Read the book: «Uma aristocrata no deserto - Escondida no harém»

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Editado por Harlequin Ibérica.

Uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

Núñez de Balboa, 56

28001 Madrid

© 2020 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

N.º 61 - dezembro 2020

© 2015 Maisey Yates

Uma aristocrata no deserto

Título original: Bound to the Warrior King

Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd.

© 2015 Michelle Conder

Escondida no harém

Título original: Hidden in the Sheikh’s Harem

Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd.

Estes títulos foram publicados originalmente em português em 2017 e 2016

Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial.

Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.

Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), acontecimientos ou situações são pura coincidência.

® Harlequin e logótipo Harlequin são marcas registadas propriedades de Harlequin Enterprises Limited.

® e ™ são marcas registadas por Harlequin Enterprises Limited e suas filiais, utilizadas com licença.

As marcas em que aparece ® estão registadas na Oficina Española de Patentes y Marcas e noutros países.

Imagem de portada utilizada com a permissão de Harlequin Enterprises Limited.

Todos os direitos estão reservados.

I.S.B.N.: 978-84-1375-280-8

Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.

Sumário

Créditos

Uma aristocrata no deserto

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

Capítulo 12

Capítulo 13

Capítulo 14

Capítulo 15

Escondida no harém

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

Capítulo 12

Epílogo

Se gostou deste livro…

Uma aristocrata no deserto


Capítulo 1

O príncipe Zachim Bakr Al-Darkhan tentou não bater com porta ao sair dos aposentos que o seu meio-irmão ocupava durante a sua breve visita. Nadir recusava-se com teimosia a ocupar o seu lugar no trono de Bakaan. E isso deixava Zachim numa posição muito delicada.

– Está tudo bem, Alteza?

Bolas! Estivera tão preocupado que não vira o velho empregado que o servira desde criança e, naquele momento, esperava por ele por baixo de um dos arcos do corredor do palácio.

Não. Nada estava bem. Com cada dia que passava sem ter um governante, o povo ficava cada vez mais agitado. O pai morrera há duas semanas, mas já havia rumores de que algumas tribos insurgentes estavam a reagrupar-se para atacar.

Como a tribo de Al-Hajjar. No passado, as suas famílias tinham pertencido a dinastias rivais até, há dois séculos, os Darkhan terem vencido os Hajjar numa guerra brutal e, com isso, terem criado ressentimentos difíceis de apagar com o tempo. Mas Zachim sabia que o atual líder da tribo, Mohamed Hajjar, odiava o pai, não só pela história passada, mas também porque o culpava pela morte da esposa grávida há dez anos.

A verdade era que o pai fora um tirano cruel que governara sob um império de terror e se vingara sem piedade quando não alcançava o que queria. Como resultado, Bakaan era um reino perdido na escuridão e no passado, tanto no que dizia respeito às suas leis como em relação às infraestruturas. Ia ser um desafio enorme trazê-lo para o século XXI.

Nadir estava mais bem qualificado do que ele para esse desafio. Não só porque tinha um grande talento para a política, mas porque era o primogénito. Se o irmão ocupasse o trono, Zachim poderia dedicar-se ao que fazia melhor, alimentar e gerir a mudança com o povo.

Já começara a fazê-lo depois de a mãe lhe ter rogado para ir ao palácio há cinco anos, quando Bakaan estivera à beira de uma guerra civil. As revoltas tinham sido encorajadas por uma das tribos da montanha, onde alguém publicara uma proclamação a detalhar todos os fracassos do rei e a incitar a mudança. A maioria das acusações contra o pai tinham sido certas, embora Zachim tivesse cumprido com o seu dever e tivesse acalmado os ânimos populares. Depois, preocupado com o estado em que o país se encontrava, deixara de lado o seu estilo de vida ocidental e ficara para mitigar os danos que o pai, cada vez mais narcisista e paranoico, causara ao povo. A morte chegara ao rei antes de ter mudado de ideias, o que fazia com que o filho se sentisse vazio por dentro. Por isso e porque o velho monarca nunca o considerara mais do que um possível sucessor ao trono.

– Alteza?

– Lamento, Staph – desculpou-se Zachim, afastando as lembranças, e começou a dirigir-se para a sua ala privada do palácio, enquanto o empregado acelerava o passo para o seguir. – Não, nada está bem. O meu irmão é muito teimoso.

– Não quer regressar a Bakaan?

Não. Zachim sabia que Nadir tinha boas razões para se recusar, mas também sabia que o irmão nascera para ser rei e que, se conseguisse superar o ressentimento, gostaria do trabalho de governar o seu pequeno reino.

Percebendo que Staph mal conseguia segui-lo, Zachim diminuiu o ritmo.

– Agora, tem outras coisas em que pensar.

Nadir acabara de descobrir que tinha uma filha e estava decidido a casar-se com a mãe. Zachim surpreendera-se muito, pois o irmão nunca acreditara no amor, nem no casamento. Ele, pelo contrário, sempre desejara ter uma família para a tratar muito melhor do que o pai os tratara.

De facto, estivera prestes a pedir a mão de uma mulher uma vez, antes de o terem chamado para o país. Amy Anderson tinha todos os requisitos que procurava numa mulher. Era sofisticada, educada e loira. O seu noivado decorrera sem complicações, embora algo tivesse feito com que Zachim repensasse as coisas. Nadir não o ajudara muito, quando o acusara de sempre ter escolhido as mulheres erradas.

Zachim despediu-se de Staph e entrou nos seus aposentos. Tirou a roupa a caminho do duche, lavou-se com a água a arder e deitou-se na cama. Combinara encontrar-se com o irmão à hora do almoço do dia seguinte, para que pudesse abdicar diante do conselho. No entanto, esperava que Nadir recuperasse a prudência antes disso.

Quando o som de uma mensagem vibrou no seu telemóvel, tirou-o imediatamente da mesa de cabeceira, agradecido por poder distrair os seus pensamentos. Era o seu bom amigo Damian Masters, com quem costumava fazer corridas de lanchas.

«Tens um convite para uma festa privada no teu correio eletrónico. Ibiza. Dei o teu endereço privado à princesa Barbie. Espero que não te importes. D.»

Ena, ena! Zachim não acreditava no destino e nos sinais, mas estivera a pensar em Amy, a princesa Barbie, como os amigos costumavam chamar-lhe. E ali estava.

Quando abriu o correio eletrónico, lá estava a mensagem em questão.

«Olá, Zachim, sou Amy.

Há muito tempo que não falamos. Disseram-me que vais à festa de Damian em Ibiza. Espero ver-te. Poderemos conversar?

Beijos,

Amy.»

Um sorriso malicioso desenhou-se no rosto do príncipe. Pelo tom da sua mensagem e pelos beijos da despedida, intuiu que talvez quisesse fazer mais do que conversar. Mas o que queria?

Pensativo, entrelaçou as mãos atrás da cabeça. Talvez não tivesse pensado muito nela nos últimos cinco anos, mas o que importava? Gostaria de verificar o que sentia ao vê-la outra vez. Assim, saberia se podia continuar a considerá-la uma candidata para ser a mãe dos futuros filhos.

Sem prestar muita atenção, enviou uma resposta curta, indicando que, se fosse à festa, falariam. No entanto, em vez de se sentir melhor, sentiu-se pior.

Cansado dos pensamentos sombrios que ameaçavam não o deixar dormir, levantou-se, vestiu as calças de ganga e uma t-shirt e dirigiu-se para a garagem do palácio. Entrou no todo-o-terreno e, depois de se despedir dos guardas, dirigiu-se para o deserto vasto e silencioso que rodeava a cidade. Sem pensar e deixando-se guiar pelo seu ânimo inquieto, saiu da estrada e levou o carro pelas dunas, iluminadas pela lua cheia.

Duas horas depois, atirou o bidão vazio de combustível para o banco de trás e praguejou em voz alta. Não se apercebera do tempo que passara ao volante nem de como se afastara. E ficara preso no meio do deserto sem gasolina e sem rede no telemóvel.

Sem dúvida, o pai teria chamado a sua impulsividade de arrogância. Para ele, fora apenas uma estupidez. Não devia ter entrado no deserto dessa maneira.

Bolas!

Naquele momento, ouviu movimento atrás dele e, quando se virou, viu que vários homens montados a cavalo apareciam no horizonte. Estavam vestidos de preto, com os rostos cobertos pelos keffiehs tradicionais para impedir que a areia lhes entrasse no nariz e nos olhos. Assim, era impossível saber se eram amigos ou inimigos.

Em poucos minutos, quando cerca de vinte estranhos estavam à frente dele, quietos e sem falar, Zachim adivinhou que deviam ser inimigos.

Devagar, observou cada um deles. Talvez conseguisse acabar com dez, dado que tinha uma pistola e uma espada. Embora talvez fosse melhor tentar ser diplomático primeiro.

– Suponho que nenhum de vocês tenha um bidão de gasolina, pois não?

O som de movimento numa das selas de couro fez com que Zachim fixasse a atenção no homem que estava no centro do grupo, que devia ser o líder.

– És o príncipe Zachim Al-Darkhan, orgulho do deserto e herdeiro ao trono, não é assim?

Bom, o pai não estaria muito de acordo com o título «orgulho do deserto» e também não era o herdeiro direto, mas Zachim pensou que não era o momento ideal para pensar nos detalhes.

– Sou.

– Ena, que coincidência – declarou o estranho, que olhava para ele fixamente com uns olhos cor de ónix.

Levantara-se um pouco de vento, mas a noite continuava limpa e, no céu, brilhava a lua cheia que o impulsionara a queimar a sua frustração com um dos seus passatempos favoritos.

O chefe do grupo dirigiu-se a um dos seus homens. Desmontou devagar e aproximou-se, até parar à frente de Zachim com uma postura desafiante. Ele manteve a expressão impassível, pensando que, se iam lutar com ele um a um, sairia a ganhar.

Então, os outros dezoito desmontaram também.

Muito bem, aquilo já era demasiado. Era uma pena que as suas armas estivessem no carro.

Farah Hajjar acordou, de repente, a meio da noite. Nunca dormia bem com a lua cheia. Era como um mau presságio para ela. A mãe morrera numa noite de lua cheia. Não conseguira adormecer naquela noite e chorara até ficar sem forças. Já não tinha doze anos, mas não o superara. Tal como não vencera o seu medo dos escorpiões… Algo difícil quando se vivia num deserto onde havia escorpiões às centenas.

Levantou-se na cama e, ao longe, ouviu um cavalo a relinchar.

Interrogou-se se o pai estaria de regresso de uma das suas reuniões de uma semana para discutir o futuro do país. Depois da morte do horrível rei Hassan, era da única coisa que falava. Disso e do seu temor de que o príncipe déspota Zachim governasse como o pai. O príncipe tivera uma vida de conto de fadas antes de voltar a Bakaan há cinco anos, se o que as revistas cor-de-rosa que ela lia contavam fosse verdade. Por isso, suspeitava que o pai tinha razão sobre o herdeiro ao trono. E isso seria mau para o povo.

Bocejando, ouviu o galope de mais cavalos e questionou-se o que estaria a acontecer. Se o pai tivesse de se ausentar mais um dia ou dois, era quase melhor. A verdade era que, por muito que ela tentasse, nunca conseguia agradá-lo. Para ele, as mulheres só serviam para tecer e ter filhos. De facto, casara-se pela segunda vez com a intenção de ter um filho varão e repudiara a esposa quando não o conseguira.

O pai não entendia o desejo de independência de Farah e ela não compreendia porque é que ele não aceitava que também tinha cérebro e sabia como usá-lo. Para cúmulo, estava decidido a casá-la, algo que ela não queria. Na sua opinião, havia dois tipos de homens no mundo: os que tratavam bem as esposas e os que não. Mas nenhum deles apoiaria a independência total da esposa, nem a sua felicidade.

Farah sabia que o pai agia guiado pela crença de que as mulheres precisavam da proteção de um homem. E ela ficara sem recursos para lhe demonstrar o seu erro.

Com um suspiro, virou-se para o outro lado, recordando como o amigo da infância pedira permissão para a cortejar. Amir era o braço direito do pai, por isso pensava que era o melhor partido para a filha. Infelizmente, Amir era igualmente machista e ela não queria casar-se com ele.

Como castigo, o pai proibira-a de receber mais revistas ocidentais, pois culpava-as das suas ideias loucas. A verdade era que Farah só queria ser diferente. Queria fazer mais do que trazer material educativo de contrabando para a aldeia. Queria mudar a situação das mulheres em Bakaan e defender os seus direitos. E sabia que não teria nenhuma possibilidade de o conseguir se se casasse.

O mais provável era que não tivesse nenhuma oportunidade em qualquer caso, mas isso não a impedia de tentar e, de vez em quando, ultrapassar os limites que o pai marcava.

Frustrada e irritada, pressentindo que algo terrível estava prestes a acontecer, acomodou-se na almofada e perdeu-se num sono inquieto e pouco reparador.

Uma sensação de inquietação acompanhou-a durante os dias seguintes, até a amiga chegar a correr até ela quando estava a limpar a manjedoura dos camelos e tudo piorar.

– Farah! Farah!

– Calma, Lila – tranquilizou-a Farah, deixando a pá de lado. – O que aconteceu?

Lila tentou recuperar o fôlego.

– Não vais acreditar, mas Jarad acabou de voltar do acampamento secreto do teu pai e… – começou a jovem e baixou o tom de voz, embora não houvesse mais ninguém por ali, para além dos camelos. – Diz que o teu pai sequestrou o príncipe de Bakaan.

Capítulo 2

Sentindo-se culpada por ter estado a desfrutar da ausência do pai, Farah correu para os estábulos e montou o cavalo branco. Se o que Lila dizia era verdade, o pai podia enfrentar a pena de morte por essa temeridade.

Como se conseguisse perceber o seu desassossego, o Raio de Lua relinchou e levantou a cabeça.

– Calma – tranquilizou-o Farah, embora precisasse mais de se acalmar do que o cavalo. – Corre como o vento. Tenho um mau pressentimento.

Pouco depois, entrou no acampamento secreto, desmontou e entregou o cavalo a um dos guardas para que lhe desse água. Estava a escurecer e, nas tendas, estavam a fazer-se os preparativos para passar a noite. De um dos lados do acampamento estava o deserto e, do outro, as montanhas, banhadas pelos últimos raios do entardecer.

No entanto, naquele dia, não tinha tempo para se deleitar com a sua beleza, pensou Farah. Estava muito nervosa, rezando para que Lila se tivesse enganado.

– O que estás a fazer aqui? – perguntou Amir, num tom seco e com o rosto tenso, ao vê-la a aproximar-se da tenda do pai.

– E tu? – replicou ela, cruzando os braços num gesto desafiante. Não estava disposta a deixar-se intimidar pelo seu antigo amigo da infância.

– Isso não é um assunto teu.

– Se o que me disseram é verdade, é – contradisse ela e respirou fundo. – Por favor, diz-me que não é verdade.

– A guerra é coisa de homens, Farah.

– Guerra? – repetiu ela e praguejou como um homem teria feito, enfrentando o olhar de desaprovação de Amir. – Portanto, é verdade – sussurrou. – O príncipe de Bakaan está aqui?

Amir cerrou os dentes.

– O teu pai está ocupado.

– Está lá dentro?

Farah referira-se ao príncipe, mas ele não entendeu.

– Não pode ver-te agora. As coisas são… Delicadas.

Uma forma muito subtil de o descrever, pensou ela. A tensão podia sentir-se no acampamento.

– Como aconteceu? Sabes que o meu pai é um homem velho e amargurado. Era a tua responsabilidade cuidar dele.

– Continua a ser o chefe de Al-Hajjar.

– Sim, mas…

– Farah? És tu? – chamou o pai, da tenda.

Ela sentiu um nó no estômago. Por muito machista e autoritário que fosse, era a única pessoa que tinha no mundo e amava-o.

– Sim, pai – confirmou Farah e, passando à frente de Amir, entrou na tenda.

O espaço estava iluminado com candeeiros a óleo, dividido por uma zona para comer e outra para dormir, com uma cama ampla e um círculo de almofadas. Vários tapetes cobriam o chão para o isolar do frio da noite.

O pai parecia cansado. Os restos do jantar ainda estavam na mesa.

– O que estás a fazer aqui, menina? – perguntou ele, com o sobrolho franzido. As mulheres não eram bem-vindas no santuário privado do chefe da tribo.

Farah conteve-se para não responder que só queria cuidar dele. A sua relação nunca fora muito afetuosa.

– Ouvi dizer que sequestraste o príncipe de Bakaan – indicou, rezando para que não fosse verdade.

O pai esfregou a barba branca, um gesto que significava que estava a pensar se devia responder ou não.

– Quem te disse isso?

– É verdade, então? – perguntou ela, sentindo-se embargada pela preocupação.

– A notícia não pode espalhar-se. Amir, encarrega-te disso.

– É óbvio.

Farah não se apercebera de que Amir a seguira para dentro. Virou-se para ele e, ao prestar mais atenção, apercebeu-se de que tinha um olho arroxeado.

– Como aconteceu isso?

– O que importa?

Farah interrogou-se se fora o príncipe que lhe dera um murro, mas não indagou mais.

– Mas porquê? Como?

Amir deu um passo à frente com o rosto tenso.

– O arrogante príncipe Zachim pensou que podia atravessar as dunas com o carro a meio da noite sem ter nenhuma reserva de combustível.

– E? – inquiriu Farah, olhando para o pai.

– E capturámo-lo.

Ela pigarreou, tentando não pensar o pior.

– Porque fizeram isso?

– Porque não queremos que outro Darkhan tome o poder e ele é o herdeiro.

– Pensei que o irmão mais velho era o herdeiro.

– O miserável Nadir vive na Europa e não quer ter nada a ver com Bakaan – indicou Amir.

– Isso não vem ao caso – replicou ela, abanando a cabeça. – Não podem… sequestrar um príncipe sem mais nem menos!

– Quando se souber que o príncipe Zachim já não está disponível, o país desestabilizar-se-á ainda mais e ficaremos com o poder que sempre nos pertenceu por direito próprio.

– Pai, as guerras tribais de que falas acabaram há centenas de anos. Eles ganharam. Não achas que está na hora de deixar o passado para trás?

– Não, não me parece. A tribo de Al-Hajjar nunca reconhecerá o poder dos Darkhan e não consigo acreditar que a minha própria filha me fale assim. Sabes muito bem o que me arrebataram.

Farah suspirou. Sim, o rei recusara-se a abastecer as regiões contíguas a Bakaan com provisões médicas, entre outras coisas. Por isso, ninguém pudera salvar a vida da sua mãe grávida, o tesouro mais querido do pai. Ela nunca bastara para acalmar a sua dor.

O pai continuou a enumerar tudo o resto que os Darkhan lhe tinham roubado: terra, privilégios, liberdade. Eram as mesmas histórias que ouvia desde pequena. E, na verdade, estava de acordo com a maioria das suas acusações. O falecido rei de Bakaan fora um tirano egoísta que nunca se preocupara com o povo.

No entanto, na sua opinião, sequestrar o príncipe Zachim não era uma maneira de resolver os velhos problemas. Sobretudo, quando era uma ofensa que se pagava com a prisão ou a morte.

– Como é que isto vai melhorar as coisas e trazer a paz? – inquiriu ela, apelando ao seu sentido racional.

O pai encolheu os ombros.

– O país não terá nenhuma oportunidade com ele no trono. É muito poderoso.

Sim, Farah ouvira dizer que o príncipe Zachim era poderoso. Também ouvira dizer que era muito bonito, o que as fotografias que vira publicadas na imprensa cor-de-rosa confirmavam. Embora não se preocupasse com o aspeto dele!

– E o que se passará agora? O que fará o conselho de Bakaan?

Pela primeira vez desde que Farah entrara, o pai mostrou-se inseguro. Levantou-se e começou a dar voltas pela tenda.

– Ainda não sabem.

– Não sabem? – repetiu ela, franzindo o sobrolho. – Como é possível que não saibam?

– Quando estiver pronto para revelar os meus planos, fá-lo-ei – afirmou o pai.

Isso significava que não tinha nenhum plano, adivinhou ela.

– Além disso, não é algo de que queira falar contigo. E porque estás assim vestida? Essas botas são de homem.

Farah bateu com o pé no tapete. Esquecera-se de que não tirara a roupa velha que usava para trabalhar com os camelos. Mas, iam falar da sua vestimenta quando tinham sequestrado o homem mais importante do país?

– Isso é o menos importante…

– Não é, se eu o disser. Sabes o que penso.

– Sim, mas penso que há coisas mais… urgentes para discutir, não achas?

– As cartas já estão lançadas. Não há mais nada para discutir.

Com um ar cansado, o velho chefe deixou-se cair nas almofadas.

– Pelo menos… Está bem? – quis saber ela, com o coração apertado, temendo que lhe tivessem batido. Isso só pioraria as coisas ainda mais.

– Para além de que o maldito homem se recusa a comer, sim.

– Sem dúvida, pensa que a comida foi envenenada.

– Se quisesse matá-lo, usaria a espada – declarou o pai.

– Talvez essa seja a solução – indicou Amir. – Matamo-lo e desfazemo-nos do corpo. Assim, ninguém poderá atribuir-nos a sua morte.

Farah lançou-lhe um olhar assassino.

– Não consigo acreditar que estejas a falar assim, Amir. Para além de ser uma barbaridade, se descobrissem no palácio, dizimariam a nossa aldeia.

– Ninguém descobriria.

– E ninguém vai morrer – assegurou ela, pondo as mãos na cintura. – Irei vê-lo.

– Não te aproximes dele, Farah! – ordenou o pai. – Tomar conta do prisioneiro é trabalho de homens.

Ela mordeu a língua para não responder que o pai não estava a fazê-lo muito bem se o prisioneiro se recusava a comer. Sem dizer nada, virou-se.

– Onde vais? – gritou Amir, num tom autoritário.

– Vou comer – indicou ela, tensa. – Parece-te bem?

– Gostaria de falar contigo.

Farah sabia que estava à espera de uma resposta sobre poder cortejá-la ou não, mas não estava de humor para enfrentar a sua reação quando se recusasse.

– Não tenho nada para te dizer por enquanto – informou ela.

– Espera por mim lá fora! – ordenou Amir, cerrando os dentes.

Ela sorriu para si. Nunca obedeceria às ordens dele!

Depressa, saiu da tenda. Lá fora, o vento sacudia o acampamento, mas o céu continuava limpo. Pelo menos, não parecia aproximar-se uma tempestade.

Decidiu não perder tempo a comer e dirigiu-se para a única tenda vigiada por guardas. Estava furiosa com o pai pelos seus atos e também estava furiosa com o príncipe, o filho do homem que devastara a sua vida para sempre ao ser o responsável indireto pela morte da mãe.

Mesmo assim, precisava de manter a calma para procurar uma maneira de tirar o pai daquela confusão antes de fazer algo ainda pior… como ouvir os conselhos de Amir.

Capítulo 3

Zachim retorceu as mãos e os pés atados com cordas. Doía-lhe o estômago de fome.

Normalmente, não era um homem fácil de zangar. Depois de três dias naquele buraco, nas mãos de uns selvagens da montanha, estava vermelho de raiva. E não era apenas por eles. Fora um estúpido por se afastar tanto da cidade sem dizer a ninguém para onde ia.

Esfregou as cordas dos pulsos contra a pequena pedra bicuda que escondera no colo. Apanhara-a do chão quando fingira cair ao ir à casa de banho no dia anterior. Como se recusara a comer, não lhe tinham revisto as cordas e, graças a isso, conseguira ir rasgando uma das cordas a pouco e pouco. Quando tivesse as mãos livres, seria mais fácil desatar os tornozelos e sair dali.

Apoiou a cabeça contra o poste sólido de madeira a que estava preso por uma corda à cintura. Permitia-lhe movimento suficiente para se deitar no chão poeirento, mas pouco mais. Sentia a falta da sua cama confortável no palácio! Era irónico, se pensasse que, há três dias, se sentira desesperado por sair dos seus muros.

Devia ter cuidado com o que desejava, recordou-se, com amargura.

Interrogou-se o que teria acontecido na sua ausência e como o irmão estaria a agir diante do seu desaparecimento. Também se questionou porque não ouvira nenhum helicóptero a sobrevoar a zona.

Fletindo os músculos duros, tentou ignorar a fome que o embargava. Estivera em situações piores durante o seu treino no exército, embora não desejasse que alguém passasse pelo que estava a passar naquele momento. Bom, talvez só Mohamed Hajjar e o seu ajudante pomposo que pensava que era mais importante do que um rei.

O som de passos na entrada da tenda fê-lo levantar a cabeça e esconder a pedra. Quando se abriu a porta, fingiu que estava a dormir, esperando que o deixassem a sós novamente o quanto antes.

Alerta, ouviu o som de passos a aproximar-se. Devia ser um soldado muito leve, pensou, um peso-pluma. Alguém que podia derrubar com facilidade, se fosse preciso. Além disso, pelo seu cheiro, parecia que estivera muito tempo com os camelos.

– Sei que não estás a dormir – declarou alguém, num tom suave e sensual.

Bolas, aquela voz não parecia a de um soldado, pensou, sentindo que o seu corpo reagia diante do estímulo. Devagar, Zachim abriu os olhos, vencido pela curiosidade. À frente dos seus olhos, elevava-se uma figura esbelta com calças de combate e uma túnica escura por cima de uns seios pequenos e intumescidos. Levantou o olhar para uma cara feminina que não sorria.

– E eu sei que não és um homem, embora uses roupas masculinas. Não sabia que Hajjar tinha mulheres entre os seus soldados.

– Quem eu sou não é importante.

Zachim observou-a com atenção. Era uma mulher de estatura pequena e bem proporcionada.

– Quero fazer um acordo contigo – declarou ela, depois de um longo silêncio.

«Um acordo?»

A raiva que Zachim sentira antes, momentaneamente eclipsada pela curiosidade, ressurgiu de repente.

– Não me interessa – indicou ele. Sabia que Nadir estaria à procura dele e, se não o resgatasse depressa, escaparia pelos seus próprios meios. Depois, faria Mohamed Hajjar pagar por o ter sequestrado.

– Ainda não ouviste o que te ofereço.

– Se querias chamar a minha atenção, devias ter vestido menos roupa – troçou ele, percorrendo-a com o olhar impassível. – Muito menos roupa. Possivelmente, nada, embora não tenha a certeza de que tenhas o que é preciso para despertar o meu interesse.

Era mentira, pois, por alguma razão, a estranha já despertara o seu interesse.

– O meu pai tem razão – replicou, indignada. – És um cão arrogante que não merece governar o nosso país.

– O teu pai?

Era Farah Hajjar? A filha de Mohamed? Ena, ena, que interessante, pensou Zachim, sorrindo ao ver como ela fazia uma careta, lamentando a sua precipitação impulsiva. O chefe dos seus captores enviara-a para o convencer com os seus encantos? Se era assim, ia ter uma deceção porque nunca gostara das mulheres de Bakaan. Preferia as loiras.

– Não pensei que o teu pai continuasse a considerar-se parte de Bakaan, é uma grata surpresa saber que é assim.

– Ele… – começou a dizer ela e fez uma pausa para se acalmar. – Se aceitares que a nossa região se separe de Bakaan, deixar-te-ei ir.

– Vais deixar-me ir? – troçou ele, com uma gargalhada.

Farah respirou fundo.

– A tua família já submeteu o nosso povo durante demasiado tempo – queixou-se ela, olhando para ele nos olhos.

Isso não era algo que Zachim pudesse discutir. Não aprovava o modo como o pai governara Bakaan e até considerara a opção de se rebelar contra ele.

– Eu não fiz nada às pessoas de Bakaan – afirmou ele. De qualquer forma, não podia deixar que a sua região se separasse do resto, porque as outras seguiriam o seu exemplo e o país acabaria desmembrado em pequenas tribos, incapazes de defender as reservas de petróleo sozinhas.

– Também não fizeste nada por eles – replicou ela. – Embora tenhas voltado para comandar o exército há cinco anos.

– E quando foi a última vez que o exército atacou a vossa tribo? – defendeu-se ele.

– Queres dizer que és o responsável pelo tempo de paz?

– Digo que, apesar de tudo o que dizes, foi o teu pai que semeou a semente da guerra com as suas ações. Não eu – indicou ele, vendo como a interlocutora empalidecia. – É algo que deves ter em conta, linda, antes de começares a fazer acusações ignorantes.

– Só achas que sou uma ignorante por ser mulher. Sei muito mais do que pensa, Alteza! – exclamou, pronunciando o seu título com todo o desprezo de que foi capaz.

– Uma mulher? Conheci doninhas que cheiravam melhor do que tu. Não penso que ganhasses nada a comercializar o cheiro. Não é nada atraente.

Lançou-lhe um olhar de ódio.

– Não tenho interesse em atrair-te.

Zachim quase se riu com o tom desafiante. Não conhecera nenhuma mulher que não tivesse querido parecer atraente. Bons genes, uma conta no banco considerável e o seu título real eram uma combinação irresistível para as fêmeas.

– Desata-me as mãos, pequena rebelde, e far-te-ei mudar de opinião – desafiou-a ele.

Cerrando os dentes diante do seu tom provocador, Farah estava prestes a dar uma resposta cortante quando a porta da tenda se abriu. O tenente de Al-Hajjar entrou com um prato de comida. O seu cheiro fez com que o estômago de Zachim se queixasse.

O recém-chegado ficou paralisado, obviamente surpreendido ao ver a filha de Mohamed.

– O que estás a fazer aqui?

– Posso encarregar-me disto – declarou ela, com frieza.

– Não, não podes.

Ambos começaram uma discussão entre murmúrios, que Zachim observou com avidez. Era óbvio que a mulher mantinha algum tipo de relação pessoal com o soldado. E que o homem estava, por alguma razão, aborrecido.

Pensativo, o cativo fixou-se no rosto de Amir. Parecia não gostar do que a mulher lhe dizia, ainda que, ao mesmo tempo, não tivesse recursos para se impor. Que idiota. A única coisa que ela precisava era de um bom beijo para mudar de ideias.

«Um bom beijo?»

Zachim surpreendeu-se com a ideia absurda. Desde quando era aceitável que um homem beijasse uma mulher para a submeter? E quem ia querer beijar aquela jovem raivosa e fedorenta?

Farto de prestar atenção à sua discussão, levantou os joelhos e continuou a esfregar as cordas.

Depressa, a mulher ganhou a discussão e tirou o prato de comida das mãos do soldado. Tentando obter mais tempo, Zachim provocou-o, perguntando onde deixara a vara. O soldado ficou rígido. A mulher raivosa também.

Ela virou-se como um gato selvagem, com os olhos a mostrar fogo e gelo.

– Vamos, Farah.

Quando a mulher se virou para o outro homem, Zachim sentiu pena do pobre tipo.

– Só tenta provocar-te – indicou ela.

Não era estúpida, observou Zachim, com admiração.

– É perigoso – avisou o soldado.

– E está preso – indicou ela, com impaciência. – Algo que não tenho planos de mudar.

– Que planos tens?

Fascinado com a tensão que havia no ambiente, Zachim parou de tentar rasgar a corda. Percebeu que a pergunta tinha um significado mais profundo do que parecia. Obviamente, a rapariga também percebeu, porque franziu o sobrolho.

«Quer ir para a tua cama, linda, se é que ainda não esteve lá», adivinhou Zachim, em silêncio.

– Dá-me cinco minutos para falar com ele – pediu ela, suspirando. – Encontrar-nos-emos na cantina.

Um pouco mais calmo, o soldado assentiu. Lançou um olhar assassino a Zachim antes de sair, enquanto Farah o via a ir-se embora com um ar pensativo.

– Tens problemas, gatinha? – perguntou Zachim, com descaramento.

– Cala-te. E não me chames assim.

– Pensei que querias que falasse.

Ela baixou o olhar para o prato que tinha na mão.

– O que quero é que comas.

– Não tenho fome – declarou, enquanto o barulho do seu estômago demonstrava o contrário.

– Qual é o sentido de morrer de fome?

– Que amável por te preocupares…

– Não me preocupo.

A sua atitude desrespeitosa começava a ser irritante para Zachim. Por um instante, desejou que ela se inclinasse à frente dele como prova de submissão.

– É melhor que o teu pai envie alguém com melhores dotes diplomáticos da próxima vez que quiser suplicar o meu perdão.

«Bolas», pensou Farah. No entanto, queria fazer com que aquele homem se inclinasse e se ajoelhasse à frente dela. Tanto que quase tirou a pequena adaga que tinha no bolso para o obrigar a fazê-lo. A atitude dele irritava-a.

Quanto ao seu olhar penetrante com brilhos dourados… Os seus olhos de leão diziam muito e nada ao mesmo tempo. Observava-a como se soubesse algo que ela ignorava. Com uma barba de três dias a sombrear-lhe o queixo, aqueles olhos davam-lhe um aspeto masculino e poderoso, apesar de estar preso ao chão. Fazia-a pensar numa cobra pronta para morder. Ou numa águia disposta a voar e despedaçar a sua presa. Usava uma camisa preta poeirenta que destacava os ombros largos e fortes, tal como as coxas que se adivinhavam por baixo das calças de ganga.

Farah vira as fotografias dele nas revistas e sabia que era muito atraente, mas, em carne e osso, era ainda mais impressionante. Embora isso não tivesse nada a ver com ela.

– Não vim para suplicar o teu perdão.

– Melhor – indicou, entrelaçando os seus olhares. – Porque, quando sair daqui, não tenciono perdoar.

Ela cerrou os dentes.

– Talvez precises de mais tempo para pensar em que situação te encontras – sugeriu ela, olhando para as cordas.

– Talvez.

O que tinha aquele homem que fazia com que não conseguisse parar de olhar para ele, interrogou-se Farah, irritada. Ficaram mais cinco minutos a entreolhar-se. Mas, no fim, ela rendeu-se. Aquilo não era um concurso.

– No entanto… – começou a dizer Farah e, de repente, reparou que ele apertava as mãos no regaço. Pensou que devia rever as cordas antes de se ir embora. A última coisa que queria era devolvê-lo ao palácio com chagas nos pulsos. – Não vais morrer enquanto eu estiver aqui.

– E eu que pensava que não tínhamos os mesmos planos – comentou ele, com um sorriso.

Era um homem perigoso, admitiu Farah, sentindo que todo o corpo se revolucionava ao vê-lo sorrir. A sua atitude serena, apesar de estar prisioneiro, demonstrava-o.

Decidida a não se deixar intimidar, baixou-se à frente do grande príncipe. Quando percebeu como ele a percorria com o olhar de cima a baixo, ficou paralisada, sem conseguir evitar que os mamilos endurecessem.

No meio de um silêncio tenso, apercebeu-se de que a respiração se tornara rápida e superficial e que sentia um formigueiro ardente por toda a pele. Não conseguia desviar o olhar dos lábios perfeitos do prisioneiro. E, possivelmente, ele apercebera-se, porque esboçou um ligeiro sorriso. Mais incomodada que nunca, deitou as costas para trás e pôs-lhe o prato à frente do nariz.

Zachim não olhou para o jantar. Os seus olhos continuaram fixos nos dela.

– Se queres assim tanto que coma, dá-me a comida à boca, gatinha selvagem.

«Gatinha selvagem?» O calor do seu tom não impediu que Farah se rebelasse. Mesmo preso e no chão, o príncipe ousava falar com um ar arrogante de superioridade.

– Não tenho nenhuma intenção de te dar de comer – avisou ela, furiosa.

– Bom, terei de me conformar com a fantasia – troçou, com um sorriso provocante.

Farah cerrou os dentes. Já deixara claro que não a considerava atraente, portanto, os seus comentários não podiam ser mais do que uma tentativa de se rir dela.

Por outro lado, no entanto, se alimentara camelos teimosos e poeirentos durante toda a sua vida, não podia haver muita diferença entre isso e alimentar aquele homem. De forma involuntária, pousou os olhos no seu corpo. Era difícil apreciar toda a magnificência do físico atraente naquela posição, embora a sua aura de poder e virilidade fosse inegável.

Depois, observou as suas mãos e a corda que o prendia pela cintura ao poste. Apesar da sensação de ameaça que lhe causava, não podia fazer-lhe nada enquanto estava amarrado daquela maneira, refletiu.

– Se te der de comer, comerás? – perguntou ela, erguendo o queixo com um arrepio de excitação.

O homem arqueou uma sobrancelha.

– Vais ter de te aproximar mais para descobrir.

Farah ignorou a forma como o coração acelerava com aquelas palavras. Era melhor acabar o quanto antes. Conforme se dizia, um homem com o estômago cheio ficava mais bem-disposto do que um homem faminto. Talvez assim fosse mais fácil toldar-lhe a razão.

Além disso, queria demonstrar algo. Não se tratava de mais do que de um jogo de poder e não queria que ele percebesse que a intimidava. Também não o fazia, exatamente, era apenas precaução instintiva ao aproximar-se de uma besta desconhecida.

Cerrando os dentes, Farah pôs os dedos no prato de carne. Quando se aproximou, o cheiro do príncipe misturou-se com o da comida. Em vez de cheirar como meias velhas, como teria sido de esperar, cheirava a homem, a suor e a calor.

Fazendo um esforço para sair da sua abstração, pegou numa porção de arroz e carne e inclinou-se para a frente para lha aproximar da boca.

Nessa posição, quase montada em cima dele, Farah não pôde evitar imaginar os dois nus e entrelaçados. Corada, baixou o olhar. Há um ano, vira numa revista a fotografia de uma mulher e um homem numa posição sexual. Então, sentira-se sobressaltada, mas nada comparável com a forma como se sentia naquele momento. Sempre pensara que o sexo era um meio para procriar, não para o prazer. Se era assim, porque é que a sua fantasia voara para aquela imagem da revista? Imaginou-o com tanta clareza que quase conseguia sentir o corpo musculado do príncipe por baixo dela e a pressão das suas costelas nas coxas. Imediatamente, um calor húmido apoderou-se dela.

Lutando para conter a reação animal do seu corpo, franziu o sobrolho ao ver que o cativo mantinha os dentes firmemente cerrados. Exasperada, levantou o olhar para os seus olhos, prestes a dizer todo o tipo de blasfémias, mas ele escolheu aquele momento para pôr a comida e os dedos dela na boca.

Assim que teve os dedos dentro da boca, Zachim percorreu-os com a língua. Ela sentiu o seu calor e a sua humidade e tremeu ao sentir outra onda de ardor líquido entre as pernas. Os mamilos endureceram. Nunca experimentara algo parecido. E não conseguia desviar o olhar dele.

Apenas consciente da sua própria respiração entrecortada, ficou hipnotizada com a forma como chupava e lambia os dedos, apesar de já não terem comida alguma. Então, ao perceber que estava apoiada nele, com os lábios separados por apenas escassos centímetros, corou e chegou-se para trás.

Antes de conseguir afastar a mão, no entanto, ele segurou-a pelos pulsos e lambeu-a entre dois dedos.

– Ainda tinhas um resto aí – murmurou o príncipe, num tom rouco.

Depois de a acariciar com a língua, deu-lhe uma dentada suave na palma.

Farah deixou escapar um gemido suave. Ele segurou-a pela cara, inclinando-se para ela, que se achava num estado delicioso de estupor. No entanto, no meio da sua abstração, uma voz de alarme ecoou na sua cabeça. A sua mão… Estava…

Meu Deus! Farah pousou os olhos nas mãos livres. Imediatamente, tentou afastar-se, deixando cair o prato de metal. Infelizmente, o homem precipitou-se sobre ela com a rapidez de um raio e deitou-a antes de conseguir defender-se.

Farah tentou gritar, mas ele empurrou-lhe o rosto contra o chão e cobriu-lhe a boca com a mão.

– Não, não. Não chames a cavalaria, linda.

Ela mexeu-se por baixo do corpo dele, sabendo que era inútil tentar escapar. Era um homem muito forte. E parecia cheio de raiva. Se não se tivesse deixado distrair pela sua masculinidade e pelas suas próprias hormonas, teria conseguido antecipar-se ao perigo, repreendeu-se.

Retorcendo-se, tentou chegar até à adaga que tinha na túnica. No passado, salvara-lhe a vida várias vezes contra serpentes e escorpiões. E aquele homem era o mais perigoso dos predadores.

Como se lhe tivesse lido o pensamento, o príncipe segurou-a pelos pulsos e imobilizou-os por cima da cabeça.

Irritada com a facilidade com que o fazia, Farah retorceu as mãos para o arranhar e, pelo menos, causar-lhe um pouco de dor.

– Isso, arranha-me, gatinha. Eu também o farei – sussurrou-lhe ele ao ouvido.

Depois de uma breve pausa diante da sua ameaça, deu-lhe um pontapé com todas as suas forças na tíbia, arranhando-lhe os pulsos ao mesmo tempo.

– Bolas! – exclamou ele, segurando-lhe as mãos com mais força e imobilizando-lhe as pernas com uma das dele. – Segue as minhas instruções e não te farei mal – prometeu.

Quem ia acreditar! A família dele passara séculos a magoar as pessoas de Bakaan. A tirania corria-lhe pelas veias, tal como o sangue que acabara de lhe fazer com o arranhão.

– Bolas, está quieta! – ordenou ele.

O seu tom rude obrigou-a a parar de se retorcer. Com um movimento rápido, pô-la de barriga para baixo e prendeu-lhe as mãos atrás das costas.

Com os olhos e o nariz cheios de areia, Farah virou a cara para não asfixiar. Foi então que percebeu que estava a tocar-lhe no traseiro. O medo deixou-a paralisada. Não iria…?

– Calma, gatinha selvagem – sussurrou ele, ao mesmo tempo que lhe mostrava a própria adaga. – Que adaga tão bonita. Teria sido ótima há alguns dias. Sabes como usá-la?

Se quisesse, podia demonstrar-lhe, pensou Farah, olhando para ele com desprezo. Embora não conseguisse falar enquanto lhe tapava a boca, podia tentar emitir algum som, pensou. Tinha de haver um guarda por perto e, certamente, ouvi-la-ia.

Retorcendo-se, gritou por baixo da mão dele. Imediatamente, tapou-lhe o nariz. Apesar dos seus esforços, não foi capaz de se libertar e cada vez tinha menos ar nos pulmões.

– Vamos fazê-lo assim. Afastarei a mão da tua boca e ficarás calada! – ordenou ele, quando, finalmente, ela ficou exausta.

Não tencionava obedecer-lhe, pensou Farah.

– Se não o fizeres, o guarda entrará e ver-me-ei obrigado a matá-lo com a tua adaga.

Então, ela ficou imóvel de medo. Uma coisa era arriscar a sua própria vida e, outra muito diferente, pôr em perigo a de outra pessoa.

O príncipe levantou-a com brutalidade.

– Assente se vais fazer o que te digo.

Capítulo 4

Durante um instante, Zachim pensou que teria de a deixar inconsciente, mas não queria fazê-lo. Para sair do acampamento, precisava que ela o guiasse para os cavalos sem atrair muita atenção.

Por sorte, a mulher ignorava como era indispensável para a sua fuga e assentiu. Devagar, ele afastou a mão. Ela cerrou os dentes, como se a tivesse magoado. Era provável que tivesse sido assim. Lutara como um gato selvagem e tivera de usar a força para a dominar. Era surpreendente que uma mulher tão esbelta e suave fosse tão forte. E a sua cara… Era muito bela. Ao olhar para ela, sentia vontade de se perder naqueles olhos castanhos. Uma tez suave e uns lábios carnudos completavam a imagem.

Durante a resistência, o keffieh que lhe cobria a cara caíra. Tinha o queixo erguido num gesto desafiante, como se tivesse vontade de o mandar para o inferno. No entanto, ansiava voltar a ouvir o gemido doce que escapara da boca dela quando lhe lambera os dedos.

«Mau momento para ter uma ereção, príncipe», pensou Zachim.

– Escondes mais armas? – perguntou ele, tirando a corda dos pulsos.

Mesmo na escuridão da tenda, Zachim conseguia adivinhar a sua fúria.

– Não vou dizer-te!

– Se não o fizeres, terei de te revistar.

– Não! – exclamou ela, imediatamente. – Não tenho.

Ele conteve a gargalhada diante da sua resposta desesperada e interrogou-se se tinha medo ou se temia a química inesperada que surgira entre os dois.

– Vamos.

– Não vou a lado nenhum contigo – declarou ela.

– Virás, sim. Vais tirar-me daqui e levar-me até onde estão os cavalos. Se alguém nos deter, dir-lhe-ás que me levas ao teu pai. Conduzir-me-ás a puxar esta corda e fingiremos que tenho as mãos atadas.

No silêncio que se fez depois, Zachim quase conseguia ouvi-la a pensar, debatendo-se para encontrar uma alternativa. Para lhe demonstrar quem mandava, agarrou-a pelo traseiro e apertou-a contra o seu corpo. Não podia deixá-la ir-se embora, pelo menos, até terem chegado aos cavalos.

– Dá o alarme e matarei qualquer pessoa que se aproxime.

A temperatura do deserto já baixara e o vento batia cada vez com mais força na tenda. Zachim não sabia se o acampamento de Mohamed Hajjar era muito afastado da civilização, mas intuía que a noite seria longa.

Inclinou-se para pegar num pedaço de corda, que pôs à volta dos pulsos. No meio da escuridão, teriam de se aproximar muito para perceber que não estava realmente preso. Só tinha de chegar até aos cavalos. É óbvio, teria preferido ter um veículo todo-o-terreno, mas nos três dias que passara prisioneiro, não ouvira nenhum motor à volta.

– Bom, minha pequena rainha caçadora, vamos.

– Não sou nada teu! – protestou ela, sem querer olhar para ele.

No entanto, Zachim percebeu que lhe tremiam os lábios. Apesar da sua integridade fingida, tinha medo. Era melhor assim, apesar de ele nunca ter ferido uma mulher na sua vida. Embora também fosse verdade que nunca antes lhe tinham dado razão para isso. As mulheres amavam-no e ele amava-as. Era um tipo de relação muito mais agradável do que aquela.

– Mexe-te! – ordenou ele e, segurando-lhe as mãos, apontou a adaga para o braço dela. – Devagar.

Quando ela levantou a porta da tenda, Zachim respirou fundo ao não ver o namorado por perto.

O guarda estava lá, no entanto, e aproximou-se imediatamente. Perguntou a Farah se estava tudo bem. Quando ela hesitou, o príncipe apertou-lhe a adaga afiada contra o pulso.

– Está tudo bem – mentiu ela.

– Terás de melhorar os teus dotes de interpretação, mas, por enquanto, vai ter de servir – sussurrou-lhe Zachim ao ouvido. Ao fazê-lo, encolheu-se quando um cheiro desagradável a camelo o envolveu.

– Não podes escapar. Aproxima-se uma tempestade.

Ele já se apercebera da tempestade. Ao percorrer o acampamento com o olhar, verificou que a maioria dos homens estava a comer à volta das fogueiras ou a prender as tendas contra o vento crescente.

– Eu sei. Isso ajudará.

Ela deteve-se de repente.

– Não vou fazê-lo.

– O teu pai chorará a tua morte, sem dúvida.

– Não vais matar-me.

Zachim apertou-se contra ela por trás.

– Não subestimes o que sou capaz de fazer. Esqueceste quem era o meu pai?

– Porco – acusou ela e cuspiu para o chão.

«Exatamente», pensou ele.

– Fico feliz por nos termos entendido. Agora, anda e, com sorte, nenhum dos teus homens morrerá.

Farah afastou as madeixas de cabelo que se tinham soltado enquanto lutava. Sem dúvida, aquilo só serviria para confirmar a opinião do pai sobre as mulheres. Naquele momento, até ela concordava que teria sido melhor ficar em casa. Fora a sua estupidez que a deixara naquela posição.

– Não te sintas mal por me ajudar a escapar – sussurrou o príncipe, como se lhe tivesse lido o pensamento. – Se fosse qualquer um destes homens, teria tido de o matar.

Esse pensamento não conseguiu consolar Farah. Cometera um erro que não sabia como o solucionar. Em vez de resolver as coisas como tencionara, só conseguira agravá-las.

Enquanto o vento frio lhe golpeava na cara, Farah esperou que algum dos homens que os rodeavam percebesse que alguma coisa estava mal. Mas, para além de olharem para eles, não fizeram mais nada. Confiavam nela. E ia defraudá-los, pensou, com os olhos húmidos de raiva.

– Para aqui.

Ao ouvir as palavras em voz baixa do príncipe, Farah apercebeu-se de que já tinham chegado até aos cavalos. Como se tivesse sentido a sua presença, o dela aproximou-se.

– Por Alá, é grande… – murmurou o príncipe, com um ar apreciativo.

O animal aproximou-se da dona, procurando a sua carícia.

– É teu?

Pelo seu tom de voz, ela adivinhou que ia roubá-lo. Empurrou o Raio de Lua pelo focinho para o afastar.

Ao mesmo tempo, um grito ecoou do outro lado do acampamento. Amir chamava-a.

Os gritos aproximavam-se cada vez mais, juntamente com os passos dos homens do pai a correr pela areia. O príncipe parou de fingir que estava preso e, antes de Farah conseguir reagir, segurou-a pela cintura e levantou-a no ar. Durante uma milésima de segundo, os seus olhares encontraram-se e ela pôde perceber um brilho de indecisão no dele. Mas só durou um instante. No instante seguinte, sentou-a no Raio de Lua, saltou atrás dela para a garupa e açulou o resto dos cavalos, fazendo-os sair do recinto em que estavam.

Num abrir e fechar de olhos, o Raio de Lua corria a todo o galope. A única coisa que Farah pôde fazer foi agarrar-se às suas crinas, enquanto o príncipe a rodeava por trás para pegar nas rédeas, guiando-os para a noite escura do deserto.

Horas depois, molhados, sujos e cansados, pararam para deixar descansar o cavalo. Farah teria caído da sua garupa se não fosse porque Zachim a segurava com força pela cintura, colando-se contra ela com o seu peito nu.

Há algumas horas, quando a tempestade os surpreendera, o príncipe parara por um instante, tirara a t-shirt e prendera-a à volta dos olhos e do focinho do cavalo, para o proteger da areia. Depois, cortara um pedaço da parte inferior da túnica de Farah e rasgara-o em dois, para proteger as caras de ambos.

Magoada e com areia em cada milímetro do corpo molhado e frio, Farah levantou o olhar e viu, com alívio, que tinham parado à frente de uma gruta onde podiam proteger-se.

O príncipe desmontou e puxou-a sem cerimónias para a conduzir, juntamente com o cavalo, para o refúgio. Era um lugar muito pequeno, mas, por sorte, não deixava entrar o vento.

Devagar, Farah tirou o pano que lhe cobria a cara. Tentou sacudir a areia do corpo, mas estava tão molhada que era impossível. Portanto, virou-se para o Raio de Lua para lhe massajar as patas duras. Atrás dela, ouviu que o seu raptor sacudia um pouco de roupa e pensou que teria tirado a t-shirt da cabeça do cavalo. Devia ter o peito dorido, depois de ter cavalgado com a pele nua no meio da tempestade, pensou.

– Obrigada – agradeceu ela.

– Porquê? – perguntou ele, atrás dela, sobressaltando-a com a sua proximidade na escuridão da gruta.

– Por protegeres o meu cavalo.

– Se tivesse morrido, nós também morreríamos.

Muito bem, portanto, não o fizera por compaixão, mas pelo seu próprio interesse, pensou ela. Quando ia afastar-se, ele segurou-a pela cintura.

Furiosa por ele se atrever a tocar nela, empurrou-lhe as mãos com um grito de aviso.

– Disse-te que não tenho mais armas.

– Onde está o teu telemóvel?

– Porque haveria de ter telemóvel? A nossa aldeia não tem rede – indicou ela, sem conseguir evitar sentir-se intimidada pela sua proximidade, a sua força e o seu tamanho.

Zachim praguejou e afastou-se.

– Praguejar não te ajudará – avisou ela, com uma gargalhada trocista. – Tu é que tens a culpa, pois o teu pai não quis gastar dinheiro em infraestruturas para o seu país, apenas para ele próprio – acrescentou e cobriu os braços com as mãos, tiritando de frio.

Ignorando o seu sarcasmo, Zachim tirou a manta ao cavalo.

– O que estás a fazer?

– Precisas mais dela do que ele.

– Vai ficar gelado.

– Não. Tem uma camada grossa de pelo e está praticamente seco. Nós não.

Farah não pôde reprimir outro calafrio. O vento soprava na entrada da gruta. Demasiado cansada para discutir, deixou-se cair de joelhos ao chão.

– Estás muito perto da entrada. Anda cá.

– Estou bem.

– Não foi uma sugestão – sussurrou ele, tão perto que a fez tremer.

– Estou demasiado cansada para discutir – admitiu ela. – Deixa-me em paz.

– Como o teu pai me deixou em paz?

Farah fechou os olhos. Não queria pensar que se encontravam naquela situação por causa da imprudência do pai.

– Não te disse que estou demasiado cansada para…! Eh! O que estás a fazer? Deixa-me no chão!

– Eu também estou cansado. Estou faminto e zangado, portanto, não ponhas a minha paciência à prova porque a perdi quando, há três dias, o teu pai se recusou a libertar-me. Não teve a coragem de me enfrentar cara a cara desde então.

– O meu pai não é um covarde!

– Não? – replicou ele, deixando-a no chão com suavidade. – Portanto, justificas as suas ações? És uma cúmplice?

Quando Zachim se sentou ao seu lado, Farah virou-se imediatamente para se afastar, mas ele segurou-a pelo braço. Depois, rodeou-a pela cintura com o outro braço e deitou-a de lado. Ele deitou-se atrás dela, apertando-se contra as suas costas.

– Não tenciono dormir contigo!

O príncipe pôs a manta por cima deles.

– Não. Vais dormir ao meu lado. Há muita diferença, habiba. E asseguro-te de que não estás convidada para fazer amor.

Farah sentiu raiva diante da sua arrogância.

– Mas só há uma manta – continuou ele, apertando-se ainda mais contra ela. – E, como não consegues parar de tremer, temos de partilhar o nosso calor corporal. Relaxa e tudo será mais fácil.

«Relaxar?» Farah não teria estado mais tensa se lhe tivesse apontado uma pistola à cabeça. Há muito tempo que não estava tão perto de uma pessoa e o seu contacto estava a começar a incomodá-la.

– Isto não está bem.

– Mas sequestrar o teu príncipe está bem.

– Tens de ter sempre a última palavra?

– E tu?

Recusando-se continuar a discussão, Farah enrolou-se, tentando pôr distância entre os dois. Era melhor fingir que ele não estava ali. Imaginaria que estava sozinha, em vez de entre os braços do pior inimigo do pai.

Finalmente, adormeceu. Graças a Alá. Quando parara de tremer, começara a mexer-se à frente dele, tentando encontrar a posição. Zachim tivera de lhe pôr uma mão na anca para fazer com que ficasse quieta e parasse de lhe esfregar o traseiro contra a ereção dolorosa. Não quisera que ela soubesse como o excitava.

O príncipe sabia que a sua reação só se devia a ter passado muito tempo sem estar com uma mulher. Possivelmente, a sensação de perigo aguçara os seus sentidos. Fosse o que fosse, não tencionava render-se ao desejo. Não era o tipo de homem que perdia a cabeça por alguém.

Suspirando, tentou ficar confortável. A mulher gemeu em sonhos como um gatinho com um pesadelo. Sem dúvida, tinha razões para estar assustada, pois esperava-a uma pena da prisão de, pelo menos, vinte anos. Então, ela colou-se um pouco mais a ele, distraindo-o dos seus pensamentos. Por um instante, pensou em pôr-lhe o braço por baixo da cabeça, para que estivesse mais confortável, mas decidiu não o fazer. O que importava que a filha do seu captor estivesse confortável? Bom, era verdade que lhe dera de comer antes, mas… Bolas! Só de recordar como lhe pusera os dedos na boca, deu por si a imaginar o corpo nu dela. Percebera a excitação nos olhos dela quando lhe chupara os dedos. Ela não conseguira esconder o seu desejo. Igual ao que o possuía. Novamente.

Zachim interrogou-se se seria a namorada do soldado arrogante com quem discutira. Era óbvio que o outro homem gostaria. A tensão que houvera entre ambos fora óbvia. Embora o soldado fosse, sem dúvida, um imbecil. Se ela fosse a sua mulher, nunca a teria deixado sozinha numa situação perigosa. Por sorte, no entanto, não era a sua mulher.

A jovem tiritou e encolheu-se um pouco mais. Devia ter frio, adivinhou o príncipe. Tal como ele. Tinha frio, fome e sentia os braços e o peito em carne viva por causa da forma como a areia e a chuva o tinham castigado durante a tempestade.

Mais valia que Farah Hajjar não lhe desse problemas de manhã, porque estava de muito mau humor.

Capítulo 5

– Acorda, Zenóbia, está na hora de nos pormos a caminho.

Sonolenta, Farah abriu os olhos. O empurrão que sentira no traseiro procedera do pé do príncipe. Cerrou os dentes quando ouviu que a chamava pelo nome de uma rainha caçadora do império romano. Embora, na verdade, fosse uma caçadora e tencionasse demonstrá-lo.

– Se me devolveres a minha adaga, dar-te-ei o mesmo que Zenóbia deu a Probo.

Enquanto se sentava e esfregava os olhos, percebeu que o seu captor a observava, surpreendido.

– Ah, lamento. Tenho de fingir que sou uma campónia inculta que não sabe tanto como o seu grande príncipe com um curso universitário?

– Dois cursos.

– Oh, desculpa!

– Então, tens estudos?

– Sou autodidata, não graças à educação que a tua família prodigaliza entre os habitantes do seu reino – queixou-se, com desprezo. – Mas, por muito que o teu pai tenha tentado manter-nos incultos, temos mais recursos do que pensas. Sobretudo, quando…

Farah interrompeu-se de repente. Quase lhe contara que alguém do governo andava a distribuir livros e remédios de contrabando entre as tribos do deserto. Se descobrisse, o príncipe tê-lo-ia despedido ou talvez o matasse.

– Quando o quê? – perguntou ele, observando-a.

– Tanto faz. Porque me deste um pontapé?

– Não te dei um pontapé. Foi um empurrãozinho – defendeu-se, num tom sensual. – Na tua fantasia, eu não seria Probo, mas Aureliano.

Aureliano capturara Zenóbia e acabara por se apaixonar. Ela deu um salto diante da sua arrogância.

– Isso era o que querias…

Quando Zachim parou à frente dela, Farah observou as suas botas poeirentas e o modo como as calças de ganga se ajustavam às pernas, compridas e musculadas.

– Raptei-te, não foi?

Incomodada, Farah levantou o olhar com um ar desafiante quando, de repente, algo negro e brilhante se mexeu ao seu lado no chão. Ela gritou e o escorpião escondeu-se num buraco.

– Não te mexas – avisou Zachim, depois de a levantar do chão, segurando pelos braços. Procurou à volta antes de a soltar. – Foi-se embora.

Mas Farah sentiu algo no ombro e voltou a gritar.

– Há mais! Há mais!

– Não, não há nada – tranquilizou-a o príncipe, segurando pelos braços para a acalmar. – É a tua imaginação.

– No meu cabelo! – gritou ela. – Estão no meu cabelo! – repetiu. Era um desses medos irracionais que arrastava desde a infância, desde que a mãe morrera.

Com um suspiro exagerado, o príncipe afastou-lhe as mãos da cabeça e obrigou-a a virar-se.

Os olhos de Zachim procuraram entre as madeixas de cabelo embaraçado, comprido, grosso e cheio de areia. Devagar, verificou que não havia nenhum escorpião.

– Não há nada.

– Sim. Consigo senti-lo… – repetiu ela e, tremendo, virou-se para ele. Tinha os olhos húmidos de lágrimas e o mais puro terror desenhava-se no seu rosto.

Sem conseguir conter-se, ele sentiu o impulso de a proteger e consolar. Afastou-lhe o cabelo da cara e ficou atrás dela para lhe desfazer a trança. Sem se aperceber, surpreendeu-se a observar a pele escura e suave do seu pescoço.

Recordando-se que era a filha do inimigo, tentou ignorar a textura sedosa do cabelo, enquanto o penteava com os dedos. O corpo respondeu imediatamente com outra ereção poderosa. Devia concentrar-se em voltar a casa, não em salvar a inimizade dos escorpiões do deserto.

Com brutalidade, fê-la virar-se.

– Não tens nada.

Olhou para ele com os olhos castanhos e os lábios entreabertos.

O tempo deteve-se enquanto Zachim se imaginava a fazer todo o tipo de coisas àqueles lábios, começando com a boca e acabando com… Sentiu um arrepio.

Bolas, pensou o príncipe, dando um passo atrás.

Farah ficou rígida, enquanto o seu raptor agarrava nas rédeas do Raio de Lua. Tentou afastar o estado letárgico que a invadira quando ele lhe tocara e pousara os olhos na sua boca como se fosse um pêssego maduro e não pudesse esperar para lhe fincar os dentes. Durante um momento tenso, pensara que ia beijá-la. E envergonhava-a admitir que ela o desejara. Como podia sentir-se assim com um homem que devia evitar a todo o custo?

– Precisa de água – indicou ela, olhando para o cavalo.

– Água e comida – admitiu ele. – Mas não penso que possamos encontrar nenhuma dessas coisas entre estes penhascos – acrescentou, dando uma palmada no lombo ao animal. – É um cavalo lindo. Como se chama?

– Raio de Lua.

Uma gargalhada quente ecoou na gruta.

– Devias tê-lo castrado quando lhe deste o nome. Assim, teria sido mais fácil lidar com algo parecido.

– És odioso.

– Quando quiser a tua opinião, pedir-ta-ei – declarou ele, com um ar sério. Depois, entrelaçou os dedos e estendeu-lhe as mãos para a ajudar a montar. – Põe o pé aqui.

– Não tenciono ir contigo! – exclamou ela. «Deve estar louco para pensar que sim, o arrogante e odioso», pensou.

– Está bem – acedeu ele, endireitou-se e montou no Raio de Lua.

Um instante.

– O que estás a fazer?

– Vou-me embora.

– No meu cavalo, não – negou ela, agarrando as rédeas. Não podia deixá-la ali, sem maneira de voltar a casa. – Bolas, porque tiveste de aparecer na minha vida?

– Eu faço-me a mesma pergunta. Agora, monta ou vou deixar-te aqui para que os escorpiões te comam.

Farah quis mandá-lo para o inferno, mas sabia que não podia. Ainda não.

– Desta vez, eu irei atrás – comunicou ela. Não tencionava deixar que cavalgasse com os seus braços a rodeá-la outra vez.

– Não me importo se queres montar de cabeça. Despacha-te.

Era um erro e ela sabia, mas não tinha muitas opções. O príncipe voltara a embrulhar o rosto com o pedaço de tecido que lhe arrancara da túnica e, apesar de estar sujo, tinha um aspeto imponente. No entanto, quando os seus olhares se encontraram, lançou-lhe todo o desprezo que pôde com os olhos.

Com um ar pétreo, ele estendeu-lhe uma mão e montou-a na sela como se pesasse menos do que uma pena.

Infelizmente, montar atrás dele não a fez sentir-se melhor do que ir à frente, porque tinha de se abraçar com força às ancas dele para não cair.

Horas depois, conseguiram chegar a uma aldeia, exatamente quando Farah pensava que ia desmaiar de fome e cansaço. Aquela tribo vivia muito longe da dela, por isso deviam ter percorrido uma longa distância durante a noite.

Quando Zachim se apresentou como um homem perdido na tempestade com a sua empregada, ninguém pôs a sua versão em dúvida.

Uma empregada!

Farah teve de morder a língua para não dizer nada.

O chefe da tribo prometeu-lhes que guardaria o Raio de Lua até voltarem e, depois de engolir uma montanha de comida, o príncipe pediu-lhes um todo-o-terreno e pôs-se a caminho. Conduziu durante toda a tarde e a noite, parando apenas para fazer uma sesta. No entanto, ela dormiu durante o caminho todo.

Quando acordou mesmo antes do amanhecer, à frente dos seus olhos erguia-se a cidade de Bakaan. Visitara-a uma ou duas vezes quando era criança, mas esquecera como era grande e povoada. Mesmo sendo tão cedo, as suas ruas estavam cheias de carros, bicicletas, bois e uma enchente de pessoas. No topo de uma colina, o palácio Shomas erguia-se com a sua beleza fascinante. Os guardas abriram as suas portas quando o príncipe se identificou.

– O que tencionas fazer comigo? – perguntou ela, fazendo um esforço para esconder o temor que sentia.

Ignorando-a, Zachim conduziu até às escadas de mármore da entrada. O pátio estava cheio de atividade de empregados que iam de um lado para o outro. Farah ergueu o queixo e observou-o sem se incomodar quando o príncipe pousou os seus olhos de leão nela.

Ela esperava que a deixasse ir-se embora. Rezou para que ele quisesse esquecer o que acontecera.

– E então? Vais dizer-me alguma coisa ou não?

– Sim, vou dizer-te alguma coisa – acedeu, com um sorriso pintado de amargura. – Vou usar-te como isco.

Furiosa, Farah tentou resistir quando o príncipe a arrastou pelos corredores compridos e opulentos, mas foi em vão. Os empregados que encontravam pelo caminho inclinavam-se à frente deles e não mostravam sinais de estranheza ao ver o seu senhor a puxar uma mulher pelo braço.

O interior de palácio era ainda mais grandioso do que o exterior. Farah não pôde evitar admirar os tetos abobadados em tons azuis, verdes e dourados. O sol que entrava pelas janelas altas refletia-se no chão de mármore.

Saindo da sua abstração momentânea, parou.

– Não podes fazer isto.

É óbvio, o príncipe não respondeu ao seu protesto. Embora parasse à frente de uma porta gigantesca de madeira esculpida. Ignorando a sua prisioneira, virou-se para dos dois guardas que os tinham seguido.

– Não quero que entre nem saia ninguém, entendido?

– Sim, Alteza – responderam os guardas em uníssono.

– Não deixarei que me uses dessa maneira – avisou ela, enquanto a empurrava para o quarto.

Como única resposta, Zachim deu uma gargalhada arrogante.

– Não tens motivos para me deter.

Então, ele virou-se e olhou para ela com um ar ameaçador.

– Não preciso de um motivo.

– Sim. A tua palavra é a lei, não é?

– É verdade – confirmou ele, parando à frente para olhar para ela nos olhos. – Olho por olho e dente por dente. Não é isso que o teu pai diz?

Infelizmente, o pai agarrava-se àquela visão cínica do mundo, sim. Mas Farah, não.

Então, o príncipe falou com uma empregada que entrara no quarto atrás deles. Quando Farah aproveitou para olhar à volta, deu um grito abafado.

– Oh… Isto é o harém?

– Como adivinhaste? – replicou Zachim, num tom trocista. – Pelos querubins pintados nas paredes ou pela grande banheira de mármore no centro da sala?

– Não vou ficar aqui.

– Não? Tenho de admitir que a decoração é um pouco antiga, mas tenciono reformá-la em breve. Talvez gostes mais então – comentou ele, num tom insolente, arqueando uma sobrancelha.

– Não ficarei o tempo suficiente para o ver.

– Não tenhas assim tanta certeza – indicou ele e tapou o nariz. – Certifica-te de que toma banho! – ordenou à empregada.

Farah estava furiosa. Se achava que ia poder tratá-la como uma marioneta, enganava-se. Não ia ficar naquele quarto horrível à espera que o pai fosse buscá-la. Se conseguisse escapar, fá-lo-ia.

O seu silêncio devia ter delatado os seus pensamentos, porque o príncipe esboçou um sorriso malicioso.

– Quase consigo ouvir-te a pensar. Se pensaste em tentar escapar, não te aconselho.

Ela ergueu o queixo. Ele aproximara-se e os seus rostos estavam separados apenas por escassos centímetros. Era impossível não se aperceber de que o príncipe tinha os olhos fixos nos seus lábios. Durante um instante, pensou que ia beijá-la e ficou com falta de ar. Mas Zachim deu um passo atrás. Lentamente.

Raivosa por ter ficado à espera, em vez de o ter afastado, Farah lançou-lhe um olhar de ódio.

– É uma sorte que não tenha de seguir os teus conselhos.

Em troca, recebeu um olhar frio, como se ele adivinhasse o que a fazia sentir.

– Tenta e verás o que acontece.

Claro que Farah ia tentar. Queria fazer isso e muito mais. Para sua frustração, a sua temperatura não parou de subir quando ele chegou à porta, se virou e a observou de cima a baixo.

– E queima essa roupa que usa! – ordenou à empregada. – Não há sabão no mundo que possa tirar esse cheiro.

Ao sair do quarto, Zachim interrogava-se o que ia fazer com aquela gata selvagem, pois sabia que ia dar-lhe mais problemas do que outra coisa, quando Staph correu para ele.

– Alteza, descobri que voltou. Estávamos muito preocupados.

Zachim fez uma careta. Precisava de tomar banho, mudar de roupa e encontrar o irmão, nessa ordem.

– Já voltei – afirmou, dirigindo-se para os seus aposentos. – Onde está Nadir?

– A preparar o casamento.

O príncipe ficou petrificado.

– O quê?

– O casamento, Alteza. Vai casar-se com a amante, Imogen, hoje.

Naquele mesmo dia!

Bom, isso explicava a atividade extraordinária que encontrara no palácio.

Esquecendo o duche, Zachim mudou de rumo para procurar o irmão. Finalmente, encontrou-o com um bebé pequeno ao colo que devia ser a filha. Ao vê-lo, ficou pensativo por um instante. Como era possível que o irmão estivesse a desfrutar de uma família, o que ele sempre quisera para si próprio, enquanto só conseguia pensar em ir para a cama com uma mulher completamente inapropriada? A ironia da situação era evidente. Tentou recordar o rosto de Amy e a mensagem recente que lhe enviara, mas a cara de Farah Hajjar era a única coisa que tinha na cabeça.

– Onde estiveste? – repreendeu-o Nadir. – Tens de explicar muitas coisas.

– Ah, sim? – replicou Zachim, arqueando uma sobrancelha. – Obrigado por te preocupares com salvar-me.

O irmão franziu o sobrolho.

– Tens um aspeto horrível. O que se passou?

Não era o momento para entrar em detalhes, portanto, Zachim encolheu os ombros.

– Em resumo, dir-te-ei que tive um encontro desagradável com uma das tribos rebeldes das montanhas.

– Ena! E eu que pensava que tinhas fugido com uma mulher.

Zachim riu-se, embora não conseguisse evitar recordar como Farah o agarrara pela cintura quando tinham percorrido o deserto a cavalo. Surpreendera-se com a força dos braços dela e a sensação embriagadora de sentir os seios pequenos nas costas.

– Suponho que, tecnicamente, tenha sido o que fiz. Embora mais do que uma mulher, pareça uma gata selvagem. Acabei de a fechar no harém.

Nadir arqueou as sobrancelhas, sem acreditar no que ouvia.

– Não é a situação mais conveniente para o dia do teu casamento, mas a verdade é que ignorava que ias casar-te.

Nadir observou-o como se o irmão tivesse enlouquecido.

– Tens uma mulher fechada no harém?

– Farah Hajjar, para ser exato.

– A filha de Mohamed Hajjar!

– A própria.

Nadir praguejou.

– Hajjar vai cortar-te a cabeça por isso.

– Já quase o fez.

– Por todos os diabos… – começou a dizer Nadir. – Não estarás noivo dela?

Zachim deu uma gargalhada cínica.

– Não o faria nem que estivesse louco. Esse bebé que tens ao colo é a minha sobrinha?

– Estás a mudar de assunto.

– Sim – confirmou Zachim, com um sorriso. – É muito bonita.

– Eu sei – afirmou Nadir e abanou a cabeça. – Não tenho tempo para entrar em mais detalhes. Estás bem?

– Não graças a ti! – protestou Zachim.

– Isso vai ensinar-te a não desaparecer sem avisar – replicou o irmão mais velho, num tom de reprimenda.

– Vem conversar comigo enquanto me arranjo um pouco – convidou-o Zachim, sorridente.

– Não posso.

– Porquê? Faltam horas para o casamento.

– Sim, mas… – disse Nadir, com ar distraído. – Toma, segura a tua sobrinha e comecem a conhecer-se.

Nadir deu-lhe a pequena de olhos grandes, que se aninhou imediatamente nos braços do tio.

Ao ver a expressão do irmão, Zachim riu-se.

– Eh, não te surpreendas tanto. Gosto muito de crianças. São como os cavalos e as mulheres… Deves segurá-los com cuidado e não fazer nada para os zangar. Não é assim, habibti?

Então, Zachim pensou na mulher que acabara de deixar no harém. Não a tratara com muito cuidado. A verdade era que não estivera de bom humor para o fazer. Ela parecia mais uma doninha do que uma mulher… À exceção daqueles seios e daqueles lábios tão suculentos.

– Não deixes que se magoe com a tua barba. Se chorar, leva-a a Maab.

Zachim sorriu para a sobrinha, que estava a tocar-lhe no rosto.

– Onde vais estar? – perguntou o príncipe ao irmão, mas Nadir já estava a sair pela porta. Quase o avisou de que dava azar ver a noiva no dia do casamento, mas deixou-o estar.

A menina olhou para ele com os olhos esbugalhados, um pouco assustada por ter ficado com um estranho. Mas ele não se acovardou e esboçou um sorriso tranquilizador. Se as mulheres e os cavalos o adoravam, porque é que uma bebé não o faria?

– Portanto, os teus pais vão casar-se, pequena. Um grande passo. Estás contente?

A menina riu-se quando o tio lhe acariciou a cara.

– Fantástico. Então, eu também estou.

Depois de um instante, quando a pequena começou a inquietar-se, Zachim levou-a a Maab.

– Penso que tem fome.

A velha ama sorriu, pegou na menina ao colo e franziu o nariz ao cheirar o príncipe.

– Eu sei, eu sei. Tenho de tomar banho – replicou ele. Também precisava de comer.

Nos seus aposentos, ordenou que lhe servissem a comida depois de tomar o duche. Interrogou-se se a gata selvagem teria fome. Como dissera o irmão, não era muito apropriado ter uma mulher prisioneira no harém. A verdade era que não tinha um plano, nem sabia o que ia fazer com ela, mas pensaria nisso noutro momento. Certamente, não tencionava avisar a polícia e, muito menos, no dia do casamento do irmão.

Não, Farah teria de esperar. Ele não agira mal, fora o pai dela que o enfrentara. Sem dúvida, o velho ficaria furioso quando descobrisse que a raptara. Mas, se Mohamed aceitasse entregar-se, libertá-la-ia.

«Olho por olho.»

Essa fora a forma de pensar do pai, não a dele. No entanto, estava tão furioso que não se importava. Ter estado prisioneiro durante três dias e ter tido de atravessar o deserto no meio de uma tempestade fizera com que a sua lógica racional se dissipasse. O seu desejo de pôr as mãos em cima da filha de Mohamed Hajjar também não era nada racional. Sem conseguir evitá-lo, interrogou-se como cheiraria depois do banho. Uma fantasia excitante invadiu a sua mente. Os dois nus e molhados, enquanto ele a devorava.

Por Alá, aquela mulher não era o seu tipo.

No duche, Zachim refletiu que, possivelmente, podia encontrar uma mulher que o acompanhasse ao casamento. Com sorte, haveria alguma entre as convidadas, pensou. Talvez conhecesse alguém que quisesse partilhar uma noite de paixão. Ele sabia que podia agradar a qualquer mulher. Com trinta e dois anos, desfrutava de uma libido muito saudável. Embora a tivesse deixado desatendida durante muito tempo. O seu recente celibato era a única coisa que podia explicar tanta obsessão por Farah Hajjar.

Zachim fechou a torneira do duche e sacudiu o cabelo. Não ia voltar a ver Farah quando tudo aquilo acabasse. E isso era bom, pensou, enquanto se vestia e se concentrava no casamento do irmão.

Quando estava vestido e preparado, Staph bateu à porta.

– Príncipe Zachim! – gritou Staph, aparecendo à porta com desespero. – Tem de vir depressa. A mulher do harém desapareceu!

– Desapareceu? – repetiu Zachim, paralisado. – É impossível. Deixei dois dos meus melhores guardas à porta.

– Sim, senhor. Não conseguimos encontrá-la – indicou o idoso, ofegante.

Perplexo, Zachim disse uma enxurrada de blasfémias e dirigiu-se para o harém.

Capítulo 6

Farah deteve-se dentro de uma porta escondida nas sombras para respirar fundo e decidir que caminho seguir naquele labirinto de ruas e edifícios. Ao princípio, pensara que não era possível escapar, mas, no fim, fora muito fácil.

Um pedreiro esquecera-se de uma escada extensível no jardim, o que lhe bastara para escalar o muro do palácio. Além disso, os preparativos de alguma celebração tinham-na ajudado a camuflar-se entre tantos empregados.

Observando a posição do sol, decidiu dirigir-se para norte e começou a andar em ziguezague entre o mar de corpos que a rodeavam.

Olhando para a direita e para a esquerda, correu por um pequeno beco com edifícios altos aos lados e chegou a uma pequena praça. Tapou a cara com o lenço que tinha na cabeça e acelerou o passo, enquanto um mau pressentimento a assaltava.

– Está uma tarde muito quente para sair para passear, menina Hajjar – comentou alguém, num tom profundo.

Ao virar-se, Farah reconheceu ao príncipe à espera dela no beco.

– Prefiro ficar em casa nas horas de calor.

Encontrara-a! Como era possível? Farah tinha a certeza de que ninguém a vira a ir-se embora. Dissera à empregada que ia dormir. Frustrada, viu como ele a observava com um ar tranquilo, como se fossem dois velhos amigos que se encontravam por acaso. No entanto, eram inimigos acérrimos e ela não o esqueceria, por muito sedutora que fosse a sua boca, sobretudo, depois de ter tomado banho e se ter barbeado.

Por Alá, estava muito bonito!

Algo se acendeu entre as pernas de Farah, ao mesmo tempo que a respiração acelerava. Aquele homem despertava coisas dentro dela a que preferia não dar nome.

Ele estava vestido com uma túnica preta e, apesar de estar limpo, não parecia mais civilizado do que no deserto. Era o arquétipo do poder masculino e atraía-a imenso.

Furiosa, tirou a espada que escondera nas dobras da túnica.

– Mais um passo e lamentarás.

– Não me digas? – replicou ele, arqueando uma sobrancelha com um ar trocista.

A sua insolência era insultante. Farah sabia que não podia vencê-lo em combate, pois era muito alto e muito forte. No entanto, talvez pudesse fazê-lo recuar por um momento, o suficiente para fugir e desaparecer entre as ruelas.

Em qualquer caso, não tencionava render-se.

– Pousa a espada, Farah! – ordenou ele, com suavidade.

Ela mexeu os dedos no punho da espada. A forma como pronunciava o seu nome naquele tom tão viril e sensual fazia a sua temperatura subir.

– Não.

– Pensava que eras inteligente, minha pequena Zenóbia. Vais demonstrar-me que me enganava?

Farah treinara-se para a luta com alguns dos homens do pai, até Mohamed o ter proibido. Depressa lhe tiraria a vontade de se rir.

– Escapei, não foi? – perguntou ela, com ferocidade.

Ele cerrou os dentes. Ainda bem. Um homem furioso cometia mais erros do que se estivesse tranquilo, pensou ela.

– Os meus guardas encontraram-te – observou ele, olhando para a lâmina da espada.

– Os teus guardas são uns inúteis. Duvido que conseguissem encontrar um grão de areia no deserto. Talvez lhes falte treino.

Quando Zachim voltou a cerrar os dentes, ela quase sorriu ao verificar que conseguia irritá-lo tão facilmente. Ele tivera sorte quando a apanhara no acampamento. Mas, daquela vez, não seria tão afortunado.

– Não é boa ideia provocar um leão furioso – avisou ele, num tom rouco.

Um calafrio percorreu Farah diante da sua ameaça.

– Se for verdade que os teus homens me localizaram, porque não me prenderam?

– Ordenei-lhes que não o fizessem.

– Porquê? – perguntou ela, ficando tensa ao ver que ele começava a aproximar-se.

Farah interrogou-se porque a praça atrás dela estava tão silenciosa, embora não desviasse os olhos do príncipe. Naquele momento, nada era mais perigoso do que aquele homem. Levantou a espada, preparando-se para a luta.

– Temias que os magoasse?

– Não – negou ele, rodeando-a pela direita. – Temia que te magoassem – acrescentou. – Deixa a espada. Não podes ganhar esta batalha.

Ela não disse nada. Pelo canto do olho, captou movimento no terraço do edifício que tinha ao lado. Portanto, não estavam sozinhos.

– Precisas de ajuda para desarmar uma mulher, príncipe Zachim? – troçou Farah.

– Penso que já demonstrei que não, gatinha.

– Sim! Foi apenas sorte. Apanhaste-me desprevenida.

– A sério? – perguntou ele e pousou os olhos nos seus lábios, como se soubesse exatamente o que a distraíra da primeira vez. – E quem diz que não voltará a acontecer?

– Eu – afirmou ela, sentindo-se humilhada pela atração que não conseguia evitar. – Sei que tens uma espada. Tira-a ou afasta-te do meu caminho.

– Não vou lutar contigo.

– Tens medo?

Ele sorriu.

– Deixa-o. Ambos sabemos que não podes vencer-me.

Farah susteve a respiração. Aborrecia-a que ele estivesse tão seguro de si próprio. Com todas as suas forças, desejou poder fazer com que o grande príncipe do Bakaan se inclinasse à frente dela.

– Posso fazer-te correr – ameaçou ela e esgrimiu a espada no ar, testando o seu peso e o seu equilíbrio.

– Gostaria de o ver – respondeu ele, com um sorriso.

Então, mexendo-se com uma velocidade incrível, Zachim desembainhou a sua espada.

Sem hesitar, ela carregou contra ele. Os metais chocaram e ecoaram no beco. Finalmente, a adrenalina do combate permitira-lhe esquecer o medo e a tensão que sentira antes. Concentrou-se em procurar um ponto fraco no seu adversário, mas não encontrou nenhum.

– Para, Farah! – ordenou ele, tirando o suor da testa com a manga.

Como resposta, ela voltou a atacar o inimigo. Espada contra espada, continuaram a lutar até que, de repente, se ouviu o som de roupa rasgada.

Ambos ficaram imóveis. Horrorizada, Farah viu como o sangue começava a cair da manga do príncipe.

Oh, por Alá… Ela não quisera magoá-lo. Com os olhos assustados, olhou para ele por um instante, antes de soltar a espada e fugir por um beco.

O suor e o medo tiravam-lhe agilidade. Quando uma mão a agarrou pelo lenço da cabeça, gritou com todas as suas forças. Por sorte, o lenço caiu e ela continuou a fugir.

O som dos passos avisava-a de que o príncipe estava perto, até a agarrar pelo braço e a fazer virar-se de repente.

Cheia de verdadeiro terror, Farah lutou contra ele com todas as suas forças. No entanto, Zachim só demorou um segundo a imobilizá-la com a cara colada contra uma porta, as mãos por cima da cabeça e as pernas abertas, presas pelas dele.

Zachim tentou recuperar o fôlego enquanto a segurava contra a porta. O corte doía-lhe, mas não era grave, pois ela recuara no último momento. Devia tê-la desarmado desde o princípio, pensou. Mas desfrutara muito do combate. Era boa com a espada, sim. Não tanto como ele, embora combater com ela o enchesse de vida e excitação. Fora o mesmo que sentira quando tinham galopado juntos pelo deserto. Há muito tempo que não se sentia tão vivo. Talvez fosse por aquela mulher ser tão perigosa.

Como se tivesse notado que estava perdido nos seus pensamentos, Farah tentou libertar-se e ele apertou-a com mais força contra a porta. Então, pensou que podia ter mais armas. Tinha de a revistar, antes de a soltar. Sem querer, imaginou-se a percorrer-lhe o corpo com as mãos e a tirar-lhe as roupas pouco a pouco. E experimentou uma ereção. Por alguma razão, o seu corpo agia por conta própria quando estava perto dela, pensou, praguejando. Normalmente, costumava sentir-se atraído por mulheres que lhe correspondiam. E aquele não era o caso.

Zachim teve a tentação de apoiar a sua ereção contra o traseiro arredondado da sua adversária. Seria muito agradável, pensou. E, se fletisse um pouco as pernas, podia aninhá-la entre as suas coxas.

Com uma ereção que não parava de crescer, o príncipe inspirou o seu cheiro. Aproveitando o momento, a gatinha selvagem deu-lhe um pontapé e soltou uma mão.

Devia controlar as suas fantasias, repreendeu-se Zachim, segurando-a novamente.

– Teria corrido melhor se tivesses usado o teu corpinho ágil para me dar prazer, em vez de lutares comigo.

Uma mistura de medo e fúria brilhou nos olhos castanhos de Farah. Mas Zachim adivinhou neles algo mais. Desejo, interrogou-se. O que faria se a beijasse com paixão até fazer com que lhe rogasse que a possuísse?

– Preferiria queimar-me com óleo a ferver a ter de te seduzir – declarou ela.

Normalmente, Zachim não achava difícil controlar as suas emoções. Mas aquela mulher conseguia fazer com que um monge esquecesse os seus votos de celibato.

– Mentirosa.

Antes de conseguir pensar se era correto ou não, o príncipe abraçou-a e beijou-a sem piedade. Não parou, por muito que ela se retorcesse e lutasse para se soltar.

A faísca que havia entre eles acendera-se quando Farah lhe pusera os dedos na boca ou, talvez, antes. Para além da lógica e da razão, a única coisa que queria era submetê-la, ter as suas pernas compridas à volta das ancas e possuí-la até a fazer esquecer o seu próprio nome.

Quando ela gemeu como se estivesse a magoá-la, Zachim levantou a cabeça finalmente. A sua prisioneira tinha as faces rosadas e madeixas de cabelo na cara. Tinha os lábios inchados e húmidos e, com cada gemido, esmagava os seios contra o peito dele.

Emocionado com a sua própria reação, Zachim pensou em soltá-la naquele mesmo instante. Mas mudou de ideias quando ela deitou a língua de fora e lambeu os lábios, onde a beijara. Então, apercebeu-se de que já não tentava libertar-se, mas olhava para a boca dele, pedindo mais.

Com um gemido desesperado, ele inclinou a cabeça e voltou a beijá-la, daquela vez, com mais suavidade. Queria saboreá-la, sentir a sua textura e o seu sabor. Quando ela levantou a cara, entregando-se ao beijo, ele excitou-se ainda mais. Nunca experimentara algo tão íntimo, tão delicioso, pensou, apertando-se contra ela.

Farah escondeu os olhos por baixo das pestanas grossas, como se aquilo fosse demasiado, como se não conseguisse resistir ao inevitável. Abriu mais os lábios, dando as boas-vindas à língua do seu captor. Sem se aperceber, soltou-lhe as mãos e agarrou-a pelo queixo, para poder perder-se na sua boca com mais profundidade.

Ao sentir que ela se derretia nos seus braços e o acariciava timidamente com a língua, Zachim sentiu que o resto do mundo desaparecia à sua volta. Tremendo, a jovem emitiu um gemido suave e agarrou-se aos seus ombros. Ele não conseguia parar de tocar nela. Só queria chegar por baixo da sua túnica para poder sentir o calor da sua pele.

Vagamente, então, apercebeu-se de que não estavam sozinhos. Alguns guardas que tinham parado na entrada do beco estavam a presenciar como fazia amor com a prisioneira. Não era um comportamento exemplar. Por isso, usando toda a sua força de vontade, deu um passo atrás.

Quando a soltou, Farah caiu contra a porta, com os olhos esbugalhados e os lábios inchados, húmidos. Estava bonita. E parecia perplexa.

– O que aconteceu? – perguntou ele, finalmente, quando conseguiu recuperar a prudência.

Um tumulto de emoções desenhou-se no rosto de Farah, entre elas, o orgulho ferido.

– Forçaste-me.

Ele sentiu-se como se o tivesse esbofeteado. O pai fora um perseguidor, mas ele não era. Não a forçara, pois ela suplicara que a beijasse desde que se tinham visto.

– Dei-te o que querias. Se te atreveres a negá-lo, despir-te-ei e demonstrar-te-ei que é verdade.

– Oh!

Zachim pôs-lhe as mãos nos ombros e virou-a para que o precedesse.

– Considera-te avisada.

«Oh!» Isso fora tudo o que conseguira dizer depois de a ter beijado com loucura, para a insultar depois?

Naquele momento, Farah conseguia pensar em centenas de respostas melhores, embora fosse demasiado tarde.

Voltara a fechá-la no harém, com dois guardas à porta, por dentro.

Ao ouvir o ferrolho, virou-se para a entrada.

Era o príncipe, flanqueado por duas das empregadas que lhe enviara antes.

– Vejo que ainda tens o braço ligado – observou ela, sentindo-se um pouco culpada por o ter ferido. Embora tivesse merecido. – Que pena!

– Sim. Graças a ti – queixou-se, com um ar sério. – Vejo que não seguiste as minhas instruções quanto a vestir-te.

Farah ficou tensa diante daquela presença arrogante. Já não usava a túnica preta que lhe dava o aspeto de um pirata ameaçador, mas uma branca que realçava o tom âmbar dos seus olhos.

Ainda não conseguia acreditar em como reagira aos seus beijos no beco, pensou ela, apertando os punhos para tirar a lembrança da cabeça.

Nunca a tinham beijado antes daquela maneira. Amir nunca tentara sequer. Só a tinham beijado uma vez. Fora um jovem da aldeia vizinha, carente de bom senso e sem medo do pai. Aquele beijo fora rápido e casto comparado com os do príncipe de Bakaan.

– Estou vestida – indicou ela, sabendo que Zachim se referia ao vestido de seda púrpura que lhe tinham trazido antes, no qual nem sequer tocara.

– Sim. Infelizmente, o que vestiste não encaixaria no casamento do meu irmão.

– O que me importa o casamento do teu irmão?

– Nada. É óbvio. Mas dado o teu comportamento recente, não quero estar no casamento do meu irmão preocupado com o que vais fazer na minha ausência.

Ela não pôde evitar alegrar-se diante da ideia de lhe causar incómodos.

– Deixa-me com os teus guardas. Certamente, encontraremos uma forma de nos divertir.

– Sem dúvida – murmurou ele. – Mas não quero ter de castigar mais homens.

– Sou assim tão perigosa, príncipe?

– És problemática, diria – replicou ele, com um sorriso sensual.

– O meu pai não morderá o anzol, aviso-te – informou ela, rezando para que fosse verdade.

– Logo veremos.

Porque parecia tão composto e tranquilo, questionou-se Farah, cerrando os dentes de raiva. Claro, não era a sua vida que estava em jogo.

– Entretanto, as empregadas vieram para te preparar para ir comigo à festa.

Ela apercebeu-se, pela primeira vez, de que as empregadas estavam carregadas com toalhas, óleos e quem sabe que mais coisas.

– E desta vez quero que cooperes – continuou ele, seguro de si próprio.

– De maneira nenhuma…

– Não queres ir ao casamento? – interrompeu-a ele, observando-a com a irritação com que olharia para um inseto. – Sim, eu sei – replicou e deu mais dois passos, aproximando-se do espaço pessoal da prisioneira. – Mas vais fazê-lo. E vais portar-te bem.

Quando ia mandá-lo para o inferno, o príncipe abanou a cabeça devagar.

– Também posso fechar-te numa cela. Ou prender-te à cama. Não gostaria que estivesses incomodada.

Farah deu um passo atrás, intimidada. Custava-lhe a respirar quando o tinha tão perto.

– Seria melhor do que ter de aguentar a tua companhia durante uma festa.

Uma das empregadas deu um grito abafado diante do seu atrevimento. O príncipe semicerrou os olhos.

– Mas quem disse que ias estar sozinha nessa cama?

Um desejo incontrolável acendeu-se dentro de Farah, enquanto a cabeça se enchia de imagens do príncipe nu e com uma ereção poderosa. Em cima dela. Dentro dela. Sem dúvida, tinha de ser um espetáculo ver aquele homem magnífico nu.

– E se me desculpar em nome do meu pai? – sugeriu ela, finalmente, pronta para se humilhar e inclinar à frente dele para livrar o pai de mais problemas e voltar à sua vida de sempre. – E se, de alguma forma, resolver o que ele fez?

Zachim recostou-se no armário que tinha atrás.

– O que tinhas em mente, habiba?

Farah olhou para as empregadas.

– Poderia trabalhar para ti. Poderia cozinhar ou limpar ou…

– Já tenho muitos empregados ao meu serviço.

Farah mordeu o lábio inferior.

– Poderia… – começou a dizer ela, tentando pensar em algo para lhe oferecer. – Poderia treinar os teus cavalos. E os camelos.

– Já não há camelos no palácio e os meus cavalos têm muito bons treinadores.

– Bolas! Não há nada de que precises?

O príncipe percorreu-a de cima a baixo com o olhar, incendiando-a pelo caminho.

– Continua. Certamente, consegues pensar em alguma coisa que seja agradável para os dois.

Ela franziu o sobrolho. Referia-se a…?

– Isso não! – gritou, sentindo que ficava vermelha como o fogo. – Nunca!

– Então, não temos nada de que falar – comentou ele, num tom de aborrecimento.

– És tão tirano como o teu pai.

Furiosa, Farah virou-se para se fechar no quarto, quando o príncipe a agarrou pelo braço.

– Bolas! O teu pai prendeu-me durante três dias. Se achas que vai ficar impune, estás muito enganada – avisou-a ele. – Agora, veste-te. Se voltares a causar problemas a estas mulheres, não serei tão atencioso.

Ela engoliu em seco, decidida a não delatar as suas emoções. Esperou que Zachim saísse do quarto e virou-se para as duas empregadas, que a observavam com os olhos esbugalhados.

– Tomarei banho sozinha, entendido?

– Sim, senhora.

Capítulo 7

– Para de retorcer as mãos – sussurrou-lhe o príncipe pela quinta vez.

Farah deixou cair as mãos e fingiu prestar atenção à cerimónia.

– Este vestido não me fica bem – queixou-se ela, em voz baixa.

– Fica perfeito.

Não era verdade. Apertava-lhe muito o peito e deixava os braços e o decote a descoberto. Os sapatos de salto de agulha eram insuportáveis.

– E sorri!

Cansada de receber ordens, Farah esboçou um sorriso forçado.

– Assim?

– Melhor – murmurou ele, depois de lhe lançar um olhar rápido.

De lado, Farah observou o seu acompanhante, vestido com uma túnica branca e o toucado que correspondia ao seu título real. Era tão viril e tão encantador, quando queria, que dava a sensação de ser um homem agradável.

Há horas, depois da visita do príncipe, Farah fizera tudo o que lhe pedira, com a intenção de o fazer acreditar que estava disposta a cooperar. Deixara que as empregadas a maquilhassem, a vestissem e a penteassem, apanhando o cabelo na parte da frente e deixando o resto solto sobre os ombros. Quando se olhara ao espelho depois, mal se reconhecera. De facto, até se achara bonita.

Interrogou-se se Zachim acreditara nela quando aceitara fazer uma trégua para ir ao casamento. Mas não importava. O irmão estava prestes a casar-se com uma mulher estrangeira e pareciam tão apaixonados que ela não queria estragar as coisas. Havia algo muito romântico na forma como o príncipe Nadir olhava para a noiva.

Como se sentiria se um homem olhasse para ela daquela maneira?

Deixá-la-ia numa posição de inferioridade, recordou-se. Teria de se submeter e deixar de lado os seus próprios desejos para obedecer ao marido. Isso não a faria feliz.

Farah e Zachim estavam na primeira fila, num salão enfeitado com flores brancas e cor-de-rosa, para além de velas em todas as mesas. Milhares de olhos curiosos tinham-se fixado nela quando entrara. No entanto, não reconhecera ninguém que pudesse ajudá-la entre os convidados.

Quando a multidão aplaudiu e aclamou os recém-casados, Farah apercebeu-se de que a cerimónia acabara. O casal sorria de felicidade e o noivo tirou a filha pequena dos braços de um dos convidados.

Devagar, pararam à frente de Farah e do príncipe para aceitar as suas felicitações. Quando a menina estendeu os braços para tocar no queixo do príncipe, ele riu-se, sussurrou-lhe palavras doces e deu-lhe um beijo suave na face. Farah surpreendeu-se tanto com aquele comportamento que ficou paralisada. Era um homem muito estranho, pensou. Tão depressa era brusco e impassível como encantador e sensual. Confusa com um amontoado de emoções contraditórias, agradeceu a distração quando começaram a dirigir-se para o salão onde ia celebrar-se o copo-d’água real.

No entanto, andar com aqueles sapatos era como andar em cima de vidros, pensou, tentando não se encolher.

– Dá passos mais pequenos – aconselhou o príncipe.

– Passos mais pequenos? – repetiu ela, levantando o olhar para ele. – Viste o que tenho nos pés?

Sim, Zachim vira. Eram uns sapatos lindos. Ela era linda, apesar de olhar sempre para ele com cara de nojo. Interrogou-se como era possível sentir-se atraído por uma mulher que nunca sorrira e nunca lhe mostrara mais do que inimizade.

Apesar disso, a única coisa que queria era levá-la para a cama. O que diria? O mais provável era que se negasse. Embora se tivesse entregado ao beijo que tinham partilhado no beco com a mesma paixão do que ele.

Enquanto a comia com os olhos, Zachim captou uma certa vulnerabilidade nela. Estava nervosa. Então, sentiu algo que não era desejo.

– Isto não são sapatos! – protestou ela, com indignação, levantando a bainha da saia para mostrar umas sandálias delicadas de salto de agulha. – Não sei porque as mulheres os usam.

Zachim engoliu em seco, embora a sua voz parecesse rouca na mesma.

– Alongam a perna e destacam os tornozelos – comentou ele, pensando em como as pernas compridas da sua acompanhante eram lindas.

– Penso que são uma forma de controlar as mulheres – queixou-se ela, franzindo o sobrolho. – A próxima coisa que me pedirás é que te remende as meias.

– Eu deito as minhas meias rasgadas fora.

– Claro, rico e esbanjador.

– Isso é o que pensas de mim.

– Será que me engano?

– Sim, enganas-te. Estás a deixar-te levar pelos teus preconceitos.

– Nada disso – defendeu-se ela, acalorada.

O seu cheiro a jasmim e medo invadiu o príncipe. Suspirou, pois não queria discutir com ela.

– Segura no meu braço.

– Para onde queres que te leve? Para o lixo? – perguntou ela, fingindo doçura.

Zachim conteve-se para não se rir e apercebeu-se de que ela fazia o mesmo. Portanto, a sua gatinha selvagem tinha sentido de humor.

– Desde que não voltes a magoar-me, podes levar-me para onde quiseres.

Quando, surpreendida pelo seu comentário, Farah se riu, o príncipe ficou contente com o som da sua gargalhada.

– Apoia o teu peso em mim até te habituares aos saltos – ofereceu ele.

Ela hesitou, suspirou e agarrou-o pelo braço como se estivesse a tocar em dinamite.

Ao sentir o seu contacto, Zachim encheu-se de calor e não pôde evitar recordar o calor dos seus beijos. Praguejando, viu que ela o observava, enquanto uma cortina de cabelo lhe caía sobre o ombro. Tanto vestida para matar como com calças de homem e o cabelo sujo, era a mulher mais bonita que vira na sua vida. Como era possível que o seu aspeto exótico o chocasse mais do que a beleza clássica e perfeita de Amy? Não sabia, mas era assim.

Se fosse para a cama com Farah, talvez pudesse pôr fim ao desejo louco que o invadia. No entanto, não era possível. Era a filha do seu inimigo e não podia esquecê-lo.

– Porque estás a olhar assim para mim? – perguntou ela, no mesmo tom insolente que uma adolescente poderia ter usado com o pai.

– Porque não esperava que fosses bonita.

Quando ela corou e humedeceu os lábios, pareceu ainda mais irresistível.

– Só dizes isso para me enganar e para que não fuja de novo.

Não, não o dissera por isso, pensou Zachim. No entanto, fora um idiota por o esquecer.

– Vês esse cinto de ouro que tens na cintura?

– O que se passa com ele?

– Se deres um passo em falso esta noite, vou pôr-to ao pescoço e usá-lo como trela.

Farah teve vontade de gritar. Mas o seu comentário servia-lhe de lembrança de que não era mais uma convidada no casamento, mas a sua prisioneira. Por isso, só podia fazer uma coisa. Escapar.

Teria dado qualquer coisa para estar novamente na sua pequena casa, a discutir com o pai para que não a obrigasse a casar-se. Parecia-lhe muito mais simples do que acompanhar um homem que a irritava em mais sentidos do que podia explicar.

– Disse-te para parares de retorcer as mãos – sussurrou ele, segurando-a pelo braço. – Como tens os pés?

– Magoados. E tu?

– És maravilhosa – afirmou ele, a rir-se.

– Não é a minha intenção – replicou ela, com uma careta.

– Eu sei. Dança comigo.

O pedido apanhou-a de surpresa e não soube o que fazer quando ele pousou uma mão nas suas costas, sem parar de olhar para ela.

– Não quero dançar.

– Não queres ou não sabes? – perguntou ele, estudando-a com o olhar.

– Eu… – balbuciou ela, corando pela enésima vez.

– Não sabes – concluiu ele. – Não te mostres tão ofendida, habiba, eu ensino-te.

Ela tremeu quando a abraçou e a envolveu com o seu calor e o seu cheiro. Não era boa ideia. Nunca pensara em aprender a dançar. Também não pensara muito no sexo embora, depois de ter conhecido o príncipe, não conseguisse tirá-lo da cabeça. Se fosse um homem normal da sua tribo ou de uma tribo vizinha, ela teria considerado a possibilidade de explorar a química que havia entre os dois. No entanto, tratava-se de Zachim, o príncipe de Bakaan, cortado pelo mesmo padrão que o pai.

– Não me interessa – afirmou ela, embora pensasse que podia ser divertido.

Como se lhe tivesse lido o pensamento, ele esboçou um sorriso demolidor.

– Vamos. Estás desejosa.

– Não – repetiu ela. A sua arrogância inata ajudava-a a recordar porque aquele homem a desagradava tanto.

– Deixa-te levar.

– Não entendes a palavra «não»?

Ele sorriu.

– Talvez gostes.

Antes de Farah conseguir responder, ele levantou a mão esquerda.

– Dá-me a tua mão direita.

Como ela ficara paralisada, agarrou-lhe a mão, sem esperar.

– Agora, põe a tua mão esquerda no meu ombro.

Novamente, ela ficou imóvel. Segurou-lhe a mão e pô-la no ombro.

– E agora? – perguntou Farah, tentando não reagir diante da sua proximidade.

– Agora, eu ponho a minha mão aqui – indicou ele, pondo a mão direita na anca dela.

Sentindo a boca seca, Farah cerrou os dentes. O príncipe observava-a como um falcão.

– E agora?

– Agora, mexemo-nos juntos – explicou, com um sorriso. – Chama-se valsa. Quando eu ponho o meu pé esquerdo para a frente, tu dás um passo atrás com o pé direito. Não, assim não, passos pequenos. E mais devagar. A minha perna deve deslizar contra a tua, para nos mexermos como se fôssemos um só corpo.

Uma melodia suave inundava a pista de dança. Farah esforçou-se para se concentrar na música, embora fosse difícil, enquanto ele lhe tocava com suavidade.

– Fecha os olhos.

Ela levantou o olhar e deitou a cabeça para trás ao perceber que os seus rostos estavam muito perto.

– Porquê? O que vais fazer-me?

– Nada que não queiras.

O tempo deteve-se enquanto as palavras sensuais penetravam em cada poro da sua pele. No coração de Farah. Quando se apercebeu de que estava a suster a respiração, obrigou-se a respirar.

– Se fechares os olhos, vai ajudar-te a sentir a música – sugeriu ele, observando-a de perto.

Também podia ajudá-la a esquecer como o acompanhante era bonito, pensou Farah. Portanto, fechou os olhos. Por um lado, fê-la sentir-se mais consciente do seu contacto. Mas, por outro, ajudou-a a concentrar-se na dança. Depressa começou a mexer-se mais facilmente.

– Aprendes depressa – sussurrou-lhe ele ao ouvido. – Como estão os pés?

Farah abriu os olhos com um calafrio. Esquecera-se dos pés, mas a verdade era que lhe doíam.

– Não muito bem.

– Apoia-te em mim – ofereceu ele, apertando-a contra o seu corpo.

Embora ela quisesse negar-se e afastar-se, o seu corpo apoiou-se nele. Fechou os olhos, deixando-se levar para um lugar estranho de sonho. Aquilo não era dançar exatamente, mal se mexiam, mas era delicioso. Conseguia sentir toda a força, a solidez e o calor do príncipe. Encaixavam na perfeição, como se tivessem sido feitos um para o outro.

Quando mudou o ritmo da música, Farah abriu os olhos. Com o coração acelerado, apercebeu-se de como estava excitada, só por ter dançado com ele.

De repente, sentiu-se consciente de certas partes do seu corpo a que normalmente não prestava atenção, como os seios, o calor entre as pernas e a mão do príncipe nas costas. Eram sensações que a faziam sentir-se frágil e indefesa.

Então, interrogou-se se ele sentiria o mesmo. Parecia impossível. No entanto, ansiava que a desejasse. Embora fosse uma loucura. Ele devia estar habituado a ter amantes ricas e sofisticadas, como as mulheres que o observavam na festa.

De repente, com uma sensação sufocante de claustrofobia, Farah afastou-se dele. Desejar o príncipe Zachim era uma traição ao pai e a tudo o que ela queria da vida: autossuficiência, independência, respeito a si própria.

– Tenho de ir à casa de banho.

– Acompanho-te.

Claro. Isso recordava a Farah que não era uma convidada, mas uma prisioneira. E que o seu principal objetivo era escapar dali.

Dentro da casa de banho, não havia janelas, nem porta traseira, portanto, acabou rápido e voltou à sala de festas com ele. Lá, deu uma olhadela aos guardas.

Uns homens vestidos com roupa ocidental aproximaram-se para falar com o príncipe, enquanto ela ouvia a conversa e sorria. Apercebeu-se de que havia um grupo de mulheres ao seu lado, que deviam ser as acompanhantes dos homens que falavam com Zachim.

Sem pedir permissão ao príncipe, Farah dirigiu-se para as mulheres. Quando uma delas comentou que tinha calor, aproveitou para sugerir que saíssem para o terraço. O cheiro das gardénias e das rosas perfumava o ar noturno, embora ela só quisesse localizar as saídas.

Amaldiçoando os instrumentos de tortura que tinha nos pés, pensou que teria de os deixar para trás, como a Cinderela, se quisesse escapar. A diferença era que ela não queria que o príncipe fosse procurá-la com o seu sapato na mão.

Depois de se desculpar com as mulheres, desceu pelas escadas de pedra, atravessando o jardim exuberante como se soubesse para onde se dirigia. Deteve-se para respirar fundo à frente de um muro grande de pedra, coberto por uma trepadeira.

– A porta é cerca de cinquenta metros à tua esquerda – indicou o príncipe, atrás dela.

– Tinha calor.

– Não me digas? – replicou ele, arqueando uma sobrancelha. – Pensei que era apenas quando dançávamos.

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0+
Release date on Litres:
22 July 2024
Volume:
262 p. 4 illustrations
ISBN:
9788413752808
Translator:
Fátima Tomás Da Silva
Copyright Holder::
Bookwire
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