Read the book: «A Nuvem»
Luís Couceiro
A Nuvem
Peça dramatica, em verso, com prologo, dois actos e epilogo

Publicado pela Editora Good Press, 2022
EAN 4064066411664
Índice de conteúdo
PERSONAGENS
PROLOGO
SCENA PRIMEIRA
H ENRIQUE, DEPOIS M ARGARIDA E M ARIA
SCENA SEGUNDA
SCENA TERCEIRA
M ARGARIDA E UMA CREADA
SCENA QUARTA
SCENA QUINTA
M ARGARIDA E M ARIA
SCENA SEXTA
M ARGARIDA E F ERNANDO
ACTO I
SCENA PRIMEIRA
SCENA SEGUNDA
A RMINDA E H ENRIQUE
ACTO II
SCENA PRIMEIRA
H ENRIQUE E M ARGARIDA
SCENA SEGUNDA
O S MESMOS E A RMINDA
EPILOGO
SCENA PRIMEIRA
SCENA SEGUNDA
M ARGARIDA E F ERNANDO
SCENA FINAL
PERSONAGENS
Índice de conteúdo
Henrique
Fernando
Arminda
Margarida
Maria, creada
Uma creança de 6 mezes
PROLOGO
Índice de conteúdo
Casa de Margarida, em completo desalinho. Uma meza ao centro, á qual Henrique se encontra sentado, lendo alto a carta que acaba de escrever.
SCENA PRIMEIRA
Índice de conteúdo
HENRIQUE, DEPOIS MARGARIDA E MARIA
Índice de conteúdo
Henrique (só)
«Corre um anno de vida desgarrada
Que sempre tem levado o teu amante,
E outra vida, decerto, attribulada,
Suavisar, se procura, n'este instante.
Vou partir, Margarida, e sê feliz;
Porque emfim, cêdo apenas a um esforço
De sentimento são; e ás almas vis
Cabe-lhe sempre o premio do remorso!
Adeus! E vae fazendo o que poderes
Para esquecer este homem transviado
Do trilho, da conducta, e dos deveres!
Adeus! A nada mais sou obrigado!»
(Fechando a carta, pousando-a na meza, e em momento resoluto)
Sim! sim! jámais podéra ser possivel
Combater contra a minha reflexão!
E depois, que diabo! não é crivel
Mudar-se o santuario da união
Pelo louco viver do mundanismo;
Não, não é crivel ter a vida assim,{6}
E salvar-me, procuro, d'este abysmo,
Quando, demais, alguem soffre por mim!
(Pausa e reflectindo depois)
De facto, Margarida tem encantos,
Tem sim, mas quaes? Aquelles tão sómente
Que a tornam fascinada só de quantos
A pretendam gosar satyramente!
Goso estupido, goso só brutal,
Que nos converte em féras, ou ainda
N'um ente desprezivel e anormal!
(Pausa, exclamando depois com sentimento)
E abandonar-te, eu, minha bôa Arminda,
Levado na corrente d'esse imperio!
(Tirando um retrato do bolso e admirando-o)
Oh! rosto tão suave de mulher!
Perfil tão nobre, tão grande, tão sério,
Como não será muito o teu soffrer!
Semblante de bondade, a contrastar
Com falsos attractivos de mundanas!
Aqui, traços de paz bem salutar,
(Em meditação)
N'aquellas... linhas torpes e profanas!
Rosto meigo que outr'ora me prendeu,
A elle regresso, a elle vão meus passos,
E crê que vou guiado pelo ceu,
Buscando, d'amizade, os santos laços.
(Beijando o retrato e levantando-se de subito)
Ah! É verdade! Tenho d'ella um filho!
Nem me lembrava d'esse poderio!...
Foi a fatalidade do meu trilho,
E complemento do meu desvario...
Comtudo, não importa, porque em suma,
(Conformando-se)
É producto de falsas relações
Que se dissolvem, qual tenue espuma...
Existe uma creança; mas razões
Me forçam a esquece-la já tambem.
(Tirando do bolso uma carteira)
Concedendo dinheiro em abundancia
Para que Margarida, como mãe,
Provenha ao alimento dessa infancia.
(Pousando a carteira na meza e espreitando em silencio a uma porta lateral){7}
Coitadita da pobre creancinha!...
A dormir!... Tem nos labios um sorriso...
(Atirando-lhe um beijo)
Recebe um beijo, o ultimo, filhinha!...
(Retirando-se a custo)
Custa-me... mas então? Se me é preciso!
E depois, meu bom Deus, crê, eu vos juro,
Que farei tudo quanto fôr humano
Para vellar por ella no futuro!
(Pausa, depois da qual, com coragem)
Vamos!
(Parando e com desalento)
É bem profundo o desengano!
(Pegando no chapeu)
De resto, casa, orgia... tudo ahi fica...
E volto, emfim, ao lar santo e bemdicto,
Onde, só de virtude, a vida é rica,
E onde chego humilhado e bem contricto!
(Sae rapidamente).
SCENA SEGUNDA
Índice de conteúdo
Margarida (só)
(Entrando por uma porta lateral e esfregando os olhos)
Safa! Que dormir tão pesado o meu!
Nem que fosse uma noite d'hymeneu,
A prolongar um somno de fadiga!
E então, que curiosa lucta e briga
Com os sonhos, os mais extravagantes...
A vêr-me rodeada só d'amantes,
Que disputavam a honra e primazia
Da posse luxuriante d'uma Lia! Safa! Que pezadello interminavel...
(Pausa, depois da qual, repara na carta)
Olá! Temos missiva? D'um amavel
D. Juan, talvez?
(Vendo a letra)
Mas não, porque esta letra
Pertence ao cavalheiro que penetra
No aposento. É do meu nobre senhor!
Não ha duvida! Ou antes, e melhor:{8}
É d'um obediente e humilde escravo!
(Lendo a carta e cynicamente admirada)
An?! O quê?! Que diz elle?! Bravo! Bravo!
Muito bem! Apoiado! É admiravel!
(Largando gargalhada sarcastica)
Eis uma acção esplendida, louvavel!
(Sentando-se)
Coitado! Que desgraça! Pobresito,
Que diz voltar em tudo bem contricto
Aos braços da mulher! (rindo) sim, sim, coitado Do triste e pobre errante, transviado Do bem!... Mas que pateta! Mas que tolo! Vae-te menino, vae-te, que o consôlo Não me falta, acredita; pódes crêr! E lança-te nos braços da mulher, Pois que duvida? Ora essa? Porque não?
(Com sarcasmo)
Mas que parvo, irrisorio e toleirão,
Não veem!? Que ridiculo ignorante,
Que nem ao menos sabe ser amante!
E deixa carta, sem ter a coragem
De dizer que se acolhe na frondagem
Da virtude!
(Reconsiderando)
Virtude! Mas que é isso?!
Um nome que se torna ôco e omisso
Entre nós. A virtude é ter dinheiro
Que bem nos sustente o orgico viveiro,
Porque amantes, se atiram para o lixo,
Vindo outros que sustentem o capricho!
(Indo para sentar-se e reparando na carteira)
Ah! espera! deixou uma carteira!
E tem notas! Lembrança bem certeira,
Porque... emfim... é só isto o essencial
P'ra presidir á nossa bachanal...
(Depois de fechar a carteira e como que tomando uma rapida resolução, senta-se a escrever uma carta, tocando a campainha).
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