócios dos judeus a preços irrisórios ou sem nenhuma compensação…

A BUSCA

O vaso amarelo estava ali, no alpendre da frente dos Weber. Mesmo assim, Truus aproximou-se do portão lentamente no Mercedes da senhora Kramarsky, certificando-se, como fazia sempre, de que o vaso não estava deitado a modo de aviso e algum nazi serviçal o endireitara. Ao conhecê-los, os Weber tinham-lhe dito que eram velhos, que o seu futuro era curto, mas que, com a sua ajuda, o futuro das crianças poderia ser comprido. Truus abriu o portão, atravessou-o com o carro, fechou-o atrás dela e, depois, levantou a saia para voltar a entrar no carro. Mudou de mudança e percorreu o campo para o caminho que se introduzia no bosque.

Já passava do meio-dia quando viu o primeiro sinal delator de movimento, um brilho que poderia ter sido um veado. Contudo, ao parar o carro, viu que era uma menina que corria em ziguezague entre as árvores. Truus continuava sem entender como as crianças sobreviviam naqueles bosques e páramos durante dias e noites, sem mais nada nos bolsos senão bilhetes de comboio usados, alguns marcos no melhor dos casos e pedaços de pão que as mães lhes davam, tão desesperadas que punham os filhos em comboios até à fronteira da Alemanha sem nenhuma esperança real. As crianças sobreviviam, às vezes, para serem presas depois pelos alemães e enviadas de volta pelos guardas fronteiriços holandeses.

— Não faz mal. Vim para ajudar — disse Truus, com suavidade, tentando ver onde a menina se escondera. Avançou devagar. — Sou a Tante Truus e vim para te ajudar a chegar à Holanda, como a tua mãe te disse.

Truus não sabia porque as crianças confiavam nela, nem se realmente confiavam. Às vezes, pensava que permitiam que se aproximasse delas apenas por cansaço.

— Sou a Tante Truus — repetiu. — Como te chamas?

A menina, de cerca de quinze anos, ficou a olhar para ela.

— Queres que te ajude a chegar até à fronteira? — perguntou Truus.

Um menino um pouco mais novo espreitou entre o mato e, depois, outro. Não pareciam irmãos, mas era impossível saber.

A menina virou-se novamente para Truus.

— Pode levar-nos a todos?

— Sim, é claro.

Quando os outros dois devolveram o olhar da menina sem objetar, ela emitiu um assobio forte. Outro menino saiu do seu esconderijo. E outro. Meu Deus, eram onze crianças no total e uma delas era apenas um bebé ao colo da irmã. O carro iria cheio. Truus não sabia como as mulheres conseguiriam encontrar cama naquela noite para onze crianças, mas deixaria isso para Deus.

Truus atravessou o bosque e regressou à quinta dos Weber com as crianças no carro. Estavam muito caladas, demasiado caladas para uma criança de qualquer idade, sobretudo, quando quase todas eram adolescentes. Caladas e sérias, como as crianças que a família de Truus acolhera durante a guerra.

Então, ela tinha dezoito anos e a guerra batera à sua porta em Duivendrecth, quando, com essa idade, devia ter aberto a porta aos seus pretendentes. A Holanda permanecera neutra, mas, mesmo assim, declarara-se o estado de sítio e mobilizara-se o exército, os rapazes tinham sido enviados para proteger zonas essenciais para a defesa nacional, zonas que não incluíam o alpendre da casa de Truus. Ficava em casa a ler para os pequenos refugiados, que tinham chegado tão fracos e famintos que tivera vontade de lhes oferecer o seu próprio prato e, ao mesmo tempo, desejara comer cada trinca, com medo de ficar tão magra como eles. Tinham-na enfurecido e entristecido em partes iguais, essas crianças cuja reticência entristecia tanto a mãe. Essas crianças que também a transformaram em mãe e a fizeram questionar-se como conseguiria afastar a própria mãe do manto sufocante da tristeza calada daquelas crianças. No entanto, então, na manhã da primeira neve daquele inverno, duro e adiantado, Truus acordou e observou as árvores carregadas de neve, os corrimões nevados por cima das pontes nevadas, os caminhos brancos e impolutos em contraste com as águas escuras e estancadas do canal. Acordou as crianças sem fazer barulho e mostrou-lhes a paisagem. Vestiu-as, agradecida, naquela manhã, pelo sussurro das suas vozes quando falavam. Saíram para a rua e, à luz da lua do inverno que se refletia na neve, fizeram um boneco de neve. Foi só isso. Um simples boneco de neve, três bolas brancas empilhadas uma por cima da outra, com pedras em vez de olhos e ramos a modo de braços, sem boca, como se as crianças quisessem construir o boneco à sua imagem e semelhança. A mãe, com o chá da manhã na mão, espreitou pela janela quando estavam a acabar. Era o que fazia todas as manhãs. Era a sua forma de ver o que o Senhor lhe reservara, como costumava dizer. Naquela manhã, no entanto, surpreendeu-se e alegrou-se ao ver as crianças lá fora, mesmo que não sorrissem e não fizessem barulho. Truus apontou para a janela para que as crianças a cumprimentassem. Ao fazê-lo, uma delas atirou uma bola de neve contra o vidro e quebrou o silêncio. As outras começaram a rir-se e o rosto espantado da mãe também deu lugar às gargalhadas. Até à data, aquele continuava a ser o som mais bonito que Truus alguma vez ouvira, mesmo apesar de se ter sentido envergonhada. Como pudera desejar alguma coisa que não fosse a gargalhada daquelas crianças? Como pudera desejar ter alguma coisa para si própria?

Truus parou subitamente o carro da senhora Kramarsky. No chão, junto do alpendre dos Weber, o vaso amarelo estava derrubado, com a terra espalhada pelo caminho. Recuou devagar com o carro, para não levantar pó, e começou a procurar uma saída para atravessar a fronteira através do bosque, repetindo novamente a prece de sempre, agradecendo a Deus por ter os Weber e por tudo o que tinham feito pelas crianças da Alemanha e pedindo ao Senhor para manter aquele casal idoso e valente a salvo.

KLARA VAN LANGE

Na casa dos Groenveld, situada em Jan Luijkenstraat, Truus — cansada depois de passar horas à procura de uma saída no bosque, para acabar por atravessar a quinta dos Weber a meio da noite, com os faróis do carro apagados e o depósito quase vazio — entregou as onze crianças às voluntárias. Klara van Lange, sentada à mesa do telefone com uma daquelas saias novas e horríveis que deixavam a barriga das pernas a descoberto, tapou o auscultador com a mão e sussurrou a Truus: «O hospital judeu de Nieuwe Keizersgracht.» Depois, falou para o auscultador. «Sim, sabemos que onze crianças são muitas, mas será apenas por uma noite ou duas, até encontrarmos famílias para… Se tomaram banho?» Olhou para Truus, nervosa. «Piolhos? Não, claro que não têm piolhos!»

Truus apressou-se a examinar o cabelo das crianças e afastou a mais velha.

— Tem um pente para piolhos, senhora Groenveld? — sussurrou. — Claro que tem. O seu marido é médico.

— Sim, podemos enviar alguém para ajudar a cuidar do bebé — disse Klara, ao telefone. Depois, dirigiu-se a Truus. — Posso ir com eles — sussurrou.

Por muito que Truus gostasse de ir com as crianças, não devia deixar Joop sozinho durante a noite. Devia agradecer a oferta.

— Muito bem, quem quer um banho quente? — perguntou às crianças. Depois, virou-se para as mulheres. — Senhora Groenveld, pode encarregar-se das meninas mais pequenas com a menina Hackman? — Então, dirigiu-se à mais velha de todas. — Se te prepararmos um banho, consegues fazê-lo sozinha?

— Posso ajudar com os piolhos do Benjamin, Tante Truus — ofereceu-se a rapariga.

— Se pudesse escolher uma filha, querida — replicou Truus, acariciando-lhe a face —, seria uma menina tão doce como tu. Poderás desfrutar de um banho quente e agradável só para ti e, além disso, vou procurar uns sais de banho. — Virou-se para Klara, que acabara de desligar o telefone, e disse: — Senhora Van Lange, pode fazer umas sandes de queijo?

— Sim, convenci o hospital judeu a acolher as crianças, apesar de não terem papéis. De nada, senhora Wijsmuller — respondeu Klara, com ironia e fez Truus pensar nela própria quando era jovem, embora muito mais bonita. Klara van Lange não precisava de mostrar a barriga das pernas, seguindo essa nova moda inexplicável para chamar a atenção dos homens. Meu Deus, se não se sentasse com cuidado, ver-lhe-iam os joelhos.

— Claro que os convenceu, Klara — disse. — Nem sequer o primeiro-ministro conseguiria dizer-lhe que não. — Pensou que talvez devessem experimentar as saias de Klara e o seu poder de persuasão com o primeiro-ministro Colijn antes de, segundo os rumores, o governo holandês impossibilitar os estrangeiros de se estabelecer ali, não mediante o fecho literal da fronteira, mas alertando os alemães que fugiam do Reich de que a Holanda poderia ser um lugar de passagem, mas não de destino.

ATRAVÉS DA JANELA, ÀS ESCURAS

Eichmann afastou o relatório que estava a redigir, com o qual Hagen, o seu novo chefe, ficaria com o mérito, se o houvesse. Outro farsante a aproveitar-se da experiência sólida de Eichmann. Abriu a janela e inalou o ar outonal enquanto o comboio atravessava o porto de Itália até à Áustria. Vomitara tanto enquanto atravessavam o Mediterrâneo do Médio Oriente até Brindisi a bordo do Palestina que o médico da enfermaria tentara tirá-lo do barco em Rodes. A viagem inteira fora um fracasso absoluto: Um mês inteiro de viagem para que, no fim, os britânicos só lhes permitissem passar vinte e quatro horas em Haifa e as autoridades do Cairo lhes negassem os vistos para a Palestina. Doze longos dias no Egito, fora a única coisa que tinham conseguido.

— Os judeus defraudam-se uns aos outros, essa é a base do caos financeiro da Palestina.

— Talvez seja mais efetivo dar dados específicos, senhor — replicou Eichmann. — Quarenta banqueiros judeus em Jerusalém.

— Quarenta banqueiros judeus e vigaristas — concordou Hagen. — Claro, outros cinquenta mil judeus emigrariam anualmente com o espólio que o Polkes pensa que devíamos dar-lhes.

Polkes, o único contacto real que tinham feito durante a viagem, sugerira que, se a Alemanha realmente queria livrar-se dos judeus, devia permitir-lhes levar mil libras britânicas para emigrar para a Palestina. Fora assim que o judeu o expressara: «Mil libras britânicas», como se os marcos alemães fossem inomináveis.

Eichmann escreveu no relatório: «O nosso objetivo não é que o capital judeu se transfira para o Reich, mas fazer com que os judeus que não têm meios emigrem.»

Partiu o lápis, incapaz de suportar a pressão dos seus pensamentos. Tirou a navalha do bolso, pensando na madrasta, fria e austera, cuja família em Viena se casara com judeus ricos, daqueles que não estariam dispostos a ir-se embora sem as suas riquezas ilícitas.

— Eu cresci aqui, em Linz — disse a Hagen, quando o comboio chegou ao topo de uma colina e as árvores se dispersaram para deixar ver a Áustria. O frio que sentia na cara naquele momento parecia-se com o frio de correr com o seu amigo Mischa Sebba por uns bosques parecidos com aquele, o vazio era como o das suas próprias mãos quando os pais entrelaçaram os dedos com os dos irmãos mais novos enquanto atravessavam a plataforma na estação de Linz, quando a família se encontrara depois de passarem um ano separados. Então, ele tinha oito anos e dez quando a voz suave da mãe deu lugar à da madrasta, que lhes lia passagens da Bíblia no apartamento estreito do número 3 de Bischof Strasse. Há quatro anos que não ia a casa, quatro anos desde a última vez que visitara o túmulo da sua mãe.

— Passava dias inteiros a montar a cavalo por campos como este — disse a Hagen. Montara principalmente com Mischa, que o ensinara a localizar os veados, a reproduzir o som de todo o tipo de pássaros e a pôr um preservativo muito antes de Eichmann pensar que a ideia de introduzir o pénis dentro de uma rapariga poderia ser mais do que simplesmente ridículo. Ainda recordava o desprezo na voz de Mischa ao descobrir o nome do seu grupo de exploradores Wandervögel: «Grifo? É uma espécie de pássaro que se extinguiu antes de os nossos avós nascerem, um abutre que se alimentava da carne dos mortos.» Mischa estava ciumento, claro. Não podia juntar-se aos rapazes mais velhos para passar os fins de semana a fazer passeios, com o uniforme e as bandeiras, porque era judeu.

Eichmann começou a afiar a ponta do lápis.

— Sou um bom cavaleiro — comentou. — Aprendi a disparar em bosques como este com o meu melhor amigo, Friedrich von Schmidt. A mãe era condessa e o pai era um herói de guerra.

Friedrich convidara-o para se juntar à Associação de Jovens Veteranos Austro-Alemães e tinham ido juntos à sua formação paramilitar. Contudo, Mischa continuara a ser o seu melhor amigo, mesmo depois de Eichmann se juntar ao partido, no dia 1 de abril de 1932. O membro 899 895. Continuara unido a Mischa, embora cada vez discutisse mais com ele, até a Áustria fechar as Camisas Castanhas nazis e a empresa Vacuum Oil o despedir unicamente pelas suas ideias políticas. Tivera de pôr as botas e o uniforme numa mala e atravessar a fronteira da Áustria para a Alemanha, em busca da segurança de Passau.

— Não vamos financiar a Palestina com capital alemão, nem sequer capital alemão judeu.

Eichmann desviou o olhar da paisagem, devolveu a atenção ao relatório e escreveu: «Dado que a emigração acima mencionada de 50 000 judeus anuais reforçaria o judaísmo na Palestina, este plano não pode ser motivo de discussão.»

AUTO-RETRATO

Žofie-Helene, juntamente com Stephan e a sua tia Lisl, estava à frente do primeiro quadro da sala de exposições do Edifício de Secessão: Autorretrato de um Artista Degenerado. Inquietava-a, o quadro e o título.

— O que te parece, Žofie-Helene? — perguntou Lisl Wirth.

— Não sei nada sobre pintura — respondeu ela.

— Não é preciso saber de arte para que te cause uma emoção — indicou Lisl. — Diz-me simplesmente o que vês.

— Bom, a cara é estranha, com tantas cores, embora sejam lindas e seja como se se misturassem para parecer pele — replicou Žofie, com incerteza. — Tem o nariz grande e o queixo muito comprido, como se estivesse a pintar o seu reflexo num espelho distorcido.

— Muitos pintores chegaram a ser quase analíticos na sua abstração — explicou Lisl. — O Picasso. O Mondrian. O Kokoschka é mais emocional, mais intuitivo.

— Porque se descreve como degenerado?

— É irónico, Žofe — explicou Stephan. — É assim que o Hitler chama os artistas como ele.

Žofe, não Žofie. Gostava quando Stephan a chamava assim, como quando a irmã lhe chamava Žozo.

Chegaram ao retrato de uma mulher cujo rosto e cujo cabelo preto formavam quase um triângulo perfeito. Os olhos da mulher eram de tamanho diferente e tinha manchas vermelhas e pretas na cara. Além disso, a posição das mãos era assustadora.

— É bastante feia e até chega a ser bonita também — comentou Žofie.

— É verdade — concordou Lisl.

— Este é como o retrato que há na tua entrada, Stephan — observou Žofie-Helene. — A mulher com as faces arranhadas.

— Sim, esse também é um Kokoschka — confirmou Lisl.

— Mas esse é um retrato seu — disse Žofie-Helene. — E é mais bonito.

Lisl deixou escapar uma gargalhada calorosa e amável e pôs-lhe uma mão no ombro. Às vezes, o pai também costumava pôr-lhe a mão no ombro. Žofie ficou ali, desejando que aquela carícia durasse para sempre, desejando ter um retrato do pai pintado por esse tal Oskar Kokoschka. Tinha fotografias, mas as fotografias pareciam menos verdadeiras do que aqueles quadros, apesar de serem mais reais.

PÉS DESCALÇOS NA NEVE

Truus e Klara van Lange estavam sentadas à frente de uma secretária cheia de coisas no escritório do senhor Tenkink em Haia, onde também estava o senhor Van Vliet, do Ministério da Justiça. Tenkink tinha na mesa uma autorização para permitir que as crianças do bosque dos Weber ficassem na Holanda; uma autorização que a própria Truus redigira e que só precisava da assinatura do senhor Tenkink. Descobrira que quantas mais facilidades desse a alguém para aceitar alguma coisa, mais provável era que aceitasse.

— Crianças judias? — estava a dizer Tenkink.

— Temos casas onde podemos alojá-las — declarou Truus, ignorando o olhar de Klara van Lange. Klara valorizava muito mais do que ela a verdade absoluta, mas era muito jovem e não estava casada há muito tempo.

— É uma situação difícil, entendo, senhora Wijsmuller — disse Tenkink. — Mas metade dos holandeses simpatiza com os nazis agora e o resto não quer transformar-se num esgoto de judeus.

— O governo quer acalmar o Hitler… — interveio o senhor Van Vliet.

— Sim — interrompeu Tenkink —, e roubar as crianças de um país não é próprio de um bom vizinho.

Truus tocou no ombro de Van Vliet. Tenkink era um homem que respondia melhor às mulheres. Havia muitos homens assim, até os bons. Então, desejou ter trazido as crianças consigo. Era muito mais difícil ignorar uns cabelos frisados e uns olhos esperançados do que ignorar a ideia de uma criança ou de onze. Contudo, parecia-lhe cruel tirar aquelas pobres crianças da cama e pô-las num comboio desde Amesterdão até Haia só para as mostrar a um homem que deveria ser capaz de tomar a decisão correta e que sempre se deixara persuadir para isso.

— A rainha Wilhelmina entende o problema dos alemães que desejam livrar-se da fúria do Hitler — disse Truus a Tenkink.

— Até a família real… — respondeu ele. — Deve entender a magnitude do problema judeu. Se o Hitler cumprir a ameaça de anexar a Áustria…

— O chanceler Schuschnigg tem os líderes nazis austríacos atrás das grades, senhor Tenkink — recordou-lhe Truus —, e não há cidade no mundo que dependa mais dos judeus do que Viena. Quase todos os seus médicos, advogados e banqueiros e metade dos seus jornalistas são judeus de nascimento, se não praticantes. Imagina mesmo que um golpe contra o dinheiro e a imprensa austríacos poderia ter sucesso?

— Senhora Wijsmuller, não estou a dizer que não — redarguiu Tenkink —, só sugiro que seria mais fácil se as crianças fossem cristãs.

— Tenho a certeza de que a senhora Wijsmuller o terá em conta da próxima vez que tirar as crianças de um país que já fez os seus pais desaparecer — comentou Klara.

Truus conteve um sorriso e pegou numa fotografia emoldurada que havia entre os montes de papéis da secretária do senhor Tenkink: Nela, via-se um jovem Tenkink com a esposa, dois filhos e um bebé bochechudo. O descaramento de Klara era parte da razão por que Truus lhe pedira para a acompanhar naquela visita.

— Que família tão encantadora, senhor Tenkink — comentou Truus.

Recostou-se na cadeira, tentando não mostrar as suas cartas, e permitiu que o senhor Tenkink elaborasse um monólogo de orgulho paterno que, ao fim e ao cabo, ela própria encorajara. A paciência era uma das suas virtudes.

Devolveu a fotografia a Tenkink, que sorriu com carinho.

— Uma das crianças alemãs é um bebé, ainda mais pequeno do que a sua filha nessa fotografia, senhor Tenkink — disse Truus, usando o termo «alemãs» e não «judias», afastando o foco dessa característica que era a que mais preocupava Tenkink, antes de ir direta à questão enquanto ele ainda segurava a fotografia dos filhos. — Tenho a certeza de que até o mais frio dos corações poderá ter piedade de um bebé.

Tenkink olhou para a autorização que estava na secretária e, depois, olhou para Truus.

— Menino ou menina?

— O que prefere, senhor Tenkink? Não há maneira de o saber com os bebés quando estão bem agasalhados para que a imprensa os admire.

Tenkink, abanando a cabeça, assinou a autorização e disse:

— Senhora Wijsmuller, quando os nazis invadirem a Holanda, espero que ponha a mão no fogo por mim. Parece que consegue convencer qualquer pessoa do que quiser.

— Deus não o queira — disse Truus. — Mas, nesse caso, sem dúvida, Ele porá a mão no fogo por si, senhor Tenkink. Obrigada. Há muitas crianças que precisam da nossa ajuda.

— Bom — começou a dizer o senhor Tenkink —, se não desejar mais nada…

— Entendo que é impossível — interrompeu Truus —, mas ouvi dizer que, em Hamburgo, um grupo das SS tirou trinta órfãos da cama e deixou-os na rua de pijama.

— Senhora Wijsmuller…

— Trinta crianças de pijama, com os pés descalços, na neve, enquanto as SS pegavam fogo ao seu orfanato.

— O que aconteceu ao «apenas onze»? — perguntou Tenkink, com um suspiro. Olhou para a fotografia da família e acrescentou: — E suponho que essas trinta também sejam judias. Tenciona salvar todos os judeus do Reich?

— Alojam-se na Alemanha em casa de cidadãos não judeus — explicou Truus. — Não é necessário dizer-lhe o que os nazis fazem aos cristãos que desafiam as suas proibições de ajudar os judeus.

— Com o devido respeito, senhora Wijsmuller, a proibição nazi de ajudar os judeus também afeta as mulheres holandesas que atravessam a fronteira para…

Truus olhou com insistência para a fotografia da sua família.

— Mesmo que pudesse ajudar — continuou Tenkink —, diz-se que, em breve, aprovaremos a lei que fechará a nossa fronteira. Talvez seja em poucas semanas ou até dias. Se não tem a informação necessária, não vejo como…

Truus entregou uma pasta castanha com cordões verdes que continha toda a informação de que precisaria, classificada corretamente. Era uma forma mais fácil de o fazer aceitar.

— Está bem, está bem — acedeu Tenkink, abanando a cabeça. — Verei se consigo fazer com que as aceitem temporariamente. Só até lhes encontrarem lares fora da Holanda. Fica claro? Têm família noutro lugar, na Inglaterra ou nos Estados Unidos?

— Sim, é claro, senhor Tenkink — replicou Truus. — É por isso que estão descalços no meio da neve a ver como queimam o seu orfanato judeu.

EXPOSIÇÃO DA VERGONHA

Lisl Wirth estava junto do marido na galeria de Munique, no último dia da exposição: Obras cubistas, futuristas e expressionistas que tinham sido expulsas dos museus alemães por não cumprirem os «padrões» artísticos do führer, todas expostas de má maneira e com preços destinados a fazer com que os visitantes se rissem. Qualquer pessoa com um pouco de sentido artístico perceberia que a outra exposição de Munique, a Exposição da Grande Arte Alemã, localizada na nova Haus der Deutschen Kunst de Hitler, estava cheia de paisagens incompetentes e nus aborrecidos em comparação. Como é que alguém podia fazer nus tão aborrecidos como aquela «grande» arte alemã? E esta era a «arte degenerada»? O Paul Klee que tinha à sua frente era lindo na sua simplicidade; as linhas ásperas da cara do pescador, a curva elegante dos seus braços, a longitude da cana de pesca num azul tão variado e evocador como o próprio mar. Fê-la pensar em Stephan, embora não soubesse porquê. Não achava que o seu sobrinho alguma vez tivesse ido à pesca.

— Gostas? — perguntou a Michael, surpreendendo-se com a pergunta. Até há poucas semanas, teria tido a certeza de que adoraria, mesmo que fosse apenas porque ela também gostava. — O Klee, O Pescador — disse e teve de especificar a qual se referia, porque os quadros estavam todos misturados, uma falta de respeito que era evidente graças às palavras das paredes: A loucura torna-se método.

Em vista do silêncio de Michael, Lisl concentrou-se nas palavras.

Ouviu gargalhadas atrás dela, as pessoas de mentes fechadas a comportar-se como se esperava delas.

Baixou o tom de voz e disse a Michael:

— Pensava que o Goebbels gostava dos modernistas.

Michael olhou para ela com inquietação.

— Isso era antes de o Hitler dizer no seu discurso que a arte degenerada minava a cultura alemã, Lis. Antes de promover o Wolfgang Willrich e o Walter Hansen.

Dois denunciantes — artistas falhados, mas denunciantes experientes — encarregados de estipular que arte devia aplaudir-se e que arte devia desprezar-se.

— Esta exposição foi ideia do Goebbels e é um gesto político muito inteligente.

Lisl afastou-se do quadro de Klee e de Michael. Quando é que o marido se transformara em alguém que valorizava a astúcia política acima da expressão artística?

Até Gustav e Therese Bloch-Bauer pareciam indiferentes ao assalto nazi à cultura, embora todos estivessem demasiado ocupados com as suas famílias e as suas vidas para se aperceberem das nuvens políticas que se acumulavam por cima da fronteira entre a Alemanha e a Áustria. Todos pensavam que Hitler era uma moda alemã passageira, que não aconteceria na Áustria, que a Áustria sobrevivera ao assassinato do chanceler Dollfuss e à tentativa de golpe de estado nazi há três anos e também sobreviveria a isto. Além disso, as pessoas tinham negócios para gerir, crianças para criar, festas para ir, retratos para os quais posar e arte para comprar.

Lisl fingiu interesse noutro quadro, noutra escultura, até acabar numa sala diferente da do marido, admirando um autorretrato de Van Gogh. Chagalls, Picassos e Gauguins, uma parede dedicada, de forma pouco lisonjeira, aos dadaístas. Ao chegar a uma divisão que catalogou como «a sala dos judeus», percebeu a situação delicada em que se encontrava. «Revelação da alma racial judia», estava escrito numa parede. Os quadros pareceram-lhe extraordinários. Esperava que, fosse o que fosse que revelassem, refletisse um pouco da sua própria alma.

Contudo, era uma mulher judia a deambular sozinha por uma reunião hostil na Alemanha.

Aquele medo súbito era ridículo. Munique era do outro lado da fronteira. Em menos de uma hora, poderia estar de volta à Áustria.

Mesmo assim, foi procurar Michael novamente.

Viu-o à frente de um Otto Dix de uma mulher grávida que tinha a barriga e os seios tão deformados que Lisl quase sentiu alívio por não poder ficar grávida. No entanto, a cara de Michael enquanto admirava o quadro era de um desejo profundo. Sempre dissera que não precisava de um herdeiro, que Walter se encarregaria do negócio chocolateiro da família dela e Stephan ficaria com o banco da família dele. Um banco que só sobrevivera graças ao dinheiro da família de Lisl, embora não tencionasse dizê-lo. Michael era um homem orgulhoso de uma família orgulhosa que atravessara um período de azar, como muitas outras depois de os mercados financeiros caírem, e Lisl nunca faria nada que pusesse o orgulho do seu marido em perigo, do mesmo modo que ele nunca lho faria. Stephan era como um filho para Michael, era o que o marido dizia sempre, e Walter também era. Porém, mesmo antes daquele momento, da revelação da sua expressão de desejo, Lisl já percebera que se passava alguma coisa, que Michael parecia cada vez menos devoto da educação universitária e dos encantos intelectuais que sempre dissera que eram a razão por que se apaixonara por ela.

Fez uma pergunta a um desconhecido para que Michael ouvisse a sua voz e tivesse tempo de recuperar a compostura. Depois de o fazer, Lisl aproximou-se dele, segurou-lhe o braço e disse: «Poderíamos comprar esse Klee», só para dizer alguma coisa. Mas não o comprariam, nem ali nem em nenhum outro lugar, e não só porque tinha um preço exagerado.

JUNTO AO CAIS

O céu toldado ameaçava trazer mais neve, que cobriria a geada imunda das calçadas e dos canais gelados. Truus, que andava junto de Joop, passou à frente de três barcos incrustados no Herengracht, que já estava tão gelado que, em Amesterdão, começara a especular-se que, nesse ano, talvez pudesse realizar-se a Elfstendentocht pela primeira vez desde 1933. Junto da ponte situada à frente do seu apartamento, havia um pequeno grupo de adultos no meio do canal, com as crianças a patinar à sua volta ou simplesmente a deslizar com as botas. Aquela era a sua parte favorita do dia — Joop e ela a voltar para casa juntos como faziam quando Joop começara a cortejá-la, quando ela acabara os seus estudos na Escola de Comércio e começara a trabalhar no mesmo banco onde ele trabalhava.

— Não te digo que não, Truus — estava a dizer Joop. — Não o proíbo. Sabes que nunca te proibiria de fazer algo que fosse importante para ti.

Truus afundou as mãos enluvadas nos bolsos do seu casaco. Joop não tencionava criar uma discussão ou menosprezá-la. Era apenas a forma inconsciente de falar de alguns homens, mesmo os homens bons como ele, homens que se tinham tornado maiores de idade quando as mulheres nem sequer tinham conseguido o direito ao voto; quando, de facto, só os homens ricos tinham esse direito.

Observaram como um menino pequeno, que mal sabia patinar, quase fez a irmã cair.

— Eu também não te proibiria de fazer algo que fosse importante para ti, Joop — disse ao marido.

Ele riu-se com carinho, pôs-lhe as mãos enluvadas nos cotovelos e deslizou-as para baixo para lhe tirar as dela dos bolsos e apertar-lhas.

— Está bem, merecia isso — concedeu. — Devia ter figurado nos nossos votos matrimoniais: Amor, honra e que nem pensemos em proibir alguma coisa, seja importante ou não.

— Não achas que é importante salvar trinta órfãos que os nazis deixaram na rua de pijama no meio da neve?

— Também não queria dizer isso — respondeu ele, com paciência. — Sabes que não me referia a isso. Mas pensa nisto. A situação na Alemanha está a piorar e preocupo-me contigo.

Truus ficou parada ao seu lado, observando os patinadores, a irmã que, agora, ajudava o irmão a levantar-se do gelo.

— Bom, se estás decidida a ir — disse Joop —, gostaria que o fizesses antes de a situação piorar.

— Estou à espera que o senhor Tenkink consiga os vistos de entrada, Joop. Não dizias que tinhas alguma coisa para me contar?

— Sim. Esta tarde, recebi uma chamada muito estranha no escritório. O senhor Vander Waal, já o conheces, diz que um dos seus clientes tem a certeza de que tens algo de valor que lhe pertence. Algo que lhe trouxeste da Alemanha.

— Algo que lhe trouxe? Porque haveria de fazer passar alguma coisa na fronteira para um total desconhecido? — Franziu o sobrolho, preocupada enquanto olhava para os patinadores, o pai da menina e do menino, que se aproximava dos filhos e dava a mão ao menino. — Limito a minha mercadoria valiosa às crianças, juro-te.

— Foi o que lhe disse — replicou Joop. — Garanti-lhe que não terias nada a ver com isso.

No gelo, a irmã apertou a outra mão do irmão. O pequeno disse alguma coisa que fez a família rir-se e afastaram-se a patinar para a ponte para a atravessar por baixo. O pai despediu-se dos outros adultos e gritou que voltariam a ver-se em breve. Truus desviou o olhar e observou o céu cinzento através das árvores nuas. Quantas vezes vira os grupos de pais, que falavam entre eles enquanto os filhos patinavam à sua volta? Mas nunca com Joop. Era uma parte de si própria que escondia, até mesmo do marido. Depois do seu terceiro aborto, Joop e ela tinham concentrado a sua atenção noutras coisas. Ela concentrara-se na Associação pelos Interesses das Mulheres e da Igualdade de Cidadania, no trabalho social e em ajudar as crianças como aquelas que os pais tinham acolhido.

Ouviu-se o apito de um comboio ao longe. Truus continuava a olhar para o canal gelado, com as mãos protegidas pelas de Joop, questionando-se se o marido alguma vez iria lá a sós para observar as famílias. Sabia que desejava tanto ter um filho como ela ou mais. Porém, Truus escondera a dor, tal como ele, para não lha atirar à cara num descuido. Agora, depois de passar anos a evitar o assunto dos filhos, transformara-se num costume impossível de quebrar. Truus, por muito que desejasse fazê-lo, não conseguiria acariciar a cara de Joop e dizer: «Alguma vez vens cá para ver as crianças, Joop? Observas os pais? Alguma vez pensas que podíamos voltar a tentar mais uma vez antes de ser demasiado tarde?» Ficou parada ao seu lado, a olhar para os patinadores no gelo, para os pais a conversar e para os barcos gelados no canal que sugeriam um futuro para o qual ainda restava um longo inverno.

DIAMANTES, NÃO IMITAÇÕES

Depois de Joop ter ido trabalhar na manhã seguinte, Truus procurou na cómoda e pegou na caixa de fósforos que o homem do comboio lhe dera. Passara realmente um ano? Abriu-a em cima da mesa da cozinha e extraiu aquele disco horrível de cascalho. Esfregou-o com o polegar até caírem pedacinhos de cascalho.

Levou-os para o lava-loiça e pô-los com cuidado numa tigela, que depois encheu de água. Esfregou os pedaços inundados com os dedos e a água tornou-se turva. Tirou-os e deixou-os em cima da palma húmida da sua mão.

Era verdade: Deixamo-nos enganar com mais facilidade quando nós próprios fazemos parte do engano.

Ligou para o escritório do senhor Vandel Waal.

— Senhor Vander Waal — disse —, parece que lhe devo um pedido de desculpa. O meu marido enganou-se. Parece que realmente tenho uma coisa para o doutor Brisker.

Devia haver talvez uma dúzia de diamantes sem polir naquela «pedra da sorte». Um valor suficiente para começar uma nova vida. Esse tal doutor Brisker correra o risco de tirar o seu tesouro secreto do país escondido nela, dando-lhe significado suficiente para evitar que o atirasse para o lixo. Pusera em perigo a vida de três crianças só para tirar parte da sua riqueza da Alemanha. E ela fora uma ingénua.

MOTORSTURMFÜHRER

O Judentagung de Berlim organizado pelo Departamento de Segurança foi um triunfo para Eichmann. Dennecker e Hagen falaram primeiro. Dennecker falou sobre a necessidade de vigiar constantemente os judeus e Hagen, sobre as complicações de uma Palestina independente que conseguiria defender os direitos de ditos judeus. Quando Eichmann ocupou o pódio, sentiu-se tão livre como quando, ainda jovem, percorria a Áustria na sua mota, quando, acompanhado pelos seus amigos, defendia os oradores nazis visitantes à frente das multidões enfurecidas que lhes atiravam garrafas de cerveja e comida podre. A viagem à Palestina, embora tivesse sido um fracasso, servira para afiançar os seus conhecimentos sobre o problema judeu. Agora, era um dos oradores e a multidão reunida no Judentagung gritava o seu apoio.

— O verdadeiro espírito da Alemanha reside no povo, nos seus camponeses e na paisagem, no sangue e na terra da nossa pátria imaculada — declarou. — Agora, enfrentamos a ameaça de uma conspiração judia que só eu sei como revogar.

A multidão aplaudiu quando lhes falou das armas e da força aérea que a Haganá da Palestina juntara, dos judeus estrangeiros que se faziam passar por empregados de organizações internacionais para juntar informação de contrabando que pudessem usar contra o Reich, sobre a conspiração antialemã ampla liderada pela Alliance Israélite Universelle, para a qual uma fábrica de margarina Unilever agia como cobertura.

— A forma de resolver o problema judeu não é através de leis que restrinjam a atividade dos judeus na Alemanha, nem sequer da brutalidade na rua! — gritou para multidão febril. — O que precisamos é de identificar os judeus do Reich. Pôr os seus nomes numa lista. Identificar as oportunidades que lhes permitam emigrar da Alemanha para países inferiores. E, o mais importante, despojá-los das suas riquezas para que, confrontados com o dilema de ficar na pobreza ou ir-se embora, os judeus escolham ir-se embora.

DECISÕES

Aquela manhã invernal ainda não amanhecera por trás da janela quando Truus se sentou a tomar o pequeno-almoço com Joop. Agarrou na secção da frente do jornal enquanto dava a primeira trinca ao uitsmijter, com o ovo, o presunto e o queijo ainda quentes.

— Meu Deus, fizeram-no, Joop! — exclamou.

Joop sorriu com atrevimento do outro lado da mesa.

— Cortaram mais as bainhas? — perguntou. — Sei que preferes as saias mais compridas, mas tens os joelhos mais bonitos de Amesterdão.

Atirou-lhe um pedaço de pão. Joop apanhou-o no ar e pô-lo na boca antes de devolver a atenção ao seu prato e saborear o pequeno-almoço de um modo que Truus admirava, mas que nunca conseguiria imitar, nem sequer quando as notícias eram boas.

— O nosso governo aprovou a nova lei para proibir a imigração do Reich — esclareceu.

Joop pousou o uitsmijter e dedicou-lhe toda a sua atenção.

— Sabias que iam fazê-lo, Truus. Há já um ano que o governo «protege» quase qualquer profissão que um estrangeiro pudesse desempenhar.

— Pensei que éramos melhor do que isto. Fechar a fronteira totalmente?

Joop agarrou na primeira página e leu o artigo enquanto Truus se repreendia mentalmente. Devia ter pressionado mais o senhor Tenkink para ajudar os trinta órfãos de Hamburgo. Trinta. Demasiados para os fazer passar por filhos dela num passaporte onde não figuravam filhos, mas devia ter tentado.

— Ainda podemos dar abrigo aos que correm perigo — disse Joop, devolvendo-lhe o jornal.

— Aqueles que consigam provar que correm perigo físico. Que judeu na Alemanha não corre perigo? Mas que prova é que alguém tem do perigo físico até os nazis os agarrarem e os expulsarem e ser demasiado tarde?

Truus voltou a juntar as secções do jornal, pensando nos horários do comboio para Haia. Aquilo era algo que não poderia mudar, o que o seu governo fizera, mas talvez conseguisse convencer Tenkink a abrir uma exceção.

— Geertruida… — murmurou Joop.

Geertruida. Sim, então, voltou a baixar o jornal. Olhou para o cabelo do marido, com cabelos brancos nas têmporas, o queixo robusto, a orelha esquerda ligeiramente maior do que a direita ou talvez fosse a que se realçava mais. Mesmo depois de todos aqueles anos, Truus ainda não tinha a certeza.

— Geertruida — repetiu Joop —, alguma vez pensaste em acolher algumas dessas crianças, como a tua família fez na Grande Guerra?

— Para que vivam connosco? — perguntou ela, com cautela.

Ele assentiu.

— Mas são órfãos, Joop. Não têm pais para quem regressar.

Joop assentiu novamente, sem desviar o olhar. Truus viu no brilho dos seus olhos claros, na sua tentativa de esconder os seus pensamentos, que ele também passava pelo canal para ver as crianças a brincar e os pais a conversar.

Esticou o braço por cima da mesa e apertou-lhe a mão, tentando agarrar-se a um sentimento avassalador de esperança. Joop sentia-se incomodado quando ela era sentimental.

— Temos o quarto extra — replicou.

Ele cerrou os dentes, o que acentuou o seu queixo robusto.

— De todas as formas, estive a pensar que devíamos mudar-nos para um lugar maior.

Truus olhou para o jornal, para o título sobre a nova lei de imigração.

— Para um apartamento maior? — perguntou.

— Podíamos ter uma casa independente.

Ao sentir o aperto da sua mão, soube que aquilo era o que desejava, tal como ele. Um tipo de família diferente. Uma família que escolhiam, não uma que era enviada por Deus. Crianças que escolhia amar.

— Seria difícil para ti quando eu não estivesse cá — indicou Truus.

Joop recostou-se na cadeira e afrouxou um pouco a pressão da mão. Percorreu com os dedos os anéis que usava: A aliança de ouro, símbolo do seu casamento; o rubi verdadeiro, não as cópias que fizera para os subornos pouco depois de começar a atravessar a fronteira com as crianças; e as alianças entrelaçadas que Joop lhe oferecera da primeira vez que ficara grávida, para marcar o começo da família que achavam que teriam.

— Não — disse o marido. — Não, seria impossível tomar conta das crianças se não estivesses cá, Truus, mas, com esta nova lei, já não poderás continuar a trazer crianças da Alemanha.

Truus olhou para Nassaukade, para o canal, para a ponte e para Raampoort. Tudo continuava às escuras. Do outro lado do canal, noutra janela iluminada do terceiro andar, um pai baixava-se junto de uma criança, que continuava sentada na cama. Amesterdão estava a acordar. Por enquanto, as ruas continuavam vazias, mas depressa se encheriam de crianças com livros a caminho da escola, homens que iam trabalhar e mulheres como ela própria que iam ao mercado ou que empurravam carrinhos de bebé, passeando aos pares ou em pequenos grupos, mesmo em manhãs frias como aquela.

AS MATEMÁTICAS DA CANÇÃO

— O que estamos a fazer aqui? — sussurrou Žofie-Helene a Stephan. Tinham acabado de sair de um corredor que cheirava a incenso e encontraram uma fila de adultos bem vestidos que desciam umas escadas, à espera de entrar na Hofburgkapelle. Žofie fizera exatamente o que Stephan lhe ordenara, embora se recusasse a explicar porquê: Vestira roupa elegante e encontrara-se com ele na estátua de Hércules de Heldenplatz.

— Vamos para a fila para receber a comunhão, juntamente com as pessoas que saem das galerias superiores — explicou Stephan.

— Mas não sou católica.

— Eu também não.

Žofie seguiu-o até à capela. Era surpreendentemente estreita e simples, para a capela de um palácio real; uma divisão de aspeto gótico, rodeada de balcões de onde a banda tocava e o coro cantava, mas era tudo branco. Até a vidraça situada atrás do altar só estava pintada na parte superior, algo muito desequilibrado.

Žofie aceitou um pedaço de pão asqueroso e um gole de vinho azedo.

— Era indigesto — sussurrou a Stephan, enquanto se afastavam do altar.

— Suponho que, na tua igreja, sirvam bolo Sacher, não é? — replicou, com um sorriso.

As pessoas com quem tinham descido voltaram a subir as escadas, mas Stephan ocupou um lugar num extremo da capela e Žofie esperou junto dele. Quando a comunhão acabou, guiou-a até dois lugares livres situados na parte de trás. Sentaram-se à espera que a missa acabasse e ele escreveu no seu diário: «Comunhão = indigesta.»

Por alguma razão que Žofie desconhecia, continuaram ali sentados, mesmo depois de a missa acabar. Quase todos ficaram, embora o sacerdote se fosse embora. Devolveu a atenção ao teto, à abóbada em cruzaria sem pinturas em que o peso das ogivas repousava sobre os pilares das intercessões e o impulso se transmitia para as paredes exteriores. Se estivesse com qualquer outra pessoa que não fosse Stephan, nunca teria tolerado estar sentada numa capela sem fazer absolutamente nada, mas Stephan tinha sempre uma razão para fazer as coisas.

— Sabes porque o teto não cai? — sussurrou.

Stephan pôs-lhe uma mão na boca. Depois, tirou-lhe os óculos, limpou-os com o cachecol e voltou a pôr-lhos. Sorriu e, depois, tocou no colar com o símbolo do infinito.

— Na verdade, não foi um presente do meu pai — disse-lhe ela. — Era um alfinete de gravata que ganhou na escola. O meu avô mandou transformá-lo num colar para mo oferecer quando o meu pai morreu.

Fileiras de rapazes jovens vestidos com um uniforme de marinheiro azul e branco começaram a encher o lugar e a pôr-se em fila à frente do altar. Depois de um instante de silêncio, uma voz bonita cantou do coro, a primeira nota aguda do Ave Maria de Schubert. Na voz pura daquele rapaz, as notas gotejavam ritmicamente, para baixo e depois para cima, para voltar a descer e pousar num lugar dentro de Žofie que nem ela própria sabia que existia. À voz do rapaz, seguiu-se o coro inteiro de vozes masculinas, cujo eco ricocheteava na pedra branca do teto abobadado, rodeando-a por todas direções, misturando-se na sua mente com uma equação que passara vários dias a tentar resolver, como se fizesse parte do próprio céu. Ficou ali sentada, deixando que a música enchesse os vazios entre os números e símbolos da sua mente e, depois, ficou sentada no silêncio enquanto os outros se iam embora, até restarem apenas Stephan e ela, sentados lado a lado na capela vazia, o lugar mais cheio que alguma vez vira.

KIPFERL E CHOCOLATE QUENTE VIENENSE

Em Michaelerplatz, à frente da Hofburgkapelle e do palácio, estava um dia brilhante, ensolarado e frio e, por todo o lado, havia panfletos e cartazes que proclamavam «Claro!» e «Com o Schuschnigg por uma Áustria livre!», ou «Vota Sim» no plebiscito que o chanceler Schuschnigg convocara para decidir se a Áustria devia continuar a ser independente da Alemanha. Nas paredes dos edifícios e nas calçadas, tinham pintado cruzes brancas da Frente da Pátria Austríaca, o partido do chanceler. As multidões e os grupos juvenis entoavam «Heil Schuschnigg», «Heil liberdade» e «Vermelho, branco, vermelho até à morte!», enquanto os outros gritavam «Heil Hitler!».

Žofie tentava ignorá-los a todos. Tentava agarrar-se à música e à matemática que ainda se misturavam no seu interior enquanto percorria a Herrengasse com Stephan para o Café Central. Se os gritos da multidão incomodavam Stephan, não disse nada, embora não tivesse dito nada desde que começara a música na capela. Žofie supunha que aquela melodia mudara o seu mundo de palavras, tal como mudara o seu mundo de números e símbolos. Imaginava que fora por isso que se tinham tornado tão bons amigos, embora Stephan conhecesse outros há muito mais tempo do que a conhecia, porque a escrita dele era como a matemática dela num sentido que ambos entendiam, ainda que, na verdade, não tivesse sentido.

Estavam a empurrar as portas de vidro do Café Central quando Stephan falou finalmente. Agora, tinha os olhos secos, ainda que, na capela, tivessem humedecido, o que ela imaginava que o teria envergonhado à frente dos seus amigos do café.

— Imagina, Žofe, se eu conseguisse escrever uma coisa dessas — replicou.

Para além da vitrina dos bolos, no outro extremo do café, os seus amigos estavam sentados em torno de duas mesas juntas do lado das estantes da imprensa, já reunidos à espera de Stephan.

— Mas escreves peças de teatro, não música — indicou Žofie.

Stephan deu-lhe um empurrão suave no ombro, como costumava fazer ultimamente. Žofie sabia que o fazia a modo de brincadeira, mas, mesmo assim, adorava sentir a sua carícia.

— Tão asquerosamente brilhante, tão tecnicamente correta… E tão abismalmente errada — redarguiu. — A música não, idiota. Uma obra que emocionasse as pessoas dessa forma.

— Mas…

«Mas consegues fazê-lo, Stephan.»

Žofie não soube porque parou antes de dizer aquelas palavras em voz alta, tal como não sabia porque não dera a mão a Stephan na capela. Talvez pudesse ter-lhe dito lá, no silêncio depois da música, como lhe falara do colar. Ou talvez não. Era avassalador aperceber-se de que conhecia alguém que poderia fazer algo tão mágico como aquilo algum dia, se continuasse a entrelaçar palavras, a criar histórias e a ajudar os outros a torná-las realidade. Era avassalador pensar que as suas obras talvez acabassem por se representar no Burgtheater algum dia, que as suas palavras se recitariam à frente de um público que riria ou choraria e que, no fim, se levantaria e aplaudiria, como o público fazia nas melhores peças, aquelas que os arrancavam de um mundo e os deixavam noutro que nem sequer existia realmente. Ou existia, mas só na imaginação dos que viam a peça, só durante aquelas poucas horas na escuridão. O paradoxo do teatro: Real e irreal ao mesmo tempo.

* * *

Stephan queria pedir a Dieter para se mudar para o banco do fundo para poder sentar-se junto de Žofie, para continuar perto dela e da música do coro e do sentimento, da esperança que surgira no seu interior ao partilhar aquela música com ela. Se não tivesse vindo com ele à leitura da sua peça, teria agarrado no seu diário e teria ido diretamente da capela para o Café Landtmann ou melhor ainda, para o Griensteidl, onde ninguém o interromperia. Teria afundado os dedos nas palavras, para melhorar alguma das suas peças ou para começar uma nova. Porém, Dieter levantou-se para segurar a cadeira a Žofie. Tinham combinado encontrar-se para ler a peça de Stephan. Todos deviam conseguir ouvir por cima do barulho: A mesa do lado estava a meio de uma discussão acalorada sobre um exemplar da Neue Freie Presse que a tia Lisl lia às vezes e os jogadores de xadrez do outro lado também discutiam. Todos no café pareciam estar a especular sobre se a Áustria iria para a guerra com a Alemanha ou quando seria. De modo que Stephan ocupou o seu lugar habitual e pediu kaffee mit schlag e strudel de maçã. Depois, pediu ao empregado de mesa para trazer para Žofie — que dissera que não tinha fome — um kipferl e chocolate vienense, uma extravagância para ela que não era para ele e para o resto dos seus amigos.

UM CÓDIGO ERRADO

Os elétricos estavam tão vazios como as vias de comboio que passavam por baixo da ponte para a estação de Hamburgo, tão vazios como a própria estação de madrugada. No trajeto da pensão, Truus e Klara van Lange só se encontraram com um soldado, um jovem sargento que se virou para olhar para Klara. Truus sabia que era uma dificuldade que Klara chamasse tanto a atenção, que fosse tão memorável. Contudo, até as maiores dificuldades podiam transformar-se em vantagens. E tinham trinta órfãos para ir buscar, muitas mais crianças do que Truus conseguiria gerir sozinha.

— Vais fazê-lo lindamente, prometo-te — garantiu a Klara, quando passaram por baixo da suástica enorme colada à fachada horrível da estação. Era de vidro por cima? Estava tão sujo que era difícil de saber.

Desceram umas escadas sujas até uma plataforma suja, limparam um banco com um lenço e depositaram as malas de viagem junto delas em vez de as deixar no chão, que estava ainda mais sujo.

— Bom, isto é o que gostaria que fizesses — redarguiu Truus. — Haverá um soldado a fiscalizar o embarque no nosso vagão. Mostra-lhe o teu bilhete e pergunta-lhe em holandês se esse é o teu lugar. Talvez possas expressar confusão por não estares na primeira classe. Mas não demasiada confusão. Não queremos que te leve para um vagão melhor e me deixes sozinha com trinta crianças. Se não falares holandês, finge que falas alemão com muita dificuldade, o suficiente para fazer com que se sinta atraente. Entendes?

— Não temos papéis para as crianças? — perguntou Klara, indecisa.

— Temos, sim, mas quanto menos perguntas se fizerem, melhor.

Os vistos de entrada na Holanda eram reais, graças ao senhor Tenkink. Os vistos de saída da Alemanha podiam sê-lo ou não. Truus preferia pensar que eram.

— Já te disse que vais fazê-lo muito bem — garantiu a Klara —, mas, desta primeira vez, será mais fácil fazê-lo na tua própria língua.

Aquela primeira vez, que bem poderia ser a última. Tenkink conseguira os vistos de entrada, mas, com a nova lei — e a fronteira já fechada — não haveria mais. Talvez Joop tivesse razão. Talvez o melhor que podia fazer fosse acolher algumas das crianças, dar-lhes um lar.

— O medo pode afetar as mentes mais privilegiadas — disse a Klara.

Passado um instante, um chefe de estação aproximou-se. Parou à frente delas. Era um homem idoso com uma cara perturbadora, redonda, branca e tosca. O medo de Klara notava-se na sua atitude estática, como um instinto animal para passar despercebida, mas não importava. Ao fim e ao cabo, todos tinham medo na Alemanha ultimamente.

— Estão à espera de uma encomenda? — perguntou o homem.

— Uma entrega, sim — confirmou Truus, com suavidade.

— O comboio está uma hora atrasado — informou o chefe da estação.

Truus agradeceu pela informação e prometeu esperar.

— Parece um boneco de neve — sussurrou Klara, com um sorriso, quando o homem se afastava.

Truus recordou a imagem dos seus pais em Duivendrecht, a cara da mãe na janela enquanto a bola de neve do menino refugiado escorregava pelo vidro, a mãe a rir-se das crianças que se riam junto do boneco de neve que Truus as ajudara a fazer. Era verdade que o chefe da estação se parecia um pouco com um boneco de neve, a alcunha condizia. E, além disso, dizia muito de Klara van Lange. Estava assustada, mas não suficientemente assustada para não conseguir usar o humor para enfrentar a situação.

— Talvez te sintas menos nervosa se responderes ao chefe da estação da próxima vez que vier, Klara — sugeriu. — Perguntará se estamos à espera de uma encomenda e devemos responder: «Uma entrega, sim.»

— Uma entrega, sim — repetiu Klara.

Passado um instante, um chefe da estação voltou a aproximar-se. Truus esperou que estivesse suficientemente perto para distinguir o seu rosto por baixo do chapéu. Não era o boneco de neve.

— Estão à espera de uma encomenda? — perguntou.

Truus, tocando inconscientemente no rubi que tinha por baixo da luva, fez um gesto com a cabeça a Klara.

— Uma encomenda, sim — respondeu Klara.

— Uma entrega, sim — corrigiu Truus.

O homem olhou, nervoso, em torno da estação, mas manteve-se firme. Uma pessoa que estivesse a observá-lo de longe não teria percebido a preocupação.

— Uma entrega, sim — repetiu Truus.

Truus teria querido enviar uma prece silenciosa, mas não podia permitir a distração.

Os sinos de Hamburgo começaram a dar as seis.

— Receio que o caos na Áustria tenha feito com que a entrega de pacotes seja impossível esta manhã — disse o homem, finalmente, por cima dos sinos.

— Impossível. Entendo — confirmou Truus.

Estaria a cancelar a transferência porque Klara se confundira com o código ou estaria a dizer a verdade?

Truus esperou com paciência enquanto o chefe da estação voltava a olhar para Klara, que sorriu com doçura. A cara do homem iluminou-se.

— Voltaremos amanhã, então — anunciou Truus. Não foi uma pergunta direta, pois não queria arriscar-se a uma negativa, mas elevou ligeiramente o tom de voz no fim da frase para deixar claro que entendia o seu dilema, que um código errado devia fazê-lo hesitar. — A minha amiga nunca esteve em Hamburgo — acrescentou. — Posso mostrar-lhe a cidade e voltaremos amanhã.

Quando Truus e Klara se aproximavam das escadas para sair da estação, alguém agarrou na mala de Klara e disse: «Deixe-me ajudá-la com isso», assustando ambas. Também agarrou na mala de Truus e sussurrou: «O homem que está à direita ao fundo das escadas seguiu-vos desde a pensão. Será melhor irem para a esquerda ao sair da estação e darem uma volta ao quarteirão.» Devolveu-lhes as malas ao chegar ao fundo da escada e afastou-se para a direita. Truus viu-o a passar junto de um homem que lhe pareceu familiar, um homem da pensão que a abordara em referência a um possível contrabando de moedas de ouro para a Holanda; uma armadilha da Gestapo que ela sabia que devia evitar. Mesmo assim, apalpou os bolsos e lembrou-se do doutor Brisker, que lhe dera a sua «pedra da sorte». Ele também assegurara que estava a ajudá-la.

ESCREVER ENTRELINHAS

Stephan tapou a mãe com a manta, sentada num divã à frente da lareira, enquanto a tia Lisl, que chegara bem cedo de manhã sem o tio Michael, voltava a ajustar o volume do rádio. As cortinas estavam corridas e deixavam na penumbra as estantes de livros, que subiam até ao teto do terceiro andar, interrompidas apenas pelo corrimão que rodeava o nível superior da biblioteca, as escadas e o corrimão de latão que adorava subir antes mesmo de saber ler. Supôs que fossem as cortinas corridas que tornavam o ambiente tão inquietante, como se houvesse algo sinistro no facto de ouvir o rádio quando lá fora, em Viena, estava uma manhã invernal ensolarada.

Tentava ler outra vez Episódio do Lago Genebra, um relato de Stefan Zweig sobre um soldado russo que um pescador italiano encontra nu numa balsa, um relato que o pai dizia que falava sobre a extinção dos valores humanos sob o mandato de homens como Hitler. No entanto, era difícil concentrar-se com o rádio ligado, com a notícia do plebiscito por uma «Áustria cristã independente» programado para dois dias mais tarde, embora Hitler já tivesse dito que era uma fraude que a Alemanha não aceitaria. «Lügenpresse», fora o que Hitler chamara à imprensa austríaca que publicasse qualquer outra coisa. Imprensa mentirosa.

— Como se esse louco não fosse um mentiroso — disse o pai para o rádio quando Helga, que acabara de entrar com o pequeno-almoço, tropeçou na cadeira de rodas vazia da mãe e quase deixou cair a bandeja de prata. — Como é que o Hitler conseguiu convencer a Alemanha de que as suas mentiras são a verdade e de que a verdade é a mentira?

— Aqui, senhor, na secretária? — perguntou Helga ao pai.

— Peter — sussurrou Walter ao seu coelho —, vamos tomar o pequeno-almoço na biblioteca!

Tomar o pequeno-almoço na biblioteca, ainda mais inquietante do que as cortinas corridas. Às vezes, levavam uma bandeja ao quarto da mãe nos seus piores momentos, mas servirem todos ali? E apenas pão preto, doce e ovos cozidos, sem salsichas ou patê de ganso. Nem sequer havia um sortido de pão kornspitz ou semmel e muito menos algum doce.

Stephan agarrou num pedaço de pão e untou-o com manteiga e doce para disfarçar o sabor a centeio. Depois de comer tudo o que pôde, para contentar a mãe, disse:

— Bom, vou levar a máquina de escrever para…

— Podes escrever aqui, na biblioteca — indicou o pai.

— Mas a mesa está cheia com as coisas do pequeno-almoço…

— Podes usar a mesa desdobrável do canto.

Era impossível escrever, exceto quando estava sozinho, mesmo em circunstâncias normais, e tomar o pequeno-almoço na biblioteca a ouvir Hitler a ameaçar o seu país era tudo menos normal. Na Alemanha, Goebbels garantia que toda a Áustria estava amotinada e que os austríacos estavam a pedir a intervenção dos alemães para restaurar a ordem. No entanto, do outro lado das cortinas corridas, as ruas de Viena estavam tranquilas. Um motim tranquilo, pensou Stephan. Žofie-Helene teria algum paradoxo dos dela para aquela situação.

Supostamente, devia encontrar-se com ela à frente do Burgtheater naquela tarde. Tinha uma surpresa para ele. Sem dúvida, nessa altura, já o deixariam sair. Até o pai dizia que não havia nenhum motim em Viena, que era uma mentira que Hitler inventara para justificar o envio de soldados para um país a que não pertenciam.

O pequeno-almoço deu lugar ao almoço, novamente, uma bandeja na biblioteca. Todos, exceto Walter, se inclinaram para o rádio, como se aquilo pudesse parar o fluxo de más notícias. Walter, expressando o mesmo aborrecimento que Stephan partilhava, começou a fazer girar o globo terrestre do pai com cada vez mais velocidade. Ninguém o repreendeu.

Stephan abriu a mesa desdobrável do canto e pôs a máquina de escrever em cima dela. Introduziu uma folha em branco e imaginou uma cena como a que se refletia no espelho pendurado no canto: Uma lareira acesa numa biblioteca de dois níveis, com livros, corrimões e escadas de mão, mas com as cortinas abertas. Pôs uma rapariga jovem com os óculos sujos no topo de uma das escadas, à procura de um livro de Sherlock Holmes. Começou a escrever a página do título. «O PARADOXO…»

— Agora não, querido — pediu a mãe. — Não ouvimos bem.

Continuou a escrever. «DO MENTIROSO.» Com a esperança de que a reprimenda fosse dirigida a Walter e ao globo terrestre.

— Stephan — repreendeu-o o pai. — Walter, tu também.

Contrariado, Stephan abandonou a máquina de escrever e selecionou um livro da estante das crianças. Depois, sentou Walter ao seu colo. Leu The Incredible Adventures of Professor Branestawm em voz baixa, as desventuras divertidas de um professor despistado que inventa caçadores de ladrões e máquinas para fazer torradas. Contudo, Walter começou a retorcer-se e Stephan depressa se aborreceu de ler em inglês. Fora por essa razão que a tia Lisl lhes trouxera aquele livro da sua última viagem a Londres, porque o pai queria que Walter e ele melhorassem o seu inglês.

— Podia levar o Walter ao parque — sugeriu, mas o pai mandou-o calar-se.

Stephan olhou para o relógio quando Helga serviu um jantar leve na biblioteca. Devia ligar a Žofie-Helene para lhe dizer que não conseguiria encontrar-se com ela, mas ainda tinha um pouco de tempo. Devorou parte do jantar — ouvindo como Hitler exigia ao chanceler Schuschnigg que cedesse todo o poder aos nazis austríacos ou enfrentaria a invasão — e, depois, voltou a sentar-se com a máquina de escrever. Poderia escrever enquanto comiam. Poderia capturar a cena: Uma rapariga com os óculos sujos servia-se de um prato de comida e sentava-se junto da lareira, como a tia Lisl fizera. O pai ofereceu um prato à mãe, antes de se servir. Decidiu que, afinal, as cortinas da divisão estariam corridas.

Tap, tap, tap. Tentou escrever sem fazer barulho — de Stephan Neuman —, mas a campainha do fim da linha misturou-se com as vozes do rádio.

— Stephan — queixou-se a mãe.

— Deixa que leve essa porcaria para outra divisão, Ruchele! — exclamou o pai, o que surpreendeu Stephan, pois tinha a certeza de que nunca ouvira o pai a falar assim com a mãe.

— Herman! — repreendeu-o a tia Lisl.

— Acho que foste tu que insististe que as crianças ficassem na biblioteca, Herman — indicou a mãe, com doçura.

Quando é que aquelas bochechas tinham aparecido na cara do pai? E as rugas nos olhos, na boca e na testa? A mãe estava doente desde que Stephan se lembrava, mas a deterioração do pai era nova e alarmante.

— Stephan, podes usar o meu escritório — declarou —, mas fica em casa. Poupa a tua mãe de ter de se preocupar contigo. E leva o Walter contigo.

— O Peter e eu queremos ficar com a mamã — queixou-se Walter.

— Bolas! — exclamou o pai. Outra surpresa. O pai era um cavalheiro e os cavalheiros não falavam assim.

Walter sentou-se no divã e aninhou-se junto da sua mãe.

— Vá lá, Stephan. Vá lá — disse o pai.

Stephan pegou na máquina de escrever pesada e passou à frente da cadeira de rodas da mãe antes de o pai mudar de opinião. Pôs a máquina no escritório do pai, junto da biblioteca, e começou a trabalhar novamente, mas, ao extrair a página do título, apercebeu-se de que não trouxera mais papel. Olhou pela janela durante um minuto, a mesma vista que via do seu quarto, no andar de cima, através da árvore. Voltou a pôr a página na máquina e escreveu do outro lado. Não queria arriscar-se a voltar a ficar fechado na biblioteca.

Quando chegou ao fim da página, voltou para cima e começou a escrever entre as linhas, ouvindo as vozes da biblioteca agora. Sim, os pais e a tia Lisl estavam a conversar com grande seriedade.

Sem fazer barulho, abriu a porta de vidro que tinha ao lado e fechou-a atrás dele quando saiu para a varanda. Subiu para o ramo da árvore. Em vez de subir pela árvore até ao telhado, como costumava fazer — de noite, para observar a cidade de Viena à luz da lua —, desceu e saltou até ao chão de um dos ramos inferiores, perto da barraca do guarda e das portas da entrada. Parou. Onde estava Rolf? Não havia ninguém a vigiar a porta? Mas isso não importava. Naquela noite, não teriam visitas.

Mesmo assim, parou para espreitar pela janela do pequeno quarto da casa de Rolf. Estava demasiado escuro para saber se havia alguém lá dentro. A rua também estava sinistramente tranquila e a sua própria sombra era projetada pelo brilho dourado dos candeeiros de ferro fundido. Era inquietante enquanto corria pelo quarteirão.

A TEORIA DO CAOS

Stephan observou, nervoso, enquanto Žofie-Helene abria a porta lateral do Burgtheater com a chave que tirara do bolso do casaco do avô.

— Não devíamos estar aqui — disse Dieter.

— O Stephan poderá ver as cenas da sua própria peça representadas num palco a sério — insistiu Žofie-Helene, enquanto os guiava pelo corredor para o teatro. — Tal como o seu herói, o Stefan Zweig.

— Vamos meter-nos numa confusão se nos apanharem — insistiu Dieter.

— Pensei que gostavas de confusões, Dieter — replicou Žofie-Helene.

Deixou o casaco e o cachecol num dos bancos da última fila do teatro e, depois, desapareceu para o vestíbulo sem dar explicações.

— Pensei que gostavas de confusões, Dieter — sussurrou Stephan ao amigo.

— Só das confusões com as raparigas.

— Não te meteste em nenhuma confusão com raparigas, Dieterrotzni.

— Ah, não? Se queres beijar uma rapariga, fá-lo de uma vez, Stephan. E tu é que és um pirralho.

Acendeu-se uma luz no palco e Stephan assustou-se. Baixou ainda mais o tom de voz e disse:

— Não podes beijar uma rapariga sem mais nem menos.

— Elas querem que seja assim. Querem um homem que tenha o controlo. Querem que as lisonjeies e as beijes.

Žofie-Helene apareceu no palco. Como chegara até lá?

— «A questão agora baseia-se na hemoglobina» — replicou, recitando uma frase da sua nova peça. — «Sem dúvida, entenderão a importância desta minha descoberta.»

Quando Stephan e Dieter ficaram no corredor, a olhar para ela, acrescentou:

— Vá lá, Deet. Não memorizaste as tuas frases?

Dieter hesitou, mas tirou o casaco, percorreu o corredor e subiu para o palco. Recitou:

— «É interessante, sem dúvida, mas…»

— «É interessante, quimicamente, sem dúvida», Deet — corrigiu Stephan. — Não consegues recordar uma simples frase? — O seu nervosismo estava a transmitir-se para Dieter, embora bem pudesse ter estado zangado com Žofie. Mas como poderia estar zangado com uma rapariga que desejava dar-lhe o presente de ver a sua peça representada no palco do Burgtheater?

— Significa o mesmo — respondeu Dieter.

— É uma homenagem ao Sherlock Holmes, Deet — indicou Žofie-Helene. — Não funciona como homenagem se não disseres as palavras com exatidão.

Stephan percorreu o corredor, no caso de dever ocupar um banco perto do palco. Não era isso que os encenadores faziam?

— O Sherlock Holmes é um homem — disse Dieter. — Continuo sem entender como uma rapariga detetive pode honrá-lo.

— É mais interessante com uma rapariga detetive porque é inesperado — explicou Žofie-Helene. — Além disso, li todas as histórias do Sherlock Holmes e tu não leste nenhuma.

Dieter esticou a mão e tocou-lhe na face.

— Isso é porque és muito mais inteligente do que o Stephan e do que eu e mais bonita, minha pequena mausebär — redarguiu, usando a alcunha do primeiro ato de Stephan.

Stephan supôs que Žofie-Helene se riria de Dieter, mas só corou e olhou para ele, antes de pousar o olhar nas tábuas do palco. Não deveria ter dado a Dieter o papel de Selig para que o interpretasse junto da Zelda de Žofie-Helene, mas Dieter era o único com a arrogância suficiente para o fazer bem. Stephan tentara misturar uma detetive do tipo de Sherlock Holmes, a Zelda mulher, com uma personagem um pouco como o médico de Amok, de Zweig, um rapaz obcecado com uma rapariga que não estava interessada nele. No entanto, ele não entendia exatamente Amok e, quando perguntara ao pai porque a mulher pensava que o médico poderia ajudá-la com o bebé que não desejava, o pai respondera, com brusquidão: «És um homem de caráter, Stephan. Nunca te verás na situação de ter um bebé que não devias ter.»

Dieter levantou o queixo a Žofie e beijou-a nos lábios. Ela recebeu o beijo com um certo torpor, mas, depois, foi como se se fundisse com ele.

Stephan virou-lhes as costas, fingindo que estava distraído a escolher um lugar onde pudesse sentar-se, enquanto murmurava:

— É uma peça de mistério, não uma história de amor, palerma.

Sentou-se e olhou para eles. Por sorte, já não estavam a beijar-se, embora Žofie tivesse as faces coradas.

— Žofe — disse —, começa com a frase sobre como o Dieter é tolo.

— Sobre como o Selig é parvo? — perguntou Žofie.

— Não foi o que disse? Se todos vão repetir o que digo, nunca conseguiremos chegar ao fim.

Estavam a ensaiar há duas cenas e os relógios de Viena tinham acabado de dar as sete quando Žofie ouviu alguma coisa. A buzina de um carro? Aplausos à frente do teatro? Era o que parecia: O barulho amortecido da multidão a aplaudir e os carros a buzinar. Olhou para Stephan do palco. Sim, ele também ouvira.

Os três agarraram nos seus casacos e correram para as portas da entrada do teatro, à medida que o alvoroço aumentava. Quando empurraram as portas para as abrir, o barulho tornou-se ensurdecedor. Viena estava cheia de soldados das SA com as suas armas, homens com braceletes de suásticas, jovens agarrados a camiões com suásticas pintadas que percorriam a Ringstrasse e que atravessavam a universidade e a câmara municipal e passavam junto deles, à frente do teatro. No entanto, não havia motins. Estavam todos alegres. Todos gritavam: «Ein Volk, ein Reich, ein Führer!» e «Heil Hitler, Sieg Heil!» e «Juden verrecken!» Morte aos judeus.

Žofie estudou a multidão em busca da mãe enquanto os três se retiravam novamente para as sombras da entrada do teatro. Essa devia ser a razão por que o avô tivera de ficar com Jojo e com ela naquela noite enquanto a mãe saía, mas de que se tratava? De onde saíra tudo aquilo? Os camiões pintados. As suásticas coladas aos candeeiros. Os braceletes. A multidão. Não podiam ter-se materializado do nada. Zero mais zero mais zero repetido até ao infinito continuava a ser zero.

Uns rapazes ao fundo da rua começaram a pintar na montra de uma loja: Suásticas, caveiras e ossos cruzados. E a palavra «Juden».

— Olha, Stephan — observou Dieter. — São o Helmut e o Frank, da escola! Vamos!

— Devíamos levar a Žofie-Helene a casa, Deet — indicou Stephan.

Dieter olhou para Žofie, expectante, com a mesma emoção no olhar do que daquela vez em que Jojo tivera tanta febre que começara a chamá-la «papá», embora só conhecesse o pai através de fotografias e histórias, porque morrera antes de ela nascer.

— Eu levo-a a casa, Deet — ofereceu-se Stephan. — Encontro-me contigo depois.

Stephan e ela recuaram ainda mais para as sombras enquanto Dieter descia os degraus do teatro a correr, em direção a um grupo de nazis que avançava para um idoso que saiu de um edifício para proteger a sua montra. Um soldado das SA começou a gozar com o homem e os outros imitaram-no. Um deles deu um murro no estômago do pobre idoso e este dobrou-se de dor.

— Meu Deus! — exclamou Stephan. — Devíamos ajudá-lo.

O homem já desaparecera por baixo dos soldados.

Žofie desviou o olhar e reparou nuns homens que içavam uma bandeira nazi no Parlamento austríaco, sem que ninguém os detivesse: Sem polícia, sem exército ou sequer o povo de Viena. Aquelas eram as boas pessoas de Viena? Todas aquelas pessoas que gritavam o seu apoio a Hitler, esses jovens que podiam ter espreitado para a montra da loja para ver a maqueta do comboio no Natal?

— Não conseguiremos chegar a casa pela rua — disse a Stephan.

Caos. Era a única coisa que nem sequer os matemáticos conseguiam prever.

Com uma tesoura que encontrou na barbearia do avô sem acender a luz, Žofie tentou abrir o ralo de ventilação que havia por baixo do espelho. Guiou Stephan pelas condutas que tinham percorrido no dia em que se tinham conhecido, até uma abertura que dava para o subsolo, que descobrira mais tarde. Nunca entrara porque tivera medo de se perder.

— Puf — disse, ao deixar-se cair na escuridão do buraco, muito mais abaixo do que imaginara.

Stephan também se deixou cair e Žofie procurou-o na escuridão e acalmou-se quando os seus dedos encontraram a manga da camisa dele. Apertou-lhe a mão. Novamente, calma e mais alguma coisa.

— E agora? Por onde? — perguntou.

— Não sabes?

— Nunca tinha descido para o subsolo, só contigo.

— Nunca estive nesta parte — indicou Stephan. — Bom, não podemos voltar a subir pelo teatro, não sem um escadote.

Continuaram a avançar juntos, ouvindo a destilação da água e o barulho de animais escorregadios que os assustavam na escuridão. Žofie tentou não pensar nos abusadores e assassinos de que Stephan lhe falara. Que alternativa tinham? Na rua, os abusadores e os assassinos tinham conquistado tudo.

* * *

O barulho da multidão era distante, mas Stephan ainda ouvia a buzina dos carros e os «Heil Hitler» repetidos várias vezes quando emergiram do subsolo através da entrada de esgoto octogonal situada perto do apartamento de Žofie. Levantou primeiro um triângulo ligeiramente para espreitar e verificar se aquela rua lateral era segura.

Ao chegar à porta do seu prédio, Žofie pôs a chave na fechadura. «Tem cuidado ao voltar a casa, está bem?», disse a Stephan. Depois, deu-lhe um beijo na face e desapareceu no interior, deixando-o com a carícia dos seus óculos contra a pele, o calor da sua face e a humidade suave dos seus lábios.

No entanto, beijara o palerma do Dieter nos lábios.

Não, Dieter beijara-a.

Na janela de um andar superior, a sombra de um homem atrás das cortinas abanou os braços e abraçou a sombra da rapariga que era Žofie-Helene ao chegar a casa e cumprimentar o pai. Só que o pai de Žofie morrera. Stephan observou com atenção e distinguiu a silhueta de cócoras de Otto Perger. Ambas as sombras estavam fundidas num abraço de amor e de alívio. Não devia olhar e sabia. Devia virar-se e voltar para o subsolo, chegar até casa. No entanto, ficou ali enquanto a sombra do avô e a sombra da neta se afastavam e falavam, enquanto Žofie se esticava para dar um beijo na face do avô. Os óculos tocariam na face do avô, a pele tocaria na pele do avô.

Desapareceu da janela, mas a sombra reapareceu segundos mais tarde, segurando alguma coisa. Começaram a ouvir-se muito levemente as primeiras notas da Suíte N. 1 para violoncelo de Bach, misturando-se com as buzinas longínquas e os gritos de júbilo das pessoas, com o futuro desconhecido daquilo em que Viena se transformaria da noite para o dia. E, mesmo assim, Stephan ficou ali a olhar, a imaginar o que seria abraçar o corpo esbelto de Žofie, sentir a pressão dos seus seios, beijá-la nos lábios, na base do pescoço, onde o colar do infinito que não lhe fora oferecido pelo pai acariciava a sua pele nua.

CARTÕES DE BAILE VAZIOS

O bar de madeira de carvalho da pensão de Hamburgo estava cheio de soldados das SS bêbados. Truus apertou a mão a Klara por cima da mesa. Os dedos da pobre mulher tremiam. Tinha o bife sem tocar no prato.

— É assustador, eu sei — disse Truus, para a acalmar, em voz baixa, para que só ela a ouvisse. — Mas os alemães permitirão apenas um comboio às cinco da manhã, para que ninguém veja as crianças a sair, e não podia sair hoje.

— Porque disse «encomenda» em vez de «entrega».

— Neste negócio, as coisas nem sempre correm segundo o previsto — tranquilizou-a Truus, com ternura.

— É que — começou a Klara —, o senhor Van Lange está muito nervoso por mim. E não podemos ficar aqui à espera para sempre, sobretudo se… Achas que é verdade? Estes homens parecem pensar que o Hitler vai invadir a Áustria esta noite ou talvez já o tenha feito.

Truus levantou o garfo e deu uma trinca ao seu bife, pensando que uma invasão da Áustria explicaria porque não tinham comboio. Talvez os comboios se usassem para transferir as tropas.

— Esta noite, não devemos preocupar-nos com isso — disse a Klara. — Devemos preocupar-nos com os trinta órfãos alemães.

Comeram em silêncio durante uns minutos, antes de um membro das SS se aproximar. Bateu com os calcanhares com força e fez uma reverência até quase tocar no prato de Truus com a cabeça.

— Sou o Curd Jiirgens — disse, arrastando as palavras.

A canção que se ouvia parecia um mau presságio: Ah, Miss Klara, I Saw You Dancing.

Truus avaliou-o. Não disse como se chamavam.

— Mãe — disse o jovem, dirigindo-se a ela —, posso convidar a sua filha para dançar?

Truus olhou para ele de cima a baixo. Respondeu com firmeza, mas educadamente.

— Não pode.

A divisão ficou em silêncio, à exceção da música. Todos se viraram para olhar.

O dono da pensão aproximou-se da sua mesa, retirou o prato da senhora Van Lange, embora mal lhe tivesse tocado e disse: «Meninas, talvez seja melhor acompanhar-vos ao vosso quarto.»

O ANSCHLUSS

Quando Stephan emergiu do subsolo através de um dos quiosques da rua, os soldados nazis tinham substituído os guardas na chancelaria e a multidão tornara-se mais barulhenta. Sem se afastar da sombra dos edifícios, percorreu o caminho até ao palácio real e passou por baixo dos arcos para entrar na Michaelerplatz, onde um cartaz em Looshaus dizia: «O mesmo sangue num Reich combinado!» Regressou de lá até casa e viu que as cortinas continuavam corridas e a casa estava às escuras. Rolf continuava sem estar à porta.

Voltou a entrar no palácio, fechou a porta atrás dele sem fazer barulho e subiu as escadas com a esperança de não ser visto, como se tivesse estado no escritório do pai junto da biblioteca durante todo aquele tempo. Ouviu com atenção à frente da porta aberta da biblioteca e ouviu que o pai e a mãe discutiam por cima do murmúrio do rádio. Walter estava a dormir ao colo da mãe e o seu coelhinho jazia no chão.

— Tens de levar o Walter para a estação de comboio — insistia a mãe. — A Lisl já deve ter os bilhetes. Também vou enviar o Stephan.

— Estás a exagerar, tal como a Lisl — insistia o pai. — Quem é que a minha irmã acha que ia incomodá-la? Está casada com uma das famílias mais importantes de Viena. E, se me fosse embora, quem geriria a Chocolates Neuman? O presidente Miklas terá restaurado a ordem amanhã ao amanhecer e, além disso, não podes ficar aqui sozinha, Ruche…

Lisl entrou pela porta principal, subiu as escadas a correr e passou à frente de Stephan para entrar na biblioteca quando a mãe dizia que Helga cuidaria dela e que poderia encontrar-se com eles quando se sentisse melhor.

— Não sejas tola, Ruchele! — exclamou a tia Lisl, enquanto Stephan, ignorando o alvoroço que se filtrava através da porta que deixara entreaberta, tentava entrar atrás dela.

— Stephan! Por amor de Deus! — exclamou a mãe, enquanto o pai exigia saber onde estivera.

— O comboio das onze e um quarto para Praga já estava cheio às nove — disse a tia Lisl. — Estava tudo cheio, mesmo antes de chegar à estação. E, esta noite, não há mais nada. De todas as formas, assim que os passageiros comecem a embarcar, esses abusadores horríveis começarão a descer todos os judeus que tenham lugares.

O relógio tocou apenas uma vez, indicando a meia hora ou a uma da madrugada. O rádio continuava a murmurar, reproduzindo parte de um comunicado emitido pelo chanceler Schuschnigg naquela mesma tarde, dizendo que o Reich alemão apresentara um ultimato, garantindo que, a não ser que se nomeasse um chanceler escolhido por eles, as tropas alemãs começariam a atravessar a fronteira. «Dado que, mesmo neste momento tão grave, não estamos dispostos a derramar sangue alemão, ordenámos ao nosso exército que, no caso de acontecer uma invasão, se retirem sem muita resistência, para aguardar as decisões das próximas horas», dizia o chanceler. «Neste momento, despeço-me do povo austríaco com umas palavras que pronuncio do fundo do meu coração: Que Deus proteja a Áustria!»

O chanceler demitira-se e entregara o poder aos nazis? A Áustria nem sequer ia defender-se?

As vozes procedentes do andar de baixo surpreenderam-nos. Stephan ajudou o pai a sentar a mãe na cadeira de rodas, sem soltar Walter, que continuava a dormir, e o pai levou-a para a porta da biblioteca. Estariam mais seguros nos andares superiores.

Homens jovens já estavam a invadir o palácio com vozes entusiastas que ecoavam no vestíbulo.

O pai recuou com a mãe outra vez para a biblioteca e trancou a porta.

Lá em baixo, ouviam-se os móveis a cair, o barulho do vidro a partir-se, não só o de uma janela ou de um vaso, mas talvez todo o serviço de copos e a porcelana que Helga pusera na mesa no caso de desejarem jantar na sala de jantar. Depois, ouviram-se gargalhadas estrepitosas. Alguém começou a tocar o piano, surpreendentemente bem: Clair de Lune de Beethoven. Os nazis comentaram alguma coisa sobre uma caixa de cigarros, uma vela e as estátuas que enfeitavam a sala de baile. Alguns começaram a entoar: «Empurra. Empurra», ao que se seguiu um golpe forte que não podia ser outra coisa senão uma das estátuas enormes de mármore a cair contra o chão da sala de baile. Os invasores aclamavam sem parar e vários deles começaram a subir a escada principal para os andares superiores, para os quartos onde Stephan supôs que esperavam encontrar a família.

Alguma coisa se partiu no andar de cima e seguiram-se mais gargalhadas. A pinça para notas do pai estaria na cómoda. As joias da mãe também estariam lá. Não estava claro se os invasores estavam a ficar com as coisas ou só desfrutavam de estar naquela casa tão opulenta cujo porteiro sempre lhes negara a entrada. Onde estava Rolf?

A pobre Helga, no andar dos empregados, devia estar aterrorizada. Aqueles abusadores magoariam os empregados?

A maçaneta da biblioteca agitou-se. Ninguém se mexeu. Voltou a agitar-se. O rádio continuava a emitir o seu murmúrio delator.

O piano tocava na sala de música; o dó sustenido — a nota que Stephan pensava que se pareceria com o som da luz da lua sobre o lago Lucerna se fosse audível — agora, parecia um mau presságio.

— Quem está aí? — perguntou alguém. — Fecharam-se aí? — Poderia ser a voz de Dieter, mas Stephan não conseguia acreditar.

Um corpo chocou com força contra a porta, depois outra vez, seguido de gargalhadas, empurrões, outro golpe contra a porta e vozes diferentes que se alternavam e se desviavam para tentar derrubar a porta.

— Essa estátua — disse alguém. — Podíamos usá-la para forçar a porta.

O caos da conversa e os pés a arrastar-se pelo chão vieram acompanhados por mais gargalhadas. A estátua era de mármore. Como a que tinham deixado cair na sala de baile e pesava mais de duzentos quilos. Žofie já o calculara.

Outro corpo bateu contra a porta da biblioteca.

— E esta mesa? — sugeriu alguém.

Stephan ouviu com atenção, como se, ao fazê-lo, conseguisse detê-los. A coleção de objetos de prata da mãe caiu ao chão do outro lado da porta. E o rádio continuava a murmurar e o piano continuava a tocar.

Stephan aproximou-se da porta para usar o corpo como uma barreira. A mãe abanou a cabeça, tentando dissuadi-lo, mas ninguém se mexeu nem falou.

O locutor do rádio anunciou um comunicado importante: O presidente Miklas cedera. O presidente da câmara Klausner anunciou «com profunda emoção neste momento de júbilo que a Áustria é livre, que a Áustria é nacional-socialista.»

Um clamor ensurdecedor invadiu a rua.

Alguém emitiu um assobio sonoro da porta da entrada.

Do outro lado da porta, o rapaz que falava como Dieter gritou: «Por cima do corrimão!»

Um golpe forte no vestíbulo de mármore foi recebido com vivas e uma correria de pés pela escada. A porta da entrada fechou-se de repente, deixando-os sozinhos com os sons amortecidos de fora e o murmúrio do rádio. Clair de Lune continuava a ouvir-se no piano. Ouviram-se as duas últimas notas compridas e profundas do primeiro movimento, seguidas de um momento de silêncio. Uns pés apressados atravessaram o vestíbulo. A porta abriu-se, mas não voltou a fechar-se. Ter-se-ia ido embora?

Antes de o silêncio do interior não conseguir prolongar-se, pois a voz do rádio deu lugar a uma marcha militar alemã, Stephan abriu a porta da biblioteca e espreitou. Havia caos por todo o lado, mas o pianista não estava lá.

Desceu as escadas devagar e tropeçou nos últimos degraus. Trancou a porta da entrada. Apoiou-se contra a porta com o coração acelerado, como se um visitante frenético batesse com força na aldraba de fora.

O vestíbulo e a escada imperial estavam cheios de objetos partidos e amolgados: Móveis e serviço de copos, quadros e esculturas, tigelas às flores e açucareiros de prata, chocalhos de bebé, jarras de água, dedais, rolhas de garrafas e coisas que não tinham nenhum propósito, todas amolgadas. Dispersas entre toda aquela desordem estavam as fotografias pisadas e as cartas que, de todo o desastre que os invasores tinham deixado pelo caminho, seriam o que encheria os olhos da mãe de lágrimas. Só o piano parecia intacto. O pianista até se dera ao trabalho de voltar a fechar a tampa, algo de que ele próprio costumava esquecer-se com frequência. Ao aproximar-se, encontrou outra desordem de páginas espalhadas. Entre todas elas, pisada até quase ser ilegível, havia uma página em que se lia um título escrito à máquina: «O PARADOXO DO MENTIROSO.»

Segunda parte A ÉPOCA INTERMÉDIA MARÇO DE 1938

DEPOIS DE SE RECUSAR A DANÇAR

Truus espreitou para a escuridão do quarto da pequena pensão de Hamburgo no momento em que Klara van Lange, que acordara com as vozes ou que talvez tivesse passado a noite em branco, perguntava que barulho era aquele.

— Os rapazes do bar estão no terraço que há por baixo da nossa janela, a cantar.

— Às quatro da manhã?

— Acho que querem fazer-te uma serenata, querida.

Truus deixou cair a cortina e voltou a deitar-se na cama.

Minutos mais tarde, ouviu-se o despertador. Ambas as mulheres se levantaram e, sem acender a luz, tendo em conta os rapazes lá fora, tiraram a camisa de noite e começaram a vestir-se. Truus sentiu que Klara olhava para ela enquanto acabava de abotoar os colchetes do espartilho e escolhia as meias. Era incómodo sentir-se observada seminua, mesmo na escuridão. De dentro. De fora.

— O que se passa, Klara? — perguntou, com a meia na mão.

Klara van Lange desviou o olhar e fixou-o na janela.

— Achas que estaríamos a fazer isto se tivéssemos filhos?

Truus pôs a meia por cima dos dedos e puxou-a para o joelho e para a coxa. Prendeu-se um pouco entre as duas alianças entrelaçadas do anel do dedo do meio, mas não se rompeu. Prendeu as meias com cuidado enquanto, lá fora, os rapazes se rendiam e se iam embora. Passados uns minutos, Truus acenderia a luz ou Klara fá-lo-ia.

— Ainda és jovem, querida — comentou Truus, com doçura. — Ainda tens tempo.

DECISÕES

Os elétricos à frente da estação de Hamburgo estavam tão silenciosos como na manhã anterior e as vias de baixo estavam igualmente vazias. Truus e Klara van Lange voltaram a atravessar as portas por baixo daquela suástica horrível, desceram os mesmos degraus sujos até à mesma plataforma suja e sacudiram o mesmo banco com um lenço limpo. A única coisa limpa que Truus tinha naquela manhã, visto que não tivera o atraso em conta ao fazer a mala. Voltaram a deixar as malas de viagem junto delas e esperaram. Ainda não amanhecera.

O senhor boneco de neve aproximou-se e, sem se virar nem parar, sussurrou: «O comboio está trinta minutos atrasado, mas o sua encomenda chegará antes de partir.»

Quando o comboio começou finalmente a ouvir-se ao longe, duas supervisoras — uma mulher idosa de cabelo grisalho e outra jovem com um bebé ao colo — conduziram um grupo de crianças pelas mesmas escadas por onde Truus e Klara tinham descido.

Truus pediu à mais jovem para apresentar as crianças enquanto a mulher do cabelo grisalho ia riscando nomes de uma lista e entregava todos os papéis a Klara. Acariciando-as uma a uma — o toque era muito importante para estabelecer confiança —, Truus disse-lhes que podiam chamar-lhe «Tante Truus».

Depois de os trinta nomes terem sido riscados, a supervisora mais jovem lançou um olhar nervoso para a mais velha e disse: «Adele Weiss.» Entregou o bebé a Truus e afastou-se a correr. O bebé ficou ao colo de Truus e começou a chorar e a gritar: «Mamã! Mamã!»

— E os seus papéis? — perguntou Klara à supervisora mais velha.

Truus tentou acalmar a menina enquanto o comboio parava na estação.

— Não podemos levar uma menina sem papéis — sussurrou Klara.

Truus apontou com a cabeça para o agente nazi que acabara de sair do comboio.

— Senhora Van Lange, acho que é a sua vez — declarou. — Eu tenho ajuda suficiente aqui para pôr as crianças no comboio.

Klara, depois de lançar um olhar hesitante para a menina que Truus tinha ao colo, pegou no bilhete e aproximou-se do nazi, que fixou o olhar na barriga das suas pernas e nos seus tornozelos, visíveis por baixo da saia.

— Entschuldigen sie, bitte — replicou. — Sprechen sie niederländisch?

A julgar pela cara do revisor, parecia que Helena de Troia abandonara um banco da estação para se aproximar e conversar com ele.

Com a pequena Adele Weiss na sua anca, Truus deu a mão a outro menino e dirigiu-se para o vagão. O nazi levantou o olhar brevemente antes de devolver a atenção a Klara van Lange. Truus entrou no comboio e a supervisora começou a ajudar as crianças a entrar atrás dela.

— Obrigada — agradeceu a mulher. — Estas decisões que temos de tomar…

— Pôs a vida de trinta crianças em perigo, crianças sem pais, por uma criança cuja mãe a ama — redarguiu Truus. — Depressa, vamos acabar de as pôr no comboio.

Quando a supervisora lhe entregou a última criança, sussurrou:

— Está a desmerecer a minha irmã, Frau Wijsmuller. Poria a vida da sua filha em perigo, para além da sua própria.

* * *

Quando o comboio abandonou a estação com as crianças a bordo, Klara van Lange começou a chorar.

— Ainda não, querida — disse Truus. — Ainda falta a inspeção na fronteira.

Truus pensou em dizer-lhe que era demasiado jovem e bonita, demasiado memorável, para lhe pedir para voltar a fazer aquilo, mas, embora houvesse voluntárias suficientes para ajudar os refugiados na Holanda, as que estavam dispostas a atravessar a fronteira eram mais escassas.

— Aconselharia que te habituasses a isto, mas eu nunca consegui — replicou. — Questiono-me se alguém se habituará.

Entregou-lhe a pequena Adele Weiss.

— Pega na menina. Vai fazer com que te sintas melhor. É esse tipo de menina.

As outras crianças estavam sentadas em silêncio. Supunha que aquilo se devesse à surpresa.

— O meu pai costumava dizer que a coragem não é a ausência de medo — disse a Klara —, mas o facto de seguirmos em frente, apesar do medo.

DIA DE LIMPEZA

Stephan observou a manhã cinzenta de Viena através de uma fresta nas cortinas corridas da biblioteca. Uma mulher bem abrigada vendia bandeiras de suásticas, outra oferecia balões enormes de suásticas e, por cima das bandeirolas de «Ja» preparadas para o plebiscito, já tinham pintado suásticas enormes. Homens em escadotes de mão penduravam o símbolo nos candeeiros. Outros empapelavam as paragens de elétrico com «Ein Volk, Ein Reich, Ein Führer». Essa mesma mensagem via-se nos elétricos, que também foram engalanados com cartazes enormes de Hitler. À frente da porta do palácio, parou uma carrinha com a suástica pintada.

— Papá! — gritou Stephan, alarmado. Iam outra vez atrás deles?

O pai, que estava a dar o remédio à mãe, não percebeu o alarme de Stephan. Nem sequer desviou o olhar da mãe, embrulhada em mantas no divã situado à frente da lareira, com Walter e o seu coelhinho de peluche aninhados junto dela, como sempre, como se, de algum modo, soubesse que, embora ninguém o dissesse em voz alta, a mãe poderia não continuar com eles no dia seguinte. Os cinco — a tia Lisl continuava com eles — ouviam as notícias no rádio enquanto os empregados restabeleciam a ordem no resto da casa.

Stephan reuniu a coragem e voltou a espreitar. Um condutor saiu da carrinha e estava a descarregar pacotes de braceletes com a suástica. À sua volta, a multidão formava redemoinhos para agarrar num e usá-lo.

Era surpreendente como tudo estava bem organizado. Quantas bandeiras, latas de tinta, braceletes e balões — balões! — tinham aparecido em Viena de um dia para o outro, para celebrar aquele momento que os alemães queriam que o mundo visse como um levantamento espontâneo de dentro da Áustria.

Na calçada, mais à frente do portão e por cima da rua que Stephan atravessava todos os dias da sua vida, as pessoas ajoelhadas esforçavam-se para apagar e lavar os slogans do plebiscito. Não só homens, mas também mulheres e crianças, idosos, pais, professores e rabinos. Estavam rodeados pelas SS, a Gestapo, os nazis e a polícia local — muitos deles levantando as pernas das calças para não se molhar enquanto fiscalizavam o trabalho — enquanto os vizinhos e espetadores os vaiavam.

— Herr Kline tem cem anos e nunca fez nada senão dar os bons-dias com alegria e deixar que as pessoas que não conseguem comprar um jornal o leiam no seu quiosque — disse Stephan, em voz baixa.

O pai deixou o frasco de comprimidos e o copo de água junto do pequeno-almoço sem tocar da mãe.

— Estão a fazer com que Viena esteja «apta» para o Hitler, filho. Se estivesses em casa…

— Herman, não — repreendeu-o a mãe. — Não o faças! Farás com que seja culpa minha, por estar doente. Se estivesse saudável, podíamos ter-nos ido embora há semanas.

— Não posso ir-me embora, Ruche — declarou o pai, com carinho. — Sabes que não é culpa tua. Não posso deixar o negócio. Queria dizer que…

— Não sou tola, Herman — interrompeu-o a mãe. — Se queres usar a desculpa do negócio para me poupar a culpa, fá-lo, mas não te atrevas a culpar o Stephan. Teríamos vendido o negócio e poderíamos ter-nos ido embora se eu estivesse saudável.

Walter encostou a cara no seu coelho de peluche. O pai sentou-se junto deles na beira do divã e deu-lhe um beijo na testa, mas, mesmo assim, ele começou a chorar.

Stephan regressou à janela para observar aquela paisagem tão desoladora. Os pais não discutiam assim.

— Todos em Viena adoram os chocolates Neuman — disse o pai. — Esses valentões de ontem à noite não sabiam quem éramos. Olhem, ninguém nos incomoda esta manhã.

No rádio, Joseph Goebbels estava a ler uma proclamação de Hitler. «Eu próprio, como führer, adorarei voltar à Áustria, a minha pátria, como alemão e cidadão livre. O mundo deve ver que o povo alemão da Áustria foi invadido pela alegria, que os seus irmãos foram salvá-los quando mais precisavam.»

— Temos de enviar as crianças para a escola — disse a mãe, com tanta firmeza que Stephan se assustou, apesar de saber que ela não tencionava incomodá-lo. — Para Inglaterra, suponho.

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0+
Release date on Litres:
23 October 2024
Volume:
421 p. 2 illustrations
ISBN:
9788491394945
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Bookwire
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