Read the book: «Uma amante e dois segredos»

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Editado por Harlequin Ibérica.

Uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

Núñez de Balboa, 56

28001 Madrid

© 2017 Dani Collins

© 2022 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

Uma amante e dois segredos, n.º 119

Título original: His Mistress with Two Secrets

Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd.

Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial.

Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.

Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência.

® Harlequin, Sabrina e logótipo Harlequin são marcas registadas propriedades de Harlequin Enterprises Limited.

® e ™ são marcas registadas por Harlequin Enterprises Limited e suas filiais, utilizadas com licença.

As marcas em que aparece ® estão registadas na Oficina Española de Patentes y Marcas e noutros países.

Imagem de portada utilizada com a permissão de Harlequin Enterprises Limited.

Todos os direitos estão reservados.

I.S.B.N.: 978-84-1105-091-3

Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.

Sumário

Créditos

Prólogo

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Epílogo

Se gostou deste livro…

Prólogo

Cinnia Whitley entrou no consultório pela escada e quase atingiu uma mulher que lá estava com a porta. Murmurou uma desculpa e pensou que vira essa mulher antes, mas não ali. Recordaria uma mulher tão alta, tensa e atenta a tudo o que se passava à sua volta.

Seria uma guarda-costas? Era um sítio muito estranho para estar sem fazer nada. Talvez fosse por isso que lhe parecia conhecida. Passara dois anos com uns homens imperturbáveis que seguiam todos os seus movimentos e era possível que reconhecesse a atitude, não a cara.

Se fosse um familiar ou uma amiga que estava à espera de uma paciente, havia uma sala muito confortável à entrada do consultório. A entrada traseira era para paranoicas como ela que entravam pelo estacionamento com a esperança de que ninguém visse que ia à ginecologista.

Pouco importava quem poderia ser essa paciente tão famosa, tinha outras preocupações maiores. Queria fazer uma ecografia para confirmar as suspeitas do motivo por que estava… a engordar.

No entanto, recusava-se a aceitar o motivo mais provável. Tinha muito trabalho durante as vinte e duas semanas seguintes e custara-lhe encontrar tempo para fazer o teste. Se as suspeitas da médica fossem acertadas, teria que repensar o seu futuro.

Gémeos? Não podia ser. Os nascimentos múltiplos não tinham de ser hereditários e, além disso, ela sempre achara que só as mulheres transmitiam essa característica. Um homem com um irmão gémeo e duas irmãs gémeas não podia transmiti-lo à sua descendência… ou sim?

Henri fazia o que queria e ela sabia muito bem. Não sentia a falta dessa arrogância nem dele, nem da vida que tinha com guarda-costas, como aquela que estava ali, sempre atrás dela.

Então, porque passava as manhãs à procura nas páginas de mexericos para ler tudo o que pudesse encontrar sobre ele? Ler que Henri voltara à sua vida de antes era autodestrutivo, mas, pelo menos, havia muito pouca coisa sobre ele. Ramón, o irmão gémeo, estava a roubar-lhe o protagonismo. Continuava a fazer corridas de automobilismo, e a ganhar, enquanto passava de uma mulher para outra.

Os Sauveterre eram muito discretos, embora a imprensa os seguisse com muito interesse. No entanto, durante o tempo que passara com Henri, apercebera-se de que Ramón monopolizava sempre a atenção da imprensa quando acontecia alguma coisa na família, como se o fizesse intencionalmente.

Acabara com Henri há dois meses e já era uma notícia antiga. Devia estar a tentar proteger Angelique. Os irmãos protegiam obsessivamente as irmãs mais novas, algo compreensível quando se tinha em conta que tinham raptado Trella quando era uma criança. Angelique era a única que aparecia em público ultimamente e estava a tornar-se famosa por causa da sua aventura com o príncipe do Zahmair… ou, melhor dizendo, com essa aventura e com a que também tinha com o príncipe de Elazar, se acreditasse no que se dizia na Internet.

Cinnia franziu o sobrolho porque continuava a pensar que havia algo estranho na fotografia de Angelique com o príncipe de Elazar. Pensara que era Trella na fotografia, mas isso era impossível, porque Trella estava isolada. Só a vira pessoalmente algumas vezes.

A enfermeira estava a falar ao telefone e, finalmente, reparou nela. Cinnia cumprimentou-a com a mão e fez um esforço para sorrir, apesar dos pensamentos que a embargavam. Tentou não pensar em Henri e nos gémeos, pois era demasiado aterrador para assimilar, a não ser que tivesse de o fazer. A enfermeira indicou a uma auxiliar que Cinnia chegara e a auxiliar virou-se para pegar na ficha dela.

Cinnia tirou o cachecol e começou a desabotoar o casaco. Alegrou-se por se sentir seca e quente quando estava um dia horrível, mesmo que estivessem no fim de fevereiro e em Londres.

Abriu-se a porta de uma sala de exames, deu um salto e teve de se afastar enquanto se virava.

– Lamento… – desculpou-se a outra mulher.

– É culpa minha… – começou a dizer Cinnia, antes de ficar boquiaberta ao reconhecer aquele físico de modelo com traços aristocráticos. – Meu Deus! Estava a pensar em ti!

– Cinnia!

Angelique sorriu de orelha a orelha e abraçaram-se como se fossem duas irmãs que não se viam há muito tempo. Abraçaram-se com força, com tanta emoção que Cinnia se esqueceu de toda a prudência. Até perceber que a irmã de Henri ficava rígida ao sentir o vulto por baixo das camadas de roupa. Rezou para que não dissesse nada ao irmão.

Afastaram-se.

– Meu Deus… – repetiu Cinnia, com um sussurro. – Confundi-te com a tua irmã.

Sempre soubera distinguir facilmente as gémeas. Confundira Trella com Angelique por causa da surpresa e de uma ilação precipitada. Trella nunca saía da propriedade de Espanha, a não ser que estivesse acompanhada por algum dos seus irmãos. Isso queria dizer que Henri estava ali? Olhou à sua volta, mas só viu a guarda-costas.

Naturalmente, fora por isso que lhe parecera conhecida, vira-a em Sus Brazos, a casa familiar dos Sauveterre em Espanha. Aquela era Trella. Embora não houvesse algo físico para as diferenciar, percebia algo na sua atitude. Angelique tinha o mesmo ar reservado do que Henri e Trella era tão radiante e efusiva como Ramón.

Então, apercebeu-se de que não só era estranho que Trella estivesse em público sem nenhum familiar à vista, como também numa clínica ginecológica.

O que é que a gémea Sauveterre, que estava sempre isolada, fazia em Londres? O que fazia com um frasco de vitaminas pré-natais na mão e uma expressão de remorso na cara? Como era possível que uma mulher que vivia como uma freira e tinha guarda-costas ficasse grávida? Henri ia enlouquecer!

Trella escondeu o frasco atrás das costas e abriu a boca, mas só balbuciou algo incompreensível.

Cinnia tinha os olhos esbugalhados… e viu que Trella semicerrava os dela à medida que percebia onde estavam. As pernas fraquejaram.

– Passa-se alguma coisa…? – perguntou Cinnia, hesitante.

Não sabia exatamente o que acontecera a Trella quando fora raptada, mas sabia que tivera medo dos homens durante muito tempo, assim como de muitas outras coisas.

Trella, que era muito resistente, deixou escapar uma gargalhada histérica e revirou os olhos. Encolheu os ombros com resignação, como se estivesse a aguentar uma gravidez inesperada, mas que também não era fruto de algo traumático.

– Como estás? – Trella olhou para a barriga de Cinnia com o sobrolho franzido. – É…?

Estava a perguntar se era de Henri e ela levantou o olhar como se lhe rogasse em silêncio que não lhe contasse nada. Também queria deixar escapar uma gargalhada histérica, mas tinha a garganta seca.

Trella endireitou-se e afastou o cabelo escuro e ondulado da cara.

– Podemos fingir que nada disto aconteceu.

Era uma mulher impressionante de vinte e tal anos, mas parecia uma menina de nove que escondia um rebuçado que roubara.

Aquela era a irmã que Henri conhecera na sua infância, a que o enlouquecera ao meter-se em todo o tipo de problemas, a que sempre precisara que o seu irmão mais velho interviesse para os resolver. Quis abraçá-la outra vez, estava muito orgulhosa de Trella, embora a esperasse um futuro complicado por ter superado o passado.

Além disso, queria partilhar esse momento com Henri, pois sabia intuitivamente que, depois da impressão inicial, esse indício da cura de Trella seria muito bem recebido… ou não.

Preocupava-se com todos os Sauveterre, carregava a responsabilidade de tomar conta da mãe e das irmãs e era por isso que se opunha a casar-se e a ter filhos.

Conteve um suspiro de saudade. Era curioso que quisesse estar com ele quando a irmã lhe desse a notícia se sabia muito bem que teria um ataque quando lhe dissesse que estava à espera de um filho dele.

Doeu-lhe o coração outra vez ao recordar que lhe dissera, desde o começo e com desprezo, que não se casaria com ela.

– Menina Whitley – chamou a enfermeira. – Pode entrar…

– Adorei ver-te. – Cinnia voltou a abraçar apressadamente Trella. – Senti a vossa falta.

Quase toda a relação de Cinnia com a família de Henri fora através de um tablet, mas lamentava profundamente ter perdido essa relação com os Sauveterre.

– Dir-te-ia para dares lembranças a todos, mas…

Cinnia não acabou a frase e Trella abraçou-a com mais força. Afastaram-se lentamente e inclinou a cabeça para trás. O seu filho teria os olhos dos Sauveterre?, questionou-se Cinnia com uma pontada nas entranhas.

– Agora, podemos continuar em contacto – replicou Trella, com um ar cúmplice, antes de ficar séria outra vez. – Posso ligar-te? Gostaria de saber porque…

Cinnia sabia que esconder a gravidez a Henri era uma batalha perdida. Só queria pensar bem para que não se sentisse presa quando descobrisse. Trella estava demasiado unida aos seus irmãos para disfarçar a sua própria gravidez. Assim que se soubesse, não demoraria a saber-se o seu estado. Se pudesse ganhar um pouco de tempo para se preparar, para saber exatamente quantos filhos esperava…

– Podemos sair para jantar se continuares em Londres no fim da semana.

Capítulo 1

Há dois anos…

Cinnia não era uma alpinista social, mas Vera, a sua companheira de quarto, era e sem remorsos ou reparos. Por isso, quando conseguiu fazer com que o dono do clube noturno da moda de Londres lhe desse uns bilhetes para a inauguração, exigiu que Cinnia a acompanhasse.

– Disse-lhe que tens um título nobiliário e, graças a isso, aceitou que fôssemos.

– O título é de um tio-avô que não conheço e que não me reconheceria, mesmo que estivesse à frente dele.

– Bom, é possível que tenha exagerado um pouco a vossa relação, mas falei do diadema da tua avó e como o tema da noite é «os gângsteres e as suas raparigas» e quer atrair clientes, disse-me que podíamos ir como… empregadas. Não tens de exagerar – Vera franziu o nariz –, basta misturarmo-nos com as pessoas e sermos as primeiras na pista de dança.

Cinnia sentia-se renitente. Os fins de semana eram os únicos momentos que tinha fora da empresa de gestão de património onde trabalhava e queria aproveitá-los para ordenar as ideias e criar a sua própria empresa. Escolhera setembro como meta e tinha imensas coisas para fazer.

– Trabalhas demasiado – insistiu Vera. – Pensa nisso como uma possibilidade de conhecer futuros clientes. Estará cheio da flor e nata da sociedade.

– Não se faz assim…

A mãe de Cinnia viu uma possibilidade diferente quando falaram através do tablet.

– Diz-me que não posso usar o diadema e, assim, poderei dizer à Vera que não faz sentido.

– Tolices! Também vamos usar o vestido. Já está na hora de dar algum uso às duas coisas… e a ti também.

No seu décimo aniversário, a mãe celebrara uma festa dos «loucos anos vinte» para poder usar o diadema, a herança modesta da avó, e também fizera um vestido com franjas e contas de cristal para a ocasião.

– Não me deixaste tirá-lo do cofre quando estávamos arruinadas e queria vendê-lo e, agora, vais deixar-me usá-lo num clube noturno…

– Foi por isso que o conservei, para que vocês possam usá-lo em ocasiões especiais. Diverte-te, de certeza que há homens agradáveis.

– Referes-te a maridos ricos? Não se vendem no bar, mãe.

– Claro que não. Haverá bar aberto para eles, não é?

Era por isso que as irmãs e ela lhe chamavam alcoviteira. Estava sempre à procura de uma oportunidade de encontrar marido… e também havia um motivo para que tentasse com tanto afinco. Os Whitley descendiam da aristocracia. O sangue azul estava mais do que diluído pelo vermelho, mas Milly Whitley queria que as filhas encontrassem bons partidos e os Whitley recuperassem a posição elevada de que tinham desfrutado antes de o senhor Whitley falecer e de a situação económica frágil se desmoronar sobre eles.

Até então, interpretariam o papel, agarrar-se-iam a uma casa que era um poço sem fundo e iriam aos acontecimentos que indicavam que continuavam como sempre.

– De certeza que encontras pretendentes melhores do que os teus habituais estudantes ou empregados – continuou a mãe, num tom snobe.

Só precisavam de um homem com os bolsos cheios. Cinnia, no entanto, repetira imensas vezes que também podiam procurar um emprego como as pessoas normais.

As duas irmãs diziam que era uma blasfémia.

Priscilla era modelo. Era bonita, mas acabara os estudos há dois anos e mal trabalhara. Conforme lhes garantia, só precisava de um retrato melhor, de roupa nova ou de uma mudança de penteado para que a carreira descolasse.

Nell, a farrista impressionante, não precisava de um emprego. Os rapazes já lhe ofereciam coisas e seria ela a escolher o peixe graúdo quando chegasse o momento. Cinnia ficaria contente se acabasse o ensino secundário sem ficar grávida.

Felizmente, Dorry, a mais nova de todas, tinha cérebro e vontade de o usar. Trabalhara como ama desde muito nova e, nesse momento, trabalhava numa carrinha de peixe com batatas para espanto da mãe. Guardava o dinheiro antes de alguém conseguir vê-lo e costumava ter a cabeça inclinada por cima de um livro. Se acontecesse alguma coisa a Cinnia, tinha a certeza de que a irmã mais nova conseguiria sustentar as outras.

Tentava não descarregar essa responsabilidade sobre a pobre Dorry. Depois de ter tentado ajudar a mãe a resolver uma série de impostos pendentes e outras dívidas relacionadas com o património do pai, especializara-se em heranças e testamentos. Ganhava bem, era um emprego estável e flexível e parecia-lhe intelectualmente estimulante.

– Aconteça o que acontecer, não digas a nenhum homem o que fazes para ganhar a vida – exigiu Vera. – A menos que tentemos livrar-nos deles.

Cinnia não tinha tanto interesse como Vera em conhecer homens. A sua perdição fora que Milly não pudesse recorrer a nenhuma profissão. A mãe só podia acolher estudantes e hóspedes porque tinha uma casa grande. Era assim que pagava os gastos. Dizia que era uma originalidade quando alguém lhe perguntava alguma coisa e que gostava de estar rodeada de jovens.

Cinnia estava decidida a não se sentir entre a espada e a parede dessa forma. Já era autossuficiente e, embora soubesse que era arriscado ter uma agência própria, chegara ao topo de onde estava. O passo seguinte era ser a sua própria chefe.

Por isso, estava a pensar em como criar uma lista de clientes enquanto Vera e ela conversavam com um músico despretensioso e um magnata das redes sociais louco. Ambos eram imensamente ricos e tímidos e Cinnia supunha que fosse por isso que tinham chamado mulheres… faiscantes como Vera.

Além disso, olhava à volta para não perder um detalhe de algo que nunca mais voltaria a ver. O clube era num edifício industrial reabilitado com aço e vidro e decorado com arte moderna. Uns empregados uniformizados serviam as bebidas mais exclusivas em copos de cristal esculpido. A sala principal abria-se para o segundo andar e o sítio parecia espaçoso, apesar da multidão que havia à volta da pista de dança.

As mesas tinham toalhas de veludo e viam-se boas de penas por todos os lados. As luzes vermelhas causavam sombras sensuais e davam um resplendor quente às caras. Ouvia-se jazz clássico, enquanto um porteiro bloqueava o caminho para as escadas que levavam a uma galeria no andar superior. Quando chegaram, deixaram-nas dar uma olhadela a essa zona deslumbrante e reservada aos convidados mais seletos.

A julgar pelos atores de cinema e famosos que não podiam entrar, essa zona só recebia pessoas muito ricas e excecionais. Cinnia não se impressionava com o dinheiro ou a fama, mas adoraria que algum deles fosse seu cliente. Infelizmente, essas pessoas com tanto dinheiro não estariam interessadas numa agência pequena. Soubera desde o começo que aquela noite seria apenas composta por horas desperdiçadas e uma entrada honrosa no diário do diadema da avó.

Então, viu-o.

Na verdade, viu-os. Eram os gémeos Sauveterre, o mesmo homem impressionante em duplicado apareceu no topo das escadas da entrada e olhou para a parte inferior da sala principal.

O coração parou.

Sentia-se fascinada por os ver pessoalmente e, naturalmente, sentia curiosidade. Ela tinha onze anos quando raptaram a irmã deles, era suficientemente crescida para seguir a história com o mesmo interesse que o resto do mundo. Impressionara-a muitíssimo. Ainda sentia um aperto no coração ao pensar nisso.

Depois, o nome da família aparecera num milhão de histórias nas revistas de mexericos e na Internet. Era por isso que sabia, apesar de estarem longe e na penumbra, que eram tão bonitos como pareciam dali.

Tinham um corte de cabelo idêntico por baixo de uns chapéus ligeiramente inclinados para a esquerda. Embora todos os outros homens usassem uns fatos largos às riscas e uma gravata vermelha, eles usavam uma camisa preta impecável, umas calças pretas feitas à medida com suspensórios brancos e umas gravatas chamativas também brancas. O conjunto realçava as suas costas musculadas e as cinturas estreitas, mas o corte estreito das calças dirigia o olhar para as botas de cano alto brancas e pretas. Pareciam uns gângsteres que matavam com um olhar.

Tinham a mesma expressão de resignação aborrecida enquanto olhavam para a sala com as mãos nos bolsos.

Era curioso vê-los a mexer-se em uníssono… até um deles parar e virar a cabeça quase sem se mexer. No entanto, foi como se tivesse reparado que ela o observava e olhou para ela nos olhos do extremo oposto do clube.

O coração apertou-se. Ver os gémeos Sauveterre, mesmo que fosse num lugar repleto de aristocracia e estrelas de rock, era impressionante. Sabia que eram normais, apesar da sua reputação, mas sentia vertigens ao olhar para aquele homem.

«Este é o meu marido rico, mãe.» Sorriu ao pensar nisso.

Ele inclinou um pouco a cabeça e fez-lhe um gesto muito leve, como se a cumprimentasse.

– Para quem estás a olhar? – perguntou Vera, enquanto olhava nessa direção. – Meu Deus…

Desceram para a pista de dança e Cinnia engoliu em seco e tentou recuperar.

– Temos de os conhecer – afirmou Vera.

– Psiu… – Vera e ela deviam estar a conversar com as pessoas. – Quem quer outro coquetel? – perguntou aos homens.

Não estava disposta a virar-se para descobrir se aquele homem a observava. Porque haveria de o fazer? Mesmo assim, sentia um formigueiro muito intenso. Soube exatamente onde estava enquanto ambos se mexiam de um lado para o outro durante a meia hora seguinte.

– Estão no bar – disse Vera. – Vamos aproximar-nos.

– Vera.

– Só podemos tentar cumprimentá-los. Além disso, haverá uma correria para conseguir bebidas quando chegar a hora do brinde. Devíamos encher os copos para que possamos sair para ver o fogo de artifício.

Vera e ela aperceberam-se imediatamente de que tinham estado a nadar contracorrente para tentar aproximar-se dos gémeos… ou do bar. Eles tinham-se dirigido para um sítio mais seguro, ao fundo das escadas, e tinham ficado com uma expressão de interesse enquanto o dono do clube agradecia a todos por terem vindo, ou melhor dizendo, Cinnia prestou educadamente atenção ao seu anfitrião enquanto Vera procurava outras alternativas.

Vera seduziria qualquer um. Gostava de se divertir, era bonita e tinha um corpo impressionante e todos os homens se viravam para olhar para ela. Tinham-se conhecido na universidade e Vera não só era leal, engraçada e carinhosa, como também impedia que Cinnia se transformasse no aborrecimento que lhe chamava sempre.

Cinnia não tinha tantas curvas como Vera, mas também chamava a atenção dos homens. Não tirava partido do seu físico, como a mãe achava que poderia fazer, mas sabia que o cabelo loiro e ondulado e o ar aristocrático lhe davam algumas vantagens. Além disso, era o contraste perfeito para o cabelo moreno e os olhos escuros de Vera.

Cinnia não seduzia tanto e era apenas a acompanhante de Vera. Saíra naquela noite sabendo que o mais provável era que acabassem por sair do clube com quem reparara em Vera, mas embora Vera se fosse muitas vezes para casa com homens que quase não conhecia, ela esperava voltar sozinha.

Quando acabaram os discursos e anunciaram que o fogo de artifício começaria em breve, fez-se um breve momento de tranquilidade.

– Oxalá encontrássemos alguns homens que nos oferecessem um copo.

Era típico de Vera e dizia-o, sobretudo, para aborrecer Cinnia. Sabia que isso a irritava porque também sabia que ela achava que as mulheres não podiam depender dos homens para tudo. Não fez o discurso sobre o feminismo para não dar esse prazer à amiga.

Então, ouviu-se um homem atrás delas.

– Vão subir…?

Henri reparou na loira enquanto se dirigiam para as escadas. Tinha um perfil sereno e uma figura elegante com um vestido de época que, certamente, as irmãs admirariam. Eram as peritas em moda, mas conseguia distinguir a qualidade assim que a via.

Aquela mulher transmitia um refinamento discreto. Nesse mar de maquilhagens chamativas e vestidos exagerados, ela usava um vestido curto e preto que brilhava com franjas de contas de cristal. Tinha o cabelo apanhado com um diadema delicado e antigo com uma fileira simples de diamantes e que estava enfeitado com uma pena e uma filigrana com forma de folhas.

Parecia elegante e feminina sem se esforçar.

Sorrira antes, mas isso não era novo. As pessoas costumavam olhar para ele e comportar-se como se o conhecessem. Nesse momento, por exemplo, havia várias cabeças viradas para ele. Normalmente, não fazia caso, mas olhara para ela durante mais de trinta segundos porque… não? Era bonita e não fora um sacrifício.

Além disso, não precisava de um vestido apertado para realçar o rabo arrebitado e as coxas lindas. Era muito erótico porque só insinuava as curvas que escondia.

– Queres companhia?

Ramón seguiu o seu olhar e viu a morena peituda que estava ao lado dela.

– Bom olho…

Mexeram-se como se fossem um sem sequer falar. Henri parou ao lado delas quando comentavam que gostariam de encontrar um homem que lhes oferecesse um copo.

Ramón foi abrir a corrente que havia ao pé das escadas sem dizer nada ao porteiro. Todos sabiam quem eles eram.

– Vão subir…?

Ramón olhou para Henri. Ouvira o comentário dela, mas Henri encolheu levemente os ombros.

Eram sempre alvos de caçadoras de fortunas e ambos tinham aprendido a cuidar-se, mas isso não significava que não pudessem divertir-se.

A morena corou, sorriu e endireitou-se. Estava deslumbrada e muito… disposta.

– Sim, vamos subir.

Afirmou-o com firmeza, embora todos soubessem quem podia subir e quem não. A loira franziu os lábios. Tinha vergonha que a considerassem uma mulher fácil? Não era preciso. Henri pensava que era um dos traços de uma mulher que podia suportar melhor.

A música começou a tocar outra vez e ele teve ainda mais vontade de se afastar do barulho e da multidão.

A loira observou-os com cautela, como se não soubesse para qual dos dois olhara antes.

Ramón e ele não lutavam pelas mulheres. Não tinha sentido porque nenhum dos dois queria ter relações duradouras. Mesmo assim, as mulheres pareciam considerá-los intercambiáveis e odiava a possibilidade de a loira decidir ficar com Ramón. O que fora um mero impulso de olhar para uma mulher bonita transformara-se no desejo de ficar com aquela em concreto.

– Podem ver o fogo de artifício da nossa suíte – convidou Ramón. – Não quero estar a olhar para a minha própria cara…

– Porque haverias de olhar para o teu irmão se estás a ver o fogo de artifício? – perguntou a morena, pestanejando com atrevimento. – Talvez, se não se vestissem da mesma forma, não parecessem que estão a olhar-se ao espelho…

– Não o fazemos premeditadamente. – Ramón ofereceu-lhe um braço para subir as escadas. – Acontece, mesmo que estejamos afastados. Deixámos de tentar evitá-lo.

– A sério?

O casal desapareceu entre as sombras da galeria. A loira olhou para as costas da amiga e mordeu o lábio inferior. Então, relaxou a boca e olhou para Henri, passando a língua pelos lábios. Certamente, fê-lo por nervosismo, mas a boca ficara húmida e delicada como umas pétalas de rosa com orvalho, brilhante e apetecível. Fora um gesto muito sedutor.

Olhou para a boca dela enquanto pensava na ideia prazenteira de a beijar com avidez.

– Vamos…?

Ela deu um passo e ficou ao seu lado. Não era a primeira vez que seduzia com Ramón. Há muito tempo que tinham decidido que, se os etiquetavam como «os gémeos Sauveterre», iam aproveitar as suas vantagens. Eram impressionantemente bonitos, tinham imenso dinheiro e eram famosos, consequentemente podiam escolher as acompanhantes que quisessem.

– Era verdade? – perguntou a loira. – Vestem-se sempre da mesma forma, não só esta noite?

– Sim.

Henri odiava falar de si próprio e ainda mais da sua família, mas essa era uma das curiosidades inofensivas que todos adoravam. O mistério dos gémeos era fascinante. Ele aceitava-o e também deixara de tentar evitá-lo.

Nessa noite, pelo menos, dava-lhe a oportunidade de a agarrar pelo braço enquanto se inclinava para lhe falar ao ouvido. Adorou sentir o seu cabelo sedoso no nariz e inalar o cheiro a rosas inglesas e a mulher quente.

– Por exemplo, se um dos dois mudar de roupa, acaba por entornar alguma coisa e tem de voltar a vestir o que tinha antes.

– Não acredito.

Ele encolheu os ombros. As irmãs estavam ligadas num sentido mais emocional. A sua ligação com o irmão era mais superficial. Tinham personalidades muito diferentes e eram implacavelmente competitivos um com o outro, mas, muitas vezes, diziam o mesmo ou seguiam o mesmo processo mental e acabavam por chegar à mesma conclusão. Como nesse ano, pedira a Ramón que celebrassem as reuniões de planeamento em Londres e não em Paris ou em Madrid, como de costume, Ramón também aceitara o convite para a inauguração desse clube.

– Eu… chamo-me Cinnia… Whitley… – apresentou-se, estendendo a mão enquanto chegavam ao piso superior.

– Sou o Henri.

A sua pele era tão suave como parecia e era mais quente do que esperava. Além disso, apertou-lhe a mão com força para uma mulher. Não queria soltá-la, mas ela soltou-a e olhou por cima do seu ombro para Guy, que os seguira. Depois, franziu o sobrolho para Oscar, que já estava a entrar na suíte onde Ramón os esperava com a amiga.

– Tens guarda-costas?

– É uma precaução.

Enquanto Oscar inspecionava o quarto, Guy mandava uma mensagem, certamente, para que descobrissem quem eram aquelas mulheres. Como se quisesse ajudar Guy, Henri apresentou-se à morena e soube que se chamava Vera Phipps.

Henri considerou que ambas eram inofensivas, embora dependessem mais do dinheiro dos homens do que do delas.

Vera olhou para ela como se lhes tivesse saído a lotaria quando um empregado entrou para lhes perguntar o que desejavam. Depois, percorreu a sala, acariciando o sofá e as poltronas, olhando para o ecrã plano que pendia de uma parede e saindo para o terraço para absorver o cheiro do Tamisa.

Quando voltou a entrar, foi à mesinha e pegou num saco dourado com presentes.

– É dourado! – exclamou ela. – Deram-nos um prateado e o teu é maior.

– Dizem-mo muitas vezes – troçou Ramón.

– Tenho a certeza… Posso ver? – perguntou Vera.

Cinnia não seduzia tão descaradamente. Agradeceu ao empregado enquanto lhe servia uma taça de champanhe e saiu para ver as luzes que se refletiam no rio. Era uma noite quente e sem vento.

– É de estranhar que tenhas ficado tanto tempo lá em baixo quando tens este refúgio – comentou ela, quando Henri se aproximou.

Sentia-se atraído e era algo que não costumava permitir-se. Sentia-se incomodado com a intensidade dessa atração.

Por baixo deles, as pessoas saiam para a sala exterior.

Ramón gostava do bulício e ele preferia ambientes mais tranquilos.

– Ainda bem que ficámos. Se não, não te teria conhecido.

Ela soprou levemente, mas com algum desdém. A maioria das loiras com olhos azuis fazia-se de inocente e vulnerável, mas ela não. O corte de cabelo dava-lhe um ar desamparado, mas as suas sobrancelhas tinham um ângulo que indicava inteligência e perspicácia. Mantinha o olhar sereno e atento, mas não cético. Também não olhava boquiaberta nem parecia especialmente impressionada.

Gostou desse indício de segurança em si própria e força. Despertava-lhe a curiosidade.

– Não pensas o mesmo? – continuou ele.

– Parece-me uma maquinaria bem oleada que o teu irmão e tu controlam.

Olhou para a bandeja com canapés que aparecera na mesa que tinham ao lado.

– Pareces-me receosa. – Henri esperou que o empregado se fosse embora. – Se não tivesse pensado que estavam a fazer algo parecido, teria dito que era hipocrisia.

Observou-o com um brilho nos olhos azuis, mas Vera, dentro da suíte, riu-se com algo que Ramón dissera. Ambos se preparavam para a conclusão inevitável. Cinnia cerrou os dentes.

– Não podes negá-lo? – continuou ele, com delicadeza.

– Foste tu que nos abordaste – respondeu ela, num tom indignado.

– Senti-me… convidado.

– Olhei para ti sem querer.

Ergueu o queixo e voltou a olhar para o rio.

Não se limitara a olhar, sorrira. Olhou, fascinado, para a zona que ondulava por cima dos seios por causa da respiração indignada. Tinha a certeza de que estava corada, mas não conseguia comprová-lo na penumbra.

– Não acho que seja a primeira a sentir curiosidade por vocês. Formam um par… apelativo.

– Sabias mesmo que fui eu que olhei para ti ou foi especulação? As pessoas demoram meses, até anos, a distinguir-nos.

Era fácil quando percebiam que ele era canhoto e Ramón destro, ou quando ele costumava falar francês quando podia e Ramón espanhol, mas poucas pessoas reparavam nesses detalhes.

– Parecem-se muito, mas…

Olhou para dentro da suíte, onde Ramón abrira o saco dourado e ouvia os louvores de Vera. Normalmente, deixavam que a mãe escolhesse o que quisesse e davam o resto às secretárias, mas Henri não se importava que aquelas mulheres o levassem.

Aproveitou que Cinnia estava distraída para olhar para o telemóvel. A informação confirmava o que supusera. A mãe dela era de bom berço, mas a família estava arruinada. Cinnia trabalhava numa agência de gestão de património. O único problema de Cinnia Whitley era económico.

Guardou o telemóvel e franziu o sobrolho ao ver que ela continuava a olhar para o seu irmão.

– Mas? – insistiu ele.

– Não sei. Não vejo halos nem nada disso, mas… Tanto faz.

Voltou a olhar para ele com um brilho nos olhos de… vergonha? De sintonia sexual?

– É interessante.

O aborrecimento desapareceu e deu lugar a uma atração mais intensa. Henri apoiou um cotovelo no corrimão e ficou mais perto dela. Adorou que ela tivesse de tentar conter um arrepio.

– O que…? O que será?

Tentava parecer despreocupada, mas ele conhecia os indícios do magnetismo físico.

A atração era maravilhosa. Não se mexeu e deixou que os sinais mais primitivos se transmitissem entre eles, que o estimulassem e despertassem todos os sentidos. Para ele, o sexo era o clímax da sua vida.

– Reages comigo, mas não com ele.

– Não disse isso!

– A sério? Devo ter-me enganado.

– Enganaste-te – garantiu ela. – Esquece tudo o que pensas de mim, de nós, e de porque chegámos até aqui.

Supôs que não estivesse habituada a sentir-se tão atraída pelos homens que usava. Pobrezinha. Isso tinha de ser muito perturbador para ela. Tinha medo de não conseguir resistir antes de lhe tirar tudo o que queria?

– Achava que estavas aqui para ver o fogo de artifício, o que achavas que estava a pensar?

Voltou a erguer o queixo e a olhar para o rio.

– Presta atenção.

Sorriu e passou-lhe um dedo pelo braço nu. Entusiasmou-se ao sentir que ficava com pele de galinha. Observou-o com espanto e incerteza ao mesmo tempo.

– Não tenho de me esforçar para ir para a cama com uma mulher. É assim que vivo. Desfruta sem te sentires obrigada.

– Não vais esperar algo depois? – perguntou ela.

– Algo?

Apontou para dentro da suíte, onde Vera estava em bicos dos pés e se apertava com todas as suas forças contra Ramón com os lábios colados aos dele.

Cinnia deixou escapar um som queixoso e, mais uma vez, olhou para o rio.

– Manterei a esperança – acrescentou Henri.

– Farás muito bem.

Levou o copo aos lábios para disfarçar o sorriso e decidiu que a desejava com toda a vontade e que estava disposto a pagar qualquer preço. Respeitava as pessoas que sabiam o que valiam.

– Não prometas o que não podes cumprir, chérie – concluiu ele.

Capítulo 2

Vera, a traidora, desapareceu com Ramón antes de o fogo de artifício começar.

– Estavam a falar em espanhol? – perguntara Cinnia a Vera, quando ficaram três segundos a sós no terraço.

– Bem te disse que ter um curso de línguas era muito prático – respondera Vera. – Ora… Olha para eles! Não estás tentada? Esqueceste o Avery há muito tempo, não foi?

Efetivamente e estava tentada. Não estava à altura de Vera em relação à ginástica sexual, mas tivera algumas relações duradouras que tinham sido muito agradáveis até terem deixado de o ser. A primeira fora uma imaturidade que devia ter acabado antes de irem para universidades diferentes, mas ela agarrara-se ao que tinham tido e ele enganara-a. Magoara-a muito, mas, olhando para trás, sabia que tinham sido demasiado jovens para ter o compromisso que ela esperara.

Avery partira-lhe o coração em dois. Amara-a quando ambos tentavam acabar as últimas disciplinas na universidade e, mais tarde, quando se mudaram para Londres e lhes custava chegar ao fim do mês. Então, começara a ganhar dinheiro e deixara-a. Dissera-lhe que a sua família era um pesadelo e que não queria carregar esse peso morto.

Depois, não voltara a sair e concentrara-se na sua carreira profissional.

Henri não ia convidá-la para sair, isso já sabia, mas também não podia negar que a intrigava. Cada vez que olhava para ela sem conseguir disfarçar a admiração masculina, as hormonas desenfreavam-se.

No entanto, não tinha aventuras de uma noite. Além disso, mesmo que fosse para a cama com ele só porque a ideia a divertia, ele acharia que o fizera em troca de a ter tratado com atenção nessa suíte incrível… e odiava a ideia de ele pensar que podia comprá-la.

Isso estava na essência de todas as inseguranças que Avery lhe causara.

– É como alguém que assina um livro de autógrafos – murmurou Vera, com um sorriso de satisfação. – Sabes que a tua mãe aprovaria. No saco, há uma viagem em primeira classe para a Austrália, um relógio inteligente e o aluguer de um carro desportivo durante um ano, tira o que quiseres!

Henri apareceu, depois de ter atendido uma chamada e, certamente, teria ouvido esse comentário tão vulgar de Vera. Era o que lhe faltava para ficar convencido de que eram duas oportunistas.

Ramón também apareceu uns segundos depois.

– O carro está à espera. Foi um prazer conhecer-te, Cinnia.

Vera e ele desapareceram.

Henri sentou-se à mesa com um ar relaxado, à frente de Cinnia, mas parecia estar a rir-se do pânico mal dissimulado dela. Fez um gesto ao empregado para que enchesse os copos.

– Para onde achas que vai levá-la? – perguntou ela.

– Para o hotel mais próximo com um quarto livre, imagino.

Compreendeu que não devia ter perguntado.

– Porque te importa? – continuou Henri.

– Não importa.

– Estás a julgá-lo. Porquê?

Cinnia quis negá-lo. Considerava-se de mente aberta e avançada e não julgava os outros. As mulheres tinham necessidades e Vera não era uma vítima.

– A Vera pode fazer o que quiser. No entanto, não gosto que me julgues pelo que ela faz.

Odiava-o. Lembrou-se das piores acusações de Avery e voltou a sentir-se em carne viva. Sentiu-se ainda pior quando pensou que aquele homem que vivia assim podia pensar que ela queria encontrar um atalho para também viver assim.

– Não vou para a cama com um homem por causa de um saco com presentes. Tenho um emprego e compro o que quero. Se não poder comprá-lo, aguento-me.

– O que fazes?

Parecia que o perguntava por cortesia, não como se tivesse acreditado no discurso.

– Tenho um diploma em gestão e sou assessora financeira, mas quero dedicar-me à organização de património e gestão de investimentos.

Para pasmo dele, dizia muito de quanto a desvalorizara.

– Sou muito aborrecida – acrescentou Cinnia.

Quisera ser mais jactanciosa ao argumentar tudo o que ele presumira sobre ela, mas só constara mais a diferença social que havia entre eles. Ele, naturalmente, considerara-a fraca e ela, efetivamente, queria chegar mais alto, mas através do trabalho honrado. Mesmo assim, nunca chegaria à altura dele e isso deixava-o muito longe do seu alcance.

Embora também não o quisesse… ou sim?

Sentiu uma pontada e pegou na taça de champanhe, antes de se lembrar de que decidira deixar de beber quando Vera se fora embora. Em troca, bebeu um gole de água.

– Não o esperava – reconheceu ele.

– Achavas que era secretária, assistente de bordo ou modelo? Mesmo que fosse, são profissões honradas…

– São e poderias ser modelo. És muito bonita.

– Tu também podias ser. És muito bonito e Deus fê-lo duas vezes.

– Um ponto a teu favor – concedeu ele. – Não suporto que me reduzam a ser um dos gémeos Sauveterre. Todos somos mais do que parecemos por fora, não é?

– Parece-te mal? Quero dizer, vejo coisas na Internet que sei que têm de ser mentiras da pior espécie. As mesmas que se contam de todos os famosos. No entanto, importa? Lamentas ser famoso por causa do teu nascimento?

Ele demorou um instante a responder.

– Não lamento ser quem sou. Não falo da minha família… – olhou para ela como se quisesse avisá-la de que não devia entrar nesse terreno –, mas não a trocaria por nada. A atenção da imprensa é um pesadelo e nós não a provocámos. Irrita-me, mas aprendi a escolher as batalhas que vou travar.

Disse-o num tom quase inexpressivo, mas segurava a taça com força.

– Bom, eu… – Fez uma pausa e estendeu uma mão. – Mensagem recebida sobre a tua família. Conquistaste o direito de ter a tua privacidade, mas espero que ela esteja bem. Refiro-me à tua irmã.

Sentiu vontade de continuar, quis explicar que a dor da sua família a afetara de uma forma muito estranha. Ficara tão chocada como todos por causa das gémeas Sauveterre. As meninas eram um pouco mais jovens do que ela, mas tinham-lhe parecido um modelo a seguir e tinham vivido muito melhor do que ela, ainda que, naquela época, a sua família estivesse bem.

Então, tinham raptado Trella e ela ficara aterrada. Naturalmente, não pôde deixar de seguir os avatares da família. Sentiu a mesma curiosidade do que todos e questionou-se porque a família fizera a irmã mais nova desaparecer durante a sua adolescência. Estava numa clínica de reabilitação? Estava num manicómio? Estava num convento de freiras? Houvera imensas teorias, mas não lhe perguntou qual era a verdade nem se ele continuava a sofrer as repercussões.

O empregado trouxe uma travessa com ovos de codorniz com especiarias, caviar, mousse de salmão e umas barrinhas de pão torrado. Eram uns aprimoramentos e ela observou-os para disfarçar que mudara a sua opinião dele ao pensar no seu passado. Queria considerá-lo um mulherengo, mas era humano. Tinham-no magoado e tinha cicatrizes.

– Porque te dedicas à organização de património?

O coração acelerou e olhou para ele.

– Por muitos motivos. Comecei a interessar-me depois da morte do meu pai. Tinha de tratar de muitas coisas e, à medida que ia sabendo o que poderia ter feito, não parava de me interrogar porque não tinha feito uma coisa ou outra. As coisas teriam sido mais fáceis para a minha mãe se ele tivesse tido alguma previsão. Ao pensar nisso como uma profissão, pareceu-me flexível e que não exigia muitos gastos iniciais. Até posso trabalhar a partir de casa se for preciso. Além disso, se o fizer eficiente e rapidamente, posso ganhar bem a vida. Não vi o inconveniente da sua falta de… beleza. Todos têm de fazer um testamento, saibam ou não.

– Uma beleza que escondes sempre que podes.

Disse-o num tom delicado e brincalhão.

– Tento – replicou ela, com secura, para que ele não reparasse como a afetara.

Tinha começado o fogo de artifício e ambos se viraram para o ver.

Estava mais atenta a ele do que ao fogo de artifício. Era muito atraente, com um encanto distante e um sotaque francês. Também era subtilmente efusivo. Tudo o que ele fazia despertava algo nela. Era como se sentisse a respiração, como se a pele fosse mais sensível e como se cada movimento que fazia fosse um passo de dança. Estava a seduzi-la e nem sequer se esforçava.

Começou a pensar que o beijava e que sentia o seu peso sobre ela. Os mamilos endureceram e juntou os joelhos para apaziguar as palpitações que sentia entre as coxas. Preocupava-a que o fogo de artifício acabasse e já não tivesse uma desculpa para continuar ali.

– Não, obrigada…

Rejeitou a oferta do empregado para trazer morangos com natas e outra garrafa de champanhe.

– Não te preocupes com a figura – interveio Henri.

– Preocupo-me com a minha sobrevivência. Sou alérgica. Tenho material para emergências e tudo – explicou ela, apontando para a mala.

– É assim tão grave? – perguntou ele.

– Quase morri uma vez em que fiquei a dormir fora de casa porque a minha amiga não quis confessar que tinha roubado uma garrafa do melhor vinho do pai para fazer uma sangria.

Cinnia revirou os olhos para indicar que fora aterrador.

Ele também rejeitou os morangos e disse ao empregado que o chamariam quando quisessem mais champanhe.

– Podes comer, se quiseres – garantiu Cinnia. – Consigo suportar que alguém os coma à minha frente.

Agarrou-lhe o queixo e inclinou-se para a frente enquanto o empregado se ia embora.

– Mas não poderia beijar-te se os comesse, pois não?

– Continuas a ter esperança?

– Está intacta.

Obrigou-se a levantar-se e desculpou-se para ir à casa de banho. Chegara o momento de se ir embora. As suas defesas contra Henri estavam a desmoronar-se.

Henri estava dentro da suíte quando voltou. O ambiente era… íntimo e a música ouvia-se suavemente através das paredes.

Henri abrira o saco com presentes e tirara uma caixa de trufas de chocolate embrulhadas num papel de alumínio dourado. Estava a desembrulhar uma e já havia uma bola dourada na mesa.

– Sou guloso – reconheceu ele, oferecendo-lhe uma.

– Não, obrigada. Eu… vou-me embora… Foi muito bom, obrigada.

Esticou-lhe a mão e sentiu-se ridícula ao fazê-lo. Ele pousou o bombom e pegou no telemóvel.

– Vou pedir o carro e levo-te.

– Posso ir sozinha…

– Falei a sério quando disse que não tinhas de te sentir obrigada. Posso levar-te a casa sem te atacar. Já apareci aqui e não tenho de ficar.

Não se preocupava com ele. Estava prestes a pedir que procurasse o hotel mais próximo com um quarto livre. Além disso, ouvia a voz de Vera na mente enquanto elogiava as vantagens de ser uma mulher moderna e proprietária da sua vida sexual. «Quando tens fome, comes, não é?», dizia-lhe sempre.

Nesse momento, tinha fome de sexo. Atribuiu-o a ter-se vestido para um evento deslumbrante, à brisa na pele e a ter relaxado com o champanhe. Henri era muito atraente e ela apostaria que podia satisfazer o mais insaciável dos apetites.

– Acho que é melhor pararmos por aqui.

Sentiu-se uma covarde e não pôde evitar voltar a olhar para a boca dele. Queria que a beijasse, queria-o mesmo. O sangue bulia-lhe nas veias como se fosse lava incandescente.

– Se me disseres que tens alergia ao chocolate, vou ter uma desilusão – replicou ele.

– Sobreviverei – murmurou ela. – Além disso, se não sobreviver, tenho todos os meus assuntos em ordem. Se sobreviver, poderei contar uma bela história aos meus netos.

Quis parecer descarada e calma para disfarçar que a intrigava.

Ele soprou com incredulidade, mas não se deu por vencido. Aproximou-se, agarrou-a pela cintura e apertou-a contra ele.

– Então, terei de fazer com que seja inesquecível.

Usava uns sapatos de salto raso e ele media quase dois metros. Pareceu-lhe imponente quando se inclinou para a beijar ligeiramente nos lábios.

Agarrou-se aos seus ombros para manter o equilíbrio, tremeu um pouco e a cabeça começou a dar voltas. Era tudo? Engoliu em seco, humedeceu os lábios e afastou-os para insinuar que queria uma despedida mais… efusiva.

Esboçou um sorriso e ela soube que o seu gesto fora um desafio para que ela ficasse com vontade de mais. Mexeu-se em silêncio, cobriu-lhe a boca plenamente e beijou-a com ímpeto, como se a reivindicasse.

Cravou-lhe os dedos nos ombros quando a apertou contra ele. Gemeu, retribuiu o beijo e deixou-se arrastar. Alterava-lhe os sentidos e embriagava-se com o seu cheiro leve a loção pós-barba e virilidade.

Desejava-a. Sentia a protuberância granítica contra a barriga e o seu corpo inflamou-se numa questão de segundos. O desejo embargou-a e rodeou-lhe o pescoço com os braços para esmagar os seios contra o seu peito.

Pensou que era excessivo, que fora um sinal inequívoco de como estava disposta, mas fizera-o por instinto, por uma necessidade incontida.

Afastou-se um pouco para respirar, mas voltou a beijá-lo. Seria apenas um beijo. Bom, dois. Ao terceiro, achou que já conseguiria reunir alguma força de vontade, mas deu por si com as costas contra a parede. Deslizou os lábios pelo pescoço e segurou-lhe um seio.

– Ah…

Adorava como a acariciava, como lhe beliscava levemente o mamilo. O seu joelho subiu como se tivesse vida própria e rodeou-lhe a coxa.

Ele resmungou, passou-lhe uma mão pela coxa, puxou-lhe o vestido até à cintura e acariciou-lhe o rabo. Ela arqueou as ancas para o receber melhor.

Beijou-a com avidez. Rebolaram como se estivessem a fazer amor e os seus suspiros mal se ouviam com o barulho da música e da multidão que chegava pela porta aberta do terraço.

Era impróprio dela. Gostava de sexo, mas nunca fizera uma coisa dessas. Nunca se sentira assim. Poderia chegar ao clímax completamente vestida se ele mantivesse esse ritmo. Esfregava-se contra o canto mais sensível do seu corpo. Estava muito excitada e tentava deixar que acontecesse. Era como se estivessem a dançar com um ritmo crescente, cada vez mais intenso. Sentia a tensão nas entranhas e mais abaixo, onde a estimulava tão eroticamente.

Tinham de parar, estavam em público e…

Sussurrou algo em francês e esticou uma mão para trancar a porta.

– Não faz mal, vamos…

– Eu não…

– Oui, chérie, estás. Estás muito perto. Consigo sentir que tremes e é muito excitante.

Quis dizer-lhe que não sabia como se sentia, mas beijou-a como da primeira vez. Ela virou a cabeça para se apoderar dos seus lábios.

– Deixa-me oferecer-te isto – sussurrou ele.

Então, afastou-se, introduziu uma mão entre eles e passou-lhe a ponta de um dedo por cima do tecido de seda húmida.

Cinnia parou de respirar e ficou imóvel enquanto ele traçava círculos por cima da tanga preta. Era um contacto tão leve que vibrava de desejo. Esperava que introduzisse a mão por baixo do elástico e…

– Hum… – Ela gemeu quando finalmente o fez.

– Gostas?

Henri acariciava-a como ela queria, sem pressa, beijava-a e afastava-se, avivava a sua excitação, beijava-a com mais paixão, entrava com delicadeza, sussurrava…

– Chega, quero que chegue.

Estava a perder a cabeça, mas o domínio sobre si próprio que ele tinha era igualmente enlouquecedor. Queria deixar-se levar, mas não conseguia suportar que lhe fizesse isso.

– Não tens um… preservativo? – balbuciou ela.

– Queres fazer amor? – perguntou ele.

Por favor… Tinha a mão entre as suas pernas, sabia o que queria. Estava a morrer, mas queria que o clímax fosse dos dois.

Levou a mão ao fecho, mas estava tão trémula que lhe custou abri-lo e desabotoar-lhe as calças.

Ele retirou a mão, começou a tirar-lhe a tanga e baixou-lha pelas pernas para que deslizasse até aos tornozelos. Depois, acabou de desabotoar as calças. Tirou um preservativo do bolso antes de as tirar e de se mostrar por completo.

Esse devia ter sido o momento em que ela devia ter percebido que chegara demasiado longe. Fervia-lhe o sangue. Admirou o seu membro enquanto ele o cobria com o preservativo. Estava tão ofegante que sentia as pontadas de tensão nas entranhas.

Henri pôs um pé entre os dela para lhe tirar a tanga, antes de voltar a aproximar-se dela. Cinnia levantou a perna e rodeou-lhe o rabo para se oferecer sem reparos. Penetrou-a com suavidade. Cravou-lhe as unhas no pescoço e deixou escapar um som de avidez ao sentir-se tão plena.

– Magoei-te? – perguntou ele, retirando-se um pouco.

– Não, adoro – respondeu ela.

Resmungou com satisfação e penetrou-a entre ligeiras contrações de prazer.

Nunca se sentira tão transbordada pelo desejo como com esse desconhecido e contra uma parede. Nunca desejara mais e com tanta vontade. Rebolou para lhe indicar que estava a fazê-la esperar demasiado e que não conseguia conter a excitação.

Riu-se com delicadeza por cima da sua boca e mexeu-se com mais força, sem brusquidão, mas a fundo. Prolongava os movimentos para que o prazer chegasse ao máximo. Ela já achava que era impossível melhorá-lo, mas ele mexeu-se com mais ímpeto.

Parou de pensar onde estava ou quem ele era. Só pôde concentrar-se no que estavam a fazer. Nada importava senão o facto de se mexer dentro dela de uma forma cativante.

Percorreu-lhe o pescoço com a língua, sugou-lhe o lóbulo da orelha e arqueou-se para o receber mais profundamente. Beijou-o com desenfreio e acariciou-lhe um seio por baixo do vestido. Ela também introduziu uma mão por baixo da sua camisa.

– Não consigo acreditar no que estamos a fazer – sussurrou Cinnia.

Ele respondeu alguma coisa em francês.

– Estás a matar-me, chérie. Estás pronta?

– Não quero que acabe…

Mordeu-lhe o pescoço com suavidade ao sentir que o momento se aproximava.

– Eu também não, mas… Ah!

– Sim, Henri…

Penetrou-a mais depressa e com mais força. Uma onda deslumbrante envolveu-os num êxtase incontido.

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Release date on Litres:
22 July 2024
Volume:
151 p. 3 illustrations
ISBN:
9788411050913
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Bookwire
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