Read the book: «A Ordem»

Editado por HarperCollins Ibérica, S.A.
Núñez de Balboa, 56
28001 Madrid
A Ordem
Título original: The Order
© 2020, Daniel Silva
© 2021, para esta edição HarperCollins Ibérica, S.A.
Publicado originalmente pela HarperCollins Publishers LLC, New York, U.S.A.
Tradutor: Filipa Velosa
Reservados todos os direitos, inclusive os de reprodução total ou parcial em qualquer formato ou suporte.
Esta edição foi publicada com a autorização da HarperCollins Publishers LLC, New York, U.S.A.
Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos comerciais, acontecimentos ou situações são pura coincidência.
Desenho da capa: CalderónStudio
Imagens de capa: Shutterstock
1ª edição: Março 2021
ISBN: 978-84-9139-503-4
Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.
Sumário
Créditos
CIDADE DO VATICANO
PREFÁCIO
PRIMEIRA PARTE INTERREGNUM
1. ROMA
2. JERUSALÉM–VENEZA
3. CANNAREGIO, VENEZA
4. MURANO, VENEZA
5. VENEZA–ROMA
6. RISTORANTE PIPERNO, ROMA
7. RISTORANTE PIPERNO, ROMA
8. RISTORANTE PIPERNO, ROMA
9. CAFFÈ GRECO, ROMA
10. CASA SANTA MARTA
11. VIA SARDEGNA, ROMA
12. ROMA–FLORENÇA
13. FLORENÇA
14. PONTE VECCHIO, FLORENÇA
15. VENEZA–FRIBURGO, SUÍÇA
16. CAFÉ DU GOTHARD, FRIBURGO
17. RECHTHALTEN, SUÍÇA
18. RECHTHALTEN, SUÍÇA
19. LES ARMURES, GENEBRA
20. LES ARMURES, GENEBRA
21. ROMA–OBERSALZBERG, BAVIERA
22. ROMA
23. ARQUIVO SECRETO DO VATICANO
SEGUNDA PARTE ECCE HOMO
24. CÚRIA JESUÍTA, ROMA
25. CÚRIA JESUÍTA, ROMA
26. ROMA–ASSIS
27. ABADIA DE SÃO PEDRO, ASSIS
28. ABADIA DE SÃO PEDRO, ASSIS
29. ABADIA DE SÃO PEDRO, ASSIS
30. VIA DELLA PAGLIA, ROMA
31. VIA DELLA PAGLIA, TRASTEVERE
32. TRASTEVERE, ROMA
33. EMBAIXADA DE ISRAEL, ROMA
34. CAPELA SISTINA
35. ZURIQUE
36. MUNIQUE
37. MUNIQUE
38. MUNIQUE
39. BEETHOVENPLATZ, MUNIQUE
40. MUNIQUE
41. MUNIQUE
42. MUNIQUE
43. COLÓNIA, ALEMANHA
44. BAVIERA, ALEMANHA
45. OBERSALZBERG, BAVIERA
46. OBERSALZBERG, BAVIERA
47. OBERSALZBERG, BAVIERA
TERCEIRA PARTE EXTRA OMNES
48. CURIA JESUÍTA, ROMA
49. VILLA GIULIA, ROMA
50. PRAÇA DE SÃO PEDRO
51. VIA DELLA CONCILIAZIONE
52. CASA SANTA MARTA
53. VILLA BORGHESE
54. CASA SANTA MARTA
55. VILLA BORGHESE
56. VIA GREGORIANA, ROMA
57. CÚRIA JESUÍTA, ROMA
58. CAPELA SISTINA
59. CÚRIA JESUÍTA, ROMA
60. CAPELA SISTINA
QUARTA PARTE HABEMUS PAPAM
61. CANNAREGIO, VENEZA
62. PIAZZA DI SAN MARCO
63. VENEZA–ASSIS
64. ABADIA DE SÃO PEDRO, ASSIS
NOTA DO AUTOR
AGRADECIMENTOS
Como sempre, para a minha esposa, Jamie,
e para os meus filhos, Lily e Nicholas
Pilatos, vendo que nada conseguia e que o tumulto aumentava cada vez mais, mandou vir água e lavou as mãos na presença da multidão, dizendo: «Estou inocente deste sangue. Isso é convosco.». E todo o povo respondeu: «Que o seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos!».
MATEUS 27:24-25
Todos os infortúnios que, posteriormente, sucederam aos judeus, desde a destruição de Jerusalém até Auschwitz, carregavam um eco desse pacto de sangue inventado do julgamento.
ANN WROE, PONTIUS PILATE
Só ignorando deliberadamente o passado é que não percebemos para onde tudo isto nos conduz.
PAUL KRUGMAN, THE NEW YORK TIMES
CIDADE DO VATICANO

PREFÁCIO
Sua Santidade, o papa Paulo VII, surgiu, pela primeira vez, em O Confessor, o terceiro livro da série de Gabriel Allon. Posteriormente, apareceu em A Mensageira e O Anjo Caído. Batizado como Pietro Lucchesi, é o anterior Patriarca de Veneza e sucessor direto do papa João Paulo II. Na minha versão ficcional do Vaticano, os papados de Joseph Ratzinger e Jorge Mario Bergoglio, os Sumos Pontífices Bento XVI e Francisco, não ocorreram.
PRIMEIRA PARTE INTERREGNUM
1
ROMA
O telefonema chegou às 23h42. Luigi Donati hesitou antes de atender. O número exibido no ecrã do seu telefonino pertencia a Albanese. Só havia uma razão para ele estar a ligar a uma hora daquelas.
— Onde é que Vossa Excelência está?
— Fora do recinto.
— Ah, pois. É quinta-feira, não é?
— Há algum problema?
— É melhor não dizer demasiado ao telefone. Nunca se sabe quem poderá estar a ouvir.
Donati embrenhou-se na noite fria e húmida. Envergava um fato clerical preto com colarinho romano branco, em vez da batina e peregrineta debruadas a fúchsia que usava no escritório (era assim que os homens com o seu título eclesiástico se referiam ao Palácio Apostólico). Donati era arcebispo e secretário pessoal de Sua Santidade, o papa Paulo VII. Alto e esguio, com abundante cabelo escuro e feições de estrela de cinema, celebrara recentemente o seu sexagésimo terceiro aniversário. A idade em nada diminuíra a sua beleza. A revista Vanity Fair batizara-o recentemente como «Luigi, o Deslumbrante». O artigo causara-lhe um enorme embaraço no mundo de maledicência da Cúria, mas, dada a merecida reputação de Donati como implacável, ninguém se atrevera a mencionar-lho na cara. Ninguém, exceto o Santo Padre, que troçara impiedosamente dele.
É melhor não dizer demasiado ao telefone…
Há um ano ou mais que Donati se andava a preparar para esse momento, desde o primeiro ataque cardíaco leve, que ocultara do resto do mundo e até de grande parte da Cúria. Mas, de entre tantas noites, tinha logo de ser aquela?
A rua estava estranhamente silenciosa. Funestamente silenciosa, pensou Donati de súbito. Era uma avenida ladeada de palazzos, mesmo ao lado da Via Veneto, o tipo de local onde um sacerdote raramente punha os pés, especialmente um padre educado e treinado pela Companhia de Jesus, a ordem intelectualmente rigorosa e por vezes insubordinada a que Donati pertencia. O seu carro oficial, com a matrícula SCV característica do Vaticano, aguardava junto à berma. O motorista pertencia ao Corpo della Gendarmeria, a força policial do Vaticano, constituída por 130 membros. O automóvel dirigiu-se sem pressa para oeste, atravessando Roma.
Ele não sabe…
No telemóvel, Donati deu uma vista de olhos aos sites dos principais jornais italianos. Não sabiam de nada. Tal como os seus colegas de Londres e Nova Iorque.
— Liga o rádio, Gianni.
— Música, Vossa Excelência?
— Notícias, por favor.
Mais um ror de disparates de Saviano, outro discurso inflamado sobre como os imigrantes árabes e africanos estavam a destruir o país, como se os italianos não fossem bem capazes de pôr tudo de pantanas por si próprios. Há meses que Saviano importunava o Vaticano para conseguir uma audiência privada com o Santo Padre. Com um regozijo velado, Donati rejeitara conceder-lha.
— Já chega, Gianni.
O rádio caiu num silêncio abençoado. Donati espreitou pela janela do luxuoso sedan alemão. Era uma forma imprópria de um Soldado de Cristo se deslocar. Calculava que essa fosse a última vez que atravessava Roma numa limusina com motorista. Durante quase duas décadas, desempenhara funções equiparáveis às de um chefe de gabinete da Igreja Católica Romana. Fora uma época conturbada (um ataque terrorista na Praça de São Pedro, um escândalo que envolvera antiguidades e os Museus do Vaticano, o flagelo dos abusos sexuais dos sacerdotes), mas, mesmo assim, Donati apreciara cada minuto. Agora, num abrir e fechar de olhos, tudo terminara. Era novamente um mero sacerdote. Nunca se tinha sentido tão só.
O carro atravessou o Tibre e virou para a Via della Conciliazione, a larga avenida que Mussolini talhara entre os bairros degradados de Roma. A cúpula da Basílica, iluminada por holofotes e restaurada à sua glória original, espreitava ao longe. Seguiram a curva da Colunata de Bernini até à Porta de Santa Ana, onde um guarda suíço gesticulou para que continuassem para o território da cidade-estado. Envergava o uniforme noturno: uma farda azul com gola branca de estilo colegial, meias até ao joelho, uma boina preta, uma capa contra o frio da noite. Os seus olhos estavam secos, o rosto impassível.
Ele não sabe…
O carro subiu lentamente a Via Sant’Anna, passando pela caserna da Guarda Suíça, pela Igreja de Santa Ana, pela Tipografia Vaticana e pelo Banco do Vaticano, antes de se deter junto de uma arcada que conduzia ao Pátio de São Dâmaso. Donati atravessou a calçada a pé, entrou no mais importante elevador de toda a cristandade e subiu até ao terceiro andar do Palácio Apostólico. Apressou-se a percorrer a lógia, ladeada por uma parede de vidro, num lado, e por um fresco, no outro. Um desvio à esquerda levou-o até ao apartamento papal.
De pé, à porta, havia outro guarda suíço, absolutamente hirto, desta feita trajado com o uniforme formal completo. Donati passou por ele sem uma palavra e entrou. Quinta-feira, pensou ele. Porque é que tinha de ser numa quinta-feira?
* * *
Dezoito anos, pensou Donati enquanto inspecionava o escritório privado do Santo Padre, e nada mudara. Apenas o telefone. Donati conseguira, finalmente, convencer o Santo Padre a substituir o antiquado aparelho de disco por um telefone moderno com várias linhas. À exceção disso, a divisão estava exatamente como o polaco a deixara. A mesma secretária de madeira austera. A mesma cadeira bege. O mesmo tapete oriental puído. O mesmo relógio e o mesmo crucifixo dourados. Até o conjunto de caneta e mata-borrão que pertencera a Wojtyla, o Grande. Embora, inicialmente, o seu papado tivesse sido muito promissor, criando a expectativa de uma Igreja mais bondosa e menos repressiva, Pietro Lucchesi nunca conseguira escapar completamente à vasta sombra do seu predecessor.
Instintivamente, Donati reparou nas horas marcadas no seu relógio de pulso. Eram 00h07. Nessa noite, o Santo Padre retirara-se para o escritório às oito e meia, para noventa minutos de leitura e escrita. Habitualmente, Donati permanecia junto do seu mestre ou ao fundo do corredor, no seu escritório. Mas, como era quinta-feira, a única noite da semana que tinha para si, tinha ficado apenas até às nove horas.
Faça-me um favor antes de ir, Luigi…
Lucchesi pedira a Donati que abrisse as pesadas cortinas que tapavam a janela do escritório. Era a mesma janela a partir da qual, todos os domingos ao meio-dia, o Santo Padre rezava o Ângelus. Donati cumprira os desejos do seu mestre. Abrira, inclusive, as persianas, para que Sua Santidade pudesse contemplar a Praça de São Pedro, enquanto se dedicava arduamente às formalidades administrativas curiais. Agora, as cortinas estavam completamente corridas. Donati afastou-as para o lado. As persianas também estavam fechadas.
A secretária estava arrumada, não a habitual desarrumação de Lucchesi. Havia uma chávena de chá semivazia e uma colher pousada no pires que não estavam ali quando Donati saíra. Vários documentos, guardados em pastas de arquivo, empilhavam-se ordenadamente sob o velho candeeiro extensível. Um relatório da Arquidiocese de Filadélfia sobre as consequências financeiras do escândalo dos abusos sexuais. Observações para a audiência geral da quarta-feira seguinte. O primeiro rascunho de uma homilia para uma futura visita papal ao Brasil. Notas para uma encíclica sobre o tema da imigração que, decerto, irritariam Saviano e os seus simpatizantes da extrema-direita italiana.
No entanto, um artigo desaparecera.
Vai assegurar-se de que ele recebe isto, não vai, Luigi?
Donati inspecionou o cesto dos papéis. Estava vazio. Nem um único pedacinho de papel.
— Vossa Excelência está à procura de alguma coisa?
Donati ergueu o olhar e viu o cardeal Domenico Albanese a observá-lo da porta. Albanese era calabrês de nascimento e, de ofício, uma criatura da Cúria. Ocupava vários cargos superiores na Santa Sé, incluindo o de presidente do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-religioso e o de arquivista e bibliotecário da Santa Igreja Romana. No entanto, nada disso explicava a sua presença no apartamento papal sete minutos depois da meia-noite. Aliás, Domenico Albanese também era o camerlengo. Era da sua exclusiva responsabilidade fazer a declaração formal de que o trono de São Pedro se encontrava vago.
— Onde é que ele está? — perguntou Donati.
— No reino dos céus — entoou o cardeal.
— E o corpo?
Se Albanese não tivesse ouvido o chamamento sagrado, poderia ter ganhado a vida a carregar placas de mármore ou a arremessar carcaças num matadouro calabrês. Donati seguiu-o, através de um pequeno corredor, até ao quarto. Outros três cardeais aguardavam na penumbra: Marcel Gaubert, José Maria Navarro e Angelo Francona. Gaubert era o secretário de Estado, na prática, o primeiro-ministro e chefe da diplomacia do mais pequeno país do mundo. Navarro era o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, guardião da ortodoxia católica e defensor contra a heresia. Francona, o mais velho dos três, era o reitor do Colégio Cardinalício. Como tal, presidiria ao próximo conclave.
Foi Navarro, um espanhol de linhagem nobre, quem se dirigiu a Donati primeiro. Embora vivesse e trabalhasse em Roma há quase um quarto de século, continuava a falar italiano com um forte sotaque castelhano.
— Luigi, sei como isto deve ser doloroso para si. Nós éramos os seus fiéis servidores, mas era o Luigi que ele mais amava.
Ao ouvir o chavão curial do espanhol, o cardeal Gaubert, um parisiense magro com um rosto felino, assentiu gravemente com a cabeça, tal como os três leigos que se encontravam na sombra, de pé, na extremidade da divisão: o doutor Octavio Gallo, médico pessoal do Santo Padre, Lorenzo Vitale, diretor do Corpo della Gendarmeria, e o coronel Alois Metzler, comandante da Guarda Suíça Pontifícia. Parecia que Donati fora o último a chegar. Devia ter sido ele, o secretário pessoal, a convocar os príncipes superiores da Igreja para a cabeceira do falecido papa, não o camerlengo. Subitamente, sentiu-se atormentado pela culpa.
Porém, quando baixou o olhar para observar a figura estendida na cama, a culpa deu lugar a um pesar avassalador. Lucchesi ainda envergava a batina branca, embora lhe tivessem retirado os múleos e o solidéu tivesse desaparecido. Alguém lhe colocara as mãos sobre o peito, a agarrar o rosário. Os olhos estavam fechados, o maxilar flácido, mas não havia qualquer sinal de dor no seu rosto, nada que sugerisse que sofrera. Na verdade, Donati não teria ficado surpreendido se Sua Santidade tivesse acordado de repente e perguntado como correra a sua noite.
Ainda envergava a batina branca…
Donati fora o responsável pela agenda do Santo Padre desde o primeiro dia do seu pontificado. A rotina noturna raramente variava. O jantar era das sete às oito e meia. As formalidades administrativas no escritório, das oito e meia às dez, seguidas de quinze minutos de oração e reflexão na sua capela privada. Em regra, estava na cama às dez e meia, geralmente em companhia de um romance policial inglês, o seu prazer secreto. Crimes e Desejos, de P.D. James, repousava na mesa de cabeceira, debaixo dos seus óculos de leitura. Donati abriu-o na página marcada.
Quarenta e cinco minutos depois, Rickards estava de volta ao local do crime…
Donati fechou o livro. Calculava que o Sumo Pontífice estivesse morto há quase duas horas, talvez mais. Calmamente, perguntou:
— Quem é que o encontrou? Espero que não tenha sido nenhuma das freiras do serviço doméstico.
— Fui eu — respondeu o cardeal Albanese.
— Onde é que ele estava?
— Sua Santidade despediu-se desta vida na capela. Encontrei-o alguns minutos depois das dez. Quanto à hora exata do falecimento… — O calabrês encolheu os ombros pesados. — Não lhe sei dizer, Vossa Excelência.
— Porque é que não fui contactado imediatamente?
— Procurei-o por todo o lado.
— Devia ter ligado para o meu telemóvel.
— E liguei. Várias vezes, na verdade. Ninguém atendeu.
O camerlengo não estava a dizer a verdade, pensou Donati.
— E o que é que Vossa Eminência estava a fazer na capela?
— Isto começa a parecer um interrogatório. — Os olhos de Albanese moveram-se brevemente para o cardeal Navarro, antes de pousarem novamente em Donati. — Sua Santidade pediu-me que rezasse com ele. Eu aceitei o convite.
— Telefonou diretamente para si?
— Para o meu apartamento — disse o camerlengo, com um movimento afirmativo de cabeça.
— A que horas?
Albanese ergueu o olhar para o teto, como se estivesse a tentar lembrar-se de um detalhe esquecido.
— Às nove e um quarto. Talvez às nove e vinte. Pediu-me que viesse alguns minutos depois das dez. Quando cheguei…
Donati baixou o olhar para o corpo sem vida que jazia sobre a cama.
— E como é que chegou até aqui?
— Eu trouxe-o.
— Sozinho?
— Sua Santidade carregava o peso da Igreja aos ombros — disse Albanese —, mas, na morte, tornou-se leve como uma pena. Como não consegui contactá-lo, convoquei o secretário de Estado que, por sua vez, ligou aos cardeais Navarro e Francona. Depois, contactei o dottore Gallo, que declarou o óbito. Morte devido a ataque cardíaco fulminante. Foi o segundo, não foi? Ou foi o terceiro?
Donati olhou para o médico papal.
— A que horas fez a declaração, dottore Gallo?
— Onze e dez, Vossa Excelência.
O cardeal Albanese pigarreou suavemente.
— Na minha declaração oficial, fiz um pequeno ajuste à cronologia dos factos. Se desejar, posso dizer que foi o Luigi que o encontrou.
— Não é necessário.
Donati deixou-se cair de joelhos junto à cama. Em vida, o Santo Padre fora franzino. A morte tinha-o minguado mais ainda. Donati lembrava-se do dia em que, inesperadamente, o conclave elegera Lucchesi, o Patriarca de Veneza, para ser o ducentésimo sexagésimo quinto pontífice da Igreja Católica Romana. Na Sala das Lágrimas, escolhera a mais pequena das três batinas prontas a usar. Ainda assim, aparentava ser um rapazinho vestido com a camisa do pai. Quando se assomou à varanda da Basílica de São Pedro, a sua cabeça mal se via sobre a balaustrada. Os vaticanisti batizaram-no como Pedro, o Improvável. A linha dura da Igreja designou-o, pejorativamente, como o Papa Acidental.
Passado um momento, Donati sentiu uma mão no ombro. Era como chumbo, portanto, tinha de ser de Albanese.
— O anel, Vossa Excelência.
Em tempos, fora responsabilidade do camerlengo destruir, na presença do Colégio Cardinalício, o Anel do Pescador do papa falecido. Porém, tal como os três toques na testa papal com um martelo de prata, a prática fora extinta. O anel de Lucchesi, que ele raramente usava, seria, simplesmente, gravado com dois cortes profundos em forma de cruz. Contudo, outras tradições mantinham-se, tal como o encerramento e selagem imediata do apartamento papal. Assim que o corpo fosse retirado, nem mesmo Donati, o único secretário pessoal de Lucchesi, seria autorizado a entrar.
Ainda de joelhos, Donati abriu a gaveta da mesa de cabeceira e agarrou no pesado anel dourado. Entregou-o ao cardeal Albanese, que o colocou numa bolsa de veludo. Solenemente, declarou:
— Sede vacante.
O trono de São Pedro estava, agora, vago. A Constituição Apostólica ditava que o cardeal Albanese assumisse a direção temporária da Igreja Católica Romana durante o interregno, que terminava com a eleição do novo papa. Donati, com o mero título de arcebispo, não teria qualquer voto na matéria. Na verdade, agora que o seu mestre falecera, não tinha cargo nem poder, respondendo apenas perante o camerlengo.
— Quando é que pretende divulgar a declaração? — perguntou Donati.
— Estava à espera de que chegasse.
— Posso revê-la?
— O tempo urge. Se adiarmos mais…
— Claro, Vossa Eminência. — Donati pousou a mão sobre a de Lucchesi. Já estava fria. — Gostaria de ter um momento a sós com ele.
— Mas é mesmo só um momento… — disse o camerlengo.
O quarto esvaziou-se lentamente. O cardeal Albanese foi o último a sair.
— Diga-me uma coisa, Domenico.
O camerlengo parou no limiar da porta.
— Vossa Excelência?
— Quem correu as cortinas do escritório?
— As cortinas?
— Estavam abertas quando eu saí, às nove. As persianas também.
— Fui eu que as corri, Vossa Excelência. Não queria que ninguém na praça visse as luzes acesas no apartamento tão tarde.
— Sim, claro. Foi sensato da sua parte, Domenico.
O camerlengo saiu, deixando a porta aberta. Sozinho com o seu mestre, Donati conteve as lágrimas. Haveria tempo para fazer o luto mais tarde. Inclinando-se, aproximou-se do ouvido de Lucchesi e apertou a sua mão fria.
— Fale comigo, velho amigo — sussurrou. — Diga-me o que aconteceu realmente aqui esta noite.
2
JERUSALÉM–VENEZA
Foi Chiara quem informou secretamente o primeiro-ministro de que o seu marido precisava desesperadamente de umas férias. Desde que se instalara com relutância no gabinete executivo da Avenida Rei Saul, praticamente não concedera a si próprio uma única tarde livre, apenas alguns dias de convalescença após o atentado à bomba em Paris, no qual fraturara duas vértebras na região lombar. Ainda assim, não era algo que pudesse ser encarado de ânimo leve. Gabriel precisava de comunicações seguras e, mais importante do que isso, de segurança apertada. Tal como Chiara e os gémeos. Em breve, Irene e Raphael celebrariam o seu quarto aniversário. A ameaça que pairava sobre a família Allon era tão forte que as crianças nunca tinham posto um pé fora do Estado de Israel.
Mas para onde iriam? Uma viagem exótica para um destino longínquo não era uma opção. Teriam de permanecer razoavelmente próximos de Israel, para que, na eventualidade bastante provável de uma emergência nacional, Gabriel pudesse regressar à Avenida Rei Saul numa questão de horas. No seu futuro, não se vislumbrava um safari na África do Sul nem uma viagem à Austrália ou às Galápagos. Provavelmente, era melhor assim: Gabriel tinha uma relação conflituosa com animais selvagens. Para além disso, a última coisa que Chiara queria fazer era cansá-lo com mais um voo de longa distância. Agora que era diretor-geral do Departamento, voava constantemente para Washington para se reunir com os seus parceiros americanos em Langley. Aquilo de que ele mais precisava era de descanso.
Por outro lado, usufruir de momentos de lazer não era algo natural para ele. Era um homem de enorme talento, mas com poucos hobbies. Não fazia esqui nem mergulho e jamais empunhara um taco de golfe ou uma raquete de ténis, exceto como arma. As praias aborreciam-no, a não ser que fossem frias e ventosas. Gostava de velejar, principalmente nas águas agitadas do oeste de Inglaterra, ou de pôr uma mochila às costas e atravessar uma charneca árida. Nem mesmo Chiara, que era agente de campo reformada do Departamento, conseguia aguentar o seu ritmo alucinante durante mais de dois ou três quilómetros. As crianças iriam, decididamente, desfalecer.
O truque seria encontrar algo para Gabriel fazer enquanto estivessem de férias, um pequeno projeto que pudesse ocupá-lo durante algumas horas, todas as manhãs, até que as crianças acordassem e estivessem vestidas e prontas para começar o dia. E se esse projeto pudesse ser realizado numa cidade onde ele já se sentisse à vontade? A cidade onde estudara o ofício de restaurador de arte e fizera a sua formação prática? A cidade onde ele e Chiara se tinham conhecido e apaixonado? Ela era natural dessa cidade e o pai era o grande rabino da sua cada vez mais reduzida comunidade judaica. Para além disso, a sua mãe andava a insistir para que que levasse as crianças a visitá-los. Seria perfeito, pensou. Como diz o provérbio, mataria dois coelhos de uma cajadada só.
Mas quando? Agosto estava fora de questão. Era demasiado quente e húmido e a cidade estaria submersa num mar de turistas, hordas de amantes de selfies que, durante uma hora ou duas, seguiam guias mal-humorados pela cidade, antes de engolirem apressadamente um cappuccino no Caffè Florian, por um preço exorbitante, e regressarem aos seus cruzeiros. Mas, se esperassem até, digamos, novembro, o tempo estaria fresco e sem nuvens e teriam o sestiere basicamente só para eles. Isso dar-lhes-ia a oportunidade de refletirem sobre o futuro sem a distração do Departamento ou da vida quotidiana em Israel. Gabriel informara o primeiro-ministro de que cumpriria apenas um mandato. Não era demasiado cedo para começarem a pensar como iriam passar o resto das suas vidas e onde iriam criar os seus filhos. Nenhum deles estava a ir para novo, principalmente Gabriel.
Chiara não o informou dos seus planos, já que isso só conduziria a um extenso discurso por parte do seu marido sobre todos os motivos pelos quais o Estado de Israel colapsaria se ele tirasse, sequer, um dia de folga. Pelo contrário, conspirou com Uzi Navot, o subdiretor, para escolher as datas. A divisão de Logística, responsável pela aquisição e gestão de propriedades seguras, tratou do alojamento. A polícia e os serviços secretos locais, com quem Gabriel mantinha uma relação de grande proximidade, aceitaram encarregar-se da segurança.
Faltava apenas o projeto para manter Gabriel ocupado. No final de outubro, Chiara telefonou a Francesco Tiepolo, proprietário de uma das mais proeminentes empresas de restauro da região.
— Tenho mesmo aquilo de que precisa. Vou enviar-lhe uma fotografia.
Três semanas depois, após uma reunião particularmente conflituosa do turbulento Conselho de Israel, Gabriel regressou a casa para encontrar a família Allon de malas feitas.
— Vais deixar-me?
— Não — disse Chiara. — Vamos de férias. Nós todos.
— Eu não posso, de forma nenhuma…
— Está tudo tratado, querido.
— O Uzi sabe?
Chiara assentiu com a cabeça.
— E o primeiro-ministro também.
— Para onde é que vamos? E durante quanto tempo?
Ela respondeu.
— O que é que eu vou fazer durante duas semanas?
Chiara entregou-lhe a fotografia.
— É impossível conseguir terminar isto.
— Fazes o máximo que conseguires.
— E vou deixar outra pessoa tocar no meu trabalho?
— Não é o fim do mundo.
— Nunca se sabe, Chiara. Talvez seja.
O apartamento ocupava o piano nobile de um velho palazzo degradado em Cannaregio, o mais setentrional dos seis sestieri tradicionais de Veneza. Contava com um salão de visitas, uma grande cozinha repleta de eletrodomésticos modernos e um terraço com vista para o Rio della Misericordia. Num dos quatro quartos, a divisão de Logística estabelecera uma ligação segura com a Avenida Rei Saul, completando-a com uma estrutura semelhante a uma tenda (na gíria do Departamento, era conhecida como chupá[1]) que permitia a Gabriel falar ao telefone sem receio de escutas eletrónicas. No exterior, na Fondamenta dei Ormesini, montavam guarda os agentes à paisana dos carabinieri. Com o consentimento deles, Gabriel estava armado com uma pistola Beretta de 9 mm. Chiara, que era muito melhor atiradora do que ele, também.
Caminhando alguns passos ao longo do cais, havia uma ponte de ferro (a única em Veneza) e, no lado oposto do canal, uma ampla praça chamada Campo di Ghetto Nuovo, onde se situavam um museu, uma livraria e os escritórios da comunidade judaica. A Casa Israelitica di Riposo, um lar para idosos, ocupava o flanco norte. Junto da mesma, havia um austero memorial em baixo-relevo, em homenagem aos judeus de Veneza que, em dezembro de 1943, tinham sido reunidos, detidos em campos de concentração e, mais tarde, assassinados em Auschwitz. Dois carabinieri fortemente armados vigiavam o memorial a partir de um posto fortificado. Das duzentas e cinquenta mil pessoas que ainda habitavam nas ilhas de uma Veneza que se afundava, só os judeus precisavam de proteção policial vinte quatro horas por dia.
Os prédios que flanqueavam o campo[2] eram os mais altos de Veneza pois, na Idade Média, a Igreja proibira os seus residentes de morarem em qualquer outro lugar da cidade. Nos últimos andares de vários edifícios, existiam pequenas sinagogas (agora meticulosamente restauradas) que, em tempos, tinham servido as comunidades de judeus asquenazes e sefarditas que viviam por baixo. As duas sinagogas do gueto ainda em funcionamento ficavam a sul do campo. Ambas eram clandestinas, e não havia nada na sua aparência externa que sugerisse que eram casas de culto judaicas. A Sinagoga Espanhola fora fundada, em 1580, pelos antepassados de Chiara. Desprovida de aquecimento, estava aberta desde a Páscoa Judaica até às grandes festas de Rosh Hashanah e Yom Kippur. A Sinagoga Levantina, situada numa pequena praça, servia a comunidade durante o inverno.
O rabino Jacob Zolli e a sua esposa, Alessia, viviam ao virar da esquina da Sinagoga Levantina, numa casinha estreita com vista para um corte[3] isolado. Foi lá que a família Allon jantou, na segunda-feira à noite, poucas horas depois de terem chegado a Veneza. Gabriel conseguiu consultar o telemóvel apenas quatro vezes.
— Espero que não haja nenhum problema — disse o rabino Zolli.
— O habitual — murmurou Gabriel.
— Fico aliviado.
— Não fique.
O rabino riu-se baixinho e passeou o olhar pela mesa, satisfeito, pousando-o brevemente nos dois netos, na esposa e, finalmente, na filha. A luz da vela refletia-se nos olhos de Chiara, que eram cor de caramelo salpicados de dourado.
— A Chiara nunca esteve tão radiante. Obviamente, faze-la muito feliz.
— A sério?
— É certo que tem havido alguns percalços no caminho. — O tom do rabino foi admoestatório. — Mas garanto-te que ela se considera a pessoa mais sortuda do mundo.
— Receio que essa honra me pertença.
— Ouvi dizer que ela te enganou com os planos de viagem.
Gabriel franziu o sobrolho.
— De certeza que há algum excerto na Torá que proíba esse tipo de coisas.
— Não me lembro de nenhum.
— Provavelmente, foi melhor assim — admitiu Gabriel. — De outra forma, duvido que tivesse concordado.
— Fico satisfeito por finalmente terem conseguido trazer as crianças a Veneza. Mas temo que tenham vindo numa altura complicada. — O rabino Zolli baixou a voz. — O Saviano e os seus amigos da extrema-direita despertaram forças obscuras na Europa.
Giuseppe Saviano era o novo primeiro-ministro italiano. Era xenófobo, intolerante, sem qualquer respeito pela imprensa livre e com pouca paciência para detalhes como o parlamentarismo ou o Estado de Direito. Tal como o seu amigo íntimo, Jörg Kaufmann, o neofascista novato que ocupava a chancelaria da Áustria. Em França, assumia-se à boca cheia que Cécile Leclerc, líder da Frente Popular, seria a nova residente do Palácio do Eliseu. Na Alemanha, esperava-se que os Nacionais-Democratas, liderados por um antigo skinhead neonazi chamado Axel Brünner, ficassem em segundo lugar nas eleições gerais de janeiro. Aparentemente, a extrema-direita estava em franca ascensão generalizada.
O seu aumento de popularidade na Europa Ocidental fora alimentado pela globalização, pela incerteza económica e pela composição demográfica do continente, que mudava a olhos vistos. Atualmente, os muçulmanos constituíam já cinco por cento da população europeia, pelo que um número crescente de europeus nativos via o Islão como uma ameaça existencial à sua identidade cultural e religiosa. A raiva e o ressentimento, em tempos contidos ou escondidos do espaço público, percorriam, agora, as veias da Internet como um vírus. Os ataques a muçulmanos tinham aumentado drasticamente, tal como as agressões físicas e os atos de vandalismo contra judeus. Efetivamente, o antissemitismo na Europa atingira níveis que não eram vistos desde a Segunda Guerra Mundial.
— O nosso cemitério no Lido foi novamente vandalizado na semana passada — disse o rabino Zolli. — Lápides tombadas, suásticas… o costume. Os meus fiéis estão assustados. Tento confortá-los, mas também estou assustado. Os políticos anti-imigração, como o Saviano, agitaram a garrafa e tiraram-lhe a rolha. Os seus apoiantes queixam-se dos refugiados do Médio Oriente e de África, mas não há ninguém que eles abominem mais do que nós. É o ódio mais antigo. Aqui em Itália, já não é mal visto ser antissemita. Nos dias de hoje, o desprezo por nós pode expressar-se de forma bastante aberta. E os resultados têm sido inteiramente previsíveis.
— A tempestade há de passar — disse Gabriel, com pouca convicção.
— Os teus avós provavelmente disseram o mesmo. Tal como os judeus de Veneza. A tua mãe conseguiu sair de Auschwitz viva. Os judeus de Veneza não tiveram tanta sorte. — O rabino Zolli abanou a cabeça. — Já vi este filme antes, Gabriel. Sei como é que termina. Nunca te esqueças de que o inimaginável pode acontecer. Mas não vamos estragar a noite com conversas desagradáveis. Quero gozar a companhia dos meus netos.
Na manhã seguinte, Gabriel acordou cedo e passou algumas horas a falar com os seus principais colaboradores na Avenida Rei Saul, sob a proteção da chupá. Depois, alugou um barco a motor e levou Chiara e as crianças num passeio pela cidade e pelas ilhas da lagoa. Estava demasiado frio para nadar no Lido, mas as crianças tiraram os sapatos e perseguiram gaivotas e andorinhas-do-mar pela praia. Na viagem de regresso a Cannaregio, pararam na Igreja de San Sebastiano, em Dorsoduro, para ver a pintura de Veronese, A Virgem e o Menino em Glória com Santos, que Gabriel restaurara durante a gravidez de Chiara. Mais tarde, enquanto a luz de outono se desvanecia no Campo di Ghetto Nuovo, as crianças participaram num ruidoso jogo de apanhada, enquanto Gabriel e Chiara assistiam, sentados num banco de madeira no exterior da Casa Israelitica di Riposo.
— É possível que este seja o meu banco preferido no mundo inteiro — disse Chiara. — Era aqui que estavas sentado no dia em que ganhaste juízo e me imploraste que te aceitasse de volta. Lembras-te, Gabriel? Foi depois do atentado no Vaticano.
— Não sei bem o que é que foi pior, se as granadas-foguete e os bombistas suicidas ou a forma como tu me trataste.
— Tu mereceste, seu pateta. Nunca devia ter aceitado voltar a namorar contigo.
— E agora os nossos filhos estão a brincar no campo — disse Gabriel.
Chiara olhou de relance para o posto dos carabinieri.
— Vigiados por homens armados.
No dia seguinte, quarta-feira, Gabriel esgueirou-se do apartamento depois dos seus telefonemas matinais e, com uma caixa de madeira envernizada debaixo do braço, caminhou até à Igreja da Madonna dell’Orto. A nave central estava na penumbra e os andaimes ocultavam os arcos ogivais das naves laterais. A igreja não tinha transepto, mas, ao fundo, existia uma abside com cinco lados que albergava o túmulo de Jacopo Robusti, mais conhecido como Tintoretto. Foi aí que Gabriel encontrou Francesco Tiepolo. Era um homem grande como um urso, com uma barba crespa, grisalha e negra. Como era habitual, envergava uma túnica branca solta e um lenço amarrado despreocupadamente à volta do pescoço.
Deu um abraço apertado a Gabriel.
— Sempre soube que ias voltar.
— Estou de férias, Francesco. Não nos entusiasmemos demasiado.
Tiepolo acenou a mão como se estivesse a tentar afugentar os pombos na Piazza di San Marco.
— Hoje estás de férias, mas, um dia, vais morrer em Veneza. — Baixou o olhar para o túmulo. — Suponho que teremos de enterrar-te noutro lugar que não seja uma igreja, não é?
Entre 1552 e 1569, Tintoretto criara dez pinturas para a igreja, incluindo a Apresentação da Virgem no Templo, que pendia no lado direito da nave. Era uma tela gigantesca, de 4,80 por 4,29 metros, e uma das suas obras-primas. A primeira fase do restauro, que era remoção do verniz desbotado, estava concluída. Faltava apenas o retoque das partes da tela deterioradas pela passagem do tempo e condições ambientais. Seria uma tarefa monumental. Gabriel calculava que um único restaurador pudesse demorar um ano a concluí-la, se não mais.
— Quem foi a pobre alma que removeu o verniz? O Antonio Politi, espero.
— Foi a Paulina, a rapariga nova. Tinha esperanças de poder observar-te a trabalhar.
— Suponho que a tenhas desenganado dessa ideia.
— Taxativamente. Ela disse que podias ficar com a parte do quadro que quisesses, exceto a Virgem.
Gabriel ergueu o olhar para a parte superior da imponente tela. Maria, a filha de três anos de Joaquim e Ana, judeus de Nazaré, subia hesitantemente os quinze degraus do Templo de Jerusalém em direção ao sumo sacerdote. Alguns degraus abaixo, havia uma mulher reclinada, vestida com um manto de seda castanha. Estava a abraçar uma criança pequena, mas era impossível perceber se se tratava de um rapaz ou de uma rapariga.
— Ela — disse Gabriel. — E a criança.
— Tens a certeza? Precisam de muito trabalho.
Gabriel sorriu tristemente, com os olhos na tela.
— É o mínimo que posso fazer por eles.
Ficou na igreja até às duas da tarde, mais tempo do que pretendia. Nessa noite, ele e Chiara deixaram as crianças com os avós e jantaram a sós no restaurante que ficava no outro lado do Grande Canal, em San Polo. No dia seguinte, quinta-feira, levou as crianças para um passeio de gôndola, de manhã, e trabalhou no Tintoretto do meio-dia às cinco, hora a que Tiepolo trancava as portas da igreja.
Chiara decidiu fazer o jantar no apartamento. Depois, Gabriel supervisionou a batalha noturna conhecida como hora do banho, antes de se retirar para a proteção da chupá para lidar com uma pequena crise em casa. Era quase uma da manhã quando se arrastou para a cama. Chiara estava a ler um romance, alheada da televisão sem som. O ecrã mostrava uma transmissão em direto da Basílica de São Pedro. Gabriel aumentou o volume e soube que um velho amigo falecera.
[1] Tenda sob a qual se realiza o casamento judaico. (N.T.)
[2] Terreiro, em italiano. (N.T.)
[3] Pátio, em italiano. (N.T.)
3
CANNAREGIO, VENEZA
Mais tarde, nessa manhã, o corpo de Sua Santidade, o papa Paulo VII, foi levado para a Sala Clementina, no segundo andar do Palácio Apostólico. Ali permaneceu até ao início da tarde seguinte, quando foi transferido, em procissão solene, para a Basílica de São Pedro, para dois dias de exibição pública. Quatro guardas suíços, com as alabardas a postos, vigiavam o pontífice falecido. A imprensa do Vaticano deu grande destaque ao facto de o arcebispo Luigi Donati, o assistente e confidente mais próximo do Santo Padre, raramente se ter afastado do seu lado.
A tradição da Igreja ditava que o funeral e o enterro do papa ocorressem quatro a seis dias após a sua morte. O cardeal camerlengo, Domenico Albanese, anunciou que teriam lugar na terça-feira seguinte e que o conclave se reuniria dez dias depois. Os vaticanisti previam uma disputa renhida e fraturante entre reformadores e conservadores. As apostas centravam-se no cardeal José Maria Navarro, que usara a sua posição como guardião doutrinário da Igreja para construir uma base de poder no seio do Colégio Cardinalício que rivalizava, até, com a do papa defunto.
Em Veneza, onde Pietro Lucchesi reinara como patriarca, o presidente do município declarou três dias de luto. Os sinos da cidade ficaram em silêncio e houve um serviço religioso moderadamente participado na Basílica de São Marcos. À exceção disso, a vida prosseguiu como normalmente. Uma pequena acqua alta inundou uma parte da Santa Croce e um cruzeiro colossal colidiu contra um cais do canal da Giudecca. Nos estabelecimentos onde os locais se reuniam para beber um café ou um copo de aguardente contra o frio outonal, raramente se ouvia o nome do falecido pontífice. Cínicos por natureza, poucos venezianos se davam ao trabalho de assistir à missa regularmente e menos ainda viviam as suas vidas de acordo com os ensinamentos dos homens do Vaticano. As igrejas de Veneza, as mais belas de toda a Cristandade, eram locais onde os turistas estrangeiros iam para contemplar arte renascentista.
Contudo, Gabriel seguia os acontecimentos em Roma com um interesse mais do que superficial. Na manhã das exéquias fúnebres do papa, chegou cedo à igreja e trabalhou sem interrupções até ao meio-dia e um quarto, quando ouviu o eco oco de passos na nave. Levantou a sua viseira de ampliação e abriu cuidadosamente a cortina de lona que tapava a sua plataforma. O general Cesare Ferrari, comandante da Divisão de Defesa do Património Cultural dos Carabinieri, mais conhecida como Brigada de Arte, devolveu-lhe um olhar sem expressão.
Sem que tivesse sido convidado, o general atravessou a cortina e contemplou a enorme tela, banhada pela luz branca abrasadora de dois candeeiros de halogéneo.
— É um dos melhores dele, não acha?
— Estava sob enorme pressão para provar o seu valor. Veronese tinha sido reconhecido publicamente como o sucessor de Ticiano e o melhor pintor de Veneza. O pobre Tintoretto já não recebia o mesmo tipo de encomendas de antes.
— Esta era a paróquia dele.
— Não me diga.
— Vivia ao virar da esquina, na Fondamenta di Mori. — O general afastou a lona para o lado e dirigiu-se para a nave. — Antigamente, havia um Bellini nesta igreja. A Virgem com o Menino. Foi roubado em 1993. A Brigada de Arte anda à procura dele desde então. — Perscrutou Gabriel por cima do ombro. — Não o viu, pois não?
Gabriel sorriu. Pouco antes de se tornar chefe do Departamento, recuperara a pintura roubada mais procurada do mundo, a Natividade com São Francisco e São Lourenço, de Caravaggio. Tinha-se assegurado de que a Brigada de Arte recebia todo o crédito por isso. Fora por esse motivo, entre outros, que o general Ferrari aceitara providenciar a Gabriel e à sua família segurança vinte e quatro horas por dia, durante as suas férias em Veneza.
— Era suposto estar a descansar — disse o general.
Gabriel baixou a viseira de ampliação.
— E estou.
— Há algum problema?
— Por razões inexplicáveis, estou a ter algumas dificuldades em recriar a cor da vestimenta desta mulher.
— Refiro-me à sua segurança.
— Parece que o meu regresso a Veneza passou despercebido.
— Não completamente. — O general olhou de relance para o relógio de pulso. — Calculo que não consiga convencê-lo a fazer uma pausa para o almoço…
— Nunca almoço, quando estou a trabalhar.
— Sim, eu sei. — O general desligou os candeeiros de halogéneo. — Ainda me lembro.
Tiepolo dera a Gabriel uma chave da igreja. Observado pelo comandante da Brigada de Arte, acionou o alarme e trancou a porta. Caminharam juntos até um café que ficava algumas portas abaixo da antiga casa de Tintoretto. O funeral papal passava na televisão atrás do balcão.
— Caso esteja a perguntar-se — disse o general —, o arcebispo Donati queria que estivesse presente.
— Então, porque é que não fui convidado?
— O camerlengo não permitiu.
— O Albanese?
O general assentiu com a cabeça.
— Pelos vistos, nunca se sentiu confortável com a proximidade da sua relação com o Donati. Aliás, nem com o Santo Padre.
— Provavelmente, é melhor eu não ter ido. A minha presença só teria sido uma distração.
O general franziu o sobrolho.
— Deviam tê-lo sentado num lugar de honra. Afinal, se não fosse por si, o Santo Padre teria morrido no atentado terrorista no Vaticano.
O empregado, um rapaz magricelas de vinte e poucos anos, vestido com uma t-shirt preta, serviu-lhes dois cafés. O general acrescentou açúcar ao seu, mexendo com uma mão à qual faltavam dois dedos. Perdera-os devido a uma carta armadilhada, quando era comandante da divisão de Nápoles dos carabinieri, que estava infestada pela Camorra. A explosão também lhe levara o olho direito. A prótese ocular, com a sua pupila imóvel, deixara o general com um olhar frio e inflexível. Até Gabriel tinha tendência para o evitar. Era como fitar o olho de um Deus que tudo vê.
Naquele momento, o olho estava apontado na direção da televisão, onde a câmara se movia lentamente para mostrar uma galeria de políticos, monarcas e celebridades globais variadas. Finalmente, deteve-se em Giuseppe Saviano.
— Pelo menos não está de braçadeira — murmurou o general.
— Não é um admirador?
— O Saviano é um defensor apaixonado do orçamento da Brigada de Arte. Como tal, damo-nos bastante bem.
— Os fascistas adoram o património cultural.
— Ele considera-se um populista, não um fascista.
— Que alívio.
O breve sorriso de Ferrari não se espelhou minimamente na sua prótese ocular.
— A ascensão de um homem como o Saviano era inevitável. O nosso povo perdeu a fé, com noções fantasiosas como democracia liberal, União Europeia e aliança ocidental. E como é que não perderia? Entre a globalização e a automatização, a maioria dos jovens italianos não consegue começar uma carreira digna. Se quiserem um emprego bem remunerado, têm de ir para a Grã-Bretanha. E, se ficarem aqui… — O general olhou de soslaio para o jovem atrás do balcão. — Servem cafés aos turistas. — Baixou o tom de voz. — Ou aos espiões israelitas.
— O Saviano não vai alterar nada disso.
— Provavelmente, não. Mas, entretanto, vai projetando força e confiança.
— Então, e a competência?
— Desde que mantenha os imigrantes afastados, os seus partidários estão-se nas tintas para o facto de ele não conseguir construir uma frase.
— E se houver uma crise? Uma verdadeira crise. Não uma inventada por um site de direita.
— Como por exemplo?
— Pode ser outra crise financeira que arrase o sistema bancário. — Gabriel fez uma pausa. — Ou algo muito pior.
— O que é que poderia ser pior do que ver as poupanças da minha vida inteira esfumarem-se?
— Que tal uma pandemia global? Uma nova estirpe de gripe para a qual os humanos não tenham uma defesa natural.
— Uma praga?
— Não se ria, Cesare. É só uma questão de tempo.
— E de onde é que virá essa sua praga?
— Vai passar de animais para humanos num local onde as condições sanitárias deixem muito a desejar. Um mercado chinês, por exemplo. Vai começar lentamente, com um conjunto de casos locais. Mas, como estamos tão interligados, vai propagar-se pelo mundo inteiro como um incêndio. Os turistas chineses vão trazer o vírus para a Europa Ocidental nas fases iniciais do surto, ainda antes de o vírus ser identificado. Em poucas semanas, metade da população italiana vai estar infetada, talvez mais. O que é que acontece nesse momento, Cesare?
— Diga-me o Gabriel.
— Todo o país terá de ficar em quarentena para evitar que continue a propagar-se. Os hospitais vão ficar tão saturados que vão ser forçados a rejeitar toda a gente, exceto os mais novos e saudáveis. Vão morrer centenas de pessoas todos os dias, talvez milhares. O exército terá de recorrer à cremação em massa para evitar mais contágios. Vai ser…
— Um holocausto.
Gabriel assentiu lentamente com a cabeça.
— E como é que imagina que um iletrado incompetente como o Saviano vai reagir nessas circunstâncias? Vai ouvir os médicos especialistas ou vai achar que ele é que sabe? Vai dizer a verdade à população ou vai prometer que há uma vacina e um tratamento logo ao virar da esquina?
— Vai culpar os chineses e os imigrantes e sair disso mais forte do que nunca. — Ferrari olhou seriamente para Gabriel. — Sabe alguma coisa que não me está a contar?
— Qualquer pessoa com dois dedos de testa sabe que já há muito que devíamos ter tido algo à escala da gripe de 1918. Eu disse ao primeiro-ministro que, de todas as ameaças que Israel enfrenta, uma pandemia é, de longe, a pior.
— Ainda bem que a minha única responsabilidade é encontrar quadros roubados. — O general observava a televisão, enquanto a câmara se movia através de um mar de paramentos vermelhos. — O próximo pontífice está ali sentado.
— Dizem que vai ser o cardeal Navarro.
— É esse o rumor.
— Tem alguma informação?
O general Ferrari respondeu como se estivesse a dirigir-se a uma sala cheia de jornalistas:
— Os carabinieri não fazem qualquer esforço para monitorizar o processo de sucessão papal. Nem as outras agências italianas de segurança e serviços secretos.
— Poupe-me.
O general riu-se silenciosamente.
— E o Gabriel?
— A identidade do próximo papa não diz respeito ao Estado de Israel.
— Agora já diz.
— Está a falar de quê?
— Vou deixar que ele explique. — O general Ferrari apontou com a cabeça na direção da televisão, onde a câmara encontrara o arcebispo Luigi Donati, secretário pessoal de Sua Santidade, o papa Paulo VII. — Quer saber se o Gabriel teria uns minutos para falar com ele.
— Porque é que ele simplesmente não me telefonou?
— Não é algo que queira discutir ao telefone.
— Ele disse-lhe de que se tratava?
O general abanou a cabeça.
— Só que era um assunto da máxima importância. Tinha esperança de que o Gabriel pudesse almoçar com ele amanhã.
— Onde?
— Em Roma.
Gabriel não respondeu.
— Fica a uma hora de avião. Vai estar de regresso a Veneza a tempo do jantar.
— Vou mesmo?
— A avaliar pelo tom de voz do arcebispo, tenho as minhas dúvidas. Ele vai estar à sua espera, à uma hora, no Piperno. Ele disse que o Gabriel conhece o sítio.
— Tenho uma vaga recordação.
— Ele gostava que fosse sozinho. E não se preocupe com a sua esposa e os seus filhos. Vou cuidar muito bem deles durante a sua ausência.
— Ausência? — Não era a palavra que Gabriel escolheria para descrever uma viagem de um dia até à Cidade Eterna.
O general estava novamente a fitar a televisão.
— Olhe para aqueles príncipes da Igreja, todos vestidos de vermelho.
— A cor simboliza o sangue de Cristo.
O olho bom de Ferrari pestanejou de surpresa.
— Como é que sabe isso?
— Passei a maior parte da minha vida a restaurar arte cristã. Provavelmente, sei mais sobre a história e os ensinamentos da Igreja do que a maioria dos católicos.
— Incluindo eu. — O olhar do general regressou ao ecrã. — Quem é que acha que será?
— Dizem que o Navarro já está a encomendar mobília nova para o appartamento.
— Sim — disse o general, assentindo pensativamente com a cabeça. — É o que dizem.
4
MURANO, VENEZA
— Por favor, diz-me que estás a brincar.
— Acredita, não foi ideia minha.
— Sabes quanto tempo e esforço dediquei a organizar esta viagem? Tive de me reunir com o primeiro-ministro, pelo amor de Deus!
— E eu lamento isso — disse Gabriel de forma solene —, profunda e eternamente.
Estavam sentados nas traseiras de um pequeno restaurante em Murano. Gabriel tinha esperado que terminassem as entradas, antes de contar a Chiara o seu plano de ir a Roma de manhã. Reconhecidamente, fizera-o por motivos egoístas. O restaurante, cuja especialidade era peixe, era um dos seus favoritos em Veneza.
— É só um dia, Chiara.
— Nem tu acreditas nisso.
— Não, mas tinha de tentar.
Chiara ergueu um copo de vinho na direção dos lábios. O resto do seu pinot grigio fulgia com o fogo ténue da luz da vela refletida. — Porque é que não foste convidado para o funeral?
— Aparentemente, o cardeal Albanese não conseguiu encontrar um lugar vago para mim em toda a Praça de São Pedro.
— Foi ele que encontrou o corpo, não foi?
— Na capela privada — disse Gabriel.
— Achas mesmo que foi assim que aconteceu?
— Estás a sugerir que a Sala de Imprensa da Santa Sé pode ter divulgado um bollettino falso?
— Tu e o Luigi colaboraram na redação de várias declarações enganosas ao longo dos anos.
— Mas os nossos motivos foram sempre puros.
Chiara pousou o copo de vinho na toalha de mesa branca e rodou-o lentamente.
— Porque é que achas que ele quer encontrar-se contigo?
— Não pode ser nada de bom.
— O que é que o general Ferrari disse?
— O mínimo possível.
— Isso não parece nada dele.
— Talvez tenha referido que tem alguma coisa a ver com a escolha do próximo Sumo Pontífice da Igreja Católica e Apostólica Romana.
O copo de vinho parou.
— O conclave?
— Não entrou em pormenores.
Gabriel deu um toque no telefone para o acender e viu as horas. Fora finalmente forçado a separar-se do seu querido BlackBerry Key2. O seu novo aparelho era um Solaris, produzido em Israel e personalizado de acordo com as suas características únicas. Maior e mais pesado do que um smartphone típico, fora fabricado para resistir ao ataque remoto dos mais sofisticados hackers do mundo, incluindo a NSA americana e a Unidade 8200 israelita. Todos os colaboradores próximos de Gabriel tinham um, tal como Chiara. Era o seu segundo, pois Raphael atirara o primeiro do terraço do apartamento deles em Jerusalém. Apesar de toda a sua inviolabilidade, o dispositivo não fora concebido para sobreviver a uma queda de três andares e a uma colisão com um pavimento de calcário.
— É tarde — disse ele. — Devíamos ir resgatar os teus pais.
— Não precisamos de nos apressar. Eles adoram ter as crianças por perto. Por eles, nunca deixaríamos Veneza.
— A Avenida Rei Saul era capaz de dar pela minha ausência.
— O primeiro-ministro também. — Ficou em silêncio durante um momento. — Tenho de admitir que não estou ansiosa por voltar para casa. Foi bom ter-te só para mim.
— Só faltam dois anos para terminar o meu mandato.
— Dois anos e um mês. Mas quem é que está a contar?
— Tem sido terrível?
Ela fez uma careta.
— Nunca quis desempenhar o papel da esposa queixosa. Conheces o género, não conheces, Gabriel? Essas mulheres são tão irritantes…
— Sempre soubemos que ia ser difícil.
— Sim — disse ela vagamente.
— Se precisares de ajuda…
— Ajuda?
— Outro par de mãos em casa.
Ela franziu o sobrolho.
— Consigo desenrascar-me muito bem sozinha, obrigada. Simplesmente, sinto a tua falta, é só isso.
— Dois anos passam num abrir e fechar de olhos.
— E prometes que não vais deixar que te convençam a cumprir um segundo mandato?
— Nem pensar nisso.
O rosto dela iluminou-se.
— Então, como é que planeias passar a reforma?
— Dito dessa maneira, até parece que devia começar a procurar um lar.
— Os anos estão a passar por ti, querido. — Deu-lhe uma palmadinha nas costas da mão, o que não o fez sentir-se mais jovem. — Então? — perguntou ela.
— Planeio dedicar os meus últimos anos neste planeta a fazer-te feliz.
— Nesse caso, vais fazer tudo o que eu quiser?
Ele olhou-a cuidadosamente.
— Dentro do que for razoável, como é evidente.
Ela baixou rapidamente o olhar e puxou um fio solto da toalha de mesa.
— Tomei café com o Francesco, ontem.
— Ele não me contou.
— Eu pedi-lhe para não te contar.
— Então, está explicado. E de que é que falaram?
— Do futuro.
— O que é que ele tem em mente?
— Uma parceria.
— Eu e o Francesco?
Chiara não respondeu.
— Tu?
Ela assentiu com a cabeça.
— Quer que eu venha trabalhar para ele. E, quando se reformar, daqui a alguns anos…
— O quê?
— A Restauro Tiepolo será minha.
Gabriel recordou as palavras que Tiepolo lhe dissera junto do túmulo de Tintoretto. Hoje estás de férias, mas, um dia, vais morrer em Veneza… Não lhe parecia que aquele plano tivesse surgido no dia anterior, enquanto tomavam café.
— Uma respeitável rapariga judia, vinda do gueto, vai zelar pelas igrejas e scuole de Veneza? É isso que estás a dizer?
— É extraordinário, não é?
— E o que é que eu vou fazer?
— Suponho que possas passar os dias a deambular pelas ruas de Veneza.
— Ou?
Ela fez um lindo sorriso.
— Podes trabalhar para mim.
Desta vez, foi Gabriel que baixou o olhar. O seu telefone estava iluminado com uma mensagem recebida da Avenida Rei Saul. Virou o aparelho ao contrário.
— Isso pode ser controverso, Chiara.
— Trabalhares para mim?
— Deixar Israel assim que o meu mandato terminar.
— Tencionas candidatar-te a um lugar no Knesset?
Ele revirou os olhos.
— Escrever um livro sobre as tuas façanhas?
— Vou deixar essa tarefa para outra pessoa.
— Então?
Ele não respondeu.
— Se ficares em Israel, vais estar facilmente ao alcance do Departamento. E, se houver uma crise, vão arrastar-te de volta para resolveres o problema, tal como fizeram com o Ari.
— O Ari queria voltar a entrar. Eu sou diferente.
— És mesmo? Às vezes, não tenho tanta certeza disso. Na verdade, estás cada vez mais parecido com ele.
— E as crianças? — perguntou ele.
— Elas adoram Veneza.
— A escola?
— Por incrível que pareça, temos várias escolas excelentes.
— Os miúdos vão tornar-se italianos.
Ela franziu o sobrolho.
— É uma pena, isso.
Gabriel expirou lentamente.
— Viste a contabilidade do Francesco?
— Vou pôr tudo em ordem.
— Os verões aqui são terríveis.
— Vamos para as montanhas ou velejar no Adriático. Há anos que não velejas, querido.
Gabriel esgotara as objeções. Na verdade, achava que era uma ideia maravilhosa. No mínimo, manteria Chiara ocupada durante os últimos dois anos do seu mandato.
— Temos acordo? — perguntou ela.
— Acho que sim, desde que cheguemos a um consenso sobre o meu salário, que vai ser exorbitante.
Fez sinal ao empregado de mesa para pedir a conta. Chiara estava novamente a puxar o fio solto da toalha de mesa.
— Há uma coisa que me está a incomodar — disse ela.
— Em relação a desenraizar as crianças e mudarmo-nos para Veneza?
— O bollettino do Vaticano. O Luigi ficava sempre com o Lucchesi até tarde. E, quando o Lucchesi ia para a capela rezar e meditar antes de ir para a cama, o Luigi ia sempre com ele.
— É verdade.
— Então, porque é que foi o cardeal Albanese que encontrou o corpo?
— Suponho que nunca iremos saber. — Gabriel fez uma pausa. — A não ser que, amanhã, eu almoce com o Luigi em Roma.
— Podes ir, com uma condição.
— Qual é?
— Leva-me contigo.
— E os miúdos?
— Os meus pais podem tomar conta deles.
— E quem é que vai tomar conta dos teus pais?
— Os carabinieri, claro.
— Mas…
— Não me faças pedir duas vezes, Gabriel. Odeio mesmo desempenhar o papel da esposa queixosa. Essas mulheres são tão irritantes…
5
VENEZA–ROMA
Na manhã seguinte, depois do pequeno-almoço, deixaram as crianças na casa dos Zolli e apressaram-se a ir para Santa Lucia a tempo de apanharem o comboio das oito para Roma. Enquanto as planícies ondulantes do centro de Itália deslizavam pela janela, Gabriel leu os jornais e trocou alguns e-mails e mensagens de rotina com a Avenida Rei Saul. Chiara folheava uma volumosa pilha de revistas e catálogos de decoração de interiores, lambendo a ponta do dedo indicador ao virar cada página.
Ocasionalmente, quando a combinação de luz e sombras era favorável, Gabriel vislumbrava o reflexo de ambos no vidro. Tinha de reconhecer que eram um casal atraente, ele vestido com um elegante fato escuro e camisa branca, Chiara com umas leggings pretas e um casaco de cabedal. Apesar da pressão e das longas jornadas que caracterizavam o seu trabalho (e dos seus muitos ferimentos e encontros com a morte), Gabriel achava que se conservara bastante bem. Sim, as rugas em redor dos seus olhos cor de jade estavam um pouco mais profundas, mas continuava a ser um ciclista ágil e mantivera todo o seu cabelo, curto e escuro, mas muito grisalho nas têmporas. Mudara de cor quase de um dia para o outro, pouco depois do primeiro assassínio que executara a mando do Departamento. A operação tivera lugar no outono de 1972, na cidade onde chegariam em breve.
Enquanto se aproximavam de Florença, Chiara pôs-lhe um catálogo debaixo do nariz, pedindo-lhe a opinião sobre o sofá e a mesa de apoio exibidos na página aberta. A resposta indiferente de Gabriel valeu-lhe um olhar de ligeira repreensão. Aparentemente, Chiara já começara a vasculhar os anúncios das agências imobiliárias à procura da nova casa, acrescentando ainda mais provas à teoria de Gabriel de que o regresso a Veneza estava a ser planeado há algum tempo. Por agora, restringira a busca a duas propriedades, uma em Cannaregio e outra em San Polo, com vista para o Grande Canal. Ambas diminuiriam substancialmente a pequena fortuna que Gabriel acumulara com os seus trabalhos como restaurador e ambas exigiriam que Chiara fosse diariamente de transporte público para os escritórios de Tiepolo, em São Marcos. O apartamento de San Polo ficava muito mais perto, a algumas paragens de vaporetto, mas custava também o dobro do preço.
— Se vendêssemos o apartamento da Narkiss Street…
— Não vamos vendê-lo — disse Gabriel.
— O apartamento de San Polo tem um espaço incrível, com tetos altos, onde podes construir um estúdio a preceito.
— O que quer dizer que vou ter de aceitar encomendas particulares para complementar o salário miserável que vou ganhar a trabalhar para ti.
— Exatamente.
O telefone de Gabriel soou com o toque reservado para mensagens urgentes da Avenida Rei Saul. Chiara observou-o ansiosamente, enquanto ele lia.
— Vamos para casa?
— Ainda não.
— O que é?
— Um atentado com um carro-bomba na Potsdamer Platz, em Berlim.
— Vítimas?
— Provavelmente. Mas ainda não há confirmação.
— Quem foi?
— O Estado Islâmico está a reivindicar a responsabilidade.
— Eles têm capacidade para fazer explodir uma bomba na Europa Ocidental?
— Se me tivesses perguntado isso ontem, ter-te-ia dito que não.
Gabriel seguiu as atualizações que chegavam de Berlim até à chegada do comboio a Roma Termini. No exterior, o céu estava azul-celeste e sem nuvens. Gabriel e Chiara caminharam por veredas ocres de terracota, mantendo-se em ruas secundárias e vielas, onde as sentinelas eram mais fáceis de identificar. Enquanto deambulavam vagarosamente pela Piazza Navona, concordaram que não estavam a ser seguidos.
O ristorante Piperno ficava a uma curta distância para sul, num campo sossegado próximo do Tibre. Chiara entrou primeiro e foi conduzida a uma mesa cobiçada, perto da janela, por um empregado de mesa de casaco branco, deslumbrado pela sua beleza. Gabriel, que chegou três minutos depois, sentou-se no exterior, sob a luz quente do sol outonal. Conseguia ver os polegares de Chiara premindo furiosamente o teclado do telefone. Retirou o seu telefone do bolso interior do blazer e escreveu: Passa-se alguma coisa?
A resposta de Chiara chegou poucos segundos depois. O teu filho acaba de partir o jarrão preferido da minha mãe.
De certeza que foi culpa do jarrão, não dele.
A tua companhia para o almoço chegou.
Gabriel observou, enquanto um Fiat antigo se arrastava hesitantemente sobre as pedras da calçada do minúsculo campo. Tinha uma matrícula romana normal, não a matrícula especial SCV, reservada para viaturas do Vaticano. Um clérigo alto e elegante emergiu do banco de trás. A sua batina e peregrineta negras eram debruadas a amaranto, a plumagem de um arcebispo. A sua chegada ao ristorante Piperno provocou só ligeiramente menos tumulto do que a de Chiara.
— Desculpa — disse Luigi Donati, enquanto se sentava em frente de Gabriel. — Nunca devia ter aceitado falar com aquela jornalista da Vanity Fair. Hoje em dia, não posso ir a nenhum lado em Roma sem ser reconhecido.
— Porque é que deste a entrevista?
— Ela deixou claro que ia escrever o artigo, com ou sem a minha colaboração.
— E acreditaste nisso?
— Ela prometeu que seria um perfil sério de um homem que ajudou a conduzir a Igreja através de águas agitadas. Acabou por não ser como prometido.
— Suponho que estejas a referir-te à parte sobre a tua aparência física.
— Não me digas que leste o artigo.
— Cada palavra.
Donati franziu o sobrolho.
— Devo dizer que o Santo Padre gostou bastante. Achou que fazia a Igreja parecer cool. Foi exatamente esta palavra que ele usou, já agora. Os meus rivais na Cúria não concordaram. — Mudou bruscamente de assunto. — Peço desculpa por ter interrompido as tuas férias. Espero que a Chiara não tenha ficado zangada.
— Pelo contrário.
— Estás a dizer-me a verdade?
— Alguma vez te enganei?
— Queres mesmo que eu responda a isso? — Donati sorriu. Fê-lo com esforço.
— Como é que estás a aguentar-te? — perguntou Gabriel.
— Estou a fazer o luto pela perda do meu mestre e a ajustar-me às minhas novas circunstâncias modestas e à perda de estatuto.
— Onde é que estás hospedado?
— Na Cúria Jesuíta. É no final da rua do Vaticano, na Borgo Santo Spirito. Os meus aposentos não são tão bons como o meu apartamento no Palácio Apostólico, mas são bastante confortáveis.
— Arranjaram-te alguma coisa para fazeres?
— Vou ensinar Direito Canónico na Gregoriana. Também estou a preparar um curso sobre a história conturbada da Igreja com os judeus. — Fez uma pausa. — Talvez algum dia consiga convencer-te a dares uma palestra como convidado.
— Já imaginaste?
— Na verdade, já. A relação entre as nossas duas fés nunca esteve melhor, e isso deve-se à tua amizade pessoal com o Pietro Lucchesi.
— Enviei-te uma mensagem, na noite em que ele faleceu — disse Gabriel.
— Significou muito para mim.
— Porque é que não me respondeste?
— Pela mesma razão que não enfrentei o cardeal Albanese quando ele se recusou a autorizar a tua presença no funeral. Precisava da tua ajuda numa questão sensível e não queria atrair atenção desnecessária para a proximidade da nossa relação.
— E a questão sensível?
— Está relacionada com a morte do Santo Padre. Houve certas… irregularidades.
— A começar pela identidade da pessoa que descobriu o corpo.
— Reparaste nisso?
— Na verdade, foi a Chiara.
— É uma mulher inteligente.
— Porque é que o cardeal Albanese encontrou o corpo? Porque é que não foste tu, Luigi?
Donati baixou o olhar para a ementa.
— Talvez devêssemos pedir alguma coisa de entrada. Que tal as folhas de alcachofra e flores de curgete fritas? E os filetti di baccalà. O Santo Padre jurava sempre que eram os melhores de Roma.
6
RISTORANTE PIPERNO, ROMA
O maître insistiu em trazer-lhes uma garrafa de vinho, oferta da casa. Era especial, prometeu, um branco excelente de um pequeno produtor de Abruzzo. Tinha a certeza de que Sua Excelência o consideraria mais do que satisfatório. Donati, com considerável cerimónia, declarou que era divino. Depois, quando ficaram novamente sozinhos, descreveu a Gabriel as últimas horas do pontificado do papa Paulo VII. O Santo Padre e o seu secretário pessoal tinham partilhado uma refeição (uma última ceia, disse Donati gravemente) na sala de jantar do apartamento papal. Donati ingerira apenas um pouco de consomé. Depois, os dois homens tinham ido para o escritório, onde, a pedido do Santo Padre, Donati abrira as cortinas e as persianas da janela com vista para a Praça de São Pedro. Seria o penúltimo serviço que realizaria para o seu mestre, pelo menos em vida de Sua Santidade.
— E o último?
— Preparei a dose noturna de medicamentos do Santo Padre.
— O que é que ele tomava?
Donati recitou os nomes de três fármacos, todos prescritos para o tratamento da insuficiência cardíaca.
— Conseguiram escondê-lo bastante bem — disse Gabriel
— Por aqui somos muito bons nisso.
— Creio recordar um internamento breve na Clínica Gemelli, há alguns meses, devido a uma crise de bronquite aguda.
— Foi um ataque cardíaco. O segundo.
— Quem é que sabia?
— O dottore Gallo, claro. E o cardeal Gaubert, o secretário de Estado.
— Porquê tanto secretismo?
— Porque, se o resto da Cúria tivesse sabido do declínio físico do Lucchesi, na prática, o seu papado teria terminado. Ele tinha muito trabalho para fazer no tempo que lhe restava.
— Que tipo de trabalho?
— Estava a ponderar convocar um terceiro concílio do Vaticano para discutir as inúmeras questões profundas que a Igreja enfrenta. A ala conservadora só agora está a começar a aceitar o Vaticano II, que já foi há mais de meio século. Um terceiro concílio teria sido, no mínimo, fraturante.
— O que é que aconteceu depois de teres dado os medicamentos ao Lucchesi?
— Dirigi-me ao andar de baixo, onde o meu carro e o meu motorista estavam à minha espera. Eram nove horas, mais minuto menos minuto.
— Para onde foste?
Donati esticou o braço para agarrar no seu copo de vinho.
— Devias mesmo provar um bocadinho disto, sabias? É bastante bom.
A chegada dos antipasti concedeu a Donati uma segunda trégua. Enquanto tirava a primeira folha da alcachofra frita à romana, perguntou, com despreocupação forçada:
— Lembras-te da Veronica Marchese, não lembras?
— Luigi…
— O que foi?
— Pai, perdoa-me, porque pequei.
— Não é isso.
— Não?
A doutora Veronica Marchese era diretora do Museo Nazionale Etrusco e a principal autoridade italiana sobre a civilização e antiguidades etruscas. Durante os anos oitenta, enquanto trabalhava numa escavação arqueológica perto da povoação úmbrica de Monte Cucco, apaixonara-se por um padre caído em desgraça, um jesuíta, fervoroso defensor da teologia da libertação, que perdera a fé enquanto trabalhava como missionário na província de Mozarán, em El Salvador. O caso amoroso terminara abruptamente com o regresso do padre caído em desgraça à Igreja, para ser secretário pessoal do Patriarca de Veneza. Arrasada, Veronica casara com Carlo Marchese, um abastado empresário romano, proveniente de uma família nobre que mantinha ligações estreitas com o Vaticano. Marchese morrera após uma queda de uma galeria panorâmica no topo da cúpula da Basílica de São Pedro. Gabriel estava junto de Carlo quando este caíra sobre a barreira de proteção. Sessenta metros mais abaixo, Donati rezara sobre o seu corpo despedaçado.
— Há quanto tempo é que isso se passa? — perguntou Gabriel.
— Há uma música do Gershwin que se chama assim. Sempre adorei essa canção — respondeu Donati, de forma provocadora.
— Responde à pergunta.
— Não se passa nada. Mas janto com ela regularmente há cerca de um ano.
— Há cerca?
— Talvez dois anos seja mais correto.
— Calculo que não jantem em público.
— Não — respondeu Donati. — Só na casa da Veronica.
Gabriel e Chiara tinham estado lá uma vez, numa festa. Era um palazzo repleto de arte e antiguidades, próximo da Villa Borghese.
— Com que frequência? — perguntou ele.
— Salvo quando há uma emergência no trabalho, à quinta à noite.
— A primeira regra do comportamento ilícito é evitar um padrão.
— Não há nada de ilícito no facto de eu e a Veronica jantarmos juntos. A disciplina do celibato não proíbe todos os contactos com mulheres. Simplesmente, não posso casar com ela nem…
— Podes estar apaixonado por ela?
— Em rigor, sim.
Gabriel fitou Donati com reprovação.
— Porque é que escolherias, voluntariamente, estar tão próximo da tentação?
— A Veronica diz que o faço pela mesma razão que escalava montanhas, para ver se consigo manter o equilíbrio. Para ver se Deus irá estender-me a mão e apanhar-me se cair.
— Suponho que ela seja discreta.
— Alguma vez conheceste alguém mais discreto do que a Veronica Marchese?
— E os teus colegas do Vaticano? — perguntou Gabriel. — Alguém sabia?
— É um lugar pequeno, cheio de homens sexualmente reprimidos que adoram partilhar um bom mexerico.
— E é por isso que te parece suspeito que um homem com problemas cardíacos tenha morrido na única noite da semana em que não estavas no Palácio Apostólico.
Donati não disse nada.
— Certamente, há mais do que isso.
— Sim — disse Donati, enquanto tirava outra folha de alcachofra. — Muito mais.
7
RISTORANTE PIPERNO, ROMA
Houve, para começar, o telefonema do cardeal Albanese. Chegou quase duas horas depois da hora a que o camerlengo disse ter encontrado o Santo Padre morto na capela privada. Albanese alegou ter feito várias chamadas sem resposta para Donati. Donati verificara o seu telefone. Não tinha qualquer chamada não atendida.
— Parece ser um caso simples. E que mais?
O estado do escritório papal, respondeu Donati. Persianas e cortinas fechadas. Uma chávena de chá meio bebida sobre a secretária. Um documento desaparecido.
— O que era?
— Uma carta. Uma carta pessoal. Não oficial.
— O Lucchesi era o destinatário?
— O autor.
— E o conteúdo da carta?
— Sua Santidade recusou dizer-me.
Gabriel não sabia se o arcebispo estava a ser inteiramente sincero.
— Suponho que a carta tenha sido escrita à mão…
— O vigário de Cristo não usa um processador de texto.
— A quem estava endereçada?
— A um velho amigo.
Depois, Donati descreveu a cena que encontrou quando o cardeal Albanese o conduziu até ao quarto papal. Gabriel imaginou o quadro como se tivesse sido pintado a óleo sobre tela pela mão de Caravaggio. O corpo do pontífice falecido estendido sobre a cama, vigiado por um trio de prelados superiores. No lado direito da tela, pouco visíveis nas sombras, três leigos de confiança: o médico pessoal do papa, o chefe da pequena força policial do Vaticano e o comandante da Guarda Suíça Pontifícia. Gabriel nunca conhecera o doutor Gallo, mas conhecia Lorenzo Vitale, e gostava dele. Já Alois Metzler era outra história.
O Caravaggio privado de Gabriel dissolveu-se, como se tivesse sido apagado por diluente. Donati estava a reproduzir a explicação de Albanese sobre como encontrara, e depois movera, o cadáver.
— Francamente, é a única parte da história que é plausível. O meu mestre era bastante pequeno e o Albanese tem o físico de um boi. — Donati ficou em silêncio durante um momento. — Como é evidente, há, pelo menos, uma outra explicação.
— Qual?
— Que Sua Santidade nunca tenha chegado à capela. Que tenha morrido à secretária, no escritório, enquanto bebia chá. Tinha desaparecido, quando saí do quarto. Refiro-me ao chá. Alguém retirou a chávena e o pires, enquanto eu rezava junto do corpo de Lucchesi.
— Suponho que não tenha sido submetido a uma autópsia.
— O Vigário de Cristo…
— Foi embalsamado?
— Receio que sim. O corpo de Wojtyla ficou bastante cinzento enquanto estava em exibição na basílica. E, depois, houve o Pio XII. — Donati estremeceu. — Uma verdadeira desgraça. O Albanese disse que não queria correr riscos. Ou talvez estivesse simplesmente a ocultar o seu envolvimento. Afinal, se um corpo for embalsamado, torna-se muito mais difícil encontrar vestígios de veneno.
— Tens mesmo de parar de ver essas séries policiais na televisão, Luigi.
— Eu não tenho televisão.
Gabriel deixou passar um momento.
— Tanto quanto me lembro, não há câmaras de vigilância na lógia, no exterior do apartamento papal.
— Se houvesse câmaras, o apartamento não seria privado, pois não?
— Mas, certamente, havia um guarda suíço de serviço.
— Há sempre.
— Nesse caso, ele teria visto qualquer pessoa que tivesse entrado no apartamento.
— Em princípio.
— Perguntaste-lhe?
— Nunca tive essa oportunidade.
— Expressaste as tuas preocupações ao Lorenzo Vitale?
— E o que é que o Lorenzo teria feito? Investigar a morte de um papa como um possível homicídio? — O sorriso de Donati foi caridoso. — Dada a tua experiência no Vaticano, surpreende-me que faças, sequer, uma pergunta dessas. Para além disso, o Albanese nunca teria permitido. Ele tinha a sua versão e mantinha-se fiel à mesma. Encontrou o Santo Padre na capela privada alguns minutos depois das dez e levou-o, sem ajuda, até ao quarto. Aí, na presença de três dos mais poderosos cardeais da Igreja, pôs em marcha a sequência de acontecimentos que conduziu à declaração de que o trono de São Pedro se encontrava disponível. Tudo isso enquanto eu degustava de um jantar tardio com uma mulher que, em tempos, amei. Se eu puser o Albanese em causa, ele destrói-me. E, de passagem, também destrói a Veronica.
— E se passasses a informação a um jornalista de confiança? Há vários milhares acampados na Praça de São Pedro.
— Este assunto é demasiado sério para ser confiado a um jornalista. Exige alguém suficientemente habilidoso e implacável para descobrir o que, de facto, aconteceu. E rapidamente.
— Alguém como eu?
Donati não respondeu.
— Estou de férias — protestou Gabriel. — E é suposto voltar a Telavive daqui a uma semana.
— O que te dá, exatamente, tempo suficiente para descobrires quem matou o Santo Padre antes do início do conclave. Para todos os efeitos, o conclave já começou. A maioria dos homens que vão escolher o próximo papa está refugiada na Casa Santa Marta. — A Domus Sanctae Marthae, ou Casa Santa Marta, era a hospedaria clerical de cinco andares no extremo sul da cidade-estado. — Posso garantir-te que os príncipes de chapéu vermelho não passam a noite a falar das notícias desportivas enquanto jantam. É imperativo descobrirmos quem esteve por trás do assassínio do meu mestre antes que eles se enfiem na Capela Sistina e as portas se tranquem nas suas costas.
— Com todo o respeito, Luigi, não tens absolutamente nenhuma prova de que o Lucchesi foi assassinado.
— Não te contei tudo o que sei.
— Talvez agora seja uma boa altura para o fazeres.
— A carta que desapareceu estava endereçada a ti. — Donati fez uma pausa. — Agora, pergunta-me sobre o guarda suíço que estava de serviço no exterior do apartamento papal, nessa noite.
— Onde é que ele está?
— Deixou o Vaticano algumas horas depois da morte do Santo Padre. Desde então, nunca mais foi visto.
8
RISTORANTE PIPERNO, ROMA
Gabriel distraiu-se momentaneamente com o homem que deambulava pelo campo, enquanto os empregados de mesa recolhiam o primeiro prato. Usava óculos escuros e um chapéu e carregava uma mochila de nylon sobre um ombro quadrado. Gabriel supôs que tivesse ascendência do norte da Europa, alemã ou austríaca, talvez fosse escandinavo. Parou a alguns metros da mesa deles, como se estivesse a orientar-se, durante tempo suficiente para Gabriel calcular quanto tempo demoraria a sacar a Beretta que tinha guardada no fundo das costas. Em vez disso, tirou o telefone e fotografou o homem, enquanto este abandonava a praça.
— Vamos começar pela carta. — Gabriel devolveu o telefone ao bolso interior do casaco. — Mas porque é que não saltamos para a parte onde alegas não saber por que motivo o Lucchesi estava a escrevê-la.
— Não sei — insistiu Donati. — Mas, se tentasse adivinhar, diria que estava relacionada com alguma coisa que ele encontrou no Arquivo Secreto.
L’Archivio Segreto Vaticano, o Arquivo Secreto do Vaticano, era o repositório central dos documentos papais relacionados quer com assuntos de religião quer de Estado. Situado perto da Biblioteca do Vaticano, no Palácio Belvedere, calculava-se que contivesse oitenta e cinco quilómetros de espaço nas prateleiras, grande parte deles em abrigos subterrâneos fortificados. Entre os seus inúmeros tesouros encontrava-se o Decet Romanum Pontificem, a bula papal do papa Leão X, de 1521, que ordenava a excomunhão de um problemático padre e teólogo alemão chamado Martinho Lutero. Era também o local de repouso final de grande parte da roupa suja de Igreja. No início do papado de Lucchesi, Gabriel trabalhara com Donati e o Santo Padre para divulgar documentos diplomáticos e outros relacionados com a conduta do papa Pio XII durante a Segunda Guerra Mundial, onde seis milhões de judeus tinham sido sistematicamente assassinados, frequentemente por católicos romanos, quase sem uma palavra de protesto da Santa Sé.
— O Arquivo é considerado propriedade pessoal do papado — continuou Donati. — O que significa que o papa tem autorização para ver tudo o que quiser. O mesmo não se aplica ao seu secretário pessoal. De facto, nem sempre fui autorizado a conhecer a natureza dos documentos que ele estava a rever.
— Onde é que ele fazia as suas leituras?
— Às vezes, o prefetto levava os documentos ao apartamento papal. Mas, se fossem demasiado frágeis ou sensíveis, o Santo Padre examinava-os numa sala especial no interior do Arquivo, com o prefetto de guarda à saída da porta. Talvez tenha ouvido falar dele. Chama-se…
— Cardeal Domenico Albanese.
Donati fez um gesto afirmativo com a cabeça.
— Portanto, o Albanese tinha conhecimento de todos os documentos que passavam pelas mãos do Santo Padre?
— Não necessariamente. — Fumador empedernido, Donati tirou um cigarro de uma elegante caixa dourada e bateu com ele na tampa, antes de o acender com um isqueiro dourado a condizer. — Como deves estar lembrado, no final do papado, Sua Santidade começou a ter problemas graves de insónias. Todas as noites, ia para a cama à mesma hora, por volta das dez e meia, mas raramente ficava lá muito tempo. Era sabido que, ocasionalmente, visitava o Arquivo Secreto para uma leitura noturna.
— Como é que ele conseguia os documentos a meio da noite?
— Tinha uma fonte secreta. — A atenção de Donati foi atraída por algo que se encontrava por cima ombro de Gabriel. — Meu Deus, aquela é a…
— Sim, é.
— Porque é que ela não se junta a nós?
— Está ocupada.
— A proteger-te?
— E a ti. — Gabriel perguntou-lhe sobre o guarda suíço desaparecido.
— O nome dele é Niklaus Janson. Concluiu recentemente os dois anos de serviço obrigatório, mas aceitou ficar mais um ano, a meu pedido.
— Gostavas dele?
— Confiava nele, o que é bem mais importante.
— Havia algum registo negativo no historial dele?
— Violou duas vezes o recolher obrigatório.
— Quando foi a última violação?
— Uma semana antes da morte do Santo Padre. Alegou que tinha saído com um amigo e perdido a noção do tempo. O Metzler deu-lhe o castigo tradicional.
— Qual é?
— Esfregar a ferrugem dos peitorais das armaduras ou cortar uniformes velhos aos pedaços no bloco de execução, no pátio da caserna. Os guardas chamam-lhe scheitstock.
— Quando é que te apercebeste de que ele tinha desaparecido?
— Dois dias depois da morte do Santo Padre, reparei que o Niklaus não tinha sido um dos guardas escolhidos para vigiar o corpo enquanto estava em exibição na basílica. Perguntei ao Alois Metzler porque é que ele tinha sido excluído e, para minha surpresa, a resposta foi que ele tinha desaparecido.
— Como é que o Metzler explicou a ausência dele?
— Disse que o Niklaus ficou desolado com a morte de Sua Santidade. Francamente, não me pareceu muito preocupado. Aliás, o camerlengo também não. — Donati, irritado, bateu o cigarro contra o rebordo do cinzeiro. — Afinal, tinha um funeral que ia ser transmitido nas televisões do mundo inteiro para planear.
— O que mais é que sabes sobre o Janson?
— Os camaradas dele chamavam-lhe Santo Niklaus. Disse-me, uma vez, que ponderou brevemente seguir o sacerdócio. Entrou na Guarda depois de concluir o serviço militar no exército suíço. Lá em cima, ainda têm serviço militar obrigatório, sabias?
— De onde é que ele é?
— De uma vila pequena, perto de Friburgo. É um cantão católico. Há lá uma mulher, uma namorada, talvez noiva… Chama-se Stefani Hoffmann. O Metzler contactou-a no dia seguinte à morte do Santo Padre. Tanto quanto percebi, foi essa a extensão dos seus esforços para determinar o paradeiro do Niklaus. — Donati fez uma pausa. — Talvez tu, Gabriel, consigas ser mais eficaz.
— A fazer o quê?
— A encontrar o Niklaus Janson, claro está. Creio que não seria muito difícil para um homem na tua posição. Certamente, tens certos recursos à tua disposição.
— Tenho. Mas não posso usá-los para encontrar um guarda suíço desaparecido.
— Porque não? O Niklaus sabe o que é que aconteceu naquela noite. Tenho a certeza disso.
Gabriel ainda não estava convencido de que alguma coisa acontecera naquela noite, exceto que um homem idoso com um coração enfraquecido, um homem que Gabriel amava e admirava, morrera enquanto rezava na sua capela privada. Ainda assim, tinha de admitir que havia suficientes circunstâncias perturbadoras para justificar uma investigação mais aprofundada, começando pelo paradeiro de Niklaus Janson. Gabriel tentaria encontrá-lo, quanto mais não fosse para sossegar a mente de Donati. E a sua, também.
— Sabes o número de telemóvel do Janson? — perguntou.
— Receio que não.
— A caserna da Guarda Suíça tem uma rede informática ou ainda usam pergaminho?
— Converteram-se ao digital há uns anos.
— Grande erro — disse Gabriel. — O pergaminho é muito mais seguro.
— A tua intenção é hackear a rede informática da Guarda Suíça Pontifícia?
— Com a tua bênção, evidentemente.
— Vou negá-la, se não te importares.
— Que jesuítico da tua parte.
Donati sorriu, mas não disse nada.
— Volta para a Cúria e mantém a discrição durante alguns dias. Eu contacto-te quando tiver alguma coisa.
— Na verdade, estava a perguntar-me se tu e a Chiara estariam livres hoje à noite.
— Estávamos a planear regressar a Veneza.
— Há alguma hipótese de eu conseguir convencer-vos a ficar? Pensei que podíamos jantar num sítio perto da Villa Borghese.
— Vai mais alguém connosco?
— Uma velha amiga.
— Minha ou tua?
— Na verdade, de ambos.
Gabriel hesitou.
— Não tenho a certeza de que isso seja uma boa ideia, Luigi. Não a vejo desde…
— Foi ela que sugeriu. Creio que ainda te lembras da morada. O aperitivo é servido às oito horas.
9
CAFFÈ GRECO, ROMA
— O que é que achas? — perguntou Chiara.
— Acho que, definitivamente, podia habituar-me a viver aqui outra vez.
Estavam sentados na sala da frente do Caffè Greco. Debaixo da sua pequena mesa redonda, havia vários sacos de compras lustrosos, o saldo de um passeio dispendioso de final de tarde pela Via Condotti. Tinham viajado de Veneza para Roma sem uma muda de roupa. Precisavam ambos de algo apropriado para usar ao jantar, no palazzo de Veronica Marchese.
— Estava a falar de…
Gabriel interrompeu-a docemente.
— Eu sei de que é que estavas a falar.
— E então?
— Pode ser tudo explicado com bastante facilidade.
Chiara estava claramente cética.
— Vamos começar pelo telefonema.
— Vamos.
— Porque é que o Albanese esperou tanto tempo para contactar o Donati?
— Porque a morte do Santo Padre era o momento do Albanese na luz da ribalta e não queria que o Donati interferisse ou questionasse as suas decisões.
— O seu ego inchado levou a melhor?
— Quase toda a gente que está numa posição de poder sofre desse problema.
— Toda a gente, menos tu, evidentemente.
— Isso é óbvio.
— Mas porque é que o Albanese decidiu encarregar-se de mover o corpo? E porque é que fechou as cortinas e as persianas do escritório?
— Exatamente pelas razões que ele indicou.
— E a chávena de chá?
Gabriel encolheu os ombros.
— Provavelmente, uma das freiras que cuidam da casa levou-a.
— Também levaram a carta da secretária do Lucchesi?
— A carta — admitiu Gabriel — é mais difícil de explicar.
— Quase tão difícil como o guarda suíço desaparecido. — Um empregado de mesa aproximou-se com dois cafés e uma cremosa tarte de fruta romana. Com o garfo na mão, Chiara hesitou.
— Já engordei, pelo menos, dois quilos, nesta viagem.
— Não tinha reparado.
Ela lançou um olhar de inveja na direção dele.
— Não engordaste nem um grama. Nunca engordas.
— Tenho de agradecer ao Tintoretto por isso.
Chiara empurrou a tarte na direção de Gabriel.
— Come tu.
— Foste tu que pediste.
Chiara separou um pedaço de morango da base de creme.
— Quanto tempo é que achas que a Unidade 8200 vai demorar a encontrar o número do Janson?
— Dada a insegurança da rede do Vaticano, diria que cinco minutos. Quando conseguirem, não vão tardar a descobrir a sua localização exata. — Gabriel empurrou a tarte lentamente, aproximando-a de Chiara. — E, depois, podemos voltar para Veneza e retomar as nossas férias.
— E se o telemóvel estiver desligado, ou no fundo do Tibre? — Chiara baixou a voz. — Ou se eles já o tiverem matado?
— O Janson?
— Sim, claro.
— E quem são eles?
— Os mesmos homens que assassinaram o papa.
Gabriel franziu o sobrolho.
— Ainda não estamos nesse ponto, Chiara.
— Já passámos esse ponto há muito tempo, querido. — Chiara cortou uma fatia de tarte e perfurou o creme e a massa com o garfo. — Tenho de admitir que estou ansiosa pelo jantar desta noite.
— Gostava de poder dizer o mesmo.
— O que é que te preocupa?
— Uma pausa desconfortável na conversa.
— Sabes, Gabriel, tu não mataste o Carlo Marchese.
— Também não o impedi, propriamente, de cair daquela barreira.
— Talvez a Veronica não toque nesse assunto.
— Está claro que eu não tenciono fazê-lo.
Chiara sorriu e olhou em redor da sala.
— O que é que achas que as pessoas normais fazem nas férias?
— Nós somos pessoas normais, Chiara. Simplesmente, temos amigos interessantes.
— Com problemas interessantes.
Gabriel mergulhou o garfo na tarte.
— Isso também.
Havia um velho andar seguro do Departamento no topo da Escadaria da Praça de Espanha, não muito longe da Igreja da Trinità dei Monti. A divisão de Logística não tivera tempo de encher a despensa. Não importava. Gabriel não previa uma estadia longa.
No quarto, desembrulharam os sacos de compras. Gabriel comprara rapidamente o seu guarda-roupa para essa noite, com uma única paragem na Giorgio Armani. Chiara fora mais exigente na sua aquisição. Um vestido preto sem alças da Max Mara, um casaco três quartos da Burberry, um par de sapatos de salto alto elegantes da Salvatore Ferragamo. Gabriel surpreendeu-a com um colar de pérolas da Mikimoto.
Radiante, ela perguntou:
— Para que é isto?
— És esposa do diretor-geral dos serviços secretos israelitas e mãe de duas crianças pequenas. É o mínimo que posso fazer.
— Esqueceste-te do apartamento no Grande Canal? — Chiara colocou o colar de pérolas à volta do pescoço. Estava resplandecente. — O que é que achas?
— Acho que sou o homem mais sortudo do mundo. — O vestido estava estendido em cima da cama. — Isso é uma combinação?
— Não comeces.
— Onde é que tencionas esconder a arma?
— Não estava a planear levar uma. — Empurrou-o na direção da porta. — Vai-te embora.
Gabriel entrou na sala de estar. Da minúscula varanda, conseguia ver a Escadaria da Praça de Espanha que descia serenamente na direção da praça e, ao longe, a cúpula iluminada da basílica a pairar sobre o Vaticano. Subitamente, ouviu uma voz. Era a voz de Carlo Marchese.
O que é isto, Allon?
O Juízo, Carlo.
O seu corpo rachara-se como um melão com o impacto. No entanto, o que Gabriel mais recordava era o sangue na batina de Donati. Indagava-se sobre como é que o arcebispo teria explicado a morte de Carlo a Veronica. A noite prometia ser interessante.
Voltou a entrar na sala. Conseguia ouvir Chiara, na divisão ao lado, a cantarolar, enquanto se vestia, uma daquelas músicas pop italianas tolas que ela tanto adorava. Antes o som da voz de Chiara, pensou, do que a de Carlo Marchese. Como sempre, aquele som encheu-o de satisfação. A sua jornada estava a chegar ao fim. Chiara e as crianças eram o seu prémio por, de alguma forma, ter sobrevivido. Ainda assim, Leah nunca estava longe dos seus pensamentos. Estava a observá-lo naquele momento, a partir das sombras do canto da sala, fraturada e queimada, enquanto as mãos com cicatrizes agarravam uma criança sem vida: a Pietà privada de Gabriel. Amas essa rapariga? Sim, pensou. Amava tudo nela. A forma como lambia o dedo, quando virava a página de uma revista. A forma como a sua mala balouçava, quando caminhava pela Via Condotti. A forma como cantarolava, quando achava que ninguém a estava a ouvir.
Ligou a televisão. Estava na BBC. Surpreendentemente, a bomba de Berlim não fizera vítimas mortais, embora doze pessoas tivessem ficado feridas, quatro delas em estado crítico. Axel Brünner, do Partido Nacional Democrático, de extrema-direita, culpava as políticas pró-imigração da chanceler centrista da Alemanha pelo atentado. Neonazis e outros extremistas de direita estavam a reunir-se para uma manifestação com tochas na cidade de Leipzig. A Bundespolizei estava a preparar-se para uma noite de violência.
Gabriel mudou para a CNN. A principal correspondente de internacional estava a fazer um direto a partir da Praça de São Pedro. Tal como a concorrência, desconhecia que uma carta endereçada ao diretor-geral dos serviços secretos israelitas desaparecera misteriosamente do escritório do papa, na noite da sua morte. Da mesma forma, não sabia que o guarda suíço que vigiara o exterior do apartamento papal nessa noite também desaparecera. Se o telefone de Niklaus Janson estivesse ligado e a transmitir um sinal, os ciberguerreiros da Unidade 8200 iriam descobri-lo antes do final da noite.
Gabriel desligou a televisão ao mesmo tempo que Chiara entrava na sala de estar. Demorou-se na apreciação: as pérolas, o vestido preto sem alças, os sapatos de salto alto. Estava uma verdadeira obra-prima.
— Então? — perguntou ela finalmente.
— Pareces… — titubeou.
— Uma mãe de duas crianças que engordou três quilos e meio?
— Pensei que tinhas dito dois.
— Acabei de me pesar na balança da casa de banho. — Gesticulou na direção da porta da casa de banho. — É toda tua.
Gabriel tomou um duche e vestiu-se rapidamente. Desceram as escadas e entraram para a parte de trás de um carro da embaixada que os aguardava. Enquanto aceleravam pela Via Venetto, o telefone vibrou com uma mensagem da Avenida Rei Saul.
— O que é?
— A unidade acabou de furar a barreira exterior da rede informática da Guarda Suíça. Estão a pesquisar a base de dados em busca do dossiê pessoal e do contacto do Janson.
— E se eles já o tiverem apagado?
— Quem?
— Os mesmos homens que assassinaram o papa, claro.
— Ainda não estamos nesse ponto, Chiara.
— Ainda não — concordou ela. — Mas estaremos em breve.
10
CASA SANTA MARTA
Em circunstâncias normais, não havia guardas suíços a vigiar o exterior da Casa Santa Marta. No entanto, às oito e um quarto dessa mesma noite, havia dois. A hospedaria clerical estava agora ocupada por várias dezenas de príncipes da Igreja, a maioria vinda dos recantos mais longínquos do reino. Na véspera do conclave, os restantes cardeais eleitores juntar-se-iam a eles. Depois disso, ninguém, exceto as funcionárias da Casa Santa Marta (freiras das Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo), seria autorizado a entrar. Por agora, só alguns eleitos, incluindo o bispo Hans Richter, superior-geral da Ordem de Santa Helena, tinham liberdade para entrar e sair conforme desejassem. Com o cardeal Domenico Albanese a controlar firmemente a maquinaria da cidade-estado, o longo exílio do bispo Richter finalmente terminara.
Um dos guardas suíços segurou a porta de vidro aberta e Richter, com a mão direita erguida em sinal de bênção, entrou. O resplandecente átrio branco ecoava com um estrépito multilingue. Os 225 membros do Colégio Cardinalício tinham passado a tarde a discutir o futuro da Igreja. Agora, estavam a partilhar um vinho branco com acepipes no átrio, antes de se sentarem para jantar na singela sala de refeições da Casa Santa Marta. A Constituição Apostólica ditava que apenas 116 cardeais com menos de oitenta anos poderiam participar no conclave. Os cardeais eméritos mais idosos davam a conhecer as suas preferências durante reuniões informais como aquela, que era onde as verdadeiras negociações pré-conclave tinham lugar.
Richter reconheceu discretamente as saudações de dois célebres tradicionalistas e suportou o olhar gélido do cardeal Kevin Brady, o leão liberal de Los Angeles, que via um papa cada vez que se olhava ao espelho. Brady estava a conspirar com o minúsculo Duarte de Manila, a grande esperança dos países em vias de desenvolvimento. O cardeal Navarro transbordava de confiança, como se o papado já fosse seu. Era evidente que Gaubert, conivente com Villiers de Lyon, não se daria por vencido sem lutar.
Só o bispo Hans Richter sabia que nenhum deles tinha a mínima hipótese. O próximo papa estava, naquele momento, de pé, junto ao balcão da receção. Era uma figura de segundo plano, numa sala repleta de egos elevados e ambição ilimitada. Recebera o seu chapéu vermelho das mãos de nada mais nada menos do que Pietro Lucchesi, que fora levado a acreditar, ilusoriamente, que era um moderado, algo que, definitivamente, não era. Cinquenta milhões de euros, depositados discretamente em contas bancárias em todo o mundo, incluindo doze no Banco do Vaticano, tinham praticamente garantido a sua eleição pelo conclave. A obtenção da vasta soma de dinheiro necessária para comprar o papado fora a parte mais fácil da operação. Ao contrário do resto da Igreja, à beira do colapso financeiro, a Ordem de Santa Helena estava a nadar em dinheiro.
O cardeal Domenico Albanese estava a sussurrar algo ao ouvido de Angelo Francona, o reitor do Colégio Cardinalício. Ao avistar Richter, acenou-lhe com uma mão volumosa e peluda.
— Fiz alguma coisa que ofendesse alguém? — perguntou Richter, num italiano curial impecável.
— A sua simples existência ofende, Vossa Excelência. — Albanese agarrou Richter pelo braço. — Talvez devêssemos conversar no meu quarto.
— Não me diga que se mudou realmente para aqui.
Albanese fez um trejeito. Como prefetto do Arquivo Secreto, tinha direito a um apartamento luxuoso por cima da Galeria Lapidária dos Museus do Vaticano.
— Estou apenas a usar o meu quarto aqui como escritório, até ao início do conclave.
— Com um pouco de sorte — disse Richter em voz baixa —, não terá de ficar aqui muito tempo.
— A comunicação social está a prever um combate titânico entre os reformadores e os reacionários.
— Não me diga?
— O consenso geral parece ser sete votos.
Uma freira, vestida com um hábito azul, ofereceu um copo de vinho a Richter. Recusando, Richter seguiu Albanese até aos elevadores. Quase conseguia sentir os olhos da sala a perfurarem-lhe as costas, enquanto esperavam pela chegada do elevador. Quando este finalmente apareceu, Albanese premiu o botão para o quarto andar. Felizmente, as portas encerraram-se antes que o loquaz Lopes do Rio de Janeiro conseguisse entrar.
Enquanto o elevador subia lentamente, o bispo Richter ajeitou várias vezes a batina debruada a roxo, embora desnecessariamente. Feita à mão em Zurique por um alfaiate exclusivo, assentava-lhe na perfeição. Aos setenta e quatro anos, continuava a ser um espécime fisicamente imponente, alto e com ombros quadrados, cabelo grisalho e uma fisionomia inflexível a condizer.
Olhou para o reflexo do cardeal Albanese nas portas do elevador.
— Qual é a ementa desta noite, Vossa Eminência?
— Seja o que for que nos sirvam, vai estar demasiado cozinhado. — Albanese sorriu desajeitadamente. Mesmo envergando a sua batina debruada a vermelho, parecia um simples empregado. — Considere-se afortunado por não ter de participar realmente no conclave.
Na nomenclatura da Igreja Católica Romana, a Ordem de Santa Helena era uma prelatura pessoal. Na verdade, tratava-se de uma diocese global sem fronteiras. Como superior-geral da Ordem, Richter detinha o título de bispo. Contudo, estava entre os homens mais poderosos da Igreja Católica Romana. Várias dezenas de cardeais, todos membros secretos da Ordem, eram obrigados a obedecer a todas as suas ordens, incluindo o cardeal Domenico Albanese.
As portas do elevador abriram-se. Albanese conduziu o bispo Richter ao longo de um corredor vazio. O quarto em que entraram estava às escuras. Albanese descobriu o interruptor.
Richter inspecionou a área circundante.
— Estou a ver que atribuiu a si próprio uma das suítes.
— Os quartos foram atribuídos por sorteio, Vossa Excelência.
— Sorte a sua.
O bispo Richter estendeu a sua mão direita, com o pulso ligeiramente inclinado. Albanese ajoelhou-se e encostou os lábios ao anel que Richter usava no terceiro dedo. Tinha um tamanho idêntico ao Anel do Pescador que Albanese retirara recentemente do apartamento papal.
— Juro-lhe, bispo Richter, a minha eterna obediência.
Richter retirou a mão, resistindo à vontade de usar o pequeno frasco de desinfetante que tinha no bolso. Richter tinha fobia a germes e Albanese parecia-lhe sempre ser um transmissor.
Dirigiu-se à janela e abriu a cortina translúcida. A suíte ficava na parte norte da hospedaria, com vista para a Piazza Santa Marta e para a fachada da basílica. A cúpula estava iluminada por holofotes. Os ferimentos resultantes do atentado terrorista islâmico tinham sarado bem. Oxalá se pudesse dizer o mesmo da Santa Madre Igreja. Era uma sombra de si própria, já mal respirava, moribunda.
O bispo Hans Richter nomeara-se a si próprio como o seu salvador. Tinha-se preparado para esperar pelo fim do desastroso papado de Lucchesi para colocar em funcionamento o seu plano, mas Sua Santidade não dera outra hipótese a Richter senão resolver o assunto com as suas próprias mãos. Fora Lucchesi que pecara, assegurava Richter a si próprio, não ele. Para além disso, Deus já estava a chamar Lucchesi há algum tempo. No entender de Richter, apenas concedera ao Papa Acidental um início precoce do seu inevitável processo de canonização.
Os pensamentos de Richter foram interrompidos por uma descarga ribombante na sanita. Quando Albanese saiu, estava a limpar as suas mãos enormes numa toalha (como um coveiro, pensou Richter). E pensar que se via a si próprio como possível papa, como o escolhido de Richter para ser o seu pontífice fantoche. Albanese não era um grande intelectual, mas jogara o jogo do infiltrado curial suficientemente bem para assegurar duas nomeações papais fundamentais. Como camerlengo, Albanese conduzira o corpo de Lucchesi do apartamento papal para o túmulo sob a Basílica de São Pedro sem qualquer indício de escândalo. Para além disso, colocara nas mãos de Richter cópias de vários dossiês pessoais do Arquivo Secreto do Vaticano repletos de pecados, que se tinham revelado inestimáveis durante os preparativos do conclave. Como recompensa, em breve, Albanese seria secretário de Estado, a segunda posição mais poderosa da Santa Sé.
Secou o rosto bexigoso e, depois, atirou a toalha para cima das costas de uma cadeira.
— Com todo o respeito, acha que foi sensato vir aqui esta noite, Vossa Excelência?
— Está a esquecer-se de que muitos dos cardeais que estão lá em baixo são, agora, homens abastados por minha causa?
— Mais um motivo para não dar nas vistas até o conclave terminar. Imagino aquilo que pessoas como o Francona ou o Kevin Brady estarão a dizer neste momento…
— O Francona e o Brady são o menor dos nossos problemas.
A modesta poltrona de madeira sobre a qual Albanese se deixou cair gemeu sob o seu peso.
— Há algum sinal do Janson?
Richter abanou a cabeça.
— Naquela noite, estava claramente transtornado. É possível que tenha acabado com a própria vida.
— Não sei se teremos tanta sorte.
— Certamente, não está a falar a sério, Vossa Excelência. Se o Janson se tivesse suicidado, a sua alma estaria em grave perigo.
— Já está.
— Tal como a minha — disse Albanese em voz baixa.
Richter pousou uma mão no ombro maciço do camerlengo.
— Concedi-lhe absolvição pelas suas ações, Domenico. A sua alma está em estado de graça.
— E a sua, Vossa Excelência?
Richter retirou a mão.
— Durmo bem à noite, sabendo que, daqui a alguns dias, a Igreja estará sob nosso controlo. Não permitirei que ninguém se intrometa no nosso caminho. E isso inclui um bonito moçoilo do cantão de Friburgo.
— Nesse caso, sugiro que o encontre, Vossa Excelência. Quanto mais cedo, melhor.
O bispo Richter sorriu friamente.
— É esse o tipo de pensamento analítico e incisivo que pretende trazer para a Secretaria de Estado?
Albanese sofreu a crítica do seu superior-geral em silêncio.
— Fique descansado — disse o bispo Richter —, a Ordem está a usar todos os seus consideráveis recursos para encontrar o Janson. Infelizmente, já não somos os únicos que andam à procura dele. Parece que o arcebispo Donati se juntou à busca.
— Se nós não conseguimos encontrar o Janson, que esperança é que o Donati tem?
— O Donati tem algo muito melhor do que esperança.
— O quê?
O bispo Richter fitou a cúpula da basílica.
— O Gabriel Allon.
11
VIA SARDEGNA, ROMA
O palazzo era, frequentemente, confundido com uma embaixada ou um ministério governamental, pois era circundado por uma formidável vedação de aço e vigiado por diversas câmaras direcionadas para o exterior. No átrio, gotejava uma fonte barroca, mas a estátua de Plutão, uma estátua romana com dois mil anos que outrora adornara o vestíbulo, desaparecera. No seu lugar, encontrava-se a doutora Veronica Marchese, diretora do Museu Nacional Etrusco de Itália. Envergava um deslumbrante fato preto e um volumoso colar dourado ao pescoço. O seu cabelo escuro estava penteado a direito para trás e preso por um gancho na nuca. Uns óculos em forma de olho de gato conferiam-lhe um ar vagamente académico.
Sorrindo, beijou ambas as maçãs do rosto de Chiara. A Gabriel, ofereceu apenas a mão, reservadamente.
— Diretor Allon, estou tão satisfeita por ter conseguido vir. Só lamento não termos feito isto há mais tempo.
Quebrado o gelo, conduziu-os ao longo de uma galeria onde pendiam quadros de Velhos Mestres italianos, todos com qualidade de museu. As obras eram apenas uma pequena parte da coleção do seu falecido marido.
— Como podem ver, fiz algumas alterações desde a vossa última visita.
— Limpezas de primavera? — perguntou Gabriel.
Ela riu-se.
— Algo do género.
As requintadas estátuas gregas e romanas que, outrora, ladeavam a galeria tinham desaparecido. O império empresarial de Carlo Marchese, ilegítimo na sua grande maioria, incluíra um intenso comércio internacional de antiguidades roubadas. Um dos seus principais parceiros fora o Hezbollah, que fornecia a Carlo um fluxo constante de peças oriundas do Líbano, da Síria e do Iraque. Em troca, Carlo enchia os cofres do Hezbollah com moeda forte, que era usada para comprar armas e financiar o terrorismo. Gabriel desmantelara a rede. Depois, após uma notável descoberta arqueológica, cinquenta metros abaixo da superfície do Monte do Templo, derrubara Carlo.
— Alguns meses depois da morte do meu marido — explicou Veronica Marchese —, desfiz-me discretamente da sua coleção pessoal. Doei as peças etruscas ao meu museu, que era onde pertenciam desde o início. A maioria ainda está armazenada, mas já coloquei algumas em exposição pública. Escusado será dizer que as placas não referem a proveniência.
— E as restantes?
— O seu amigo, o general Ferrari, fez o favor de mas tirar das mãos. Foi muito discreto, o que não é habitual nele. O general gosta de publicidade positiva. — Olhou para Gabriel com genuína gratidão. — Suponho que tenha de lhe agradecer por isso. Caso se tivesse tornado público que o meu marido controlava o comércio global de antiguidades roubadas, seria o fim da minha carreira.
— Todos temos os nossos segredos.
— Sim — disse ela, de forma distante. — Presumo que seja verdade.
O outro segredo de Veronica Marchese aguardava na sala de visitas formal, envergando uma batina e uma peregrineta. A música tocava suavemente ao fundo. Era o Trio com Piano n.º 1 em Ré menor, de Mendelssohn. O som da paixão reprimida.
Donati abriu uma garrafa de prosecco e serviu quatro copos.
— Para padre, tens bastante jeito para isso — disse Gabriel.
— Sou arcebispo, lembras-te?
Donati levou um dos copos até à cadeira com estofo de brocado em que Veronica se instalara. Como observador experiente do comportamento humano, Gabriel sabia reconhecer um gesto íntimo quando via um. Donati estava claramente confortável na sala de visitas de Veronica. Não fosse pela batina e peregrineta, e um estranho poderia ter presumido que se tratava do homem do palazzo.
Sentou-se na cadeira ao lado dela e seguiu-se um silêncio desconfortável. Como alguém que aparece para jantar sem ser convidado, o passado intrometera-se entre eles. Por seu lado, Gabriel estava a pensar no último encontro com Veronica Marchese. Estavam na Capela Sistina, os dois sozinhos, de pé, diante do Juízo Final de Miguel Ângelo. Veronica estava a descrever a Gabriel a vida que esperava Donati, quando o Anel do Pescador fosse retirado do dedo de Pietro Lucchesi pela última vez. Um cargo de professor numa universidade pontifícia, um lar para padres envelhecidos. Tão sozinho. Tão terrivelmente triste e sozinho… Ocorreu a Gabriel que Veronica, viúva e disponível, talvez tivesse outros planos.
Ela elogiou demoradamente o vestido e as pérolas de Chiara. Depois, perguntou pelas crianças e por Veneza, antes de lamentar o estado em que Roma, outrora o centro do mundo civilizado, caíra. Atualmente, era uma obsessão nacional. Oitenta por cento das ruas da cidade estavam repletas de buracos por reparar, o que fazia de conduzir, e até de caminhar, uma missão altamente arriscada. As crianças levavam papel higiénico nas mochilas, porque as casas de banho das escolas não tinham. Os autocarros de Roma circulavam permanentemente atrasados, quando circulavam. Recentemente, uma escada rolante de uma estação de metro movimentada amputara o pé de um turista. E ainda havia, disse Veronica, os contentores de lixo a transbordar e os montes de resíduos não recolhidos. O site mais popular da cidade era o Roma Fa Schifo, «Roma É Nojenta».
— E quem é que é responsável por esta situação deplorável? Há alguns anos, o procurador-chefe de Roma descobriu que a Máfia tinha assumido o controlo do governo municipal e andava a desfalcar, de forma paulatina, os cofres da cidade. O contrato da recolha de lixo foi atribuído a uma empresa pertencente à Máfia. Evidentemente, a empresa não se deu ao trabalho de recolher o lixo, porque fazê-lo custaria dinheiro e reduziria a sua margem de lucro. Aconteceu o mesmo com a manutenção das ruas. Para quê incomodarem-se a reparar um buraco? Reparar buracos custa dinheiro. — Veronica abanou lentamente a cabeça. — A Máfia é a maldição de Itália. — Depois, com um olhar de soslaio para Gabriel, acrescentou: — E a minha também.
— Tudo vai melhorar, agora que o Saviano é primeiro-ministro.
Veronica fez uma careta.
— Será que não aprendemos nada com o passado?
— Pelos vistos, não.
Ela suspirou.
— Ele visitou o museu, recentemente. Foi perfeitamente encantador, como a maioria dos demagogos. É fácil perceber porque é que ele é apelativo para italianos que não vivem em palazzos perto da Via Veneto. — Pousou a mão sobre o braço de Donati, de forma breve. — Ou atrás das paredes do Vaticano. O Saviano odiava o Santo Padre pelo facto de ele defender os imigrantes e advertir sobre os perigos da ascensão da extrema-direita. Via isso como um ataque direto, orquestrado por esse esquerdista do secretário pessoal do Santo Padre.
— E era?
Antes de responder, Donati deu um gole pensativo no seu vinho.
— Na última vez que a extrema-direita tomou o poder em Itália e na Alemanha, a Igreja manteve-se em silêncio. Na verdade, houve elementos poderosos no seio da Cúria que apoiaram a ascensão do fascismo e do nacional-socialismo. Viram Mussolini e Hitler como bastiões contra o bolchevismo, que era abertamente hostil ao catolicismo. Eu e o Santo Padre decidimos que, desta vez, não iríamos cometer o mesmo erro.
— E, agora — disse Veronica Marchese —, o Santo Padre está morto e há um guarda suíço desaparecido. — Olhou para Gabriel. — O Luigi disse-me que aceitou procurá-lo.
Gabriel franziu o sobrolho para Donati, que estava, subitamente, a retirar um borboto da sua batina imaculada.
— Falei demais? — perguntou Veronica.
— Não. O arcebispo é que falou.
— Não se zangue com ele. A vida na gaiola dourada do Palácio Apostólico pode ser muito solitária. Muitas vezes, o arcebispo procura os meus conselhos sobre assuntos seculares. Como sabe, tenho relações privilegiadas nos círculos políticos e sociais de Roma. Uma mulher na minha posição ouve todo o tipo de coisas.
— Tais como?
— Rumores — respondeu ela.
— Que tipo de rumores?
— Sobre um guarda suíço jovem e bonito que foi visto numa discoteca gay com um padre da Cúria. Quando contei ao arcebispo, ele avisou-me de que as alegações não comprovadas podem causar danos irreparáveis na reputação de uma pessoa e aconselhou-me a não as difundir.
— O arcebispo deve saber o que diz — observou Gabriel. — Mas pergunto-me porque é que ele não referiu nada disso ao almoço desta tarde.
— Talvez tenha pensado que não era relevante.
— Ou talvez tenha pensado que eu iria ficar relutante em ajudá-lo, se achasse que ia ser envolvido num escândalo sexual do Vaticano.
O telefone de Gabriel voltou a vibrar contra o seu peito. Era uma mensagem da Avenida Rei Saul.
— Há algum problema? — perguntou Donati.
— Parece que a ficha do Janson foi apagada da rede informática da Guarda Suíça, umas horas depois da morte do Santo Padre. — Gabriel trocou um olhar de relance com Chiara, que estava a conter um sorriso. — Os meus colegas da Unidade 8200 estão a procurar no backup do sistema.
— Vão encontrar alguma coisa?
— Os ficheiros informáticos são um pouco como os pecados, Vossa Excelência.
— Como assim?
— Podem ser absolvidos, mas nunca desaparecem totalmente.
Jantaram na magnífica açoteia do palazzo, debaixo dos aquecedores a gás que aqueciam o ar frio da noite. Foi uma típica refeição romana, ravioli de espinafres com manteiga e sálvia, seguidos de vitela assada com verduras frescas. A conversa fluiu tão facilmente como as três garrafas de Brunello vintage que Veronica desenterrou da garrafeira de Carlo. Donati parecia completamente à vontade, na sua armadura clerical negra, com Veronica à sua direita e as luzes de Roma a cintilarem suavemente atrás de si. Podia estar degradada e imunda, e ser irremediavelmente corrupta, mas, vista do terraço de Veronica Marchese, com o ar puro, frio e perfumado pelo aroma dos cozinhados, parecia, aos olhos de Gabriel, a mais bela cidade do mundo.
O nome de Carlo nunca foi mencionado durante o jantar e não houve qualquer indício da violência e do escândalo que os uniam. Donati especulou sobre o resultado do conclave, mas evitou o assunto da morte de Lucchesi. Parecia, acima de tudo, estar atento a cada palavra que Veronica proferia. O afeto entre eles era dolorosamente óbvio. Donati estava a caminhar à beira de uma fenda alpina. Pelo menos para já, Deus estava a protegê-lo.
Só o telefone de Gabriel servia como recordatório do motivo pelo qual se tinham reunido naquela noite. Pouco depois das dez, estremeceu com uma atualização de Telavive. Os ciberdetetives da Unidade 8200 tinham conseguido recuperar a candidatura original de Niklaus Janson à Guarda Suíça. A atualização seguinte chegou às dez e meia, quando a Unidade encontrou a sua ficha de serviço completa. Estava escrita em alemão da Suíça, a língua oficial da Guarda. Continha uma referência aos dois recolheres obrigatórios violados, mas nada sobre uma relação sexual com um padre da Cúria.
— E o número de telemóvel? Tem de estar lá. Os guardas estão sempre de plantão.
— Paciência, Vossa Excelência.
A espera pela mensagem seguinte durou apenas dez minutos.
— Encontraram um antigo ficheiro de contactos que incluía o segundo-cabo Niklaus Janson. Contém um número de telemóvel e dois e-mails, uma conta do Vaticano e uma conta pessoal do Gmail.
— E agora? — perguntou Donati.
— Descobrimos onde está o telefone e se o Niklaus Janson ainda está na posse dele.
— E depois?
— Ligamos-lhe.
12
ROMA–FLORENÇA
Donati foi acordado pelo dobrar de sinos da igreja. Lentamente, abriu os olhos. A luz do dia contornava as extremidades de uma persiana fechada. Dormira demais. Colocou uma mão na testa. A sua cabeça pesava devido ao vinho de Carlo Marchese. O seu coração também pesava. Não se atreveu a alongar-se em pensamentos sobre o motivo.
Sentou-se direito e baixou lentamente os pés até ao soalho frio. Demorou algum tempo a conseguir focar o quarto. Uma secretária repleta de pilhas de livros e papéis, um roupeiro simples, um genuflexório de madeira. Acima dele, pouco visível na escuridão, estava o pesado crucifixo de madeira de carvalho que o seu mestre lhe oferecera alguns dias depois do conclave. Estivera pendurado no apartamento de Donati no Palácio Apostólico. Agora, estava pendurado aqui, no seu quarto na Cúria Jesuíta. Como era diferente do luxuoso palazzo de Veronica. Era o quarto de um homem pobre, pensou. O quarto de um padre.
O genuflexório chamava-o. Erguendo-se, Donati vestiu o roupão e atravessou o quarto. Abriu o breviário na página adequada e, de joelhos, recitou as primeiras palavras das laudes, a oração matutina.
Vinde, ó Deus, em meu auxílio. Senhor, socorrei-me sem demora…
Atrás dele, na mesa de cabeceira, o telemóvel vibrou. Ignorando-o, leu a seleção de salmos e hinos daquela manhã, juntamente com uma passagem breve do livro do Apocalipse.
Depois, vi outro anjo que subia do Oriente…
Só depois de repetir a frase final da oração de encerramento, Donati se ergueu e agarrou no telefone. A mensagem que o aguardava estava escrita em italiano coloquial. As palavras eram ambíguas e cheias de pistas falsas e duplos sentidos. Contudo, as instruções eram claras. Se Donati não soubesse a verdade, teria assumido que o autor era uma criatura da Cúria Romana. Não era.
Depois, vi outro anjo que subia do Oriente…
Donati atirou o telefone para cima da cama desfeita e, rapidamente, fez a barba e tomou um duche. Embrulhado numa toalha, abriu as portas do roupeiro. Havia várias batinas e fatos clericais pendurados no varão, juntamente com o seu hábito coral. O seu guarda-roupa civil estava limitado a um único casaco desportivo com cotoveleiras, dois pares de calças castanho-claras, duas camisas brancas, duas camisolas de gola redonda e uns sapatos de camurça.
Vestiu um dos conjuntos e colocou o outro no saco de viagem. Depois, acrescentou uma muda de roupa interior, artigos de higiene pessoal, uma estola, uma alva, uma faixa e o seu kit de viagem para celebração de missas. Guardou o telemóvel no bolso do casaco.
Ao sair do quarto, encontrou o corredor vazio. Ouviu o ténue tilintar de vidro, talheres e louça que emanava da sala de refeições comunal e as sonantes vozes masculinas em oração, provenientes da capela. Sem que os seus irmãos jesuítas se apercebessem, apressou-se a descer as escadas e saiu para a manhã outonal.
Um sedan Mercedes Classe E aguardava na Borgo Santo Spirito. Gabriel estava ao volante, Chiara no lugar do passageiro. Quando Donati deslizou para o banco de trás, o automóvel arrancou disparado. Vários peões, incluindo um padre da Cúria que Donati conhecia de passagem, apressaram-se a fugir do seu caminho.
— Há algum problema? — perguntou.
Gabriel olhou de relance para o espelho retrovisor.
— Vou saber daqui a uns minutos.
O carro guinou para a direita, evitando, por pouco, um bando de freiras de hábito acinzentado, e atravessou velozmente o Tibre.
Donati apertou o cinto de segurança e fechou os olhos.
Vinde, ó Deus, em meu auxílio. Senhor, socorrei-me sem demora…
Aceleraram para norte, ao longo da Lungotevere, para a Piazza del Popolo e, depois, para sul, para a Piazza Venezia. Até mesmo segundo os padrões elevados de Roma, era uma viagem de deixar os cabelos em pé. Donati, um veterano de inúmeras escoltas papais, espantou-se com a habilidade com que o seu velho amigo conduzia o poderoso automóvel alemão e com a aparente calma com que, ocasionalmente, Chiara dava direções ou conselhos. A rota que estavam a seguir era indireta e repleta de paragens bruscas e desvios abruptos, tudo pensado para revelar a presença de vigilância motorizada. Numa cidade como Roma, onde as scooters eram um meio de transporte habitual, era uma tarefa árdua. Donati tentou ser prestável, mas, passado algum tempo, desistiu e observou os edifícios salpicados de graffiti e as cordilheiras de lixo por recolher que passavam velozmente pela sua janela. Veronica tinha razão. Roma era bela, mas nojenta.
Quando chegaram a Ostiense, um bairro operário caótico no Municipio VIII, Gabriel pareceu satisfatoriamente convencido de que não estavam a ser seguidos. Dirigiu-se para a A90, a autoestrada de circunvalação de Roma, e seguiu para norte, para a Autostrada E35, uma estrada com portagem que se espraiava ao longo de todo o comprimento de Itália, até à fronteira suíça.
Donati descontraiu a sujeição firme ao apoio de braço.
— Importam-se de me dizer para onde vamos?
Gabriel apontou na direção de uma placa azul e branca à beira da estrada.
Donati permitiu a si próprio um breve sorriso. Há muito tempo que não ia a Florença.
A Unidade 8200 localizara o telemóvel na rede móvel celular de Florença, pouco antes das cinco horas dessa manhã. Estava a norte do Arno, em São Marcos, o bairro da cidade onde os Medici, a dinastia bancária que transformou Florença no coração artístico e intelectual da Europa, tinham alojado a sua coleção de girafas, elefantes e leões. Até agora, a Unidade não conseguira infiltrar-se no aparelho nem obter o controlo do seu sistema operativo. Estava, simplesmente, a monitorizar a posição aproximada do telemóvel, utilizando técnicas de geolocalização.
— Em linguagem de leigos, por favor? — pediu Donati.
— Depois de nos infiltrarmos num telefone, conseguimos ouvir as chamadas do dono do aparelho, ler os e-mails e as mensagens e monitorizar os sites a que acede na Internet. Até podemos tirar fotografias e fazer vídeos e usar o microfone como dispositivo de escuta.
— É como se fossem Deus.
— Não exatamente, mas sem dúvida que temos o poder de perscrutar a alma de alguém. Conseguimos conhecer os seus medos mais sombrios e os seus desejos mais profundos. — Gabriel abanou pesarosamente a cabeça. — A indústria de telecomunicações e os seus amigos de Silicon Vallley prometeram-nos um admirável mundo novo de conveniência, tudo nas pontas dos dedos. Mentiram-nos intencionalmente. Roubaram-nos a privacidade. E destruíram tudo.
— Tudo?
— Jornais, filmes, livros, música… tudo.
— Não sabia que eras assim tão ludita.
— Sou restaurador de arte, especializado em Velhos Mestres italianos. Sou um membro fundador do clube.
— E, no entanto, usas telemóvel.
— Um telemóvel muito especial. Nem os meus amigos da NSA americana conseguem penetrar nele.
Donati levantou um Nokia 9 Android.
— E o meu?
— Ia sentir-me muito melhor se o atirasses pela janela.
— A minha vida está neste telefone.
— Aí é que está o problema, Vossa Excelência.
A pedido de Gabriel, Donati entregou o telemóvel a Chiara. Depois de o desligar, removeu-lhes o cartão SIM e a bateria e colocou-os na sua mala. Devolveu a carcaça sem alma a Donati.
— Já me sinto melhor.
Pararam para tomar café num autogrill perto de Orvieto e chegaram à periferia de Florença uns minutos depois do meio-dia. Os sinais de Zona Traffico Limitato piscavam a vermelho. Gabriel deixou o Mercedes num parque de estacionamento público próximo da Basilica di Santa Croce e, juntos, partiram em direção a São Marcos.
Segundo a luz azul no telemóvel de Gabriel, o aparelho de Janson estava a oeste do Museu de São Marcos, provavelmente na Via San Gallo. A Unidade 8200 advertira-o de que o sinal de geolocalização tinha um raio de imprecisão de cerca de quarenta metros, o que significava que o telefone também poderia estar na Via Santa Reparata ou na Via della Ruote. As três ruas eram flanqueadas por pequenos hotéis baratos e hostels.
O local exato sobre o qual o ponto azul repousava correspondia a um hotel chamado, apropriadamente, Piccolo. Precisamente em frente, no outro lado da rua, havia um restaurante, onde Gabriel almoçou como se fosse um homem para quem o tempo não interessava. Donati, com o telefone novamente montado e operacional, comeu na Via Santa Reparata, e Chiara ao virar da esquina, na Villa della Ruote.
Gabriel e Chiara tinham, cada um no seu telemóvel, uma cópia da fotografia oficial de Janson na Guarda Suíça. Mostrava um jovem sério, de cabelo curto, pequenos olhos escuros e rosto angular. De confiança, pensou Gabriel, mas de forma nenhuma um santo. A ficha de Janson indicava que tinha um metro e oitenta e dois de altura e um peso de setenta e cinco quilos.
Às três e um quarto, não havia qualquer sinal dele. Chiara mudou-se para o restaurante em frente do Hotel Piccolo, Donati para a Villa della Ruote. Na Via Santa Reparata, Gabriel passou grande parte do tempo a fitar o telefone, exortando a luz azul intermitente a que se movesse. Às cinco horas, doze horas após a sua descoberta inicial, a posição mantinha-se inalterada. Desalentado, Gabriel evocou uma imagem de um smartphone sem ligação à corrente a esgotar-se lentamente num quarto abandonado, repleto de embalagens vazias de takeaway.
Uma mensagem de Chiara animou-lhe o espírito. Já engordei sete quilos. Se calhar, devíamos simplesmente ligar para o número.
E se ele esteve envolvido?
Pensei que tinhas dito que ainda não estávamos nesse ponto.
Não estamos. Mas estamos mais perto a cada minuto que passa.
Às cinco e meia, mudaram de posições pela segunda vez. Gabriel foi para um restaurante na Villa della Ruote. Instalou-se numa mesa na rua e, sem apetite, mordiscou um prato de spaghetti pomodoro.
— Se não estiver ao seu gosto — disse o empregado de mesa —, posso trazer-lhe outra coisa.
Gabriel pediu um café duplo, o seu quinto da tarde, e, com uma mão ligeiramente trémula, agarrou no telemóvel. Tinha outra mensagem de Chiara.
Dez quilos. Estou a implorar-te, por favor, liga-lhe.
Gabriel sentiu-se seriamente tentado a fazê-lo. Em vez disso, observou os turistas que se arrastavam para os seus hotéis, depois de um longo dia a experimentarem as delícias de Florença. Havia quatro hotéis ao longo da rua. Aquele que se chamava, desadequadamente, Grand Hotel Medici ficava ao lado do restaurante, diretamente no ângulo de visão de Gabriel.
Consultou as horas no telemóvel. Eram seis e um quarto. Depois, verificou a posição da luz, no mapa de geolocalização, e detetou o que parecia ser um ligeiro indício de movimento. Trinta segundos adicionais de observação rigorosa confirmaram a sua suspeita. A luz estava, definitivamente, a mover-se.
Devido à margem de erro de quarenta metros, Gabriel informou rapidamente Chiara e Donati do que descobrira. Donati respondeu que não havia sinal de Janson na Via San Gallo e, alguns segundos depois, Chiara relatou o mesmo a partir do seu posto avançado na Via Santa Reparata. Gabriel não respondeu a nenhuma das mensagens, pois estava a escrutinar o homem que acabara de sair do Grand Hotel Medici.
Vinte e muitos anos, cabelo curto, cerca de um metro e oitenta, talvez uns setenta e sete quilos. Percorreu rapidamente a rua com o olhar, em ambas as direções, e, depois, dirigiu-se para a direita, passando pelo restaurante. Gabriel pousou duas notas novas na mesa, contou lentamente até dez e levantou-se. De confiança, estava a pensar. Mas de forma nenhuma um santo.
13
FLORENÇA
Chiara e Donati aguardavam na Via Ricasoli, imersos na correnteza de visitantes que saía da Galleria dell’Accademia. Sem qualquer aviso, ela lançou os braços em redor do pescoço de Donati e puxou-o para si.
— Isto é mesmo necessário?
— Não queremos que ele veja o teu rosto. Pelo menos, para já.
Deu um abraço apertado a Donati, enquanto Niklaus Janson furava entre a multidão e passava por eles sem um olhar de relance. Gabriel surgiu na rua passado um momento.
— Há alguma coisa que vocês os dois queiram dizer-me?
Donati libertou-se e endireitou cuidadosamente o casaco.
— Ligo-lhe agora?
— Primeiro, seguimo-lo. Depois, ligamos.
— Porquê esperar?
— Porque precisamos de saber se mais alguém está a segui-lo.
— O que é que acontece se vires alguém?
— Esperemos não chegar a isso.
Gabriel e Donati começaram a caminhar ao longo da rua, seguidos por Chiara. Diante deles, estava o Campanile di Giotto. Janson diluiu-se no mar de turistas na Piazza del Duomo e desapareceu de vista. Quando Gabriel finalmente voltou a localizá-lo, o guarda suíço estava debruçado sobre o batistério octagonal, com o telemóvel na mão direita. Passado um momento, o seu polegar começou a premir o ecrã.
— O que é que achas que ele está a fazer? — perguntou Donati.
— Parece que está a enviar uma mensagem.
— A quem?
— Boa pergunta.
Jason enfiou o telemóvel no bolso de trás das calças de ganga e, girando lentamente sobre si próprio, percorreu a movimentada praça com o olhar. O seu olhar passou diretamente por Gabriel e Donati. O seu rosto não demonstrou qualquer sinal de reconhecimento.
— Está à procura de alguém — disse Donati.
— Talvez da pessoa que acabou de lhe enviar a mensagem.
— Ou?
— Pode estar com medo de que alguém esteja a segui-lo.
— Alguém está a segui-lo.
Finalmente, Janson abandonou a piazza e começou a caminhar ao longo de uma rua comercial chamada Via Martelli. Desta vez, foi Chiara que seguiu no seu encalço. Depois de cerca de cem metros, virou para uma viela estreita. Esta conduziu-o a mais uma praça com uma igreja, a Piazza di San Lorenzo. A fachada inacabada da basílica debruçava-se sobre o flanco oriental. Era cor de arenito e parecia uma gigantesca parede de tijolos por rebocar. Depois de consultar brevemente o telemóvel, Janson subiu os cinco degraus e entrou.
No flanco ocidental da piazza, havia uma fileira de vendedores de roupa que atendiam turistas e, a norte, uma gelateria. Chiara e Donati juntaram-se à fila no balcão. Gabriel atravessou a praça e entrou na basílica. Janson estava de pé, diante do túmulo de Cosimo de Medici, com os polegares em movimento sobre o ecrã do telemóvel, aparentemente alheio à inglesa de rosto corado que se dirigia a um grupo de turistas como se eles tivessem problemas de audição.
O guarda suíço enviou uma última mensagem e saiu para a praça, onde se deteve novamente para investigar a zona circundante. Estava claramente à espera de alguém. A pessoa a quem enviava essas mensagens, calculou Gabriel. A pessoas que o conduzira, primeiro, à Piazza del Duomo e, depois, à Basilica di San Lorenzo.
O olhar de Janson pousou brevemente em Gabriel. Depois, deixou a praça pela Borgo San Lorenzo. Aparentemente, ninguém que se encontrava na praça ou nas lojas o seguiu.
Gabriel caminhou até à gelateria, onde Donati e Chiara se equilibravam sobre bancos altos junto a uma mesa de zinco. Não tinham tocado nos seus gelados.
— Já podemos estabelecer contacto com ele? — perguntou Donati.
— Ainda não.
— Porque não?
— Porque eles estão aqui, Vossa Excelência.
— Quem?
Sem responder, Gabriel deu meia-volta e partiu atrás de Janson. Passado um momento, Chiara e Donati deitaram o seu gelato intacto num caixote do lixo e partiram atrás de Gabriel.
Janson atravessou a Piazza del Duomo uma segunda vez, praticamente confirmando a suspeita de Gabriel de que o guarda suíço estava a ser guiado por uma mão oculta. Algures em Florença, pensou, alguém estava à sua espera.
Janson foi, de seguida, para a Piazza della Repubblica e, daí, encaminhou-se para a Ponte Vecchio. A ponte fora, em tempos, a casa de ferreiros, curtidores e talhantes, mas, no final do século xvi, depois de os florentinos se queixarem do sangue e do fedor, transformara-se no domínio dos joalheiros e ourives da cidade. No lado oriental da ponte, Vasari desenhara um corredor privado sobre as lojas, para que o clã Medici pudesse atravessar o rio sem ter de se misturar com os seus súbditos.
Os Medici tinham desaparecido há muito, mas os joalheiros e ourives permaneciam. Janson passou pelas montras luminosas das lojas, antes de parar no meio, sob os arcos do Corredor Vasariano, para observar, em baixo, as águas negras e vagarosas do Arno. Entre eles, fluía uma enxurrada constante de turistas.
Gabriel olhou de soslaio para a esquerda e viu Chiara e Donati, que se aproximavam através da multidão. Com um pequeno movimento de cabeça, indicou-lhe que se juntassem a ele. Ficaram de pé, lado a lado, junto à balaustrada, Gabriel e Chiara virados para Niklaus Janson, Donati virado para o rio.
— Então? — perguntou ele.
Gabriel observou Janson mais um momento. Estava de costas viradas para o centro da ponte. No entanto, era óbvio que estava novamente a escrever alguma coisa no telemóvel. Gabriel queria saber a identidade da pessoa, homem ou mulher, com quem Janson estava em contacto. Mas aquilo já durava há tempo suficiente.
— Ok, Luigi. Liga-lhe.
Donati sacou o seu Nokia. O número de Janson já estava guardado nos contactos. Com um toque no ecrã, fez a ligação. Passaram alguns segundos. Depois, hesitantemente, Niklaus Janson levou o telemóvel até ao ouvido.
14
PONTE VECCHIO, FLORENÇA
— Boa noite, Niklaus. Reconheces a minha voz?
Donati tocou no ícone do altifalante no ecrã do Nokia a tempo de Gabriel ouvir a resposta sobressaltada de Janson.
— Vossa Excelência?
— Sim.
— Onde é que está?
— Estava a perguntar-me o mesmo em relação a ti.
No lado oposto da ponte, não houve resposta do jovem.
— Preciso de falar contigo, Niklaus.
— Sobre o quê?
— A noite em que o Santo Padre morreu.
Mais uma vez, não houve resposta.
— Ainda aí estás, Niklaus?
— Sim, Vossa Excelência.
— Diz-me onde estás. Preciso de encontrar-me contigo imediatamente.
— Estou na Suíça.
— Nem parece teu, mentir a um arcebispo.
— Não estou a mentir.
— Não estás na Suíça. Estás no meio da Ponte Vecchio, em Florença.
— Como é que sabe?
— Porque estou atrás de ti.
Janson rodou sobre si próprio, com o telemóvel no ouvido.
— Não estou a vê-lo.
Donati também se virou, lentamente.
— Vossa Excelência? É você?
— Sim, Niklaus.
— Quem é o homem que está ao seu lado?
— Um amigo.
— Tem estado a seguir-me.
— Estava a fazê-lo em meu nome.
— Tive medo de que quisesse matar-me.
— Porque é que alguém haveria de querer matar-te?
— Perdoe-me, Vossa Excelência — sussurrou.
— Porquê?
— Conceda-me a absolvição.
— Primeiro, tenho de te ouvir em confissão.
Ele olhou para a esquerda.
— Não há tempo para isso, Vossa Excelência.
Janson baixou o telefone e começou a atravessar a ponte horizontalmente. A meio, parou abruptamente e abriu os braços. O primeiro disparo atingiu-o no ombro esquerdo, fazendo-o rodopiar como um pião. O segundo perfurou-lhe o peito e fê-lo cair penitentemente sobre os joelhos. Aí, com os braços pendidos flacidamente junto dos flancos, recebeu um terceiro disparo. Atingiu-o acima do olho direito e arrancou grande parte do seu crânio.
Na velha ponte, os disparos soaram como tiros de canhão. Um turbilhão de pânico irrompeu instantaneamente. Gabriel viu o assassino por breves momentos, enquanto fugia da ponte para sul. Depois, virando-se, viu Chiara e Donati ajoelhados sobre Niklaus Janson. O último disparo empurrara-o para trás e as pernas estavam presas debaixo dele. Apesar do terrível ferimento na cabeça, ainda estava vivo e consciente. Gabriel agachou-se junto dele. Estava a sussurrar qualquer coisa.
O seu telemóvel jazia sobre as pedras da calçada, com o ecrã estilhaçado. Gabriel enfiou o aparelho no bolso interior do casaco, juntamente com a carteira de nylon que arrancou do bolso de trás das calças de ganga de Janson. Donati estava a rezar suavemente, com o polegar da mão direita pousado na testa de Janson, perto do ferimento de bala. Com dois pequenos movimentos, um vertical, outro horizontal, absolveu o guarda suíço dos seus pecados.
Nessa altura, já uma multidão angustiada se reunira à volta deles. Gabriel ouvia expressões de choque e horror numa dezena de idiomas diferentes e, ao longe, o grito das sirenes que se aproximavam. Erguendo-se, puxou Chiara para que se levantasse e, depois, Donati. Enquanto se afastavam do corpo, a multidão avançava. Calmamente, caminharam para norte, no sentido da luz azul intermitente do primeiro veículo da Polizia di Stato.
— O que é que acabou de acontecer? — perguntou Donati.
— Não tenho a certeza — disse Gabriel. — Mas vamos saber daqui a um minuto.
À saída da Ponte Vecchio, juntaram-se ao êxodo de turistas assustados que fugia através da arcada do Corredor Vasariano. Quando chegaram à entrada da Galeria Uffizi, Gabriel retirou o telemóvel de Janson do bolso. Era um iPhone, sem código de segurança e com oitenta e quatro por cento de bateria. Os seus medos mais sombrios, os seus desejos mais profundos, a sua alma, tudo nas pontas dos dedos de Gabriel.
— Esperemos que eu tenha sido o único a ver-te tirá-lo — disse Donati repreensivamente. — E a carteira.
— Foste. Mas tenta não parecer tão culpado.
— Acabei de fugir do local de um assassínio. Porque é que haveria de me sentir culpado?
Gabriel premiu o botão ECRÃ PRINCIPAL. Várias aplicações estavam abertas, incluindo a das mensagens de texto. Deslizou até ao início da conversa. Não tinha nome, apenas um número. A primeira mensagem, escrita em inglês, chegara às 16h47 da tarde anterior.
Por favor, diz-me onde estás, Niklaus…
— Apanhámo-la.
— Quem? — perguntou Donati.
— A pessoa que estava a enviar mensagens ao Janson enquanto estávamos a segui-lo.
Donati espreitou por cima do ombro direito de Gabriel, Chiara sobre o esquerdo. Os seus rostos iluminaram-se com o brilho do iPhone. Subitamente, a luz apagou-se. Gabriel premiu novamente o botão ECRÃ PRINCIPAL, mas não houve resposta. O telemóvel não entrara em hibernação: tinha-se desligado completamente.
Gabriel premiu o botão de ligar do telemóvel e esperou que a ubíqua maçã branca surgisse no ecrã.
Nada.
O telemóvel estava tão morto quanto o seu proprietário.
— Talvez tenhas tocado nalguma coisa por engano — sugeriu Donati.
— Estás a referir-te ao ícone mágico que, instantaneamente, rebenta com o sistema operativo e destrói a memória? — Gabriel ergueu o olhar do ecrã obscurecido. — Foi apagado remotamente para que não pudéssemos ver o que contém.
— Por quem?
— Pelos mesmos homens que eliminaram a ficha pessoal dele da rede informática da Guarda Suíça.
— Agora acreditas em mim? — perguntou Donati.
— Há dez minutos, tinha as minhas dúvidas. Mas já não tenho. — Gabriel fitou a Ponte Vecchio. Resplandecia com luzes azuis intermitentes. — Conseguiste perceber o que é que ele estava a dizer, antes de morrer?
— Estava a falar em aramaico. Eli, Eli, lama sabachthani? Significa…
— Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?
Donati assentiu lentamente com a cabeça.
— Foram as últimas palavras que Jesus gritou, antes de morrer na cruz.
— Porque é que ele diria isso?
— Talvez os outros guardas tivessem razão — disse Donati. — Talvez o Niklaus fosse mesmo um santo.
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