Read the book: «Amante de sonho - Algo mais do que seu chefe»

Font::

Editado por Harlequin Ibérica.

Uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

Núñez de Balboa, 56

28001 Madrid

© 2021 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

N.º 65 - Outubro 2021

© 2011 Susan Stephens

Amante de sonho

Título original: Ruthless Boss, Dream Baby

Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd.

© 2013 Caitlin Crews

Algo mais do que seu chefe

Título original: Not Just the Boss’s Plaything

Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd.

Estes títulos foram publicados originalmente em português em 2015 e 2014

Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial. Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.

Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), acontecimientos ou situações são pura coincidência.

® Harlequin e logótipo Harlequin são marcas registadas propriedades de Harlequin Enterprises Limited.

® e ™ são marcas registadas por Harlequin Enterprises Limited e suas filiais, utilizadas com licença. As marcas em que aparece ® estão registadas na Oficina Española de Patentes y Marcas e noutros países.

Imagem de portada utilizada com a permissão de Harlequin Enterprises Limited. Todos os direitos estão reservados.

I.S.B.N.: 978-84-1105-063-0

Sumário

Página de título

Créditos

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

Capítulo 12

Capítulo 13

Capítulo 14

Capítulo 15

Capítulo 16

Capítulo 17

Capítulo 18

Capítulo 19

Capítulo 20

Se gostou deste livro…


Capítulo 1

Magenta gritou, quando o motoqueiro travou a fundo.

– O que estás a fazer? – reclamou, furiosa.

O homem tirou o capacete e libertou o cabelo preto. Era o tipo de homem com quem uma mulher não quereria encontrar-se num dia infernal, quando parecia ter sido arrastada para um lamaçal. Era muito bonito, elegante e autoritário. E tinha tatuada a palavra «perigo».

– E então? – insistiu Magenta, num tom irado. – Conduzes sempre como um louco?

– Sempre – confirmou.

– Devia denunciar-te.

«E, certamente, vou fazê-lo», decidiu Magenta. Fá-lo-ia assim que solucionasse o furo no pneu e todas as outras coisas.

Como o assunto do pai, que decidira reformar-se e vender as suas ações a um desconhecido, sem lhe dizer uma única palavra. Como salvar os postos de trabalho dos colegas. Como querer regressar para junto da equipa, para a campanha de publicidade que retratava os anos sessenta.

– Importas-te? – perguntou, enquanto tentava contornar a moto. – Há quem trabalhe.

– É por isso que vais sair tão cedo do escritório?

– E desde quando é que o meu horário de trabalho é um assunto teu?

O desconhecido encolheu os ombros.

Magenta deu uma olhadela ao estacionamento. Onde estavam os guardas? Estivera a carregar o carro com trabalho para o fim de semana, embora não tencionasse explicar isso àquele tipo, que tinha ar de passar os fins de semana na cama. E não seria, precisamente, sozinho.

– Vais abandonar-me? – perguntou ele, quando tentou seguir o seu caminho.

– Estou a tentar afastar-me de ti – Magenta interrogou-se sobre o que faria no estacionamento da Steele Design. Seria um mensageiro? – Trazes uma encomenda?

O sorriso dele fez com que corasse. Parecia ter a mesma idade que ela, talvez um ou dois anos mais velho, mas nos olhos refletia-se uma experiência imensamente superior.

– Se não vieste entregar nada, informo que esta é propriedade privada.

Ele arqueou a sobrancelha.

Fantástico. Era evidente que estava impressionado com o facto de ela dominar a situação.

A confiança do motoqueiro começava a irritá-la.

Magenta afastou-se, mas ouviu aquela voz calorosa e sensual atrás dela.

– O que há de tão urgente, para que não possas ficar e conversar comigo uns minutos?

– Não é que seja um assunto teu – deteve-se e virou-se, – mas vou buscar a roupa do ginásio, antes de mudar o pneu furado do meu carro.

– Queres ajuda?

– Não.

Talvez devesse ter agradecido a oferta.

O desconhecido voltou a pôr o capacete e pôs a moto a trabalhar.

– Vais-te embora? – balbuciou, desejando que ficasse.

Porque estava a afugentar aquele homem, quando era o mais interessante que lhe acontecera, em muito tempo? Porque o seu bom senso a aconselhava a não prolongar o encontro. Magenta retomou o seu caminho. No entanto, em vez de se ir embora, ele acompanhou-a, mantendo a moto ao seu lado.

– Ainda não te foste embora?

– Estou à espera, para te ver vestida com a roupa do ginásio – e sorriu.

Magenta soprou, enquanto tentava analisar aquele tipo. Vestia-se de maneira excessivamente informal para um executivo e a voz era suave, gutural, com um sotaque que não conseguia decifrar.

– Se quiseres, posso levar-te.

«Aposto que podes», pensou. Um rosto e um corpo como aquele, poderiam levar qualquer mulher.

– És uma mulher muito tensa. Nunca relaxas?

Estava a brincar? Era incapaz de pensar em relaxar, com ele por perto.

– O meu carro está empanado. Que motivos teria para relaxar?

– Já te disse que adoraria levar-te.

– Nunca me deixo levar por um desconhecido – embora o achasse mais do que atraente.

– Uma decisão sábia – afirmou, com calma, sem parar de a seguir.

– Nunca te rendes?

– Nunca.

Magenta dirigiu-se para a entrada lateral, para os cacifos dos empregados, onde guardava a roupa do ginásio. Tinha vontade de fechar a porta na cara dele. Contudo, nesse instante, ele acelerou e foi-se embora.

Enquanto observava o relâmpago preto que se afastava, sentiu uma certa melancolia.

Acabara de estragar tudo, mas não fazia sentido lamentar essa oportunidade perdida.

Detetara algo especial naquele homem, uma certa ligação entre eles? Ou talvez fossem apenas os devaneios de uma mente cansada. Decididamente, seria a segunda hipótese.

Além disso, se quisesse, podia ter insistido em mudar o pneu.

O que acontecera ao cavalheirismo? Mulheres como ela, fora isso que acontecera. Mulheres que consideravam a igualdade um direito, que protestavam, se um homem as ajudasse.

Depois de vestir a roupa do ginásio, um casaco e um cachecol, voltou para o carro.

Não tinha um pneu sobressalente!

Incrédula, observou o espaço vazio e recordou vagamente o pai a dizer alguma coisa sobre um furo, há alguns meses. Tinham carros idênticos, algo que Magenta achara muito fofo, no momento. O pai devia ter dito ao mecânico para usar o pneu do carro da filha e depois esquecera-se de pedir para o substituírem.

Mas a culpa era dela, por não ter verificado.

A empresa desmoronava à sua volta e talvez não encontrasse outro trabalho até depois do Natal. E ali estava ela, a chorar por causa de um furo. Apoiando as costas no carro, fechou os olhos e esperou que as lágrimas cessassem. Por fim, depois de se convencer de que não servia de nada preocupar-se com algo que não tinha remédio, decidiu voltar para o escritório, para se aquecer um pouco e chamar um táxi. Também poderia ir de metro.

No escritório, encontrou o pai, disposto a ir-se embora, para assinar a venda das ações.

– Pensei que já tinhas ido embora – Clifford Steele parecia contrariado. – Não quero ninguém da família por aqui, até aquele homem se instalar e ter o dinheiro na minha conta. São as regras.

– E eu estava a obedecer. Mas descobri que o meu carro tem um pneu furado. E, adivinha? – acrescentou Magenta, secamente. – Não tenho o pneu sobressalente.

– Chama um táxi – aconselhou o pai, sem o menor vislumbre de remorsos. – Eu não posso ficar – afirmou. – Vou-me embora, para assinar os últimos papéis. Vai-te embora o quanto antes, para o caso de Quinn querer dar uma olhadela à sua última aquisição.

Magenta percebeu uma nota de ressentimento nas palavras do pai e beijou-o na face. Não devia ter sido fácil vender a empresa a um jovem com mais sucesso do que ele. Clifford Steele era um tirano e as suas extravagâncias tinham acabado com a empresa. Mas, era o seu pai e amava-o. E teria de solucionar aquela confusão, para tentar salvar o posto de trabalho dos colegas, no caso de o novo dono o permitir.

«Talvez Gray Quinn não deseje manter-me no meu cargo», compreendeu, angustiada. Graças à ideia antiquada do pai, de que os homens deviam gerir as empresas e que os tijolos davam segurança às mulheres, ela era a dona do edifício, mas não possuía uma única ação.

– Visto que continuas aqui, faz algo útil – pediu o pai. – Tenho a certeza de que os homens quererão beber uma chávena de café, antes de te ires embora. Tudo bem, és uma executiva – acrescentou, ao ver o ar de impaciência da filha. – Mas ninguém faz um café como...

– Uma mulher bem-educada – sugeriu ela, com descaramento.

– Ia dizer como tu. Trabalhas muito, Magenta. O stress não é bom para uma mulher da tua idade – observou, com o seu tato habitual. – Se não te cuidares, vais ficar com rugas.

– Sim, papá – o pai parecia recém-saído da campanha dos anos sessenta. – As coisas são assim. Tu és assim – acrescentou, com carinho.

– Vou dar-te um conselho, Magenta – o pai ainda não acabara. – Embora duvide que me oiças. Devias tornar-te invisível, até o novo dono se instalar. Quinn perderá o interesse depressa e deixará a empresa a cargo da velha guarda.

– Adeus, papá!

Perder o interesse? Isso não parecia próprio de Gray Quinn, a julgar pelo que lera sobre ele. A imprensa do ramo financeiro costumava descrevê-lo como sendo dinâmico, frio sob pressão, para além de desumano e duro. E era quase invisível. No caso de existir uma fotografia daquele homem, Gray Quinn conseguira mantê-la fora do alcance do público. Magenta temia pelos colegas. Se tencionasse começar do zero, poderia despedir todos. E se esmagasse a faísca criativa dos empregados, a empresa iria à falência, na mesma.

Se tivesse de hipotecar a casa, para criar outra empresa e fazer com que todos conservassem os seus postos de trabalho, fá-lo-ia. Olhando pela janela, deu por si a pensar no motoqueiro.

Magenta soprou. Tinha jeito para os negócios mas, no que dizia respeito aos homens, era um verdadeiro fracasso. Os temas de conversa não eram os mais adequados, nem o seu aspeto. E o tipo da moto, sem dúvida, devia ter notado que há séculos que não saía com um homem. Parecia ser perito em mulheres. Sorrindo, aproximou-se da secretária, para chamar um táxi.

Não haveria táxis disponíveis durante, pelo menos, uma hora. A neve e as compras natalícias eram as culpadas da escassez de veículos.

Só lhe restava o metro.

Depois de ligar para a oficina, para que alguém fosse buscar o seu carro, fez café para a sua equipa. Faltava muito pouco tempo para as férias e queria que todos se sentissem tranquilos sobre o lançamento da campanha publicitária do Ano Novo, antes de se ir embora.

Tinha de ser positiva, pelo bem da equipa. E não podia deixá-los perceber como estava preocupada. Ainda não chegara o fim da Steele Design, era apenas um novo começo.

– Por enquanto, vou trabalhar em minha casa.

– Não podes ir embora na semana antes do Natal! – protestou Tess, o braço direito de Magenta.

– Estarei sempre em contacto com vocês.

– Não será o mesmo – insistiu outra mulher. – E, a festa de Natal?

– Há coisas mais importantes, como conservar os nossos postos de trabalho – replicou Magenta. – Além disso, porque não a organizas?

– Porque tu tens a magia – Tess continuou com os seus protestos.

– Estaremos em contacto, diariamente. Só não estarei no meu escritório, onde talvez represente uma ameaça para Quinn – acrescentou, com uma certa malícia. – Sei que sou assustadora.

Todos riram e ela decidiu levar a conversa para o campo dos negócios.

– São uma equipa fantástica e é essencial que Quinn veja o melhor de vocês. De modo que quero que se esqueçam de mim e se concentrem, para causarem uma boa impressão.

– Esquecer? – perguntou Tess. – Como vamos fazê-lo, se não nos deste uma ideia para a festa?

– Alegra-me saber que posso ser útil – troçou Magenta, secamente. – Que seja algo simples. Que tal, algo relacionado com os anos sessenta?

– Brilhante – assentiu Tess. – Ficarás fantástica com um vestido de papel.

– Eh... Eu não irei à festa, este ano.

– Que tolice! O que é uma festa, sem ti?

– Um evento bastante mais divertido, suponho – Magenta recordou a explosão do ano anterior, quando achara que os homens estavam a começar a abusar.

– Dou-te vinte e quatro horas para voltares – vaticinou Tess. – Estão a acontecer demasiadas coisas, para te manteres afastada. Além disso – murmurou, enquanto levava a chefe para um canto, – há algo mais. Esta manhã, notei algo diferente em ti.

– Não sei a que te referes.

– Claro! – exclamou. – Ficaste à defesa. Conheceste alguém?

– Não sejas ridícula! Só estou preocupada com o futuro da empresa.

– Não – Tess abanou a cabeça. – Há algo mais. Algo que não estás a contar-me.

«Talvez as faces coradas me tenham denunciado», pensou Magenta.

– Não tens de te envergonhar, se conheceste alguém de quem gostas – insistiu Tess.

– Não conheci ninguém! – protestou, talvez com ardor excessivo.

Capítulo 2

– Sei como estás preocupada com a empresa e com aquilo que acontecerá, ao chegar o novo dono – apressou-se a dizer Tess. – Mas, tens direito a ter uma vida, Magenta. Precisas de viver a tua vida.

– Está bem – Magenta fez uma pausa. – Vai parecer ridículo...

– Tenta.

Como ia explicar a excitação que sentia, até mesmo a suspeita de ter conhecido a sua alma gémea? O motoqueiro aparecera no pior momento possível e, mesmo assim, conseguira fazer com que o sol brilhasse naquele dia, naquele estacionamento gelado. Era a sua grande oportunidade!

– Esta manhã, havia um tipo no estacionamento – uma grande oportunidade, que estragara.

– Eu sabia.

– Cala-te! – Magenta olhou à sua volta, mas ninguém parecia estar a ouvir. – Não aconteceu nada. Era muito atraente, mas não era o meu tipo e não pareceu remotamente interessado em mim.

– Mas estás emocionada.

– Certamente, causou-me um certo efeito.

– Fez com que sentisses um formigueiro na pele. Fez-te sentir viva.

– Que romântica, Tess. Na verdade, deixou-me furiosa.

– Não me digas que gritaste com ele! – Tess franziu o sobrolho.

– Deixei algumas coisas bem claras, sim.

– E, como reagiu?

– Gozou comigo.

– Isso é fantástico! – exclamou Tess. – Que belo começo!

– Não houve nenhum começo, foi apenas um episódio isolado.

– Um episódio que terá as suas sequelas.

– Este não, Tess.

– Talvez volte. Depois de te ter visto, como poderá resistir? Quando um homem partilha gargalhadas com uma rapariga, é o começo da intimidade.

– A sério?

– Onde estiveste, durante todos estes anos?

– Passada a febre dos caçadores de fortunas, os pretendentes perderam o interesse – admitiu Magenta.

– Mas, só porque tu os espantaste.

– Nenhum deles valia a pena.

– E este tipo?

– Talvez, mas nunca me escolheria.

– Porquê? Qual é o problema?

– Não vale a pena pensar nisso – replicou Magenta, com amargura. – Foi apenas um encontro fortuito, em que fiz uma figura ridícula por causa do meu cansaço, vulnerabilidade e...

– Falta de confiança quanto às relações amorosas – interrompeu Tess. – Promete uma coisa, Magenta, se voltares a encontrar-te com ele, não grites. Tenta sorrir.

– Vamos – Magenta voltou para junto do resto da equipa. – Tenho de concluir esta reunião antes de o poderoso Quinn aparecer e o meu pai deixar de falar comigo, para sempre. Está tudo bem claro? – dirigiu-se aos outros colegas. – Todos gostam do tema para a festa?

– Podemos usar a roupa da campanha como fantasia?

– Sim, claro.

Magenta alegrou-se com a boa aceitação da sua ideia. A equipa estava muito preocupada com as possíveis mudanças que o novo dono poderia introduzir e o tema da festa permitia-lhes pensar noutra coisa, durante um instante.

– Ainda não consigo acreditar que não estarás aqui, quando chegar o novo patrão – observou Tess.

– Dou-te esse prazer. Conta – disse Magenta, ao ver o ar de Tess. – Tens um mexerico sobre esse tipo. Conta-me.

– Raparigas! – gritou a jovem, para o resto da equipa. – Alguém quer iluminar esta pobre ingénua sobre o nosso novo patrão ou faço-o eu?

Ninguém se atreveu a privar Tess desse prazer.

– Chamam-lhe «Poderoso Quinn» porque, segundo a imprensa, Gray Quinn não é apenas bem dotado para os negócios. Não sei se me estou a explicar bem.

– Mas, ninguém o conhece – Magenta fingiu-se espantada. – Ninguém o viu. Como sabem?

– Vá lá! – protestou a amiga. – Não me digas que não gostarias de ter um pouco de mistério na tua vida. E, se for bem feito...

– Tess, isto é um local de trabalho – Magenta não pôde conter uma gargalhada. – Bom, talvez tenha de procurar um disfarce, com calças justas.

– Sabia que não nos irias abandonar – declarou Tess, triunfante. – Não consegues resistir a vê-lo.

Magenta sentiu um calafrio. Não era uma rapariga experiente como Tess e, se Quinn era um sedutor, seria melhor não ficar para o ver.

– Olha para isto – a amiga mostrou-lhe uma revista. – E agora, diz-me que não estarás no escritório, quando Quinn tomar posse.

– Não se vê grande coisa! – protestou Magenta, embora o seu corpo reagisse de uma maneira estranha, diante daquela foto que mostrava as costas de um homem. O que tinha de excitante?

Era evidente que Quinn parecia ter pressa. Ao estudar a fotografia mais de perto, sentiu uma sacudidela, uma coisa totalmente inapropriada para uma mulher com tão escassa experiência sexual. A estatura daquele homem, a envergadura, a pose, tudo era atraente. Quinn era diferente da maioria dos homens. Poderoso, exsudava segurança, como se estivesse pronto para qualquer coisa. Parecia ser o tipo de homem capaz de inspirar confiança nos outros.

Contudo, aquele homem nem sequer se dignaria a olhar para ela. Havia muitas raparigas bonitas e algumas trabalhavam na Steele Design. Porque haveria de reparar numa solteirona como ela?

Só lhe faltava ter um homem como aquele na sua vida complicada!

– O que sabes de Quinn, Magenta? – perguntou uma das raparigas. – Fizeste muitas investigações sobre ele, quando começaste a preparar o projeto para o interessar pela Steele Design.

– É verdade – confirmou Magenta, – mas não consegui encontrar uma única fotografia decente. Surpreende-me que Tess tenha encontrado esta – voltou a observar a revista. – Não gosta da fama e não é de estranhar, a julgar pelos mexericos que se ouvem sobre ele. Um homem como esse deve valorizar muito a sua privacidade. A única coisa que sei é que ele ficou órfão quando ainda era criança, que alcançou o sucesso sozinho, mas pouco mais. Ah, sei que não gosta de tontos.

– Não gosta mesmo nada – avisou Tess.

– Por isso, têm de dar o máximo, mesmo que não esteja presente – insistiu Magenta, enquanto apanhava o cabelo comprido num coque informal, que prendeu com um gancho. – Se Quinn não me despedir, voltarei no começo do ano que vem, quando fizermos a nossa apresentação final como equipa.

– Despedir-te? – Tess fez uma careta. – Não me lembro de ter lido que é louco.

– Talvez não queira ter um membro da velha guarda, como o meu pai nos chama, a trabalhar para ele. Vou deixar-vos alguns documentos. Certifica-te de que lhos dás. Podes fazê-lo, Tess?

– Claro... – a amiga abanou a cabeça, preocupada. – Tens mesmo de te ir embora?

– Não quero pôr em perigo o acordo do meu pai.

– Bom, não terás de te preocupar com os documentos. Vou encarregar-me de lhos entregar.

– Obrigada – Magenta virou-se, com a intenção de se ir embora.

– Se mudares de ideias sobre a festa...

– Oxalá pudesse.

A festa de Natal era muito importante, mas não tão importante como fazer com que a sua equipa conservasse o trabalho. A última coisa que desejava era ofender Quinn ou fazê-lo pensar que tentava dividir os empregados. Esperava ter feito um bom trabalho de persuasão, no relatório que dera a Tess. E, para acrescentar um pouco de peso a essa esperança, esboçara a nova campanha, baseada em produtos que sabia que Quinn estava interessado em promover.

– Não podes deixar-nos – insistiu Tess. – És a alma da equipa.

– Farão tudo muito bem, sem mim. E, de todos os modos, ainda não me fui embora. Vejamos como correm as coisas. Quinn não é estúpido. Continuem a trabalhar como até agora e não poderá queixar-se.

A promessa feita ao pai tinha um grande peso, mas sentia-se mal, ao deixar os colegas. Talvez Tess tivesse razão e não fosse capaz de se manter afastada.

Regressou ao estacionamento e encontrou-o ocupado por um reboque, com as luzes cintilantes acesas.

«Porque é que nada corre bem?», questionou-se, enquanto os mecânicos lhe explicavam que, como era um carro antigo, teriam de encomendar um pneu novo. Iam levar o carro para a oficina, onde ficaria até depois do Natal.

Puxando o colarinho do casaco, para se proteger do vento gélido, Magenta observou como o carro era levado pelo reboque. Prestes a ir-se embora, o barulho familiar de um motor, seguido de uma travagem, fê-la franzir o sobrolho.

– Não digas mais nada – Magenta virou-se para o motoqueiro. – Não conseguiste atropelar-me da primeira vez e voltaste para ver se, à segunda, consegues fazer com que morra com um enfarte.

– O teu coração está a salvo.

Ah...!

Porque sentia aquele desgosto? O motoqueiro elevou a sobrancelha e uma onda de calor invadiu o corpo de Magenta. Depois, tirou uma luva e ofereceu-lhe a mão.

– Suponho que não esperas que te aperte a mão, depois de me teres pregado um susto de morte. E não uma vez, mas duas.

– Tenho a certeza de que não és assim tão frágil – e sorriu. – Mas peço desculpa, se te assustei.

A brincadeira implícita nas suas palavras deixou Magenta furiosa. O que achava tão divertido?

– Algo me diz que vamos ver-nos muito com frequência – concluiu, cobrindo os dedos gelados de Magenta com a mão quente.

«Sim, claro. Nos teus sonhos», pensou ela.

Capítulo 3

Magenta sentiu as faces coradas, quando o motoqueiro desmontou a mota. Era muito mais alto do que lhe parecera e as calças de couro, justas, atentavam à sensibilidade feminina.

– Ficaste sem fala? – perguntou, com uma voz gutural, muito sensual.

O couro não escondia nada, moldava-se «amorosamente» às suas formas...

– E então? – insistiu ele.

A verdade era que Magenta se sentia como se tivesse sido atingida por um raio e não era o primeiro, naquele dia. Olhou para ele nos olhos e recebeu um sorriso travesso, a modo de resposta.

– Alegra-me que te pareça divertido! – protestou. – O que fizeste foi algo muito perigoso – parecia uma governanta rabugenta e sentia-se bastante velha para o ser.

– Tenho a sensação de que precisas, desesperadamente, que alguém te dê boleia.

Magenta desejou ter coragem suficiente para sorrir. Mas não. Era torpe com os homens e isso levava-a comportar-se de uma maneira resmungona e à defesa.

– Decidi voltar e verificar se ainda precisavas que alguém te levasse.

– Não era necessário e continuo sem precisar.

– Os homens estão programados para serem cavaleiros andantes. Temos isso nos genes.

– Sou capaz de cuidar de mim, obrigada – o que aquele homem tinha era umas calças perigosamente justas.

– E é por isso que ficas aqui, enquanto o teu traseiro congela?

– Não estive o tempo todo aqui fora – a mera menção do seu traseiro fê-la sentir calor. – De todos os modos, já ia para casa.

– E como vais?

– De transportes públicos ou apanho um táxi.

– Espero que tenhas sorte.

– Porque dizes isso?

– Atrasos no metro, autocarros cheios. E não há um único táxi livre.

Magenta tentou não reparar nos bonitos olhos do motoqueiro, num tom de água-marinha, com um halo prateado à volta da íris e umas pestanas que eram um verdadeiro desperdício num homem.

– O que fazes na vida? – perguntou ela. – És uma espécie de guia turístico de Londres?

– Sou apenas um bom observador. Já ganhaste coragem suficiente para ir comigo?

Infelizmente, aquele homem tinha razão. Podia ficar ali e congelar, arriscar-se a ir nos transportes públicos. Devia considerar a hipótese de fazer uma loucura e aceitar a proposta do motoqueiro?

Certamente, não.

Olhou para o asfalto. Era o homem mais irritante e arrogante que alguma vez conhecera, mas a ideia de o ver ferido numa valeta fez com que o coração acelerasse.

– Tem cuidado, o asfalto está escorregadio – murmurou, antes de se dirigir para a saída.

Ele bloqueou-lhe o caminho.

– O que estás a fazer?

– Nunca aceito um não como resposta – os olhos brilhavam, divertidos.

– Estou a ver. Achas que tudo é divertido? – perguntou, enquanto contornava a moto.

– Só tentava dizer que, se puder ajudar-te... Monta-te na moto.

Não! Sim! O que devia fazer? Sentira-se cativada pela luta pela liberdade das mulheres, nos anos sessenta. Mas, alguma vez arriscava ou jogava sempre pelo seguro?

– Tens capacete? – jogava sempre pelo seguro.

O motoqueiro deu-lhe um e deu uma palmadinha no banco, atrás dele.

– És um homem muito seguro de ti, não és? – observou Magenta.

– Seguro em relação a ti. És incapaz de resistir a um desafio.

– Como sabes isso?

Encolheu os ombros.

– O capacete parece ser do meu tamanho.

– Vem comigo.

Aquela voz sedutora convidava-a a procurar também um cinto de castidade.

– Antes de mudares de ideias... – e pôs a moto a trabalhar.

– Mostras-te sempre tão contundente?

– Sim.

O mestre das respostas monossilábicas aumentou as rotações do motor e Magenta começou a duvidar se seria capaz de montar aquele monstro.

– És médica? – o sorriso era masculino, trocista.

– Não – e tentou ganhar tempo. – É uma Royal Enfield?

– Percebes de motos?

– Conheço a marca, por causa da minha investigação sobre os anos sessenta.

Um homem como aquele não iria conduzir uma máquina moderna. A Enfield era uma moto séria, para motoqueiros muito sérios. Grande e preta, vibrava com força entre as coxas cobertas de couro.

E, em breve, vibraria entre as coxas dela.

«Chama um táxi», aconselhou o lado mais sensato do seu cérebro. Em alguma parte, em Londres, tinha de haver um livre.

– És uma medricas – insistiu ele.

Magenta soltou uma gargalhada desdenhosa, procurando um modo de sair daquilo.

– E então?

– Fruto proibido – uma fruta madura, perigosamente deliciosa, que quase conseguia saborear. – Como sei que estarei a salvo, contigo?

– Não sabes.

– Não devias saber a minha morada, antes de arrancar? – o coração de Magenta acelerou.

– Podes dizer.

Enquanto lhe indicava a morada, não pôde evitar questionar-se como seria sentir aqueles dentes brancos a mordiscar-lhe a pele.

– Vem comigo – encorajou. – Não quero ficar sem gasolina, enquanto espero que te decidas.

– Suponho que devia agradecer-te – acrescentou ela.

– Estou de acordo – assentiu o motoqueiro.

– Tens a certeza de que não vou obrigar-te a desviar-te do teu caminho?

– Tenho.

Aquele homem tinha aspeto de estar seguro sobre qualquer decisão que tomava.

– Precisas de ajuda? – perguntou, divertido, ao vê-la a tentar montar.

– Não, obrigada – bastava levantar a perna por cima do banco. Seria assim tão difícil?

Depois de um último empurrão, numa posição muito pouco feminina, Magenta acomodou-se no banco, finalmente. Tentou chegar-se um pouco para trás mas, assim que ele levantou o pé do travão e acelerou, viu-se apertada contra as costas dele e abraçou-o pela cintura com todas as suas forças.

Uma cintura sem um átomo de gordura, embora houvesse uma grande quantidade de músculos.

Quando se encontraram perdidos no trânsito intenso de Londres, já se familiarizara notavelmente com as costas dele, com os cabelos espessos que escapavam do capacete. Um tremor intenso sobressaltou Magenta, mas atribuiu-o ao frio.

Certamente, sabia conduzir uma moto, serpenteando pelas ruas de Londres de uma maneira perita, enquanto ela se sentia cada vez mais consciente das vibrações que sentia sob o seu corpo. Quase se sentiu defraudada, quando pararam à frente da sua casa. Desmontando a moto, tirou o capacete e sacudiu o cabelo preto, comprido.

– Que bela transformação – comentou o motoqueiro, tirando o capacete para a observar bem.

– A sério? – Magenta riu-se. Não se recordava de se ter sentido tão alegre, em muito tempo. – Obrigada.

– Foi um prazer – no rosto dele aflorou um sorriso já familiar.

Era a sua imaginação ou as cortinas das casas vizinhas agitavam-se? Pela primeira vez, não se importou com aquilo que os outros pensavam. Chegara a casa, montada na moto de um tipo durão. Não se precipitara para ele, nua, no meio da rua. Não cometera um crime.

– Queres beber um café? – perguntou, ainda sob o efeito do entusiasmo. Era uma simples cortesia. Além disso, quando teria uma oportunidade como aquela?

A julgar pelo olhar impressionante e intenso que ele lhe lançou, teve a certeza de que ia aceitar.

– Devia ir-me embora – foi a resposta do desconhecido.

– Sim, claro – em que estava a pensar?

Certamente, faltava-lhe prática para fazer propostas aos homens. Além disso, aquilo não era uma proposta, era apenas um convite amável, para beber algo quente.

– Tenho o verdadeiro café Blue Mountain.

– Fazes com que seja muito difícil rejeitar a oferta – admitiu ele.

«Espero que sim», pensou. Tendo provado o perigo, Magenta desejava mais.

– E então? – insistiu, enquanto tirava as chaves de casa da mala.

– Tenho de voltar.

– Fica para a próxima – declarou, com fingida despreocupação. – Já fizeste muito por mim.

– Nem tanto.

Nem sequer sabia o nome dele. Mas não podia retê-lo ali, enquanto o submetia a um interrogatório.

– Foi um prazer conhecer-te.

– Igualmente – e sorriu.

Quando conseguiu levantar a mão para se despedir, o motoqueiro já desaparecera.

Capítulo 4

Porque é que a sua casa parecia tão silenciosa e vazia, quando nunca se sentira assim?

«É por causa do motoqueiro», decidiu Magenta. Com a sua personalidade envolvente, nem sequer precisava de falar para dominar a situação. Bastava-lhe estar presente.

Depois de trocar de roupa, foi buscar o correio e dirigiu-se para a cozinha, mas o telefone parou-a.

– Magenta Steele? – a voz era forte, grave e muito masculina. – Sou Gray Quinn.

– Gray... – o coração de Magenta acelerou.

– A maioria das pessoas chama-me Quinn – na voz, percebia-se um pequeno sorriso. – Estou no escritório, a tentar tratar de algumas coisas, e gostaria de falar contigo, sobre a tua continuidade na empresa. Amanhã de manhã, bem cedo.

– Mas, o meu pai disse...

– O teu pai já não gere a Steele Design. Agora, sou eu o patrão. Pode ser às nove?

– Sim, claro – um calafrio percorreu a coluna vertebral de Magenta. Acabara de ter uma demonstração do Quinn guerreiro.

– Até amanhã, Magenta. Às nove em ponto.

Não se tratava de um convite, era uma ordem.

Precisava de beber um café. A tentação de regressar ao escritório, para verificar o efeito que Quinn estava a exercer sobre o resto da equipa, era quase irresistível. Preocupava-se com os colegas.

Além disso, tinha trabalho, que seria melhor fazer no escritório. Esperava que Tess lhe ligasse, assim que tivesse oportunidade.

Tomada a decisão, a excitação apropriou-se dela. Com Quinn, seria melhor não andar com subtilezas. Se lhe desse um tempo, tal como o pai sugerira, talvez fosse demasiado tarde para salvar os postos de trabalho dos colegas.

Mesmo que Tess ligasse, assim que Quinn saísse do escritório, continuava a haver a possibilidade de regressar e a surpreender. A ideia de o conhecer excitava-a, mas também fazia aflorar a sua falta de confiança, no que dizia respeito aos homens. «Vou precisar de muito mais do que refrescar-me, antes de enfrentar Quinn», pensou, enquanto subia as escadas para ir tomar banho.

Aconselhada pelos espelhos horrivelmente sinceros da casa de banho, depressa lhe pareceu evidente que empreendera uma corrida contra relógio. Dispunha de pouco tempo para fazer um bom número de reparações.

Reuniu os produtos dos anos sessenta, que adquirira para estimular a sua imaginação para a campanha, e começou a rebuscar entre eles. O que era aquilo? Uma miríade de brilhos, com uma fragrância subtil.

Seria uma poção mágica? Seria bom ter uma...

No duche, também havia uma boa coleção de produtos retro. Certamente, estava infetada pelo vírus dos anos sessenta. Magenta sorriu, enquanto se ensaboava, pensando em Quinn. Que aspeto teria?

Era o que faltava à sua imaginação, para enlouquecer. A única coisa que poderia melhorar aquele duche seria partilhá-lo com Quinn, embora nunca tencionasse fazer tal coisa. Não no mundo real.

Olhou para o quarto e suspirou, consciente de como estava cansada. O que mais queria era meter-se na cama e sonhar com Quinn, dar um rosto à foto da revista.

Levantando o rosto para o jorro de água, soube que o caminho a seguir devia ser o do bom trabalho.

Embrulhada num par de toalhas, regressou ao quarto, onde se viu assaltada por uma inspiração repentina. Porque não haveria de se vestir segundo a moda dos anos sessenta? Várias colegas tinham adotado esse estilo.

Enquanto se secava, distraidamente, rebuscou no armário. Tal como todos os outros da equipa criativa, percorrera as lojas vintage à procura de roupa dos anos sessenta e encontrara um vestido de lã, creme, delicioso, muito justo.

Quando Magenta falara da importante campanha publicitária que estavam a preparar, os comerciantes tinham-se apressado a enviar amostras dos seus produtos, de modo que reunira imensos acessórios, estilo retro. Por sorte, nos anos sessenta, havia mais do que minissaias e calças justas. Havia roupa hippie, confortável e larga, e outro tipo de roupa, mais elegante. E era aí que se sentia mais confortável, embora a roupa interior que correspondia ao estilo sempre a fizesse dar uma gargalhada. Na etiqueta de um conjunto de cuecas e sutiã, indicava que era destinado à menina que se sentia uma rapariga grande.

«Muito bem, não sou uma menina. Mas, sinto-me uma rapariga grande», decidiu, ao imaginar Quinn, enquanto arrancava a etiqueta.

Era quase impossível não pensar no novo dono da empresa. Tirando a toalha, observou o seu corpo de vinte e oito anos com espírito crítico. Sentada na cama, à frente do espelho, ergueu-se imediatamente. O novo patrão gostava de mulheres com barriguinha ou de mais jovens e magras? De todos os modos, com o pouco tempo de que dispunha, não podia fazer grande coisa. Além disso, porque haveria de se preocupar com o seu corpo nu, se não tinha nenhuma possibilidade de o mostrar?

Pegou noutro conjunto de roupa interior que, segundo a etiqueta, era destinada «à ação». No entanto, não previa ter nada disso. O seu olhar pousou noutra peça, algo chamado faixa adelgaçante.

Adelgaçante de quê? Serviria para esmagar a barriga?

Duvidava muito.

Certamente, aquilo de que não precisava era do soutien Fibber, que prometia conferir um aspeto mais velho. Não deixava de ser curiosa a pouca importância que a mulher do século XXI dava aos seios. Os seios nunca eram importantes no escritório, como se o facto de possuir glândulas mamárias, automaticamente, a fizesse partilhar o mesmo coeficiente de inteligência de uma vaca. Talvez fosse por isso que nunca usava roupa justa no trabalho. No entanto, duvidava que um empresário como Quinn reparasse nessas coisas.

Procurou uns colãs, mas acabou por se decidir por umas meias e usar cinto de ligas. Segundo uma amiga, atriz, o cinto de ligas era o mais importante, assim como os sapatos.

Contudo, por muito que a sua vestimenta fosse dos anos sessenta, por dentro, ia continuar a ser uma mulher moderna. Gray Quinn já dera uma demonstração do seu estilo, o do perfeito macho alfa, e não ia fazê-lo acreditar que se iria submeter ao domínio masculino. Embora tencionasse ceder ao capricho de um daqueles sutiãs com forma cónica, sem esquecer a faixa adelgaçante.

Além disso, as meias e o cinto de ligas eram peças muito divertidas.

Depois de se vestir, calçou sapatos de salto alto e, imediatamente, sentiu-se outra. Também caminhava de maneira diferente. Tentou dar alguns passos pelo quarto e deu por si a bambolear-se, como uma atriz dos anos sessenta.

A maquilhagem era ainda mais divertida. Base muito clara e olhos fumados, bem delineados, para que parecessem ainda maiores e, por último, batom cor-de-rosa.

O que pensaria Quinn, ao vê-la?

Não esperava vir a descobrir. Aquilo era apenas uma fantasia. Cerrando os dentes, aplicou uma segunda camada de batom.

Nada mal.

Estava pronta.

«Pronta para quase qualquer coisa», decidiu, enquanto dava uma última olhadela ao espelho.

Esperou pela chamada de Tess e, assim que a recebeu, chamou um táxi e foi para o escritório. Tal como a amiga prometera, todas as luzes estavam apagadas e não havia sinal de Quinn. Sentiu uma pontada de desilusão. Arranjara-se, para nada.

«Pelo menos, assim, posso concentrar-me no trabalho», pensou, com determinação. Era uma grande oportunidade para dar os últimos retoques na campanha. Depois de espalhar os documentos em cima da mesa do seu gabinete, trancou a porta.

Estava a tentar escrever uma frase para umas extensões de cabelo, quando teve de parar. Mal conseguia manter os olhos abertos.

Alguns dos objetos da campanha eram curiosos, mas aquela madeixa de cabelo sintético era francamente feia. Nenhuma mulher que se respeitasse usaria algo parecido. Pesava uma tonelada e era necessário uma caixa inteira de ganchos para o segurar.

«No entanto, tratava-se de um produto típico dos anos sessenta», recordou Magenta, enquanto observava a extensão, em busca de inspiração. Até esse momento, sentira-se muito entusiasta, vendo unicamente o lado bom e divertido daquela época. Mas, para ser sincera, havia muitas coisas que a irritavam.

– Magenta, Magenta! Acorda!

– O que aconteceu? – assustada, Magenta olhou para uma rapariga, que a sacudia pelo braço. Uma rapariga que lhe era totalmente desconhecida. Tinha a sensação de estar a sofrer a pior das ressacas, sem ter bebido uma gota de álcool. – Quanto tempo estive a dormir?

– Magenta, tens de sair daqui.

– Porquê? Houve um incêndio?

– Pior... Quinn – explicou a rapariga, em pânico. – Não deve ver-te aqui.

– Porquê? – perplexa, olhou à sua volta. O gabinete parecia ter sido despejado, enquanto ela dormia. Mas não faltava apenas as flores, a máquina de café, as garrafas de água ou as fotografias da família. – Diz-me! Onde está o meu portátil? Entraram para roubar?

– Magenta, não sei de que estás a falar, só sei que temos de sair daqui.

– Está bem, está bem! – exclamou, enquanto a rapariga a puxava pelo braço e a arrastava para a porta. – Tenho a certeza de que tranquei a porta, ontem à noite.

– Abri-a com a minha chave – e abanou uma chave, à frente dos seus olhos.

– Porquê tanta pressa? Preciso do meu telemóvel. E, onde está a minha mala, a minha pasta?

– Chega de perguntas! – gritou a sua nova amiga. – Quinn vai chegar a qualquer momento.

Na mente de Magenta, formavam-se pensamentos e primeiras impressões. Aquela rapariga era nova. Certamente, seria alguém que Quinn levara com ele. Era amável e parecia conhecê-la, apesar de ter a certeza de que nunca a tinha visto.

– Quinn recebeu a minha lista?

– Que lista? Não me deu nenhuma lista.

– Pois não, é verdade. Dei-a a Tess.

– Tess? – a rapariga não conhecia Tess.

– E tu és...?

– Nancy – informou a rapariga, com ar de preocupação. – Magenta, tens a certeza de que estás bem?

– Sim, estou – tudo aquilo era muito estranho. Se não se sentisse tão enjoada, o seu cérebro teria reagido com mais prontidão. – Deixei uma lista das tarefas mais urgentes.

– Se me tivesses dado uma lista como essa – Nancy soprou, – tê-la-ia extraviado, de propósito.

– Quinn incomodou-te? – de repente, esqueceu a sua confusão. Perseguição era algo que não estava disposta a tolerar. A sua preocupação aumentou, quando a rapariga se recusou a responder. – Ninguém te vai incomodar, enquanto eu estiver aqui. Sobretudo Quinn.

– Não estou a brincar, Magenta – Nancy voltou a puxá-la pelo braço. – Temos de ir.

– Mas, para onde queres que eu vá? – estava no seu gabinete.

– Trabalhas no serviço de mecanografia, lembras-te? – informou Nancy.

– Serviço de mecanografia? – Magenta riu-se. – Trata-se de uma brincadeira de Quinn, para que todos nos possamos envolver no ambiente dos anos sessenta, para a campanha?

Nancy olhou para ela, perplexa.

– Para ser mais precisa, já trabalhavas no serviço de mecanografia – esclareceu, enquanto empurrava Magenta para fora do gabinete. – O tipo que geria isto, antes de Quinn chegar dos Estados Unidos, levou o diretor do escritório. Foi por isso que Quinn te promoveu.

– Porque é que Quinn não me enviou uma mensagem? E, o que é isso? – perguntou, enquanto Nancy a empurrava para uma mesinha horrível, situada junto da porta do gabinete, de onde pendia um cartaz com o nome de Gray Quinn.

– Agora, esta é a tua mesa, Magenta – indicou Nancy. – É um grande passo, desde o serviço de mecanografia, não achas?

– Queres saber o que acho? Não, não me parece ser um grande passo – Magenta abanou a cabeça. – Não sei o que está a acontecer, mas esta não é a minha mesa e Quinn não pode tirar-me o meu gabinete.

– Magenta, tu trabalhavas no serviço de mecanografia, nunca tiveste um gabinete – insistiu Nancy, com um ar de preocupação. – Não te lembras de nada?

Magenta esfregou os olhos, como se com aquele gesto fizesse com que tudo voltasse a ser como antes. Mas, para piorar tudo ainda mais, diante dela havia um monte de pessoas desconhecidas, a observá-la, como se estivesse louca.

O que estava a acontecer? Olhou à sua volta, cada vez mais furiosa. Quinn devia ser um machista incorrigível, pois todos os gabinetes privados estavam ocupados por homens, enquanto as mulheres tinham sido relegadas para postos antiquados, quer fossem datilógrafas, quer fosse no serviço de mecanografia, onde estavam sentadas em filas ou em mesas, como a que lhe tinham atribuído. Todas estavam atentas aos desejos do seu amo. Recordou aquilo que o pai lhe contara sobre as condições de trabalho das mulheres, nos anos sessenta.

– Porque é que todas as raparigas estão a escrever à máquina? – sussurrou, muito agitada.

– Porque é esse o seu trabalho! – Nancy franziu o sobrolho.

– Mas, porque não estão a trabalhar na campanha?

– Que campanha? – replicou, afastando-se para um adolescente passar.

– Magenta, estás fantástica!

– A sério? – virou-se, enquanto o jovem que não conhecia olhava para ela dos pés à cabeça. – Obrigada, eh...

– Jackson – informou Nancy, tendo percebido que Magenta precisava de ajuda.

– Jackson – Magenta arqueou a sobrancelha. – Para de olhar para mim e procura uma namorada.

– És uma bomba, miúda – Jackson soltou uma gargalhada.

Quinn mudara todo o pessoal? Certamente, estava no seu direito, pois era o patrão. Mas, o que acontecera aos seus amigos? O que acontecera ao escritório?

A sua mente estava cheia de perguntas, mas nenhuma resposta fazia sentido.

Capítulo 5

– Escuta, Magenta, não quero incomodar-te – pelo tom de voz de Nancy, parecia que queria precisamente isso, incomodá-la, – mas Quinn volta em breve.

– E então? – perguntou, com impaciência. – Que lata... – compreendia que Quinn tivesse querido dar o toque dos anos sessenta ao escritório, mas fora demasiado longe. – Nancy, o que está a acontecer aqui?

– O mesmo de sempre – e olhou para ela, perplexa.

– O mesmo de sempre – repetiu. – E, como é que fazer desaparecer os computadores é o mesmo de sempre?

– Os quê?

– Entendo, a julgar pelo que vejo, Quinn envolveu-os neste joguinho. Entendo que não quisesses perder o teu emprego, mas vai custar uma fortuna devolver tudo isto ao seu estado normal.

Quinn só teria de mudar o cenário, mas havia mais. Sentia-se um ambiente diferente e, certamente, não era o mais estimulante para trabalhar. Para além de inóspito, era muito aborrecido. E as janelas eram simples! Quinn enlouquecera? Para além dos custos para mudar todas, o que acontecia à condensação e ao frio? Se as pessoas não estivessem confortáveis, a produtividade baixava. Quinn não sabia isso?

Até o cheiro mudara... Cheirava a tabaco?

– Estás bem, Magenta? – Nancy tentou sentá-la numa cadeira.

– Estou bem – embora, na verdade, estivesse tudo menos bem.

O que acontecera? Quinn ordenara que transformassem tudo num cenário dos anos sessenta? Mas, não era apenas o aspeto. As mudanças eram profundas, muito perfeitas e convincentes.

Magenta sentiu a boca seca. Tudo aquilo era real. Real para Nancy e para todas as pessoas que estavam ali. A única que se sentia deslocada era ela. Era como se tivesse caído na toca do coelho, como Alice, e acordado nos anos sessenta. A impressão de estar presa num sonho só era superada pelo terror que sentia perante a ideia de ir conhecer Quinn. A julgar pelo pouco que soubera dele, encaixava perfeitamente no machismo dos anos sessenta.

O coração estava acelerado, mas teria de enfrentar a situação.

Para sua tranquilidade, verificou que a sua roupa e aspeto encaixavam perfeitamente nos anos sessenta. O vestido de lã destacava a sua figura, ao ponto de os seios despontarem descaradamente. Deveria ter-se vestido de uma maneira mais recatada mas, no seu mundo, fizera-a sentir sensual. E, depois do encontro com o motoqueiro, sentira a necessidade de provar a si mesma que era capaz de se sentir assim. Contudo, num escritório dos anos sessenta, atrair a atenção ia trazer-lhe mais do que um problema.

A única coisa positiva era que passara tanto tempo a investigar aquela época que, mesmo presa naquele sonho surreal, conseguia sentir-se quase integrada.

Teria de refrescar todos os seus conhecimentos e antecipar-se, para evitar mais de um problema. E a sua primeira atitude seria abrir todas as janelas e livrar o escritório do fumo.

Como seria de esperar, todos se queixaram do frio.

– Aqui dentro, não é permitido fumar – insistiu Magenta. – É contra a lei.

– Desde quando? – perguntou um dos empregados mais jovens, enquanto lhe rodeava a cintura com o braço, obrigando-a a inalar o fumo do cigarro.

– E isto também não é permitido – informou, enquanto lhe afastava a mão do traseiro.

– Oh! – o rapaz virou-se para os colegas, com um ar trocista. – O que aconteceu esta manhã, menina Steele?

– Não tens ninguém para te aquecer a cama? – perguntou outro, entre as gargalhadas generalizadas.

– Todos sabemos o que se passa, rapariga de gelo.

– Já chega! – exclamou Magenta, furiosa. – Não estou de bom humor.

– A julgar pelo que se vê, nunca estás – sussurrou outro empregado.

E como se se tratasse da altura de entrar o ator principal, as portas do escritório abriram-se e todas as cabeças se viraram. Algumas mulheres até se levantaram das cadeiras, como se Sua Majestade estivesse prestes a fazer a sua entrada.

– Mas, o que...? – dizer que Magenta estava estupefacta seria dizer muito pouco.

– Quinn – anunciou Nancy, muito tensa, antes de desaparecer.

Magenta virou-se para dizer alguma coisa, mas todos tinham regressado aos seus postos de trabalho, depois da chegada do patrão. Contudo, Quinn não se limitou a chegar. Atravessou o escritório como um conquistador, sob os olhares das mulheres, quando, na sua opinião, o que aquele homem precisava era alguém que o enfrentasse. Fosse qual fosse o sonho estranho em que tinham ficado presos, aquilo estava a fugir do seu controlo.

Mas, aquele homem era realmente Quinn? Magenta estava confusa. O Quinn dos anos sessenta não era outro senão o bonito motoqueiro, usando um chapéu e casaco escuro que, em vez de lhe dar um aspeto ridículo, o fazia parecer o dono do universo a nível sexual.

– Magenta – cumprimentou, secamente, enquanto tirava o casaco e lho entregava, juntamente com o chapéu.

Conhecia-a?

– Assim, estás melhor – Quinn olhou para ela de cima a baixo. – Gosto de ver uma mulher com roupa que lhe dê forma.

«Como?», pensou.

– Continua assim – disse, num tom de aprovação. – E não te esqueças de que espero que os meus empregados mantenham sempre o mesmo nível.

– Sim, senhor – respondeu. Não podia fazer outra coisa. Para além de machista, Quinn era o homem mais atraente que já vira.

– Vou precisar de ti mais tarde, para a reunião – informou, como se tivessem passado a vida a trabalhar juntos. Com grande preocupação, Magenta compreendeu que não havia um átomo de igualdade entre eles. – De modo que, nada de intrigas com as outras raparigas, na cozinha, quando devias estar a fazer um café – avisou Quinn.

«Bastará uma dose extra de laxante, no café?», questionou-se Magenta.

– E nem pensem em fazer uma pausa para almoçar. Têm muito trabalho para fazer e deve estar pronto quando a minha próxima reunião acabar. Entendido?

«Na verdade, não. Estou bastante confusa». Magenta pensava que tinha uma reunião com Quinn, para falar da sua continuidade na empresa, embora talvez esse tipo de coisas ainda não se fizesse, nos anos sessenta. Decidiu tentar descobrir algo mais.

– Vais ter outra reunião?

– De que estás a falar? – perguntou Quinn, com impaciência.

– Outra reunião, antes da nossa.

– À frente dos outros não, Magenta – Quinn segurou-a firmemente pelos ombros e empurrou-a para um canto afastado. – Talvez mais tarde... Se tiver tempo.

Uma pergunta formou-se nos seus lábios, mas estava tão perplexa com o comportamento sexual descarado do patrão que a sua voz se recusou a sair e quando falou, finalmente, foi para perguntar o que devia fazer com o chapéu e o casaco.

– Pendurá-los, como é óbvio – esclareceu. – E traz muito café, forte e quente. Ah, quando fores para a reunião, não te esqueças do teu caderno de estenografia.

– O meu...?

– Agora, és a diretora de escritório, Magenta. É uma boa promoção. Terás de te aplicar, se quiseres manter o cargo.

O que gostaria era de atirar um tijolo à cabeça daquele homem.

No entanto, recordou que o edifício era propriedade de outra pessoa. A Steele Design já se chamava assim quando o pai a comprara. Não tinha nenhuma participação na empresa.

Quinn entrou naquele que fora o gabinete de Magenta, mas voltou a sair, imediatamente.

– Magenta? No meu gabinete. Neste momento.

Poderiam ouvir o zumbido de uma mosca. Magenta achou que todos os empregados presumiam que ia ser despedida e contra-atacou com o seu melhor sorriso.

– Claro – acedeu, num tom respeitoso, imprescindível, até saber o terreno que pisava. Entrou no gabinete e fechou a porta atrás dela.

– Deixemos uma coisa bem clara – começou por dizer o patrão, enquanto lhe devolvia o gancho que deixara na secretária. – Na minha ausência, não usas o meu gabinete para te arranjares. Nem sequer entras aqui sem a minha autorização. E, se vier trabalhar mais cedo, tu também vens.

– E como...?

– Como saberás? – interrompeu, com os olhos semicerrados. – Ia falar nisso. Tens o teu caderno? Não? Tens de o ter sempre contigo. Deves fazer uma lista das tuas obrigações. Quando te avisar de que vou estar aqui às seis da manhã, espero que anotes isso. Na verdade, porque chegaste tarde?

Magenta abriu a boca, sem saber qual das milhares de respostas possíveis que tinha na ponta da língua seria a mais conveniente.

– Peço desculpa – seria o melhor, naquele momento. – Pensei que gostarias de desfrutar de alguns dias para te ambientares.

– Ambientar? Vim dos Estados Unidos da América, não da lua. Preciso que sejas pontual, Magenta – continuou. – És a minha secretária, para além de diretora do escritório. Se for demasiado para ti, diz.

– Não, quer dizer, sim senhor – Magenta quase fez uma saudação militar.

Tudo aquilo era confuso e irritante. Mas, também impressionante. Quinn era impressionante, com o seu cabelo preto e aqueles olhos com uma expressão feroz, já para não mencionar o corpo, coberto por um fato feito à medida. Encontrara, finalmente, um bom partido? Não se importaria de acrescentar o nome do patrão a essa lista de obrigações.

– Por favor, aceita as minhas desculpas – insistiu. Desejava conservar o emprego. – Esqueci-me de que tinhas intenção de madrugar. Não voltarei a esquecer a minha lista de obrigações.

– É bom que assim seja. Não esqueças que, embora seja o teu primeiro dia, neste cargo, não irás desfrutar de nenhum privilégio. Espero que, no fim do dia, já saibas o que fazer. E não terás tempo livre, antes das férias do Natal.

Magenta não teve outro remédio senão engolir o orgulho. Ultimamente, fazia-o com frequência, mas seria só até se situar naquela toca de coelho complicada ou, melhor ainda, até acordar.

– Vou buscar o café.

– Sim, vai – concluiu Quinn. – E leva esse «rato morto» contigo.

– Sim, claro – foi um alívio desfazer-se da extensão de cabelo horrível.

Os homens sentaram-se à volta da mesa de reuniões, enquanto Magenta servia um café a Quinn. A sua equipa, quase inteiramente feminina, poderia dar mil voltas àqueles tipos. O que é que as mulheres faziam lá fora, a escrever à máquina? Sem dúvida, mais de uma mulher possuía um grande talento.

– Devia ter pedido café para todos – disse Quinn. – Magenta? – acrescentou, bruscamente, olhando para ela com impaciência.

Magenta decidiu não responder à frente de todos. Talvez Quinn tivesse esquecido todo o protocolo, ao dirigir-se a ela daquela maneira tão indelicada. Mas, ela não.

– Não há problema – esboçando um sorriso doce, saiu da sala de reuniões, surpreendida com os olhares de admiração que lhe lançavam.

No entanto, preferia trocar aqueles olhares pela aceitação do seu sexo, a que estava habituada. Os olhares dos homens, que lhe queimavam as costas, faziam-na sentir realmente incomodada, embora se surpreendesse quando um dos «atrasados» lhe segurou a porta. A sua sensibilidade também estava a mudar?

Não. Na sala de reuniões, surgiram gargalhadas. Depois, uma ordem brusca de Quinn foi seguida do silêncio mais profundo. Magenta teve a impressão de que as gargalhadas tinham sido dirigidas a ela.

Preparou café e levou-o aos homens, embora não tivesse intenção de os servir. Se queriam beber café, podiam servir-se sozinhos. Saiu da sala e regressou um pouco depois com o seu caderno, tal como lhe tinham ordenado. Não tinha a menor noção de estenografia, mas escrevia depressa.

E teve de o fazer. Quinn tinha muitas ideias, a maioria das quais eram do agrado de Magenta, mas não teria sido mau se tivesse consultado a sua equipa, em vez de se limitar a dar instruções. Ignorara-a por completo. Poderia ter sido invisível.

– Posso perguntar uma coisa? – disse Magenta, de repente.

– Se precisas de sair da sala, fá-lo – declarou, enquanto o resto dos homens sorria, dissimuladamente.

– Não tenho de me ir embora – replicou, com as faces coradas.

– Então, fica em silêncio, por favor! – ordenou Quinn, revelando impaciência. – Não vês que estamos numa reunião importante?

Uma reunião em que, claramente, ela não iria participar.

O que podia fazer? Poderia discutir, mas seria algo contraproducente. Queria que Quinn a ouvisse, a levasse a sério. Teria de agir com subtileza, pelo bem da equipa que já decidira formar, pelo menos, até compreender o funcionamento daquele mundo estranho.

No entanto, à medida que a reunião progredia, a raiva de Magenta aumentava. Tal como deduzira, muitos homens não valiam grande coisa. Ao passo que as mulheres, tinha a certeza, estavam a perder tempo, a escrever à máquina. Estava tudo ao contrário. Frustrada, suspirou. Naquele momento, sentia-se impotente.

– Magenta?

Deu um salto.

– Se te custa muito prestar atenção, posso encontrar alguém para te substituir...

Quinn não brincava. Estava prestes a perder o seu emprego. Talvez aquele fosse um mundo de loucos mas, naquele momento, era a única coisa que tinha.

Capítulo 6

Quando a reunião acabou, Quinn pediu-lhe para ficar. Mesmo que fosse um sonho, tinha de defender a sua postura. Quinn conformava-se com uma equipa medíocre? Não podia avaliar as capacidades das suas trabalhadoras, dar-lhes uma oportunidade? Quanto mais pensava nisso, mais se enfurecia.

– Que rica experiência que estás a levar a cabo – comentou.

– Não se trata de uma experiência, Magenta. É a minha empresa e, ou acatas as minhas regras, ou sais por essa porta e não voltas mais.

– Não podes despedir-me, sem mais nem menos.

– Põe-me à prova.

O que sabia das leis de trabalho dos anos sessenta?

– Para alguém que acabou de receber uma promoção, a tua atitude é bastante dececionante.

– Simplesmente, estou surpreendida com a qualidade da tua equipa.

– Não és tu que tens de comentar as minhas decisões. Estou a avaliar o rendimento de todos e devo dizer que, até agora, tu és a minha principal deceção. Em vez de te mostrares contente com a promoção, pareces descontente.

– Isso, não é verdade – tinha de manter o seu trabalho. De que outra forma poderia lutar pelo reconhecimento? Tanto o dela, como o das colegas? – Sinto-me incomodada com o meu novo cargo, com a confiança que depositaste em mim – evitou pestanejar sedutoramente. – Vou começar a trabalhar a sério e prometo que não voltarei a defraudar-te. Espero ter tomado notas, acertadamente – Magenta mostrou-lhe o caderno.

– Digo-te quando estiverem passadas à máquina – Quinn ignorou-a. – Mais uma coisa.

– Sim?

– Os teus deveres incluem gerir o escritório, fiscalizar as empregadas da limpeza, as raparigas do serviço de mecanografia e as do posto telefónico, mas não deves intervir nas minhas reuniões. Ficou bem claro?

– Nem sequer se tiver uma ideia que gostaria de expor?

A expressão de Quinn teria espantado mais de um homem, mas Magenta continuou.

– Há algumas coisas que gostaria de sugerir, pelo bem da empresa. E menciono isso como diretora do escritório e tua secretária, para te poupar a ofensa desnecessária, no futuro.

– Fala.

– O assunto do tabaco – a presença de Quinn era imponente, mas obrigou-se a continuar. – Nancy mencionou que trabalham aqui pessoas asmáticas ou com doenças coronárias.

– E achas que deveria livrar-me delas?

– Não! – exclamou Magenta. – O que quero é que não permitas que fumem no escritório.

– Vou dizer-te uma coisa – Quinn soltou uma gargalhada. – Vou deixar que trates disso.

– Vou fazê-lo. Ou faço isso, ou abro as janelas. E não me parece que queiras que a produtividade das raparigas diminua, se tiverem os dedos tensos por causa do frio. Disseste que iam ter muito trabalho.

– Muito bem, Magenta – o patrão sorriu, – embora deva admitir que prefiro que as minhas secretárias sejam mais decorativas, do que combativas.

Um calafrio percorreu-lhe a coluna vertebral.

– Já acabámos? – acrescentou, bruscamente.

– Sim, claro. Acabámos.

– Tens a certeza de que apresentaste todas as tuas queixas?

– Vou começar a tratar das minhas notas – fantástico, o patrão pensava que estava a queixar-se.

– Isso mesmo – e nem sequer se incomodou em levantar o olhar do documento que estava a ler.

– Parece-te bem assim? – perguntou Magenta, a Quinn, um pouco depois, enquanto lhe mostrava as notas datilografadas. Há muito que não escrevia nada, sem a ajuda de um corretor ortográfico.

– Quero sempre esta qualidade, no teu trabalho – o patrão devolveu-lhe o documento.

Magenta não sabia se conseguiria sobreviver a tantos elogios. Dedicara grande parte da hora de almoço a habituar-se à velha máquina de escrever. Todo o material de escritório precisava de ser substituído. Talvez estivessem nos anos sessenta, mas não havia necessidade de usar equipamento obsoleto. Comunicou as suas inquietações a Quinn.

– Acabaste de decidir que vais tomar conta das reparações e renovações. Espero que consigas lidar com tudo isso, juntamente com o resto das tuas novas obrigações.

Teria de o fazer. Estava tão ansiosa por encaixar ali que, cada vez assumia mais trabalho, quando o que desejava realmente era formar uma equipa, convencer aquelas raparigas de que eram capazes de muito mais do que de datilografar listas e cartas.

– Que tal um jantar?

– Queres que reserve uma mesa para jantar? – olhou fixamente para ele.

– Estou disposto a fazer algumas concessões. Até te habituares, Magenta. Mas, se não prestares atenção quando eu falar, a minha paciência demorará muito pouco a esgotar-se.

A paciência dele? Perdera alguma coisa?

– Acabei de perguntar se queres jantar comigo, esta noite.

O coração de Magenta acelerou. A sua mente recusava-se a aceitar mas, como ia rejeitar aquele homem, sem o ofender?

E como ia aceitar o convite, sem comprometer a sua posição? Aquele homem não mostrara nenhuma amabilidade, embora tivesse percebido um brilho de interesse no olhar. Se conseguisse dizer algo minimamente inteligente, devia encontrar um modo de o rejeitar.

– Adoraria jantar contigo mas, tenho imenso trabalho...

– Terás de comer alguma coisa.

– Vou comer uma sanduíche, aqui mesmo – declarou. – Tenho bem presente a data limite, para lançar a campanha no início do ano. Além disso, estou a pensar em algumas ideias.

– O que estás a fazer?

– A pensar num novo... – a voz de Magenta começara a tremer.

A expressão de Quinn não era, precisamente, de encorajamento. Aquele homem era incapaz de imaginar uma mulher a ter uma ideia original e a sua missão seria demonstrar que estava enganado.

– Presumo que essas ideias não têm nada a ver com o trabalho que fazes para mim.

– Sim – na verdade, tinham a ver com o trabalho que gostaria de fazer para ele, – mas...

– Se o teu trabalho se ressentir...

– Não será assim.

– Mais vale – depois de se levantar, Quinn sentou-se, imponente e desejável, na beira da mesa.

«Meio homem, meio animal, pura masculinidade». Magenta recordou o rótulo de um perfume para homem, dos anos sessenta.

– Apresenta-me essas ideias, quando as preparares.

Porque se sentia tão agradecida pela concessão reticente?

– E não te esgotes a trabalhar em projetos pessoais, ao ponto de não renderes para mim.

– Adoro ficar a trabalhar até tarde.

– Devias ter pedido ajuda às raparigas.

– Estou bem, a sério – as raparigas já tinham o bastante com o seu dia de trabalho. – Vai-te embora.

– Dás-me a tua permissão? – perguntou Quinn, com ironia. – Que amável da tua parte.

– Lamento, não pretendia...

– Boa noite, menina Steele! Não te esqueças de fechar a porta à chave, quando te fores embora.

Enquanto observava o patrão a dirigir-se para a saída, Magenta desejou ser uma femme fatale a que nenhum homem pudesse resistir.

«Continua a sonhar», pensou, com amargura, antes de regressar ao trabalho.

Depois de várias horas dedicadas a dar os últimos retoques à campanha, o som do elevador fê-la ficar tensa e deu um salto quando parou naquele andar.

Quase sentiu alívio ao ver Quinn. Mas, o que fazia ele ali?

– Esqueceste-te de alguma coisa? – o coração acelerava de antecipação. Por muito que aquele homem a irritasse, não havia dúvida alguma da vida e vitalidade que injetava no escritório vazio e silencioso.

– Menina Steele – os olhos dele emitiam brilhos quentes, divertidos.

– Queres alguma coisa? – perguntou, confusa e agitada.

– Que tal um café?

– Claro – Magenta apreciou o cheiro da noite e o ar fresco do patrão.

Na gola do casaco, havia neve e os cristais de gelo resplandeciam no cabelo preto. A imagem levou-a à lembrança de um jovem motoqueiro, a tirar o capacete.

– Não esperavas ver-me a regressar, esta noite – supôs Quinn, acertadamente, enquanto a seguia para a cozinha. – Vi as luzes e tive piedade de ti.

– Que amável – murmurou ela. – Forte e quente?

– Como queiras – Quinn deu uma gargalhada muito sensual.

– Estava a falar do café – estavam a namoriscar?

– Eu também – assegurou. – Põe um pouco disto – mostrou-lhe uma garrafa de uísque, do bom. – Parecias estar cansada e pensei em trazer algo que fizesse acelerar o sangue.

– Por acaso, a minha bebida favorita é uísque. Conheces-me bem.

– Não te conheço, mas esse é um erro que tenciono emendar.

Magenta sentiu necessidade de alimentar o instante fugaz de cumplicidade que surgira entre eles.

– Peço desculpa de antemão, por transgredir uma das tuas leis feministas – Quinn adiantou-se.

Ao sentir aqueles lábios masculinos nos seus, Magenta deu um salto. Depois, ele empurrou-a contra a bancada da cozinha e, separando-lhe as pernas, puxou-a para ele.

– Esquece o café – murmurou, beijando-lhe o pescoço e os lábios até a enlouquecer de desejo. – Precisas mais disto.

«Certamente, sim», pensou Magenta, enquanto lhe rodeava o pescoço com os braços. A opinião da sua consciência, quando acordasse na manhã seguinte, seria outra questão. De todos os modos, estava a sonhar e, segundo as leis dos sonhos, qualquer coisa era possível, até mesmo o esquecimento das inibições sexuais. Além disso, Quinn beijava como os deuses.

Tinha cabelo denso, brilhante, um corpo musculado e atlético, que a excitou imediatamente. A língua sabia a menta e a pele cheirava a almíscar, e especiarias. A barba incipiente arranhou-lhe o rosto. Aquele homem era perito na arte da sedução e sabia exatamente como excitar, acariciar e mordiscar, até a ter a apertar-se contra ele, a retorcer-se, a saborear e quase a suplicar que a acariciasse, enquanto se entregava ao amor. Pelo menos, no seu sonho.

No entanto, disparou um alarme dentro dela. Um alarme decidido a estragar tudo, que a avisava de que talvez estivesse a seguir um atalho para o prazer, a perder a noção do bem e do mal, mas que era Quinn que controlava a situação. Era forte em tudo, exceto nisso. Embora tivesse aceitado o amor livre, teria de ser segundo as suas condições. Acabara de lhe pôr um preço, um que talvez pudesse dar uma oportunidade à equipa que tencionava formar.

– Vou fazer o café – recorrendo a toda a sua força de vontade, afastou-se dele. – Achas que podes dar uma vista de olhos às minhas ideias?

– Queres saber se gostaria de ver o que estiveste a fazer, enquanto te pagava para trabalhares para mim? Penso que seria boa ideia – apoiando a anca na bancada, Quinn esperou que ela acabasse de fazer o café. – Isto é muito bom. De onde tiraste a ideia?

– Investiguei – aquele homem nem imaginava as vantagens de viver no futuro. – Gostaria de levar a campanha para outro nível – nunca mentira, não precisava disso.

– A tua ideia é inovadora – admitiu Quinn, secamente. – Devo presumir que a equipa que viste na sala de reuniões não te impressionou?

– Poderia dizer-se que sim – admitiu Magenta, sob o olhar atento do patrão.

– Talvez precisem de um pouco de tempo para se adaptar.

– Não há tempo, se quiseres lançar a campanha no início do ano.

– Assim sendo, sugeres que aceite uma campanha desenhada por uma mulher.

– Achas uma loucura?

– Esqueces a ordem natural das coisas, Magenta. Os homens mandam no trabalho, para que as mulheres desfrutem de um determinado estilo de vida.

– Mas, se lhes deres uma oportunidade, as mulheres podem fazer isso, sozinhas.

– E eu não permito. É isso que insinuas?

– Talvez os homens se sintam ameaçados...

– Este homem não – interrompeu Quinn.

– Demonstra-o, permitindo que as mulheres intervenham ativamente na tua campanha.

– E como sei que, para além de ti, há outras mulheres com o teu talento, a trabalhar para mim?

– Nunca saberás, se não deres oportunidade a todos.

– Se há tanto talento aqui, porque é que nenhuma se manifestou até agora?

– Porque querem conservar os seus postos de trabalho e mantêm a boca fechada. Penso que, ao desenhar uma campanha, devíamos ter em conta o público feminino.

– E, o que querem as mulheres? – nem sequer fingiu pensar nisso. – Quem se importa que sejam os homens a pagar as contas? Isto é um negócio, Magenta. Os homens ganham o dinheiro que as mulheres gastam, não te esqueças disso. O nosso público é masculino.

Magenta odiou-se por tremer, enquanto ouvia as heresias que aquele homem pronunciava. No entanto, não devia esquecer-se de que era apenas um produto do seu tempo.

– Mas, deves reconhecer que são as mulheres que fazem as contas e controlam as finanças.

– Tolices! Quem diz a uma mulher o que deve comprar, Magenta? O seu homem.

– A esta mulher não.

– Só te peço que te sintonizes com o teu público. Mas, às vezes, penso que tens a cabeça noutro lugar ou até mesmo noutro século.

«Quente, quente», pensou ela.

– Se continuares a pensar que só devemos dirigir-nos a um setor da comunidade, esta empresa vai afundar-se como uma pedra num lago, levando o teu investimento com ela.

– Porque não me ensinas a forma de chegar ao público adequado? – depois de um silêncio tenso, o rosto de Quinn relaxou e o seu olhar transformou-se em fogo.

Capítulo 7

– Será um prazer – afirmou Magenta, olhando para ele nos olhos. – Há muitas mulheres neste escritório, que tentam sustentar a sua família.

– Eu sei.

– As mulheres sempre foram lutadoras, Quinn – Magenta tentou não se distrair com as covinhas que se formaram nas faces do patrão. – Não tiveram outro remédio. E, se queres saber o que querem, deves ter em conta o mercado, os seus homens, os seus filhos.

– E se quiser saber como atrair as mulheres, devo perguntar-te?

– Podias pedir a opinião de qualquer uma das mulheres que trabalham aqui – como se ele não soubesse atrair qualquer mulher. – Pergunta-lhes o que gostariam de comprar, usar e experimentar.

– Sugeres que faça uma pesquisa?

– Porque não?

– Envolver as mulheres nas nossas ideias?

– Obviamente.

– Convence-me.

Chegara a sua oportunidade e não podia estragar tudo.

– Muito bem. As mulheres querem comprar os teus produtos, porque são indispensáveis, excitantes e de confiança. Mas, as mulheres também querem parecer inteligentes, ter o controlo.

– E querem fazê-lo enquanto estão sentadas à frente de uma máquina de escrever, a destruir a sua dispendiosa manicura?

– É por isso que a publicidade deve convencê-las de que têm o controlo – continuou Magenta, decidida.

– Esse caminho é muito perigoso.

– Insinuas que os homens são tão frágeis que não sobreviverão ao desafio de uma mulher forte? – observou o patrão. Sentia-se forte, mas também tremia de desejo.

– És uma mulher forte, Magenta.

– Sim, sou – sabia que Quinn estava a pô-la à prova, à procura de uma fenda nas suas defesas. Era evidente que se apercebera de que desejaria que a abraçasse, a devorasse com beijos. – Mas, sou apenas um exemplo de mulher forte – afirmou, com frieza. – Estou convencida de que há muitas mais, neste escritório.

– Alguns homens acham que uma mulher forte não é atraente.

«E tu, Quinn?», quis perguntar, embora já soubesse a resposta. Era óbvio que gostava de mulheres fortes. Adorava o desafio de as submeter.

– Nunca desprezo as necessidades de uma mulher.

– Se o fizesses, seria pior para ti – Magenta pensara que falava de negócios mas, ao ver o sorriso nos lábios de Quinn, percebeu que aquilo era sobre tudo, menos negócios.

Chegara a hora de despertar aquele cérebro ensonado e passar ao próximo nível.

– Porque não trazes dois copos e bebemos alguma coisa? – sugeriu Quinn, exibindo um sorriso sensual. – Podias relaxar um pouco, de vez em quando.

Certamente, conseguiria fazê-lo. Poderia beber até toldar a mente, baixar as defesas e dar luz verde à ofensiva sexual daquele homem, mas queria mais da vida.

– Prefiro acabar o trabalho, para o veres – era a opção correta.

Mas, o seu corpo começou a derreter, quando Quinn a agarrou pelos braços. Aquilo não tinha nada a ver com os negócios e estava cansada de lutar. E Quinn... Era Quinn.

– Melhor? – murmurou, depois de a beijar nos lábios.

Magenta ofegou e um murmúrio escapou da sua garganta, quando ele intensificou o beijo. Aquilo tinha de ser um sonho.

Esteve prestes a cambalear, quando Quinn a soltou e olhou para ela com um ar trocista.

– Porquê? – inquiriu, confusa e frágil. Era a primeira vez que perdia o controlo.

– Porque estás muito tensa.

Recebera o seu castigo. Cobriu os lábios inchados com a mão, como se, com esse gesto, pudesse esconder a sua excitação. Ambos gostavam de ter o controlo, mas Quinn fazia-o muito melhor. A sua habilidade com os homens não melhorava, nem sequer em sonhos.

Quinn pousou as mãos quentes na nuca dela, onde se concentrava toda a tensão.

– Disse-te que era tensão – explicou, enquanto lhe demonstrava a sua habilidade para as massagens.

Magenta não reclamou. Duvidava que alguém fosse capaz de resistir àquelas mãos. A respiração de Quinn arrepiava-a na nuca e o seu corpo musculado estava, virtualmente, colado ao dela. Emitiu um suspiro trémulo. Aquele homem estava a dificultar-lhe muito a tarefa de pensar. Estaria consciente do efeito que lhe causava, de como o desejava? Nunca pensara nas suas curvas e em como encaixavam nas mãos de Quinn... Se quisesse tocar-lhe.

– Porque não me contas os teus planos de trabalho para toda a semana, Magenta?

– Redigi um plano de trabalho, que deixei no teu gabinete. Vou buscá-lo?

– Não é necessário.

Quinn gostava daquele jogo. Gostava de jogar com ela e, a julgar pelo que vira até ao momento, jogava sempre para ganhar.

– Mas, gostaria que o visses – e afastou-se. – Quero que saibas que não te defraudarei.

– Não terás oportunidade de o fazer. Não obterás nenhum privilégio especial, por seres nova no cargo. Exijo a mesma produtividade das outras raparigas. Na verdade, mais, porque tomei a decisão de te dar o controlo.

E fora por isso que se preparara. Magenta dirigiu-se para o gabinete de Quinn e regressou com a lista. O patrão observou-a brevemente, antes de a devolver.

– Vais-te embora? – perguntou, ao vê-lo a vestir o casaco.

– Esperavas que ficasse?

Magenta sentiu-se a enfurecer. Aquele homem sabia como lidar com ela. Teria de ser mais ágil, se quisesse evitar transformar-se numa marioneta, na mulher que se limitava a fazer um bom café ou uma folha de cálculo, quando lhe pedisse. O que aquele homem precisava era de uma mulher forte. Ela era forte. Mas, seria suficientemente forte?

– Amanhã, temos muito trabalho, Magenta – Quinn olhou para ela com olhar trocista. – Espero ver-te aqui bem cedo. Não terei em consideração o facto de teres ficado a trabalhar até tarde, no teu próprio projeto.

– Sim, claro – e sorriu. «Bárbaro incorrigível», pensou.

– Dorme bem.

– Vou dormir – «não iria para a cama contigo, mesmo que fosses o último homem à face da Terra», pensou, sem apagar o sorriso dos lábios. «A não ser que mo peças amavelmente», reconsiderou.

– Quase me tinha esquecido.

– O quê? – Magenta observou o saco de papel castanho, que Quinn lhe oferecia.

– Uma sanduíche. Para o caso de teres fome enquanto trabalhas – lançando-lhe um último olhar, desapareceu no elevador.

Era evidente que se apercebera de que o desejava. E, sem dúvida, também se apercebera de que era uma completa novata, no que dizia respeito aos homens. Aquilo estava a transformar-se numa luta. E, fosse qual fosse o mundo que habitava, nunca conseguira resistir a um desafio.

Por sorte, nos anos sessenta, não havia problemas em mandar parar um táxi. As ruas estavam mais tranquilas e o trânsito era menos caótico. Até o pavimento estava em melhor estado. E, para uma entusiasta dos anos sessenta como Magenta, ver o anúncio do último filme de Elvis Presley era uma fonte de fascínio. No entanto, havia coisas a que não conseguia habituar-se, como a falta de aquecimento central em casa, a humidade que se formava na janela da casa de banho, por dentro, ou a quantidade de roupa que tinha na cama, que a fazia sentir como o recheio de uma sanduíche.

Agasalhando-se o melhor que pôde, percebeu que a sua paixão pelos anos sessenta a fizera ignorar as privações que, sem dúvida, havia naquela época. Só tivera em conta o melhor e idealizara algo romântico. No entanto, a realidade era bem diferente e só dispunha de algumas horas para repousar num quarto gélido, antes de se levantar.

O telefone tocou, irritantemente. Sem abrir os olhos, arriscou-se a tirar um braço de debaixo das mantas, para atender. A voz do outro lado da linha era profundamente masculina. E familiar.

– Magenta, estás acordada?

– O que...? – quanto tempo dormira? Cinco minutos? Menos? – Sim?

– Ainda não saíste da cama? – não havia sensualidade naquela voz.

– Claro que sim – mentiu ela, enquanto tentava desenredar o fio do telefone.

– Fico feliz, porque estou no escritório e tu também devias estar aqui.

Magenta tropeçou no fio.

– O que está a acontecer aí?

– Nada. Porque dizes isso?

– Ouço muito barulho.

– Seria a porta a fechar-se? – mentiu ela, novamente. – Estou a beber leite.

– Esquece o pequeno-almoço e vem para aqui, imediatamente. Um jornal nacional, de grande tiragem, anunciou o lançamento do seu primeiro suplemento a cores, para o Ano Novo, e...

– E vamos sair nele! – exclamou ela.

– É esse o plano.

– Isso é fantástico! – de facto, era.

E seria ainda mais, se conseguisse fazer com que Quinn confiasse nela, em vez de esperar simplesmente que passasse à máquina as notas da última reunião. Mas, primeiro, o mais importante.

– Vou pousar o telefone por um segundo – explicou, consciente de que o fio não dava para mais.

Correndo para a casa de banho, Magenta procurou o duche, em vão. Teria de tomar um banho rápido, um banho frio. Devia ter ligado o esquentador há algumas horas.

– Fantástico? – gritou Quinn, quando pegou novamente no telefone. – É tudo o que tens a dizer? Parece que ainda estás a dormir, Magenta. Isto é uma estreia nacional e quero uma imagem espetacular da Style Design, nesse primeiro suplemento. Magenta? Estás aí?

Espetacular fora o choque, ao sentir a água fria. Dentro e fora. Não queria mais.

Com o telefone encaixado entre o ombro e o queixo, começou a saltar para aquecer, enquanto abria o armário e descobria um vestido descartável, de papel, o último grito dos anos sessenta. A publicidade assegurava que se tratava do futuro, em matéria de moda.

Por fim, escolheu um vestido de lã. Reservaria o de papel para a festa de Natal. O vestido de lã, num tom coral, atraente, tinha um cinto largo que ajustou com firmeza.

Enquanto subia para o escritório, no elevador, sentia o formigueiro da antecipação. Ia voltar a ver Quinn. Entrou no escritório, cheirando o ar, como um veado com o cio. Quinn era um rapaz mau, mas quem quereria trocar o amante dos seus sonhos por um cogumelo aborrecido?

Capítulo 8

O escritório dos anos sessenta parecia-se mais com um cenário gigantesco do que com o ambiente de trabalho repleto de tecnologia a que estava habituada, com a intimidade que os computadores proporcionavam, com o pessoal intencionalmente andrógino. Nos anos sessenta, todos se vestiam para impressionar, para destacar os seus atributos. Por sorte, adaptou-se rapidamente ao seu papel de diretora de escritório, mostrando os seus dotes naturais para a autoridade, e até os homens cumpriam as suas ordens. Quinn não, obviamente.

– Sempre gostei de mulheres autoritárias – declarou um dos empregados, quando lhe tirou o cigarro da mão e o esmagou.

– Acabou o tabaco! – ordenou Magenta, com firmeza.

Quinn decidira ignorar o facto de terem passado a maior parte da noite a namoriscar. Deixara-lhe um monte de trabalho que, tinha a certeza, acrescentara ao habitual, como castigo por ter adormecido. Mas, estava muito ocupada a recordar o beijo, para se preocupar.

O dia passou a voar mas, infelizmente, não viu Quinn. Questionou-se sobre o que aconteceria, se voltasse a dormir no escritório. O que poderia acontecer num mundo ao contrário? Olhou para um grupo de homens atrasados, que esperavam despedir-se de Quinn e, certamente, lamber-lhe um pouco «as botas». Era um milagre que as mulheres tivessem encontrado um modo de demonstrar o seu valor. E também era suposto que se ocupassem das suas casas.

No fundo, o que mudara? A situação era muito parecida com a do século XXI.

– Ainda a trabalhar, Magenta? – Quinn apareceu e dirigiu-se para ela, ignorando os homens. – Muito bem – observou, depois de rever a sua última ideia.

– Vou mostrar-te, quando estiver acabada.

– Devias partilhar as tuas ideias – indicou Quinn.

– E vou fazê-lo – respondeu. Fá-lo-ia assim que tivesse criado uma equipa, que estava decidida a recrutar no posto telefónico e no serviço de mecanografia.

– Quando poderei vê-lo? – insistiu o patrão.

– Assim que estivermos prontas.

– Estivermos? – perguntou, com desconfiança.

– Este tipo de trabalho costuma ser feito em equipa – Magenta soube que fora demasiado longe. – Com a tua aprovação, claro. E gostaria de sondar «o curral» de mecanografia.

– O curral de mecanografia?

– Referia-me às datilógrafas – porque estava a olhar para os lábios dela? – Estão isoladas do resto do escritório, como se estivessem num curral.

– E? – perguntou Quinn.

– As suas observações, a respeito de alguns dos produtos que promoves, poderiam ser de grande utilidade – apesar do tom suave, Magenta sentia-se como uma leoa a defender as suas crias.

– Talvez... – Quinn esfregou o queixo.

– E tenho outra ideia para ti.

– Porque não me surpreende?

– Sou a única diretora de escritório – Quinn tentava incomodá-la, com aquele olhar impressionante? – Mas, pensei que, se me permitires formar uma equipa, no meu tempo livre, como é óbvio, talvez possamos testar as nossas ideias. Uma equipa contra outra.

– Homens contra mulheres? – perguntou Quinn, com um ar altivo, como se o resultado fosse totalmente previsível. – Tens a certeza daquilo que dizes?

– Nunca tive tantas certezas – Magenta observou o patrão e o seu corpo reagiu imediatamente, como se uma labareda tivesse aparecido no seu íntimo. – Ouvi dizer que há tantos pedidos para inserir publicidade no suplemento a cores, que uma equipa escolherá os melhores.

– Também ouvi, por isso, temos de ser os melhores.

– Por isso, pensei que, se envolveres todos os empregados, terás muitas mais ideias.

– Nunca te dás por vencida?

Magenta absteve-se de responder.

– Espero que não me faças arrepender disto.

– Então, estás de acordo?

– Magenta, se isto for uma brincadeira...

– Prometo que não é. Muitas raparigas querem envolver-se e alguns homens são bons.

– Gostas de desafios – observou ele.

– Não gostamos todos?

– Não. A maioria das pessoas prefere apostar no seguro. Pareces gostar de viver perigosamente, o que é bom – acrescentou Quinn. – Porque tenho planos para ti.

O coração de Magenta acelerou. Havia muitas opções possíveis e qualquer uma servia.

– Vou dar-te a oportunidade que me pediste. Não tenho nada a perder – sentenciou ele, encolhendo os ombros. – Também te vou encarregar da festa de Natal. Conseguirás fazê-lo?

– Claro.

– E não me venhas com ideias velhas. Que seja algo original.

Precisamente o que dera fama à equipa do século XXI.

– Não fiques aí. Começa a trabalhar nas tuas ideias. Amanhã de manhã, falaremos.

– Sim, senhor.

Magenta estava contente, por saber que Quinn ia dar uma oportunidade às raparigas. Teria de formar rapidamente uma boa equipa, para se apresentar diante do único juiz.

– Essa sondagem que mencionaste – disse Quinn, enquanto se dirigia para a porta.

– Sim?

– Diz às raparigas que vou pedir a sua opinião sobre uma série de produtos novos.

– Claro – não era uma vitória, nem sequer se aproximava disso, mas era um grande avanço.

Na manhã seguinte, Magenta expôs o seu plano às raparigas. Quase esperara que olhassem para ela como se estivesse louca, mas surpreendeu-se quando aceitaram as suas ideias tão rapidamente.

– Mas, a última palavra é de Quinn – observou Nancy. – Quais são as nossas possibilidades?

– Se sei alguma coisa sobre Quinn – Magenta levantou-se da bancada da casa de banho das senhoras, o único lugar onde estavam a salvo dos ouvidos masculinos, – é que, acima de tudo, é um empresário.

– Um guerreiro com olhos de amante – observou uma das raparigas, num murmúrio de aprovação.

– A verdade é que lutará pela empresa – porque se sentia tão ciumenta? – Quer muito este contrato. Não tens de te preocupar, Nancy. Quinn é duro, mas é justo.

– Vai ser uma luta justa ou apenas um truque de Quinn, para nos manter caladas? – insistiu Nancy.

– Isto é sério, tal como o concurso para publicar o anúncio na revista. Caso contrário, não vos faria perder tempo. Quinn não consegue resistir a um desafio. Nem eu, nem vocês.

– Mas, será capaz de escolher as nossas ideias, acima das dos homens?

– Porque não, se forem melhores? Trata-se de melhorar os nossos empregos.

– E esmagar os homens, de passagem! – o rosto de Nancy resplandecia.

– Não te esqueças da satisfação que nos vai proporcionar – recordou-lhe Magenta.

– Quando enterramos as «abelhas operárias»? – replicou uma rapariga, que usava óculos. – Estamos contigo.

– Só mais uma coisa.

– O quê? – perguntou Nancy, revelando desconfiança.

– Antes disso, temos de fazer uma coisa por Quinn, para demonstrar que somos cooperantes.

– Já temia isso! – exclamou a outra mulher, entre um murmúrio generalizado.

– Talvez gostem... – tentou animá-las.

– Se incluir escrever à máquina, limpar ou fazer café, não aceito – assegurou Nancy.

– Os homens também terão de passar por uma pré-qualificação? – perguntou outra rapariga.

– Penso que todas conhecemos a resposta – admitiu Magenta.

– E, o que temos de fazer? – Nancy pôs as mãos na cintura.

– Testar alguns produtos novos.

– Deixa-me adivinhar – insistiu outra mulher. – Vassouras e esponjas?

– Maquilhagem, produtos de beleza e roupa. E poderemos ficar com as amostras.

– Quinn está a comprar-nos – observou Nancy, com ceticismo.

– Não, suponho que Quinn quer a nossa opinião sincera! – protestou Magenta. – É simples.

– Nada é simples – Nancy manteve-se firme.

– Tens razão – assentiu Magenta. – Mas, vamos permitir que uns batons se interponham no nosso caminho?

– Não! – gritaram as raparigas, em uníssono.

– Isto é mais importante do que batom. Isto é uma luta pela liberdade – afirmou outra.

– Às barricadas! – exclamou Nancy, entre gargalhadas. – Mas, primeiro, não se esqueçam de se maquilhar.

– E então, estás connosco, Nancy? – perguntou Magenta, com ar sério.

– Claro que sim. Depois de tudo o que aguentei hoje, dos homens, tenho vontade de lutar.

«Devia ter imaginado», pensou Magenta, ao entrar na sala onde estavam os produtos para testar. Bonitas mesinhas, para uma Barbie de tamanho natural, tinham sido dispostas para cada uma das raparigas. Em cada mesa, havia uma seleção de produtos de beleza de alta qualidade, que aceleraria o coração a qualquer mulher. Por sorte, tanto ela como a sua equipa sabiam manter a calma diante da equipa de Quinn, preparada para tomar notas.

– Que bonito – murmurou Magenta, como se testar verniz e batom fosse o sonho do seu coração doce. Fez um gesto às raparigas, para que se sentassem.

Todas se sentaram com um sorriso nos lábios, pois estavam a par da surpresa que ela preparara para os homens.

– Não te sentas, Magenta?

– Se houvesse cadeiras suficientes...

– Usa a minha, não vou precisar dela – ofereceu Quinn, imediatamente.

Chegara o momento de Magenta demonstrar se era capaz da audácia que prometera às raparigas. Pegando no batom, segurou nele.

– Brilhos de ouro – murmurou. – O que achas?

– Estás a perguntar-me? – Quinn franziu o sobrolho.

– Sim. O que achas? – insistiu, levantando-se. Tinha a atenção de todos os presentes na sala. – Segundo os homens, as mulheres arranjam-se para eles e, sem dúvida, a vossa opinião será mais valiosa do que a nossa – olhou fixamente para Quinn, sem deixar de sorrir com doçura. – Querem experimentar? – todos sustiveram a respiração. – Não tens de o usar. Podes lambê-lo, se quiseres.

Quinn agarrou-a pelo braço e arrastou-a para um canto.

– Este teste é muito sério. O que estás a fazer?

– Este teste é muito sério – sussurrou Magenta. – Posso dizer-te que este batom parece ser tão bom como o que eu uso, mas sabe a remédio, misturado com água suja. Gostarias de beijar uma rapariga que usasse algo parecido?

O brilho nos olhos água-marinha indicou que, mais uma vez, abusara.

– Desta vez, vou conceder-te o benefício da dúvida – assentiu, finalmente. – Mas, a partir de agora, basta de brincadeiras e de duplos sentidos. Basta de truques. Entendido?

– Perfeitamente.

– Obrigado a todos, pela vossa colaboração – despediu-se Quinn, depois de testarem os produtos. – Por favor, levem o que quiserem.

– Desculpa...

– Sim?

– As raparigas não querem limitar-se a ser observadoras passivas neste teste e, embora tenhamos desfrutado muito da experiência, há alguns produtos que insistimos que os homens também usem – Magenta quase teve de gritar, para ser ouvida por cima dos protestos. – Para cobrir todo o mercado, precisamos de valorizar alguns produtos masculinos – apressou-se a acrescentar, perante o olhar furioso do patrão.

Quinn dera-lhe outra oportunidade e estava a levar a sua paciência no limite, enquanto os outros homens queriam matá-la. O que é que uma mulher podia saber dos homens?

– Devo agradecer-te, Quinn – tinha de arriscar tudo. – Por assinalares o facto de os nossos esforços publicitários serem dirigidos, basicamente, aos homens. As raparigas e eu pensamos que o mais lógico seria conhecer a opinião masculina, sobre determinados produtos.

– Sim, sim, sim – interrompeu Quinn, com impaciência, enquanto os outros homens reatavam os seus protestos. – Magenta tem razão – acrescentou, para estupefação da jovem. – Prometi-lhe um acordo justo e isso significa que temos de conhecer o ponto de vista de ambos os lados.

«Com os homens em primeiro plano e as mulheres em lado nenhum», pensou Magenta.

– Concedem-nos um minuto, para preparar tudo? – pediu Magenta.

– O que é isso? – perguntou Quinn, quando Magenta e as raparigas regressaram, ao fim de um momento.

– Uma cadeira de barbearia, que nos emprestaram.

– Onde queres que a ponha? – Quinn abanou a cabeça, mas insistiu em levar a cadeira.

– No meio da sala, por favor – e apercebeu-se de que os homens já não sorriam, satisfeitos. – Agora, precisamos de um voluntário. Como? Ninguém? Ninguém quer ajudar?

– Eu vou.

Todos os olhos pousaram em Quinn, que já estava a desfazer o nó da gravata.

The free sample has ended.