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O Duque sem Coração

Barbara Cartland

Barbara Cartland Ebooks Ltd

Esta Edição © 2014

Título Original - “The Chieftain without a Heart”

Direitos Reservados - Cartland Promotions 2014

Capa & Design Gráfico M-Y Books

m-ybooks.co.uk

CAPÍTULO I
1822

–Graças a Deus, estamos em águas tranquilas!

Lord Hinchley serviu-se de uma dose de conhaque, que bebeu num golo só.

–Você até que teve sorte!– retrucou o amigo dele–, o mar sempre esteve bem pior do que tem estado nesta viagem!

–Então, pode ficar certo de que nunca mais voltarei a esse fim de mundo! Aliás, eu acho mesmo que esse é um país do demônio, povoado só por bárbaros!

–Um conceito muito comum e errôneo que os ingleses têm da Escócia!– disse o Duque de Strathnarn, com cinismo.

Hinchley deixou-se cair numa cadeira do confortável salão do bar do navio mas felizmente a embarcação parara de balançar, pois já fazia sete dias que enfrentavam águas turbulentas no mar do Norte.

–Se quer saber– disse ele, em tom confidencial–, eu acho que fez muito bem quando sacudiu dos sapatos a terra da Escócia e resolveu vir para o Sul. Só errou quando resolveu voltar, Taran, como já disse antes.

O rosto do Duque ficou sombrio. Ele foi até a escotilha e ficou olhando a terra coberta de árvores que se avistava do navio, em seu caminho pelo estuário de Tay.

Não tinha a menor intenção de explicar, nem mesmo para seu amigo mais íntimo, que estava revoltado com a ideia de ter que voltar à terra que ele deixara, cheio de rancor e fúria, há doze anos.

Tinha só dezasseis anos naquela época, e a crueldade do pai, que não só ferira seu corpo mas também seu orgulho, humilhando-o, fizera-o jurar que não teria mais nada a ver com a Escócia e seu povo, até o fim da vida.

Lembrava-se bem de como havia se enfiado a bordo do primeiro navio disponível no porto de Perth. Tinha pouco dinheiro e só pudera comprar a passagem mais barata, tendo que suportar a acomodação abafada e malcheirosa no porão.

Entretanto, os parentes de sua falecida mãe, em Londres, haviam-no recebido de braços abertos.

Matricularam-no em uma famosa escola particular e depois mandaram-no para a Universidade de Oxford e, mais tarde, com o título de Marquês de Narn, recebido do avô, e estando a serviço do Príncipe Regente, a vida lhe era refinada e agradável.

Na verdade quase havia se esquecido de que a Escócia existia.

Quando o avô morrera, deixara-lhe uma vasta propriedade e muito dinheiro, além de que gozava da amizade do regente, agora Rei George IV. Dessa forma Londres oferecia–lhe tudo o que queria e mais lhe agradava.

Há três meses tinha chegado como uma bomba a notícia de que seu pai morrera e, com isso, ele se tornara não apenas o Duque de Strathnarn mas também o chefe do Clã McNarn.

De certa forma, sempre tinha imaginado o pai como sendo indestrutível. Quando pensava nele, o que não era muito frequente, ele lhe parecia sem idade e aterrador, como um dos antigos gigantes descritos nas baladas que ouvira os bardos cantarem, quando criança.

O Duque tinha ficado tanto tempo em silêncio que Lord Hinchley, ao se levantar para pegar outra dose de conhaque, disse:

–Você parece deprimido, Taran. Com essa carranca severa, vai amedrontar os homens do seu Clã.

–Acho bom mesmo que eles fiquem amedrontados, porque assim me obedecerão.

Disse isso apenas por dizer, pois sabia que os McNarn sempre obedeceram a seus chefes, na verdade lembrou-se até de que seu pai uma vez falara:

–Um chefe de Clã, é um intermediário entre seu povo e Deus.

Em todo caso. não pôde deixar de pensar que aqueles dias de ser vidão haviam terminado, e agora que um chefe de Clã, não mais detinha o poder de vida e morte sobre seu povo, evidentemente, o sentimento que teriam por ele não seria o mesmo.

–Bem, eu lhe digo uma coisa– comentou Lord Hinchley, bebericando seu conhaque–, se eu tiver que fazer a viagem de volta no Royal George, com Sua Majestade, vou ficar deitado em minha cabine, bebendo até ficar inconsciente, enquanto não chegarmos a Tilburv.

–Na volta será mais calmo– falou o Duque automaticamente, como se estivesse com o pensamento distante–, e como o Rei, é bom marinheiro, ele vai querer você sóbrio, dizendo o quanto os escoceses gostaram da visita dele.

–Esta é a questão… será que vão gostar?– perguntou Lorde Hinchley–, a culpa é de Walter Scott, que foi despertar no Monarca esse desejo urgente de visitar Edimburgo. Se os escoceses tivessem juízo, eles o fariam em pedaços, com suas espadas e punhais!

O Duque não disse nada e Lord Hinchley continuou:

–Meu avô serviu no Exército de Cumberland, que participou da Batalha de Culloden, e o que ele descreve sobre como os escoceses foram massacrados e as crueldades infligidas aos sobreviventes deveria fazer todo inglês pensar duas vezes, antes de se atrever a desafiar o sentimento de vingança que ainda deve ferver no peito deles!

–Isso foi há muito tempo.

–Pois eu aposto com você como eles não esqueceram.

–Acho que você tem razão.

–É claro que tenho!– disse Lord Hinchley, enfático–, todo povo bárbaro tem suas rixas entre feudos, suas vendettas, suas pragas e maldições, que passam de geração a geração.

–Você está versado no assunto– comentou o Duque.

–Quando Sua Majestade me disse que eu deveria vir para cá, antes, e providenciar para que ele fosse recebido devidamente, quando chegasse em Edimburgo, eu me dei ao trabalho de me informar sobre a Escócia e os escoceses.

Lord Hinchley fez uma pausa e acrescentou:

–Para você eu posso dizer, Taran, acho que os ingleses comportaram-se muito mal com o povo que conquistaram apenas por serem mais organizados e disporem de mosquetes.

O Duque não respondeu nada e, depois de alguns instantes, Lord Hinchley continuou:

–Meu avô costumava me contar, quando eu era pequeno, como os Clãs foram exterminados em Culloden, enquanto os homens marchavam, famintos e molhados, depois de terem passado a noite ao relento. Eles estavam atravessando um terreno difícil e os chefes os conduziram direto para a linha de fogo.

O Duque ergueu-se, num gesto de raiva.

–Pelo amor de Deus, William, pare de tentar me horripilar com essas batalhas que aconteceram muito antes de termos nascido! Nós dois fomos obrigados a vir nesta viagem, e quanto mais rápido fizermos o que temos que fazer e voltarmos para nossa terra, melhor!

Havia tanta ira na voz do Duque que o amigo olhou para ele, intrigado, e depois disse:

–Eu pensei que sua terra, na verdade, fosse esta.

Ele viu o Duque crispar os dedos, como se tivessem lhe tocado na ferida, e então como gostava muito do amigo, quis abrandar o tom da conversa.

–Tome outra dose. Não há nada como um bom conhaque francês para fazer o mundo parecer bem melhor!

O Duque pegou a bela garrafa de cristal, que tinha o fundo bem mais largo que o gargalo, para não cair da mesa com o balanço do navio, e serviu-se.

Quando sentiu o líquido abrasador espalhar calor por seu corpo, entendeu que, em vez de acalmá-lo e trazer –lhe algum conforto, a bebida simplesmente acentuaria sua raiva e apreensão em relação ao que estava por vir.

Nem quando seu pai morrera ele havia tido a menor intenção de voltar para a Escócia. Ele havia se desligado completamente dos McNarn, desde o dia em que fugira, com as costas ainda sangrando e cheias de vergões, das chicotadas do pai.

Se quisessem considerá-lo um renegado, eles que o considerassem! Não pretendia, de forma alguma, preocupar-se com sentimentos e opiniões dos outros, só com os seus.

Depois de ter terminado a faculdade, ele sentira que, com bastante dinheiro para gastar e com a bela aparência que tinha, as mulheres gravitariam em torno dele como mariposas em redor da luz, deixando-o sem tempo para pensar em qualquer outra coisa que não fosse seu próprio prazer.

O Príncipe Regente gostava de cercar-se de jovens dândis, incentivando-os quanto à extravagância no vestir que ele próprio adotava.

A moda que tinha sido lançada por seu amigo Beau Brummell e que ele ainda mantinha, mesmo depois de terem brigado e Brummell ter morrido no exílio.

Era, assim, com o entusiasmo desmedido de uma criança que vai à sua primeira festa, que o Rei estava agora planejando chegar â Escócia usando kilt, a saia escocesa tradicional da região montanhosa, ao norte.

Ele havia ordenado a todos que fossem ficar a seu serviço em Edimburgo que usassem seus tartãs e que passassem em revista seus Clãs, numa cerimônia que teria lugar em Portobello Sands, dia 23 de agosto, sexta-feira.

O Duque não havia pensado que sua presença seria requisitada nessa ocasião, mas o Rei deixara bem claro que ele deveria estar presente e ele não encontrara desculpa plausível para recusar.

Na verdade, o pedido de Sua Majestade, que era uma ordem, chegara justamente quando o Duque estava ponderando se devia ou não voltar à Escócia, depois de ter recebido um chamado urgente de seu administrador de bens, o Sr. Robert Dunblane.

O comunicado tinha sido feito logo, mas levara um tempo considerável para chegar até suas mãos.

Robert Dunblane era o administrador de bens de seu pai e o Duque lembrava-se de que, quando era pequeno, ele era a única pessoa com quem podia conversar.

Fora Dunblane quem o informara da morte do pai, há três meses, em uma carta em que deixava claro estar esperando que o Duque fosse a Edimburgo o mais breve possível.

O Duque lera a carta e jogara-a de lado. Por ele, seu Clã, seu Castelo e as terras que possuía podiam apodrecer!

Aceitava usar o título a que tinha direito agora, mas, fora isso, quanto menos ouvisse falar do Norte, melhor! E acabara afastando do seu pensamento a sugestão de Robert Dunblane.

A segunda carta, entretanto, fora diferente e a expressão do Duque anuviara-se, ao ler o que continha. Ao terminar, exclamara:

–Maluco! Ah, esse jovem maluco! Como pôde fazer uma loucura dessas?

Do sobrinho Torquil McNarn ele só se lembrava como uma criança de colo, que tinha nascido em 1808, dois anos antes de ele ir embora de casa, mas da irmã Janet lembrava-se bem, com carinho e afeição.

Ela era muito mais velha do que ele e assumira o lugar de sua mãe, que morrera quando ainda era muito pequeno.

Casara-se com um primo, também de sobrenome McNarn, e infelizmente fora embora do Castelo, deixando-o à mercê da tirania implacável do pai deles.

As únicas recordações felizes que o Duque tinha da Escócia eram de Janet e, há seis anos, desde que ela morrera, ele sentira que se perdera o último elo que o ligava àqueles que era obrigado a chamar de parentes e amigos.

A carta de Robert Dunblane tinha despertado nele, ainda que com relutância, um senso de responsabilidade em relação ao filho de Janet, e deixara bem claro o que se esperava que ele fizesse.

“Torquil McNarn não é apenas sobrinho de Vossa Alteza”, escrevia Robert, “mas também o herdeiro do título e de sua posição de chefe do Clã , até que nasça um filho seu.”

O Duque havia se esquecido de que a sucessão escocesa dava-se tanto através da linha feminina quanto da masculina.

Ficou imaginando como seria o filho de Janet e se o sobrinho não daria um chefe de Clã bem melhor do que ele próprio. Depois, com certo cinismo, pensou que, se o menino estivesse contando com isso, estaria muito enganado, pois ele pretendia casar-se, mais cedo ou mais tarde, embora no momento não tivesse intenção de fazê-lo.

Havia muitas mulheres encantadoras com as quais ocupava seu tempo e quando não andava às voltas com os desportos, para que não sentisse necessidade, de escolher uma única companheira permanente. Tinha a impressão de que se o fizesse, logo sentiria um tédio mortal.

O Duque achava divertido conquistar mulheres. Gostava muito, desde que elas fossem esquivas e difíceis, que ele tivesse de persegui-las e disputá-las, como se fossem animais de caça ou um troféu de competição.

Tão logo as conquistava, o mistério que as envolvia cessava e ele perdia o interesse e o desejo por elas.

Partia então na perseguição de outra presa, pois, segundo ele, não havia maior perda de tempo do que se manter um romance que houvesse perdido a força e o sabor picante.

Até o Rei, já o havia recriminado por sua insensibilidade e crueldade para com as mulheres, que deixava de coração partido.

–O que há com você, Taran?– perguntara Sua Majestade um dia–, o número de romances que você tem durante um ano, é maior do que o de cavalos que eu tenho em meu estábulo!

–É que eu também estou à procura de um vencedor– retrucara o Duque.

O Rei sorrira e acabara admitindo que ele também se deixava seduzir por um rostinho novo e bonito.

–Por outro lado, Taran– continuara ele–, você não pode se esquecer de que essas frágeis criaturas têm sentimentos e você deixa muitas delas chorando, desesperadas…

–Uma mulher só chora quando não consegue o que ela quer– contra-argumentara o Duque, com cinismo–, elas têm que aprender a aceitar o inevitável… eu sou inacessível!

O Rei sorrira de novo, mas quando, mais tarde, o Duque contara a história para seu amigo William, estava furioso.

–O que ele espera que eu faça? Que me case com toda mulher com quem faço amor?– perguntara ele, indignado.

–Não, é claro que não– respondera Lord Hinchley–, mas é que você é cruel demais com todas elas, Taran. Será que nenhuma toca seu coração?

–Eu não tenho coração– afirmara o Duque, categórico.

Lord Hinchley sorrira.

–Isso é desafiar o destino. Um dia você vai se apaixonar e aí. então, vai entender como é angustiante e terrível ver alguém que você adora olhando por sobre seu ombro, à procura de alguém melhor do que você!

O Duque apenas sorrira, com cinismo, e o amigo exclamara, exasperado :

–Que diabo, Taran, você é muito convencido! Você está achando que isso é impossível, porque se considera o melhor! Pois bem, continue assim, que um dia vai ter sua retribuição, sem dúvida!

–Mesmo que isso aconteça, o que é pouco provável, ainda assim vou achar que gastei bem o meu dinheiro!

O Duque divagava, pensando em todas essas coisas, quando a voz de Lord Hinchley interrompeu-o, trazendo-o de volta ao presente:

–O que vai acontecer quando chegarmos?

–Não tenho a menor ideia– respondeu o Duque–, eu enviei uma mensagem ao meu administrador de bens, dizendo o nome do navio em que viajamos e a data aproximada em que devemos atracar em Perth. Suponho que ele providenciará um meio de nos levar até o Castelo. Senão, vamos ter que andar!

Lord Hinchley expressou seu desagrado com um gemido.

–São só uns três quilômetros e meio! Mas as montanhas são muito íngremes, principalmente para quem não está acostumado.

–Sei que você está zombando de mim!– disse o Lord–, por outro lado, neste país inculto, a ficção pode acabar se transformando numa realidade bastante desagradável! Por Deus do céu, Taran, vamos ao menos esperar pelo melhor!

Foi uma surpresa agradável quando, depois de o navio ter atracado, Robert Dunblane subir a bordo.

Era um homem alto, bem-apessoado, de mais de cinquenta anos, e sem dúvida causava impressão em seu kilt, com o boné de lado na cabeça de cabelos grisalhos e a capa xadrez, presa ao ombro por um enorme broche de pedras.

O Duque estendeu a mão para eie.

–Eu o teria reconhecido em qualquer lugar, Dunblane!

–Infelizmente, não posso retribuir o cumprimento de Vossa Alteza– retrucou ele.

O sorriso dele, entretanto, exprimia agrado e aprovação ao ver o Duque .

Sem dúvida, seria difícil para Robert reconhecer nesse homem alto e bonito, que agora estava diante dele, o rapaz franzino de olhar tempestuoso e rebelde, que fazia força para reprimir as lágrimas, como quando o vira pela última vez.

A calça justa em baixo e bufante, o fraque, a brancura impecável da gravata bem ajeitada acentuavam o corpo atlético do Duque, de ombros largos e quadris estreitos.

Robert Dunblane percebeu também as características dos McNarn; o nariz reto, aristocrático, e a boca firme, autoritária, severa.

–Suponho– disse o Duque, depois da troca inicial de gentilezas– que você tenha um meio de conduzir Lord Hinchley e eu ao Castelo. Não é?

Robert Dunblane sorriu.

–Há cavalos à sua disposição, Alteza, ou, se prefere, uma carruagem, mas permita que eu lembre, caso tenha esquecido, que as estradas são muito empoeiradas nesta época do ano, e é bem mais rápido atravessar-se a charneca em linha reta.

–Pois então iremos a cavalo– disse o Duque–, está bem para você assim, William?

–Estou pronto para qualquer tipo de viagem– retrucou Lord Hinchley–, desde que não seja por mar!

–Fizeram uma viagem difícil, milord? – perguntou Robert Dunblane, solícito.

–Terrivelmente difícil!– respondeu Lord Hinchley–, se eu não tivesse conseguido afogar o sofrimento do modo tradicional, sem dúvida já estaria numa sepultura no fundo do mar!

O Duque riu.

–O Lord está exagerando!– disse ele–, o mar estava um tanto encapelado, é verdade, mas felizmente pegamos vento de popa, senão teria sido bem pior!

–Impossível!– exclamou Lord Hinchley, e eles todos riram.

Estava um dia ensolarado e uma ventania forte, capaz de arrancar indivíduos franzinos de suas montarias, quando partiram nos cavalos que Dunblane providenciara para eles.

Deixaram para trás a cidade de Perth e rumaram para o norte, passando pelo Palácio Real de Scone, onde tinha havido várias coroações.

O Duque ficou imaginando se Lord Hinchley estaria interessado em saber que o Parlamento e o Conselho Geral reuniam-se em Scone, no período entre a ascensão de Alexander I, que nasceu em 1106, e a morte de Robert III, em 1406.

Mas logo disse para si, com um sorriso cansado, que os ingleses não se impressionavam com a história escocesa e aliás, faziam o possível para destruir tudo o que desse prestígio ou importância àquela que, para todos os efeitos, era uma colônia conquistada.

Percebeu então, surpreso, que estava pensando como um escocês e, talvez pela primeira vez em muitos anos, sentiu-se melindrado com o costume inglês de desmerecer os escoceses e de considerá-los selvagens e incultos.

Acreditava que, em grande parte, a hostilidade, a indiferença e até a crueldade deles eram ditadas pelo medo.

Havia alguma razão para isso, pois, há apenas trinta anos, as tropas inflamadas por propaganda sediciosa, em Register House, Edimburgo, haviam gritado:

–Abaixo o Rei!

Lembrou-se também de que, por todo o campo, à medida que chegavam as notícias das vitórias dos franceses, comandados por Napoleão, os escoceses iam plantando pinheiros como símbolos de liberdade.

Mas agora tudo isso estava terminado. George IV estava para visitar a Escócia e dizia-se que era um gesto de amizade.

–Não sei se Sua Alteza lhe falou– disse Lord Hinchley a Robert Dunblane, enquanto cavalgavam–, mas devo partir para Edimburgo dentro de um dia ou dois, para os preparativos da visita de Sua Majestade.

–Imagino que milord vá preferir ir pela estrada– comentou Robert.

–Com toda a certeza!– respondeu Lord Hinchley–, por muito tempo não vou conseguir olhar o mar sem estremecer.

–Espero que uma das carruagens de Sua Alteza seja mais confortável– disse Dunblane, cortesmente.

O Duque, entretanto, estava pensando que, se seu amigo tivesse bom senso, iria a cavalo.

Era muito agradável cavalgar montanha acima, avistando-se a cidade e seu largo rio prateado, contemplando-se a charneca, com seus urzais azul-violáceos e, lá ao longe, os grandes picos das montanhas Grampian.

Recortadas contra o céu, ainda com vestígios de neve, elas eram muito bonitas.

Um bando de perdizes alçou voo, à passagem do Duque, dirigindo-se para um lugar mais seguro no vale.

Os três continuaram subindo por algum tempo ainda, até que finalmente, no topo da charneca, Dunblane fez parar seu cavalo para que os visitantes apreciassem a magnífica vista.

O estuário descrevia um desenho azul brilhante à luz do sol, as Torres e tetos de Perth espalhavam-se às margens do rio e as urzes silvestres davam uma sensação de liberdade.

Ao contemplá-las, o Duque sentiu-se como se tivesse fugido de um cativeiro e essa era uma sensação para a qual não achava explicação.

Começou a lembrar-se da expressão dos rostos dos criados que estavam à espera deles, quando desembarcaram do navio.

Dunblane apresentara a Taran o homem encarregado de cuidar deles, um escocês enorme e rude, cujos olhos fitaram o Duque com inegável devoção.

«Depois de todos estes anos, será que ainda represento algo para essa gente que usa o mesmo nome que eu?» perguntou-se o Duque.

Gostaria de ter perguntado a Dunblane, mas concluiu que ficaria embaraçado, porque Lord Hinchley sem dúvida riria de sua curiosidade.

Lembrou-se do quanto havia reclamado de fazer aquela viagem e de quantas vezes repetira que detestava a Escócia,

–Se você a detesta tanto assim, por que vai voltar?

–Por questões de família– retrucara o Duque sucintamente.

Sabendo que seria invadir a privacidade dele, Lord Hinchley não perguntara mais nada ao amigo.

Contudo não pudera deixar de pensar que Taran era uma criatura estranhamente imprevisível.

Tinha grande afeição por ele e era impossível não admirá-lo como desportista, mas ao mesmo tempo, sentia no escocês certa reserva que não encontrara em nenhum outro homem que conhecia.

Ele achava que, como eram amigos íntimos, não haveria nada sobre o que não pudessem conversar; nada seria assunto tabu.

Mas logo descobriu que o Duque não gostava de falar sobre qualquer coisa referente aos McNarn.

Dunblane, afastara-se deles e agora, cavalgando no topo da montanha, podiam locomover-se bem mas rápido.

Tanto o Duque quanto Lord Hinchley estavam acostumados a passar longas horas sobre uma sela. Iam às corridas de Newmarket sem achar fatigante e já haviam disputado páreos entre si, tentando quebrar o recorde do Rei, varias vezes em Brighton.

Entretanto, Lord Hinchley sentiu alívio quando, duas horas mais tarde. Dunblane disse:

–Agora estamos a pouca distância, dentro de cinco minutos avistaremos o Castelo .

O Duque conhecia-o bem desde a infância, contudo, quando, depois de contornarem um penhasco, viu o Castelo adiante, foi impossível não achá-lo maior, mais impressionante e imponente do que ele se lembrava.

Uma enorme construção em pedras cinzentas, com Torres, janelas e portas alongadas, no estilo do século XVII, o Castelo Narn, era um dos mais importantes e certamente o mais suntuoso das Highlands.

Lord Hinchley ficou boquiaberto, fitando-o com indisfarçada admiração.

–Meu Deus do céu, Taran!– disse ele–, você nunca me disse que possuía algo tão maravilhoso quanto o Castelo Windsor!

–Alegra-me que tenha gostado– disse o Duque secamente.

Entretanto, não pôde evitar uma sensação de orgulho.

Ele tinha chegado a odiar o Castelo , que fora uma sombra em sua infância, tão ameaçador e opressivo, que quando fugira dele, no meio da noite, pensara que nunca fosse voltar.

Contudo, ao vê-lo assim, com o sol batendo nas janelas, a bandeira tremulando ao vento na Torre mais alta, a posição de domínio sobre as terras que o circundavam, o Duque sentiu que o Castelo realmente era digno do chefe dos McNarn.

Olhou para trás, para ver se os criados da estrebaria que os acompanhavam ainda estavam à vista.

A bagagem estava seguindo pela estrada e eles tinham sido escoltados por seis homens a cavalo, que agora estavam se aproximando bastante deles, não mais mantendo a distância que haviam respeitado durante o percurso todo.

O Duque virou-se para a frente de novo e Robert Dunblane disse calmamente:

–Eles estarão esperando do lado de fora do Castelo, para cumprimentar Sua Alteza.

–Eles?– perguntou o Duque–. Quem?

–Os homens do Clã. Somente, é claro, aqueles que moram nas vizinhanças do Castelo. Os outros virão das montanhas amanhã ou depois.

O Duque ficou em silêncio por instantes e depois perguntou:

–Para quê?

Foi uma pergunta sem rodeios, na qual ele mesmo sentia haver um certo toque de apreensão.

Dunblane franziu as sobrancelhas e olhou para ele imediatamente.

–Há uma cerimônia tradicional para dar as boas-vindas a um novo chefe de Clã e eles estão esperando ansiosos por sua volta.

O Duque não respondeu.

Era impossível dizer a Dunblane que, ate receber a segunda carta, ele não tinha tido a menor intenção de voltar.

Lembrava-se vagamente do pai, presidindo reuniões do Clã, das quais Taran não participava, e conduzindo festas de Natal, das quais participava.

Agora estava percebendo quão importante um chefe era para seu povo e, embora tivesse tentado se convencer, ainda em Londres, de que essas coisas estavam fora de moda, sabia agora que se enganara.

Desejou ter dito claramente em sua carta a Dunblane, quando anunciara sua chegada, que ele não queria alarde, nada de cumprimentos especiais, nada de membros do Clã prestando homenagens.

Depois, achou que, mesmo que tivesse feito isso, ninguém faria caso de seu pedido.

Um chefe era o pai de seu Clã e, se antigamente detivera o poder de vida ou morte sobre seu povo, era também responsável por seu bem-estar.

Como era mesmo aquilo que tinha lido num livro, quando estava em Oxford? Era um texto que visava explicar a posição dos chefes de Clã , e dizia:

“Como senhorio, patriarca, símbolo, juiz e general, seu poder era total e absoluto, mas de vez em quando discutia questões de grande importância com os membros de sua família e os membros líderes de seu Clã ”.

«Uma coisa é certa», pensou o Duque, «eu não tenho parentes próximos com quem discutir, nem planos imediatos. Meu pai morreu, graças a Deus e, infelizmente, minha irmã Janet também».

Só restava Torquil, e fora justamente aquele jovem desmiolado, seu herdeiro presuntivo, quem o havia trazido de volta à Escócia, arrancando-o do conforto e divertimentos de Londres.

Devia haver, ainda, outros parentes dos quais não se lembrava. Em tom deliberadamente casual, o Duque perguntou a Dunblane:

–Há alguém morando no Castelo ?

–Só Jamie, Alteza.

O Duque ficou confuso.

–Jamie?

–O filho mais novo de Lady Janet.

–Ah, é claro!

O Duque havia-se esquecido do nome do sobrinho e só se lembrou dele quando Dunblane falou.

Tinha sido justamente por ocasião do nascimento desse segundo filho que Janet morrera de parto.

–Ele é mesmo muito engraçado– disse Dunblane–, corajoso e ousado, um verdadeiro McNarn em todos os sentidos!

–Ousadia não é um atributo que eu deseje encontrar em meu sobrinho precisamente agora!

Disse o Duque, com certa rispidez. Dunblane sentiu-se repreendido e ficou um tanto nervoso, mas não disse nada.

Depois, tão repentinamente que Lord Hinchley e o Duque se sobressaltaram, surgiram homens de entre as urzes e precipitaram-se para eles, cercando-os.

Estavam todos de braços erguidos, em saudação, e bradavam em conjunto o que o Duque reconheceu ser o grito de guerra, o lema dos McNarn.

Era uma exaltação entusiástica e selvagem, que tanto fazia lembrar um passado heroico quanto incitava a matar o inimigo.

O Duque lembrou-se de que aquilo fazia parte da identidade do Clã , tal como a insígnia de urze ou murta que os homens usavam no boné.

O lema foi gritado várias vezes; em seguida, o som doce das gaitas de fole fez-se ouvir e os homens desmontaram, marchando ao lado de seus cavalos, em direção ao Castelo .

E, antes mesmo que se desse conta, o Duque viu-se cavalgando sozinho à frente deles, enquanto Dunblane e Lord Hinchley seguiam um pouco atrás, junto com a escolta de seis homens.

Um instante depois, o som das gaitas foi abafado por centenas de vozes, aclamando, e o Duque viu os homens de seu Clã esperando por ele, formando um corredor até a entrada do Castelo.

Eram estranhos, rudes e pobres, contudo havia orgulho em suas posturas, e os ombros largos e os braços fortes mostravam que eles eram homens para se respeitar.

As aclamações eram fortes e não havia possibilidade de falar com alguém individualmente, ou responder às saudações, a não ser com um aceno de mão e uma inclinação de cabeça.

Então, quando chegou à porta do Castelo o barulho, o vozerio e a música das gaitas cessaram de repente.

Os homens do Clã ficaram observando-o em silêncio, e o Duque pôde ver as esposas e os filhos deles, mais distantes, sem participarem, espiando por trás dos arbustos.

Taran tinha tido intenção de entrar direto no Castelo, mas algo mais forte do que sua vontade, um instinto de fazer o que era certo e que ele não podia ignorar, fez com que parasse e virasse de frente para os homens que haviam lhe dado as boas-vindas.

–Obrigado– disse ele, numa voz que empolgava–, obrigado e que a boa fortuna esteja convosco!

Foi um cumprimento que lhe veio à mente, surgindo de seu passado, mas o mais estranho foi que ele proferiu a frase em gaélico, a língua que não falava há doze anos!

Um grande viva ergueu-se da multidão, espontâneo e sincero. O Duque levantou de novo o braço em saudação, depois virou-se e entrou no Castelo.

–Agora, diga-me o que meu sobrinho fez– disse o Duque.

Eles haviam terminado de jantar e Lord Hinchley passara para outro aposento, enquanto o Duque levava Dunblane para a biblioteca, onde seu pai sempre tinha ficado.

Quando entrou, chegou a ter impressão de que ia ver a sombra escura do homem que tanto detestara, sentado à escrivaninha, perto da janela que dava para o vale.

O Duque sempre pensara no pai como uma estátua grotesca, olhando sinistra e ameaçadoramente para as terras que possuía.

Para seu espanto, a sala estava bem diferente da caverna escura e triste de que ele se lembrava.

A biblioteca, magnificamente mobiliada, tinha sido projetada por William Adam com simetria e beleza indescritíveis.

O Duque olhou em redor e achou impossível que a sala fosse daquele mesmo jeito, quando era pequeno, sem que ele tivesse notado sua perfeição.

Agora as capas de couro coloridas dos livros pareciam emanar uma influência benéfica, afastando a sombra do pai.

Automaticamente, sem que fosse uma ação consciente, o Duque sentou-se na cadeira que o pai sempre ocupara e convidou Dunblane a sentar-se em frente.

–Entendi, pela sua carta, que a situação é desesperadora, mas mal posso acreditar que seja verdade– prosseguiu o Duque.

–É sem dúvida bastante grave, Alteza.

–Em que sentido?

–Torquil é prisioneiro dos Kilcraig.

–Prisioneiro? Mas eles não pretendem encarcerá-lo numa Torre ou numa masmorra indefinidamente– disse o Duque, sem se exaltar.

–Imagino que as acomodações dele, sejam lá quais forem, não devem ser nada confortáveis– retrucou Dunblane–, mas a alternativa é mandá-lo a Edimburgo, para ser julgado.

–Ser julgado?– o Duque realmente ficou assustado–, mas sob que acusação?

–Acusação de roubo de gado, Alteza!

–Meu Deus!

O Duque estava perplexo.

–Estive falando com o Kilcraig e ele me informou que esperava a chegada de Sua Alteza para discutir o assunto, mas diz que não tem a menor dúvida de que Torquil e os companheiros dele, se forem levados a julgamento, serão severamente punidos e na verdade, acha até provável que sejam desterrados!

O Duque, aturdido, ficou em silêncio.

Sabia muito bem que as autoridades viam com muita severidade aquele crime e a pena para quem o cometia era bastante pesada.

A expansão do comércio de carne bovina na Inglaterra e Lowlands incrementara o roubo de gado e o que era conhecido como “taxa de câmbio negro”, cujo pagamento era um velho costume na fronteira e nas Highlands.

Além do imposto legal sobre a propriedade, pagava-se esse tributo em câmbio negro, que dava direito à proteção e era uma garantia de que os homens do Clã transportariam o gado sem risco de roubo e de que suas propriedades não seriam incendiadas.

Os infratores não eram mais enforcados como antigamente, mas a justiça não vacilava em deportá-los para as colônias ou mandá-los para a prisão por muito tempo.

–Mas, por que diabo você foi deixar o rapaz fazer uma loucura dessas?– perguntou o Duque, bravo.

Dunblane suspirou.

–Eu conversei muito com seu pai sobre a situação de Torquil, Alteza. Disse a ele várias vezes que o rapaz não tinha muito o que fazer, e era inevitável que se metesse em encrencas.

Dunblane continuou falando, em tom de quem advoga:

–Eu sinceramente errei, o que foi apenas uma travessura de rapaz. Os Kilcraig sempre foram nossos inimigos declarados e Torquil achava divertido entrar furtivamente nas terras deles, à noite, para roubar um bezerro, ou, se possível, um animal de primeira qualidade, e trazê-lo para casa, exibindo-o em triunfo.

O Duque podia entender bem o que Dunblane estava dizendo. Realmente, significaria um triunfo, pois os McNarn odiavam os Kilcraig, há muito tempo, e os Kilcraig odiavam os McNarn.

Guerreavam entre si há várias gerações e o fato de os Kilcraig, terem gado de boa qualidade era realmente uma tentação.

Entretanto, o Duque apenas perguntou sucintamente:

–Como ele foi capturado?

–Não foi a primeira vez que ele fez essa travessura– disse Dunblane–, mas, infelizmente, eu só fiquei sabendo, quando Kilcraig informou-me de que Torquil, e três rapazes que estavam com ele tinham sido presos.

–Os boiadeiros devem ter ficado à espreita, não é?

Dunblane assentiu, balançando a cabeça.

–E imagino– continuou o Duque–, que eles tenham feito a tolice de ir pelo mesmo caminho e ao mesmo lugar das outras vezes.

–Era o caminho mais curto– retrucou Dunblane, apenas.

–Não posso imaginar coisa mais irresponsável, nem mais irritante!– exclamou o Duque–. Acha que Kilcraig vai aceitar alguma justificativa, se eu falar com ele?

–Ele disse que só negociaria com Sua Alteza.

O Duque suspirou.

–Então, acho que não tenho alternativa senão falar com ele…, mas eu lhe digo, Dunblane, que estou tremendamente irritado com isso tudo.

–Era o que eu imaginava, Alteza. Por outro lado, acho que teria sido mais sensato mandar Torquil para a escola e depois para a Universidade.

–Mas meu pai não queria saber de sensatez– disse o Duque, com cinismo–, que idade tem Torquil agora?

–Ele vai fazer dezassete no próximo aniversário. A mesma idade que tinha Sua Alteza quando fugiu de casa.

O Duque entendeu que a frase era para fazê-lo lembrar-se de que já sentira as mesmas coisas que o rapaz, rebeldia, raiva e determinação de tomar uma atitude.

–Ele recebeu alguma instrução?

–Recebeu, Alteza. Seu pai contratou excelentes tutores para ele, mas infelizmente, Torquil achava todos enfadonhos.

–Não me admiro nem um pouco– disse o Duque–, sei muito bem o tipo de tutores que meu pai deve ter contratado.

–O que ele precisa, Alteza, é distrair-se e praticar desporto com rapazes da mesma idade e da mesma classe que ele.

–E esses que foram capturados com ele?

–São filhos de colonos, rapazes decentes. Alteza, mas, é claro, sem instrução.

–Isso tudo é um absurdo! Ridículo! Como foram deixar acontecer uma coisa dessas!– esbravejou o Duque, mas, antes mesmo de ter acabado de falar, percebeu que estava sendo injusto.

Sabia que Dunblane tinha feito o máximo por Torquil, como tinha feito por ele, mas, diante da obstinação do pai, qualquer sugestão ou conselho já era de antemão inútil.

–Bem, o que vamos fazer, então? – perguntou ele, mais calmo.

–Tentei marcar um encontro entre Kilcraig e Sua Alteza, para amanhã, mas ele diz que não vem aqui de jeito algum.

–Quer dizer que eu é que tenho de procurá-lo?

–Pode parecer uma perda de prestígio, Alteza, mas é que ele tem o trunfo nas mãos.

–Torquil?– murmurou o Duque .

–Exatamente!

–Pois bem, eu irei, mas previno-o, Dunblane, se Kilcraig começar a dificultar muito, Torquil que vá para o inferno!

O Duque falou com violência, mas sabia que era inútil ficar brigando com argumentos imaginários. Era preciso enfrentar a situação com dados reais. A luta estava apenas começando.

Seria impossível permitir que seu sobrinho e herdeiro, fosse a julgamento em Edimburgo, como um cidadão comum.

Sabia que não seria Torquil o humilhado e punido, mas o Clã inteiro. Todos usavam o mesmo sobrenome, e acreditavam-se parte de um todo.

Tinha certeza de que cada homem do Clã lutaria em suas terras até a morte, por sua própria família e pela honra, assim como lutaria em qualquer batalha a que o chefe do Clã os conduzisse.

–Quanto antes resolvermos isso, melhor!– disse o Duque, com rispidez–, mande avisar Kilcraig que eu irei falar com ele amanhã à tarde. Você irá comigo, não é?

–Se vai às terras de Kilcraig, Alteza, deve ir tal como requer sua posição. Não fazer isso pode ser considerado um sinal de fraqueza.

O Duque olhou o administrador de bens, admirado.

–O que quer dizer com isso?

–Sua Alteza irá com a escolta, o bardo, o gaiteiro, e o séquito todo, como faziam todos os antepassados.

–Meu Deus do céu! Nos tempos de hoje, isso ainda é necessário?– perguntou o Duque.

–Como eu já disse, se fizer algo diferente disso será considerado sinal de fraqueza, e no momento, como bem sabe, Sua Alteza não está com as melhores cartas na mão.

O Duque cerrou o punho e bateu com força no braço da cadeira.

–Isto é intolerável! E o que é pior, Dunblane, é que eu me sinto como se tivesse voltado ao passado. Na Inglaterra, os nobres não aprisionam os filhos de um inimigo, o duelo já está quase fora de moda e as discussões são mantidas cavalheirescamente, enquanto se toma um cálice de vinho do Porto!

–Infelizmente, Alteza… Kilcraig, é bem parecido com seu pai e prefere usar a espada a um argumento sensato.

–Muito bem– disse o Duque com rispidez–, seja como você quiser! Deixo tudo em suas mãos, Dunblane. Só espero que possamos manter alguma dignidade, nessa situação ridícula!

Caminhou até a porta e virou-se para dizer:

–Você quer que eu coloque a fantasia?

–Se está querendo saber se deve usar o tartã, eu digo que Sua Alteza deve encontrar-se com Kilcraig, como um chefe de Clã, o chefe dos McNarn.

O Duque não respondeu nada e saiu da biblioteca, batendo a porta.

CAPÍTULO II

O Duque estava com um mau humor terrível.

Na verdade, acordara endiabrado, como costumava dizer sua ama escocesa.

Seu criado havia preparado, evidentemente seguindo instruções de Dunblane, o traje típico dos Highland, que ele havia trazido de Londres.

O Duque não havia sentido o menor interesse pela roupa, apenas tinha dado ordens ao seu alfaiate para que fizesse o que era necessário. Só mais tarde percebeu que o alfaiate fora muito consciencioso e tivera o trabalho de procurar saber com exatidão como era o traje completo de um chefe de Clã .

Ao sair do banho, viu sobre a cadeira, o tartã de montaria que deveria usar, com paletó, colete e a capa xadrez para prender no ombro esquerdo, com um broche de prata.

Já havia visto várias vezes o pai usando o mesmo traje tradicional.

De repente, olhando para aquilo tudo, revoltou-se.

–Tire isso daqui!– esbravejou ele–, eu usarei as roupas do fidalgo que sou, e que pretendo continuar sendo!

Quando desceu para tomar o café, os criados que o serviam, todos de kilt, a tradicional saia escocesa, pareciam fitá-lo com olhares interrogativos. Sentiu-se mais determinado ainda, a não ceder à insensatez ridícula de costumes antigos que já estavam mortos e enterrados.

Intencionalmente, querendo evitar qualquer menção às dificuldades que estava por enfrentar, ele disse em tom de conversa a Lord Hinchley:

–O que pretende fazer hoje de seu dia, William?

–Algo que vai deixá-lo com muita inveja– retrucou Lord Hinchley–, eu vou pescar.

O Duque não respondeu nada e ele continuou:

–Dunblane disse-me que há muito salmão nas suas águas. Amanhã, se você tiver tempo, Taran, gostaria que fôssemos caçar perdizes.

O fato de seu amigo estar programando fazer as coisas que ele gostaria de estar fazendo só piorou o mau humor do Duque.

Ficou em silêncio até o fim da refeição, que ele achou extremamente apetitosa, apesar de estar predisposto a encontrar defeitos. Quando estava terminando de saborear a excelente truta, seu sobrinho Jamie entrou na sala.

Na véspera, o Duque só havia visto de relance o menino, e agora, aproveitava para analisá-lo melhor. Notou que ele era ruivo e tinha olhos azuis.

Estranhou, até que se lembrou de que isso era uma característica dos Campbell, e a avó de Jamie pelo lado paterno tinha pertencido a esse Clã.

Jamie, tal como fora ensinado a fazer, curvou-se cortesmente, primeiro diante dele, depois diante de Lord Hinchley.

–Bom dia, Jamie!– disse o Duque negligentemente.

–Não é um bom dia!– retrucou Jamie, com veemência–, Jeannie disse que eu deveria ir com o senhor, hoje, lutar com os Kilcraig, mas Dunblane não me quer deixar ir!

–Eu não vou lutar contra os Kilcraig– retrucou o Duque–, por isso, seja lá quem for essa Jeannie, ela está mal informada.

–Eles são nossos inimigos e nós os odiamos!– insistiu Jamie.

–O senhor deve brigar com eles, como chefe dos McNarn e eu devo ir junto!

O Duque suspirou, impaciente.

Até naquela criança já estavam inoculados os costumes bárbaros. Ele já sabia que, se o chefe do Clã fosse guerrear, os parentes homens deveriam acompanhá-lo.

–Quero que isso fique bem claro– disse o Duque, com firmeza–, não estou indo lutar contra os Kilcraig, nem tenho a menor intenção. Essas inimizades e lutas entre feudos são coisas ultrapassadas. Eles são nossos vizinhos e precisamos aprender a viver em paz com eles.

–Em paz com os Kilcraig?– Jamie espantou-se–, e com os MacAuad também?

–Com ambos!– disse o Duque, com firmeza, e voltou a se concentrar na refeição.

Sabia, entretanto, que seu sobrinho o estava olhando cheio de surpresa e com uma expressão que se aproximava perigosamente do desprezo.

Isso é uma insolência que precisa ser corrigida com severidade, pensou o Duque, mas não esta manhã, em que tenho tantas dificuldades nas mãos.

Contudo, Jamie desencadeou uma série de pensamentos, que voltaram à mente do Duque quando cavalgava colina acima.

Tal como Dunblane havia dito, atrás do Duque, ia um séquito de homens do Clã a cavalo. Ele sabia que antigamente teriam ido a pé, com o gaiteiro à frente, tocando uma toada de guerra para instigar os homens e acelerar a marcha. Imaginou ainda que o grupo, em relação ao passado, devia estar reduzido ao número de cavalos disponíveis para montar.

Achava, entretanto, que o número de homens era mais do que suficiente, e pela expressão dos rostos deles, sabia que estavam todos prontos para lutar contra o inimigo tradicional, tal como Jamie declarara, um pouco mais cedo.

O Duque, porém, não tinha qualquer outra intenção, a não ser resgatar Torquil, aliás, esperava infundir um espírito novo entre os Clãs, para evitar que coisas como essa, acontecessem futuramente.

Com os MacAuad era diferente.

As terras dos McNarn estendiam-se a leste por vários alqueires e faziam fronteira com as de outros Clãs menos importantes, menores, ou com os quais havia alguma ligação através de casamentos.

Mas, há vários séculos os MacAuad, um Clã feroz, selvagem e inculto, detestado e temido por todos os outros Clãs, eram inimigos dos McNarn.

Dividiam a fronteira oeste das terras com os Kilcraig e se estes, de certo modo, eram inimigos respeitáveis, o mesmo não se podia dizer dos MacAuad, cujos feitos despertavam apenas ódio.

–Encontrar uma cobra e um MacAuad, é a mesma coisa– diziam alguns. Outros eram bem mais enérgicos–, se alguém pudesse ir ao inferno, veria que o diabo é um MacAuad!

Desde que era criança que o Duque não ouvira mais falar nos MacAuad e ficou imaginando se eles ainda eram ferozes.

Pensou que, se houvesse roubo de gado naquela região, seria coisa dos MacAuad e não uma travessura de jovens, e teria o único propósito de enriquecer à custa de outro Clã.

Estava um dia límpido, com uma brisa leve trazendo o perfume das flores silvestres, e a púrpura das urzes, estava mais vivido do que nunca.

Tudo indicava que Lord Hinchley faria uma boa pescaria.

Era pena que não pudesse acompanhar o amigo e, em vez disto, fosse forçado a empregar seu tempo e energia visitando um homem que ele nunca tinha visto e, pior ainda, na incômoda situação de suplicante.

O Duque procurou convencer-se de que Kilcraig certamente ouviria a razão.

Estava supondo que, se pagasse o preço do gado que Torquil roubara, talvez ate dando uma quantia bem mais generosa, a questão toda morreria ali mesmo.

–Ah, por que Dunblane não resolveu esse problema para mim!– murmurou o Duque, entre dentes.

Mas imediatamente lembrou-se de que era impossível, porque quaisquer negociações sobre problemas referentes ao Clã só podiam ser feitas entre chefes e Dunblane não tinha autoridade para isso.

O Duque voltou a pensar em sua situação como chefe de Clã.

Era impossível não notar a solicitude, que chegava quase à veneração, com que ele fora ajudado a montar e o modo como os homens de seu Clã o haviam aclamado.

As mulheres que esperavam por ele às portas do Castelo haviam-no saudado com reverências, enquanto os homens tiravam os bonés e acenavam com eles à aproximação do Duque.

Lembrou-se de que, quando era criança, com a idade de Jamie mais ou menos, perguntara certa vez ao pai:

–Por que eles amam o senhor, papai?

A resposta do pai fora simples:

–Porque sou o chefe deles.

–O que significa ser chefe?– insistira ele.

E o pai, falando solenemente, respondera:

–O povo das Highland considera uma virtude suprema amar seus chefes e prestar a eles obediência cega, mesmo que com isso se oponham ao Governo e à lei do Reino, ou até mesmo à lei de Deus. O chefe é o ídolo deles e o único Rei que reconhecem.

O Duque repetiu em pensamento essas palavras e ficou imaginando se em algum outro lugar do mundo era possível encontrar-se aquela subserviência incontestada para com o chefe, não apenas por ele em si, mas por tudo o que representava na imaginação de seus seguidores.

Sabia muito bem que seu pai não merecia tal devoção e mesmo assim ele a recebera, só porque estava investido da autoridade que lhe fora legada, passando por várias gerações através dos séculos.

De certa forma, era algo embaraçoso, como ter a alma e o coração desvendados.

«Quanto antes voltar à minha sanidade mental, melhor!», disse o Duque para si mesmo, com ênfase.

Antes de sair de Londres ele já havia decidido que voltaria com o Rei no Royal George.

Sabia que Sua Majestade teria prazer em levá-lo e tinha certeza de que a viagem seria divertida. Teriam, assim, oportunidade para rirem juntos dos incidentes que invariavelmente, ocorrem nessas ocasiões.

O Duque sabia que o Rei estava levando muito a sério aquela visita.

Desde que decidira ir à Escócia, ele falava sobre a viagem com um entusiasmo que surpreendia os homens da comitiva, que tinham certeza de que ele se dececionaria com o que ia encontrar na região norte de seu Reino.

Mas quando George IV decidia fazer alguma coisa, não havia quem o fizesse mudar de ideia e, assim, os preparativos estavam em andamento.

O Duque imaginou que, a essa hora, Edimburgo devia estar fervendo de euforia e expectativa, e ele não tinha a menor vontade de estar lá.

Já estavam cavalgando há mais de duas horas e ele estava com calor e sede, quando avistaram o Castelo Kilcraig.

O Duque nunca o tinha visto antes e notou que era uma construção bem diferente da do seu.

Situado na encosta da colina, desfrutava de uma posição bastante privilegiada, que tornava impossível a aproximação de alguém pelo vale sem ser visto, e havia algo de misterioso e sinistro em suas paredes altas, com poucas janelas.

O Duque lembrou-se vagamente de ter ouvido na infância que no Castelo dos Kilcraig havia fantasmas e espíritos maus, além de ancestrais, que tinham sido monstros cruéis, um deles chegando a roubar crianças para sacrificá-las em suas bruxarias.

O Duque nunca acreditara nessas histórias, mesmo quando era criança, contudo, agora, olhando para o Castelo à distância, podia entender como elas haviam surgido.

Realmente, havia algo nele que ativava a imaginação, desencadeava a fantasia e as superstições de um povo primitivo, que fora educado acreditando nessas coisas.

Desde pequeno, o Duque, entretanto, ria e zombava da mitologia celta, cheia de gigantes, bruxas, espadachins, monstros d’água, premonições, pedras falantes e árvores que cantam.

No sul, onde as pessoas que ele conhecia só se preocupavam em divertir-se, até mesmo da religião, se falava com um ligeiro toque de zombaria.

O Rei era obrigado a assistir aos serviços religiosos no domingo, mas o Duque e outros passavam o domingo como qualquer outro dia, praticando desporto e apostando em jogos.

Estavam a mais ou menos um quilômetro do Castelo quando Dunblane aproximou seu animal do cavalo do Duque .

–Daqui em diante– disse ele, em voz baixa–, nós todos deixaremos nossas montarias, exceto Vossa Alteza.

–Por quê?– perguntou o Duque.

–Kilcraig, tal como o seu pai, segue à risca os hábitos tradicionais.

O Duque teve vontade de mandar Kilcraig para o inferno, mas lembrou-se de que o propósito de sua visita era conciliatório e irritar o homem antes mesmo de ter chegado seria uma tolice.

–Arranje as coisas como você quiser, Dunblane– disse ele sumariamente, e fez avançar o cavalo.

Assim, os cavalos foram deixados a cargo dos cavalariços e atrás do Duque formou-se um cortejo.

Em primeiro lugar, ia Dunblane como sua escolta imediata e ao lado dele deveria estar seu parente mais próximo, se Torquil não estivesse preso e Jamie não fosse criança.

Em seguida, ia o bardo, um homem idoso, de quem o Duque se lembrava desde os tempos de seu pai.

A função de bardo era hereditária e era uma garantia da transmissão das terras. Não havia história escrita nas Highlands e a reputação de um homem, ou até sua memória, subia ou descia segundo as trovas do bardo.

Sem querer, o Duque imaginou o que diriam dele depois que tivesse morrido e achou improvável que seu comportamento pudesse inspirar algum poema épico.

Atrás do bardo, ia o gaiteiro, que agora estava tocando a toada de marcha dos McNarn, a toada que os conduzia para as batalhas e acompanhava os mortos ao cemitério dos ancestrais.

Atrás do gaiteiro, devia estar o orador, o porta-voz do chefe, um homem com uma bela voz sonora e firme, que soubesse discutir e argumentar em qualquer disputa, mas nessa ocasião ele não era necessário, pois o Duque pretendia falar por ele mesmo e não admitiria que intercedessem em seu favor.

Em seguida, deveria estar o homem que carregava sua espada e o escudo, e depois vários outros, que no passado eram os lutadores de espada, de machado, os arqueiros ou mosqueteiros.

Era costume obrigatório que o Clã visitado desse cama e comida para todos esses homens, às vezes selvagens, sem protestar.

Exceto no caso de um Clã como o dos MacAuad, uma vez aceitando a hospitalidade do Clã, não haveria lutas enquanto durasse a visita.

Quando se aproximaram mais do Castelo Kilcraig, o Duque viu os homens do Clã esperando por ele.

Admirou-se ao constatar que muitos deles vestiam os tartãs, pois na Inglaterra ele ouvira falar que, depois da proibição de usar esse traje ter sido suspensa, em 1799, vários escoceses haviam desistido de reintroduzir o hábito de usá-los.

Preferiram continuar com as roupas escuras e anônimas que tinham adotado durante os anos de perseguição.

O Duque percebeu então, que havia cometido um erro, em não dar ouvidos a Dunblane e não se ter vestido como um chefe de Clã.

Em seguida, pensou com raiva que não se importava nem um pouco com o que Kilcraig ou qualquer outro pensasse dele.

Que o aceitassem como ele era, ou que fossem todos para o inferno!

Ele foi recebido com cortesia, mas em silêncio, e quando desmontou, na porta do Castelo , foi conduzido através de uma escada estreita de pedra, por um homem impecavelmente vestido, com kilt, botões e esporas de prata.

O Duque sabia que estava sendo levado à sala de audiências, e lembrou-se de que a dos McNarn, fora redecorada por William Adam, e era uma das mais magníficas e belas do Castelo todo.

Assim que entrou na sala de Kilcraig, percebeu, num relance, que ali pouca coisa havia mudado, desde a época em que os arqueiros ficavam de guarda nas Torres do Castelo, para matar os inimigos que se aproximassem.

Havia tapetes de pele cobrindo o chão e a mobília era pesada, de carvalho não polido, e parecia contar histórias antigas.

As janelas eram estreitas, vedando a luz do dia, e as enormes espadas penduradas nas paredes, ao lado de bandeiras e escudos capturados em batalhas, davam ao aposento, um ar sinistro.

Seria fácil acreditar-se nas lendas horripilantes e assustadoras sobre o Castelo, que haviam surgido e se propagado através dos séculos.

No fundo da sala, em pé diante de uma cadeira de espaldar alto que mais parecia um trono, estava Kilcraig.

O Duque notou que ele estava ladeado pelos dois parentes homens mais próximos, ambos usando o tartã dos Kilcraig.

Novamente ele sentiu não poder rivalizar com aquele esplendor deles, e admitiu que havia cometido um erro.

Para ocultar um ressentimento e mostrar que não estava impressionado, nem muito menos intimidado, com aquela ostentação toda, ele atravessou a sala com passos lânguidos, olhando tudo com ar de desdém.

Apenas Robert Dunblane ia atrás dele, os outros homens que o haviam acompanhado, tinham ficado do lado de fora do Castelo .

O Duque aproximou-se de Kilcraig e percebeu, contrariado, que seu anfitrião estava sobre um estrado que o fazia parecer mais alto do que ele.

Entretanto, estava determinado a tomar a iniciativa, e antes que Kilcraig pudesse dizer qualquer coisa, ele estendeu a mão.

–Nunca tivemos oportunidade de nos encontrar, Kilcraig– disse o Duque–, será que posso dizer que estou encantado em conhecê-lo?

Foi com certa relutância que Kilcraig apertou a mão estendida para ele.

Era um homem de setenta anos ou mais, com barba e cabelos brancos. Tinha a postura de um soldado em prontidão, com os ombros erguidos, e emanava orgulho por todos os poros.

–É, nunca nos vimos antes, milord– disse ele, falando com forte sotaque escocês–, mas seja bem-vindo ao meu Castelo .

Ele largou a mão do Duque e apresentou-o aos seus filhos, seus sobrinhos e depois aos netos.

O Duque sentiu que nenhum deles tinha vontade de apertar sua mão e olhavam-no hostilmente. Achou também que eles estavam de certa forma admirados com sua aparência e olhavam-no como se ele fosse um animal estranho, do qual tinham ouvido falar mas que nunca tinham visto.

Kilcraig indicou-lhe uma cadeira à direita da dele, e assim que o Duque sentou-se, os criados trouxeram-lhe whisky e colocaram na mesa pratos típicos escoceses.

O Duque sabia que aquilo não era o almoço, mas simplesmente o tipo de comida que se oferecia a quem chegava de viagem, para aliviar o cansaço.

Bebeu um pouco do whisky e recusou a comida. Depois, tomando a iniciativa novamente, disse:

–Eu acho, Kilcraig, que será um benefício para nossos interesses se conversarmos sobre o assunto que me trouxe aqui a sós.

O chefe do outro Clã ergueu as sobrancelhas.

–A sós?– perguntou ele.

–Por que não?– disse o Duque–, eu tenho a injusta desvantagem de não ter parentes próximos comigo. Os trunfos são todos seus e está tudo contra mim.

Ele falava em tom leve, com um certo toque de quem está achando graça, e sabia que estava surpreendendo Kilcraig.

–A sós?– repetiu o velho.

–Acho que só entre nós será melhor e poderemos fazer justiça– disse o Duque .

Kilcraig estalou os dedos e, sem dizer nada, os parentes dele foram andando devagar e saíram da sala.

O Duque reclinou-se, à vontade.

–Assim é melhor– disse ele–, agora poderemos conversar de homem para homem. Devo começar desculpando-me pelo comportamento incorreto de meu sobrinho, que me parece ser um rapaz rebelde e que escapa ao controle.

Kilcraig não falou nada, apenas lançou um olhar penetrante ao Duque .

O Duque bebericou de novo seu whisky. Era desagradável, mas ele estava com sede.

–Torquil McNarn, foi capturado por meus homens roubando um valioso animal.

–Foi o que me disseram– retrucou o Duque–, é um ato realmente condenável, mas não passou de uma travessura de rapaz.

–Isso já aconteceu antes. Vários boiadeiros nas fronteiras de minhas terras vêm reclamando, nesses últimos meses.

–De perderem gado?

–E várias ovelhas.

–Sem dúvida eles devem ser reembolsados pelo prejuízo– disse o Duque–, mas estou certo de que concordará comigo que meninos adolescentes sempre se metem em encrencas, quando não têm nada útil para fazer, e isto é algo que eu pretendo corrigir de agora em diante.

–Como está pensando em reembolsá-los?– perguntou Kilcraig.

O Duque fez um gesto amplo com as mãos.

–Da maneira que você achar adequada para os que perderam os animais.

–Meus filhos insistem para que Torquil McNarn seja mandado a Edimburgo, para julgamento.

–Não acha que isso seria fazer tempestade em copo d’água? Afinal, não é assim tão grave– disse o Duque–, os dias de brigas entre feudos e os clamores de vingança já terminaram.

–Acha possível?– perguntou Kilcraig.

–É claro!– retrucou o Duque–, o mundo transformou-se, tornou-se mais esclarecido. Os feudos como os de antigamente estão fora de moda!

–Pena que você não possa dizer isso aos MacAuad!

O Duque ficou pensativo, imaginando por que ele havia mencionado aquele Clã.

–Lembro-me de que muitos anos atrás eles sempre agiam mal… mas não mudaram nada, desde aquela época?

–Se mudaram, foi para pior!– respondeu Kilcraig–, estou pronto a admitir que o Clã McNarn não foi conivente nessa ação do seu sobrinho, mas com os MacAuad é diferente. Eles atacam o seu Clã e o meu, não com atitudes isoladas, mas organizados em grupo e com violência premeditada.

–Mal posso crer nisso!– exclamou o Duque.

–Mas é verdade– disse Kilcraig–, e é por isso, Duque, que tenho uma proposta a lhe fazer.

–Uma proposta?

–Tenho pensado nisso há algum tempo– disse Kilcraig devagar–, e o comportamento de Torquil McNarn, apenas apressou uma decisão que tomei com certa relutância, mas que se faz necessária.

–E que decisão é essa?– perguntou o Duque.

–É que, se temos que enfrentar os ataques dos MacAuad, então o seu Clã e o meu devem aliar-se e tornarem-se amigos.

O Duque olhou atônito para o velho.

Ele havia imaginado de tudo, menos que Kilcraig lhe fizesse uma proposta daquelas.

Aprendera a considerá-lo inimigo desde a infância. É verdade que nutria esperanças de melhorar as relações entre os Clãs, mas não esperava que fosse ser dessa maneira.

Fez-se silêncio, até que ele conseguiu dizer:

–Crê realmente que essa solução seja possível?

–Acho que não só é possível, como urgente!– respondeu Kilcraig–, não podemos continuar como estamos. Seu sobrinho levou algum gado nosso, mas isso não é nada em comparação ao que está acontecendo nas fronteiras de nossas terras com as dos MacAuad.

O tom de voz dele carregou-se de raiva, enquanto continuava:

–Alguns de nossos fazendeiros mais prósperos chegaram até a pagar taxa de proteção, mas os MacAuad roubaram o dinheiro do pagamento e ainda levaram os animais também!

Ele bateu na mesa e continuou:

–É preciso vigiar cada quilômetro de terra para proteger meu povo, mas na fronteira está muito difícil. Os ladrões entram, por mais que façamos para impedi-los.

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