Read the book: «Hipnose»

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© Editora Gato-Bravo 2021

Não é permitida a reprodução total ou parcial deste livro nem o seu registo em sistema informático, transmissão mediante qualquer forma, meio ou suporte, sem autorização prévia e por escrito dos proprietários do registo do copyright.

editor Marcel Lopes

coordenação editorial Paula Cajaty

revisão Margarida Fontes

projecto gráfico Bookxpress

imagem da capa Benjavisa Ruangvaree, in Adobestock

Título

Hipnose: o regresso ao passado

Autora

Maria Inês Rebelo

Impressão

Europress Indústria Gráfica

ISBN 978-989-8938-88-6

e-ISBN 978-989-8938-89-3

1ª edição: Abril, 2021

Depósito legal: 482376/21

GATO BRAVO

rua Veloso Salgado 15A

1600-216 Lisboa, Portugal

tel. [+351] 308 803 682

editoragatobravo@gmail.com

editoragatobravo.pt

Para o meu avô, Francisco Rebelo, que transformou o seu ofício de sapateiro numa verdadeira arte.

Sumário

Agradecimentos

O Consultório de Hipnose na Avenida do Sol

O Mistério de Anne Pauline

A Primeira Sessão de Hipnose

A Ilha Esquecida

5. A Aliança Secreta

6. O Perfume Alquímico

7. A Escola Médica de Salerno

8. Antuérpia - 1520

9. A Tipografia e Paracelso - 1520

10. A Terapia do Magnetismo

11. O Desenlace Final

Carta ao Conselho Nacional de Hipnose

Olhem a natureza que nos cerca e vejam em cada ser planta, pedra,animal-

como que uma parcela de um alfabeto e considerem uma palavra composta deste alfabeto:

encontrarão o homem

Paracelso

Médico, alquimista, físico e astrólogo

(1493-1541)

Esta é uma obra de ficção.

Qualquer semelhança com nomes,

pessoas, factos ou situações

da vida real é mera coincidência.

Agradecimentos1

UMA VIAGEM POSSUI, QUASE SEMPRE, UM ITINERÁRIO. Um livro, da mesma forma, detém quase sempre uma alma. Na minha opinião, não é possível escrever um livro sem alguma experiência de vida e sem as pessoas que nos acompanham durante todo esse percurso.

Por conseguinte, gostaria de deixar aqui uma mensagem de agradecimento à Alexandra Figueiredo, pela sua amizade, constantes sugestões e motivação que me foi dando durante o percurso de redação deste manuscrito. Um agradecimento também ao Lino Galveias, cuja persistência, ao longo de vários meses, permitiu a tradução do livro para inglês, agora disponível numa versão de autoedição.

Quero agradecer ao Carlos o seu apoio constante. Ele, mais do que ninguém, esperou pacientemente para que uma página escrita diariamente, se transformasse, um dia mais tarde, num livro. Aos meus pais e à minha irmã, que fazem parte desta viagem de vida, espero que este manuscrito nos devolva ao passado. O futuro, esse, está ao virar da esquina.

Concentre-se aqui e agora…

A história que está prestes a ler narra a vida de Anne Pauline Roux: no passado, no presente e no futuro.

A vida dela tem um destino traçado; destino esse que apenas se revela quando, um dia, ela toma a importante decisão de iniciar sessões de hipnose com o famoso hipnotizador Marcus Belling. A sua intenção é confrontar os seus medos e as suas ansiedades interiores. A partir deste dia, ela descobre que através da hipnose e da Terapia de Vidas Passadas poderá finalmente compreender o seu inexplicável sentimento de não pertença a “qualquer lugar” e a incapacidade para definir a sua própria identidade. Como ela vem a descobrir, as suas vidas passadas contribuíram para a pessoa que ela é no presente.

Ao longo de nove meses, tempo durante o qual duram as sessões de hipnose com Marcus Belling, Anne Pauline vai descobrir que é detentora de um grande poder, que apenas se manifesta quando ela é induzida em transe hipnótico.

Através de uma aliança secreta com Josef Salvaterra, colega e rival do famoso hipnotizador, ela decide então usar o seu dom para destruir o sucesso profissional de Belling. Vê-o como responsável pelas suas inexplicáveis ansiedades interiores. Esta é uma decisão que irá pesar na sua consciência.

Mas esta é uma oportunidade única para ela perdoar o passado e, assim, encontrar o caminho da felicidade. A procura pela verdade acerca de si mesma implicará que ela aceite as consequências imprevisíveis das suas escolhas pessoais. Os dilemas irão fazer parte desta sua jornada impelindo-a a tomar decisões corajosas para alcançar o seu maior propósito na vida: a libertação do seu passado.

Peço-lhe agora que respire profundamente e escolha um lugar confortável para relaxar...sinta todo o seu corpo a preparar-se para a viagem que está à sua frente...quando quiser, e se sentir preparado/a, poderá mudar de página....

1. Adaptado para a versão exclusivamente em português, conforme a nova ortografia. O livro foi escrito, originalmente, em português e depois traduzido para inglês (posteriormente, publicado através de um regime de self-publishing). Dado que a versão em inglês foi publicada primeiro, tive necessidade de ajustar os agradecimentos nas duas línguas. De facto, deixa de fazer sentido, na versão em português, as palavras de agradecimento dirigidas a entidades e pessoas que me ajudaram a rever e a adaptar o livro para a língua inglesa.

O Consultório de Hipnose na Avenida do Sol

1

O RELÓGIO MARCAVA EXATAMENTE MEIO-DIA quando Anne Pauline Roux tocou à porta do consultório de Marcus Belling no n.º 27 da famosa Avenida do Sol. Nesta altura estávamos em pleno mês de julho e o dia já tinha amanhecido bastante quente. Uma brisa fresca e diferente soprava no ar. Ao mesmo tempo a cidade fervilhava já no novo movimento de turistas que a invadiam nesta época do ano.

Quando Anne Pauline tocou à campainha, ela sabia bem quem procurava. Marcus Belling tinha-se tornado um conceituado hipnotizador no país há muitos anos, a partir do momento em que começou a aparecer em variados programas de televisão nacionais para falar sobre hipnose. Apesar das muitas aparições públicas, tinham ficado especialmente conhecidas as suas lendárias entrevistas sobre a Terapia de Vidas Passadas e a Regressão. Nestes dias, não era exagerado afirmar que o país parava para ouvir Marcus Belling.

Este era um dia especial para Anne Pauline, e ela sabia-o bem. Há alguns anos que desejava conhecer o famoso hipnotizador, de quem todos falavam, mas a verdade é que ela tinha medo do desconhecido. Por essa razão, antes de marcar a sua consulta na Avenida do Sol, decidiu comprar um livro para tirar o pavor (pensava ela, pelo menos) que sentia quando pensava em ser hipnotizada. Tinha-o comprado há alguns meses e este intitulava-se, com algum “suspense”, “Mistérios da Hipnose”. Neste dia de verão, quase que tinha sido hipnotizada pelas palavras que estavam lá contidas, como se ela própria, de uma forma incontrolável e de forma imprevisível, já tivesse sido arrastada há algum tempo para aquele mundo que totalmente desconhecia. Tentou não pensar mais no assunto, pelo menos quando tocou à campainha do n.º 27 da Avenida do Sol.

Desde que Belling iniciara a sua carreira como hipnotizador que as pessoas tinham adquirido novas ideias e perspetivas acerca da hipnose como método terapêutico alternativo à medicina não holística. Há vinte anos, a hipnose ainda era vista como uma espécie de arte do oculto cujos profissionais e “seguidores” eram banidos do sistema convencional da medicina tradicional, o que hoje já não era uma realidade. Alguns afirmavam com convicção que Marcus Belling tinha sido o precursor desta mudança de mentalidades.

Contudo, Belling não estava sozinho no palco público. Um outro hipnotizador igualmente conhecido, embora não tão carismático e mediático, tinha chamado a atenção da imprensa e das pessoas: chamava-se Josef Salvaterra. Salvaterra, tal como Belling, era um catalisador da atenção do público em torno do seu trabalho relacionado com a hipnose. Os dois já não podiam viver um sem o outro. Neste sentido também, a disputa entre ambos era permanentemente alimentada por jornais e revistas diversas, algumas de natureza satírica que exploravam a dualidade de carismas e as suas personalidades opostas. Marcus Belling e Josef Salvaterra eram muito diferentes um do outro, e mesmo os pacientes que recebiam nos seus consultórios, diferiam na forma de encarar a hipnose. Belling, por exemplo, costumava atrair muitos homens e mulheres que, fascinados pelo seu carisma, o procuravam com o objetivo de melhorar as suas vidas através das suas técnicas de hipnose. Os seus pacientes provinham de classes sociais diferentes e possuíam, por vezes, antagónicas convicções políticas e religiosas. Para além disso, existiam muitas famílias que recorriam aos seus conhecimentos de terapias aplicadas a crianças para resolver problemas de ansiedades e medos típicos da infância. Nesse aspeto, Marcus Belling despendia com grande prazer o seu tempo juntamente com os pequenos pacientes, talvez porque a sua carreira enquanto hipnotizador começara na pediatria dos hospitais onde se desencadeou o uso da hipnose para facilitar o diagnóstico de certas doenças.

Marcus Belling iniciara-se como hipnotizador no campo da hipnose clínica há quinze anos quando ainda pouco se falava em hipnose e muito menos da sua aplicação em ambiente hospitalar. Tudo começara, na realidade, quando Belling participou numa experiência conjunta com outros hipnotizadores pertencentes ao Conselho Nacional de Hipnose onde foi testado o uso da hipnose em crianças com epilepsia. Nessa altura, Marcus Belling teve a oportunidade de induzir o estado hipnótico nessas mesmas crianças criando assim um estado de alerta de consciência: posteriormente, procedeu-se à análise das mudanças no cérebro no padrão das ondas cerebrais. O cérebro foi então monitorizado por um aparelho de exame de imagens. Daqui, foi possível concluir que os sintomas apresentados por algumas destas crianças correspondiam de facto a sintomas típicos de outras doenças, o que permitiu concluir que estas não sofriam de epilepsia. Pela primeira vez, foi possível comprovar que a hipnose constituía um método fundamental que ajudava no diagnóstico clínico, mostrando ser essencial para que se pudesse aplicar o tratamento mais acertado. Como todos os especialistas, Belling sabia que o erro no diagnóstico prolongava o sofrimento dos pacientes.

Não seria exagerado afirmar que a larga experiência de Marcus Belling no campo da hipnose clínica foi decisiva no sedimento das suas convicções. Inconformado com o panorama atual da sua profissão, ele percebeu rapidamente que os jovens hipnotizadores não mostravam agora interesse em especializar-se nesta área, especialmente porque eram colocados em contacto direto com a dor humana. Todos fugiam do sofrimento alheio. Esta era uma dor tanto do corpo como da alma. Mas como Belling bem sabia, todo o conhecimento adquirido com a experiência constituía a base de formação de qualquer bom hipnotizador. Dentro dele, resistia a aceitação da filosofia “mercantilista” que era imposta ao exercício daquela profissão; por essa mesma razão, ele defendia que o uso mais frequente da hipnose clínica poderia aliviar a pressão que tinha recaído nos hipnotizadores para obter lucros rápidos e constantes com as suas sessões. Como ele bem sabia, parecia hoje mais importante gerar receitas avultadas com a hipnose do que usá-la nos meios hospitalares e desenvolver as suas técnicas com os doentes. Por isso, o famoso hipnotizador sentia que faltava uma investigação aprofundada acerca do uso futuro da hipnose nos hospitais, e que os jovens hipnotizadores estavam poucos interessados nesta vertente.

Gradualmente, da fusão de todas estas experiências profissionais, o popular Belling acabaria igualmente por ficar conhecido pelo facto de ter desenvolvido terapias familiares que ajudariam as famílias a superar conflitos internos. Ele era assim, simultaneamente, hipnotizador e terapeuta com a capacidade de conjugar bem as suas diferentes facetas.

Já Josef Salvaterra, no seu estilo mais antiquado, (e “antiquado” era uma palavra que muitas pessoas usavam quando tentavam descrever as suas técnicas) costumava receber no seu consultório homens e mulheres de meia-idade, normalmente mais conservadores e tradicionalistas que se mostravam avessos à forma de trabalho de Marcus Belling. Salvaterra sabia que alguns dos seus clientes apenas o procuravam porque já não conseguiam lidar com o excessivo mediatismo de Belling e, por essa razão, para fazerem valer a sua posição, procuravam um hipnotizador diferente. Nestes casos, o carisma de Marcus Belling tornara-se incomodativo. Desta forma, os respetivos pacientes (Salvaterra preferia chamá-los de “clientes”) dos dois hipnotizadores pareciam pertencer a claques distintas que por vezes se envolviam em conflitos. Mas tudo isto já fazia parte da rotina de Belling e de Salvaterra que praticavam a hipnose há mais de vinte anos.

Ao longo desses anos, o grande público mostrara igualmente interesse em conhecer as filiações políticas e ideológicas dos dois hipnotizadores; de forma pouco habitual, as pessoas consideravam que aqueles dois homens, embora não tivessem qualquer experiência política, dariam certamente bons políticos. O público inflamava-se com os seus discursos e surgiam adeptos, de um lado e do outro, que ora defendiam Belling, ora Salvaterra. Para uns, o primeiro daria um bom Ministro da Assistência Social, enquanto ao segundo já lhe tinha sido destinada, por votação popular, a pasta do Ministério do Trabalho. Os meios de comunicação tentavam neste ponto simplificar as suas divergências. Sucintamente, Belling era mais de direita e Salvaterra mostrava ter mais empatia com ideologias de esquerda. Era assim que as pessoas e também a imprensa os tinha “ideologicamente” dividido para uma mais fácil compreensão das suas antíteses pessoais e políticas. Marcus Belling tentava ignorar estas descrições, mas o mesmo não se passava com Josef Salvaterra que se preocupava muito com as suas descrições políticas. Apesar das diferenças, os dois hipnotizadores recusavam-se em participar na luta política, de certa forma porque consideravam que isso não seria benéfico para as suas carreiras. Apesar disso, lá no fundo, sem confessar, Salvaterra tinha neste campo há alguns anos, mais ambições do que Belling. Apenas se mantivera afastado da política para não destoar, no essencial, da postura do adversário. A verdade é que Josef Salvaterra tinha receio de trilhar um caminho demasiado diferente da do seu concorrente.

Marcus Belling e Josef Salvaterra limitavam, assim, as suas zonas de influência. Embora nem sempre de forma consciente, os dois hipnotizadores tentavam manter posturas idênticas perante o público e os meios de comunicação. Assim, apesar de possuírem personalidades muito distintas entre si, os dois tentavam não divergir no que era parecia ser fundamental: as suas convicções pessoais, políticas e ideológicas. Acharam por bem, não aprofundar as suas notórias divergências pessoais e profissionais, de modo que existia uma espécie de “acordo de cavalheiros”, que se traduzia em ações, e não em palavras. Talvez por causa disso, estava montado há muitos anos um esquema logístico de “espionagem” de ambas as partes que tinha como propósito conhecer todos os seus movimentos. No entanto, sem que Belling ou Salvaterra pudessem prever, todo o seu esquema de trabalho será colocado em causa com o aparecimento de Anne Pauline. Esta jovem mulher, também sem saber, irá alterar todas as circunstâncias pessoais e profissionais que estavam, há mais de vinte anos, sedimentadas em torno dos dois hipnotizadores.

Para as pessoas tornava-se igualmente necessário conhecer o passado de Marcus Belling e de Josef Salvaterra.

Marcus Belling nascera numa família de classe média. Era filho de um médico que não sabia o que era a hipnose, antes de Belling a começar a exercer. O pai, Elias Belling fora um “médico da terra”, ou seja, um dos poucos que decidira praticar a sua profissão fora das grandes cidades para poder ajudar a população que não dispunha de cuidados médicos e possibilidades económicas para recorrer a um médico fora da sua aldeia. Os “médicos da terra” eram, por isso, também chamados de “médicos nómadas” e há sessenta anos não existiam muitos. Anos mais tarde, o pai de Belling acabaria por ser reconhecido por uma Comissão Clínica Nacional como um dos mais competentes médicos do seu país. No entanto, quando Marcus Belling começou a exercer hipnose, o seu pai passou a viver permanentemente angustiado com as polémicas em redor do filho.

No início da carreira, a postura de Belling em se assumir como um hipnotizador de referência nacional parecia entrar em conflito com o passado da família, mais ligado à medicina tradicional. Como ele bem sabia, nesta época, para a maioria das pessoas, a medicina convencional representava a única forma de terapia e de cura para o mais variado tipo de enfermidades. Depois, com o progressivo mediatismo de Marcus Belling, a classe clínica do país tornou-se uma opositora às teorias que estavam a ser difundidas acerca do efeito terapêutico da hipnose. Deste modo, existiram várias tentativas de descredibilizar o trabalho do famoso hipnotizador e, por essa razão, o pai de Belling fora aconselhado a manter-se afastado destas mesmas polémicas. Por tudo isto, Elias Belling decidira retirar-se da medicina tradicional mais cedo do que o previsto, apesar de uma carreira de sucesso reconhecida a nível nacional. De forma inevitável, a sua carreira acabaria por exercer uma influência dominante no filho que, ainda com receio de se assumir como hipnotizador, começou primeiro por concluir o curso em medicina.

Já Josef Salvaterra tinha um passado muito diferente do de Marcus Belling. Salvaterra era órfão. A própria palavra era proibida de ser usada no seu discurso diário. Nas diversas entrevistas, raramente o hipnotizador abordava este assunto. Muitos não sabiam, mas ele fora criado com um tio, irmão do seu pai, que possuindo uma pequena fortuna, lhe pagou os estudos que lhe iriam permitir seguir uma estável carreira profissional. Ao contrário de Belling, Salvaterra nunca teve contacto com a medicina, nem mesmo durante a sua formação como hipnotizador. Para alguns, o curso de medicina era como que um alicerce fundamental na área da hipnose, razão pela qual consideravam que a falta deste elemento estruturante na vida profissional de Salvaterra, constituía um obstáculo para que se pudesse tornar um melhor profissional do que Marcus Belling.

Conhecemos agora o passado de Belling e de Salvaterra, mas pouco sabemos ainda acerca do de Anne Pauline. A primeira vez que a jovem conheceu Marcus Belling, foi neste dia de verão, quando tocou à campainha do seu consultório, situado na Avenida do Sol. Até este mesmo dia de julho, ela apenas o conhecia através da televisão e os dois nunca se tinham encontrado pessoalmente. Todavia, isto era o que julgavam, pois na verdade eles nunca se tinham conhecido nesta vida. Deste modo, torna-se importante falar um pouco mais acerca da misteriosa Anne Pauline Roux, uma jovem mulher de vinte e cincos anos, de grandes olhos verdes brilhantes e de longos cabelos pretos. O seu rosto era oval e às vezes usava óculos que, destacando os seus olhos claros, lhe devolviam uma profundidade estranha e misteriosa à sua própria personalidade. Também ela tinha um passado, tal como os dois hipnotizadores.

– Cada um de nós tem um passado. Todos os passados são importantes para que possamos ser capazes de definir a nossa própria identidade. – disse-lhe uma vez o pai.

– E se eu não conhecer o meu passado? O que é que me acontece? – perguntou a curiosa Anne Pauline quando tinha apenas dez anos.

– Nesse caso, não saberás quem és. – respondeu-lhe o pai.

– Isso parece assustador. – respondeu a menina.

Este diálogo com o pai iria sempre manter-se uma viva recordação na mente de Anne Pauline. Foi a partir deste dia que a jovem rapariga prometeu a si mesma, que iria descobrir o seu passado. Ela tinha medo de não saber quem era e, por isso, partiu numa busca incessante por si mesma.

O passado de Anne Pauline estava ligado ao mar. Era sempre lá que regressava quando as suas angústias interiores não lhe permitiam ver nenhum caminho claro à sua frente. Uma boa razão para isso é que o pai fora pescador a vida toda. A mãe era uma incansável atadora de redes, uma profissão em vias de desaparecimento e que sendo executada por uma mulher, tornava ainda mais particular a sua situação. Ela era uma excelente atadora de redes e na comunidade piscatória comentava-se inclusivamente que ela era a melhor atadora do país. Ela organizava e cozia tão bem que o marido dizia frequentemente que era por causa dela que lhe calhavam mais peixes nas redes. Por outro lado, comentava-se igualmente que o pai de Anne Pauline era um excelente pescador. Alguma coisa nele, que devia ser a intuição, lhe dizia onde devia lançar a rede e por norma encontrava mais peixe do que os seus colegas de profissão. Raramente se enganava. Quando ele decidia lançar as redes numa certa zona do mar, costumava pescar grandes quantidades de todo o tipo de peixes, o que no final do mês significava ter ao seu dispor um orçamento mais avultado.

A família, por sua vez, era proprietária de um barco de pesca (como todas as famílias da comunidade) chamado “Argo”. A embarcação já tinha pertencido aos avós de Anne, também eles pescadores. Tendo sido deixado em terra firme durante muitos anos, este começou a degradar-se rapidamente. Após a sua restauração, o pai de Anne Pauline decidira dar-lhe o nome de Argo, o que gerou alguma polémica entre as pessoas que diziam que o nome se devia a um filho ilegítimo que ele tivera de uma rapariga que, um dia, aparecera naquela localidade e que desaparecera poucos meses depois sem deixar rasto. Várias vezes os dois foram vistos juntos, mas ninguém podia confirmar uma possível relação. Depois deste acontecimento, o Argo voltou ao mar no seu esplendor. O belo barco estava pintado em cores de arco-íris: de um lado estava desenhado um peixe onde se podia ler a palavra Icthus e do outro, para quem prestasse atenção, estava uma serpente que segurava a sua própria cauda e onde se podia ler, desta vez, a palavra Ouroboros. Ninguém sabia ao certo o que isto poderia significar. O pai de Anne Pauline era considerado inteligente, apesar de não ter estudos e, talvez por isso, algumas pessoas tinham receio de lhe dirigir a palavra. Existia nele uma espécie de reverência, que todos respeitavam, e que raramente colocavam em causa. Por essa mesma razão, nunca ninguém o confrontou com a história do filho ilegítimo e com o significado das estranhas mensagens que ele parecia evocar na sua embarcação. Nem mesmo a própria filha.

Durante a infância, Anne Pauline tivera muitas oportunidades de viajar com o pai, sentados os dois no Argo, olhando o horizonte. Ao final do dia, alguns cardumes de peixe assomavam à superfície da água como numa última tentativa de ver o pôr-do-sol, também eles admirados com a beleza do mundo. Ao fundo, muitas vezes, apareciam então as gaivotas, esbeltas e curiosas, atraídas pelos peixes que faziam do mar a sua varanda particular para ver o sol uma última vez. Também durante estas viagens, Anne Pauline questionava-se se teria mesmo um irmão ou seriam histórias, uma forma de as pessoas saciarem a sua curiosidade por novidades escandalosas? Por medo, nunca chegou a confrontar o pai com essa história.

O mar oferecia a Anne Pauline uma dádiva preciosa e que raramente lhe era permitido viver: a paz e tranquilidade interiores. Algo a perseguia. Era algo tão grande que ela tinha dificuldade em o compreender. Na realidade, desde criança que se lembrava de sonhar com imagens estranhas que lhe causavam angústia durante a noite e que não conseguia explicar. Frequentemente existiam momentos de inquietude e de tristeza que aparentemente não tinham explicação, pois apesar da pobreza, ela tivera uma infância feliz; pelo menos assim o poderia afirmar com convicção, quando se lembrava das suas viagens com o pai sentada na embarcação da família. A verdade, é que algo não a deixava viver.

Ninguém sabia, mas na realidade ela tinha uma vida de dia e outra à noite. Jamais ela comentou isto com os pais, que teriam dificuldade em a compreender, dado que a maior preocupação deles era trazer sustento para casa. De facto, quando a principal preocupação é sobreviver todos os dias, tudo o resto à volta parece desaparecer. Nada é mais importante do que sobreviver ao dia seguinte. Talvez por isso, os pais de Anne Pauline não soubessem o que se passava com o passado da filha: este era um passado que teimava em evidenciar-se sempre que podia. Durante muitas noites, uma voz de homem muito nítida costumava perguntar-lhe de forma incessante:

– Qual é o teu verdadeiro nome?

– Conheces bem o teu passado?

– És honesta?

– Queres o bem dos outros?

– Tens valores?

– Se um dia chegares a conhecer um lugar secreto, serás capaz de guardar segredo? Sabes guardar segredos?

A voz daquele homem vinha de um mundo que ela não conhecia. As perguntas eram sempre as mesmas e aos poucos, ela começou a duvidar da sua própria identidade. Ao longe, ela conseguia ver o rosto de alguém que abanava com a cabeça: não, ela não era honesta, era o que ele pretendia dizer. Como convencê-lo do contrário? Como é que ele a poderia conhecer tão bem ao ponto de a fazer duvidar de si mesma? E se ela teria outros nomes? Porque é que ela teria outros nomes? As perguntas começavam-lhe a assaltar a mente e nunca mais a abandonaram. Até ao dia, em que ela já não sabia quem era, apesar da promessa que tinha feito ao pai.

No dia em que Anne Pauline deixou de poder cumprir a sua promessa com o seu pai, de nunca esquecer o seu passado, de onde vinha, já nem as viagens de barco no mar lhe traziam a felicidade e a tranquilidade que ela necessitava. O “Argo” passou a ficar atracado mais vezes, e mesmo as gaivotas começaram a sentir a falta da jovem, que agora só via o horizonte na praia, desejando saber quem era aquele homem que lhe falava à noite, colocando-lhe tantas questões. Muitas vezes ao longe, a força das marés deixava visível uma faixa de terra, que elevando-se das águas, formava uma pequena ilha, onde todos os pássaros das redondezas procuravam o seu petisco do dia. Era uma ilha isolada, apenas feita de areia, onde reinavam os sons da natureza. Por isso, Anne Pauline chamava-lhe a “Ilha dos Pássaros”.

À medida que Anne Pauline ia crescendo, este sentimento foi-se intensificando até se tornar intolerável ao ponto de necessitar de procurar ajuda. Depois de muitos anos sem acreditar nos efeitos terapêuticos da hipnose, decidira finalmente procurar o famoso e carismático Marcus Belling. Ela não fugia às estatísticas. Também ela não conseguia resistir ao charme e ao encanto natural de Belling. Nem nunca pensara em Josef Salvaterra, quando decidira procurar na hipnose um tratamento para as suas inexplicáveis angústias. Ainda assim, ao contrário do que se passava com muitas pacientes de Belling, Anne Pauline não pretendia recorrer à hipnose para conhecer um amor do passado ou eventualmente saber se tinha sido uma figura histórica de destaque. Alguma coisa dentro dela lhe dizia que as suas emoções estavam relacionadas com experiências de diferentes vidas no passado que continuavam a enviar-lhe mensagens subliminares (mesmo que só através dos sonhos). O passado tinha então esta forma brutal de comunicar com ela como se durante todo aquele tempo lhe estivesse a impor a necessidade de regressar a um determinado local para rever os mesmos acontecimentos. O passado exigia-lhe agora que ela olhasse para o mundo à sua volta, de forma diferente.

Mas como poderia o passado estar a comunicar com ela? E como poderia ter ela a certeza de que um passado desconhecido tentava agora chegar até ela? Os sonhos de vidas passadas pareciam invadir as suas noites, ano após ano. Sem o conseguir impedir, ela ouvia a mesma voz familiar daquele homem que lhe continuava a colocar um conjunto de perguntas, que não pareciam ter sido escolhidas de forma aleatória:

– Quem és tu?

– Conheces a verdadeira história do Argo e do teu pai?

– Tens as tuas convicções, ou perdeste os valores?

– És capaz de viajar até ao passado? Queres descobrir o que existe lá?

– És uma pessoa respeitosa?

– Serias capaz de acreditar em algo que não és capaz de ver?

Este mesmo homem aparecia na sombra destes sonhos a abanar a cabeça. Não, ela não era uma pessoa respeitosa. Era necessário ela viajar até ao passado, mas como poderia fazer isso? E o que existiria no passado para ela descobrir? Cada vez se tornava mais claro que ela deveria ir até lá, mas tal como o homem lhe tinha perguntado, ela não sabia se era capaz de acreditar em algo que não pudesse ver. E se ela tivesse perdido os valores? Afinal, quem era ela? A este propósito, vendo-a tão pensativa, o pai disse-lhe uma vez:

– Hoje em dia as pessoas têm cada vez mais dificuldade em acreditar em algo que não vejam. Gostava que contigo fosse diferente. É importante acreditares na tua intuição e nas tuas convicções. Nada disso se vê, mas tudo isso se sente.

Aquele homem que lhe apareceu durante todas as noites durante a sua vida e juventude, fê-la duvidar de si mesma. Estranhamente, quando ele perguntava pelo seu passado, ele colocava em causa a sua honra e a sua dignidade. A jovem Anne Pauline não compreendia a atitude daquele homem, cujo rosto nunca se mostrava. Afinal, quem seria ele?

2

Um dia, ele colocou-lhe uma pergunta diferente de todas as outras: «Imagina que possuías a capacidade de voltar ao teu passado. De certeza que não olharias para os mesmos acontecimentos da mesma forma. Terias um olhar diferente». Perante o desafio, Anne Pauline refletiu um pouco no que tinha acabado de ouvir e percebeu que seria antes de mais fisiologicamente impossível retornar ao passado. O ser humano não tem maneira de alterar o tempo. No entanto, existia uma possibilidade de o fazer. Talvez a única. Através da Regressão de Vidas Passadas. Desta forma, no momento de procurar um especialista em Terapia de Vidas Passadas, Anne Pauline conhecia bem a antiga disputa que existia há vinte anos entre Marcus Belling e Josef Salvaterra. Mas ela era alheia a tudo isso. Ela precisava de ajuda.

Era consensual que o carisma e o encanto de Marcus Belling não deixavam ninguém indiferente. O famoso hipnotizador era um homem de quarenta e cinco anos, relativamente alto, de cabelo escuro e olhos grandes castanhos: olhos esses que brilhavam quando discursava acerca da hipnose fosse na televisão ou nas palestras organizadas pelo Conselho Nacional de Hipnose. Com estas aparições, o seu glamour costumava espalhar-se pelo país todo. Também as mulheres de um modo geral deliravam com estes momentos. Todavia, não eram apenas os seus encantos próprios que ajudavam ao seu mediatismo, mas igualmente a sua reconhecida competência nacional e internacional no campo da hipnose e da regressão: a sua especialização dizia sobretudo respeito a duas grandes áreas, hipnose clínica e hipnoterapia. Belling tinha estudado Terapia de Vidas Passadas nos Estados Unidos onde adquirira uma grande parte dos conhecimentos sobre o tema. Apesar de todo o seu mérito, ele estava longe de constituir uma figura consensual.

No início da sua carreira, Marcus Belling era visto pelo público mais como um vendedor do que como um hipnotizador: ele era um vendedor que sabia vender bem o seu produto, como acontecia com todos os profissionais mais comerciais. Várias vezes tinha sido acusado disso mesmo! Era sua convicção de que a medicina convencional não era a resposta para a cura de todos os sintomas do Homem: apenas na procura de uma cura holística seria possível providenciar às pessoas aquilo que elas procuravam. Não raras vezes ele tinha sido considerado um charlatão. Por essa razão, ele tivera dificuldade em assumir-se como um reconhecido profissional na área, sobretudo nos primeiros anos. A superstição e o preconceito assombravam a carreira de Marcus Belling. Para isso, ele contava com o apoio inestimável da sua mulher, Patricia Murio, uma fisioterapeuta dedicada à família.

Por tudo isto, os primeiros dez anos na carreira de Marcus Belling foram difíceis de percorrer e nem a sua capacidade de criar rapidamente empatia com as pessoas facilitou o processo de adaptação a novos tempos. Ele queria transmitir a mensagem de que a hipnose poderia ser aplicada em diferentes contextos traumáticos, fisiológicos e emocionais. No entanto, com o decorrer dos anos, as pessoas foram-se apercebendo de que Belling era de facto um estudioso sério nesta área e que as suas investigações eram exaustivas e rigorosas. A ideia de charlatão e de vendedor foi-se desvanecendo. Por outro lado, era inquestionável o sentido de responsabilidade com que desempenhava diariamente a sua profissão. Assim foram sendo desmistificadas crenças em torno da hipnose e, nisto, assistiu-se a uma ascensão gradual, mas sólida, de um reconhecimento nacional de Marcus Belling. Alguns anos mais tarde, ele seria conhecido como o mais famoso hipnotizador do país.

Existiam muitas pessoas à espera de uma sessão de hipnose com o reputado Marcus Belling. Efetivamente, pode-se afirmar sem exagero, que estas mesmas pessoas podiam ser distinguidas na Avenida do Sol, das restantes, que eram apenas transeuntes. O rosto dos “escolhidos” ficava subitamente iluminado, como se tivessem acabado de ter tido uma clarividência acerca do mundo. Mas o mais importante é que Belling também conseguia distinguir entre alguns destes curiosos que chegavam ao seu gabinete, daqueles que apenas pretendiam vender imagens do interior do seu local de trabalho a revistas e jornais sensacionalistas e daí ganhar muito dinheiro. Tornava-se assim necessário filtrá-los a partir das centenas de pessoas que o procuravam para serem ajudadas com os seus problemas: estas pessoas sim, eram uma prioridade na sua carreira.

Tal como o seu pai, Elias Belling, o famoso hipnotizador queria servir as pessoas com a sua profissão. A hipnose era usada como um instrumento de missão pública, sendo esta a marca distintiva no perfil de Marcus Belling. Assim, procuravam-no pessoas que se queixavam de dificuldades no sono, peso excessivo ou magreza extrema, ansiedade, dores crónicas, emocionais ou físicas, ou de uma forma geral, influenciadas por inquietudes da alma. Quanto a estas últimas, a regressão ajudava a compreender o que existia no substrato do inconsciente, permitindo resolver traumas das vidas passadas e contribuindo, desta forma, para o desfrutar de uma vida mais plena.

O mesmo sucedia com Anne Pauline. Foi a inquietude da sua alma que a levou a procurar Marcus Belling, embora, por norma, os pacientes que faziam a regressão fossem os mais descrentes quantos aos efeitos terapêuticos da hipnose. Por isso, estes procuravam primeiro a orientação de um psicólogo para compreender o seu estado de alma e apenas quando os sintomas se mantinham inalterados durante vários anos é que recorriam a um hipnotizador. A Terapia de Vidas Passadas era então a única solução para os casos mais complicados.

Marcus Belling não trabalhava sozinho. Esta era uma parte da sua receita para o sucesso. Para evitar que os simples curiosos prejudicassem a sua carreira, o famoso hipnotizador trabalhava há muitos anos com uma pequena equipa que lhe era extremamente leal. Era esta mesma equipa que lhe filtrava os casos por ordem de prioridade e que conseguia avaliar as reais intenções daqueles que procuravam a sua ajuda.

Belling não seria famoso e rico sem a ajuda de Sofia Estelar, a sua secretária pessoal de há muitas décadas. Alta, de olhos joviais, ela era sua secretária desde o início da sua carreira, tendo assistido ao afastamento de Elias Belling da sua profissão, à medida que o filho ia ganhando maturidade e mediatismo. De aproximadamente cinquenta anos, Sofia era casada e mãe de dois filhos e mantinha por Belling uma relação maternal, porque quem nutria um enorme sentimento de proteção; eles já trabalhavam juntos naquele gabinete há mais de vinte anos, pelo que se tornara impossível não desenvolver uma relação de enorme proximidade emocional. Essa mesma proximidade era óbvia todos os dias, em todas as circunstâncias. Inclusivamente, existia no gabinete de Belling uma fotografia antiga dos dois, ampliada, que tinha sido registada quando o consultório abrira pela primeira vez as suas portas naquele preciso local há duas décadas. Desde essa altura, já Sofia e Marcus Belling tinham mudado as suas feições e um pouco o seu temperamento. Ambos sabiam que o tempo era sempre implacável com o Homem.

Um dos traços mais marcantes da personalidade de Sofia Estelar era a sua extrema desconfiança. Isto era algo que já tinha nascido com ela, que fazia parte da sua natureza, e que a ajudara a superar as dificuldades dos primeiros tempos, quando Marcus Belling tentou, de forma inovadora, apresentar a hipnose às pessoas como uma forma de tratamento da alma. Desde logo, que a sua figura chamou a atenção do famoso hipnotizador, que admirava o seu carácter forte e marcado, de alguém que não desiste perante as primeiras dificuldades; o sorriso ciumento que ela tantas vezes esboçava, era apenas a confirmação de que entregava toda a sua dedicação a algo em que acreditava. Por essa mesma razão, Belling soube desde o início que ela era a pessoa indicada para desempenhar aquela função para o novo consultório situado na Avenida do Sol. Teria de facto de ser alguém que, ao contrário do famoso hipnotizador, concentrava todas as suas atenções a detetar possíveis motivações menos éticas de alguns que apenas procuravam um breve momento de mediatismo.

Era difícil e exigente gerir a agenda profissional de Marcus Belling. O tempo era sempre curto para todas as solicitações e por isso tornava-se necessário identificar rapidamente as prioridades. Belling fizera uma escolha acertada quando escolheu Sofia Estelar para aquela exigente função. Por essa razão, há mais de vinte anos que trabalhavam unidos para trazer a hipnose para junto daqueles que mais precisavam dela. Ambos estavam conscientes de que este era um trabalho de missão pública.

Para além disso, Sofia Estelar assistira à primeira década bastante dura de Belling em que este tivera de se afirmar no panorama nacional como um reputado hipnotizador: a partir daí, deu-se a ascensão da sua carreira. Ela sempre fora um grande apoio e por isso não era exagerado afirmar que o sucesso de Marcus Belling estava ligado, de forma inevitável, aos esforços desenvolvidos pela sua secretária pessoal para o proteger de malícias e de esquemas que lhe pudessem ser prejudiciais. Sem exagero, também se podia afirmar, que a sua desconfiança natural tinha ajudado no processo de construção de uma estável carreira. Os dois eram, por isso, eternos confidentes. Existia assim da parte de Sofia Estelar um juramento que ela tinha feito há muitos anos: ela iria proteger o famoso hipnotizador de todos os ataques exteriores (que eram os mais variados e provinham de várias frentes de ataque). Isto porque, mais do que ninguém, conhecia o exaustivo trabalho de bastidores que existia por detrás da gestão da sua imagem e da sua carreira. De facto, durante mais de vinte anos ela concretizou o seu juramento com sucesso, exceto quando Anne Pauline entrou na vida de Marcus Belling. Neste caso, nem mesmo a sua personalidade desconfiada e a sua afiada intuição poderiam evitar que as suas vidas mudassem para sempre.

Sofia Estelar sempre fora leal a Marcus Belling. O juramento, verbalizado em palavras indecifráveis à noite, ao pé da sua cama, ditava-lhe a regra de que teria de proteger o famoso hipnotizador, independentemente do que acontecesse. Ela não era apenas a sua secretária. Ela era sua confidente e amiga. Assim, quando a vida profissional do famoso hipnotizador era assolada por escândalos com o objetivo de o descredibilizar, Belling procurava conforto junto dela e recebia, com prazer, a sua compreensão. Por vezes, a cumplicidade que existia entre os dois criava a aparência de uma relação ambígua que nem sequer era percetível a Patricia Murio. Ao longo dos anos, a relação foi-se tornando cada vez mais difícil de caracterizar, criando a ideia de se tratar de um casal de amantes, mas ainda assim apenas amigos. De facto, eram precisas novas palavras para descrever a sintonia que existia entre ambos, mas com o aparecimento de Anne Pauline os dois acabarão por descobrir que as suas vidas estão igualmente ligadas através do passado.

No início, Sofia Estelar trabalhava sozinha com Marcus Belling no seu consultório da Avenida do Sol, mas ao longo do tempo ela foi-se apercebendo que o seu amigo precisava de alguém que pudesse trabalhar a sua imagem. Belling era bastante ingénuo no que tocava à sua relação com os outros, não alimentando por ninguém qualquer tipo de desconfiança, o que por vezes o prejudicava, tendo em conta a sua posição. Desde cedo, a sua relação conflituosa com Josef Salvaterra lhe trouxe amarguras profissionais difíceis de gerir que, por vezes, desenvolviam pequenos escândalos que Sofia Estelar teve de ir resolvendo ao longo dos anos. Ao longo de duas décadas, e de forma inevitável, as personalidades de Sofia e de Belling foram-se alterando e definindo para acompanhar o passo do progresso, e as suas múltiplas facetas; desta forma, os dois eram pessoas diferentes quando olhavam agora a fotografia (pendurada numa das paredes) que lhes tinha sido tirada no primeiro dia em que abriram o consultório no nº. 27 da Avenida do Sol.

Por várias vezes, Sofia Estelar tinha pedido a Belling para ser uma pessoa mais desconfiada, tendo em conta a sua carreira e as suas responsabilidades, mas os elementos da sua personalidade dificilmente eram alterados por recomendação. «Tem de prestar mais atenção às pessoas que o rodeiam», dizia-lhe ela frequentemente. Contudo, estas palavras raramente surtiam efeito, pelo que os conflitos com Salvaterra acabaram por se agudizar ao longo dos anos. Tendo a situação se tornado insustentável, Sofia Estelar rapidamente percebeu que era necessário contratar alguém que pudesse gerir a imagem do famoso hipnotizador e, por esta via, veio a conhecer Maria de Burgos, uma mulher de trinta e oito anos, inteligente e perspicaz, filha de pais espanhóis e com sangue latino a correr-lhe nas veias. Carismática, já tinha trabalhado com outros profissionais que também lhe tinham solicitado os seus serviços para gerir a sua imagem pública. Desde o início, que existiu uma verdadeira empatia entre ela e Sofia Estelar e assim, foram compondo o começo de uma equipa de trabalho, que haveria de ser bastante leal a Marcus Belling. Maria de Burgos aceitou imediatamente o convite para integrar o grupo na Avenida do Sol. A equipa em si estava lentamente a formar-se e, através dela, vinha o inevitável sucesso de Belling.

Maria de Burgos passava agora então a gerir todos os assuntos relativos à imagem do famoso hipnotizador perante os meios de comunicação e o público em geral. Ela aconselhava-o quanto à postura a ter na sua relação com as pessoas, dando-lhe preciosas sugestões de como gerir este mesmo contacto e evitar demonstrar uma confiança excessiva. Por outro lado, a relação de Belling com Josef Salvaterra também se alterou, agora mais controlada e sem grandes escândalos. Mas, ao longo dos anos, Maria de Burgos compreendeu também, que não conseguia impor, totalmente, a sua forma de trabalho a Marcus Belling, pois ele insistia em manter uma proximidade demasiado grande (nem sempre recomendável, do seu ponto de vista), com o seu público. Tal implicava, por vezes, um risco para a sua carreira que, nem ela, nem Sofia Estelar, estavam de acordo, pois corriam o risco de ver o esquema logístico montado no consultório da Avenida do Sol colapsar. Agora, algo de bastante revolucionário estava prestes a suceder quando Anne Pauline entrou na vida do famoso hipnotizador. Para este, contudo, exercer aquela profissão significava aceitar que o risco fazia parte da mesma, embora isso nem sempre fosse óbvio.

Passada a primeira década da sua carreira, Marcus Belling trabalhava agora com mais confiança. O apoio de Sofia Estelar e de Maria de Burgos tinha mudado totalmente a configuração da imagem do seu consultório na Avenida do Sol. No entanto, a equipa não poderia estar completa sem ter alguém responsável pela cobrança das sessões de hipnose. A pessoa responsável por este cargo chamava-se Ruben Mortsel. O jovem contabilista trabalhava há poucos anos com Marcus Belling depois de ter substituído o seu antigo contabilista, Vicente Torquay. Este trabalhara com o famoso hipnotizador durante mais de duas décadas. Por outro lado, Mortsel desempenhava um papel fundamental no gabinete ao controlar todas as receitas que eram geradas pelo trabalho diário de Marcus Belling.

Vicente Torquay, o antigo contabilista do consultório da Avenida do Sol, tinha ensinado tudo a Ruben Mortsel, antes de se ter reformado. As novas funções de Mortsel exigiam agora um espaço diferente para o departamento e faturação, que passou assim a funcionar no prédio ao lado do n.º 27. Aqui, Torquay e Mortsel ainda trabalharam juntos um ano, informando o famoso hipnotizador acerca do dinheiro gerado com as suas sessões. Mas os relatórios de faturação sempre pareceram importar pouco para Marcus Belling, que não duvidava da honestidade profissional dos dois contabilistas. Ele sabia que ganhava muito dinheiro com a sua profissão, mas durante muito tempo decidiu desconhecer os reais valores das receitas geradas com as suas sessões de hipnose. Para além disso, o acesso ao gabinete de contabilidade do famoso hipnotizador era restrito, passando primeiro pelo crivo exigente e desconfiado de Sofia Estelar. Tudo parecia estar sob controlo até ao súbito aparecimento de Anne Pauline. O mesmo não se passava com Josef Salvaterra, que conhecia com detalhe toda a sua contabilidade.

Estava assim composta a equipa de trabalho de Marcus Belling. Todos eles tinham feito o juramento coletivo de defender o hipnotizador e o seu trabalho, lutando ao mesmo tempo pelo espírito de missão que os acompanhava: a hipnose servia para ajudar as pessoas a encontrar o seu caminho para a plenitude e felicidade interiores, embora nem todos acreditassem com a mesma intensidade neste lema de trabalho. No entanto, era este o mote para que o consultório na Avenida do Sol continuasse de portas abertas. Nesse aspeto, apesar de ser um pouco ingénuo, Marcus Belling era extremamente rigoroso quanto à atitude que esperava dos seus colaboradores e amigos: não tolerava egos inflamados pelo mediatismo e pelo sucesso, ataques de arrogância ou vaidade, e a ignorância acerca da própria prática da hipnose era rapidamente elucidada por ele ou por colegas para combater os preconceitos instalados. Existia, por isso, uma espécie de lema filosófico na sua vida profissional que ligava todas estas pessoas entre si e que tinham assinado um contrato de lealdade de trabalho para com o famoso hipnotizador. Ainda que os níveis de lealdade não fossem todos idênticos, a verdade é que esta existia em toda a equipa que promovia e defendia o trabalho do filho de Elias Belling.

Marcus Belling, por seu lado, era como uma espécie de cacho de uva que todos adoravam ver envelhecer e transformar-se num bom vinho. Nos tempos de estudante nos Estados Unidos, ele recorrera várias vezes à Clínica da Universidade para usar a hipnose como forma de aliviar as ânsias dos alunos durante o seu percurso académico. Estes foram tempos de uma intensa aprendizagem. Embora especializado em hipnose clínica, foi aqui que Belling tomou pela primeira vez contacto com a utilização da hipnose aplicada à regressão a vidas passadas. No início, também ele tinha os seus próprios preconceitos no que se referia à Terapia de Vidas Passadas que, no seu país, ainda era relativamente desconhecida. A partir desta experiência no estrangeiro, Belling começou progressivamente a deixar os hospitais, onde também despendia uma parte considerável do seu tempo, para se dedicar à investigação da hipnoterapia e da regressão. Com este novo interesse, foi a partir daqui que começou a crescer o seu sucesso junto do público.

Após se ter formado em Terapia de Regressão nos Estados Unidos, Marcus Belling veio a casar-se com Patricia Murio, uma fisioterapeuta que também tinha o seu consultório privado no centro da cidade, mas distante da Avenida do Sol. Tinham dois filhos e viviam nos arredores da cidade.

O famoso hipnotizador considerava-se agradecido pela sua vida, que era bem-sucedida, de uma maneira um pouco inesperada, mais calma do que em tempos anteriores, mas ainda assim turbulenta. Nesse aspeto, Maria de Burgos tinha o trabalho diário de afastar pessoas incómodas, algumas vezes sem êxito. Entretanto, Salvaterra vivia obcecado com o sucesso do colega, alguns anos mais novo do que ele e que se iniciara na carreira mais tarde, tirando-lhe assim todo o protagonismo. Para além de ambos possuírem personalidades distintas, existiam também diferenças no método de trabalho que criavam clivagens profundas entre ambos. De facto, muitos pacientes de Marcus Belling afirmavam que ele dispunha de uma maneira mais democrática de trabalhar do que o seu colega Josef Salvaterra: este identificado com uma linha mais tradicional da prática da hipnose em que se recorria à chamada indução hipnótica clássica. Nestes casos, o hipnotizador obrigava o paciente a entrar em estado hipnótico segundo as suas palavras e orientação sem lhe dar a liberdade de escolher como entrar nesse mesmo estado. Para outras pessoas, pacientes de Salvaterra, isto era apenas um detalhe sem grande importância.

Apesar de serem muito diferentes na sua forma de trabalho, Belling e Salvaterra sabiam que era a confiança que estabeleciam com os seus pacientes que trazia a verdadeira cura para a alma. A eficácia dos seus tratamentos tinha algo de “efeito placebo”. O efeito placebo não criava ilusões menos verdadeiras, não sendo este o propósito; na realidade, ajudava as pessoas no processo de construção de um “convencimento interior” de que as técnicas empregues poderiam de facto intervir na alma e curar os seus piores traumas. Estes métodos funcionavam realmente com sucesso, mas os mais céticos tinham dificuldade em aceitar esta ideia, pelo que era importante criar a aparência dessa mesma eficácia. O que efetivamente importava nesse processo é que o efeito pretendido funcionava muitas vezes e, por essa razão, era utilizado pela maioria dos hipnotizadores que integravam o Conselho Nacional de Hipnose. A confiança com os pacientes era assim o elemento fundamental para uma carreira de sucesso na área da hipnose.

Marcus Belling e a sua equipa de trabalho tinham há muito tempo conhecimento dos métodos de trabalho de Josef Salvaterra. Este possuía uma postura de maior autoridade e de arrogância que assustava todos aqueles que já estavam habituados à relação democrática e aberta que mantinham com Belling no seu gabinete. Sem surpresa, os dois hipnotizadores faziam parte de duas escolas diferentes de hipnose que defendiam posturas distintas na relação entre hipnotizador e hipnotizado. O passado dos dois homens explicava também a sua opção pelo recurso a técnicas tão diferentes.

Vale por isso a pena conhecer agora um pouco melhor Josef Salvaterra. Tendo mais alguns anos de prática do que o seu concorrente, teve uma infância difícil, embora sempre acompanhado pelo seu tio rico. Um pouco mais velho do que Belling, de olhos e cabelos castanho escuros, tinha a alcunha de “batata” quando era pequeno devido à forma achatada do seu nariz que muitas vezes fazia lembrar uma verdadeira batata. Salvaterra foi na realidade o primeiro grande hipnotizador conhecido do público. Também nessa altura pouco se sabia acerca da hipnose, apenas que se tratava de um método terapêutico muitas vezes complementar da medicina convencional. Neste aspeto, o uso da palavra correta tinha-se tornado fundamental: há vinte anos, a hipnose era complementar, não alternativa aos métodos existentes, no que respeitava ao tratamento de hábitos de vida nocivos e de diagnóstico das doenças. A diferença na terminologia empregue tinha influência no processo de credibilidade da prática da hipnose.

Ao crescer, Salvaterra percebeu que a escolha da profissão era importante para alimentar todos os egos inflamados que se tinham escondido durante todo aquele tempo. O tio rico sempre tinha considerado uma boa ideia o sobrinho seguir a carreira de hipnotizador. Neste campo, começavam a florescer as primeiras formações de hipnose, pelo que existiam mais oportunidades de o sobrinho ser pioneiro em algo que as pessoas ainda não estavam ainda habituadas a lidar e a ouvir. Também já não era necessário frequentar a Universidade de medicina, cujos longos e extensos cursos contribuíam para uma maior delonga, desnecessária, numa carreira que se pretendia ser lucrativa, desde o primeiro dia. Por essa razão, desde cedo que o tio lhe começou a incutir o interesse pela hipnose, chamando-lhe a atenção que aquela carreira poderia ser o seu futuro sucesso, se tivesse a coragem de explorar terrenos que nunca tinham sido percorridos. Para o ajudar na decisão final, ele apresentou-lhe a jovem Marbella Gorey, de olhos castanhos escuros e quentes, por quem o sobrinho se apaixonou loucamente. Ele sabia que Marbella era ousada, ambiciosa e gananciosa. Com a sua astúcia e alguns encantos próprios, ela conseguiu assim convencer Josef Salvaterra a lançar-se na carreira de hipnotizador, tornando-se ela própria beneficiária desse mesmo sucesso. O tio e Marbella estavam felizes, e bem assim também Salvaterra que apesar de tudo encontrava na sua profissão o alento necessário para esquecer a sua infância difícil. Tudo estava a correr bastante bem neste percurso até Marcus Belling se ter começado a destacar a nível nacional. Ao mesmo tempo, nesta época, já o perfil de Salvaterra como hipnotizador se encontrava definido; a sua arrogância desencorajava-o de continuar a investigar na sua área de trabalho e desta forma começou, progressivamente, a usar um tom cada vez mais autoritário com os seus pacientes. Nem todos possuíam o espírito crítico orientado para duvidar que era “possível fazer diferente”. Esta abertura de mentalidades apenas surgiu alguns anos mais tarde, com Belling.

Marbella Gorey não ficou igualmente satisfeita com o mediatismo de Belling. Sem o confessar, este acontecimento levou-a a considerar o seu casamento com Salvaterra como um projeto falhado. Tanto ela como tio rico, jamais poderiam imaginar que iria sobressair no panorama nacional um talento inato para a hipnose, como o de Marcus Belling. Contudo, também ela se tinha apaixonado ao início por Salvaterra e por isso não questionou afastar-se dele, pelo menos durante os primeiros dez anos. No entanto, o seu espírito inquieto mandava nela e não se conformava com aquela situação. Marbella começou assim, ao longo do tempo, a atiçar a disputa entre os dois hipnotizadores e a necessidade de ganhar mais dinheiro e estatuto social orientava-lhe todos os propósitos na vida. De alguma maneira, tentava ter o controlo sob as receitas geradas com as sessões de hipnose realizadas no consultório do marido. Marbella Gorey era particularmente venenosa, para além de ser uma pessoa com quem ninguém se sentia bem. Com os anos, foi ganhando um corpo cada vez mais raquítico como se por dentro estivesse a ser devorada por vinganças pessoais que não conseguia ultrapassar.

Marbella era uma grande amiga de Jasmine, sendo esta a única pessoa capaz de controlar Marbella e de a manipular para os seus próprios fins. As duas eram amigas há muitos anos. Na realidade, Jasmine era uma pessoa única e diferente, talvez por ser orácula, vidente e cartomante o que lhe tinha permitido desenvolver fortes perceções extra-sensoriais que a tornavam uma pessoa a quem se recorria em situações de dificuldade. Assim, quando Anne Pauline entra na vida de Marcus Belling também a sua própria vida irá mudar, tanto no presente como no passado.

Josef Salvaterra não tinha medo da mulher. Conhecia-lhe bem o caráter e sabia impor a sua autoridade. Amava-a profundamente. Por a conhecer tão bem, ele sabia perfeitamente quando é que ela o tentava controlar e manipular, o que raramente acontecia, pois ele não aceitava com facilidade as suas sugestões para dirigir o seu trabalho enquanto hipnotizador, numa dada direção. Isto sucedia particularmente quando ela lhe recomendava pessoas para trabalhar juntamente com ele, que normalmente serviam de espiões para controlar Marcus Belling e a sua equipa. «Tens de assegurar o lucro certo ao final do mês», dizia-lhe ela frequentemente. Marbella, por seu lado, não insistia. No fundo, ela tinha bastante receio de perder a sua “galinha dos ovos de ouro” e, por essa razão, ao longo do tempo, aquela união foi-se tornando uma relação de conveniência.

Ao contrário de Marcus Belling, Josef Salvaterra não contava com uma equipa leal que defendesse e promovesse o seu trabalho enquanto hipnotizador. Pontualmente, ele contava com a participação de pessoas escolhidas pela mulher para melhorar e controlar a parte logística da sua profissão, mas rapidamente as dispensava. Tanto Salvaterra como Marbella, tinham necessidade de dominar todas as circunstâncias daquele negócio; efetivamente, a hipnose era apenas um negócio e os seus pacientes eram seus clientes. Não existia ali um espírito de missão pública que os movia, e as receitas geradas pelas sessões de hipnose eram a principal razão para manter o consultório aberto. Este localizava-se numa zona oposta da cidade ao de Belling, longe da conhecida Avenida do Sol.

Ao mesmo tempo, Marbella tinha ainda um pequeno desejo e ambição escondidos. Desejo esse que nunca confidenciara ao marido. Na cidade existia um clube secreto que era conhecido como o “Clube da Feitoria” bastante restrito e do qual faziam parte as mulheres mais ricas do país. Tinha-se tornado uma honra fazer parte desse mesmo clube e comentava-se, em sussurro, que estas mulheres controlavam um grande número de estruturas ligadas à cultura e à educação, o que lhes devolvia ainda mais poder. Altamente privilegiado, o clube não aceitava qualquer mulher, mas apenas aquelas que demonstravam possuir rendimentos de uma certa categoria. Na realidade, Josef Salvaterra conhecia os intentos da mulher e a sua vontade em pertencer ao tal “Clube da Feitoria” embora esta ideia não lhe agradasse. Ele queria-a junto de si. De facto, ele sentia-se por vezes sufocado com a sua constante presença, mas ficava igualmente perdido quando ela desviava a sua atenção para outros interesses. Jamais Salvaterra pretendia que ela integrasse o tal Clube, com receio de ela própria se desinteressar dele. Por essa razão, várias vezes Marbella expressou a Jasmine que via um pouco Salvaterra como o destruidor dos seus sonhos; esta era uma ideia e um sentimento que ela foi alimentando de forma perigosa e que lhe fez nascer um estranho desejo de vingança em relação ao marido. Marbella e Josef Salvaterra viviam assim um casamento de conveniência, embora o hipnotizador ainda amasse a mulher. Em ambos era possível encontrar a mesma antipatia para com Marcus Belling que lhes fazia novamente despertar o sentimento de orfandade que continuava a inquietá-los.

Para agravar ainda mais esta situação, Marbella atiçava a inveja no marido e Salvaterra sentia-se encurralado neste sistema. Ele amava a mulher, mas por vezes não a compreendia. Ele estava a envelhecer e as antigas disputas com Marcus Belling já o cansavam, razão pela qual rapidamente recolhia ao seu local de trabalho sempre que a mulher vinha ter com ele. Quando Anne Pauline toca à campainha do consultório de Belling já quase não existia entendimento possível entre Salvaterra e Marbella: os dois não se compreendiam e progressivamente começaram a ter diferentes propósitos na vida. A distância entre ambos era apenas um facto visível de algo mais profundo que ocorria dentro do espírito e da alma.

A vida e as experiências pessoais dos dois hipnotizadores moldaram-lhes assim duas formas distintas de praticar hipnose. De forma inevitável, estes acabaram por estabelecer diferentes níveis de confiança com os seus pacientes. Como era conhecido, um era considerado mais democrático, o outro mais autoritário, embora nem todos tivessem a mesma perspetiva acerca do conteúdo real desta “autoridade”. Gradualmente, intensificou-se a luta pela ribalta.

Quando Anne Pauline toca, neste dia, à campainha do consultório de Marcus Belling, ela desconhece todas estas histórias de vida. Também ela própria tem a sua, por vezes dividida entre o presente e o passado. Por um lado, ela não sabe que existe uma equipa leal e dedicada que trabalha com Belling, que Marbella e Salvaterra possuem uma acérrima disputa com o famoso hipnotizador há vinte anos, e que Sofia Estelar e Maria de Burgos desenvolveram um esquema operativo bastante bem elaborado no consultório da Avenida do Sol. Por isso, nem a própria Anne Pauline tem consciência do que está prestes a desencadear com o seu aparecimento.

O consultório de Marcus Belling funcionava num prédio antigo, entre os muitos que tinham sido construídos durante o século XVIII na principal avenida da cidade. Ao longo de dois quilómetros existiam aqui inúmeros cafés e restaurantes, esplanadas repletas de pessoas, e sobretudo, muitas fontes de água que eram verdadeiras preciosidades arquitetónicas. Para além de tudo isso, não muito longe do n.º 27, ficava localizada a estátua da Fénix que tinha sido mandada erigir no início do século XX: um enorme pássaro parecia levantar-se do chão, para depois levantar voo. Ao seu lado, numa espécie de pia, encontravam-se as suas cinzas, que significavam o seu renascimento. Há muito tempo que a jovem Anne Pauline andava à procura da sua identidade e precisava desesperadamente de saber o que tinha acontecido no seu passado. O homem que lhe aparecia todas as noites há muitos anos em sonhos, quase que lhe tinha exigido que ela regressasse ao seu passado. Por outro lado, ele tinha-lhe destruído a sua confiança interior, fazendo-a duvidar da pessoa que ela era realmente. Ela precisava de se reerguer, tal como o pássaro da Fénix.

Desta forma, ao caminhar em direção ao consultório de Belling, Anne Pauline parou em frente à estátua para admirar a sua arquitetura. A pintura que cobria o pássaro já se tinha desvanecido com o tempo, tendo permanecida intacta apenas a força da pedra, uma metáfora para mostrar que era sempre necessário confiar num futuro melhor. A jovem respirou fundo e encontrou ali alguma esperança para si mesma, tal como quando observava a “Ilha dos Pássaros” na sua praia.

A Avenida do Sol, larga e esplêndida, era a principal artéria da cidade. Sendo uma avenida entusiasmante, repleta de cafés e restaurantes, era frequente ver aí sentados Belling e Sofia Estelar a conversar. As mulheres que reconheciam o famoso hipnotizador aproveitavam esta sua aparição para pedir autógrafos e tirar fotografias, o que apenas incomodava ainda mais a sua secretária pessoal. Sofia Estelar era mais do que uma confidente próxima. No fundo, a sua relação próxima com Belling tornou-a quase como uma amante dissimulada que não podia expor os seus verdadeiros sentimentos, ainda que quisesse. A verdade é que Marcus Belling não imaginava que algo de intenso a pudesse estar a consumir, mesmo que trabalhasse com ela diariamente.

Talvez por tudo isto, Sofia Estelar exagerava nos pedidos que dirigia às mulheres que pretendiam ter uma sessão de hipnose com Belling. «Tudo isto tem caráter obrigatório», dizia ela obrigando-as depois a preencher papéis intermináveis quase para as fazer desistir dos seus propósitos. Existia nela algo de manipulador, difícil de controlar. Apesar de tudo, ela conseguia filtrar os casos prioritários, distinguindo os casos urgentes daqueles que não o eram, apercebendo-se sobretudo, dos meros curiosos que vinham apenas saciar o seu gosto pela fama. Mas a astúcia de Sofia Estelar não era verdadeiramente conhecida por Belling que se escondia por detrás da sua característica capa de ingenuidade, para justificar o seu desconhecimento relativamente à abordagem que existia no consultório, por parte da sua secretária.

Anne Pauline tocou ao meio-dia à campainha do n.º 27 da Avenida do Sol. Perante o silêncio, tocou uma segunda vez. O sol e o calor pareciam ter amolecido as pessoas que agora caminhavam de forma dolente pela avenida, quase como se pressentissem a revolução que estava prestes a ocorrer. Naquele momento, as cores vermelha e dourada que ainda resistiam da estátua da Fénix acentuaram-se como se o pássaro quisesse tomar vida e voar. Seguidamente, como acontecia duas vezes por dia, o mecanismo elétrico que existia dentro da estátua fez acionar o movimento das placas onde se encontravam as cinzas, de onde agora corria uma água límpida e fresca. Subitamente, a estátua tinha-se transformado numa fonte de água.

Entretanto, enquanto Anne Pauline esperava que Sofia Estelar lhe abrisse a porta, algo de muito importante para a sua vida estava a acontecer, naquele preciso momento, numa outra zona da cidade.

Georgine Gunderson era bibliotecária há muitos anos e, naquele dia de verão, tinha sido chamada pelo diretor de arquivos da biblioteca municipal. Não medindo mais de um metro e sessenta, de olhos verdes escuros e rosto oval, recebeu a informação que tinha sido destacada temporariamente para a antiga biblioteca nacional, já extinta. Seria assim a única funcionária permanente daquelas instalações, abandonadas há mais de sete anos. O antigo edifício da biblioteca, do século XIX, albergava agora encomendas e livros que, por motivos logísticos, não podiam ser guardados noutros locais da Câmara por falta de espaço. Era um espaço antigo que tinha funcionado como repositório dos mais importantes catálogos da cidade e que se encontrava fechado há vários anos.

Georgine Gunderson não compreendia a razão pela qual tinha sido colocada naquelas funções, extremamente solitárias e aparentemente inadequadas à sua experiência profissional. Por momentos, pensou que o seu segredo mais íntimo tinha sido revelado. Sim, ela tinha um segredo. Existia ainda outra hipótese; talvez as suas investigações fora do horário de expediente para descobrir a verdadeira história da Avenida do Sol, tivessem incomodado as suas chefias, sendo esta a forma encontrada, de se voltar a concentrar no seu trabalho. A verdade é que, neste dia, ela era oficialmente a única funcionária destacada pela Câmara para arquivar livros na extinta biblioteca.

– É apenas um espaço temporário. Precisamos de alguém que, por agora, nos possa ajudar a dar alguma arrumação ao que ainda lá se encontra naquela biblioteca. Hoje chegou uma encomenda importante. Preciso que a Georgine vá até lá e ajude a arrumar os livros que vieram hoje. Vai lá ficar durante os próximos nove meses. Depois disso, volto a colocá-la como funcionária permanente na nova biblioteca, prometeu-lhe o chefe.

Ela nada podia fazer. Relutantemente, Georgine Gunderson foi naquela manhã para a rua onde ficava localizado o edifício da biblioteca antiga. À sua espera, num pequeno camião, estavam várias caixas de livros que foram trazidas para dentro das instalações. Com cuidado, todas as caixas foram colocadas em cima de uma antiga mesa, hoje coberta de pó. Algo naquele espaço a assustava. Georgine não gostava de ser a única pessoa a trabalhar naquele lugar inóspito, atualmente fechado ao público.

Cuidadosamente, a bibliotecária abriu todas as caixas que lhe tinham chegado naquele dia. Todas elas tinham sido numeradas pela Câmara. Não sabia de onde vinham aqueles livros e essas explicações nunca lhe foram dadas. Foi assim, com bastante alívio, que após duas horas de trabalho, abriu a última caixa daquele carregamento: a BO18. Lentamente, com muito cuidado, começou a colocar os livros nas prateleiras. Georgine Gunderson não sabia, mas naquele dia, fora destacada para guardar um segredo. Segredo esse que ela teria de manter em segurança durante os próximos nove meses, de acordo com as orientações dadas pelo seu chefe. Entretanto esperava-lhe muito trabalho.

Os nove meses significariam muito, tanto para Anne Pauline, como para Georgine. Sem que as duas pudessem ainda adivinhar, os seus destinos acabariam por se cruzar. Isto porque, embora Georgine Gunderson não estivesse habituada a guardar segredos porque ninguém os confiava (não por falta de confiança, mas porque ela era uma pessoa invisível aos olhos dos outros), a verdade é que ela guardava agora uma verdade inconveniente acerca da nova paciente de Marcus Belling. Sem o saber ainda, fechou a caixa BO18 e, com um sentimento estranho, regressou a casa.

O Mistério de Anne Pauline

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A PORTA ABRIRA-SE. Finalmente era dada autorização a Anne Pauline para conhecer Marcus Belling.

Para quem conseguia entrar no consultório de hipnose, isso significava que já se tinha passado pelo rigoroso crivo de seleção de Sofia Estelar. A secretária do famoso hipnotizador tinha um ritual, que mantinha há muitos anos. Sempre que alguém iniciava as sessões de hipnose com Belling, ela ficava à espera da pessoa na porta para a cumprimentar pessoalmente, para provar a si mesma que sabia escolher as pessoas certas. As “pessoas certas” eram aquelas que precisavam realmente da ajuda de Belling para ultrapassar os seus traumas ou quebrar hábitos prejudiciais e não apenas as que tinham interesse em aproveitar-se do seu mediatismo. Sofia Estelar sentia alguma vaidade e orgulho, nestas suas funções.

Quando Sofia Estelar viu Anne Pauline, apercebeu-se que era muito mais bonita do que a fotografia que vinha colada no impresso. Impresso esse que era enviado, em forma padrão, para todas as pessoas que solicitavam uma sessão com Belling. Como ela bem sabia, existiam mulheres muito pouco fotogénicas que, no entanto, deslumbravam quando apareciam na Avenida do Sol e estes eram casos a que ela tinha de se manter atenta. Este esquema de ilusão da mente era enganador e não permitia a Sofia Estelar confiar na fotografia que vinha com o papel de registo na consulta. No caso de Anne Pauline, à medida que ela chegava cada vez mais perto, a secretária sentiu um tremor estranho dentro de si. “Não gosto desta sensação”, pensou ela para si mesma. Naquele momento, ela percebeu imediatamente que tinha escolhido a pessoa errada para ter sessões de hipnose com Belling e que, excecionalmente, o seu método de seleção que era uma mistura de intuição, astúcia, inteligência e perspicácia, não tinha funcionado. Alguma coisa tinha falhado naquele processo. Sofia Estelar ficou subitamente amedrontada com aquela constatação. “Estar-me-á a faltar o talento para isto?”, pensou imediatamente.

Era raro a secretária pessoal de Marcus Belling duvidar do seu talento para as funções que desempenhava no consultório há mais de vinte anos. A sua intuição dizia-lhe agora que Anne Pauline Roux era uma pessoa diferente, daquela que inicialmente tinha julgado. Mas já não havia nada a fazer. Anne Pauline percebeu o desconforto que a sua presença causou em Sofia Estelar, mas as duas cumprimentaram-se cordialmente. A secretária de Marcus Belling acompanhou-a então, corredor dentro, até uma das portas onde a esperava o famoso hipnotizador. Sem ainda ter perfeita consciência disso, Sofia Estelar tinha acabado de iniciar, para sempre, a mudança na vida de todos aqueles que trabalhavam na Avenida do Sol. Anne Pauline era uma presença misteriosa. Conseguia sentir isso mesmo de cada vez que falava ou olhava para ela. Naquele instante, arrependeu-se de lhe ter aberto a porta. “Devia ter ficado lá fora”, voltou a pensar.

Quando Anne Pauline entrou no consultório de Marcus Belling, ela deu-se conta que o charme dele era maior do que aquilo que julgava. “Na televisão parece mais alto”, pensou ela para si mesma. Ele recebeu-a com um sorriso agradável e com um gesto afetuoso. Sofia Estelar virou os olhos. Nunca se habituaria ao encantamento das mulheres por Belling, mas fechou a porta atrás de si e deixou-os sozinhos para a sessão de hipnose que estaria prestes a começar.

Quando Marcus Belling viu Anne Pauline mais de perto teve imediatamente um sentimento estranho. A sua afetuosidade e abertura rapidamente se transformou em desconfiança. Era raro isso acontecer pois ele era uma pessoa que estabelecia uma grande confiança com os seus pacientes e, por causa disso mesmo, tinha sido avisado por Maria de Burgos para se resguardar um pouco mais. Isso raramente acontecia. Naquele momento, percebeu imediatamente o significado do olhar que Sofia Estelar lhe deixara antes de fechar a porta. Anne Pauline não tinha reparado, mas aquele olhar angustiado da secretária parecia querer dizer-lhe: “Eu enganei-me”. Belling voltou a repetir a memória deste olhar na sua cabeça: “Esta pessoa pode não ser de confiança”, pensou para si mesmo. Devia, portanto, ter cuidado com ela.

Ainda em silêncio, Marcus Belling estendeu a mão a Anne Pauline e cumprimentou-a de forma cordial. Depois, articulou-lhe pela primeira vez as suas palavras:

– Sente-se, por favor. Bem-vinda ao consultório de hipnose na Avenida do Sol. Neste dia, começa o seu caminho para descobrir o seu passado. – disse, sorrindo.

Naquele momento, a sua paciente continuava em silêncio, quase como que a recordar mil vezes na sua mente aquele breve discurso de Marcus Belling. Aquela voz era-lhe muito familiar, mas tinha dificuldade em perceber de onde lhe vinha aquela sensação. Desta forma, sentou-se no “sofá dos hipnotizados”. Marcus Belling começou por se apresentar a Anne Pauline. Tinha estudado nos Estados Unidos e no Reino Unido, era membro efetivo há mais de quinze anos do Conselho Nacional de Hipnose, uma organização que difundia e promovia as práticas de hipnose no país, e costumava frequentar conferências e palestras sobre hipnose pelo mundo inteiro. Com esta apresentação pretendia, como sempre, desviar a atenção do paciente do seu drama pessoal para aquela sessão, preparando-o assim para construir uma relação de confiança. «A confiança é um pilar fundamental desta relação», costumava dizer Marcos Belling às pessoas que o procuravam. Ele, enquanto hipnotizador, procurava ir ao fundo da alma de cada um, conhecer o outro de uma maneira mais profunda como nunca ninguém tinha experimentado. Talvez, por essa mesma razão, apesar da oposição de Sofia Estelar e de Maria de Burgos, recusava-se por isso a ser menos autêntico do que aquilo que era ou do que demonstrava ser. Do outro lado, algumas vezes nem sempre encontrara a compreensão que esperava receber por parte da equipa que dirigia. «Às vezes pede às pessoas o impossível, Belling. Hoje em dia já ninguém é tão autêntico como pretende que as pessoas sejam», disse uma vez Sofia Estelar cheia de coragem. Lá no fundo, Belling sabia que ela tinha razão.

É verdade que Marcus Belling tinha como principal função descer o mais profundo possível à alma de cada, como jamais ninguém tinha tentado. Por essa razão, tornava-se tão importante construir uma relação de confiança com os seus pacientes. O mesmo não sucedia com Josef Salvaterra que apenas se preocupava com o momento da indução em estado hipnótico, escapando da profundidade do espírito das pessoas que o procuravam. Ao contrário, Belling queria conhecer os seus medos, as suas mágoas, as tuas tentações e os seus castigos interiores; de facto, em muitos casos, os seus pacientes recorriam à hipnose para se perdoarem a si mesmos. Esta era uma realidade que Marcus Belling conhecia bastante bem, sobretudo porque era muito bom observador e bastante perspicaz. Desta forma, as pessoas procuravam algumas vezes o seu contacto para partilhar esta sua culpa com outro, acima de tudo alguém que não as julgaria.

Marcus Belling preparou as condições para que Anne Pauline pudesse começar a falar de si e o que a tinha levado a procurá-lo. Foi precisamente essa a primeira pergunta que lhe colocou. Seguiu-se então a resposta.

– Toda a minha vida, desde a minha infância, que sinto que tenho um passado que não compreendo. Durante muitos anos tive lembranças de uma vida que me pareceu ser minha. – explicou Anne Pauline.

– O que me está a dizer, se a compreendo bem, é que a Anne sente que teve várias vidas passadas e que as imagens dessas vidas lhe chegam por exemplo em sonhos? – perguntou Marcus Belling.

– Sim, é isso que estou a dizer. – respondeu.

– Pode parecer-lhe estranho, mas sabia que alguns dos sonhos que a maioria das pessoas têm em vida estão normalmente relacionados com episódios das suas vidas passadas? A maioria nunca chega a saber isto. Apenas quando a vida passada é cheia de eventos que marcaram a nossa memória é que é possível relacionar esses sonhos com uma vida passada, disse Belling.

Anne Pauline mostrava-se interessada e surpreendida com aquilo que Marcus Belling lhe acabara de dizer. Queria isso então dizer, que pelo menos uma fração daquilo que sonhara durante a vida estava intimamente relacionado com as suas vidas passadas. Todavia, ela tivera muitos sonhos durante a sua vida e por isso, tornava-se difícil especificar quais aqueles que se relacionavam com o seu passado desconhecido. Belling percebeu o entusiasmo da jovem pelo tema e prosseguiu.

– Isso acontece a muitas pessoas. A maioria não chega sequer a saber que alguns desses sonhos estão relacionados com vidas passadas. Se no seu caso é capaz de se recordar dessas imagens é porque, de alguma maneira, isso lhe causa uma sensação de desconforto. A Anne Pauline sente esse desconforto porque viveu experiências tão intensas que ficaram guardadas no seu subconsciente. Talvez haja algo no seu passado que ainda esteja pendente para ser esclarecido no seu futuro? – perguntou Belling.

Anne Pauline ficou, por momentos, a pensar naquela questão de Marcus Belling, mas ela não era nenhuma especialista. Não sabia quais as razões por detrás das suas inquietações. Talvez existissem vidas passadas, com momentos traumáticos ou situações que exigiam que ela retomasse a esse mesmo passado. O que era certo é que a sua a angústia era permanente. Queria viver em paz. Belling percebeu que ela não iria responder à sua pergunta. Na realidade, nem pretendia uma resposta. O famoso hipnotizador tentou tranquilizá-la e, para isso, numa tentativa de ganhar a sua confiança, voltou a formular uma nova pergunta:

– Sempre se sentiu assim? – perguntou.

– Sim, sempre vivi num estado permanente de ansiedade e de inquietação. Acho que através da hipnose vou conseguir descobrir o meu passado. – disse Anne Pauline baixando o olhar.

– Por isso veio ter comigo. A Anne Pauline decidiu que quer iniciar a Terapia de Vidas Passadas e pretende encontrar a tranquilidade que precisa para a sua alma. – acrescentou Belling.

– Sim, é precisamente isso. – respondeu a jovem ainda de olhos baixos.

– Gostaria ainda que me pudesse dar alguns exemplos do que acaba de me dizer. Vejo que existe um passado, ou vários passados, que tentam chegar até si, talvez recorrendo ao seu subconsciente. Essa forma de libertação concretiza-se, pelo que me diz, através dos sonhos. Será que me pode contar alguma experiência que tenha tido? – perguntou Marcus Belling.

– Uma noite sonhei com três portas. Decidi abrir uma dessas portas onde estava escrito “Destino desconhecido” e fui puxada para dentro; senti uma enorme sensação de paz e tranquilidade, que apenas conheço dos tempos quando ia viajar no Argo com o meu pai. Quando acordei, tinha a cama cheia de ramagem, ervas e folhas, como se efetivamente já tivesse estado naquele lugar, que me pareceu tão familiar. Era uma planície dourada extensa. – disse Anne Pauline visivelmente emocionada.

- O que é o Argo? – perguntou Marcus Belling.

Marcus Belling não sabia o que era o Argo, mas pôde deduzir que se tratava de uma embarcação de pesca. Pouco ainda sabia acerca do passado da sua nova paciente. Por outro lado, ela manteve-se em silêncio durante algum tempo sem responder à sua questão e o hipnotizador percebeu que o Argo era muito mais do que um barco. Depois, ouviu a resposta de Anne Pauline:

– O Argo é embarcação de pesca da minha família.

Quem iniciava sessões de hipnose com Marcus Belling sabia, desde logo, que aceitava manter uma relação de lealdade com ele. A confiança era um elemento fundamental naquela relação e foi essa mesma ideia que Belling tentou reforçar junto de Anne Pauline. Tinha de existir entre dois uma ligação aberta e transparente. Ao mesmo tempo, Marcus Belling parecia adivinhar tudo o que Anne Pauline pretendia dizer. À medida que ela falava mais sobre si e sobre o “seu” mundo desconhecido, Belling ia sentindo uma inquietação interior cada vez maior. Uma vez mais, voltou a lembrar-se do olhar angustiado de Sofia Estelar. Até àquele momento a conversa com Anne Pauline tinha decorrido com toda a naturalidade. Era uma jovem de vinte e cinco anos que precisava da sua ajuda para compreender se o passado tentava de alguma forma enviar-lhe uma mensagem através da sua mente.

Anne Pauline ainda não conhecia bem a história profissional do famoso hipnotizador, mas a verdade é que apenas nos últimos doze anos de carreira, é que ele se tinha dedicado à regressão. Na realidade, ele era especialista em hipnose clínica, mas ao longo dos anos foi desenvolvendo o seu interesse pela Terapia de Vidas Passadas: a partir daqui, compreendeu que era igualmente possível tratar sintomas graves, tanto físicos como psicológicos (depressões e outros distúrbios) recorrendo à regressão. Mas alguns colegas hipnotizadores continuavam a duvidar do sucesso desta terapia, o que por vezes tinha gerado algumas convulsões de ideias e teorias dentro do Conselho Nacional de Hipnose.

Era agora pouco o tempo que Belling dedicava à hipnose clínica. Tendo começado a afastar-se da investigação nesta área, mantinha algum acompanhamento junto das crianças nos hospitais. Através da hipnose, o famoso hipnotizador ajudava-as a ultrapassar os seus traumas e as suas ansiedades. Belling deixou então o seu pensamento para trás. Estava na altura de explicar a Anne Pauline quais os propósitos, as condições e os métodos terapêuticos usados nas suas sessões de hipnose:

– Antes de mais, para que saiba, a hipnose é um estado mental que é usualmente induzido por um procedimento conhecido como indução hipnótica, já deve ter ouvido falar. O estado hipnótico corresponde às chamadas ondas alfa que estão associadas a um estado de calma e de recetividade. É por isso que, durante o transe, as pessoas se sentem bastante mais calmas. É isso que vamos fazer nas nossas sessões Anne Pauline. Vou induzi-la num estado hipnótico, mas sempre num ambiente controlado.

Anne Pauline ouvia atentamente o que Belling tinha para lhe dizer. O famoso hipnotizador prosseguiu:

– No caso específico da Terapia de Vidas Passadas, que pressupõe o uso da hipnose, a Anne Pauline irá regressar a um passado ou a vários passados que estão para além do limiar da sua vida atual. A partir daqui nós conseguiremos chegar ao que apelidamos de “memória extra-cerebral”. Ao atingirmos este reservatório de memória, será possível chegar ao núcleo do seu trauma e o seu inconsciente poderá libertar o material psíquico, a chamada catarse. Poderemos, nesta fase, compreender os traumas que ficaram encerrados no seu passado e libertar essas memórias. A partir desse momento, irá sentir um alívio significativo dos seus sintomas. – concluiu Marcus Belling.

– E tudo o que eu contar aqui, o que acontece a essa informação? – perguntou Anne Pauline.

– Nas minhas sessões de hipnose eu comprometo-me a manter a confidencialidade de todos os assuntos que são discutidos com os meus pacientes. Neste sentido, eu e os meus colegas hipnotizadores trabalhamos dentro do âmbito da lei; que, neste caso, é o Código de Ética do Conselho Nacional de Hipnose. – respondeu Belling.

Anne Pauline tinha ouvido e compreendido perfeitamente tudo o que Marcus Belling lhe tido dito. Sem confessar, ela nunca tinha acreditado verdadeiramente nos efeitos terapêuticos da hipnose. Contudo, ao longo dos anos, à medida que a medicina tradicional não lhe conseguia providenciar uma solução para os seus anseios, ela começara a ver na hipnose uma alternativa para a sua cura. Naquele dia, ao ouvir Belling falar sobre a Terapia de Vidas Passadas compreendeu, imediatamente, que tinha tomado a decisão mais acertada. Marcus Belling era a única pessoa que a podia ajudar. Ainda assim, quando pensava em ser hipnotizada, não conseguia deixar de não se sentir assustada. Eram muitas as questões que tinha na sua cabeça. Como seria estar hipnotizada? Será que entraria noutra dimensão? Será que se podia chamar ao transe hipnótico uma experiência de quase morte? E se Belling morresse durante uma das sessões, seria ela capaz de acordar do transe? Como muitas pessoas, Anne Pauline tinha as suas superstições e os seus receios. Por um lado, ela tinha medo de que os segredos do seu passado fossem revelados. Sem filtros, tudo ficaria a descoberto. Por outro lado, não queria que a sua história pessoal fosse do conhecimento de qualquer um. Várias vezes teve de repetir para si mesma: “Vou confiar, vou confiar”. Desta vez ia confiar. Marcus Belling disse-lhe então:

– Gostaria apenas de reafirmar que para um hipnotizador é bastante importante saber o que acontece com o seu paciente durante o transe hipnótico. Este estado é induzido através do poder da sugestão. Nesta fase, apenas o paciente me poderá dizer o que está a ver, a sentir e a ouvir. Peço-lhe por isso que confie em mim.

O pedido parecia simples. Apesar disso, como Anne Pauline iria perceber uns meses mais tarde, esta frase de Marcus Belling iria deixá-la num profundo dilema. Todavia, naquele momento, ela nada tinha a recear. O famoso hipnotizador tinha a sua ética profissional e estava obrigado ao sigilo relativamente a tudo aquilo que se passava com os seus pacientes, no seu consultório. Esta seria a primeira sessão de hipnose, uma de muitas ao longo de nove meses, de Anne Pauline com Marcus Belling. O que os dois iam descobrir daqui para a frente ultrapassava os limites da sua imaginação e, em caso algum, poderiam estar preparados para as revelações que iriam acontecer nos próximos meses.

A confiança entre hipnotizado e hipnotizador era fundamental para o sucesso da terapia. Sem a existência desta, não seria possível garantir que o paciente fosse capaz de superar os anseios causados pelas suas vidas passadas. Contudo, existia um receio compreensível por parte de alguns pacientes em reportar tudo aos hipnotizadores o que se passava durante o transe hipnótico; algumas memórias eram muito profundas e intensas. Para além disso, existiam alguns casos reportados em que a ética profissional tinha sido violada. Nestas situações, o Conselho Nacional de Hipnose aplicava os devidos processos disciplinares a todos aqueles que quebrassem a sua deontologia profissional. Um desses casos era o de Josef Salvaterra.

“O caso Salvaterra”, como ficou conhecido, parecia uma obra de ficção. Há alguns anos, procurou-o um banqueiro já reformado para compreender o sentimento de culpa que o tinha perseguido, de forma inexplicável, toda a sua vida. Tal como ele explicou, sempre tinha vivido uma vida honrada, com a família e amigos e não existia nada que o envergonhasse. Aliás, a honra era um valor fundamental que norteava toda a sua vida. Contudo, por alguma razão, considerava que ela não estava intacta na sua alma e queria perceber as razões por detrás desta sua estranha intuição.

Ao fazer a regressão a uma das suas vidas passadas, o banqueiro percebeu que tinha sido um foragido, alguém que vivia a fugir da justiça e que sobrevivia como podia. Um dia, contudo, encontrou as coordenadas para um tesouro que teria pertencido a um homem que falecera deixando uma riqueza incalculável. Uma parte dessa riqueza tinha sido enterrada num local secreto, juntamente com alguns outros pertences. O banqueiro localizou o tesouro, mas foi morto por outros que tentavam também apropriar-se do mesmo. Interessado naquela história, Salvaterra pediu então as coordenadas do dito tesouro ao banqueiro reformado, quando ele ainda se encontrava em transe hipnótico. Josef Salvaterra estava seguro de que iria encontrar aquele tesouro. Depois de obter estas informações, foi ele próprio à procura do mesmo. O tesouro de facto existia, mas já tinha sido desenterrado há muitos anos e fazia agora parte de uma coleção privada do museu da cidade. No entanto, o banqueiro tomou conhecimento das ações de Josef Salvaterra e reportou a situação ao Conselho Nacional de Hipnose. Durante três meses, Salvaterra não pôde abrir o seu consultório, perante a angústia de Marbella que julgava que tinha chegado o seu fim. Iriam os dois cair na miséria!

Nem Salvaterra nem Marbella caíram na miséria por causa desse episódio, mas o hipnotizador nunca mais tentou a sua sorte. A deontologia profissional tinha sido violada e rapidamente a história chegou aos ouvidos de Marcus Belling e de toda a sua equipa de trabalho. Como sempre, Belling não se mostrou surpreendido com a atitude do seu rival. Agora, enquanto ouvia a história pessoal de Anne Pauline, recordava-se de todos os contornos do chamado “caso Salvaterra”. Era incrível, mas já tinha passado uma hora desde que a jovem mulher tinha chegado ao consultório da Avenida do Sol e a sessão estava assim concluída. Nisto, o famoso hipnotizador disse:

– Fale com a Sofia Estelar para marcar uma nova sessão de hipnose. Lembre-se do que falámos hoje. Um caso novo é sempre um início também para mim na hipnose.

Belling jamais poderia imaginar como aquela frase continha toda a verdade acerca de Anne Pauline e si próprio. Por outro lado, a sua paciente agora olhava-o fixamente, sem compreender de onde vinham aquelas palavras. Aquele tom de voz era-lhe familiar e só agora é que tinha a certeza disso! Era cada vez mais claro que ela já tinha ouvido aquela voz em algum lado e depois de pensar um pouco, finalmente percebeu que aquela voz provinha do homem dos seus sonhos! Este era aquele homem que tinha questionado a sua dignidade e a sua honra, enquanto lhe pedia para regressar ao passado. Com esta certeza, Anne Pauline ficou assim a saber que esse homem era muito provavelmente, Marcus Belling!

Anne Pauline despediu-se de Belling e agradeceu as suas explicações acerca da hipnose e da Terapia de Vidas Passadas. Algo de muito intenso invadia agora a sua alma. Por um lado, ela estava ansiosa para iniciar esta nova jornada na hipnose, mas, por outro, não a pretendia realizar com aquele homem dos seus sonhos. Anne Pauline estava num dilema, mas sabia que, no dia seguinte, voltaria ao consultório.

2

Quando fechou a porta do gabinete, Sofia Estelar estava sentada à receção a tratar de documentação. Na verdade, fingia-se ocupada. Sofia olhou Anne pelo canto do olho e viu-a desaparecer no corredor. Não a quis cumprimentar quando ela se foi embora. Estava arrependida de ter levado Anne Pauline até Marcus Belling. “Como é que me pude enganar desta forma?” pensava para si mesma. Quando ouviu o som da porta a fechar-se, sabia que tinha de ir ter com Marcus Belling para o avisar da estranha sensação que tivera em relação àquela pessoa. Normalmente não se costumava enganar. Quando alguém pedia uma sessão com Belling, ela sabia avaliar bem essa pessoa e a ela lhe cabia a decisão se a deveria, ou não, levar até ao famoso hipnotizador. Belling contava com a intuição e a inteligência da sua secretária para levar a cabo o seu trabalho com segurança. Efetivamente, existiam motivos de receio. Muitos eram os intrusos que tentavam violar a sua privacidade, tirando fotografias às escondidas com máquinas que traziam ocultamente consigo ou, no limite, usando a chantagem para atingir certos objetivos (como, por exemplo, exigindo o pagamento de somas avultadas em dinheiro para não divulgarem certos aspetos da sua vida aos jornais). De facto, Sofia Estelar nunca se esquecia que, uma vez iniciada uma sessão de hipnose, a pessoa passaria a ter um contacto regular com o famoso hipnotizador. Durante vários meses, os pacientes ficariam a conhecer Belling, os seus hábitos, a sua forma de estar, a sua maneira de trabalhar, ou seja, um pouco da sua vida. Por essa razão, tornava-se importante saber que casos podiam ser levados ao conhecimento de Marcus Belling. Daí a importância do papel desempenhado por Sofia Estelar.

Sofia Estelar conhecia bastante bem Marcus Belling. Esse conhecimento advinha não apenas dos largos anos em que já trabalhava com o famoso hipnotizador, mas igualmente, porque ela própria já tinha sido hipnotizada por ele. De certa forma, ela tinha sido, até àquele momento, cética quanto aos efeitos da hipnose, embora nunca o tivesse confessado. Ela sabia que essa confissão iria entristecer Marcus Belling.

Essa experiência de hipnose tinha ocorrido há vários anos e nessa altura, foi ele que lhe dirigiu pessoalmente esse pedido. Há dez anos que Belling praticava a Terapia de Vidas Passadas, quando num certo momento da sua carreira, sentiu que precisava de testar com alguém de confiança, se as crenças e os mitos poderiam influenciar as lembranças que as pessoas tinham do passado. Esta ideia tornou-se um verdadeiro desafio. Tudo porque existia uma corrente interna no Conselho Nacional de Hipnose que rejeitava a Terapia de Regressão como forma de tratamento de diversos sintomas e distúrbios. Nesse aspeto, Salvaterra e Belling distinguiam-se de alguns dos demais colegas do Conselho. Os dois usavam frequentemente a hipnose na regressão, mas existiam alguns hipnotizadores que recusavam a existência do efeito terapêutico neste tipo de terapia. Esses mesmos hipnotizadores defendiam que, essas recordações das vidas passadas, mais não eram do que desconexões no sistema de memória pois o ser humano usava as suas experiências pessoais e as suas crenças para recriar imagens de um passado que nunca tinha existido.

Nem Marcos Belling nem Josef Salvaterra tinham tido alguma vez a oportunidade de refutar estas teorias. Por um lado, ignoravam estes argumentos, mas por outro, quando se impunha defender o seu trabalho, perante a opinião pública, tentavam confirmar através de casos reais que a Terapia de Regressão funcionava nos seus pacientes. Existia assim um certo descrédito relativamente a esta área da hipnose por parte de alguns hipnotizadores e, por essa razão, Belling lembrou-se de realizar um teste com Sofia Estelar. O objetivo era tentar induzir um conjunto de crenças e mitos enquanto Sofia estivesse em transe hipnótico, numa primeira sessão. Na segunda sessão, usando a Terapia de Regressão, pedir-lhe-ia para se recordar das suas vidas passadas recorrendo, para tal, à chamada memória extra-cerebral. Marcus Belling teria assim a oportunidade de testar a eficácia desta terapia, embora não fosse sua intenção divulgar os resultados desta sua experiência. Ele próprio, apesar de totalmente convicto de que esta funcionava, e que não se tratava de uma falha no sistema de memória, necessitava desta última confirmação. Quando Sofia Estelar se sentou no sofá verde do gabinete para ser hipnotizada, algo de extraordinário aconteceu; sem nunca perder o contacto com o exterior, ela entrou rapidamente em transe hipnótico. De facto, ela não estava à espera de ser hipnotizada por Belling com tanta facilidade. Contudo, através das técnicas e da larga experiência do famoso hipnotizador, a sua secretária mergulhou rapidamente num profundo transe, sem que se tivesse apercebido disso. Apesar de trabalhar com ele há mais de vinte anos, ela nunca tinha pensado seriamente na questão: o que o levava a ser um hipnotizador tão reconhecido? Ela conhecia a sua dedicação à profissão, mas ainda não tinha assistido à demonstração do seu talento inato. A partir daquele dia, Sofia Estelar percebeu porque é as pessoas o procuravam com tamanha ansiedade. O teste foi um sucesso. Marcus Belling conseguiu demonstrar (nem que fosse para si mesmo) que apesar das crenças introduzidas na primeira sessão de hipnose, tal não tinha influenciado a sua secretária quando às suas reais recordações das suas vidas anteriores. Inclusivamente, ela era capaz de se lembrar de uma relação que mantivera com um homem que parecia estar ligado à tipografia e surgiu-lhe um nome na mente: “Christopher Beck”. Ao ler algumas páginas sobre este tipógrafo, Belling percebeu que a sua secretária tinha regredido a uma época de onde poderia extrair memórias concretas. Ao ouvir as suas palavras, ele apercebeu-se que tudo o que lhe estava a ser reportado era absolutamente autêntico. Não existia ali uma mácula de contaminação pelo facto de ele lhe ter introduzido um conjunto de ideias pré-concebidas que poderiam prejudicar a sua memória extra-cerebral. Esta experiência reforçou assim a vontade de Belling de continuar a praticar a Terapia de Regressão, sem deixar que o seu trabalho fosse colocado em causa por alguns colegas da sua classe profissional. Na realidade, o teste serviria apenas para reforçar as suas convicções. Uma vez mais, nunca fora sua intenção divulgar os resultados destes testes, tendo apenas comentado o sucedido com a sua mulher, Patricia Murio.

Patricia Murio tinha ficado bastante surpreendida com a coragem do marido para levar a cabo esta experiência. Ela conhecia-o bastante bem, mas jamais poderia supor que ele iria recorrer a Sofia Estelar para comprovar as suas teorias. Por outro lado, Sofia Estelar ficou marcada com esta experiência da hipnose. Deste modo, não apenas confirmou a competência de Marcus Belling, como também o efeito terapêutico da Terapia de Regressão. A verdade é que logo após esta sessão sentiu uma tranquilidade enorme. Parecia que as lembranças se tinham libertado de um mundo espiritual que sobrecarregavam a sua alma e que agora vagueavam soltas fora do seu inconsciente. Sofia Estelar considerava-se bastante racional pelo que, não tivesse sido esta sessão de hipnose com Belling, a verdade é que continuaria a alimentar o seu ceticismo relativamente à hipnose e à Terapia de Vidas Passadas. Quando ela viu Anne Pauline a fechar a porta do gabinete, lembrou-se rapidamente de todos estes episódios do seu passado. Sofia Estelar correu então para falar com Marcus Belling. Tinha um olhar impaciente. Ele não a deixou tomar a iniciativa da conversa e tomou o rumo do discurso:

– Sofia, tive uma sensação estranha com esta pessoa. Depois de me teres devolvido aquele olhar na porta posso deduzir que sentiste o mesmo? – perguntou.

– Tenho de confessar que da primeira vez que a vi tive logo uma sensação estranha. Não consigo deixar de pensar que sou capaz de me ter enganado relativamente a esta pessoa. Por norma isso não costuma acontecer. De alguma maneira, tenho a sensação de que já a conheço. Já me arrependi muito de lhe ter aberto a porta. – disse Sofia Estelar.

– Não vale a pena ficares assim. Não te disse isto para te sentires culpada. – respondeu Belling, tentando tranquilizá-la.

Marcus Belling e Sofia Estelar estavam seguros neste ponto. Tanto um como o outro, tinham tido uma sensação estranha quando viram Anne Pauline pela primeira vez. Os grandes olhos verdes brilhantes desta jovem pareciam esconder um passado difícil de ser revelado, ou talvez demasiado complexo e traumatizante. Inevitavelmente, colocava-se a questão. Deveria Marcus Belling prosseguir as sessões de hipnose com aquela pessoa? Os dois pensavam no mesmo, mas foi Sofia Estelar que avançou com a pergunta:

– Acha uma boa ideia ela regressar cá mais vezes?

A pergunta de Sofia Estelar exigia um rápido esclarecimento da situação por parte do famoso hipnotizador, mas por outro lado ela sabia que o estava a colocar num dilema complicado de decidir. Talvez não fosse mesmo justo. De qualquer forma, foi o seu sentimento de responsabilidade naquela situação que lhe impulsionou a pergunta. Belling tinha a sua própria ética profissional, nunca se recusando a continuar uma sessão de hipnose a um paciente que o procurasse no seu gabinete da Avenida do Sol. Efetivamente, fazia parte dos seus princípios profissionais não negar a ajuda a quem dela precisasse. Desta forma, a decisão estava tomada. Ele iria até ao fim. Nunca tinha acontecido durante a sua carreira recusar o auxílio a um paciente e, apesar da estranha sensação que Anne Pauline lhe tinha provocado, Belling decidira assumir o risco da sua tomada de posição. Sofia Estelar compreendeu o seu dilema pessoal. Afinal de contas, ela era a sua secretária pessoal ainda que existisse uma relação de cumplicidade entre ambos de vários anos. A decisão final pertencia sempre a Marcus Belling.

Neste quente dia de julho, o dia ficara assim marcado por dois importantes acontecimentos. Por um lado, o aparecimento da misteriosa Anne Pauline, por outro, o teste final às convicções pessoais de Marcus Belling. Sofia Estelar sabia-o com segurança. Belling queria continuar a terapia com Anne Pauline, libertá-la dos seus dramas e dos traumas e, assim, através da hipnose, levá-la por um caminho de felicidade que ela nunca tinha experimentado. Como sempre, sem exceção, ele encarava o seu trabalho com espírito de missão pública, mas como toda a equipa já sabia através de situações anteriores, existiriam consequências para esta forte tomada de posição. Todavia, nada os podia preparar para o que estava prestes a suceder nos próximos meses.

Enquanto tudo isto se passava no n.º 27, a Avenida do Sol fervilhava em movimento e vida. Anne Pauline saiu do gabinete de Belling calcorreando a larga avenida que, de um lado e do outro, estava repleta de restaurantes, cafés e esplanadas decoradas num estilo vitoriano. Ao longo da avenida existiam ainda imensas fontes de água que, no verão, faziam as delícias das crianças. O prédio onde estava localizado o gabinete de Marcus Belling ficava quase exatamente a meio do percurso da conhecida avenida. Tratava-se de um magnífico prédio antigo do século XVIII, de linhas brancas e robustas, com tetos pintados e paredes recortadas com figuras da época barroca. Quando Anne Pauline desceu pela avenida naquele dia, Marcus Belling e Sofia Estelar não demoraram muito tempo a descer as escadas do prédio para irem almoçar num dos restaurantes na bela Avenida do Sol.

Recuando ao gabinete de Belling, este conservava na sua biblioteca um extenso espólio de livros sobre hipnose, como Anne Pauline tinha reparado. No entanto, ele não se interessava apenas pela hipnose, pois era um homem multifacetado, curioso por vários domínios do saber. Ao longo dos últimos anos, ele tinha vindo a interessar-se por temas como a ligação entre a medicina e a astrologia, o efeito terapêutico e medicinal das plantas, o poder curativo da fé, a alquimia e a ciência experimental. De uma maneira geral, ele considerava que o conhecimento sobre os minerais e as plantas poderiam providenciar com a sua utilização prática um efeito terapêutico que não deveria ser menosprezado. Marcus Belling encarava a medicina natural e homeopática como uma forma de terapia, não menos válida do que a própria hipnose. Por essa razão, considerando que as duas serviam os mesmos propósitos, começou a estudar meios de as aplicar simultaneamente em benefício dos seus pacientes. Por outro lado, dado ter iniciado a sua carreira no campo da hipnose clínica, Belling decidiu aproveitar a sua experiência profissional desses anos para praticar a Terapia de Vidas Passadas com um outro nível de saber e especialidade. Assim sendo, era possível encontrar na sua biblioteca particular livros sobre experiências químicas, receitas experimentais de alquimia, fitoterapia, regressão e poder curativo do corpo e da mente, medicina, zodíaco e botânica oculta. Todos estes livros constituíam uma fonte de inspiração diária para o seu trabalho diário (o que nem sempre era compreendido por Sofia Estelar).

Marcus Belling era igualmente apaixonado pela literatura mundial e não apenas por livros técnicos: a ele interessava-lhe qualquer tipo de literatura desde que pudesse recorrer a esta para se tornar num melhor hipnotizador. Por essa razão, chegou a passar algumas temporadas na biblioteca municipal da cidade, onde inclusivamente trocou algumas palavras com Georgine Gunderson. Alguns dias mais tarde, a bibliotecária seria destacada para trabalhar na antiga biblioteca nacional. Na realidade, através da leitura de diversos livros, de ficção ou técnicos, ele podia sempre reter uma boa ideia que às vezes utilizava nas suas sessões de hipnose, sobretudo nos casos mais complicados. Por vezes, o estudo teórico não era suficiente para resolver certos traumas das vidas passadas: era preciso viajar pelo mundo e por diversas experiências, ainda que por vezes apenas através dos livros. Um bom exemplo disso era o livro de Aldous Huxley intitulado, “O Admirável Mundo Novo”: com ele Belling desenvolvera o seu espírito crítico, fundamental ao longo da sua carreira. Através desta leitura ele questionava agora as técnicas padrão usadas na hipnose e sugeria novas abordagens. A paixão por este livro em particular, que começou na adolescência, fascinava-o pela sua oposição aos ideais de construção de uma sociedade padronizada, regida pela ilusão do progresso, sem noções do passado e de conceitos fundamentais como a moral e a família. Uma sociedade que era dividida em castas e os seus membros regidos pelos mesmos aspetos genéticos e psicológicos, permanentemente condicionados pelas mesmas regras sociais. Pouco a pouco, enquanto se interessava cada vez mais hipnose, teria sempre a tendência, naturalmente, para pensar neste livro. Como Belling nunca esquecia um bom livro e usava todas as ideias dos escritores para perceber melhor qual era o seu papel no mundo, foi percebendo com os anos que, a hipnose em si, constituía uma forma muito valiosa de as pessoas olharem para si próprias sem estarem condicionadas às convenções sociais. A hipnose era assim sinónimo de liberdade. A noção de liberdade neste campo foi assim sendo trabalhada por Marcus Belling ao longo de mais de vinte anos de prática profissional onde, para além da confiança, a destacava como valor fundamental da sua deontologia.

Na visão de Belling, a hipnose era uma ferramenta de poder para poder ver mais além da própria alma. De facto, mais para além dos limites da sua própria sociedade, da ilusão do progresso e das normas sociais estabelecidas. Ao longo dos anos, o hipnotizador começou assim a transmitir às pessoas uma ideia poderosa que às vezes poderia colocar em causa a sua própria carreira: a ideia de que as pessoas são responsáveis pelo seu destino e que têm a capacidade de mudar a sua trajetória de vida, ainda que com a ajuda de um hipnotizador. Nesse sentido, Belling foi pioneiro na sua área ao reconhecer às pessoas que elas podiam ser detentoras de um instrumento de poder e de mudança que estava totalmente ao seu alcance. O hipnotizador apenas ajudava nesse processo de descoberta. No fundo, era disso que se tratava. Todos quanto procuravam Belling vinham à procura da felicidade e Anne Pauline não era uma exceção.

Mas o Conselho Nacional de Hipnose não aprovava totalmente a mensagem e a postura de Marcus Belling face ao seu próprio papel profissional. Alguns colegas hipnotizadores mais envolvidos no Conselho já o tinham avisado de que ele estaria a criar falsas expectativas nas pessoas, fazendo-as incorrer no erro de que um hipnotizador era dispensável no seu processo de tratamento. O Conselho encarava assim esta atitude como uma forma de menosprezar o crucial papel desempenhado pelos profissionais que representava e, por várias vezes, pediu algum refreio a Belling nas suas palavras. A este propósito, várias vezes, tinham-lhe chamado a atenção: «Daqui a pouco as pessoas começam a fazer auto-hipnose em casa. Já ninguém consulta um hipnotizador, se continuar a dizer essas coisas». Embora respeitando a recomendação do Conselho, Marcus Belling continuava firme na sua forma de trabalhar.

A abordagem de Marcus Belling não incomodava apenas o Conselho Nacional de Hipnose, mas também Josef Salvaterra. Na realidade, num programa de rádio há vários anos, Salvaterra desferiu um duro golpe a Belling ao afirmar que o colega andava a enganar as pessoas com discursos proféticos. Para ele, o papel do hipnotizador não era substituível, «pois por vezes as pessoas precisam de alguém que as guie». Esta última frase foi dita num programa de rádio sobre hipnose e originou uma avalanche de chamadas de pessoas que exigiam falar com Salvaterra. «Devem ser fans loucos de Belling», disse Salvaterra em tom de brincadeira para o locutor de rádio.

Neste sentido, também em parte pelo seu distanciamento em relação à postura defendida por Belling, Salvaterra possuía um estatuto diferente dentro do Conselho; este era mais interventivo, apesar da sua imagem ter ficado enfraquecida durante vários meses com o “caso Salvaterra”. Gradualmente, Marcus Belling foi criando os seus próprios métodos de trabalho, cada vez mais distantes e inovadores face ao que era recomendado pelo Conselho, para grande entusiasmo dos seus pacientes.

Salvaterra e Belling começaram a distanciar-se um do outro, mesmo dentro do próprio Conselho. Josef Salvaterra, ao contrário de Belling, tinha outras ambições que não apenas tornar-se no mais conceituado hipnotizador do país. Ele almejava um novo estatuto no seio do Conselho Nacional de Hipnose que lhe pudesse conferir uma vantagem no meio da sua classe profissional. Por essa razão, na última reunião, ele candidatara-se a Presidente da Assembleia Geral; Salvaterra pretendia gerir os destinos da organização e, com isso, afastar Belling do seu protagonismo. A única forma de isso acontecer passava por controlar a gestão da organização o que internamente significava deter o poder sob todo o Conselho. Contudo, Salvaterra teve poucos votos aquando das eleições o que gerou, da sua parte, uma enorme indignação. Foi conturbada a situação que se seguiu. Josef Salvaterra demonizou todos os seus colegas chamando-os de “ignorantes” e prometeu dirigir uma reclamação para o Comité Internacional da Hipnose alegando que existira fraude nas eleições. Uns dias mais tarde, para espanto de todos, Marbella apareceu nas instalações do Conselho, durante uma das reuniões da Assembleia geral, tentando nessa altura imiscuir-se em assuntos de gestão interna: ela pretendia saber qual o valor das receitas arrecadadas com o pagamento das quotas anuais ao Conselho.

A ganância de Marbella era conhecida por todos. O referido episódio com as quotas foi contado entre todos os hipnotizadores, dando conta que nesse dia a mulher de Salvaterra fora colocada no exterior das instalações do Conselho perante a sua própria indignação. Por essa razão, Marbella Gorey era conhecida como a “toupeira” porque conseguia cheirar o dinheiro onde quer que ele se encontrasse e a larga distância. Era um facto, que ela era capaz de se munir de todos os recursos possíveis se estivesse em causa dinheiro e algo não deixava de a incomodar: o marido não ganhava uma fortuna. Marbella e Salvaterra viviam razoavelmente bem, mas sem grandes luxos e, por essa razão, a única forma de atingir certos objetivos era recorrer a meios pouco éticos. Para prejudicar Marcus Belling e afastá-lo dos meios de comunicação, ela estaria disposta a fazer quase tudo. Por mais de uma vez que o tinha tentado. Contudo, a intervenção rápida de Maria de Burgos evitara a publicação de notícias caluniosas acerca do famoso hipnotizador. Mas, desde há meia dúzia de anos atrás, que Marbella contava com a ajuda de um cúmplice chamado Alfonso Rúbio, o filho de uma prima que se via sempre constantemente envolvido em furtos e na pequena criminalidade. Tinha apenas vinte e três anos, mas um cadastro completo nas mais variadas atividades de delinquência. Considerado como um “caso perdido”, Alfonso por vezes aceitava colaborar com Marbella (por um “preço económico”) para difundir algumas informações que ela achava fundamental para acabar com o mediatismo de Belling ou para outro tipo de atividades de ética duvidosa. Alfonso deixava-se comprar por pouco, o que era um excelente negócio para Marbella que o considerava ideal para a concretização de alguns dos seus planos. Contudo, esta cumplicidade já não existia no dia em que Anne Pauline tocou à porta do gabinete de Marcus Belling, pois Alfonso tinha desaparecido há algum tempo.

Marcus Belling parecia imune a tudo isto. Talvez porque se encontrava rodeado de uma equipa leal que tinha montado um aparelho logístico complexo que lhe permitia viver exclusivamente dedicado à sua profissão. Um dia, numa conferência internacional, alguém lhe dissera:

– O Belling acredita na hipnose. É quase como se tivesse uma espécie de fé dentro de si, quase inabalável. Também já tive esse tipo de ilusões.

«Não julgue que seja possível saber tudo acerca de um mundo a que apenas acedemos através da nossa mente», disse-lhe uma vez um colega.

– Acredito no meu trabalho. – limitou-se a responder Belling.

Nem todos os hipnotizadores estavam convencidosque a hipnose constituísse uma terapia eficaz para as pessoas, muito embora fizessem dela a sua carreira. Parecia uma contradição, mas alguns profissionais na área não acreditavam naquilo que faziam. Ao contrário, Marcus Belling era um inconformado. O famoso hipnotizador tentava manter-se fiel a si mesmo. Este não tinha sido, contudo um trajeto fácil e com o passar dos anos, de forma quase inevitável, começaram a surgir dúvidas acerca de si mesmo, do seu trabalho e da sua missão na vida. Por isso mesmo existiam alturas em que ele precisava de todo o recolhimento possível para voltar a acreditar nas suas convicções. Sem elas, não existia Marcus Belling nem uma carreira. Ele sabia por outro lado que existiam muitas crenças limitativas em torno da hipnose que eram simplesmente inventadas através da difusão de mitos supersticiosos ou pelos meios de comunicação. Nestes casos, era difícil desmontar o engano. O famoso hipnotizador ainda não sabia, mas Anne Pauline iria marcar a sua vida. Antes mesmo de ela entrar no consultório da Avenida do Sol, Belling recordava-se de um dos casos mais marcantes na sua carreira que lhe devolvera a segurança interior de que a prática da hipnose teria de ser encarada com um espírito de missão pública.

Um dia, uma mulher chamada Carla veio ter com Belling relatando distúrbios de sono. Com o passar dos anos, sem tratamento à vista, esses mesmos distúrbios evoluíram para o sonambulismo, para grande receio do filho que a ouvia à noite, sozinha, a caminhar pela casa. Sendo mãe solteira, raramente tinha um trabalho estável, vivendo num anseio constante, que não lhe permitia adormecer, durante dias seguidos. Foi então que Carla pensou em recorrer à hipnose e, portanto, a Marcus Belling. Ela sabia que era difícil conseguir uma sessão com ele, tal era a fila de espera que existia e que era do conhecimento público. Decidiu, contudo, tentar a sua sorte. Sofia Estelar considerou-a um caso prioritário e, devido às suas dificuldades económicas, após confirmação da sua situação pessoal, o preço das sessões foi diminuído para ela prosseguir o seu tratamento. De facto, o consultório praticava uma tarifa especial para estas situações e tinha sido Belling a instruir Sofia Estelar para ter em consideração este tipo de circunstâncias na sua tabela de preços. Pragmático por um lado, caridoso por outro, o famoso hipnotizador era sensível às situações de carência económica de quem o procurava e tinha montada uma logística para dar apoio e uma rápida resposta aos casos mais sensíveis.

Carla confessou a Marcus Belling, que tinha medo de recorrer à hipnose para curar o seu problema de sonambulismo. Será que ia ficar também sonâmbula durante o transe hipnótico? Ele tranquilizou-a. Este era apenas um mito e ela não tinha razões para ter medo do que pudesse acontecer durante esse período pois ela encontrava-se num ambiente controlado. Com o tempo, Carla foi tendo cada vez mais confiança com Belling e sentindo-se mais confortável, deixou-se levar para um estado mais profundo de transe. O famoso hipnotizador começava sempre por lhe dizer:

– A Carla imagine agora que está numa posição muito confortável... respire profundamente... sinta o seu corpo a descontrair... feche os olhos... imagine agora que é Robinson Crusoe e que está numa ilha deserta... o mar bate nos seus pés e as ondas trazem consigo o cheiro da maresia... respire profundamente e sinta os seus olhos a fecharem-se lentamente...

Uma vez mais, Marcus Belling auxiliava-se da literatura para ajudar os seus pacientes a ultrapassar os seus problemas internos usando para tal passagens ou personagens desses livros. Era assim que funcionava o poder da sugestão. Neste caso, a leitura da obra de Daniel Defoe ajudou-o a criar uma poderosa metáfora com Carla, sugestionando durante o transe hipnótico, que ela era Robinson Crusoe, que se encontrava sozinha numa ilha deserta, tendo de usar os recursos disponíveis para reconstruir a sua vida. Tratava-se acima de tudo de lhe devolver a confiança que tinha ficado abalada durante a sua vida.

No caso de Carla foi Robinson Crusoe quem lhe salvou a vida. Em algum dado momento, pensou Belling para si, o herói desta história que se havia salvo a si próprio da morte e da privação, teria um destino maior: o de salvar outros que estão na mesma situação. «Que outro destino, melhor do que este, poderia ser dado a esta personagem?», pensou Marcus Belling para si próprio. Assim, durante meses sucessivos, Carla imaginou que se encontrava numa ilha deserta e no meio do silêncio recuperou finalmente dos seus anseios. Foi assim, com esta poderosa metáfora, que ela superou os seus distúrbios de sono ganhando uma qualidade de vida que nunca tinha tido. Na última sessão, Marcus Belling aproveitou então a oportunidade para lhe dizer:

– O que eu espero daqui para a frente é que possa encontrar a sua felicidade e plenitude interiores. A nossa alma apenas se compreende a ela própria quando começamos a olhar para dentro de nós. – finalizou Belling.

Carla tinha acabado de acordar. Na realidade, ela foi acordando para a vida e foi assim que os problemas de sonambulismo acabaram por desaparecer. O sono era agora repousante e revitalizante. Sendo um dos casos de maior sucesso da sua carreira, ela acabaria por se tornar uma amiga próxima de Sofia Estelar, e era visita frequentemente do consultório na Avenida do Sol.

Na sua última sessão de hipnose, e quando saiu do gabinete, Carla percorreu a pé a avenida, curada dos seus sintomas. Procurou ali perto, imediatamente, um alfarrabista onde viria a comprar uma versão antiga do livro de “Robinson Crusoe”, de Daniel Defoe e lendo-o até à exaustão, retirou bons ensinamentos que a ajudaram, nos anos vindouros, a manter e a conservar a sua felicidade. Junto a este alfarrabista, que há mais de quinze anos vendia livros antigos na Avenida do Sol, encontrava-se um antiquário. O proprietário chamava-se Argus Dubois. Quando Carla passava junto à sua loja sonhava em ter um guéridon: uma espécie de mesa diminuta, arredondada, coberta por um tampo em mármore. No final do dia, ela deixaria o livro de Robinson Crusoe em cima da mesa. O dia seguinte seria mais uma descoberta, mais uma jornada.

Não foi apenas Carla que aprendeu alguma coisa com Belling. Com este caso, o famoso hipnotizador descobriu o verdadeiro poder da imaginação e da sugestão, embora já o tivesse praticado noutros casos, embora não com tanto sucesso. As chamadas “imagens âncoras”, como lhes costumava chamar, eram utilizadas por alguns pacientes para lhes dar uma maior sensação de conforto e de segurança durante o transe hipnótico. Consequentemente, Belling aprendeu que essas imagens estão ligadas ao poder dos símbolos. Existia, portanto, uma área muito importante ligada à hipnose que nunca tinha sido devidamente investigada e que agora, com o exemplo de Carla, não podia continuar a ser ignorada. Foi desta forma que Belling inovou uma vez mais, face ao saber que era transmitido pelo Conselho Nacional de Hipnose e em comparação com outros hipnotizadores. A simbologia passou assim a ser um tema de interesse neste campo de trabalho.

O estudo dos símbolos tornou-se, assim, para Marcus Belling uma ferramenta fundamental para compreender melhor o caso particular dos seus pacientes. Na realidade, para se tornar um melhor hipnotizador. Nas suas investigações, Belling apercebeu-se de que o estudo acerca da origem, interpretação e da arte de criar símbolos era mais relevante do que aquilo que julgava para a vida de um hipnotizador: aliás, foi sempre através dos símbolos e da representação simbólica que o ser humano aprendeu a apropriar-se do mundo. Todos os mitos, crenças, factos e ideias são expressos através de símbolos e são eles que representam a realidade. Como seria possível que, durante todos aqueles anos, pudesse ter ignorado esta realidade?

À primeira vista, a simbologia parecia não ter relação com a hipnose. Por sua vez, nada nesta inaudita ligação poderia fazer pressupor que alguém como Belling, com formação em hipnose clínica, enveredaria por uma interpretação mais espiritual do seu trabalho. O interesse pela simbologia não tinha aparentemente ligação com a sua formação de base. Embora considerasse que tinha hoje mais abertura de espírito, Belling era uma pessoa lógica e analítica quando se iniciou na carreira, talvez porque começara cedo a estudar medicina e neurologia. Assim, desde logo aprendeu que o ser humano é composto de muitas conexões nervosas, com formas de organizações específicas na sua biologia, sendo constituído por cérebro, espinal medula e nervo. Ao mesmo tempo, todo o corpo é controlado por um conjunto complexo de movimentos e de sensações. De todos os órgãos que existem, o mais importante de todos era o cérebro humano. De facto, embora este represente apenas dois por cento da massa do corpo, a verdade é que ele recebe vinte e cinco por cento de todo o sangue que é bombeado pelo coração. O sangue, que é um fluído que através das suas correntes leva os nutrientes necessários às células e aos diferentes órgãos humanos. Para um bom hipnotizador como Marcus Belling era fundamental conhecer o funcionamento deste órgão, sobretudo o lobo frontal ou a área pré-frontal do cérebro, que possui uma função executiva. Essa função, como ele sabia, era responsável pela atenção, pensamento e resolução de tarefas, com a qual prevemos resultados do nosso comportamento no futuro: ao mesmo tempo, ganhamos consciência das decisões que tomamos. Para Belling qualquer hipnotizador deveria tomar conhecimento do funcionamento do corpo humano.

Quando há mais de vinte anos, Marcus Belling se tornou membro do Conselho Nacional de Hipnose, ele foi pioneiro em defender que o estudo das neurociências era fundamental para a hipnose. Era uma realidade, que há duas décadas, existiam ainda muitos mitos e superstições relacionados com a hipnose e, portanto, era através do recurso às ciências que se tornaria possível a desconstrução dessas ideias pré-concebidas. Não seria exagerado afirmar que era possível entrar-se num paradoxo quando se tentava descrever a hipnose. Por um lado, era uma espécie de arte, por outro tinha contornos de ciência. Assim, era uma “arte” porque nem todos os hipnotizadores dominavam esta técnica com sucesso e, por outro, porque nem todas as pessoas podiam ser hipnotizadas. Nesse sentido, o transe hipnótico também variava de indivíduo para indivíduo, podendo ser mais profundo ou, ao contrário, ser tão leve ao ponto de o paciente em causa nunca conseguir verdadeiramente relaxar para ser hipnotizado. Todavia, era ao mesmo tempo também uma ciência, porque um bom profissional neste campo teria de compreender a fisiologia humana, o seu sistema nervoso e o funcionamento do cérebro. Esta era a perspetiva de Marcus Belling.

Retomando o poder dos símbolos, Belling apercebera-se que a simbologia era fundamental para compreender melhor as potencialidades da hipnose. Nesse sentido, ele estava bastante grato por ter conhecido uma paciente como a Carla que lhe tinha mostrado um outro mundo para além daquele que ele, enquanto hipnotizador, conhecia. Isso também acontecia. Também era possível os hipnotizadores ficarem mais sábios com as pessoas que hipnotizavam. Esta era sempre uma experiência enriquecedora, para ambas as partes. Contudo, rapidamente Belling também se apercebeu que simbologia e linguagem estavam igualmente conectadas entre si. Uma dependia da outra. Por conseguinte, neste aspeto, Belling chamou a atenção dos outros colegas de profissão para a relevância do discurso do hipnotizador, realizando para o efeito formações diversas sobre linguagem orientada para a hipnose.

A experiência de Belling demonstrava a importância da linguagem persuasiva que, quando introduzida na hipnose, veio a dar lugar à chamada “hipnose conversacional”. Duas palavras particularmente utilizadas durante o transe hipnótico pareciam fazer toda a diferença na pessoa em estado de transe. Essas palavras eram, precisamente, o porque e o mesmo. Gradualmente, Marcus Belling foi então introduzindo estas palavras no início das sessões de hipnose e, de forma imediata, apercebeu-se que o transe costumava nestas situações ser bastante mais profundo. Normalmente, ele começava por dizer aos seus pacientes:

– Gostaria mesmo que se sentasse numa posição confortável, que fechasse os olhos e tentasse relaxar... e isto, porque é mesmo importante que me escute... tranquilamente... sem pressas…

Através do poder da linguagem, usando por exemplo o “porque” e o “mesmo” em momentos especiais da sua fala, Belling era capaz de hipnotizar pessoas que tinham resistido à hipnose com outros hipnotizadores. Alguns desses pacientes embora não o confessassem, vinham desanimados das suas sessões de hipnose com Josef Salvaterra. Por essa razão, aos poucos, os relatos destes casos pessoais fizeram crescer o mediatismo de Marcus Belling. A sua abordagem inovadora em relação à hipnose mostrou-se, neste aspeto, decisiva. Belling utilizou todos estes conhecimentos para desenvolver, ele próprio, uma linguagem cativante com as pessoas, granjeando assim fama e bastante dinheiro. Mais dinheiro do que Josef Salvaterra, o que só podia constituir uma situação de inveja para Marbella.

O aparecimento de Carla mudou um pouco a perspetiva que Marcus Belling tinha em relação à sua carreira e à hipnose, mas a mudança maior viria com Anne Pauline. Em ambos os casos, estas mulheres acabariam por abalar as suas convicções, colocando-lhe dilemas que, quando superados, lhe mostravam um mundo totalmente novo acerca da mente humana. Era esta a beleza da sua profissão.

Marcus Belling e Josef Salvaterra eram duas pessoas e dois hipnotizadores muito diferentes. Salvaterra tinha hábitos que podiam ser considerados “tradicionais”. Gostava de colecionar velharias e evitava os mesmos espaços públicos que o seu colega rival. Tal como Marcus Belling e Anne Pauline, possuía uma pequena biblioteca particular em casa. Ao longo dos anos, adquirira diversos livros sobre hipnose, terapia de vidas passadas, regressão, magia, misticismo e espiritualidade. Mas não só. Marbella influenciara-o também noutras áreas como as ciências ocultas, a necromancia, a tarologia e a futurologia. Inclusivamente, nos últimos anos tinham sido feitas novas aquisições de livros sobre transmutação de metais. Era assim visível o interesse cada vez maior na chamada crisopeia, ou seja, a arte de transformar metais em ouro. Josef Salvaterra não compreendia o interesse intenso de Marbella neste tema, mas é verdade que ela costumava montar um verdadeiro laboratório em casa na tentativa de destilar ouro potável através de chumbo.

Por outro lado, pode-se afirmar que Marcus Belling tinha hábitos mais “modernos” e as grandes dificuldades na sua carreira estavam relacionadas com as consequências naturais do seu mediatismo. Uma vez, numa entrevista para o canal público de televisão, uma jornalista mais arrojada, alta de cabelos pretos bastante longos, perguntou a Belling se ele usava a hipnose em casa para hipnotizar a mulher. A pergunta fez soltar imediatamente uma convulsão de risos por parte da plateia. De certa forma, o acontecimento acabou por marcar o panorama televisivo desse ano, mas a resposta de Belling pretendeu não alimentar mais a polémica: «A hipnose baseia-se no pressuposto que ninguém, sem exceção, é hipnotizado sem o consentir. Não se constrange a pessoa a fazer algo que não queira. Nesse aspeto a hipnose é sinónimo de liberdade pois dá-se liberdade ao outro para transformar os seus pensamentos e atitudes para que possa enfim desfrutar de uma vida mais plena».

No dia seguinte, para grande tragédia pessoal de Sofia Estelar, mas sem admiração, quase todas as mulheres do país ligaram para o gabinete da Avenida do Sol para agendarem uma sessão de hipnose com o famoso hipnotizador. A crise que se seguiu a essa entrevista fez Marcus Belling tomar a decisão de que, dali para a frente, iria aparecer menos na televisão. A verdade é que ele se podia aproveitar para se divertir um pouco com a situação, mas cabia, no fundo, a Maria de Burgos gerir de forma inteligente as consequências das suas aparições públicas. Depois deste episódio, como já seria de esperar, jornais e revistas sensacionalistas exploraram o assunto sem limites, especulando se existiria uma relação extraconjugal entre a jornalista do programa e o próprio Belling. Algumas revistas, dentro do estilo satírico, mostravam a jornalista de cabelos pretos longos a ser hipnotizada por Marcus Belling enquanto este sugeria uma “terapia a dois”. As semanas seguintes representavam muito trabalho para Maria de Burgos que pensava sempre para si mesmo: “Será que ele não podia ter dito as coisas de outra forma?”. Podia. Mas se o fizesse já não era o Marcus Belling que todos conheciam.

Patricia Murio sabia gerir estas situações de forma sensata. Não se sentia claramente confortável com a ideia de que os jornais publicavam notícias acerca de casos extraconjugais do marido com as jornalistas, mas nada disso correspondia à verdade. Ao contrário do que acontecia com a maioria das mulheres, ela não tinha sido conquistada exclusivamente pelo carisma de Belling. Ao mesmo tempo existia nela um despojamento da alma que tinha chamado a atenção de Belling e fora sobretudo, por causa disso, que ele se tinha apaixonado por ela. Patricia Murio ajudava-o a procurar o essencial e a libertar-se do supérfluo no meio do caos que por vezes se gerava com o seu mediatismo.

No dia em que Anne Pauline apareceu na vida de Marcus Belling, ele quis regressar mais cedo a casa. Há muitos anos que existia uma aliança secreta entre a mulher e Sofia Estelar que controlavam as potenciais clientes que pretendiam aproximar-se do famoso hipnotizador. A aliança funcionava com sucesso há muitos anos e, por uma vez ou outra, detetou sinais perigosos de avistamento e aproximação femininas que foram rapidamente eliminados. Essas mulheres, por seu turno, foram eficazmente colocadas fora do percurso. Por essa razão, apesar de Patricia Murio não se encontrar na Avenida do Sol, a logística montada permitia-lhe, através da sua “cúmplice”, controlar todos os movimentos do marido e daqueles que o rodeavam. Foi assim com alguma surpresa, e receio, que recebeu o telefonema de Belling avisando de que ia chegar mais cedo a casa. Marcus Belling era um trabalhador incansável. Não lhe faltava, pois, o mérito na sua carreira repleta de sucessos profissionais e, mesmo os que não gostavam dele, não lhe podiam apontar a falta de trabalho no seu percurso. Existia uma boa razão para Belling chegar mais cedo a casa nesse dia, e Patricia Murio sabia-o. Por momentos, não sabia o que deveria pensar e, um pouco desesperada, pensou ainda em ligar a Sofia Estelar para tentar saber se tinha acontecido algo fora do habitual no gabinete do marido. Mas conteve-se. Não quis naquele momento mostrar a sua fragilidade à secretária pessoal do marido.

Marcus Belling chegou a casa. Patricia Murio abraçou-o e, com surpresa, reparou que ele começara a chorar. Ele mantinha-se calado, sem capacidade de pronunciar uma única palavra. Como ela bem sabia, ele era confrontado, em algumas sessões, com sentimentos profundos e inexplicáveis que lhe pareciam ter sido transmitidos pelos seus pacientes quando estes faziam regressões às suas vidas passadas. De alguma forma, os traumas destas vidas passadas pareciam ter impacto no espírito de Belling, ficando estes a pairar no seu gabinete até desaparecer ou incorporar o seu corpo e alma durante vários dias. À primeira vista poderia parecer uma situação bizarra. De certa forma até o era e Marcus Belling já tinha perguntado a outros hipnotizadores se eles também sentiam o mesmo quando praticavam a Terapia de Vidas Passadas. A verdade é que muitos deles tinham receio de confessar que o mesmo também sucedia com eles. Por alguma razão, não queriam que isso fosse do conhecimento do Conselho Nacional de Hipnose.

Praticar a Terapia de Vidas Passadas trazia consigo, por vezes, a incompreensão perante a ocorrência de certos fenómenos. Não só parecia existir uma passagem de sentimentos entre hipnotizador e hipnotizado, como o terapeuta sentia quase como seu o sofrimento do paciente. Não existia conforto nesta situação. Belling convencera-se, ao longo do tempo, de que existia uma espécie de transferência de emoções e que os hipnotizadores - ele e os colegas - não estavam imunes às vidas passadas dos seus pacientes. Nunca tinha falado disto com Patricia Murio, mas a verdade é que ela conseguia sentir tudo. Ele não precisava de lhe dizer nada, pois ela sabia que era isso que sucedia com o marido.

Os dois subiram rapidamente as escadas e apaixonados estenderam-se na cama. Os lençóis serpenteavam-lhes o corpo húmido numa confusão de gestos e palavras murmuradas quase em silêncio, enquanto se sussurravam frases de amor. As lágrimas de Belling transformaram-se em algo que já não era mais do que confusão. Num último ato e suspiro deram as mãos, esticaram os corpos e desapareceram na paixão que os unia. Patricia percebeu então que Belling continuava a chorar, não de forma convulsiva, mas de uma maneira cândida e mais controlada como se precisasse de se despojar daquele intenso sentimento que estava a tomar conta de si. Ele agora tinha a certeza, de que aquele sentimento estranho que tivera, quando vira Anne Pauline pela primeira vez no seu gabinete da Avenida do Sol, significava muito mais do que uma simples intuição.

A Primeira Sessão de Hipnose

França, 1785

1

O DIA TINHA CHEGADO. Este era o primeiro dia em que Anne Pauline iniciaria as suas sessões de hipnose com Marcus Belling sem que pudesse compreender ainda como isso iria mudar a sua vida e a do famoso hipnotizador.

O dia estava radiante. Há muito tempo que a jovem de olhos verdes ansiava pelo momento em que poderia regressar ao seu passado através da regressão: talvez aqui residissem as respostas para as suas inquietações. Ainda assim, tudo não passava de uma especulação. Efetivamente, ela não podia ter a certeza se já tinha tido vidas passadas, apesar de a intuição lhe dizer que sim. Ela também não sabia se as suas ansiedades estavam relacionadas com traumas do passado, mas a intuição dizia-lhe que sim. Por fim, ela não sabia se Marcus Belling seria a pessoa certa para a ajudar, sobretudo depois de ter descoberto que ele era aquele homem misterioso e obscuro dos seus sonhos, mas uma vez mais a sua intuição respondia-lhe sempre de forma positiva; o famoso hipnotizador seria capaz de ir rebuscar lembranças perdidas que a faziam sentir-se perdida, culpada, ansiosa e incapaz de definir a sua identidade.

Tornou-se inevitável Anne Pauline não questionar como é que poderia ser curada através da mesma pessoa que tinha contribuído para ela duvidar acerca de si mesma. Aquele homem com o mesmo tom de voz do de Marcus Belling, colocava-lhe todas as noites um conjunto de perguntas que a fazia duvidar se ela merecia conhecer o seu passado. Será que ela era digna? Será que ela era respeitosa? Ela considerava-se uma pessoa digna e merecedora da sua própria verdade, mas numa determinada fase da vida já não sabia se deveria procurar a ajuda do famoso Marcus Belling. Durante muitos anos viveu neste dilema, até finalmente ter decidido tomar coragem para tocar à campainha do n.º 27 da Avenida do Sol.

Na vida de Anne Pauline Roux existia uma estranha mistura de sentimentos. Vivera muitos anos com os pais na vila piscatória onde aprendera a escutar os sons do mundo enquanto admirava o horizonte ao final do dia; apenas isso lhe trazia alguma tranquilidade. Mas durante a noite, tudo mudava. Os sonhos tentavam agarrá-la uma vez mais, e ela não sabia se deveria abrir a porta ao desconhecido. Ao mesmo tempo, sentia que não era verdadeiramente livre. Era como se alguém a tivesse aprisionado num determinado tempo; de certa forma, parecia que lhe tinham acorrentado a mente e a alma. Também sempre sentira que a alguém a atraiçoara, embora não conseguisse explicar bem esta sensação, que lhe parecia andar perdida num passado remoto. Todas estas circunstâncias criavam uma mistura de sentimentos, nem sempre fáceis de definir e sobretudo, alimentavam uma inquietação enorme na alma de Anne Pauline. Foi por essa razão que, após vários anos de reflexão, ela decidira consultar Marcus Belling e experimentar a Terapia de Vidas Passadas. Naquele dia, quando ela saiu para a cidade, o famoso hipnotizador preparava-se para sair de casa. Beijou Patricia de forma carinhosa e dirigiu o passo para o gabinete.

Neste dia, Marcus Belling tinha decidido também visitar o seu amigo sapateiro da Avenida do Sol chamado Thaddeus Borba: era um homem com mais de setenta anos que continuava a exercer a sua profissão com a mesma dedicação, como há quarenta anos. Sendo um incansável trabalhador, Thaddeus partilhava bastantes afinidades com Belling com quem mantinha uma relação próxima e de amizade, como não acontecia com todos os seus clientes. No caminho até ao consultório, o famoso hipnotizador saboreou ao máximo os cheiros daquela manhã de verão. Ele era um cliente regular do sapateiro, a quem deixava muitas vezes os seus sapatos para arranjar. A verdade é que Marcus Belling gostava de ajudar todos aqueles que trabalhavam na Avenida do Sol, recorrendo para tal aos seus serviços, como por exemplo, comprando um bom livro no alfarrabista ou uma cómoda antiga no antiquário ou, simplesmente, pedindo ao sapateiro para engraxar os seus sapatos. No sentido de ajudar a economia da Avenida do Sol, tinha também sido criado há alguns anos, o conhecido “Clube Livre da Avenida”, uma organização que integrava todos aqueles que trabalhavam, viviam ou simplesmente adoravam ou idolatravam a reputada Avenida do Sol. Efetivamente, o Clube estava longe de ser uma entidade fechada e elitista, pois os seus membros promoviam a abertura da sua filiação, a difusão da cultura e das artes na Avenida do Sol e a preservação da sua história. Como não podia deixar de ser, Marcus Belling fazia parte do Clube há muitos anos, mas nem sempre era um frequentador habitual devido ao pouco tempo que dispunha. O mesmo já não se passava com Georgine Gunderson que decidira integrar o dito Clube para continuar a sua pesquisa acerca da história da Avenida do Sol. Poucos sabiam disto, mas uma lenda contava que tinha existido muito ouro por debaixo desta avenida que acabou por se tornar, séculos mais tarde, no centro cosmopolita da cidade. Por essa razão, tinha sido erigida a estátua de Fénix, que mais não era do que uma alusão à história esquecida da Avenida. “História talvez esquecida por conveniência”, pensou Georgine, pois se a lenda era verdadeira, poderia bem ser possível que, mesmo por debaixo dos seus pés, existissem toneladas de ouro. Neste dia, ela tinha regressado à antiga biblioteca nacional e sozinha preparava-se para mais um dia de trabalho.

Como normalmente acontecia, sempre que tinha um pouco mais de tempo, Belling visitava Thaddeus. O sapateiro era uma pessoa especial e diferente de todas as outras. Marcus Belling, como tantos outros, considerava-o um dos melhores sapateiros do país, pois ele era capaz de fazer cada cliente sentir-se uma pessoa especial. Todos nutriam uma forte admiração por ele, muito embora, infelizmente, para desgosto de alguns, ele não pudesse deixar o legado dos seus preciosos conhecimentos acerca da sua profissão a uma geração que os pudesse perpetuar. Neste dia, Marcus Belling não se esquecera de Thaddeus, mas desta vez ele não trazia sapatos para arranjar. Deu-lhe sim, uma súbita vontade de o cumprimentar e de rever o seu agradável sorriso que ele reservava sempre para cada cliente. Uma vez mais, como se cada pessoa fosse única.

– Bom dia Thaddeus, como está? – perguntou Marcus Belling.

– Senhor Belling, bom dia. Hoje apareceu por aqui cedo. Como é que o posso ajudar? Não me diga que apareceu por causa aqueles sapatos que eu lhe arranjei da última vez. Não ficaram bons? – perguntou Thaddeus.

– Não se preocupe Thaddeus, gostei muito do seu trabalho. Hoje não lhe trago sapatos, como de costume. Venho apenas saber como está. – respondeu Belling com um sorriso.

Thaddeus não era apenas conhecido por ser “o sapateiro” da Avenida do Sol e um dos últimos da sua nobre profissão. Como nunca se tinha casado nem nunca tinha tido filhos, não existia uma geração de bons sapateiros que lhe pudesse descender. Mas não era apenas um sapateiro que se perdia, um dia, com a sua partida. A tristeza das pessoas adensava-se porque ele era o único sapateiro que tocava alaúde enquanto entoava versos que contavam a verdade acerca da vida das pessoas, razão pela qual ele era conhecido como o “Trovador da Verdade”. Para outros, ele não era um trovador, mas sim um oráculo, pois cada um dos versos que ele declamava e cantava, continham uma visão de futuro à pessoa a quem estes eram dirigidos. Assim, por detrás de uma simples trova, escondia-se, como todos sabiam, um prognóstico sobre momentos futuros que, muitas vezes, tendia a concretizar-se. Esta foi a maneira encontrada por Thaddeus Borba para entreter os seus clientes, enquanto eles esperavam pelos seus sapatos arranjados. A inovação do seu método, permitiu-lhe de facto, granjear bastante fama na cidade e com uma reputação cada vez maior, foi ganhando cada vez mais clientes. A arte dos versos e do alaúde era algo a que recorria com frequência, e foi isso que aconteceu, quando viu Marcus Belling aproximar-se naquela manhã. Thaddeus já conhecia o famoso hipnotizador há muitos anos para saber quando ele precisava de um conselho sábio. Rapidamente, ao som da música, as palavras fluíram da sua boca:

Às vezes é melhor saber

Do que esperar para ver

A pessoa que irá aparecer

vai mudar o seu parecer

Surpreendido, Marcus Belling não estava à espera de ser o destinatário da trova da verdade naquele dia: aliás, era extremamente raro um dos versos lhe ser dirigido e no fundo ele sabia bem o que isso significava. Ele tinha de estar atento ao seu futuro. Assim, escutou em silêncio a pequena trova que parecia conter todo o seu mundo: “mais valia saber/ do que esperar para ver”, mas afinal o que pretendia o sapateiro dizer com aquelas palavras?

Como outras pessoas que conheciam Thaddeus Borba, também Belling pensou que, por detrás daquela profissão, se escondia um verdadeiro oráculo. Todos sabiam que a cada trova correspondia um pedaço da verdade da vida daquela pessoa, por isso era tão importante não a esquecer e guardá-la na memória, mesmo que não se compreendesse o conteúdo. Marcus Belling não foi capaz de conter a pergunta:

– Porque é que me estás a dizer isso Thaddeus? Quem é que vai mudar a minha opinião? Falas através de códigos e não compreendo aquilo que dizes. O que é que sabes sobre o meu futuro?

– Todo o futuro está nestes versos. Não se esqueça deles. – respondeu simplesmente o sapateiro.

Nesta altura, já Thaddeus Borba sabia bastante acerca do futuro próximo de Marcus Belling, mas não lho poderia dizer. Apenas os verdadeiros oráculos estavam autorizados a avisar os outros acerca de acontecimentos próximos ou fornecer pistas sobre um caminho futuro, sem poder interferir na liberdade de cada um. Esta situação deixara o famoso hipnotizador bastante inquieto e incomodado, pois não sabia como lidar com a sua vida depois de ter ouvido aquela trova. Voltou então a olhar os olhos do sapateiro: o seu olhar era sincero. Neste instante, o sol estava agora no pico máximo e o movimento na Avenida do Sol começava a adensar-se à medida que as famílias aproveitavam aquele dia de verão para tomar um café nas esplanadas. Belling viu o sapateiro guardar o alaúde e soube, desta maneira, que estava na altura de continuar o seu caminho até ao consultório. Despediu-se de Thaddeus com um gesto afetuoso, mas teve a preocupação de guardar para si aqueles versos enigmáticos.

Marcus Belling chegou ao n.º 27 da Avenida do Sol e cumprimentou Sofia Estelar com um sorriso inquieto. Dentro dele, de forma inconsciente, Thaddeus ainda lhe estava a cantar a trova da verdade. Ao mesmo tempo, Sofia apercebeu-se imediatamente do seu estado de espírito, mas julgou que este estava relacionado com Anne Pauline. Os dois sabiam que ela iria aparecer naquele dia, para a sua primeira oficial sessão de hipnose. Belling não iria apenas voltar a relembrá-la dos propósitos da hipnose e da Regressão, como iria aproveitar a oportunidade para lhe reforçar a segurança interior, demonstrando-lhe que era fundamental existir uma relação de confiança entre hipnotizador e hipnotizado.

***

Marcus Belling dispunha na sua vida profissional de uma rede logística bem montada para assegurar a continuidade das suas sessões e do seu trabalho. Por isso, era difícil imaginar uma situação, tal como descrita por Thaddeus Borba, que lhe pudesse fugir ao controlo. Contudo, o sapateiro falava-lhe agora de uma pessoa que iria aparecer e provavelmente mudar o seu futuro, se ele compreendera corretamente. Este era um código de palavras difícil de desmontar.

O famoso hipnotizador sentiu necessidade de desabafar com Sofia Estelar. Ela já se tinha apercebido do seu rosto mais interrogativo e do seu estado de preocupação desde que ele chegara ao gabinete nesse dia. Assim, Belling contou-lhe acerca do seu encontro com o “Trovador da Verdade” e, embora sem o alaúde a acompanhá-lo, voltou a entoar os versos encriptados que lhe tinham sido ditos nessa manhã. De facto, Sofia já tinha ouvido falar dos mitos em redor das trovas do sapateiro, mas ela não acreditava que Thaddeus pudesse ser um verdadeiro oráculo. Ela estava segura de que não existia nenhuma circunstância que pudesse abalar a rede de segurança montada à volta de Marcus Belling, protegido por toda uma que assegurava a continuidade do trabalho desenvolvido naquele reputado consultório.

Para Sofia Estelar não existia lugar no consultório da Avenida do Sol para fenómenos do oculto, embora ela compreendesse que, com facilidade, as pessoas associavam tais ideias à hipnose e à Regressão: aqui incluíam-se também as trovas do sapateiro da Avenida do Sol. Nessa medida, Sofia Estelar disse simplesmente a Belling numa tentativa de encerrar aquela conversa que a incomodava:

– Esqueça o que Thaddeus Borba lhe disse. Não seja influenciado pelos versos dele. Podem chamar-lhe as “Trovas da Verdade”, mas sabe bem que isso não é uma ciência.

– Pois Sofia, mas não te esqueças que muitas pessoas já relataram que alguns dos acontecimentos que ele canta através daqueles versos se tornam realidade! – disse o hipnotizador.

– Primeiro Anne Pauline, agora isto. Tem mesmo de esquecer esses versos! Concentre-se no seu trabalho e deixe para trás essas histórias. – pediu imediatamente Sofia Estelar.

Marcus Belling olhou a sua secretária nos olhos e decidiu seguir o conselho. Seria impossível que o sapateiro da Avenida do Sol pudesse realmente saber o que iria acontecer com ele num futuro próximo. Ele compreendeu a perspetiva de Sofia Estelar, mas a verdade é que, desde que começara a praticar a Terapia de Vidas Passadas, existiam muitas situações que já o tinham posto a pensar, especialmente o sentimento estranho que se apoderava dele quando certos pacientes começavam a relatar as suas experiências de vidas passadas; isso fazia-o questionar até que ponto as almas não viajavam no tempo. Por outro lado, após ter deixado a hipnose clínica ele tinha desenvolvido uma certa visão espiritualista da vida; ele já tinha descoberto que a mente humana tinha muitas potencialidades, embora nada o pudesse preparar para o que iria descobrir com Anne Pauline.

Depois de Marcus Belling ter desabafado com Sofia Estelar, o hipnotizador abriu a porta do seu consultório. O gabinete não era grande, mas cada área de trabalho estava bem dividida: à direita, um conjunto de estantes guardava os livros da sua biblioteca particular, à esquerda encontrava-se a sua secretária em estilo vitoriano, e na parede observava-se pendurada a fotografia dele com Sofia Estelar, no dia em que o consultório abrira pela primeira vez as suas portas. A meio do gabinete destacava-se o sofá verde, encomendando há dez anos por Sofia Estelar, que tinha sempre uma opinião sobre a decoração do consultório. Ela fazia questão de manter esta influência, recebendo sugestões de Patricia Murio que, desta forma, também detinha um controlo discreto sobre a vida do marido.

Como todos os hipnotizadores, Belling sabia que o sofá era o elemento mais emblemático de qualquer consultório de hipnose e, por isso, não tinha poupado esforços para encontrar um em que as pessoas se pudessem sentir confortáveis. As viagens ao subconsciente exigiam que o sofá de qualquer hipnotizador transmitisse uma sensação de paz e segurança aos seus pacientes, algo que era muitas vezes difícil de encontrar noutro lugar na maioria das vidas das pessoas que o procuravam.

A um canto do gabinete encontrava-se a biblioteca particular de Belling e que sempre tinha sido um auxílio à sua carreira. Aqui, para além de livros sobre a medicina, alquimia e astrologia, existia ainda uma vasta coleção de textos dedicados exclusivamente à hipnose, à regressão e às neurociências. Na parte dedicada à Terapia de Regressão, o famoso hipnotizador guardava consigo um dos livros mais conhecidos sobre o tema, intitulado: “A Regressão: Um Novo Entendimento”, de T. Hommas. Nascido em 1919, o autor foi pioneiro na sua época em escrever sobre a Regressão numa altura em que ainda existia pouco conhecimento a circular sobre esta forma de terapia. De facto, só a partir de 1857 é que se começaram a desenvolver as primeiras teorias acerca da sobrevivência da alma em relação ao corpo e unicamente em 1967 é que se dá um reconhecimento da chamada “Terapia de Vidas Passadas”. O livro de T. Hommas, publicado em 1950 constituía, assim, uma verdadeira enciclopédia com vista a decifrar toda a linguagem relacionada com a regressão e vidas passadas. Formado em Humanidades e Psicologia, T. Hommas veio uns anos mais tarde a interessar-se pela hipnose e a desenvolver estudos aprofundados nesta área. Na realidade, ele foi pioneiro ao explorar a aplicação de uma terapia de regressão como forma de tratamento de instabilidade emocionais e, em casos mais severos, em situações de transtornos psicológicos. T. Hommas tentou assim desenvolver uma terapia não convencional, hoje mais aproximada à Terapia de Vidas Passadas, o que acabou por suscitar divergências no seu meio profissional e que foram complicadas de gerir durante a sua vida. No fundo, ele pretendia explorar as potencialidades da mente humana e a sua capacidade para recordar eventos passados que tivessem ocorrido numa vida anterior. Talvez, por essa razão, Hommas também se veio a interessar pela neurologia, embora a maior parte dos textos que publicara em vida abordassem a questão da regressão quando aplicada durante o transe hipnótico. Uns anos mais tarde, como resultado de investigações posteriores, ele viria a publicar outro livro igualmente conhecido entre os hipnotizadores intitulado: “Psicologia e Mente: a Terapia na Hipnose, o seu Conceito e Abordagem”. A obra, que estava igualmente disponível na biblioteca de Marcus Belling, constituiu a primeira tentativa de compilação de experiências relatadas por pessoas que afirmavam ter lembranças acerca das suas vidas passadas. Estes eram testemunhos de pessoas que haviam participado nas terapias que Hommas desenvolvera nas suas sessões de hipnose. Era a primeira vez que um hipnotizador abordava abertamente este tema expondo, desta forma, relatos pessoais e reais.

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431 p. 2 illustrations
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9789898938893
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