Read the book: «Amor italiano - Amor italiano»
Editado por Harlequin Ibérica.
Uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.
Núñez de Balboa, 56
28001 Madrid
© 2016 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.
N.º 58 - fevereiro 2021
© 2007 Jennie Adams
Amor italiano
Título original: The Italian Single Dad
Publicada originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd.
© 2007 Teresa Ann Southwick
Mistérios do deserto
Título original: The Sheikh’s Reluctant Bride
Publicada originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd.
Estes títulos foram publicados originalmente em português em 2008
Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial.
Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.
Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência.
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Todos os direitos estão reservados.
I.S.B.N.: 978-84-1375-269-3
Sumário
Créditos
Sumário
Amor italiano
Prólogo
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Epílogo
Mistérios do deserto
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
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Prólogo
Arabella Gable, de vinte anos, sentou-se entre outras duas modelos e esperou que o avião descolasse. Enquanto se afastavam cada vez mais de Itália, respirou. A sua segunda visita àquele país acabara e já depositara no banco o pagamento pelo seu trabalho como modelo. Ela e as suas irmãs poderiam beneficiar disso. Mas, a partir daquele momento, só iria trabalhar na Austrália. Não tinha nenhuma vontade de regressar à Itália. O país era lindo, mas as lembranças de Luchino, do erro que cometera, eram demasiado fortes, inclusive depois de quase um ano.
– Não posso acreditar que o viste, Karen – disse Lareen, uma das modelos que estava sentada à frente dela. – Estou tão ciumenta. Parece que agora viaja por toda a Europa. Como o encontraste em Nápoles?
Mas aquilo não interessava a Bella. Olhou pela janela e desejou estar em casa com as suas irmãs, no seu agradável apartamento de Melbourne.
– Sim, vi o «senhor Diamante» em pessoa! Não o irmão mais velho. Quem o quereria? Mas Luc Montichelli… Oh, sim! – Karen riu-se tolamente.
– O «senhor Diamante»? Luc Montichelli?
Bella ficou sem fôlego. Luchino estivera em Nápoles? Pensara que estivera a salvo dele, que estivesse em Milão, onde vivia normalmente. Se não, não teria vindo. Sentiu-se mal ao pensar que poderia ter-se encontrado com Luchino, com a sua mulher e filha.
Luchino era uma nódoa na sua vida, nunca mais voltaria a ser tão crédula com nenhum homem.
– Devo dizer que não sei se quereria ter algo com ele – disse Lareen.
– Porquê? – perguntou Karen.
– Porque acho que deve ser muito inflexível, querida – prosseguiu Lareen. – Ouvi dizer que se divorciou da sua mulher e que conseguiu a custódia da sua filha, para depois mandar a menina para uma vila distante, tendo como única companhia uma ama. E nunca vai vê-la. Tens de admitir que isso implica ter sangue-frio.
– A sério? – Karen deu um grito abafado. – Quando se divorciaram?
– Não tenho a certeza, mas estiveram separados, pelo menos, alguns meses – Lareen fez uma pausa. – Agora, ele não parece a mesma pessoa. Isso foi o que me impressionou quando o vi. Tem uma espécie de aborrecimento reflectido nos olhos…
Bella ficou rígida. Acelerou-lhe o coração.
Mal podia acreditar no que ouvira. Impressionou-a que o casamento de Luc tivesse acabado, embora talvez devesse tê-lo esperado. Afinal de contas, ele não fora precisamente fiel. Mas arrebatar a menina dos braços da sua mãe, para depois a abandonar, era imperdoável. Partiu-lhe o coração… Porque ela sabia como aquilo doía.
– Deve ter levado o bebé para castigar a sua esposa ou algo parecido – continuou a dizer Lareen, que não se deu conta de como Bella estava impressionada. – Os divórcios podem ser horríveis.
– Tens a certeza de que isso tudo é verdade, Lareen? – perguntou Karen, hesitante.
Bella apertou as mãos, ainda se sentia muito ferida pela recusa dos seus pais, para com ela e as suas irmãs, há dois anos. Apesar do engano de Luchino há um ano, quando a magoara, escondendo-lhe o seu casamento, uma parte da sua mente não queria acreditar que tivesse abandonado a sua filha. Não queria acreditar que alguém fizesse isso.
Mas o desgosto que sentira em relação aos seus pais, durante os últimos dois anos, também começara a dirigir-se para Luchino. Ele magoara-a, tendo uma mulher e uma filha, e ela apaixonara-se perdidamente por ele. Quando a sua esposa aparecera e ela se dera conta de que Luc estivera, simplesmente, a brincar com ela, ficara destroçada.
Aprendera com aquilo e construíra uma armadura à sua volta para proteger o seu coração. Mas nem mesmo sabendo tudo aquilo poderia ter imaginado que Luc pudesse abandonar a sua filha.
– É verdade – disse Lareen, com uma voz profunda. – A minha prima, que andou a viajar pela Europa, conseguiu emprego nessa vila. Saiu com o rapaz que fazia entregas, que lhe contou tudo. Um dia, quando foi levar uma entrega à casa onde a menina vivia com a ama, esta estava com uma amiga, a contar-lhe que Luc simplesmente se mantinha afastado. Pagava as contas, mas não queria saber nada da menina.
As raparigas começaram a falar de como se sentiriam se as abandonassem. Como se soubessem algo sobre isso!
Com as mãos trémulas, Bella colocou os auscultadores para deixar de ouvir as suas companheiras. Mas nem sequer ouviu a música. Só conseguia pensar no asco que aquele homem lhe dava, o qual pensara não poder desprezar mais…
Capítulo 1
Aproximou-se da Maria’s, em Melbourne, um minuto antes de fecharem, numa tarde quente de Verão. Era um homem mediterrânico, alto, que sobressaía entre os outros.
– Boa tarde e bem-vindo à Maria’s. Posso ajudá-lo em algo? – perguntou Arabella Gable, de maneira profissional e educada.
Mas quando o homem se virou para ela, uma rajada de memórias apoderou-se da sua mente; há seis anos, aquele homem tivera o seu coração nas suas mãos.
Sentiu um nó na garganta, enquanto a fúria, a dor e a desilusão lhe percorriam o corpo. Perguntou-se porque estaria ali.
– Quando te explicar o que se passa, não te vai restar outro remédio, senão ajudares-me.
O sotaque italiano marcado de Luc fez com que Bella estremecesse…
– Luchino – sussurrou ela, que o achara fora da sua vida para sempre.
Olhou-o como fizera em Milão há tantos anos; analisou o seu cabelo escuro, os seus olhos castanhos e aquela boca feita para seduzir. Luchino Montichelli emanava sensualidade e poder.
– Sim, sou Luc, o próprio e insubstituível. Passou muito tempo, Arabella – disse, analisando-a com o olhar. – Parece que os anos te favoreceram.
O coração de Bella disparou e perguntou-se como se atrevia a olhar para ela daquela maneira. Nervosa, passou uma mão pelo seu coque loiro.
– Também te favoreceram – admitiu. – Estás… com bom aspecto.
Então, recordou que arrebatara a sua filha à sua mãe, para depois a abandonar.
– O que fazes aqui, Luchino? Como posso ajudar-te?
– Nunca planeei voltar a ver-te, Arabella – Luc esboçou uma expressão dura. – Garanto-te que preferia não estar aqui.
– Preferias não me ver? Receio que o sentimento seja mútuo – espetou ela.
Mas, então, viu uma expressão doce reflectida nos olhos de Luc e recordou algo que lhe parecera muito especial e correcto. Uma leve vulnerabilidade apoderou-se dela. Mas tudo aquilo era uma ilusão!
– Estou quase a fechar, portanto, seja qual for a razão pela qual vieste…
Maria, a sua chefe, matá-la-ia por tentar expulsar um cliente, mas ela estava fora e Luc não estava ali na qualidade de cliente.
– Fecha a loja – Luc apontou para a porta principal. – Melhor ainda, dá-me a chave e eu fá-lo-ei por ti, enquanto tu fazes a caixa. O que tenho para te dizer é melhor que to diga em privado.
– O que sabes tu de fazer a caixa?
Mas a família dele era dona de joalharias ao longo de toda a Europa e outras partes do mundo. E, certamente, seguiam o mesmo procedimento de fazerem a caixa.
– De qualquer forma, não sei se quero falar contigo a sós. Caso te tenhas esquecido, não ficámos precisamente amigos.
– Não me esqueci de nada – disse ele, olhando para ela. – Tenho uma loja a alguns quarteirões daqui – então, dirigiu o olhar para a roupa da loja. – Acho que sei como assegurar este lugar.
Bella sabia que uma loja de Diamantes Montichelli abrira perto dali há duas semanas, mas afastara-o da sua mente.
– Pensava que a loja era uma filial da loja de Sidney e que haveria um gerente local. Pensava que tu te dedicavas ao desenho.
Cada vez que as irmãs de Bella tinham sofrido durante os últimos anos, ela encontrara uma ligação com Luchino, já que ele também abandonara a sua filha. Também brincara com ela, enganando-a e divertindo-se às suas custas.
– Agora, encarregas-te da administração? Estás aqui para deixares tudo preparado e, depois, deixares a loja a cargo de alguém? A loja de Sidney tem um gerente local…
Bella desejou que assim fosse e que Luchino fosse partir.
– Já não trabalho com a minha família. A Diamantes Montichelli é uma loja minha, uma entidade separada de todas as outras. Talvez partilhe o nome familiar, mas a loja terá sucesso pelo meu trabalho, pelos meus desenhos e pela minha reputação.
Luc esboçou uma expressão dolorosa e baixou o olhar.
– Tenho muitas funções para desempenhar aqui… proprietário, desenhador chefe, gerente, vendedor. Farei tudo o que for preciso fazer. Estou aqui para ficar.
Luchino, agarrando na chave da porta principal, dirigiu-se para a porta.
– Acaba o que estavas a fazer, Arabella, para que assim possamos falar.
– Demoro um minuto – disse Bella, tentando controlar o tremor das suas mãos enquanto esvaziava a caixa registadora.
Luc olhou para os manequins vestidos com roupas que ela desenhara e Bella, apesar do seu aborrecimento, susteve a respiração, esperando para ver qual era o seu veredicto.
– És uma mulher de talentos ocultos, Arabella. São bons. Pelo menos, a tua destreza com os desenhos e com as criações deixa claro que há uma possibilidade de resolveres a confusão que criaste.
– Confusão? Que confusão?
– Passaste de modelo a obrigares mulheres de meia-idade a gastarem quantias enormes em negócios que não têm garantia de sucesso. Deves estar muito orgulhosa de ti.
– Fui modelo para poder sustentar as minhas irm… – parou ao dar-se conta de que estava a tentar explicar-se diante dele. – O que queres dizer? Eu não obriguei ninguém e, de qualquer forma, o que tens a ver com isso?
Bella fizera um contrato com Maria Rocco, através do qual apresentava na loja desta, em exclusivo, os seus trabalhos durante um prazo de cinco anos.
– Maria Rocco é a minha tia – disse Luchino. – O que faz com que isto também seja o meu negócio.
Bella ficou impressionada. Maria era milanesa, mas vivera na Austrália durante quase toda a sua vida adulta.
– Maria é uma Rocco, não uma Montichelli, e ela mesma me disse que não tinha família.
– A minha tia partiu de Milão, deixou a família e mudou o apelido há muito tempo. Sem dúvida, ela considerava que estava sozinha – disse ele, zangado. – Tenho a certeza de que pensaste que isso era uma vantagem, quando decidiste roubar-lhe uma grande quantia de dinheiro.
– Eu não fiz isso! Como sabes sequer alguma coisa do acordo que fiz com ela?
Mas estava claro que ele sabia algo. Bella observou como Luc levava uma mão ao peito, para se certificar de que ainda tinha algo no bolso da camisa. Talvez uma fotografia?
– Disse ao meu novo assessor de negócios que queria conhecer Maria. Ele tinha ouvido dizer que Maria tinha uma protegida. Quando mencionou o teu nome, pedi-lhe que descobrisse pormenores sobre ti.
– Isso é uma invasão da privacidade de Maria. E da minha!
– Foi uma invasão muito oportuna. Embora estejamos afastados, não vou deixar que Maria tenha problemas financeiros por tua causa. De alguma forma, obrigaste-a a contratar-te para desenhares para ela, a um preço astronómico e sem nenhuma garantia de que os vestidos se venderiam.
Bella franziu o sobrolho. Não era um acordo injusto, porque Maria sabia que o seu objectivo era que ambas tivessem sucesso.
– Na verdade, é um acordo, não um contrato – esclareceu ela, que não quisera pagar a um advogado.
Henry Montbank, antigo chefe de Chrissy, ajudara a realizar o acordo sem falhas.
– É um roubo disfarçado de acordo de negócios.
– Estás a chamar-me ladra? Como… te atreves? Investigaste a minha vida nas minhas costas, como se tivesses todo o direito de o fazeres. O que descobriste sobre mim e as minhas irmãs? Até onde foste?
– Investiguei as tuas finanças, Arabella, o que fizeste durante estes anos, desde a última vez que te vi. E descobri tudo sobre o acordo a que chegaste com a minha tia. Não vou perdoar-te isso – disse, com uma expressão dura reflectida nos olhos.
Então, continuou a falar.
– Pretendo reclamar Maria como minha tia – disse Luc, suavizando um pouco a sua expressão. – É da família e… se for possível, quero ter essa ligação com ela. Teria vindo vê-la antes, se não tivesse estado fora da cidade.
Aquele amor pela família, tendo em conta o seu historial, era estranho.
– Apesar do que dizes, não deves ter investigado muito bem, Luchino, porque Maria não está em perigo financeiro por minha causa.
– Pelo contrário, a aquisição da tua colecção quase a deixou na bancarrota.
– A tua tia é muito rica, Luchino. Tem umas águas-furtadas na melhor zona da cidade, conduz o último modelo de um carro desportivo e vai, frequentemente, de férias para o estrangeiro. Não hesitou em aceder às minhas condições e pode seguir em frente até os meus modelos gerarem lucro.
– Maria gastou mais do que devia durante anos. As águas-furtadas são alugadas, assim como o carro, e todas aquelas viagens fizeram-na ficar com dívidas. Não estava em condições de se meter numa aventura especulativa como a tua.
– Os meus vestidos vender-se-ão. Maria fez um bom investimento e pretendo prová-lo.
Bella sentiu um aperto no estômago. Nunca perguntara a Maria pela sua situação económica, simplesmente assumira pelo que tinha tido diante dela. Mas se realmente Maria não tivesse dinheiro…
– Não posso falhar – afirmou, severamente.
A palavra fracasso já não era uma opção para ela. Não era desde que os seus pais a tinham abandonada a ela, a Chrissy e a Sophia.
– À medida que for criando uma carteira de clientes, vender-se-ão mais vestidos e Maria receberá lucros pelo investimento que fez.
Mas nada daquilo resultaria se Maria entrasse na bancarrota…
– Vou telefonar a Maria para descobrir como estão as coisas.
Maria poderia dissipar o medo que estava a apoderar-se de Bella. Tudo ficaria novamente bem, excepto a intenção de Luc de fazer parte da vida da sua tia, o que faria com que tivesse contacto com Bella.
– Não posso permitir que telefones à minha tia. Não quero que saiba que comprei… que a investiguei. Quero uma oportunidade de poder conhecê-la, sem que os assuntos comerciais se interponham.
Bella sentiu necessidade de falar com as suas irmãs, de ouvir as suas vozes para que a reconfortassem, mas, se lhes telefonasse, falaria demasiado. E sabia que não devia fazê-lo. Elas sabiam que tivera um problema em Milão com um homem, mas não lhes contara os pormenores daquela experiência devastadora. Ela só tinha dezanove anos naquela época…
– A prevaricação é uma perda de tempo, Arabella. O acordo favorece-te. Maria tem problemas financeiros porque tu exerceste pressão para conseguires desenhar os teus vestidos. Conhecendo os seus problemas económicos ou não, as tuas exigências eram inaceitáveis e espero que o remedeies. Estes são os factos. Agora, vou dar-te duas opções para reparares o mal que fizeste.
A expressão de Luc endureceu enquanto olhava para Bella.
– A primeira opção é que pagues cada cêntimo do que ela te emprestou e que, depois, partas.
– Isto não é só uma questão de dinheiro, Luchino. Maria acedeu a lançar a minha marca, o meu nome. Se pedisse um empréstimo para pagar o que ela me deu, não conseguiria estabelecer-me noutro lugar. Já não tenho dinheiro. Investi-o em tecidos e ideias para novos vestidos.
– Suponho que isso nos leva à segunda opção – disse ele, dando um passo em frente.
– Oh? E qual é? – perguntou Bella, tentando não pensar no quão perto estavam um do outro, tentando não se sentir intimidada, nem confusa.
– É bastante simples, Arabella. Tens de te certificar de que cada vestido que a minha tia te comprou se venda depressa e a um bom preço.
– Claro! Farei com que isso aconteça – disse, pensando que procuraria uma fada madrinha nas Páginas Amarelas para que agitasse a sua varinha mágica por ela. – A rapidez não é o principal ingrediente no meu plano de trabalho. Maria sabia disso. Foi por isso que acordámos um prazo de cinco anos.
– Esses cinco anos já não são válidos. Deves sair e atrair clientes das altas esferas para venderes até ao último desses vestidos… e depressa!
– Lamento decepcionar-te, Luchino, mas não tenho acesso a esse tipo de gente.
– Estando ao meu lado, abrir-te-ão essas portas – disse ele, esboçando um sorriso malvado. – Passear-te-ás entre eles até que as finanças de Maria se equilibrem. Colar-me-ei a ti para que o consigas.
– Não. Nem sequer sei se estás a dizer a verdade.
Bella irritou-se. Todo o aborrecimento que guardara na sua alma explodiu.
– Afinal de contas, esconder a verdade é o que costumas fazer, não é, Luchino? Fingiste não ter esposa. Diz-me, doeu-te perdê-la? Ou, simplesmente, alegraste-te por te livrares dela, para assim continuares com os teus romances, sem que te pesasse a consciência?
Capítulo 2
– Surpreende-me que saibas do meu divórcio – disse Luc, sem conseguir desviar a vista de Arabella.
Enfureceu-o o renascer da antiga atracção por ela. Bella era tão má como Natalie, decidida a conseguir o que queria, fosse como fosse, e ele não ia deixar-se enganar pela segunda vez. Mas não entendia aquele interesse repentino que despertara nele por Arabella.
Acariciou novamente a fotografia da sua filha que trazia ao peito e a culpa apoderou-se dele.
– Há cinco anos, fui a Itália para uma passagem de modelos – disse Bella, desejando que fosse ele quem regressasse a Itália naquele preciso momento… mas para ficar. – Alguém falou de ti. Eu não tentei obter informação, acredita em mim.
– Infelizmente, Bella mia, já não confio em ninguém e, certamente, também não confio em ti.
A capacidade de confiar nas pessoas fora, irrevogavelmente, arrebatada a Luc e não uma, mas três vezes. Por Bella, pelo seu irmão e pela sua ex-mulher.
Talvez Bella, com aquele cabelo maravilhoso loiro acinzentado e aqueles olhos castanhos, não sentisse nenhum remorso. A sua ex-mulher não sentira. E, perante as perguntas de Luc, o seu irmão também não o demonstrara.
Luc disse para si mesmo que não devia permitir que a amargura do passado interferisse na sua nova vida. Escolhera, deliberadamente, ir para a Austrália. Pela… sua filha. Por Grace. Para recomeçar num lugar onde a traição pudesse ser, se não esquecida, pelo menos afastada. Escolhera Melbourne porque queria conhecer a tia esquiva, de quem a sua família sempre falara a sussurrar.
– Tenho o carro estacionado a poucos quarteirões daqui. As provas da situação de Maria estão lá – resmungou Luc, lutando contra as lembranças de Arabella que ainda o perturbavam, mesmo sabendo que eram falsas. Dirigiu-se para a porta principal. – Vamos.
– Estou mais do que preparada para ver essas provas – Bella saiu da loja e fechou a porta, ligando o alarme. – O quanto antes acabarmos com isto, melhor.
– Concordo – concedeu ele, agarrando-a pelo braço e dirigindo-a para o seu carro. – Mas isto é só o princípio.
Quando chegaram ao carro de Luc, este abriu-o com o comando.
– Muito bem. Mostra-me os documentos.
Luc tirou a sua mala do carro.
– O restaurante Brique’s estará tranquilo. É aqui ao lado. Veremos juntos os documentos.
– Porque não os vemos aqui? E se quiser confirmar se esses documentos são verdadeiros?
– Se precisares de confirmar depois de os teres visto, podes ficar com eles. Tenho cópias – então, apontou para o carro. – Se preferires sentar-te no meio desta rua tão ocupada…
– Suponho que será melhor irmos ao Brique’s.
Quando entraram no restaurante, Luc pediu bebidas e um prato de queijo e fruta.
– Muito bem, agora estamos num ambiente civilizado – disse Bella, bebendo um gole de água.
– Eu gosto das coisas boas. Não me envergonho disso.
– Hum, talvez não seja Pont l’Eveque, mas é igualmente bom – disse, provando o queijo.
Luc abriu a sua mala, tentando desviar a sua atenção do movimento da boca de Bella, e tirou os documentos para que ela os visse.
Bella leu alguns deles, durante alguns minutos, em silêncio. Então, olhou para ele, franzindo o sobrolho.
– Disseste que o teu assessor financeiro arranjou isto?
– São verdadeiros, Arabella. A informação chegou-nos de uma empresa de investigação respeitável. Como podes ver, a compra dos teus vestidos por parte de Maria foi uma operação financeira mais do que arriscada para ela.
Indicou o papel que estava anexo ao documento.
– Se quiseres, podes telefonar à empresa agora mesmo. Confirmar-te-ão tudo o que leste.
– Não pode ser verdade! – sussurrou Bella, começando a rever os documentos. – Mas é verdade, não é? Maria excedeu-se de tal maneira que é difícil que consiga recuperar-se e levou com ela os meus vestidos e o começo da minha reputação como estilista. Deveria ter confirmado a sua situação financeira, não deveria, simplesmente, tê-la assumido.
Bella sentiu falta de ar.
– Estamos arruinadas. Não vejo como ela pode sequer esperar recuperar-se economicamente, a não ser que os meus vestidos sejam um sucesso. O meu plano de cinco anos acabou-se antes sequer de começar.
– Lágrimas de crocodilo, minha querida! – exclamou Luc, que não acreditava na sua tristeza.
– Não posso comprar os vestidos – disse Bella, olhando para as suas mãos. – Já tenho… já tenho problemas suficientes neste momento.
– Mesmo assim, não te importaste que fosse Maria a tê-los.
– Sabia que resultaria com o tempo – explicou ela, com o desassossego reflectido no olhar. – Talvez devesse ter estabelecido uma cláusula de escape para Maria. Não pensei nisso.
– Simplesmente, pensaste em usar Maria e, se as coisas não corressem bem, partir sem nenhuma responsabilidade. Achas que vou ficar de braços cruzados e deixar o futuro do negócio da minha tia nas tuas mãos, agora que sei o que fizeste, Arabella?
– Se Maria fosse tão rica como eu achava…
Bella levantou-se e agarrou na sua mala.
– Trabalharás comigo até resolvermos as coisas, Arabella – decretou Luchino. – Usarás os teus vestidos nas recepções mais importantes de Melbourne, no teatro, na ópera, nas festas… em qualquer lugar onde os teus possíveis clientes se reúnam.
– Uma coisa é usar um vestido bonito e ir ao teatro com as minhas irmãs – disse Bella, que adorava fazê-lo com elas e com o marido de Chrissy, que estava grávida. – Mas tu não podes decidir as coisas e dizer que tenho de as fazer. E, de qualquer forma, porque quererias estar comigo?
– Posso decidir e fazer com que o faças. Não quero estar contigo. Simplesmente, quero confirmar que cumpres as minhas exigências. Não quero que a minha tia sofra por tua causa – disse Luc, roçando no braço de Bella, enquanto saíam do restaurante. – Quero que faças tudo o que for necessário para que isto resulte e quero que o faças discretamente.
– Sem dizer a Maria – disse Bella, que queria falar com ela. – E se insistir em falar com ela?
Luc, simplesmente, continuou a andar e olhou para ela nos olhos.
– Se não cumprires algum dos meus requisitos, haverá represálias e arruinarei a tua reputação de estilista. Nunca mais conseguirás voltar a trabalhar nessa área.
– Farias isso? – perguntou ela.
Respondeu a si mesma ao ver o aborrecimento que os olhos escuros de Luc reflectiam.
– Não duvides, Arabella – disse ele, abrandando o passo. A angústia apoderou-se da sua cara.
– Luchino? O que…?
Parecia que ele não estava a ouvi-la. Bella seguiu com o olhar para onde ele estava a olhar e viu que estavam novamente perto do seu carro. E viu… uma menina pequena e uma senhora de meia-idade ao lado do carro. Uma menina de cabelo preto encaracolado, com pele morena.
A filha de Luc?
Ali? Com ele? Porquê? Bella tentou compreender, mas tudo o que viu foi uma menina assustada, que se agarrava àquela senhora ao ver que Luchino se aproximava.
Era a mesma expressão que as suas irmãs tinham tido várias vezes reflectida na cara, até que ela conseguira dar-lhes estabilidade e uma nova vida, depois do abandono dos seus pais. Dera às suas irmãs todo o amor que os seus pais se tinham recusado a dar-lhes…
– Papá? – a menina tentou dar alguns passos para a frente. – Estiveste fora muito tempo. A ama Heather tinha medo de que não regressasses.
– Grace – murmurou Luc, como se lhe doesse dizer aquele nome.
A emoção sentia-se no ambiente.
– Aceito as tuas condições – disse Bella, que sabia que não tinha outra opção. – Trabalharei para vender os meus vestidos o mais depressa possível. Irei aos eventos sociais contigo, até a situação económica de Maria melhorar e, então, fá-lo-ei sem ti.
– Uma escolha acertada.
– Tenho de ir ou perderei o eléctrico. É… é por ali – disse, assinalando uma direcção ao acaso. – Entrarei em contacto sobre o nosso… acordo.
– Não tens o meu número – disse Luchino, tirando um cartão do bolso e dando-lhe.
– Está bem. Agora já tenho. Adeus! – despediu-se Bella, saindo dali a toda a pressa.
Capítulo 3
Quando Bella chegou ao seu apartamento, tentou manter as suas emoções sob controlo, mas tinham acontecido demasiadas coisas muito depressa e não sabia como começar a assimilá-lo.
– Estou em casa – disse, em voz alta, ao entrar. A sua irmã, Soph, veio recebê-la.
– Olá! O que te parece esta cor de cabelo? Supõe-se que tenho de enxaguar, mas parece bastante… – Soph parou de falar. – Parece que viste um fantasma.
– Sim – Bella riu-se, mas conteve-se de continuar a fazê-lo, já que roçava a histeria. – Vi um fantasma. E, se não fizer o que ele quer, vai arrebatar o sonho da minha vida.
Soph ficou a olhar para a sua irmã e agarrou no telefone sem fios, telefonando com marcação rápida.
– Podes vir? Parece-me que temos de fazer uma assembleia familiar.
– Estou bem, Sophia. Não tens de te preocupar com nada – disse Bella.
Mas era demasiado tarde. Soph já telefonara e a irmã de ambas não demorou a chegar.
Chrissy chegou enquanto Bella estava a tentar esclarecer as ideias. As suas duas irmãs ficaram a olhar para ela e Bella soube que teria de lhes explicar o que se passava.
– Hoje vi Luchino Montichelli. A sua filha estava com ele. Não exactamente com ele, mas estava lá, à espera no carro quando regressámos, com uma ama ao seu lado.
– Voltou a cuidar da menina? – perguntou Soph, cujo tom de voz deixava claro que aquilo lhe parecia incompreensível. – Não disseste que a tinha abandonado após o seu divórcio?
– Também me custa a acreditar e não faço ideia se a menina está permanentemente com ele ou não.
– Pergunto-me se agora ama a menina – disse Chrissy, acariciando a barriga. – Porque uma criança precisa que a amem e, se os pais não conseguirem fazê-lo, não têm o direito nem de estar perto delas.
– Tu amas muito o teu bebé. Todas amamos. Tenho muita vontade de ser tia – disse Soph, abraçando a sua irmã pelos ombros.
Então, Bella explicou-lhes a ameaça a que estava submetida.
– O que vais fazer, Bella? – perguntou Chrissy. – Não podes aceitar este ultimato. Terias de o ver constantemente e suportar que considere que és ambiciosa, e que usaste Maria.
– Acho que não tenho outra opção – disse Bella, que começou a dar voltas pela sala.
– Nate e eu podemos comprar os teus vestidos, para que assim devolvas o dinheiro a Maria. Podemos ajudar-te a estabeleceres-te por tua conta, Bella, para que recomeces. Com a tua própria loja, em qualquer lugar. Tenho a certeza de que Nate o verá como um investimento a longo prazo.
– Ou isso, ou as três pedimos empréstimos ao banco para assim poderes resolver o problema – disse Soph.
– Isso talvez permita a Bella pagar a Maria – disse Chrissy. – Mas não acho que consigamos dinheiro suficiente para que possa estabelecer-se numa loja nova.
– Acho que tens razão – disse Soph, soprando uma madeixa do seu cabelo cor-de-rosa. – Suponho que, então, Nate tem de nos ajudar – olhou para Bella. – Sei que não tiveram um bom começo quando ele engravidou Chrissy e tudo isso, mas vejam como as coisas correram bem! De qualquer forma, ele ajudará e o mais importante é que não queremos que te aproximes do canalha que te magoou quando estiveste em Milão.
– Um dos canalhas. Lembrem-se que o organizador do espectáculo também levou Bella para o seu quarto naquela última noite – recordou Chrissy.
– Devias ter-nos contado a verdade toda quando regressaste daquela viagem – disse Soph.
Bella levantou-se no meio das suas irmãs.
Aquilo doía-lhe. Amava-as. Queriam ajudá-la, mas não podia permitir que o fizessem.
– Contaste-nos agora a verdade toda, Bella? – exigiu saber Chrissy.
– Sim, foi só isso. Sei que podia ter-vos contado muito mais do que aconteceu em Milão naquela altura, mas queria tentar esquecê-lo.
Bella respirou fundo.
– Agradeço a tua oferta para me ajudares, Chrissy, mas não seria correcto que Nate e tu se comprometessem com tanto dinheiro.
Ao considerar a situação em que estava, Bella hesitou.
– Neste momento, pergunto-me se fiz bem em abandonar a profissão de modelo. É verdade que não era o trabalho dos meus sonhos, mas talvez não tenha tido em conta todos os riscos do ramo dos estilistas. Simplesmente porque vos fiz a roupa toda durante anos…
– Fizeste os conjuntos mais impressionantes com um orçamento muito pequeno. Tens talento, Bella! – insistiu Chrissy.
– Também não posso consentir que Soph e tu peçam empréstimos para me ajudarem, embora agradeça muito.
– Mas tens de sair da situação em que te encontras – disse Soph.
– Não. Luchino disse que não tenho outra opção e tem razão. Tenho de vender os vestidos rapidamente. Se trabalhar para ele, é a única maneira de o conseguir… Terei de o suportar.
– Resolveria o problema – Chrissy assentiu, contrariada. – Desde que não tente ultrapassar o acordo de negócios, tentando torná-lo mais pessoal – então, olhou para Bella, indagadora. – É provável que isso aconteça?
– Não, pois ele pensa que sou ambiciosa e eu sei o que é capaz de fazer. A desconfiança de ambas as partes não dará azo a nenhuma relação pessoal.
Negando-se a pensar na química que existira entre Luchino e ela, Bella abraçou, primeiro, Soph e, depois, Chrissy.
– Obrigada por falarem comigo e por se oferecerem para me ajudarem.
– E… a sua filha? – perguntou Soph, tentando esconder a sua vulnerabilidade perante aquilo. – Talvez devêssemos descobrir como está a tratá-la.
– Oh, Soph! – exclamou Bella, a qual, na verdade, também a preocupava. – Vou descobrir.
Bella tinha de enfrentar aquela situação, escondendo os seus sentimentos por detrás do muro que criara à volta do seu coração.
– Consigo fazê-lo. Resultará. Cuidarei de mim e certificar-me-ei de não sair magoada.
– Se a situação fugir do teu controlo, deixarás que te tiremos de lá! – sentenciou Chrissy.
Bella assentiu, contrariada, embora, na verdade, não tivesse nenhuma intenção de permitir que as suas irmãs ou o seu cunhado lhe dessem tanto dinheiro.
– Está bem, então suponho que já está tudo esclarecido. Quero mostrar esta cor de cabelo a Danni e a Michelle – disse Soph, dirigindo-se para o seu quarto. – É melhor ir ver o que posso vestir esta noite.
Assim que as suas duas irmãs se foram embora, Chrissy para a casa onde vivia com Nate Barrett e Sophia para um clube com as suas amigas, Bella pegou no cartão que Luchino lhe dera e telefonou-lhe.
– Montichelli.
Só de ouvir a sua voz ao telefone ficou nervosa.
– Quero um itinerário dos eventos sociais a que vou ter de ir contigo, para assim poder preparar o que vou vestir em cada ocasião – disse, sem se incomodar em cumprimentá-lo. – Por enquanto, não direi nada à tua tia, mas quero que fique claro que não gosto de a enganar. Quando vamos ao primeiro evento social?
– Amanhã à tarde – disse Luc, nomeando-lhe os anfitriões e o lugar onde viviam. – É um casal, dono de um complexo de campos de golfe existente no país inteiro. Vou buscar-te às sete horas.
– Também gostaria de saber como vais explicar estas saídas à tua tia…
Bella deixou de falar ao dar-se conta de que Luc desligara o telefone.
Na noite seguinte, enquanto dava os últimos retoques de maquilhagem, Bella recordou a conversa telefónica que tinham tido. Ou, melhor dizendo, pensou no que deveria ter perguntado, mas não tivera oportunidade. Era sábado. Desejou que tivesse passado um ano e que Luchino Montichelli fosse novamente uma lembrança distante.
Soph aproximou-se da porta da casa de banho com o secador na mão; o cor-de-rosa do seu cabelo desaparecera ao lavá-lo.
– Podes mudar de ideias, Bella. Luchino Montichelli não tem nenhum direito de te obrigar a fazer isto.
– Está preocupado com a sua tia – disse Bella, que realmente achava que assim era.
– E tu vais ver o que se passa com a sua filha – ao dizer aquilo, Soph relaxou um pouco.
– Sim, farei o que puder. E, Soph, não tenho qualquer outro interesse, a não ser o comercial, para estar perto de Luchino.
– Se tu o dizes… – disse Soph, que não parecia convencida. – Chrissy e eu continuamos sem gostar que este homem insista para que saias com ele, alegando que é por causa de negócios. O que aconteceria se tentasse seduzir-te novamente? – perguntou, preocupada. – Não queremos que te magoe.
– Não permitirei que isso aconteça e, de qualquer forma, Chrissy e tu deviam preocupar-se com os vossos próprios problemas, não com os meus. Não devia ter-vos contado tudo.
Então, viu-se ao espelho para confirmar como estava, compôs o vestido azul-escuro que usava e apressou Soph a ir para a sala.
– São só negócios, Soph. Só tenho de tratar o assunto como tal.
Ouviram-se passos fora da casa, seguidos de uma pancada forte na porta.
– Eu vou – avisou Bella à sua irmã, indo abrir a porta.
Quando viu Luchino Montichelli ali de pé, vestido com um fato elegante, teve de respirar fundo.
– Olá, Luchino! Estou pronta para sair.
– Boa noite, Arabella. Não vais apresentar-me? – Luc olhou sobre o ombro dela e entrou na pequena sala do apartamento.
Ao passar ao seu lado, Bella pôde cheirar o seu perfume… e gostou muito.
– Bella? – Soph olhou para Bella com o sobrolho franzido. Aquilo distraiu Bella da sua… surpresa, ou o que quer que fosse.
– Sophia, este é Luchino. Luchino, a minha irmã, Sophia.
Não queria demorar-se com as apresentações, nem dar à sua irmã a possibilidade de começar com um interrogatório, que só faria com que perdessem tempo.
– Vamos embora – disse. Queria Luchino fora da sua casa, assim como acabar, o quanto antes, com aquilo. – Temos de discutir alguns assuntos enquanto nos dirigimos para o jantar. Acabaste a nossa conversa telefónica sem me permitires que te perguntasse o que querias.
– Tens assim tanta vontade de estar na minha companhia, Arabella? – perguntou ele, examinando-a com o olhar. Este traiu-o, mostrando o interesse que tinha nela. – Estás… bem.
– Obrigada. Eu, hum… – disse Bella, que tinha de tentar recompor-se. – Não tenho vontade de estar contigo. Simplesmente, há algumas coisas que é necessário suportar e, o quanto antes, melhor. Como quando é necessário tomar um medicamento que sabe muito mal.
– É esse o conceito que tens da nossa noite?
– É o conceito que tenho desta história toda, até, finalmente, acabar – disse ela, deixando de olhar para ele e abrindo a porta do apartamento. – Se a conversa já acabou, talvez devêssemos ir.
– A noite espera-nos – disse Luc, dirigindo-se para a porta. Então, olhou para Soph. – Prazer em conhecer-te. Talvez, noutro dia, tenhamos oportunidade de falar mais.
– Depois vemos! – exclamou Soph, com o secador na mão.
– Está tudo bem, Sophia. Simplesmente, havia algumas coisas que precisávamos de falar. Peço desculpa se te deixámos fora da conversa – disse Bella, ao aperceber-se de que tinham ignorado a sua irmã.
Então, partiram e entraram no carro de Luc.
– A tua irmã parece agradável – observou ele. – Talvez um pouco protectora.
Bella compreendeu que Luc também se apercebera do secador que a sua irmã segurava!
– Soph é cabeleireira – disse ela, como se, com aquilo, explicasse algo.
Mas aquela não era a questão. Ela tinha perguntas para fazer e queria respostas.
– Ainda não me disseste como se supõe que vamos explicar isto tudo à tua tia – Bella queria saber o que ele pensava e estava a planear. – Refiro-me a trabalharmos juntos para vendermos os meus vestidos. Se começarmos a ter a fama que tu esperas, Maria não se perguntará porque aparecemos juntos nesses eventos sociais?
– Podemos resolver esse problema – disse ele, tirando alguns papéis do bolso da sua camisa e dando-lhos, enquanto esperava que um semáforo ficasse verde. – Este é o itinerário a seguir. Informar-te-ei de qualquer mudança ou novo evento a que tenhamos de ir.
– À primeira vista, parece… aceitável – disse Bella, que reconheceu alguns dos nomes da lista e sabia que, de outra maneira, nunca se teria aproximado daquelas pessoas.
Mas, enquanto colocava a lista na sua mala, pensou que não devia sentir-se agradecida.
– Não respondeste à minha pergunta.
– Diremos à minha tia toda a verdade que nos for possível. Conhecemo-nos há alguns anos em Milão. Quando regressei à Austrália, voltámos a estabelecer contacto e agora divertimo-nos a sair juntos.
– Queres fingir que andamos a sair juntos? – perguntou, impressionada.
– Poupará muitas perguntas difíceis. Acho que conseguimos ter a imagem de duas pessoas que estão muito interessadas uma na outra. Não achas?
– Simplesmente, porque, em tempos, tivemos um breve romance… – disse ela, furiosa perante aquele descaramento. – Não podemos fingir ser amantes.
Naquele momento, o semáforo ficou verde e Luc continuou a conduzir.
– Não recordo ter utilizado o termo «amantes», mas precisamos de uma razão para que nos veja juntos em público. É um problema assim tão grande para ti, Arabella? Se mantiver Maria contente e tu venderes os teus vestidos…
– Deverias contar-lhe a verdade.
– É a minha família. Não permitirei que nada lhe aconteça. Já dei alguns passos… – parou de falar.
Mas já era demasiado tarde. Bella recordava o que ele dissera noutra vez sobre ter comprado algo para a sua tia…
– Pagaste as suas dívidas, não foi? Mas, se o fizeste, porque te incomodas comigo? Já está resolvido, não está?
– Excepto o facto de que tu és responsável por devolveres todo esse dinheiro pelos teus vestidos. E pretendo ser testemunha de que o fazes! De qualquer forma, como adivinhaste? Eu não te disse.
Luc agarrou com força no volante e Bella recordou como aqueles dedos lhe tinham acariciado o queixo, segurando-a, tendo-se preparado para a beijar…
– Quanto foi, Luchino? Quais são as condições? Quanto dinheiro te deve Maria?
– Não importa como o fiz ou quanto paguei. Não podia deixá-la daquela maneira, portanto… tratei de algumas coisas.
– A mim, importa-me. Eu vendi a minha colecção a Maria, não a ti. Não quero estar economicamente ligada a ti.
– Ah, não? Bom, acabaste de me dar uma razão para te responder – disse Luc, zangado. – Paguei as dívidas de Maria e dispus que ela me fosse pagando em pequenas mensalidades, com juros baixos e a longo prazo. No que lhe diz respeito, é um gesto filantrópico de alguém que simplesmente deseja fazer parte da indústria da moda, que tem muito dinheiro e que é suficientemente excêntrico para fazer isso por prazer próprio. Acho que agora és minha, Arabella. Habitua-te a isso.
Embora Bella tivesse suposto que a verdade seria desagradável, ouvir aquilo fez com que sentisse um nó no estômago.
– Quando Maria estiver preparada para isso, dir-lhe-ei a verdade toda – disse ele, olhando para Bella para a avisar. – Até então, não lhe dirás nada disto.
– Fizeste com que seja impossível que fale com ela – disse Bella, deitando faíscas. – Como bem sabes!
– O que me importa é o bem-estar de Maria – então, mudou de assunto. – Nunca falaste da tua família quando estivemos juntos em Milão, mas, mesmo assim, vejo que deves ter uma boa relação com as tuas irmãs. Há uma parede cheia de fotografias de vocês as três e é óbvio que Sophia te protege muito, mas… e os teus pais?
– No que me diz respeito, andam a viajar pela galáxia numa aeronave – respondeu Bella, que respirou fundo. – O que me importa são as minhas irmãs.
Naquele momento, Luc parou o carro diante de uma casa elegante e luxuosa.
– Discutiste com os teus pais? – perguntou ele, que parecia realmente preocupado.
– Já chegámos. Acabemos com isto – disse Bella, saindo do carro e ignorando aquela pergunta. Não queria falar com ele sobre a sua vida privada.
Ao dirigir-se para a porta da grande mansão, Bella começou a ficar muito nervosa.
– É a tua armadura, para quando estás assustada – disse Luc. – Como não me tinha dado conta antes? Levantas o queixo, para fazeres os outros pensarem que não precisas de ninguém, mas é só uma farsa para esconder as tuas inseguranças.
– Quero ter sucesso. É só isso.
Bella odiava que ele conseguisse ver o que o resto do mundo nunca vira.
– Boa noite. Posso ficar com os vossos pertences? – perguntou-lhes um homem elegantemente vestido ao recebê-los à porta.
Conduziram-nos para um luxuoso salão de baile, onde havia um grande grupo de pessoas elegantes. Bella começou a sentir-se invadida pelo pânico.
– Espera…
– São só pessoas. Vai correr tudo bem – disse Luc, animando-a com o olhar.
Agarrou-a pelos ombros e entrou na sala, sussurrando-lhe algo ao ouvido que ela mal compreendeu, já que estava muito atenta a quão perto estava dele.
– Vejamos como convences todas aquelas mulheres a quererem usar os teus vestidos.
Bella levantou o queixo e fez o possível para controlar os nervos.
– Estou mais do que disposta a cativar a atenção das mulheres da sala, a fazer com que se interessem pelos meus vestidos – disse Bella, com toda a força que conseguiu. – Quero resolver as coisas o mais depressa possível, para assim não ter de voltar a ver-te!
Luc simplesmente sorriu daquela maneira tão devastadora que fazia com que ela quisesse esbofeteá-lo ou desatar a correr. Talvez ambas.
– Então, vamos relacionar-nos com as pessoas – disse ele. – Vamos?
Capítulo 4
– Parece que estás a causar uma boa impressão entre os convidados.
Desde o início da noite, Luc mantivera Bella ao seu lado para a vigiar, para se certificar de que fazia todos os possíveis para atrair o interesse dos seus vestidos. Mas o problema era que ela atraía também o seu interesse. Não podia negar o efeito que Arabella Gable causava nele.
– Para o teu bem, espero que essa boa impressão faça com que vendas depressa os vestidos.
– Eu também espero. Como já te disse, afastar-me-ei de ti assim que for possível, Luchino.
– Mas ainda não podes afastar-te de mim, porque precisas de mim para conseguires entrar em eventos sociais como este.
Luc observou como a frustração se apoderou dela e uma parte dele queria que ela perdesse o controlo, que todos os seus sentimentos explodissem…
Anunciaram que o jantar estava pronto. Luc começou a procurar os seus lugares, estimulado pela proximidade de Bella. Quando se sentaram, ela falou e brilhou entre os outros convidados. Luc esteve atento a cada palavra que ela dizia e a cada sorriso que esboçava… a toda a gente, menos a ele.
Perguntou-se se beijando-a, se saboreando os seus lábios, faria com que desaparecesse o interesse que tinha nela.
– Vamos dançar – disse ele, quando o baile começou. – Uma mulher atraente a dançar com um vestido bonito… O que pode chamar mais a atenção do que isso? Consegues vender o teu nome e a tua mercadoria desta maneira, Arabella?
– Consigo fazer o que tiver de fazer – disse ela, enquanto começava a valsa.
Começaram a dançar e os seus corpos mexiam-se em perfeita harmonia. Parecia que ela pertencia aos seus braços… Juntaram-se-lhes outros casais, mas Luc só via Bella e sentiu que ela só o via a ele. Naquele momento, ele soube que queria levá-la para a cama e passar uma noite de paixão com ela…
– A música acabou. A noite acabou – disse, agarrando-lhe na mão e tirando-a da pista de dança.
– Luc? – perguntou Bella, tentando libertar-se. – O… o que estás a fazer? Podia dançar com outras pessoas, relacionar-me com elas…
– Esta noite, não – disse ele, sem a largar. – Tu e eu temos negócios para resolver de uma vez por todas.
Aquilo até pareceu racional, mas, quando se despediram dos anfitriões e o homem beijou a mão de Arabella, Luc deu um passo em frente em sinal de advertência.
– Bom, boa noite e obrigado por ter vindo – disse o anfitrião, inclinando-se para atrás.
Luc murmurou algo e indicou o caminho a Bella, pondo-lhe uma mão nas costas.
O ar frio da noite não foi capaz de sufocar o desejo que queimava Luc por dentro.
– Luc? Não tenho a certeza do que estás a pensar, mas parece-me que não podemos seguir em frente com isto…
Quando chegaram ao carro, ele encurralou-a contra este, sem lhe tocar, mas muito, muito perto.
– Desejas-me. Posso vê-lo nos teus olhos.
– O que te faz pensar isso? Eu não disse nada.
– Isto é o que me faz pensá-lo, Arabella – disse, beijando-a. Com aquele beijo responderia à sua pergunta e, depois, esqueceria para sempre o seu desejo por ela.
Mas os lábios dela eram suaves e respondiam. Tinham o sabor de algo que ele não se apercebera que desejava. Mas, naquele momento, percebia. Bella emitiu um grito abafado pela comoção e ele aproveitou a oportunidade para a saborear ainda mais. Agarrou-a pelos ombros, permitindo que o beijo se tornasse mais profundo, que as suas bocas se acariciassem. Perguntou-se se saberia o que estava a fazer…
Bella era suave, muito suave, onde quer que lhe tocasse, a suavidade contrastava com a mulher forte que ela apresentava ao mundo. Ao dar-se conta de que a desejava num aspecto que ia mais além do puramente físico, afastou-se dela. Mas disse para si mesmo que fora apenas um ataque imprevisto de desejo sexual.
Bella ficou a olhar para ele, com os olhos esbugalhados. Parecia que também estava aturdida.
– Isto não devia ter acontecido – conseguiu dizer.
– Não dês muita importância ao beijo, Arabella. Simplesmente, senti que devíamos apagar os fantasmas do passado. Foi só isso.
– Tu eras um homem casado e tentei, por todos os meios, esquecer-te quando descobri.
Luc poderia ter-lhe dito que estava a separar-se, que estava a planear contar-lhe a sua situação e pedir-lhe para que compreendesse. Mas não o fez.
– Portanto, querias enterrar qualquer sentimento ou atracção que tivéssemos sentido no passado. Considera-o feito e não voltes a beijar-me.
– O beijo foi como eu queria. Não vejo necessidade de o repetir – disse Luc, que se enganou, dizendo a si mesmo que aquilo acabara com a sua história, que já podiam seguir em frente.
Naquele momento, apareceu um táxi e Luc levantou a mão para o chamar, adiantando-se a ela.
– Amanhã, vou buscar-te às seis horas, para irmos ao jantar no cruzeiro pelo rio Yarra. Calça uns sapatos com os quais consigas andar bem pela coberta de um barco em movimento.
– Assim o farei. Pretendo ter muito cuidado com tudo à tua volta, Luchino. Começando agora mesmo.
Bella entrou no táxi e, sem olhar para trás, indicou a sua morada ao taxista.
Luc entrou no seu carro e dirigiu-se para sua casa, e foi verificar como estava a sua filha ao chegar. Estava a dormir profundamente.
Grace…
Parecia-se tanto com Dominic quando dormia. Aproximou-se para lhe dar um beijo na testa e um sentimento de protecção apoderou-se dele.
Perguntou-se como conseguira afastar-se dela. Era uma dor com a qual teria de viver para sempre.
Suspirou e foi para o seu quarto. Na segunda-feira, Maria regressaria à sua loja. Inclusive naquele momento, talvez já tivesse regressado a sua casa e tivesse ouvido a sua mensagem no atendedor de chamadas. Se não respondesse durante o fim-de-semana, na segunda-feira iria à loja.
Sim. Tinha de se concentrar em Maria, em conhecê-la e em não ter mais contacto com Bella do que o estritamente necessário.
Viram Melbourne de um luxuoso cruzeiro. Depois de beber uma vodka, Bella começou a beber água mineral, enquanto Luc bebia vinho tinto. Ela conversou animadamente com outros convidados e, quando a noite acabou, mandou parar um táxi para que a levasse a casa.
– Boa noite – disse, com firmeza, enquanto se metia no automóvel. – Vejo-te no próximo evento social a que formos.
Disse para si mesma que não ia pensar nele até então e conseguiu até segunda-feira, quando a voz de Luc alterou o silêncio momentâneo que havia na loja.
– Sei que não deve lembrar-se de mim, zia. Eu também não me lembro de si, mas eu gostava de a conhecer.
Bella ficou petrificada e esperou para ver que resposta Maria lhe dava.
Ao ver que não havia resposta, olhou para ver o que acontecia e viu Luc no balcão, de perfil, e Maria pálida.
– Maria? – perguntou Bella, que não parou para pensar. Simplesmente, levantou-se e aproximou-se da sua chefe para a ajudar.
Ao ouvi-la, Luc olhou para ela com a impotência reflectida na cara, o que provocou um aperto inexplicável no coração de Bella.
– Oh, Arabella, esqueci-me que estavas a trabalhar lá atrás! – exclamou Maria, sem saber o que mais dizer.
– Só vim ver se estava tudo bem.
– Sim, bom, não sei. Não esperava isto, embora talvez devesse ter… – Maria parou de falar.
– Está surpreendida por conhecer Luchino.
Não era justo, mas, só por dizer o nome dele, faltava-lhe o ar…
Então, algo chamou a atenção de Bella; a filha de Luc apareceu por detrás do seu pai, o qual a segurava pela mão. Aquilo fê-la perguntar-se se Luc realmente amaria a sua filha.
– Arabella, chegaste a tempo de ouvir o meu convite e de conheceres a minha filha – disse Luc, sorrindo a Bella. – Grace, esta é Arabella Gable.
– Olá, Grace! Prazer em conhecer-te – disse à menina, sentindo-se calma e no controlo da situação.
– Olá! Prazer em conhecê-la – disse a menina, depois de examinar Bella com o olhar, sorrindo envergonhadamente.
Arabella avisou a si mesma que não devia comover-se, mas a menina era encantadora. Notava-se que tinha mais sotaque do que o seu pai.
– Muito bem, Grace – disse Luc, pondo uma mão na cabeça da sua filha.
Aquele gesto deixou claro a Bella que Luc realmente se preocupava com a sua filha, mas, ao olhar para ela, viu que a expressão da sua cara era a de uma menina infeliz.
– Luchino… e com a tua filha… – disse Maria. – Sabia… sabia que estavas em Melbourne e que tinhas aberto uma loja. Recebi a tua mensagem telefónica. Não sabia… queria… Não tinha a certeza de se devia…
– Não sabia o que esperar de mim? – perguntou Luc, encolhendo os ombros.
Fosse o que fosse o que acontecera entre Maria e a sua família no passado, parecia que ela estava muito interessada naquele parente…
– Sei que não viu nenhum membro da família durante muito tempo e não vou pedir-lhe que me explique porquê – disse Luc, com amabilidade. – Esperava que abrisse uma excepção comigo e que viesse jantar a minha casa. Eu gostaria de ter a oportunidade de a conhecer e também de que Grace conhecesse a sua tia de Melbourne.
– Oh, oh, caramba! – exclamou Maria, torcendo as mãos.
Luc aproximou-se mais do balcão e, ao mesmo tempo, ainda mais de Bella. Antes que ela pudesse inclinar-se para atrás, agarrou-lhe na mão.
– Não sei se Bella lhe terá dito, mas ela e eu temos andado a sair juntos. Conhecemo-nos em Milão há anos e, desde que vim para a Austrália, reatámos a nossa relação.
Bella sentiu-se muito culpada, mas a tia de Luc virou-se para ela, a sorrir.
– É… maravilhoso, querida!
– Na verdade, somos só amigos, Maria – disse Bella, sem pensar nas consequências. – Mas estou muito contente por você e Luchino se terem encontrado depois de tantos anos.
– É assim que lhe chamas, Arabella? Somos amigos? – perguntou Luc, avisando Bella com o olhar.
Então, aproximou-se do pescoço dela para lhe falar, num gesto aparentemente carinhoso.
– Lembra-te do acordo, Arabella, ou sofrerás as consequências se o quebrares – disse, apertando, por um momento, os seus lábios contra a curva suave do pescoço dela.
Então, virou-se e sorriu a Maria.
– Por favor, aceite o meu convite para jantar, zia. Significaria muito para nós.
– Irei. Obrigada pelo convite – disse Maria, que parecia surpreendida com a sua própria resposta, quase assustada. – Arabella pode levar-me no seu pequeno carro, para que, assim, não tenha de me preocupar com não me perder.
– Ah…! – começou a dizer Bella, a qual, normalmente, levaria Maria a qualquer lugar sem problemas, mas que não queria misturar-se no jantar privado de família. – É uma boa ideia, Maria. Mas não…
– Não queres beber e conduzir? – interveio Luc. – Muito sensato! Prometo-te que terei algo agradável para beber, mas que não seja alcoólico.
– Claro, adorarei ir! – forçou-se a dizer e a sorrir Bella, pensando que talvez não fosse uma perda de tempo, já que poderia falar com a ama e descobrir sobre o bem-estar de Grace.
– Farei tudo o que puder para me certificar de que passas uma boa noite, Bella mia – disse Luc, sorrindo a Arabella.
Bella ia dizer algo, para pôr Luchino no seu lugar por a ter chamado «Bella mia», mas ele adiantou-se.
– Às sete horas, na minha casa – disse, tirando o bloco de notas do balcão para escrever a sua morada.
Então, pôs o papel na mão de Bella, que tremeu perante o contacto dos seus dedos.
– Estou desejoso de a receber na minha casa – disse Luc à sua tia. – Obrigado por aceitar o meu convite.
– Não mereço… – começou a dizer Maria. Ao ver que a sua tia não queria continuar a falar, Luc e a sua filha partiram da loja. Bella queria perguntar a Maria o que começara a dizer, mas, ao olhar para a cara dela, decidiu que era melhor não o fazer e dirigiu a sua atenção para uma cliente que acabava de entrar.
Ao reconhecer que era uma das pessoas presentes no jantar a que tinham ido há algumas noites, sentiu um calafrio a percorrer-lhe a espinha dorsal.
– Tenho a certeza de que posso deixar-te encarregue de atender esta senhora, Arabella – disse Maria, suavemente, dirigindo-se para a porta. – Preciso… de estar sozinha.
Capítulo 5
Soou a campainha da porta. Luc respirou fundo e deu-se conta de que se sentia… nervoso. Queria agradar a Maria e que esta quisesse fazer parte da sua vida. Desde que a olhara nos olhos, sentira que havia uma ligação entre eles.
Abriu a porta e viu a sua tia no patamar: a mesma sensação voltou a apoderar-se dele.
– Bem-vinda à minha casa! Entre, por favor.
Bella estava ao lado de Maria e, ao abrir mais a porta, Luc pôde vê-la. Estava vestida com um elegante vestido verde que deixava claro o quão alta e esbelta era. Tinha umas pernas muito compridas que lhe inspiravam pensamentos não apropriados, tendo em conta que a sua tia estava diante dele.
– Bella – disse ele, num tom nada desinteressado. Então, pigarreou. – Entra.
Ela olhou para os lindos olhos escuros de Luchino e avisou-se de que não devia demonstrar como aquele homem a afectava.
– Boa noite, Luch… Luc – disse.
Pensou que pareceria estranho a Maria se ela, a sua «suposta namorada», o chamasse pelo seu nome completo.
– Aqui estamos, como… acordámos – disse, entrando na casa com a esperança de deixar muita distância entre eles ao fazê-lo.
Mas Luc não a deixou passar.
– Arabella, estás fantástica! – exclamou ele, agarrando-a pelos braços e beijando-a nas faces.
Aquilo foi tão mediterrânico, tão Luchino, tão encantador, que ela simplesmente ficou ali de pé. Então, ele deu-lhe um beijo suave nos lábios, rápido, mas sensual.
Quando se afastaram, ao olhar para ele nos olhos, pôde ver o efeito que aquele beijo também causara nele.
– Eu… Não podes… Disse-te que não quero…
Luc ignorou os protestos de Bella e cumprimentou a sua tia, dando-lhe também dois beijos nas faces. Então, afastou-se para que pudessem passar.
Ao entrar na casa de Luc, Bella sentiu uma sensação inexplicável de poder pertencer àquele lugar, mas era impossível, dado o comportamento daquele homem.
– Luc, é um prazer estar aqui para te ajudar a conhecer a tua tia – disse Bella, avisando-o com o olhar de que esperava que se restringisse a uma atitude formal naquela noite.
O olhar de Luc reflectia a paixão que sentia, mas depois de um momento assentiu, imperceptivelmente.
Ele concordava com ela. O beijo que lhe dera fora só para convencer Maria. Mas Bella não sentia o alívio que devia sentir.
– O jantar está quase pronto – disse Luc, dirigindo-se a Maria. – Venha conhecer Heather, a nossa governanta e ama.
A casa era grande e estava agradavelmente decorada. Na mesa da sala de jantar havia um bonito arranjo floral. Bella virou-se e viu que Luc estava a olhar para ela. Então, sorriu, não querendo que ele reparasse no quão confusa estava.
– As flores são do teu jardim?
– Sim. Grace e Heather cortaram-nas e arranjaram-nas.
– São muito bonitas – disse Maria, nervosa.
Quando entraram na cozinha, encontraram Grace em cima de um banco, a cortar massa com um molde com forma de canguru. Havia farinha por todos os lados. Assim que viu o seu pai, tentou descer do banco e os seus olhos reflectiram apreensão.
– Vou buscar um pano. Eu limpo isto. Heather disse que podia brincar…
– Está bem – disse Luc, aproximando-se e abraçando a sua filha.
Mas não era para tentar pará-la e a sua cara não mostrava nenhum sinal do aborrecimento que a menina parecia esperar.
– O jantar está quase pronto, piccola, portanto talvez seja melhor lavares as mãos. Se quiseres, depois podes acabar de cortar a massa. Não importa se as coisas ficarem sujas de farinha.
A pequena respirou fundo, claramente a tentar acalmar-se.
– Vou preparar-me. Não demoro – disse.
– Boa menina! – respondeu Luc.
Então, apresentou Bella e Maria à sua governanta.
Heather serviu o jantar enquanto Luc servia as bebidas. Sumo de maçã para Bella, acompanhado de um olhar atrevido que ela, embora quisesse, não conseguiu ignorar. A comida estava deliciosa.
Luc esforçou-se para impressionar Maria, contando histórias que fizeram Bella rir-se. Mas Maria, apesar da sua boa disposição, manteve-se nervosa. A filha de Luc esteve ao lado do seu pai, também calada.
Quando Luc ofereceu a sobremesa, Maria abanou a cabeça.
– Eu… foi uma noite maravilhosa, mas… receio que fiquei com uma dor de cabeça terrível.
– Levo-a a casa – disse Bella, levantando-se.
– Eu posso levar as duas – disse Luc, levantando-se e olhando para a sua tia, preocupado. – Foi algo que eu tenha feito, zia? Quero que esteja à vontade comigo.
– Não, não. És um rapaz óptimo e eu nunca pensei que tivesse… – mais uma vez, abruptamente, não acabou o que estava a dizer, levando a mão à face. – Devia ter sido eu a entrar em contacto contigo quando chegaste a Melbourne. Lamento não o ter feito. Foi uma fraqueza da minha parte evitar…
– Não importa. Não me incomoda – garantiu Luc. – Diga que voltará a ver-nos; é tudo o que preciso ouvir – disse, suavemente, mas suplicando a Maria com o olhar.
– Quero fazer parte da vossa vida – disse Maria, forçadamente. Então, dirigiu-se a Bella. – Foi óptimo ver… Luchino e a mi… e Grace, mas… realmente tenho de ir. Se não te importares, chama-me um táxi…
– Compreendo – disse Bella, que, na verdade, não compreendia nada.
Mas, se Maria precisava do isolamento que supunha um táxi para voltar para casa, ela chamá-lo-ia.
– Eu vou pedir um táxi – disse Luc.
Quando ele saiu da sala, Maria seguiu-o com o olhar e, depois, olhou para Bella com sofrimento reflectido nos olhos.
– Tantos segredos – murmurou. – Já é demasiado tarde…
– O que quer dizer? – perguntou Bella, aproximando-se de Maria. – Não compreendo.
– Chegará um táxi dentro de poucos minutos – anunciou Luc, que regressou demasiado depressa. – Maria, entretanto quer um analgésico?
– Sim, por favor – respondeu Maria, com a voz trémula.
Quando, finalmente, se ouviu a buzina do táxi, foi quase um alívio. Maria apressou-se a agradecer a Luc pelo jantar.
– Por favor, perdoa-me por ter de me ir embora. Estou… é demasiado…
– Não há nada para perdoar. Só espero que melhore depressa. Quero que esta seja a primeira de muitas outras vezes que nos vejamos, zia.
– És um homem compreensivo – disse Maria, com lágrimas nos olhos.
Luc acompanhou a sua tia ao táxi. Bella estava realmente preocupada com Maria.
– Não gostei de a mandar assim para sua casa – disse Luc, enquanto entravam novamente. – Vamos comer a sobremesa na sala, juntamente com um café.
– Não tenho muita fome – Bella apercebeu-se do perigo de estar a sós com Luc, tendo em conta que não conseguia controlar o desejo que o seu corpo sentia por ele.
Sabia que o melhor seria partir, mas, ao ver que Grace e a ama não estavam presentes, não conseguiu evitar falar sobre a preocupação que sentia pela sua chefe.
– O que pode ter acontecido no passado de Maria para que fique tão nervosa diante de um membro da sua família, depois de tantos anos?
– Não sei. Quando era pequeno, ouvi alguns cochichos – disse Luc, também muito preocupado com Maria. – Não compreendi muito, mas acho que houve um problema com um homem. Talvez um compromisso que fracassou. Ela partiu repentinamente do país.
– E nunca regressou.
– Naquela época, as coisas eram diferentes – Luc fez uma pausa. – Se se recusou a casar-se com quem os seus pais tinham em mente, talvez a família a tenha renegado.
– Talvez ter-te visto tenha feito ressurgir memórias desagradáveis. Se for esse o caso, com o tempo superá-lo-à. A pressão da sua situação económica também não estará a ajudar. Se lhe contasses a verdade, saberia que não precisa de se preocupar com o dinheiro.
– Se lhe contasse a verdade, dar-se-ia conta de que está em dívida comigo e sentir-se-ia ainda mais pressionada – Luc abanou a cabeça. – Está demasiado nervosa para suportar sabê-lo.
– Suponho que terá de esperar um pouco – disse Bella, que, embora não quisesse admitir, sabia que ele tinha razão.
Bella conseguia ouvir o som de água a chapinhar no andar de cima da casa e pensou que talvez fosse Grace a tomar banho.
– Esta tarde, encomendaram-me dois vestidos. As duas encomendas são de mulheres que assistiram ao jantar de beneficência. Uma delas também comprou um que já estava feito.
Ao dizer aquilo, sentiu como uma pequena onda de prazer lhe invadia o corpo e sorriu.
– Vendemos mais cinco vestidos a clientes habituais e amanhã combinei encontrar-me com um grupo de cinco mulheres do cruzeiro Yarra, porque querem ver vestidos.
– Isso é bom. Fico contente de o ouvir, cara mia.
Luc aproximou-se dela, a qual foi incapaz de se mexer. Perguntou-se se ia beijá-la. Olharam-se nos olhos e uma parte dela desejava que o fizesse, mas, então, abanou a cabeça e afastou-se.
– Tenho de ir. É tarde e ainda demoro a chegar a minha casa.
– Na verdade, é cedo – assinalou Luc, observando-a.
Naquele momento, ouviram-se passos nas escadas e, ao olhar para elas, Bella, aliviada, viu Grace com a sua camisa de dormir. A menina hesitou sobre o que fazer, mas, então, desceu as escadas e abraçou-se às pernas do seu pai, largando-o rapidamente.
Luc deu algumas palmadinhas nas costas da sua filha; parecia que não queria afastar-se dela.
– Está na hora de ires para a cama? Leio-te uma história antes de adormeceres?
– Se não te incomodares – disse a menina, com expectativa reflectida no olhar, deixando claro que aquilo era uma rotina naquela casa.
– Uma história parece-me óptimo – disse Bella, a quem pareceu adorável que um pai lesse à sua filha.
Os seus pais nunca lhe tinham lido histórias, nem às suas irmãs, quando eram pequenas.
– Vou-me embora, portanto o teu pai poderá subir para te ler a história, Grace.
– Não tens de partir. Podes ficar enquanto me lê a história – disse a menina, aproximando-se de Bella. Olhou para o seu pai. – Gostas muito de Bella, não é, papá? Se gostas dela, como a outra não quis ficar comigo, talvez ela possa ser a minha nova mamma.
Criou-se um silêncio tenso e Bella perguntou-se se fora aquilo que Luc dissera à sua filha, que a sua mãe não a queria.
– A sua mãe deixou-a? – perguntou a Luc, olhando acusadoramente para ele.
Mas parecia que Luc não a ouvira. Tinha toda a sua atenção centrada na sua filha.
– Eu quero ficar contigo, Grace – disse, aproximando-se da sua filha e pegando-lhe ao colo. Deu-lhe um beijo na cabeça. – Já te disse que a ama na Itália não devia ter-te falado daquela maneira da tua mamma. E eu querer-te-ei sempre, para sempre.
– Sim, papá.
– Nós conseguimos viver perfeitamente sem uma mamma – disse, num tom muito doce. – No ano que vem, vais começar a escola e estarás muito ocupada.
Grace assentiu e desceu dos braços do seu pai, aproximando-se novamente de Bella.
– Não tens de ser a minha mamma. Já comeste algum merengue? Eu fui comer um antes de tomar banho.
– Às vezes, como merengues, mas esta noite não o fiz. Acho que a minha irmã, Chrissy, gostaria. Está grávida e parece que quer sempre comer coisas que tenham limão.
Pareceu que Grace pensou naquilo durante um longo momento e depois dirigiu-se ao seu pai, com o qual falou rapidamente em italiano.
Luc parecia contente e Bella teve de admitir que não aparentava ser um monstro que não se preocupava com a sua filha.
– Fá-lo-ei, Grace – disse Luc. – Mas, da próxima vez, se não estivermos sozinhos, pede-me em inglês.
– O meu pai vai dar-te merengues. Se não quiseres comê-los, talvez a tua irmã queira.
– Volto já – disse Luc, dirigindo-se para a cozinha.
– Que amável da tua parte! – exclamou Bella à menina, forçando-se a sorrir.
A menina assentiu, mas, assim que Luc foi para a cozinha, não se conteve.
– A minha ama na Itália disse-me que a minha mamma era muito bonita e que usava uns vestidos muito bonitos. Tu és muito bonita e tens vestidos bonitos.
– Querida… Lamento – Bella quis abraçar a menina, mas recordou-se que não era uma das suas irmãs e não tinha a certeza de querer passar por tanto sofrimento novamente.
– A minha mamma partiu quando eu era bebé e eu fiquei com o meu pai depois disso. Mas ele também partiu – disse Grace, com a boca trémula. – Deixou-me com uma ama e, quando ia visitar-me, acho que eu não o fazia feliz. Simplesmente, está a cuidar de mim porque fugi. Mas, um dia, ele voltará a partir.
– Ele… ele não o fará. Não te fará isso, Grace. Quantos anos tinhas quando fugiste?
– Acho que tinha cinco anos, mas agora sou uma menina grande. Tenho seis anos.
Aquilo fez com que Bella estivesse prestes a sorrir, mas, em seguida, ficou sem vontade ao dar-se conta de que a menina estava com o seu pai há pouco tempo.
– Talvez devesses ir para a cama – disse Bella, pondo uma madeixa de cabelo atrás da orelha da pequena.
Não devia ter-lhe tocado, já que, ao fazê-lo, sentiu como lhe doía o coração.
– Estão muito sérias. Do que estiveram a falar? – perguntou Luc, franzindo o sobrolho.
Trazia uma caixa de plástico numa mão e tentou fingir não se aperceber da atmosfera tensa que se respirava.
– Estávamos a falar de… merengues – disse Bella, para dissipar os medos de Grace.
– Os merengues estão muito bons – disse Luc, acariciando o ombro da sua filha. – Agora, vai para cima e mete-te na cama. Já subo para te ler a história.
Grace começou a subir as escadas a correr, mas, ao chegar a meio, parou e assinalou a caixa de plástico que o seu pai trazia na mão.
– Espero que tenhas posto muitos – disse, virando-se e subindo o resto das escadas.
Então, Bella preparou-se para enfrentar Luc. Estava furiosa.
– Não provoquei a situação, Luchino, mas a tua filha escolheu confiar em mim quando foste à cozinha.
– O que te disse?
– Grace disse-me que a deixaste com uma ama e que ela fugiu para tentar fazer-te feliz, já que, quando a vias, davas a impressão de estares infeliz.
Parecia que Bella cravara um punhal no coração de Luc ao dizer aquilo, mas isso não a deteve, já que via reflectido naquela menina todo o sofrimento pelo qual ela e as suas irmãs tinham passado.
– Arrancaste esta pobre menina à sua mãe para depois a abandonares e só quiseste ficar com ela depois de fugir. E convenceste-a de que a sua mãe não a queria!
Luc esboçou uma expressão dura. Tinha a dor reflectida na cara, mas disfarçou-a.
– A mãe de Grace não a quis. A minha filha nunca deveria ter sabido disso, mas a ama que teve em Itália contou-lhe.
– E o resto? – conseguiu perguntar Bella, com muita dificuldade.
– Qual é o motivo desta repentina consciência social, Arabella? Quando partiste do meu lado em Milão, para ires para a cama com o organizador do espectáculo, este tipo de coisas não te preocupavam. Decidiste que ele era um partido melhor, ele convinha-te mais para a tua carreira, portanto deixaste o pobre tolo da «Família dos Diamantes» e seguiste em frente.
– Do que estás a falar? – perguntou ela, empalidecendo.
Ninguém sabia nada daquele episódio horrível que acontecera no quarto do organizador do espectáculo, mas estava claro que Luc sabia e que tirara as suas próprias conclusões.
– Vi-te sair do seu quarto naquela noite, corada e despenteada. Era óbvio o que tinha acontecido.
Mas o que, na realidade, acontecera fora uma discussão para preservar a sua inocência e indignou Bella que ele pudesse pensar uma coisa tão horrível dela.
– O organizador levou-me para o seu quarto, dizendo-me que havia uma festa. Noutras circunstâncias, não teria ido, mas estava triste e não queria estar sozinha. Pensei que todas as modelos estariam ali.
– O que estás a dizer? – perguntou Luc, desconfiado.
– Ouviste-me – disse Bella, certa de não conseguir convencê-lo. Na verdade, não tinha de o convencer de nada.
– Então, porque tinhas aquele aspecto? – perguntou ele, empalidecendo e apercebendo-se do que acontecera. – Tentou fazer-te mal? Dio!
– Sim – respondeu Bella, que odiava falar sobre aquilo. – Consegui fugir, mas não sem ter de lutar.
Luc parecia perdido, impressionado.
– Lamento – murmurou. – Isto muda tudo o que pensei de ti naquela noite.
– Acho que, agora que sei o que andaste a pensar de mim durante este tempo todo, talvez deva devolver-te o favor – parou para respirar fundo. – Perguntava-me se a tua filha estaria marcada pelo teu abandono. Agora, sei a resposta. O que fizeste é imperdoável. Se antes pensava que tinha razões para não gostar de ti, agora…
– Grace é um assunto meu – disse Luc, aproximando-se dela. – Um assunto meu, Arabella, não teu. Talvez tenha ficado impressionado com a tua revelação, mas…
– E quanto tempo vais ficar com ela, até te cansares dela e a deixares outra vez? Há departamentos governamentais que garantem a segurança das crianças – não conseguiu evitar dizer.
– Se fosse a ti, parava já! – avisou Luc, enfurecido. – Parava agora mesmo.
– A tua filha fugiu porque a fizeste muito infeliz. Nega-lo? – atreveu-se a prosseguir Bella.
– Agora está segura – disse Luc, sem negar nenhuma das acusações feitas por ela.
Mas Bella queria que ele se explicasse e que, de alguma forma, tentasse resolver aquilo.
– Grace é muito infeliz…
– Sim, e eu fi-la sentir-se assim – reconheceu Luc, com a fúria reflectida nos seus olhos escuros. – Mas tens de saber uma coisa. Eu amo a minha filha, não voltarei a magoá-la e matarei qualquer pessoa que tentar tirar-ma. Está claro, Arabella?
Confusa, zangada e ameaçada, Bella virou-se.
– Se o dizes a sério, tens de falar com a tua filha para a ajudares a acreditar que não vais voltar a abandoná-la.
– E tu, Arabella? O que achas de mim? – perguntou ele, como se não lhe importasse. Mas o brilho dos seus olhos dizia o contrário.
– Se conseguires amar a tua filha, fico contente. Sei que tenho de trabalhar contigo até vender vestidos suficientes para te convencer a deixares-me em paz. Mas, à parte disso, não quero pensar mais em ti, não quero ter-te em conta, nem aperceber-me de que existes.
Capítulo 6
– Estás preocupada – disse Chrissy, enquanto saíam do escritório de Luchino, na sua joalharia. – Às vezes, escondes muito bem as coisas, mas conheço-te. Conseguia sentir o teu aborrecimento, mas também a tua infelicidade. Aconteceu algo? Porque ainda posso pedir a Nate para que te ajude a sair disto tudo. Ele fá-lo-ia por ti, Bella, sem perguntar nada.
– E ficar ligada às suas finanças durante anos? – perguntou Bella, que, em parte, queria dizer que sim, mas que não podia pedir aquele favor ao seu cunhado. – Obrigada pela oferta, mas tenho de resolver isto sozinha.
– Não tens de o fazer sozinha, sabes disso – disse Chrissy, esboçando um sorriso triste. – Não tens de provar nada, nem de proteger ninguém, excepto tu própria. E podes resolver esta situação da maneira que escolheres.
– Nunca me arrependi de nada – confessou Bella, que queria que a sua irmã soubesse aquilo. – Soph e tu salvaram-me. Sem as minhas irmãs… – teve de parar e engolir em seco.
– Então, diz-me o que aconteceu. Soph está preocupada contigo, mas diz que não falas sobre isso.
– Tive uma desavença com Luchino – explicou Bella, a quem parecia impossível que só tivessem passado alguns dias desde que acontecera. – Num dado momento… ameacei levar a situação da menina às autoridades e, então, descobri… – começou a falar mais baixo – que ele pensava que eu tinha ido para a cama com o organizador do espectáculo.
– Anda a fazer mal a Grace? – perguntou Chrissy, a sussurrar, mas com fúria reflectida no olhar. – E atreveu-se a pensar isso de ti?
– Não anda a magoar fisicamente Grace – esclareceu Bella, que, desde a desavença com Luc, tivera tempo para pensar. – Mas Grace acha que ele vai abandoná-la novamente, que é só uma questão de tempo. E em relação àquela última noite em Milão, acho que o que lhe contei o impressionou.
– Merece que o impressionem! Abandonará novamente a sua filha?
– Não… não sei – respondeu Bella, cujo coração lhe dizia que não o faria, mas a sua cabeça perguntava-se porque não. – Estou tão confusa, Christianna. Não sei.
Chrissy apertou-se contra a sua irmã, num gesto de solidariedade.
– Não estás sozinha. Soph, Nate e eu estamos aqui. Se ele fizer algo para te magoar…
– Soph bater-lhe-á com uma escova de cabelo até o matar? – Bella sorriu, contrariada. – Isso quase já aconteceu. Mas fico contente que estejam aqui.
Quando Luc decidira fazer uma festa, à qual só se podia assistir com convite, sob o nome «Desenhos de Bella e Desenhos de Luc», Bella convidara apenas a sua família e dissera a Luc que vê-la e às suas irmãs com os vestidos triplicaria o seu efeito.
– Soph adiantou-se para inspeccionar a multidão que há na loja e Nate ainda está no escritório com Luc. Acho que também devíamos entrar na loja.
– Claro! O quanto antes isto acabar, melhor – disse Bella, acariciando as pérolas e diamantes que usava ao pescoço. – Espero que estejam bem presos, porque não quero perder nenhum.
Chrissy tocou nas jóias que também usava e riu-se.
– Pensei que Nate ia explodir quando Luc tentou que trocasse a minha gargantilha por este colar.
– Acalmou-se quando Luc explicou que ajudaria no sucesso do evento.
Então, o ruído de uma porta atrás delas avisou-as de que os homens estavam prestes a aparecer.
– Recorda-te que estamos aqui. Somos as três irmãs, sim? Todas por uma e essa história toda. Estamos juntas – recordou Chrissy a Bella, olhando para ela nos olhos.
– Como os grãos de arroz num dos risottos de Sophia – disse Bella, a sorrir.
Mas o seu sorriso desvaneceu-se ao ver os homens aparecerem atrás delas.
O marido de Chrissy agarrou-a pelo braço e Luchino olhou para Bella.
– Bella.
– Está na altura de irmos relacionar-nos com os convidados e de os impressionarmos com as jóias Montichelli e com os vestidos desenhados por Bella – disse Bella, desejosa de fugir da tensão que havia entre eles. Dirigiu-se para a festa. – Quanta mais gente comprar vestidos, melhor.
– Sim, devemos entrar, mas fá-lo-emos juntos – disse Luc, agarrando-a pelo braço para a conduzir.
Só com aquele gesto ela sentiu como o seu corpo reagia.
– Temos de parecer unidos aos nossos convidados, Arabella.
Quando olhou para ela nos olhos, Bella pôde ver a frustração que os dele reflectiam.
– Tinha começado a confiar um pouco em ti, até que ouvi dos próprios lábios da tua filha a dor que sentia. Agora, nunca mais o farei.
– Porque te importa tanto, Arabella? Não é a tua filha. Muitas mulheres… nem sequer se importam.
– E eu estou nos primeiros lugares da lista de mulheres que não se importam, porque só penso em dinheiro e em mim? – perguntou Bella, que, sim, pensara no dinheiro… em ter o suficiente para sobreviver!
– Sei que interpretei mal o teu comportamento naquela última noite em Milão – disse Luc. – Mas a maneira como usaste Maria demonstra a tua… natureza ambiciosa. Pretendo que agora faças o que é correcto para a minha tia e, na verdade, é só isso que importa. Portanto, vamos dar início ao espectáculo. Parece-te bem, querida?
– O que for necessário para apressar o meu afastamento de ti.
Durante a festa, procurou a filha de Luc entre os convidados.
– Estás à procura de uma via de escape, Bella? – perguntou Luc, de maneira delicada, ao ouvido dela.
– Não. Não estou a fugir de nada. Estou a desempenhar o meu papel – disse, aproximando-se de um grupo de gente, sorrindo e explicando-lhes o privilégio que supunha para ela poder combinar os seus vestidos com as jóias Montichelli.
Então, Luc deixou-a a sós. Bella deveria ter-se alegrado, mas a noite pareceu-lhe interminável.
Num dado momento, Chrissy aproximou-se dela para a informar de que Nate, Soph e ela iam partir. Voltou a abraçar a sua irmã.
– Soph tem uma marcação para arranjar o cabelo à nossa senhoria. Se for algo radical, que Deus nos ajude! Mas, se quiseres, Nate e eu podemos ficar mais tempo. Só que dissemos a Soph que a levaríamos ao apartamento e doem-me um pouco as costas.
– Não, obrigada. Eu fico bem. Isto está quase a acabar e, então, também poderei partir – Bella abraçou a sua irmã.
Naquele momento, Soph aproximou-se e também a abraçou.
– Vai para casa e descansa os pés, Chrissy. Fico contente por terem participado nisto comigo. Significou muito para mim saber que estavam aqui para me apoiarem.
Juntamente com as suas irmãs, também partiram muitos dos convidados.
Viu Luc a falar com um grupo de homens que ela suspeitava estarem a fazer encomendas de jóias para as suas esposas.
Então, viu Grace e a sua ama a entrarem na loja. A menina ficou muito séria ao ver o seu pai. Dirigiu o seu olhar para onde Bella estava e a sua cara iluminou-se. Aproximou-se dela.
– Pensei que, talvez, chegássemos demasiado tarde para te ver – disse Grace, olhando para o vestido e para as jóias de Bella. – Oh, oxalá me parecesse contigo! – a menina suspirou.
Aquilo provocou o sorriso de Bella.
Os convidados partiram e Luc fechou a porta, e Bella sentiu-se encurralada.
– Deixa-me devolver-te as jóias e vou-me embora – disse, aproximando-se de Luc.
– Pensei que talvez pudéssemos comemorar o sucesso da noite, indo jantar fora – disse Luc, olhando para a sua filha. – O que te parece o Papa’s Pizza? – então, olhou para a ama. – Não sei se já esteve lá. É uma pizaria com um jardim na parte traseira. Podemos sentar-nos no terraço, enquanto Grace brinca nos baloiços.
Bella começou a tirar as jóias. Tinha de sair dali… naquele preciso momento!
– Bella irá connosco? – perguntou Grace, tocando no vestido desta.
– Tenho a certeza de que o teu pai não pretendeu incluir-me – disse Bella.
– Esta tarde, trabalhaste muito duro para ajudares a vender, não só os teus vestidos, mas também as minhas jóias. Eu gostaria de te agradecer com um jantar, embora seja muito simples. E como a minha filha gostaria de te ter lá…
– Não tens de me agradecer…
– É uma ideia encantadora, senhor Luc, mas pergunto-me se me poderiam desculpar – disse Heather. – Sei que até amanhã não tenho tempo livre, mas a minha irmã está um pouco doente… tem uma infecção no ouvido e parece que não responde ao tratamento. Eu gostaria de ir visitá-la… se lhe parecer bem.
– Certamente! – concedeu Luc, sem hesitar.
– Se Heather não for, o que acontece comigo? – perguntou Grace, olhando, preocupada, para o seu pai e dando-lhe a mão, como se soubesse que ali encontraria conforto.
– Se Heather não for, isso simplesmente significa que será o teu papá a cuidar de ti, o mesmo que acontece quando ela está de folga – disse Luc, de maneira calma, dando um beijo na mão da sua filha.
– Portar-me-ei muito bem, papá – parecia que a menina estava desejosa de lhe agradar.
– Inclusive se te portasses muito mal, Grace, amar-te-ia e desejaria que estivesses comigo.
Aquela promessa chegou ao coração de Bella. Não era justo que dissesse aquilo quando deixara a sua filha sozinha durante tanto tempo. Ia desculpar-se para não ir ao jantar, mas, de soslaio, viu a expressão de vulnerabilidade que reflectia a cara de Grace.
– Irei convosco. Será agradável. Não como piza há imenso tempo.
Meia hora depois, sentaram-se no jardim traseiro da pizaria. Pareciam uma família.
O próprio dono do restaurante aproximou-se da sua mesa, deu-lhes as boas-vindas e sugeriu-lhes o que comer.
– Queres pão de alho e piza, Grace? – perguntou Luc à sua filha. – Se quiseres, podes comer outra coisa. Fettuccini, lasanha, sopa minestrone…
– Piza, por favor. Il mio papa – disse a menina, aproximando-se do seu pai e sussurrando-lhe. – Sei que gostarei dessa.
– Então, piza – disse Luc, pondo uma mão por cima do ombro da sua filha.
Bella, que não falava italiano, supôs que o nome da piza que Grace escolhera significava algo como «o meu papá» e intuiu que chegara ao coração de Luc.
Perguntou-se se a menina teria começado a confiar no seu pai e se este se tornaria merecedor dessa confiança.
Luc olhou para Bella e perguntou-se porque a teria forçado a vir com eles. Não parecia que estivesse muito contente e podia adivinhar que ele era a razão. Mas à esquerda de Arabella tinha a resposta; Grace sentara-se ao seu lado a meio da noite e, naquele momento, estava adormecida, apoiada nela. Bella estava a acariciar-lhe o cabelo. Pela sua filha, ele faria o que fosse necessário.
– Parece que falta pouco tempo para a tua irmã dar à luz – disse Luc, para se distrair dos seus pensamentos.
– Falta pouco mais de um mês para Chrissy chegar ao fim do tempo – disse Bella, olhando para Grace com culpa.
– Não acordará – disse Luc.
Recordou que Grace dormia como o seu próprio irmão, Dominic, profundamente.
– Certamente, o parto da tua irmã decorrerá sem problemas.
Luc recordou outro parto e a alegria que sentira, mas à qual se seguira uma grande infelicidade. Tentara ser um bom pai e marido, mas falhara.
– Alegra-te a gravidez da tua irmã?
– É magnífico para Chrissy. Andei a fazer roupinha de bebé durante meses – respondeu ela, encolhendo os ombros e com indiferença reflectida no olhar.
As palavras de Bella não foram capazes de esconder a inquietação que talvez ela achasse capaz de esconder.
– Hoje, portaste-te bem na loja – disse ele, levantando-se. – E obrigado por nos acompanhares no jantar. Grace gostou muito. Por favor, agradece também às tuas irmãs.
– Ambas se divertiram com a oportunidade de se arranjaram e de usarem as tuas jóias.
– Devíamos ir-nos embora – disse, pegando na sua filha ao colo. Quando chegaram aos carros, pôs a menina no seu.
De repente, sentiu-se muito só e quis abraçar Bella, para assim encontrar consolo. Mudara a sua opinião acerca dela e não sabia o que ia fazer com o sentimento que o invadia.
Bella virou-se para partir, mas ele agarrou-a pelo pulso, largando-a quase imediatamente. Queimara-o tocar-lhe e ter-se dado conta de que precisava de muito mais do que aquilo.
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