Read the book: «Casamento de compromisso»

Editado por Harlequin Ibérica.
Uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.
Núñez de Balboa, 56
28001 Madrid
© 2002 Emma Darcy
© 2019 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.
Casamento de compromisso, n.º 696 - setembro 2020
Título original: The Honeymoon Contract
Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd.
Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial. Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.
Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência.
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I.S.B.N.: 978-84-1348-574-4
Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.
Sumário
Créditos
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
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Capítulo 1
Matt King tinha passado um dia maravilhoso, a navegar nas águas límpidas do rio Trully com os seus amigos. Era bom ser solteiro e descomprometido, livre para se aproveitar de diversões e jogos à hora que quisesse. Aos trinta anos, Matt calculou que ainda tinha mais alguns anos, antes que o casamento se tornasse um item sério na sua agenda, e não estava disposto a ser vítima de nenhum plano da sua avó para o levar ao altar.
A actividade do dia fora uma desculpa perfeita para não aparecer no almoço de domingo que ela organizara, com a proposta de apresentar a sua mais recente protegida à família. Matt sabia que estava apenas a prorrogar o inevitável. Mais cedo ou mais tarde, teria de conhecer aquela tal Nicole Redman.
Seria difícil evitá-la por seis meses inteiros, uma vez que fora contratada para escrever a história da família e ficaria hospedada no Castelo King enquanto durasse o projecto. Entretanto, ele estava determinado a não cair na armadilha da sua avó.
O telefone tocou quando Matt estava prestes a acomodar-se para ver um pouco de televisão antes de ir para a cama. Sentindo-se em paz consigo mesmo e satisfeito pela pequena fuga do dia, sorriu quando ouviu a voz da avó do outro lado da linha.
– Ah! Estás a salvo em casa, Matteo – disse ela, mostrando a sua desaprovação sobre desportos perigosos que punham a vida em risco sem uma boa razão.
– Sim, avó. Tive cuidado para não partir nenhum osso – brincou.
– Mais por sorte do que por cuidado – resmungou ela antes de ir directamente ao assunto da chamada. – Vais estar no escritório da tua empresa de autocarros de turismo amanhã cedo?
Tem alguma coisa planeada, pensou Matt. A avó conhecia muito bem a rotina do seu trabalho. Metade da semana, ele supervisionava as plantações de frutas exóticas, mas as segundas e as sextas-feiras eram gastas com a companhia de transportes que, tinha orgulho de dizer, era fruto apenas do seu trabalho.
– Sim – replicou ele, esperando pela verdadeira intenção da pergunta da avó.
– Óptimo! Enviarei Nicole. Quero que lhe dês uma autorização para que possa viajar em qualquer um dos seus autocarros de turismo sem pagar o bilhete.
– Ela não tem carro? – perguntou Matt secamente, sabendo que estava prestes a ser apanhado na armadilha, mesmo que protestasse.
– Sim. Mas os autocarros de turismo dar-lhe-ão uma visão mais ampla da área que terá de pesquisar, e os seus motoristas podem dar-lhe resumos de histórias enquanto dirigem.
– São mais coscuvilhices do que factos, avó. O objectivo é entreter, não fornecer informações.
– Isso acrescenta um certo sabor, que é especial no extremo norte de Queensland, Matteo. Uma vez que Nicole não está familiarizada com o Porto Douglas e os seus arredores, não vejo isso como um desperdício de tempo.
– Que pena não teres contratado alguém local, assim não terias de começar do zero – advertiu ele.
– Nicole Redman tinha as qualificações que eu queria para este projecto.
– Nada supera o conhecimento local – argumentou, suspeitando que as qualificações tinham muito pouco a ver com escrever uma história de família.
Ele estava bem atento aos «joguinhos» de encontros arranjados pela sua avó. Os seus dois irmãos mais velhos não tinham conseguido escapar e lá estavam eles, lindamente casados com as noivas, que pensavam ter sido escolhidas por eles.
Não que Matt tivesse algo contra elas. Gina e Hannah eram óptimas pessoas. Porém, agora sabia que tinham sido escolhas da sua avó para Alex e Tony, antes mesmo deles as terem conhecido.
Felizmente ele tinha ouvido por acaso a conversa triunfante com Elizabeth King no casamento de Tony, além da proclamada esperança de que ela seria capaz de encontrar uma esposa adequada para o seu terceiro neto. Matt desconfiava que Nicole Redman era a candidata seleccionada.
Ela provavelmente não sabia daquilo, assim como ele também não deveria saber. Mas isso não mudava o jogo. A chegada da rapariga à cena familiar, repetia o modelo anterior da sua avó, empregando uma mulher jovem que acabaria por casar-se com um dos seus netos. Uma vez que ele era o único que permanecia solteiro…
– Muitas pessoas podem fazer pesquisas e escrever uma lista de factos, Matteo – declarou ela em tom de desdém. – Mas ter a habilidade de contar uma história de maneira envolvente é outra coisa. Realmente não quero um livro amador. Isto é importante para mim.
Aquilo era puramente Isabella Valeri King… que não gostava de ser contrariada. Mesmo aos oitenta anos de idade, ainda era uma personagem formidável e Matt amava-a e respeitava-a demasiado para não ceder… um pouco.
– Desculpa-me, avó – pediu ele, rapidamente. – Sabes bem o que queres e se uma autorização de livre trânsito a ajudar no projecto, ficarei muito feliz em fornecê-la.
Aquilo só lhe tomaria um minuto. Uma breve reunião durante o horário de trabalho, sem nenhuma obrigação social envolvida, serviria para satisfazer a sua curiosidade sobre o que tornava Nicole Redman tão adequada para ele aos olhos da sua avó.
– Pensei que a pudesses suprir com mapas rodoviários que ela necessitará quando se resolver aventurar por si mesma. Explicar-lhe as várias áreas de interesse familiar, e qual a melhor forma de lá chegar.
Matt pôde ver o minuto esticando-se para meia hora, mas não tinha meios de recusar a solicitação razoável.
– Certo. Deixarei os mapas prontos para ela. – Com todas as plantações marcadas, do Cape Tribulation ao Innisfail. Aquilo economizaria tempo e evitaria uma maior proximidade dos dois, a qual a sua avó estava indubitavelmente a conspirar.
– Obrigada, Matteo. Quando seria mais conveniente que Nicole chegasse aí?
Nunca. Suprimiu o impulso de falar e respondeu:
– Oh, digamos, dez e meia?
A ligação terminou com aquele consentimento e, por um tempo, ele meditou sobre quão esperta era a sua avó, mantendo-se estritamente nos negócios, sem nenhuma pista de estar a tentar favorecer um encontro pessoal, nem mesmo um comentário sobre Nicole Redman como pessoa, simplesmente a pressionar um encontro com razões puramente comerciais.
Poderia ele estar enganado sobre a conspiração?
Não, aquele era o modo de acção de Isabella.
Tinha surgido com Gina Terlizzi, uma cantora de casamentos, justamente quando Alex estava a planear casar-se com uma mulher da qual a sua avó não gostava. Com razão, Matt tinha de concordar. Ele também não gostara de Michelle Banks e estava feliz por Alex a ter trocado por Gina. Apesar de ter sido a mão de Isabella que produziu o resultado desejado.
Então armara uma armadilha bem organizada para Tony, escolhendo Hannah O’Neill para ser a nova chefe de cozinha do seu catamarã, Duquesa. Independentemente da sua qualificação questionável para ser uma cozinheira. Tony cometera o erro de dar à avó a tarefa de entrevistar as candidatas para chefe de cozinha e optar, o que lhe permitiu presenteá-lo com um caso encerrado que selou o seu destino. Era impossível ignorar as outras qualificações de Hannah quando estas estavam inexplicavelmente diante dele. Tony apaixonara-se imediatamente.
Duas protegidas casaram-se com os seus dois irmãos.
A terceira estava a vir.
Nicole Redman só podia ser o alvo da sua avó. A única dúvida era… que armas tinha ela para o arrastar para o altar? Aquilo adicionou um interesse picante à reunião da manhã seguinte.
Riu-se, confiante, enquanto ligava a televisão.
Independentemente do que fosse aquilo, ele estava inume. Não tinha uma lua-de-mel ligada ao contrato de Nicole Redman com a sua avó. Matt não estava pronto para se casar e ponto final!
Capítulo 2
Nicole parou no último degrau da escadaria que descia para a rua Wharf e olhou para trás, avistando o castelo dos King e maravilhando-se com o facto de um lugar daqueles ter sido construído ali há tantos anos atrás.
O extremo norte de Queensland era muito longe de Roma. Entretanto, Frederico Stefano Valeri, pai de Isabella, certamente tinha empregue a sua herança italiana quando construiu aquele impressionante palacete no topo da montanha, com vista para o Porto Douglas.
Lar e família, pensou Nicole, recordando-se dos dois netos que conhecera no dia anterior, ambos passando a certeza de que cuidariam de qualquer problema que aparecesse. O sentido de herança e tradição familiar estava demasiado vivo neles, nutrido, sem dúvida, pela extraordinária avó. Seria interessante ver se o neto mais jovem se encaixava nos mesmos moldes.
Três irmãos, Alessandro, António, Matteo, carregando o passado para o futuro, dando continuidade aos negócios que tinham sido começados por Frederico quando deixara a Itália em busca de uma vida nova na Austrália, em 1906. Uma família fascinante, com uma história fascinante e um presente igualmente fascinante, decidiu Nicole, virando-se do castelo para continuar a caminhada até ao escritório da King Turismo.
Eram apenas dez horas da manhã, mas o calor já estava a atravessar o seu chapéu de palha. Era muito fácil apanhar uma insolação nos trópicos. Ela tinha sido avisada, e mantinha-se sob a sombra das árvores que margeavam a rua, enquanto descia preguiçosamente a montanha para o principal centro comercial.
De pele clara, usava protector solar nos braços, pernas e rosto para se proteger contra as queimaduras de sol. Ser ruiva tinha desvantagens num país devotado ao sol e cheio de espaços ao ar livre.
Felizmente, sempre amara os livros. Ler e escrever eram os seus grandes prazeres. Estar num ambiente fechado nunca fora um sofrimento, e o facto de ter vivido com o seu pai nos últimos anos da sua vida, deixara-a com o hábito de ser uma pessoa noctívaga. Hábito que teria de mudar enquanto estivesse a trabalhar com Isabella Valeri King.
Contudo, havia um brilho especial nas manhãs em Porto Douglas, uma magia na alvorada sobre o oceano, um tipo de luz que deixava as cores mais vibrantes.
Tudo era diferente. O ritmo desacelerado da cidade, sem agitação e tumulto, o calor do dia seguido por uma inacreditável pancada de chuva na maior parte das tardes. Aquilo estimulava um recado da natureza e a necessidade de viver em harmonia com ela.
Nicole sentia-se muito longe da vida urbana, como se se tivesse mudado para um outro mundo, que funcionava dentro de parâmetros totalmente próprios. Era um mundo muito atraente, que poderia facilmente transformar-se num vício.
Ali estava ela, a andar num ritmo preguiçoso, sandálias baixas calçadas, um vestido amarelo sem mangas que deslizava pelo seu corpo, mínima lingerie, um chapéu de palha na cabeça, exibindo um grande girassol, e não se importava com o que as pessoas pudessem pensar dela. Nenhum estudante para ensinar, nenhum colega académico empurrando-lhe agendas políticas, nenhuma crítica sobre o livro que ela escrevera sobre a vida do seu pai.
Liberdade…
Nicole sorriu, feliz com a sensação. Era como estar a começar uma vida nova, embora nos próximos seis meses tivesse de pesquisar vidas passadas, a escrever uma história. Mas era uma história que não vivera e sobre uma família que tinha sofrido e sobrevivido, e que ainda possuía sucesso. O tipo de família que ela não tinha e que nunca conhecera. Outra atracção… descobrir como era, na verdade, pertencer a um lugar, ter raízes profundas.
Andou pela rua Macrossan até encontrar o Edifício King, onde Alessandro, Alex, como todos o chamavam, excepto a sua avó e Rosita, a velha e maternal governanta italiana do castelo, geria investimentos e desenvolvimento de propriedades, assim como lidava com todos os negócios ligados às plantações de cana.
Mais para baixo, na rua Wharf, estava a marina onde António, Tony, operava a linha de catamarãs King Cruzeiros, levando turistas para o recife Great Barrier. Aquela era a sua empresa pessoal, mas também cuidava das plantações de chá, que pertenciam à sua família. Nicole pretendia conhecer o escritório da empresa King Cruzeiros, depois da reunião com Matteo, Matt.
Virou na rua Owen, a qual conduzia ao escritório principal da King Turismo. A companhia de transportes era uma ideia de Matt e um dos tours que ele fazia era para a sua fazenda de frutas exóticas, uma extensão das plantações de frutas tropicais que era a sua responsabilidade nos negócios da família.
Era interessante que nenhum dos três irmãos tinha simplesmente aceite as suas heranças e contentado em viver delas. O que podiam ter feito, devido à prosperidade de todas as plantações. Claro, variedade era sempre uma situação saudável em qualquer negócio financeiro, mas Nicole suspeitava que o sangue pioneiro corria fortemente nas veias daqueles homens. Talvez fosse o desafio de perseguir mais coisas que os impulsionava.
Certamente Alex e Tony King eram diferentes de todos os homens de cidade que ela conhecera. Eram muito civilizados, educadíssimos, e ainda tinham uma masculinidade que era, de alguma forma, mais agressiva. Nos olhos da mente, Nicole podia ver os dois a lutar, ombro a ombro, emanando a atitude de que nada os iria derrubar. Talvez fosse pura imaginação, mas aquela era a impressão que tivera deles.
Será que o terceiro irmão era como os outros dois?
Foi com essa pergunta em mente que Nicole entrou no escritório da King Turismo. Um rapaz de rosto puro, perto dos vinte anos, estava sentado numa enorme mesa em forma de «L». Levantou os olhos da papelada de trabalho, olhou-a rapidamente e esboçou um sorriso de boas-vindas.
– És a menina Redman?
– Sim.
Ele apontou para a porta que ficava ao lado da sua mesa.
– O chefe está aí no escritório. Separou todos os mapas para ti. – Os olhos azuis piscaram, como se aquela informação reflectisse alguma piada particular. – Eu mesmo marquei os locais de interesse principais, para não se perder – acrescentou ele, fazendo com que Nicole se perguntasse se ele fora informado de que ela era a navegadora mais perdida do mundo.
O rapaz abriu-lhe a porta.
– Menina Redman – anunciou, antes de ela sequer pensar em tirar o chapéu.
Tudo aconteceu tão rápido que Nicole se viu dentro da sala de Matt King, com o chapéu ainda na cabeça e o bom sentido completamente disperso por estar a confrontar o homem. Não como Alex. Nem como Tony. Aquele irmão era absurdamente bonito, extremamente sexy. Matt era uma obra-prima.
Os cabelos eram negros, brilhantes e encaracolados, um convite atormentador para serem tocados. Os cílios longos e espessos destacavam os olhos cor de chocolate. E a pele cor de jambo parecia ser tão macia, que os dedos de Nicole formigaram de desejo de deslizar por ela. E, acima de tudo, um corpo de tirar o fôlego.
Ele saiu de trás da mesa, alto, grande, vestindo uma camisa azul desportiva e umas calças de sarja azul-marinho, dentes brancos a cintilar, e Nicole sentiu como se cada gota de oxigénio se estivesse a esvair dos pulmões. O coração disparou no peito. Foi o puro instinto de defesa que a fez levantar as mãos, tirar o chapéu e colocá-lo à sua frente, como uma barreira contra o impacto da aproximação dele.
A acção fê-lo parar e as faces de Nicole coraram de vergonha. Que coisa desajeitada a fazer, nada graciosa. E provavelmente despenteara os cabelos. Ele estava a olhar para eles.
Matt franziu as sobrancelhas quando a olhou, os olhos brilhantes, parecendo tão negros quanto os seus cabelos, e com um poder tão penetrante que a fez tremer por dentro.
Nicole teve a estranha sensação que ele estava a procurar por algum sinal de identificação. O que a forçou a recobrar o bom sentido e falar:
– A sua avó enviou-me. Sou Nicole Redman.
– Red… – disse ele num tom irónico. Então pareceu recordar-se. – Desculpe-me por olhá-la. Mas essa cor de cabelos não é muito comum. Surpreendeu-me. – Ele deu um passo para frente e ofereceu-lhe a mão. – Matt King.
Ela retirou a mão direita do chapéu e cuidadosamente apertou a dele.
– Prazer em conhecê-lo – conseguiu dizer, absorvida pela onda de choque proveniente do toque masculino, com o máximo de controlo que pôde obter. Uma onda de calor latejou o seu braço e fez o coração acelerar.
O olhar dele deslizou até à sua boca, estudando-a, como se procurasse desvendar segredos que ela não estava a revelar.
– Nicole Redman… – ele pronunciou o nome bem devagar, como se testasse o sabor e a textura. – Esta reunião está atrasada, mas sem dúvida, num instante trocaremos todas as informações necessárias.
Matt devia estar a referir-se a não ter comparecido no almoço familiar de domingo, ainda que o olhar estivesse a indicar algo mais. Sentou-se na cadeira que ele indicou, sem dizer nada.
Nicole ficou imensamente grata por aquilo. Os joelhos pareciam geleia. As pernas também estavam bambas.
Não que não tivesse uma pista de como Matt King poderia ser. Afinal, conhecera os seus dois irmãos no dia anterior, ambos bonitos e carregando uma aura de poder. Ela fora capaz de os ver objectivamente. Mas Matt era diferente. Por que se sentia tão afectada por ele?
Era uma loucura. Ela tinha vinte e oito anos e conhecera centenas de homens. Provavelmente, milhares. Mas nenhum deles invadira o seu interior daquela maneira. Talvez estivesse a sofrer uma insolação e simplesmente não sabia. Pensando naquilo, ficou levemente zonza. E muito quente. Se se sentasse quieta apenas por um ou dois minutos, ficaria bem.
Tirou a carteira do ombro e colocou-a ao pé da cadeira, pôs o chapéu no colo e focou o girassol. Quando Matt King se sentasse no seu lugar e começasse a conversar, ela estaria pronta para o encarar e agir normalmente.
Tudo o que precisava dele era a autorização de livre trânsito nos autocarros turísticos e os mapas da cidade, marcados pelo assistente dele. Aquilo não levaria muito tempo, graças a Deus. Algumas palavras educadas e estaria fora dali.
Estava trémula, o coração disparado… Com certeza, teria de ser mais cuidadosa naquele calor tropical. Conduzir, não andar. Aquela era a resposta. Quando Matt King falasse, ela levantaria o olhar, sorriria e tudo estaria certo.
Capítulo 3
Não havia engano, assegurou Matt a si mesmo enquanto, vagarosamente, dava a volta à mesa para se sentar na sua cadeira.
Os reluzentes cabelos vermelhos levaram-no, imediatamente, para uma noite em Nova Orleães há dez anos. Uma noite antes do Dia das Bruxas naquela extraordinária cidade. As feições delicadas, a pele branca perfeita, os grandes olhos expressivos, o contorno sensual da boca… tudo aquilo veio-lhe à mente como um relâmpago. Uma jovem alta e magra, vestindo um manto preto com acabamento em seda roxa, longos cabelos ruivos esvoaçantes, não presos num rabo-de-cavalo como estavam agora.
Ele vira-a palestrar para o grupo de turistas do lado de fora da Loja Vudu do Reverendo Zombie. Assistira-a, ouvira-a, apreciando-lhe a aparência teatral, enquanto ela capturava a atenção do grupo com o seu discurso aberto sobre Histórias de Terror. Ouvi-la a falar com sotaque australiano, acrescentava-lhe apenas mais poder de sedução.
Ficara ali por um tempo, fascinado pela aparência e performance dela. Provavelmente teria ficado mais, não fossem os amigos com os quais estava, que tinham insistido em levá-lo a um dos coloridos bares do bairro francês.
Todavia, Matt recordava-se claramente dela… os cabelos, a face, a pele alva, acrescentada ao impacto das suas histórias sobre fantasmas. O que fez surgir uma questão: que história contara ela à sua avó para conseguir o trabalho? Será que tinha falsas qualificações? Uma aldrabona a lançar a isca para seis meses de passeio grátis? A sua avó confirmara as qualificações de Nicole? Ou aquilo não importava, dado que o objectivo principal de Isabella era encontrar uma noiva para ele?
Uma profunda raiva aumentou a tensão daquele encontro. A sua avó errara redondamente sobre aquela candidata para um casamento perfeito. Nicole com certeza enganara-a, a fim de se divertir, passando-se por escritora, baseada numa experiência com algumas histórias de terror.
Ele acomodou-se na cadeira, nervoso, e altamente decepcionado com a absurda situação, encarou a mulher sentada à sua frente.
Porquê ela? O que vira a sua avó como atributos especiais que a fazia adequada para ser sua esposa?
Cabelos vermelhos?
Aquilo certamente adoçara a noite exótica em Nova Orleães, mas ali nos trópicos? Aquela pele clara fritaria em Porto Douglas. Loucura total!
Embora ele tivesse de admitir que a coloração dramática e a pele delicada e fina, realmente tinham uma beleza única. Pensara assim dez anos antes e aquilo ainda era verdade. Mas era muito claro que ela não pertencia àquele ambiente. Consequentemente não tinha nenhuma possibilidade de passar uma vida inteira ali…
Estava sentada muito erecta, os joelhos unidos, o chapéu no colo, olhos baixos, projectando uma modéstia que era estranha perante a função que exercera dez anos antes. Com um vestido quase transparente, ele pôde ver que os seios eram pequenos, porém bem feitos. Interessante o facto de usar amarelo, o que não era uma cor discreta.
A mulher estava a fazer algum jogo com ele, decidiu Matt. Então recostou-se na cadeira e relaxou, sabendo que tinha um ponto em seu favor, uma vez que Nicole nunca se poderia lembrar dele. Matt e os amigos estavam a usar máscaras naquela noite, como faz parte da festa do Dia Das Bruxas.
– Está é a sua primeira visita ao norte, certo? – Começou.
Nicole assentiu e, devagar, levantou os olhos para ele.
– Voei para cá há um mês, para fazer uma entrevista com a senhora King.
Olhava-o de modo cauteloso, como se estivesse em modo de alerta. Matt perguntou-se porquê. Necessidade de esconder alguma coisa sobre si mesma? Via-o como uma ameaça para o seu confortável emprego no castelo?
Curioso, sorriu para deixá-la mais à vontade, quando perguntou de forma intrigante:
– Seis meses no castelo não lhe soa como uma sentença de prisão?
A ideia pareceu surpreendê-la.
– Nada disso. Porque pensa assim?
– Oh, ficará presa na companhia da minha avó, e a novidade de viver num lugar novo, especialmente romântico, não compensará as coisas que perderá ou que terá de tolerar – disse ele, observando a reacção de Nicole perante as suas palavras.
Ela baixou a cabeça.
– Não gosta da companhia da sua avó?
– Isso não é relevante – respondeu ele, secamente.
Ela franziu o sobrolho.
– Não foi ao almoço de família ontem.
– Verdade. Não permito que a minha avó dite as regras para a minha vida. Eu tinha outro compromisso e não vi nenhuma razão para o cancelar. – Matt fez uma pausa, esperando investigar o carácter dela. – Ofendeu-se porque não cedi ao comando dela?
– Eu? Claro que não.
– Então porque acha que eu deveria ter ido?
– Eu não acho. Apenas pensei… digo… – Nicole parou, meio confusa.
– Estava apenas a sugerir que os próximos seis meses, sob o mesmo tecto com uma senhora de oitenta anos, pode fazer do castelo King uma prisão para uma jovem acostumada a todo tipo de atracções da vida urbana.
Ela deu um pequeno sorriso.
– Na verdade, acho as pessoas idosas mais interessantes do que as jovens. Viveram mais e algumas tiveram vidas incríveis. Não me posso imaginar entediada na companhia da senhora King.
A expressão de Nicole sugeria que se poderia facilmente entediar na companhia dele, o que o incitou a fazer um comentário irónico:
– Está preparada para se enterrar no passado e deixar a sua própria vida de lado pela duração do projecto?
Ela empinou o queixo em desafio.
– Sempre achei a história fascinante. Acho que há muito que aprender com isso. E não considero nenhuma forma de aprendizagem um desperdício de tempo.
– Uma visão muito académica – apontou, perguntando-se o que ela aprendera daquelas histórias de fantasmas. – Dizem que a história se repete, então o que pode colher disso? – desafiou ele. – A natureza humana não muda.
Ela não respondeu. Por vários momentos olhou-o directamente, num silêncio cheio de antagonismo.
– É contra o projecto, Matt?
– Nem um pouco. Acredito que uma publicação dessas será de interesse para futuras gerações da nossa família – respondeu. – E também acho significante a minha avó ter um registo impresso da vida dela. Um último testamento, o que ela merece muito.
– É contra eu fazer isso?
Directo no alvo! Ele tinha de conceder isso a Nicole Redman. Ela tinha certamente uma bola de cristal para colocar as cartas certas na mesa.
– Porque deveria ser?
– Não sei – disse ela. – É você quem tem de me dizer.
Esperta, a jogar a questão de volta para ele.
– Quantos anos tem, Nicole?
– Vinte e oito.
– Está a sair de um mau relacionamento?
– Não.
– Nem comprometida neste momento?
– Não.
– Nem a procurar um?
– Não – respondeu ela, sem entender.
– Porque não? – insistiu ele.
– Porque deveria estar?
– Achei que fosse um passatempo normal para uma mulher da sua idade.
Nicole enrubesceu. A expressão era de orgulho quando respondeu:
– Então imagino que não me encaixo no seu conceito de normal.
Matt ficou sem resposta. Não ia disparar a sua arma escondida até que soubesse alguns factos sobre as circunstâncias mais recentes dela. Muito poderia acontecer em dez anos. Se ela estivesse a falar a verdade sobre a sua idade, tinha apenas dezoito anos em Nova Orleães. Uma adolescente rebelde podia ter aprendido a ser séria.
Obviamente tinha as qualificações que a sua avó queria para uma boa esposa. Solteira, desimpedida, com idade madura para achar que casamento era uma ideia aceitável e, com certeza, muito atraente nos seus gloriosos cabelos vermelhos.
Mas por que motivo a sua avó escolhera uma ruiva para ele? Por que não uma loira ou uma morena? Ele nunca…
A resposta, de súbito, surgiu. Trish no casamento de Tony. A irmã de Hannah tinha uns longos cabelos castanhos e ele tinha ficado com ela na festa. Sendo uma modelo profissional, era alta e magra, e eles tinham-se divertido muito durante a recepção. Nada sério, apenas um alegre caso, aproveitando a companhia um do outro. Será que a sua avó deduzira que Trish era o seu tipo de mulher?
Ele baixou a cabeça e Nicole tomou essa acção exasperada como se lhe fosse dirigida.
– É um projecto que eu quero fazer – começou, irritada pela sugestão de Matt que procurar por um homem devia ser a sua prioridade. – Entendi pelo que a senhora King me falou, que você fundou esta empresa de turismo porque quis. Também desenvolveu um mercado para frutas exóticas por vontade própria. Aposto que as suas realizações não têm nada a ver com a sua ausência, ou desejo, de um relacionamento com uma mulher.
Apanhou-o ali. Era uma menina esperta.
– Bem, espero que encontre muita satisfação em perseguir o passado como eu tenho encontrado em investir no futuro – disse ele.
Ela sorriu.
– É muito afortunado por ter um passado a partir do qual pode construir.
Ali estava! Nos olhos dela. Um vazio que escapara da sua guarda. Os instintos de Matt instantaneamente fizeram uma rápida interpretação. Ela viera do nada e não tinha nenhuma direcção para o futuro. Progredira com as asas da oportunidade, não tendo nenhuma raiz para a segurar num só lugar. Talvez se sentisse como um fantasma, sem uma família para lhe dar alguma solidez real. Ou será que ele estava a deduzir demais por uma expressão fugaz?
– E sobre a sua própria família? – indagou ele.
– Não tenho família – respondeu friamente, confirmando a impressão dele.
– É órfã?
Ela não respondeu a pergunta.
– Sou adulta, responsável por mim mesma, e assumi a responsabilidade desse projecto com a senhora King. Um contrato de seis meses foi assinado para isso. Se tem algum problema sobre o facto de eu desenvolver esse trabalho…
– Isso é um assunto da minha avó e não tenho a menor intenção de interferir – assegurou ele, embora ainda estivesse para descobrir se a sua avó iria beneficiar da escolha para escrever a história da família.
No entanto, aquilo não era problema de Matt.
– Também não quero interferir nos seus negócios. – Ela levantou-se da cadeira com clara intenção de partir. – O seu assistente disse que tinha mapas rodoviários já marcados para mim…
Ele não queria que ela fosse embora. Porém teria de nadar a favor da corrente. Levantou-se, dizendo a si mesmo que tinha mais seis meses para analisar aquela mulher.
Matt apanhou o maço de mapas sobre a mesa e empurrou-os para o lado dela.
– Aqui estão – disse ele, gentilmente. – Usando-os, será capaz de encontrar o seu caminho para todo e qualquer ponto de interesse histórico.
– Obrigada. – Ela agarrou na carteira que estava no chão e pousou-a sobre a mesa para guardar os mapas, numa expressão séria, de quem estava decidida a partir.
Matt não gostou de ser deixado por Nicole Redman. Não estava pronto para a ver ir… para a deixar ganhar. Agarrou na autorização de livre trânsito que deixara perto dos mapas e deu a volta à mesa.
– E isto dá-lhe viagens de graça em qualquer um dos nossos passeios turísticos – disse ele, entregando-lhe a passagem.
Ela teve um sobressalto e alguns dos mapas voaram das suas mãos. Na rápida tentativa de os resgatar, derrubou o chapéu. Ambos se baixaram para o apanhar, as cabeças quase a tocar. Ela levantou-se, recuando, deixando Matt apanhar o chapéu, o que ele fez, endireitando-se para encontrar a respiração acelerada e a face corada de Nicole.
A boca da rapariga estava entreaberta, os olhos arregalados em surpresa. E com aquela proximidade, Matt teve a estranha sensação de ser sugado por uma tempestade de sentimentos vindos directamente da alma dela. Encarou-a, silenciado pela conexão que o colocou completamente fora de equilíbrio.
Teve vontade de a beijar. Queria extrair da boca da mulher todos os segredos que ela estava a esconder, desejava envolvê-la de tal forma que ela desistisse de tudo o que era. A necessidade de a conhecer consumia a mente e o corpo de Matt.
– Obrigada – sussurrou ela.
Atordoado pelos próprios sentimentos inesperados, Matt lembrou-se de que aquela era a mulher que a sua avó planeara para ele. E não cairia na armadilha dela.
Estendeu a autorização.
A mão de Nicole estava a tremer quando a agarrou. Será que ela sentia a mesma coisa que ele? Uma parte de Matt desejava que sim, mas outra queria negar que havia qualquer poder de atracção a operar ali, de qualquer um dos lados.
Ele observou-a a guardar o bilhete e os mapas na carteira, pálpebras baixas, o vermelho dos cabelos tão vibrante que ele teve de apertar as mãos para controlar a vontade de os tocar.
Ainda tinha o chapéu nas mãos. Mas era uma loucura pensar que podia segurar a sua refém com um chapéu. A pressa de fechar a carteira e de a pendurar no ombro dizia que ela queria ir embora. E ele deveria deixá-la ir. Qualquer outra atitude colocá-lo-ia directamente no banco dos perdedores.
Ela conseguiu dar um passo, aumentando a distância entre eles. Então virou-se para o encarar.
– O meu chapéu…
Matt poderia tê-lo estendido para ela. Era a resposta mais simples. Mas um instinto perverso incitou-o a colocá-lo sobre os cabelos provocantes. Deu um passo e aproximou-se e colocou-lhe o chapéu, atento em deixar o girassol na mesma posição em que estava quando Nicole entrara.
Uma mulher desconhecida que ele pretendera que continuasse desconhecida em qualquer assunto pessoal. A não ser o facto do seu corpo inteiro estar de súbito alerta perante o dela, à quase frágil feminilidade daquele corpo. O amarelo do girassol, lembrando-lhe o vestido dela… de botões frontais, que poderiam ser facilmente desabotoados…
– Obrigada.
Nicole respirou profundamente. Estivera sem fôlego?
O pensamento excitou-o. Ganhara alguma coisa da ruiva. Com uma sensação de triunfo, Matt deu um passo atrás e sorriu.
– Tenha cuidado com o calor daqui.
As faces de Nicole estavam a reflectir um calor interno que o colocou nas alturas quando andou para abrir a porta da sala. Ela caminhou com passos firmes, o olhar fixo na porta. Assentiu com um gesto de cabeça para o conselho, quando passou por ele.
Matt riu-se quando fechou a porta atrás dela.
Definitivamente mexera com Nicole Redman.
E de repente sentiu um imenso interesse em conhecê-la melhor. Não casar-se com ela, assegurou a si mesmo. Casamento não estava nos seus planos. Mas algumas noites quentes com a exótica menina Nova Orleães não seria nenhum sacrifício. Porque não… se ela gostava dos trópicos? Não debaixo do nariz da sua avó, claro, mas se Nicole iria fazer todos os passeios turísticos de autocarro, mais cedo ou mais tarde, teria de fazer o trajecto até ao parque Kauri King, onde as frutas exóticas cresciam.
Empenhar-se-ia para estar lá naquele dia.
E então ver como se sentia em relação a ela.
Capítulo 4
Conforme era hábito, Isabella Valeri King tomou o chá da tarde na esplanada ao lado da fonte. O som das águas era tranquilizante. Havia sempre uma brisa marinha àquela hora do dia para aliviar o calor. Gostava de estar ao ar livre com muito do seu mundo à vista, a troca de cores, de luzes, a sensação de fazer parte daquilo, de estar viva, embora não com muito tempo ainda pela frente.
Olhou para a mulher sentada ao seu lado.
Nicole Redman…
Tão diferente de Gina e Hannah, tanto na aparência quanto na natureza, ainda assim compartilhava com elas a qualidade que Isabella mais admirava: a força interior de tomar decisões difíceis na vida e segui-las. O livro sobre o pai dela revelara muito sobre Nicole. Uma criança que carregara nos ombros a responsabilidade de um adulto, concentrando-se nas vantagens, deixando de lado as perdas. Uma visão muito madura para alguém tão jovem.
Embora tivesse sofrido perdas.
Assim como Isabella sofrera.
As duas últimas horas passadas na biblioteca, a reviver os anos da Segunda Guerra Mundial através de fotografias e cartas, tinham-na deixado com o coração pesado. Perdera tanto o marido quanto o seu único irmão naquele horroroso conflito.
O pai de Isabella tentara tudo para apaziguar aquela dor na comunidade de refugiados de guerra, na sua maioria imigrantes italianos, oferecendo terras que possuía para o seu povo, conversando com o departamento florestal para fornecer plantas e árvores a fim de se construir uma floresta tropical, e ao mesmo tempo mantendo os refugiados de guerra ocupados pelo trabalho. Melhor do que uma detenção inútil. Alguma coisa boa viria disso para todo mundo.
– Após a guerra, tu e Edward podem construir uma casa lá em cima, Isabella – dissera o seu pai.
Mas Edward não voltara da guerra e o parque Kauri King, conforme passou a ser conhecido, nunca fora o seu lar. Agora era de Matteo e Nicole, embora ainda não tivessem ido lá. O que a lembrou da jovem mulher que estava com ela há quase três semanas.
Apenas um encontro com Matteo.
Era uma pena ela não ter podido observar.
Talvez não houvesse nada para observar. A beleza que via em Nicole podia não ter apetecido a Matteo. Ele não fizera nenhuma tentativa de a rever. Nem Nicole fizera algum comentário que revelasse um interesse pessoal pelo seu neto.
Isabella pensou que não se podia forçar uma atracção mútua. A química corporal era ordenada pela natureza e ninguém de fora poderia fazer aquilo acontecer.
De qualquer forma, era curioso que Nicole tivesse explorado informações sobre muitos dos autocarros de Matteo, e ainda assim não tivesse escolhido seguir numa das suas visitas que a pudesse colocar em contacto com ele. Porque estaria a adiar?
Na mente de Isabella aquilo soava como uma fuga. O que poderia significar que Matteo tirara Nicole da sua zona confortável. Uma reacção negativa? Será que ele a ofendera de alguma forma?
O seu neto mais novo não era normalmente uma pessoa agressiva. Possuía uma personalidade alegre, uma companhia agradável para a maioria das pessoas. Era mais tranquilo do que os seus dois irmãos.
Alessandro… o pilar forte de responsabilidade.
António… a força da competitividade.
Matteo… o sagaz dançarino entre os outros dois, fingindo patinar através da vida como se ela fosse um jogo. Mas importava-se realmente com responsabilidades e era tão competitivo quanto António. Apenas expressava isso de forma diferente.
Talvez alguma coisa tivesse acontecido entre Matteo e Nicole que nenhum dos dois quisesse reconhecer. Uma inesperada química poderia ser desconfortável, perturbando o controlo de ambos sobre as suas vidas. Matteo geralmente tinha controlo sobre si mesmo, enquanto que Nicole… estava sentada com um ar de tranquilidade que era provavelmente questionável, dado a tudo que estivera a pensar. Uma tempestade de sensações podia interferir na paz desejada.
Isabella reprovou-se a si mesma. Qualquer que fosse a situação, o projecto da história tinha que estar nos trilhos e era hora de Nicole ver o que elas tinham acabado de falar.
– Amanhã, devo passar uma boa parte do dia na organização de um casamento – declarou ela. – A noiva e a mãe virão para decidir todos os detalhes da recepção no salão de baile.
Nicole sorriu.
– Não posso imaginar nada mais romântico do que um casamento aqui no castelo.
– Nos velhos tempos, fazíamos bailes e exibíamos filmes no salão. Não queria que ele caísse em desuso, então transformei-o num centro funcional, há vários anos.
– Tenho a certeza de que isso acrescenta muito valor emocional para as pessoas que se casam.
– Acho que sim. O sentimento de longevidade é bom. Dá uma ideia clara da passagem do tempo. Como tu verás quando visitares o parque Kauri King. Amanhã seria um bom dia para fazeres esse passeio, Nicole, uma vez que acabo de te contar como tudo aconteceu.
A visita que a levaria ao encontro de Matteo.
Houve alguns instantes com sinais de tensão. Nicole endireitou os ombros, levantou o queixo e, mais interessante de tudo, uma maré de calor subiu-lhe pelo pescoço e enrubesceu a sua face.
Podia não ser pela perspectiva de caminhar pela floresta dentro do parque com plantação de frutas exóticas que lhe causava uma reacção daquelas. Se era a possibilidade de encontrar Matteo… Bem, talvez devessem ser planeadas mais reuniões.
Isabella esperava pela resposta de Nicole.
– Amanhã… – Nicole pensou numa desculpa para contestar a sugestão. Nada era justificável. Prorrogara o inevitável, o mais que pudera. Não tinha uma desculpa aceitável para não ir ao território de Matt King. – Sim – forçou-se a dizer e agarrou-se à última corda de salvação. – Imagino que a visita já esteja lotada. E é tarde para ligar.
– Se é assim, podes ir de carro e juntares-te ao grupo no portão do parque. Não é longe. Meia hora de carro, no máximo. Não perderás muitas informações do motorista do autocarro. – Mais um detalhe para qualquer possível objecção.
O estômago de Nicole contraiu-se. Não tinha escapatória. Apenas lhe restava esperar pela ausência de Matt King.
– Amanhã é um bom dia – insistiu a senhora King. – Matteo também está lá às quintas. Ele pode ajudar-te com alguma coisa que quiseres saber.
Aquele era possivelmente o pior dia e agora não tinha saída. A sua própria culpa, por não ter ido antes, quando poderia ter evitado encontrá-lo. Sabia que ele ficava na empresa de turismo às segundas e sextas-feiras. O problema foi não se sentir segura para ir.
– Não gostaria de o tirar do seu trabalho, senhora King – justificou Nicole, tentando dominar o pânico. – Tenho a certeza de que o guia turístico…
– Matteo pode tirar um tempo para te dar detalhes mais íntimos sobre ele, a família e o parque.
Íntimos. Um pequeno tremor percorreu a espinha de Nicole. Matt King irradiava literalmente sensualidade masculina. Naquela breve reunião na sala dele, Nicole ficara hipnotizada pelo seu poder de atracção, desejando intimidades mais primitivas. Nunca sentira nada tão físico. Aquilo confundia ainda mais a sua mente, tornando impossível manter qualquer pensamento racional.
– Telefonar-lhe-ei esta noite e direi que vais amanhã. Assim ele pode tomar conta de ti – decidiu Isabella.
A única questão em dúvida era, de autocarro ou de carro. Nicole não sabia o que era melhor, tentar apanhar o grupo de turismo, o que poderia amenizar o impacto de Matt sobre ela, ou ter o carro, assim poderia ir embora no momento que quisesse. Das duas formas, não poderia ignorar o seu trabalho, o que incluía juntar todas as informações históricas que pudesse da viagem.
– Vou ligar para o escritório e ver se há um lugar disponível no autocarro – disse ela, levantando-se.
Isabella Valeri King sorriu satisfeita enquanto assentia com um movimento de cabeça enquanto Nicole se retirava. Então ficou imóvel, sentada onde estava com a tranquila dignidade, a qual Nicole associava com uma disciplina interior que nunca se quebraria.
Havia alguma coisa sobre o sorriso dela que fez com que Nicole a observasse com mais atenção antes de partir. Teve a estranha sensação de que um poder emanava através da mulher mais velha… um poder invencível, que não seria frustrado pelo tempo nem pelas circunstâncias.
Mais uma vez um tremor percorreu-lhe a espinha.
Olhos escuros brilhantes… quase pretos… como os de Matt.
Aquela família… ela soubera desde o princípio, não era comum. Mas quão extraordinária era, e de onde vinha o poder?
Dirigiu-se às imensas portas duplas da frente do castelo, sabendo que estava a entrar no mundo deles e, finalmente, reconhecendo que fugir não era uma opção que quisesse tomar. Aquilo intrigava-a. Fascinava-a. E ao mesmo tempo, amedrontava-a.
Matt King… amanhã.
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