Read the book: «Mestres da Poesia - Florbela Espanca»

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A Autora

Florbela Espanca (Vila Viçosa, 8 de dezembro de 1894 — Matosinhos, 8 de dezembro de 1930) foi uma poetisa portuguesa. A sua vida, de apenas 36 anos, foi plena, embora tumultuosa, inquieta e cheia de sofrimentos íntimos, que a autora soube transformar em poesia da mais alta qualidade, carregada de erotização, feminilidade e panteísmo.

Filha de Antónia da Conceição Lobo e do republicano João Maria Espanca, nasceu no dia 8 de dezembro de 1894 em Vila Viçosa, no Alentejo. O seu pai foi sobretudo um antiquário e um fotógrafo, tendo também ganho a vida com outras atividades, como a de projeção de filmes. De facto, foi um dos introdutores do "Vitascópio de Edison" em Portugal.

O seu pai era casado com Mariana do Carmo Inglesa Toscano, que era estéril, sendo filho de José Maria Espanca e Joana Fortunata Pires Espanca. Com a autorização da mulher, João Maria relacionou-se com a camponesa Antónia da Conceição Lobo, filha de pais incógnitos, criada de servir, mulher bela e vistosa. Assim nasceram Florbela e, três anos depois, Apeles, em 10 de março de 1897, ambos registados como filhos de Antónia e pai incógnito. João Maria Espanca criou-os na sua casa. Apesar de Mariana ter passado a ser madrinha de batismo dos dois, João Maria só reconheceu Florbela como a sua filha em cartório 18 anos após a morte desta.

Entre 1899 e 1908, Florbela Espanca frequentou a escola primária em Vila Viçosa. Foi naquele tempo que passou a assinar os seus textos Flor d’Alma da Conceição. As suas primeiras composições poéticas datam dos anos 1903-1904: o poema "A Vida e a Morte", o soneto em redondilha maior em homenagem ao irmão Apeles e um poema escrito por ocasião do aniversário do pai "No dia d'anos", com a seguinte dedicatória: «Ofereço estes versos ao meu querido papá da minha alma» . Em 1907, Espanca escreveu o seu primeiro conto: "Mamã!" No ano seguinte, faleceu a sua mãe, Antónia, com apenas 29 anos, vítima de nevrose.

Espanca ingressou então no Liceu Nacional de Évora, onde permaneceu até 1912. Foi uma das primeiras mulheres em Portugal a frequentar um curso liceal. Durante os seus estudos no Liceu, Espanca requisitou diversos livros na Biblioteca Pública de Évora, aproveitando então para ler obras de Balzac, Dumas, Camilo Castelo Branco, Guerra Junqueiro, Garrett. Quando ocorreu a revolução de 5 de Outubro de 1910, Espanca está há dois dias com a família na capital, no Francfort Hotel Rossio, mas não se conhecem comentários seus à sua vivência deste dia.

Em 1913, casou-se em Évora com Alberto de Jesus Silva Moutinho, seu colega da escola. O casal morou primeiro em Redondo. Em 1915, instalou-se na casa dos Espanca em Évora, por causa das dificuldades financeiras.

Em 1916, de volta a Redondo, a poetisa reuniu uma seleção da sua produção poética desde 1915, inaugurando assim o projeto Trocando Olhares. A coletânea de oitenta e cinco poemas e três contos serviu-lhe mais tarde como ponto de partida para futuras publicações. Na época, as primeiras tentativas de promover as suas poesias falharam.

No mesmo ano, Espanca iniciou-se como jornalista em Modas & Bordados (suplemento de O Século de Lisboa), em Notícias de Évora e em A Voz Pública, também eborense. A poetisa regressou de novo a esta cidade em 1917. Completou o 11.º ano do Curso Complementar de Letras e matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Foi uma das catorze mulheres entre trezentos e quarenta e sete alunos inscritos. Aí teve como colegas de curso os escritores e poetas Américo Durão e Mário Beirão.

Um ano mais tarde, a escritora sofreu as consequências de um aborto involuntário, que lhe teria infetado os ovários e os pulmões. Repousou em Quelfes (Olhão), onde apresentou os primeiros sinais sérios de neurose.

Em 1919, saiu a sua primeira obra, Livro de Mágoas, um livro de sonetos. A tiragem (duzentos exemplares) esgotou-se rapidamente. Um ano mais tarde, sendo ainda casada, a escritora passou a viver com António José Marques Guimarães, alferes de Artilharia da Guarda Republicana.

Em meados do 1920, interrompeu os estudos na Faculdade de Direito. Em 29 de Junho de 1921, pôde finalmente casar-se com António Guimarães. O casal passou a residir no Porto, mas, no ano seguinte, transferiu-se para Lisboa, onde Guimarães se tornou chefe de gabinete do Ministro do Exército. Neste ano, o seu pai divorcia-se de Mariana, casando no ano seguinte com Henriqueta de Almeida.

Em 1922, a 1 de Agosto, a recém-fundada Seara Nova publicou o seu soneto Prince charmant…, dedicado a Raul Proença. Em Janeiro de 1923, veio a lume a sua segunda coletânea de sonetos, Livro de Sóror Saudade, edição paga pelo pai da poetisa. Para sobreviver, Espanca começou a dar aulas particulares de português.

Em 1925, divorciou-se pela segunda vez. Esta situação abalou-a muito. O seu ex-marido, António Guimarães, abriu mais tarde uma agência, "Recortes", que colecionava notas e artigos sobre vários autores. O seu espólio pessoal reúne o mais abundante material que foi publicado sobre Espanca, desde 1945 até 1981. Ao todo são 133 recortes. Ainda em 1925, a poetisa casou com o médico Mário Pereira Lage, que conhecia desde 1921, e com quem vivia desde 1924. O casamento decorreu em Matosinhos, no Distrito do Porto, onde o casal passou a morar a partir de 1926. Em dezembro de 1925, falece também a "madrasta" e madrinha de Florbela, que lhe lega vários bens.

Em 1927, a autora principiou a sua colaboração no jornal Dom Nuno de Vila Viçosa, dirigido por José Emídio Amaro. Naquele tempo, não encontrava editor para a coletânea Charneca em Flor. Preparava também um volume de contos, provavelmente O Dominó Preto, publicado postumamente apenas em 1982. Começou a traduzir romances para as editoras Civilização e Figueirinhas do Porto. No mesmo ano, em 6 de junho, Apeles Espanca, o irmão da escritora, de apenas 30 anos, faleceu num trágico acidente de avião, perto de Belém. A sua morte foi devastadora para Espanca. Em homenagem ao irmão, Espanca escreveu o conjunto de contos de As Máscaras do Destino, volume publicado postumamente em 1931. Entretanto, a sua doença mental agravou-se bastante. Em 1928, ela teria tentado o suicídio pela primeira vez.

Em 1930, Espanca começou a escrever o seu Diário do Último Ano, publicado só em 1981. A 18 de Junho, principiou a correspondência com Guido Battelli, professor italiano, visitante na Universidade de Coimbra, responsável pela publicação da Charneca em Flor em 1931. Na altura, a poetisa colaborou também no Portugal feminino de Lisboa, na revista Civilização e no Primeiro de Janeiro, ambos do Porto.

Espanca tentou o suicídio por duas vezes mais em outubro e novembro de 1930, na véspera da publicação da sua obra-prima, Charneca em Flor. Após o diagnóstico de um edema pulmonar, a poetisa perdeu definitivamente a vontade de viver. Não resistiu à terceira tentativa do suicídio. Faleceu em Matosinhos, no dia do seu 36.º aniversário, a 8 de dezembro de 1930. A causa da morte foi uma "overdose" de barbitúricos. A poetisa teria deixado uma carta confidencial com as suas últimas disposições, entre elas, o pedido de colocar no seu caixão os restos do avião pilotado por Apeles quando sofreu o acidente. O corpo dela jaz, desde 17 de maio de 1964, no cemitério de Vila Viçosa, a sua terra natal.

Leia-se a quadra desse "admirável soneto que é o seu voo quebrado e que principia assim":

Não tenhas medo, não! Tranquilamente,

Como adormece a noite pelo outono,

Fecha os olhos, simples, docemente,

Como à tarde uma pomba que tem sono…

Em 1949, a Câmara Municipal de Lisboa homenageou a poetisa, dando o seu nome a uma rua junto à Avenida da Igreja, em Alvalade.

Livro de Mágoas

Procuremos somente a Beleza, que a vida

É um punhado infantil de areia ressequida,

Um som d’água ou de bronze e uma sombra que passa...

Eugénio de Castro.

Isolés dans l'amour ainsi qu'en un bois noir,

Nos deux coeurs, exalant leur tendresse paisible,

Seront deux rossignols qui chantent dans le soir.

Verlaine.

Este livro

Este livro é de mágoas. Desgraçados

Que no mundo passais, chorai ao lê-lo!

Somente a vossa dor de Torturados

Pode, talvez, senti-lo... e compreendê-lo...

Este livro é p'ra vós, Abençoados

Os que o sentirem, sem ser bom nem belo!

Bíblia de tristes... Ó Desventurados,

Que a vossa imensa dor se acalme ao vê-lo!

Livro de Mágoas... Dores... Ansiedades!

Livro de Sombras... Névoas... e Saudades!

Vai pelo mundo... (Trouxe-o no meu seio...)

Irmãos na Dor, os olhos rasos de água,

Chorai comigo a minha imensa mágoa,

Lendo o meu livro só de mágoas cheio!...

Vaidade

Sonho que sou a Poetisa eleita,

Aquela que diz tudo e tudo sabe,

Que tem a inspiração pura e perfeita,

Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade

Para encher todo o mundo! E que deleita

Mesmo aqueles que morrem de saudade!

Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Alguém cá neste mundo...

Aquela de saber vasto e profundo,

Aos pés de quem a terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,

E quando mais no alto ando voando,

Acordo do meu sonho...

E não sou nada!...

Eu...

Eu sou a que no mundo anda perdida,

Eu sou a que na vida não tem norte,

Sou a irmã do Sonho, e desta sorte

Sou a crucificada... a dolorida...

Sombra de névoa ténue e esvaecida,

E que o destino amargo, triste e forte,

Impele brutalmente para a morte!

Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...

Sou a que chamam triste sem o ser...

Sou a que chora sem saber porquê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,

Alguém que veio ao mundo p'ra me ver,

E que nunca na vida me encontrou!

Castelã da tristeza

Altiva e couraçada de desdém,

Vivo sozinha em meu castelo: a Dor!

Passa por ele a luz de todo o amor....

E nunca em meu castelo entrou alguém!

Castelã da Tristeza, vês?... A quem?!...

— E o meu olhar é interrogador —

Perscruto, ao longe, as sombras do sol-pôr...

Chora o silêncio... nada... ninguém vem...

Castelã da Tristeza, porque choras

Lendo, toda de branco, um livro de oras,

À sombra rendilhada dos vitrais?...

À noite, debruçada p'las ameias,

Porque rezas baixinho?... Porque anseias?...

Que sonho afagam tuas mãos reais?...

Tortura

Tirar dentro do peito a Emoção,

A lucida Verdade, o Sentimento!

— E ser, depois de vir do coração,

Um punhado de cinza esparso ao vento!...

Sonhar um verso de alto pensamento,

E puro como um ritmo de oração!

— E ser, depois de vir do coração,

O pó, o nada, o sonho dum momento!...

São assim ocos, rudes, os meus versos:

Rimas perdidas, vendavais dispersos,

Com que eu iludo os outros, com que minto!

Quem me dera encontrar o verso puro,

O verso altivo e forte, estranho e duro,

Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!

Lágrimas ocultas

Se me ponho a cismar em outras eras

Em que ri e cantei, em que era qu'rida,

Parece-me que foi noutras esferas,

Parece-me que foi numa outra vida...

E a minha triste boca dolorida

Que dantes tinha o rir das primaveras,

Esbate as linhas graves e severas

E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago...

Toma a brandura plácida dum lago

O meu rosto de monja de marfim...

E as lágrimas que choro, branca e calma,

Ninguém as vê brotar dentro da alma!

Ninguém as vê cair dentro de mim!

Torre de névoa

Subi ao alto, à minha Torre esguia,

Feita de fumo, névoas e luar,

E pus-me, comovida, a conversar

Com os poetas mortos, todo o dia.

Contei-lhes os meus sonhos, a alegria

Dos versos que são meus, do meu sonhar,

E todos os poetas, a chorar,

Responderam-me então: «Que fantasia,

Criança doida e crente! Nós também

Tivemos ilusões, como ninguém,

E tudo nos fugiu, tudo morreu!...»

Calaram-se os poetas, tristemente...

E é desde então que eu choro amargamente

Na minha Torre esguia junto ao Céu!...

A minha dor

A Você

A minha Dor é um convento ideal

Cheio de claustros, sombras, arcarias,

Aonde a pedra em convulsões sombrias

Tem linhas dum requinte escultural.

Os sinos têm dobres de agonias

Ao gemer, comovidos, o seu mal...

E todos têm sons de funeral

Ao bater horas, no correr dos dias...

A minha Dor é um convento. Há lírios

Dum roxo macerado de martírios,

Tão belos como nunca os viu alguém!

Nesse triste convento aonde eu moro,

Noites e dias rezo e grito e choro!

E ninguém ouve... ninguém vê... ninguém...

Dizeres íntimos

É tão triste morrer na minha idade!

E vou ver os meus olhos, penitentes

Vestidinhos de roxo, como crentes

Do soturno convento da Saudade!

E logo vou olhar (com que ansiedade!...)

As minhas mãos esguias, languescentes,

De brancos dedos, uns bebês doentes

Que hão de morrer em plena mocidade!

E ser-se novo é ter-se o Paraiso,

É ter-se a estrada larga, ao sol, florida,

Aonde tudo é luz e graça e riso!

E os meus vinte e três anos... (Sou tão nova!)

Dizem baixinho a rir: «Que linda a vida!...»

Responde a minha Dor: «Que linda a cova!»

As minhas ilusões

Hora sagrada dum entardecer

De Outono, à beira mar, cor de safira.

Soa no ar uma invisível lira...

O sol é um doente a enlanguescer...

A vaga estende os braços a suster,

Numa dor de revolta cheia de ira,

A doirada cabeça que delira

Num último suspiro, a estremecer!

O sol morreu... e veste luto o mar...

E eu vejo a urna de oiro, a baloiçar,

À flor das ondas, num lençol de espuma!

As minhas Ilusões, doce tesoiro,

Também as vi levar em urna de oiro,

No Mar da Vida, assim... uma por uma...

Neurastena

Sinto hoje a alma cheia de tristeza!

Um sino dobra em mim, Ave Marias!

Lá fora, a chuva, brancas mãos esguias,

Faz na vidraça rendas de Veneza...

O vento desgrenhado, chora e reza

Por alma dos que estão nas agonias!

E flocos de neve, aves brancas, frias,

Batem as azas pela Natureza...

Chuva... tenho tristeza! Mas porquê?!

Vento... tenho saudades! Mas de quê?!

Ó neve que destino triste o nosso!

Ó chuva! Ó vento! Ó neve! Que tortura!

Gritem ao mundo inteiro esta amargura,

Digam isto que sinto que eu não posso!!...

Pequenina

À Maria Helena Falcão Risques

És pequenina e ris... A boca breve

É um pequeno idílio cor de rosa...

Haste de lírio frágil e mimosa!

Cofre de beijos feito sonho e neve!

Doce quimera que a nossa alma deve

Ao Céu que assim te fez tão graciosa!

Que nesta vida amarga e tormentosa

Te fez nascer como um perfume leve!

O ver o teu olhar faz bem à gente...

E cheira e sabe, a nossa boca, a flores

Quando o teu nome diz, suavemente...

Pequenina que a Mãe de Deus sonhou,

Que ela afaste de ti aquelas dores

Que fizeram de mim isto que sou!

A maior tortura

A um grande poeta de Portugal

Na vida, para mim, não há deleite.

Ando a chorar convulsa noite e dia...

E não tenho uma sombra fugidia

Onde poise a cabeça, onde me deite!

E nem flor de lilás tenho que enfeite

A minha atroz, imensa nostalgia!...

A minha pobre Mãe tão branca e fria

Deu-me a beber a Mágoa no seu leite!

Poeta, eu sou um cardo desprezado,

A urze que se pisa sob os pés.

Sou, como tu, um riso desgraçado!

Mas a minha tortura inda é maior:

Não ser poeta assim como tu és,

Para gritar num verso a minha Dor!...

A flor do sonho

A Flor do Sonho alvíssima, divina

Miraculosamente abriu em mim,

Como se uma magnólia de cetim

Fosse florir num muro todo em ruina.

Pende em meio seio a haste branda e fina

E não posso entender como é que, enfim,

Essa tão rara flor abriu assim!...

Milagre... fantasia... ou talvez, sina...

Ó Flor que em mim nasceste sem abrolhos,

Que tem que sejam tristes os meus olhos

Se eles são tristes pelo amor de ti?!...

Desde que em mim nasceste em noite calma,

Voou ao longe a aza da minh'alma

E nunca, nunca mais eu me entendi...

Noite de saudade

A Noite vem poisando devagar

Sobre a terra que inunda de amargura...

E nem sequer a benção do luar

A quis tornar divinamente pura...

Ninguém vem atrás dela a acompanhar

A sua dor que é cheia de tortura...

E eu oiço a Noite imensa soluçar!

E eu oiço soluçar a Noite escura!

Porque és assim tão 'scura, assim tão triste?!

É que, talvez, ó Noite, em ti existe

Uma Saudade igual à que eu contenho!

Saudade que eu nem sei donde me vem...

Talvez de ti, ó Noite!... Ou de ninguém!...

Que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho!!

Angústia

Tortura do pensar! Triste lamento!

Quem nos dera calar a tua voz!

Quem nos dera cá dentro, muito a sós,

Estrangular a hidra num momento!

E não se quer pensar!... E o pensamento

Sempre a morder-nos bem, dentro de nós...

Qu'rer apagar no Ceu — Ó sonho atroz! —

O brilho duma estrela, com o vento!...

E não se apaga, não... nada se apaga!

Vem sempre rastejando como a vaga...

Vem sempre perguntando. «O que te resta?...»

Ah! não ser mais que o vago, o infinito!

Ser pedaço de gelo, ser granito,

Ser rugido de tigre na floresta!

Amiga

Deixa-me ser a tua amiga, Amor;

A tua amiga só, já que não queres

Que pelo teu amor seja a melhor

A mais triste de todas as mulheres.

Que só, de ti, me venha mágoa e dor

O que me importa a mim?! O que quiseres

É sempre um sonho bom! Seja o que for

Bendito sejas tu por mo dizeres!

Beija-me as mãos, Amor, devagarinho...

Como se os dois nascêssemos irmãos,

Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho...

Beija-mas bem!... Que fantasia louca

Guardar assim, fechados, nestas mãos,

Os beijos que sonhei p’ra minha boca!...

Desejos vãos

Eu qu'ria ser o Mar de altivo porte

Que ri e canta, a vastidão imensa!

Eu qu'ria ser a pedra que não pensa,

A Pedra do caminho, rude e forte!

Eu qu'ria ser o Sol, a luz intensa,

O bem do que é humilde e não tem sorte!

Eu qu'ria ser a árvore tosca e densa

Que ri do mundo vão e até da morte!

Mas o Mar também chora de tristeza...

As Árvores também, como quem reza,

Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!

E o Sol altivo e forte, ao fim dum dia,

Tem lágrimas de sangue na agonia!

E as Pedras... essas... pisa-as toda a gente!...

Pior velhice

Sou velha e triste. Nunca o alvorecer

Dum riso são andou na minha boca!

Gritando que me acudam, em voz rouca,

Eu, naufraga da Vida, ando a morrer!

A Vida que ao nascer enfeita e touca

De alvas rosas, a fronte da mulher,

Na minha fronte mística de louca

Martírios só poisou a emurchecer!

E dizem que sou nova... A mocidade

Estará só, então, na nossa idade,

Ou está em nós e em nosso peito mora?!...

Tenho a pior velhice, a que é mais triste,

Aquela onde nem sequer existe

Lembrança de ter sido nova... outrora...

A um livro

No silêncio de cinzas do meu Ser

Agita-se uma sombra de cipreste.

Sombra roubada ao livro que ando a ler,

A esse livro de mágoas que me deste.

Estranho livro aquele que escreveste

Artista da saudade e do sofrer!

Estranho livro aquele em que puseste

Tudo o que eu sinto, sem poder dizer!

Leio-o e folheio, assim, toda a minh'alma!

O livro que me deste é meu e salma

As orações que choro e rio e canto!...

Poeta igual a mim, ai quem me dera

Dizer o que tu dizes!... Quem soubera

Velar a minha Dor desse teu manto!...

Alma perdida

Toda esta noite o rouxinol chorou,

Gemeu, rezou, gritou perdidamente!

Alma de rouxinol, alma da gente,

Tu és, talvez, alguém que se finou!

Tu és, talvez, um sonho que passou,

Que se fundiu na Dor, suavemente...

Talvez sejas a alma, alma doente

De alguém que quis amar e nunca amou!

Toda a noite choraste... e eu chorei

Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei

Que ninguém é mais triste do que nós!

Contaste tanta coisa à noite calma,

Que eu pensei que tu eras a minh'alma

Que chorasse perdida em tua voz!...

De joelhos

«Bendita seja a Mãe que te gerou.»

Bendito o leite que te fez crescer.

Bendito o berço aonde te embalou

A tua ama, p'ra te adormecer!

Bendita essa canção que acalentou

Da tua vida o doce alvorecer...

Bendita seja a lua que inundou

De luz, a terra, só para te ver...

Benditos sejam todos que te amarem,

As que em volta de ti ajoelharem,

Numa grande paixão fervente e louca!

E se mais que eu, um dia, te quiser

Alguém, bendita seja essa Mulher,

Bendito seja o beijo dessa boca!!

Languidez

Tardes da minha terra, doce encanto,

Tardes duma pureza de açucenas,

Tardes de sonho, as tardes de novenas,

Tardes de Portugal, as tardes de Anto.

Como eu vos quero e amo! Tanto! Tanto!...

Horas benditas, leves como penas,

Horas de fumo e cinza, horas serenas,

Minhas horas de dor em que eu sou santo!

Fecho as pálpebras roxas, quase pretas,

Que poisam sobre duas violetas,

Azas leves cansadas de voar...

E a minha boca tem uns beijos mudos...

E as minhas mãos, uns pálidos veludos,

Traçam gestos de sonho pelo ar...

Para quê?!

Tudo é vaidade neste mundo vão...

Tudo é tristeza; tudo é pó, é nada!

E mal desponta em nós a madrugada,

Vem logo a noite encher o coração!

Até o amor nos mente, essa canção

Que o nosso peito ri à gargalhada,

Flor que é nascida e logo desfolhada,

Pétalas que se pisam pelo chão!...

Beijos de amor! P'ra quê?!... Tristes vaidades!

Sonhos que logo são realidades,

Que nos deixam a alma como morta!

Só acredita neles quem é louca!

Beijos de amor que vão de boca em boca,

Como pobres que vão de porta em porta!...

Ao vento

O vento passa a rir, torna a passar,

Em gargalhadas asp'ras de demente;

E esta minh'alma trágica e doente

Não sabe se há de rir, se há de chorar!

Vento de voz tristonha, voz plangente,

Vento que ris de mim, sempre a troçar,

Vento que ris do mundo e do amar,

A tua voz tortura toda a gente!...

Vale-te mais chorar, meu pobre amigo!

Desabafa essa dor a sós comigo,

E não rias assim!... Ó vento, chora!

Que eu bem conheço, amigo, esse fadário

Do nosso peito ser como um Calvário,

E a gente andar a rir p'la vida fora!!...

Tédio

Passo pálida e triste. Oiço dizer

«Que branca que ela é! Parece morta!»

E eu que vou sonhando, vaga, absorta,

Não tenho um gesto, ou um olhar sequer...

Que diga o mundo e a gente o que quiser!

— O que é que isso me faz?... O que me importa?...

O frio que trago dentro gela e corta

Tudo que é sonho e graça na mulher!

O que é que isso me importa?! Essa tristeza

É menos dor intensa que frieza,

É um tédio profundo de viver!

E é tudo sempre o mesmo, eternamente...

O mesmo lago plácido, dormente...

E os dias, sempre os mesmos, a correr...

A minha tragédia

Tenho ódio à luz e raiva à claridade

Do sol, alegre, quente, na subida.

Parece que a minh'alma é perseguida

Por um carrasco cheio de maldade!

Ó minha vã, inútil mocidade

Trazes-me embriagada, entontecida!...

Duns beijos que me deste, noutra vida,

Trago em meus lábios roxos, a saudade!...

Eu não gosto do sol, eu tenho medo

Que me leiam nos olhos o segredo

De não amar ninguém, de ser assim!

Gosto da Noite imensa, triste, preta,

Como esta estranha e doida borboleta

Que eu sinto sempre a voltejar em mim!...

Sem remédio

Aqueles que me têm muito amor

Não sabem o que sinto e o que sou...

Não sabem que passou, um dia, a Dor,

À minha porta e, nesse dia, entrou.

E é desde então que eu sinto este pavor,

Este frio que anda em mim, e que gelou

O que de bom me deu Nosso Senhor!

Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!

Sinto os passos da Dor, essa cadência

Que é já tortura infinda, que é demência!

Que é já vontade doida de gritar!

E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio,

A mesma angústia funda, sem remédio,

Andando atrás de mim, sem me largar!...

Mais triste

É triste, diz a gente, a vastidão

Do Mar imenso! E aquela voz fatal

Com que ele fala, agita o nosso mal!

E a Noite é triste como a Extrema Unção!

É triste e dilacera o coração

Um poente do nosso Portugal!

E não veem que eu sou... eu... afinal,

A coisa mais magoada das que o são?!...

Poentes de agonia trago-os eu

Dentro de mim e tudo quanto é meu

É um triste poente de amargura!

E a vastidão do Mar, toda essa água

Trago-a dentro de mim num Mar de Mágoa!

E a Noite sou eu própria! A Noite escura!!

Velhinha

Se os que me viram já cheia de graça

Olharem bem de frente para mim,

Talvez, cheios de dor, digam assim:

«Já ela é velha! Como o tempo passa!...»

Não sei rir e cantar por mais que faça!

Ó minhas mãos talhadas em marfim,

Deixem esse fio de oiro que esvoaça!

Deixem correr a vida até ao fim!

Tenho vinte e três anos! Sou velhinha!

Tenho cabelos brancos e sou crente...

Já murmuro orações... falo sozinha...

E o bando cor de rosa dos carinhos

Que tu me fazes, olho-os indulgente,

Como se fosse um bando de netinhos...

Em busca do amor

O meu Destino disse-me a chorar:

«Pela estrada da Vida vae andando;

E, aos que vires passar, interrogando

Acerca do Amor que hás de encontrar.»

Fui pela estrada a rir e a cantar,

As contas do meu sonho desfiando...

E noite e dia, à chuva e ao luar,

Fui sempre caminhando e perguntando...

Mesmo a um velho eu perguntei: «Velhinho,

Viste o Amor acaso em teu caminho?»

E o velho estremeceu... olhou... e riu...

Agora pela estrada, já cansados

Voltam todos p'ra traz, desanimados...

E eu paro a murmurar: Ninguém o viu!...»

Impossível

Disseram-me hoje, assim, ao ver-me triste:

«Parece Sexta Feira de Paixão.

Sempre a cismar, cismar, de olhos no chão,

Sempre a pensar na dor que não existe...

O que é que tem?! Tão nova e sempre triste!

Faça por 'star contente! Pois então?!...»

Quando se sofre o que se diz é vão...

Meu coração, tudo, calado ouviste...

Os meus males ninguém mos adivinha...

A minha Dor não fala, anda sozinha...

Dissesse ela o que sente! Ai quem me dera!...

Os males de Anto toda a gente os sabe!

Os meus... ninguém... A minha Dor não cabe

Nos cem milhões de versos que eu fizera!...

Livro de Sóror Saudade

Irmã; Sóror Saudade, ah! se eu pudesse

Tocar de aspiração a nossa vida,

Fazer do mundo a Terra Prometida

Que ainda em sonho às vezes me aparece!

Américo Durão

II n'a pas à se plaindre celui qui attend

Un sentiment plus ardent et plus généreux.

II n'a pas à se plaindre celui qui attend

Le désir d'un peu plus de bonbeur, d'un

Peu plus de beauté, d'un peu plus de justice.

Maeterlinck - La Sagesse et la Destinée

"Sóror Saudade"

A Américo Durão

Irmã, Sóror Saudade me chamaste...

E na minh'alma o nome iluminou-se

Como um vitral ao sol, como se fosse

A luz do próprio sonho que sonhaste.

Numa tarde de Outono o murmuraste,

Toda a mágoa do Outono ele me trouxe,

Jamais me hão de chamar outro mais doce.

Com ele bem mais triste me tornaste...

E baixinho, na alma da minh'alma,

Como bênção de sol que afaga e acalma,

Nas horas más de febre e de ansiedade,

Como se fossem pétalas caindo

Digo as palavras desse nome lindo

Que tu me deste: "Irmã, Sóror Saudade..."

O nosso livro

A A.G.

Livro do meu amor, do teu amor,

Livro do nosso amor, do nosso peito...

Abre-lhe as folhas devagar, com jeito,

Como se fossem pétalas de flor.

Olha que eu outro já não sei compor

Mais santamente triste, mais perfeito

Não esfolhes os lírios com que é feito

Que outros não tenho em meu jardim de dor!

Livro de mais ninguém! Só meu! Só teu!

Num sorriso tu dizes e digo eu:

Versos só nossos mas que lindos sois!

Ah, meu Amor! Mas quanta, quanta gente

Dirá, fechando o livro docemente:

"Versos só nossos, só de nós os dois!..."

O que tu és...

És Aquela que tudo te entristece

Irrita e amargura, tudo humilha;

Aquela a quem a Mágoa chamou filha;

A que aos homens e a Deus nada merece.

Aquela que o sol claro entenebrece

A que nem sabe a estrada que ora trilha,

Que nem um lindo amor de maravilha

Sequer deslumbra, e ilumina e aquece!

Mar-Morto sem marés nem ondas largas,

A rastejar no chão como as mendigas,

Todo feito de lágrimas amargas!

És ano que não teve Primavera...

Ah! Não seres como as outras raparigas

Ó Princesa Encantada da Quimera!...

Fanatismo

Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida.

Meus olhos andam cegos de te ver.

Não és sequer razão do meu viver

Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida...

Passo no mundo, meu Amor, a ler

No mist'rioso livro do teu ser

A mesma história tantas vezes lida!...

"Tudo no mundo é frágil, tudo passa...

Quando me dizem isto, toda a graça

Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros:

"Ah! podem voar mundos, morrer astros,

Que tu és como Deus: princípio e fim!..."

Alentejano

À Buja

Deu agora meio-dia; o sol é quente

Beijando a urze triste dos outeiros.

Nas ravinas do monte andam ceifeiros,

Na faina, alegres, desde o sol nascente.

Cantam as raparigas meigamente.

Brilham os olhos negros, feiticeiros.

E há perfis delicados e trigueiros

Entre as altas espigas d'oiro ardente.

A terra prende aos dedos sensuais

A cabeleira loira dos trigais

Sob a bênção dulcíssima dos céus.

Há gritos arrastados de cantigas...

E eu sou uma daquelas raparigas...

E tu passas e dizes: "Salve-os Deus!"

Que importa?...

Eu era a desdenhosa, a indif'rente.

Nunca sentira em mim o coração

Bater em violências de paixão

Como bate no peito à outra gente.

Agora, olhas-me tu altivamente,

Sem sombra de Desejo ou de emoção,

Enquanto a asa loira da ilusão

Dentro em mim se desdobra a um sol nascente.

Minh'alma, a pedra, transformou-se em fonte;

Como nascida em carinhoso monte

Toda ela é riso, e é frescura, e graça!

Nela refresca a boca um só instante...

Que importa?... Se o cansado viandante

Bebe em todas as fontes... quando passa?...

Fumo

Longe de ti são ermos os caminhos,

Longe de ti não há luar nem rosas;

Longe de ti há noites silenciosas,

Há dias sem calor, beirais sem ninhos!

Meus olhos são dois velhos pobrezinhos

Perdidos pelas noites invernosas...

Abertos, sonham mãos cariciosas,

Tuas mãos doces plenas de carinhos!

Os dias são Outonos: choram... choram...

Há crisântemos roxos que descoram...

Há murmúrios dolentes de segredos...

Invoco o nosso sonho! Estendo os braços!

E ele é, ó meu amor pelos espaços,

Fumo leve que foge entre os meus dedos...

O meu orgulho

Lembro-me o que fui dantes. Quem me dera

Não me lembrar! Em tardes dolorosas

Lembro-me que fui a Primavera

Que em muros velhos faz nascer as rosas!

As minhas mãos outrora carinhosas

Pairavam como pombas... Quem soubera

Porque tudo passou e foi quimera,

E porque os muros velhos não dão rosas!

O que eu mais amo é que mais me esquece...

E eu sonho: "Quem olvida não merece...

E já não fico tão abandonada!

Sinto que valho mais, mais pobrezinha:

Que também é orgulho ser sozinha,

E também é nobreza não ter nada!

Os versos que te fiz

Deixa dizer-te os lindos versos raros

Que a minha boca tem pra te dizer!

São talhados em mármore de Paros

Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolências de veludos caros,

São como sedas brancas a arder...

Deixa dizer-te os lindos versos raros

Que foram feitos pra te endoidecer!

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...

Que a boca da mulher é sempre linda

Se dentro guarda um verso que não diz!

Amo-te tanto! E nunca te beijei...

E, nesse beijo, Amor, que eu te não dei

Guardo os versos mais lindos que te fiz!

Frieza

Os teus olhos são frios como as espadas,

E claros como os trágicos punhais,

Têm brilhos cortantes de metais

E fulgores de lâminas geladas.

Vejo neles imagens retratadas

De abandonos cruéis e desleais,

Fantásticos desejos irreais,

E todo o oiro e o sol das madrugadas!

Mas não te invejo, Amor, essa indif'rença,

Que viver neste mundo sem amar

É pior que ser cego de nascença!

Tu invejas a dor que vive em mim!

E quanta vez dirás a soluçar:

"Ah, quem me dera, Irmã, amar assim!...

Meu mal

A meu irmão

Eu tenho lido em mim, sei-me de cor,

Eu sei o nome ao meu estranho mal:

Eu sei que fui a renda dum vitral,

Que fui cipreste, caravela, dor!

Fui tudo que no mundo há de maior:

Fui cisne, e lírio, e águia, e catedral!

E fui, talvez, um verso de Nerval,

Ou. um cínico riso de Chamfort...

Fui a heráldica flor de agrestes cardos,

Deram as minhas mãos aroma aos nardos...

Deu cor ao eloendro a minha boca...

Ah! de Boabdil fui lágrima na Espanha!

E foi de lá que eu trouxe esta ânsia estranha,

Mágoa não sei de quê! Saudade louca!

A noite desce...

Como pálpebras roxas que tombassem

Sobre uns olhos cansados, carinhosas,

A noite desce... Ah! doces mãos piedosas

Que os meus olhos tristíssimos fechassem!

Assim mãos de bondade me beijassem!

Assim me adormecessem! Caridosas

Em braçados de lírios, de mimosas,

No crepúsculo que desce me enterrassem!

A noite em sombra e fumo se desfaz...

Perfume de baunilha ou de lilás,

A noite põe embriagada, louca!

E a noite vai descendo, sempre calma...

Meu doce Amor tu beijas a minh'alma

Beijando nesta hora a minha boca!

Caravelas

Cheguei a meio da vida já cansada

De tanto caminhar! Já me perdi!

Dum estranho país que nunca vi

Sou neste mundo imenso a exilada.

Tanto tenho aprendido e não sei nada.

E as torres de marfim que construí

Em trágica loucura as destruí

Por minhas próprias mãos de malfadada!

Se eu sempre fui assim este Mar-Morto,

Mar sem marés, sem vagas e sem porto

Onde velas de sonhos se rasgaram.

Caravelas doiradas a bailar...

Ai, quem me dera as que eu deitei ao Mar!

As que eu lancei à vida, e não voltaram!...

Inconstância

Procurei o amor que me mentiu.

Pedi à Vida mais do que ela dava.

Eterna sonhadora edificava

Meu castelo de luz que me caiu!

Tanto clarão nas trevas refulgiu,

E tanto beijo a boca me queimava!

E era o sol que os longes deslumbrava

Igual a tanto sol que me fugiu!

Passei a vida a amar e a esquecer...

Um sol a apagar-se e outro a acender

Nas brumas dos atalhos por onde ando...

E este amor que assim me vai fugindo

É igual a outro amor que vai surgindo,

Que há de partir também... nem eu sei quando...

O nosso mundo

Eu bebo a Vida, a Vida, a longos tragos

Como um divino vinho de Falerno!

Poisando em ti o meu amor eterno

Como poisam as folhas sobre os lagos...

Os meus sonhos agora são mais vagos...

O teu olhar em mim, hoje, é mais terno...

E a Vida já não é o rubro inferno

Todo fantasmas tristes e pressagos!

A vida, meu Amor, quer vivê-la!

Na mesma taça erguida em tuas mãos,

Bocas unidas hemos de bebê-la!

Que importa o mundo e as ilusões defuntas?...

Que importa o mundo e seus orgulhos vãos?...

O mundo, Amor?... As nossas bocas juntas!...

Prince charmant

A Raul Proença

No lânguido esmaecer das amorosas

Tardes que morrem voluptuosamente

Procurei-O no meio de toda a gente.

Procurei-O em horas silenciosas

Das noites da minh'alma tenebrosas!

Boca sangrando beijos, flor que sente...

Olhos postos num sonho, humildemente...

Mãos cheias de violetas e de rosas...

E nunca O encontrei!... Prince Charmant

Como audaz cavaleiro em velhas lendas

Virá, talvez, nas névoas da manhã!

Ah! Toda a nossa vida anda a quimera

Tecendo em frágeis dedos frágeis rendas...

— Nunca se encontra Aquele que se espera!...

Anoitecer

A luz desmaia num fulgor d'aurora,

Diz-nos adeus religiosamente...

E eu, que não creio em nada, sou mais crente

Do que em menina, um dia, o fui... outrora...

Não sei o que em mim ri, o que em mim chora

Tenho bênçãos d'amor pra toda a gente!

Como eu sou pequenina e tão dolente

No amargo infinito desta hora!

Horas tristes que são o meu rosário...

Ó minha cruz de tão pesado lenho!

Meu áspero e intérmino Calvário!

E a esta hora tudo em mim revive:

Saudades de saudades que não tenho...

Sonhos que são os sonhos dos que eu tive...

Esfinge

Sou filha da charneca erma e selvagem.

Os giestais, por entre os rosmaninhos,

Abrindo os olhos d'oiro, p'los caminhos,

Desta minh'alma ardente são a imagem.

Embalo em mim um sonho vão, miragem:

Que tu e eu, em beijos e carinhos,

Eu a Charneca e tu o Sol, sozinhos,

Fôssemos um pedaço de paisagem!

E à noite, à hora doce da ansiedade

Ouviria da boca do luar

O De Profundis triste da saudade...

E à tua espera, enquanto o mundo dorme,

Ficaria, olhos quietos, a cismar...

Esfinge olhando a planície enorme...

Tarde demais...

Quando chegaste enfim, para te ver

Abriu-se a noite em mágico luar;

E pra o som de teus passos conhecer

Pôs-se o silêncio, em volta, a escutar...

Chegaste enfim! Milagre de endoidar!

Viu-se nessa hora o que não pode ser:

Em plena noite, a noite iluminar;

E as pedras do caminho florescer!

Beijando a areia d'oiro dos desertos

Procura-te em vão! Braços abertos,

Pés nus, olhos a rir, a boca em flor!

E há cem anos que eu fui nova e linda!...

E a minha boca morta grita ainda:

"Por que chegaste tarde, Ó meu Amor?!..."

Noturno

Amor! Anda o luar todo bondade,

Beijando a terra, a desfazer-se em luz...

Amor! São os pés brancos de Jesus

Que andam pisando as ruas da cidade!

E eu ponho-me a pensar... Quanta saudade

Das ilusões e risos que em ti pus!

Traçaste em mim os braços duma cruz,

Neles pregaste a minha mocidade!

Minh'alma, que eu te dei, cheia de mágoas,

E nesta noite o nenúfar dum lago

'Stendendo as asas brancas sobre as águas!

Poisa as mãos nos meus olhos com carinho,

Fecha-os num beijo dolorido e vago...

E deixa-me chorar devagarinho...

Cinzento

Poeiras de crepúsculos cinzentos,

Lindas rendas velhinhas, em pedaços,

Prendem-se aos meus cabelos, aos meus braços

Como brancos fantasmas, sonolentos...

Monges soturnos deslizando lentos,

Devagarinho, em mist'riosos passos...

Perde-se a luz em lânguidos cansaços...

Ergue-se a minha cruz dos desalentos!

Poeiras de crepúsculos tristonhos,

Lembram-me o fumo leve dos meus sonhos,

A névoa das saudades que deixaste!

Hora em que o teu olhar me deslumbrou...

Hora em que a tua boca me beijou...

Hora em que fumo e névoa te tornaste...

Maria das Quimeras

Maria das Quimeras me chamou

Alguém.. Pelos castelos que eu ergui

P'las flores d'oiro e azul que a sol teci

Numa tela de sonho que estalou.

Maria das Quimeras me ficou;

Com elas na minh'alma adormeci.

Mas, quando despertei, nem uma vi

Que da minh'alma, Alguém, tudo levou!

Maria das Quimeras, que fim deste

Às flores d'oiro e azul que a sol bordaste,

Aos sonhos tresloucados que fizeste?

Pelo mundo, na vida, o que é que esperas?...

Aonde estão os beijos que sonhaste,

Maria das Quimeras, sem quimeras?...

Saudades

Saudades! Sim.. talvez.. e por que não?...

Se o sonho foi tão alto e forte

Que pensara vê-lo até à morte

Deslumbrar-me de luz o coração!

Esquecer! Para quê?... Ah, como é vão!

Que tudo isso, Amor, nos não importe.

Se ele deixou beleza que conforte

Deve-nos ser sagrado como o pão.

Quantas vezes, Amor, já te esqueci,

Para mais doidamente me lembrar

Mais decididamente me lembrar de ti!

E quem dera que fosse sempre assim:

Quanto menos quisesse recordar

Mais saudade andasse presa a mim!

O que alguém disse

"Refugia-te na Arte" diz-me Alguém

"Eleva-te num vôo espiritual,

Esquece o teu amor, ri do teu mal,

Olhando-te a ti própria com desdém.

Só é grande e perfeito o que nos vem

Do que em nós é Divino e imortal!

Cega de luz e tonta de ideal

Busca em ti a Verdade e em mais ninguém!"

No poente doirado como a chama

Estas palavras morrem... E n'Aquele

Que é triste, como eu, fico a pensar...

O poente tem alma: sente e ama!

E, porque o sol é cor dos olhos d'Ele,

Eu fico olhando o sol, a soluçar...

Ruínas

Se é sempre Outono o rir das Primaveras,

Castelos, um a um, deixa-os cair...

Que a vida é um constante derruir

De palácios do Reino das Quimeras!

E deixa sobre as ruínas crescer heras,

Deixa-as beijar as pedras e florir!

Que a vida é um contínuo destruir

De palácios do Reino das Quimeras!

Deixa tombar meus rútilos castelos!

Tenho ainda mais sonhos para erguê-los

Mais alto do que as águias pelo ar!

Sonhos que tombam! Derrocada louca!

São como os beijos duma linda boca!

Sonhos!... Deixa-os tombar... Deixa-os tombar.

Crepúsculo

Teus olhos, borboletas de oiro, ardentes

Batendo as asas leves, irisadas,

Poisam nos meus, suaves e cansadas

Como em dois lírios roxos e dolentes...

E os lírios fecham... Meu Amor, não sentes?

Minha boca tem rosas desmaiadas,

E as minhas pobres mãos são maceradas

Como vagas saudades de doentes...

O Silencio abre as mãos... entorna rosas...

Andam no ar carícias vaporosas

Como pálidas sedas, arrastando...

E a tua boca rubra ao pé da minha

É na suavidade da tardinha

Um coração ardente palpitando...

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0+
Release date on Litres:
11 November 2025
Volume:
171 p. 2 illustrations
ISBN:
9783969173480
Publishers:
Copyright Holder::
Bookwire
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