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Alexandre Herculano

Poesias


Publicado pela Editora Good Press, 2022

goodpress@okpublishing.info

EAN 4064066408183

Índice de conteúdo

POESIAS

POR

A. HERCULANO

LIVRO PRIMEIRO

A HARPA DO CRENTE.

A SEMANA SANCTA.

A VOZ.

A ARRABIDA.

MOCIDADE E MORTE.

DEUS.

A TEMPESTADE.

O SOLDADO.

A VICTORIA E A PIEDADE.

A CRUZ MUTILADA.

LIVRO SEGUNDO

POESIAS VARIAS.

A PERDA D'ARZILLA.

A ROSA.

O MENDIGO.

O BOM PESCADOR.

TRISTEZAS DO DESTERRO.

O MOSTEIRO DESERTO.

A VOLTA DO PROSCRIPTO.

N'UM ALBUM.

A FELICIDADE.

OS INFANTES EM CEUTA.

LIVRO TERCEIRO

VERSÕES.

O SECCAR DAS FOLHAS.

A NOIVA DO SEPULCHRO.

O CANTO DO COSSACO.

O CAÇADOR FEROZ.

O CÃO DO LOUVRE.

LEONOR.

A COSTUREIRA, E O PINTASILGO MORTO.




IMPRENSA NACIONAL




POESIAS

Índice de conteúdo

POR

Índice de conteúdo

A. HERCULANO

Índice de conteúdo


segunda edição








LISBOA
EM CASA DA VIUVA BERTRAND E FILHOS
aos martyres, n.º 73
m dccc lx





LIVRO PRIMEIRO

Índice de conteúdo

A HARPA DO CRENTE.

Índice de conteúdo





A SEMANA SANCTA.

Índice de conteúdo


Der Gedanke Gott weckt einen

furchlerlichen Nachbar auf. Sein

Name heisst Richter.

Schiller.

I.

Tibio o sol entre as nuvens do occidente,

Já lá se inclina ao mar. Grave e solemne

Vai a hora da tarde!—O oeste passa

Mudo nos troncos da alameda antiga,

Que á voz da primavera os gomos brota:

O oeste passa mudo, e cruza o atrio

Ponteagudo do templo, edificado

Por mãos duras de avós, em monumento

De uma herança de fé, que nos legaram,

A nós seus netos, homens de alto esforço,

Que nos rimos da herança, e que insultamos

A cruz e o templo e a crença de outras eras;

Nós, homens fortes, servos de tyrannos,

Que sabemos tão bem rojar seus ferros

Sem nos queixar, menosprezando a Patria

E a liberdade, e o combater por ella.


Eu não!—eu rujo escravo; eu creio e espero

No Deus das almas generosas, puras,

E os despotas maldigo.—Entendimento

Bronco, lançado em seculo fundido

Na servidão de goso ataviada,

Creio que Deus é Deus e os homens livres!

II.

Oh sim!—rude amador de antigos sonhos,

Irei pedir aos tumulos dos velhos

Religioso enthusiasmo, e canto novo

Hei-de tecer, que os homens do futuro

Entenderão; um canto escarnecido

Pelos filhos dest' epocha mesquinha,

Em que vim peregrino a ver o mundo.

E chegar a meu termo, e reclinar-me

Á branda sombra de cypreste amigo.

III.

Passa o vento os do portico da igreja

Esculpidos umbraes: correndo as naves

Sussurrou, sussurrou entre as columnas

De gothico lavor: no orgam do côro

Veiu, emfim, murmurar e esvaecer-se.

IV.

Mas porque sôa o vento?—Está deserto,

Silencioso ainda o sacro templo:

Nenhuma voz humana ainda recorda

Os hymnos do Senhor. A natureza

Foi a primeira em celebrar seu nome

Neste dia de lucto e de saudade!

Trévas da quarta feira eu vos saúdo!

Negras paredes, mudos monumentos

De todas essas orações de mágua,

De gratidão, de susto ou de esperança,

Depositadas ante vós nos dias

De fervorosa crença, a vós que enlucta

A solidão e o dó, venho eu saudar-vos.

A loucura da cruz não morreu toda

Após dezoito seculos!—Quem chore

Do soffrimento o Heroe existe ainda.

Eu chorarei—que as lagrymas são do homem—

Pelo Amigo do povo, assassinado

Por tyrannos, e hypocritas, e turbas

Envilecidas, barbaras, e servas.

V.

Tu, Anjo do Senhor, que accendes o estro;

Que no espaço entre o abysmo e os céus vagueias,

D'onde mergulhas no oceano a vista;

Tu que do trovador á mente arrojas

Quanto ha nos céus esperançoso e bello,

Quanto ha no abysmo tenebroso e triste,

Quanto ha nos mares magestoso e vago,

Hoje te invoco!—oh vem!—lança em minha alma

A harmonia celeste e o fogo e o genio,

Que dêm vida e vigor a um carme pio.

VI.

A noite escura desce: o sol de todo

Nos mares se atufou. A luz dos mortos,

Dos brandões o clarão, fulgura ao longe

No cruzeiro sómente e em volta da ara:

E pelas naves começou ruído

De compassado andar. Fiéis acodem

Á morada de Deus, a ouvir queixumes

Do vate de Sião. Em breve os monges,

Suspirosas canções aos céus erguendo,

Sua voz unirão á voz desse orgam,

E os sons e os ecchos reboarão no templo.

Mudo o côro depois, neste recincto

Dentro em bem pouco reinará silencio,

O silencio dos tumulos, e as trévas

Cubrirão por esta área a luz escaça

Despedida das lampadas, que pendem

Ante os altares, bruxuleando frouxas.


Imagem da existencia!—Em quanto passam

Os dias infantis, as paixões tuas,

Homem, qual então és, são debeis todas.

Cresceste:—ei-las torrente, em cujo dorso

Sobrenadam a dôr e o pranto e o longo

Gemido do remorso, a qual lançar-se

Vai com rouco estridor no antro da morte,

Lá, onde é tudo horror, silencio, noite.

Da vida tua instantes florescentes

Foram dous, e não mais: as cans e rugas,

Logo, rebate de teu fim te deram.

Tu foste apenas som, que, o ar ferindo,

Murmurou, esqueceu, passou no espaço.


E a casa do Senhor ergueu-se.—O ferro

Cortou a penedia; e o canto enorme

Pulído alveja alli no espesso panno

Do muro colossal, que éra após éra,

Como onda e onda ao desdobrar na areia,

Viu vir chegando e adormecer-lhe ao lado.

O ulmo e o choupo no cahir rangeram

Sob o machado: a trave affeiçoou-se;

Lá no cimo pousou: restruge ao longe

De martellos fragor, e eis ergue o templo,

Por entre as nuvens, bronzeadas grimpas.


Homem, do que és capaz! Tu, cujo alento

Se esvái, como da cerva a leve pista

No pó se apaga ao respirar da tarde,

Do seio dessa terra, em que és estranho,

Sair fazes as moles seculares,

Que por ti, morto, falem; dás na idéa

Eterna duração ás obras tuas.

Tua alma é immortal, e a prova a déste!

VII.

Anoiteceu.—Nos claustros resoando

As pisadas dos monges ouço: eis entram;

Eis se curvaram para o chão, beijando

O pavimento, a pedra. Oh sim, beijae-a!

Igual vos cubrirá a cinza um dia,

Talvez em breve—e a mim. Consolo ao morto

É a pedra do tumulo. Sê-lo-hia

Mais, se do justo só a herança fòra;

Mas tambem ao malvado é dada a campa.


E o criminoso dormirá quieto

Entre os bons sotterrado?—Oh não! Em quanto

No templo ondeiam silenciosas turbas,

Exultarão do abysmo os moradores,

Vendo o hypocrita vil, mais impio que elles,

Que escarnece do Eterno, e a si se engana;

Vendo o que julga que orações apagam

Vicios e crimes, e o motejo e o riso

Dado em resposta ás lagrymas do pobre;

Vendo os que nunca ao infeliz disseram

De consolo palavra ou de esperança.

Sim:—malvados tambem hão-de pisar-lhes

Os frios restos que separa a terra,

Um punhado de terra, a qual os ossos

Destes ha-de cubrir em tempo breve,

Como cubriu os seus; qual vai sumindo

No segredo da campa a humana raça.

VIII.

Eis que a turba rareia. Ermam bem poucos

Do templo na amplidão: só lá no escuro

De afumada capella o justo as preces

Ergue pio ao Senhor, as preces puras

De um coração que espera, e não mentidas

De labios de impostor, que engana os homens

Com seu meneio hypocrita, calando

Na alma lodosa da blasphemia o grito.

Então exultarão os bons, e o í­mpio,

Que passou, tremerá. Emfim, de vivos,

Da voz, do respirar o som confuso

Vem confundir-se no ferver das praças,

E pela galilé só ruge o vento.


Em trévas não ficou silenciosas

O sagrado recincto: os candieiros,

No gelado ambiente ardendo a custo,

Espalham debeis raios, que reflectem

Das pedras pela alvura; o negro mocho,

Companheiro do morto, horrido pio

Solta lá da cornija: pelas fendas

Dos sepulchros deslisa fumo espesso;

Ondeia pela nave, e esvái-se. Longo

Suspirar não se ouviu?—Olhae! lá se erguem.

Sacudindo o sudario, em peso os mortos!


Mortos, quem vos chamou? O som da tuba

Ainda do Josaphat não fere os valles.

Dormí, dormí: deixae passar as eras...

IX.

Mas foi uma visão: foi como scena

D'imaginar febril. Creou-se, acaso,

Do poeta na mente, ou desvendou-lhe

A mão de Deus o íntimo ver da alma,

Que devassa a existencia mysteriosa

Do mundo dos espiritos? Quem sabe?

Dos vivos ja deserta, a igreja torva

Repovoou-se, para mim ao menos,

Dos extinctos, que ao pé das sanctas aras

Leito commum na somnolencia extrema

Buscaram. O terror, que arreda o homem

Do limiar do templo ás horas mortas,

Não vem de crença van. Se fulgem astros,

Se a luz da lua estira a sombra eterna

Da cruz gigante (que campeia erguida

No vertice do timpano, ou no cimo

Do corucheu do campanario) ao longo

Dos inclinados tectos, afastae-vos!

Afastae-vos d'aqui, onde se passam

Á meia-noite insolitos mysterios;

D'aqui, onde desperta a voz do archanjo

Os dormentes da morte; onde reune

O que foi forte e o que foi fraco, o pobre

E o opulento, o orgulhoso e o humilde,

O bom e o mau, o ignorante e o sabio,

Quantos, emfim, depositar vieram

Juncto do altar o que era seu no mundo,

Um corpo nú, e corrompido e inerte.

X.

E seguia a visão.—Cria ainda achar-me,

Alta noite, na igreja solitaria

Entre os mortos, que, erectos sobre as campas,

Eram ha pouco um fumo que ondeiava

Pelas fisgas do vasto pavimento.

Olhei. Do erguido tecto o panno espesso

Rareava; rareava-me ante os olhos,

Como tenue cendal; mais tenue ainda,

Como o vapor de outono em quarto d'alva,

Que se libra no espaço antes que desça

A consolar as plantas conglobado

Em matutino orvalho. O firmamento

Era profundo e amplo. Involto em gloria,

Sobre vagas de nuvens, rodeiado

Das legiões do céu, o Ancião dos dias,

O Sancto, o Deus descia. Ao summo aceno

Parava o tempo, a immensidade, a vida

Dos mundos a escutar. Era esta a hora

Do julgamento desses que se alçavam

Á voz de cima sobre as sepulturas?

XI.

Era ainda a visão,—Do templo em meio

Do anjo da morte a espada flammejante

Crepitando bateu. Bem como insectos,

Que á flôr de pego pantanoso e triste

Se balouçavam—quando a tempestade

Veiu as azas molhar nas aguas turvas,

Que marulhando sussurraram—surgem

Volteando, zumbindo em dança douda,

E lassos, vão pousar em longas filas

Nas margens do paul, de um lado e de outro;

Tal o murmurio e a agitação incerta

Ciciava das sombras remoinhando

Ante o sopro de Deus. As melodias

Dos córos celestiaes, longinquas, frouxas,

Com frémito infernal se misturavam

Em cahos de dôr e jubilo.

Dos mortos

Parava, emfim, o vortice enredado;

E os grupos vagos em distinctas turmas

Se enfileiravam de uma parte e de outra.

Depois, o gladio do anjo entre os dous bandos

Ficou, unica luz, que se estirava

Desde o cruzeiro ao portico, e fería

De reflexo vermelho os largos pannos

Das paredes de marmore, bem como

Mar de sangue, onde inertes fluctuassem

De humanos vultos indecisas fórmas.

XII.

E seguia a visão.—Do templo á esquerda,

Méstas as faces, inclinada a fronte,

Da noite as larvas tinham sobre o sólo

Fito o espantado olhar, e as dilatadas

Baças pupillas lhes tingia o susto.

Mas, como zona lucida de estrellas,

Nessa atmosphera crassa e afogueada

Pela espada rubente, refulgiam

Da direita os espiritos, banhado

De inenarravel placidez seu gesto.

Era inteiro o silencio, e no silencio

Uma voz resoou—Eleitos vinde!—

Ide precítos!»—Vacillava a terra,

E ajoelhando eu me curvei tremendo.

XIII.

Quando me ergui e olhei, no céu profundo

Um rastilho de luz pura e serena

Se ia embebendo nesses mares de orbes

Infinitos, perdidos no infinito,

A que chamâmos o universo. Um hymno

De saudade e de amor, quasi inaudivel

Parecia romper desde as alturas

De tempo a tempo. Vinha como involto

Nas lufadas do vento, até perder-se

Em socego mortal.

O curvo tecto

Do templo, então, se condensou de novo,

E para a terra o meu olhar volveu-se.

Da direita os espiritos radiosos

Já não estavam lá. Chispando a espaços,

Qual o ferro na incude, a espada do anjo

O mortiço rubor mandava, apenas,

D'aurora boreal quando se extingue.

XIV.

Proseguia a visão.—Da esquerda ás sombras

Anciava o seio a dôr: tinham no gesto

Impressa a maldicção, que lhes seccára

Eternamente a seiva da esperança.


Como se vê, em noite estiva e negra,

Scintillar sobre as aguas a ardentia,

D'umas frontes ás outras vagueiavam

Ceruleos lumes no esquadrão dos mortos,

E ao estalar das lousas, grito immenso

Subterraneo, abafado e delirante,

Ineffavel compendio de agonias,

Misturado se ouviu com rir do inferno,

E a visão se desfez. Era ermo o templo:

E despertei do pesadelo em trevas.

XV.

Era loucura ou sonho? Entre as tristezas

E os terrores e angustias, que resume

Neste dia e logar a avi­ta crença,

Irresisti­vel força arrebatou-me

Da sepultura a devassar segredos,

Para dizer:—Tremei! Do altar á sombra

Tambem ha mau-dormir de somno extremo!»—


A justiça de Deus visita os mortos,

Embora a cruz da redempção proteja

A pedra tumular; embora a hostia

Do sacrificio o sacerdote eleve

Sobre as vizinhas aras. Quando a igreja

Rodeiam trevas, solidão e medos,

Que a resguardam co'as asas acurvadas

Da vista do que vive, a mão do Eterno

Separa o joio do bom grão, e arroja

Para os abysmos a ruim semente.

XVI.

Não!—não foi sonho vão, vago delirio

De imaginar ardente. Eu fui levado,

Galgando além do tempo, ás tardas horas,

Em que se passam scenas de mysterio,

Para dizer:—Tremei! Do altar á sombra

Tambem ha mau-dormir de somno extremo!»—


Vejo ainda o que vi: da sepultura

Ainda o halito frio me enregela

O suor do pavor na fronte; o sangue

Hesita immoto nas inertes veias;

E embora os labios murmurar não ousem,

Ainda, incessante, me repete na alma

Íntima voz:—Tremei! Do altar á sombra

Tambem ha mau-dormir de somno extremo!»—

XVII.

Mas troa a voz do monge, e, emfim, desperto

O coração bateu. Eia, retumbem

Pelos ecchos do templo os sons dos psalmos,

Que em dia de afflicção ignoto vate

Teceu, banhado em dôr. Talvez foi elle

O primeiro cantor que em varias córdas,

Á sombra das palmeiras da Iduméa,

Soube entoar melodioso um hymno.

Deus inspirava então os trovadores

Do seu povo querido, e a Palestina,

Rica dos meigos dons da natureza,

Tinha o sceptro, tambem, do enthusiasmo.

Virgem o genio ainda, o estro puro

Louvava Deus sómente, á luz da aurora,

E ao esconder-se o sol entre as montanhas

De Bethoron.—Agora o genio é morto

Para o Senhor, e os cantos dissolutos

De lodoso folguedo os ares rompem,

Ou sussurram por paços de tyrannos,

Assellados de putrida lisonja,

Por preço vil, como o cantor que os tece.

XVIII.
O PSALMO.

Quanto é grande o meu Deus!.. Té onde chega

O seu poder immenso!

Elle abaixou os céus, desceu, calcando

Um nevoeiro denso.

Dos cherubins nas asas radiosas

Librando-se, voou;

E sobre turbilhões de rijo vento

O mundo rodeiou.

Ante o olhar do Senhor vacilla a terra,

E os mares assustados

Bramem ao longe, e os montes lançam fumo,

Da sua mão tocados.

Se pensou no Universo, ei-lo patente

Ante a face do Eterno:

Se o quiz, o firmamento os seios abre,

Abre os seios o inferno.

Dos olhos do Senhor, homem, se pódes,

Esconde-te um momento:

Vê onde encontrarás logar que fique

Da sua vista isento:

Sobe aos céus, transpõe mares, busca o abysmo,

Lá teu Deus has-de achar;

Elle te guiará, e a dextra sua

Lá te ha-de sustentar:

Desce á sombra da noite, e no seu manto

Involver-te procura...

Mas as trévas para elle não são trévas.

Nem é a noite escura.

No dia do furor, em vão buscáras

Fugir ante o Deus forte,

Quando do arco tremendo, irado, impelle

Setta em que pousa a morte.

Mas o que o teme dormirá tranquillo

No dia extremo seu,

Quando na campa se rasgar da vida

Das illusões o véu.

XIX.

Calou-se o monge: sepulchral silencio

Á sua voz seguiu-se. Uma toada

De orgam rompeu do côro. Assemelhava

O suspiro saudoso, e os ais de filha,

Que chora solitaria o pae, que dorme

Seu ultimo, profundo e eterno somno.

Melodias depois soltou mais doces

O severo instrumento: e ergueu-se o canto,

O doloroso canto do propheta,

Da patria sobre o fado. Elle, que o vira,

Sentado entre ruinas, contemplando

Seu avito esplendor, seu mal presente,

A quéda lhe chorou. Lá na alta noite,

Modulando o Nebel, via-se o vate

Nos derribados porticos, abrigo

Do immundo stellio e gemedora poupa,

Extasiado—e a lua scintillando

Na sua calva fronte, onde pesavam

Annos e annos de dôr. Ao venerando

Nas encovadas faces fundos regos

Tinham aberto as lagrymas. Ao longe,

Nas margens do Kedron, a ran grasnando

Quebrava a paz dos tumulos. Que tumulo

Era Sião!—o vasto cemiterio

Dos fortes de Israel. Mais venturosos

Que seus irmãos, morreram pela patria;

A patria os sepultou dentro em seu seio.

Elles, em Babylonia, aos punhos ferros,

Passam de escravos miseranda vida,

Que Deus pesou seus crimes, e, ao pesa-los,

A dextra lhe vergou. Não mais no templo

A nuvem repousára, e os céus de bronze

Dos prophetas aos rogos se amostravam.

O vate de Anathot a voz soltára

Entre o povo infiel, de Eloha em nome:

Ameaças, promessas, tudo inutil;

De bronze os corações não se dobraram.

Vibrou-se a maldicção. Bem como um sonho

Jerusalem passou: sua grandeza

Sómente existe em derrocadas pedras.

O vate de Anathot, sobre seus restos,

Com triste canto deplorou a patria.

Hymno de morte alçou: da noite as larvas

O som lhe ouviram: squallido esqueleto,

Rangendo os ossos, d'entre a hera e musgos

Do portico do templo erguia um pouco,

Alvejando, a caveira.—Era-lhe allivio

Do sagrado cantor a voz suave

Desferida ao luar, triste, no meio

Da vasta solidão que o circumdava.

O propheta gemeu: não era o estro,

Ou o vívido jubilo que outr'ora

Inspirára Moysés: o sentimento

Foi sim pungente de silencio e morte,

Que da patria lhe fez sobre o cadaver

A elegia da noite erguer e o pranto

Derramar da esperança e da saudade.

XX.
A LAMENTAÇÃO.

Como assim jaz e solitaria e quèda

Esta cidade outr'ora populosa!

Qual viuva ficou e tributaria

A senhora das gentes.

Chorou durante a noite; em pranto as faces,

Sósinha, entregue á dôr, nas penas suas

Ninguem a consolou: os mais queridos

Contrarios se tornaram.

Ermas as praças de Sião e as ruas,

Cobre-as a verde relva: os sacerdotes

Gemem; as virgens pallidas suspiram

Involtas na amargura.

Dos filhos de Israel nas cavas faces

Está pintada a macilenta fome;

Mendigos vão pedir, pedir a estranhos,

Um pão de infamia eivado.

O tremulo ancião, de longe, os olhos

Volve a Jerusalem, della fugindo;

Vê-a, suspira, cahe, e em breve expira

Com seu nome nos labios.

Que horror!—ímpias as mães os tenros filhos

Despedaçaram: barbaras quaes tigres,

Os sanguinosos membros palpitantes

No ventre sepultaram.

Deus, compassivo olhar volve a nós tristes:

Cessa de Te vingar! Vê-nos escravos,

Servos de servos em paiz estranho.

Tem dó de nossos males!

Acaso serás Tu sempre inflexivel?

Esqueceste de todo a nação tua?

O pranto dos hebreus não Te commove?

És surdo a seus lamentos?

XXI.

Doce era a voz do velho: o som do Nablo

Sonoro: o céu sereno: clara a terra

Pelo brando fulgor do astro da noite:

E o propheta parou. Erguidos tinha

Os olhos para o céu, onde buscava

Um raio de esperança e de conforto:

E elle calára já, e ainda os ecchos,

Entre as ruinas sussurrando, ao longe

Íam os sons levar de seus queixumes.

XXII.

Choro piedoso, o choro consagrado

Ás desditas dos seus. Honra ao propheta!

Oh margens do Jordão, paiz formoso

Que fostes e não sois, tambem suspiro

Condoído vos dou.—Assim fenecem

Imperios, reinos, solidões tornados!...

Não:—nenhum deste modo: o peregrino

Pára em Palmyra e pensa. O braço do homem

A sacudiu á terra, e fez dormissem

O seu ultimo somno os filhos della—

E elle o veio dormir pouco mais longe...

Mas se chega a Sião treme, enxergando

Seus lacerados restos. Pelas pedras,

Aqui e alli dispersas, ainda escripta

Parece ver-se uma inscripção de agouros,

Bem como aquella que aterrou um í­mpio

Quando, no meio de ruidosa festa,

Blasphemava dos céus, e mão ignota

O dia extremo lhe apontou dos crimes.

A maldicção do Eterno está vibrada

Sobre Jerusalem!—Quanto é terri­vel

A vingança de Deus! O Israelita,

Sem patria e sem abrigo, vagabundo,

Ódio dos homens, neste mundo arrasta

Uma existencia mais cruel que a morte,

E que vem terminar a morte e inferno.

Desgraçada nação!—Aquelle solo

Onde manava o mel, onde o carvalho,

O cedro e a palma o verde ou claro ou torvo,

Tão grato á vista, em bosques misturavam;

Onde o lyrio e a cecem nos prados tinham

Crescimento espontaneo entre as roseiras,

Hoje, campo de lagrymas, só cria

Humilde musgo de escalvados cerros.

XXIII.

Ide vós a Mambré.—Lá, bem no meio

De um valle, outr'ora de verdura ameno,

Erguia-se um carvalho magestoso.

Debaixo de seus ramos largos dias

Abrahão repousou. Na primavera

Vinham os moços adornar-lhe o tronco

De capellas cheirosas de boninas,

E coreias gentis traçar-lhe em roda.

Nasceu com o orbe a planta veneravel,

Viu passar gerações, julgou seu dia

Final fosse o do mundo, e quando airosa

Por entre as densas nuvens se elevava,

Mandou o Nume aos aquilões rugissem,

Ei-la por terra! As folhas, pouco a pouco,

Murcharam-se cahindo, e o rei dos bosques

Serviu de pasto aos tragadores vermes.

Deus estendeu a mão:—no mesmo instante

A vinha se mirrou: juncto aos ribeiros

Da Palestina os platanos frondosos

Não mais cresceram, como d'antes, bellos:

O armento, em vez de relva, achou nos prados

Sómente ingratas, espinhosas urzes.

No Golgotha plantada, a Cruz clamára

—Justiça!»—A tal clamor horrido espectro

No Moriá surgiu. Era seu nome

Assolação.—E despregando um grito,

Cahiu com longo som de um povo a campa.

Assim a herança de Judá, outr'ora

Grata ao Senhor, existe só nos ecchos

Do tempo que já foi, e que ha passado

Como hora de prazer entre desditas.

....................................................

XXIV.

Minha Patria onde existe?

É lá sómente!

Oh lembrança da Patria acabrunhada

Um suspiro tambem tu me has pedido;

Um suspiro arrancado aos seios d'alma

Pela offuscada gloria, e pelos crimes

Dos homens que ora são, e pelo opprobrio

Da mais illustre das nações da terra!

A minha triste Patria era tão bella,

E forte, e virtuosa! e ora o guerreiro

E o sabio e o homem bom acolá dormem,

Acolá, nos sepulchros esquecidos,

Que a seus netos infames nada contam

Da antiga honra e pudor e eternos feitos.

O escravo português agrilhoado

Carcomir-se lhes deixa juncto ás lousas

Os decepados troncos desse arbusto,

Por mãos delles plantado á liberdade,

E por tyrannos derribado em breve,

Quando patrias virtudes se acabaram,

Como um sonho da infancia!...

O vil escravo,

Immerso em vicios, em bruteza e infamia,

Não erguerá os macerados olhos

Para esses troncos, que destroem vermes

Sobre as cinzas de heroes, e, acceso em pejo,

Não surgirá jámais?—Não ha na terra

Coração português, que mande um brado

De maldicção atroz, que vá cravar-se

Na vigilia e no somno dos tyrannos,

E envenenar-lhes o prazer por noites

De vil prostituição, e em seus banquetes

De embriaguez lançar fel e amarguras?

Não!—Bem como um cadaver já corrupto,

A nação se dissolve: e em seu lethargo

O povo, involto na miseria, dorme.

XXV.

Oh, talvez, como o vate, ainda algum dia

Terei de erguer á Patria hymno de morte,

Sobre seus mudos restos vagueiando!

Sobre seus restos?—Nunca! Eterno, escuta

Minhas preces e lagrymas:—se em breve,

Qual jaz Sião, jazer deve Ulissea;

Se o anjo do extermi­nio ha-de risca-la

Do meio das nações, que d'entre os vivos

Risque tambem meu nome, e não me deixe

Na terra vagueiar, orpham de Patria.

XXVI.

Cessou da noite a grão solemnidade

Consagrada á tristeza, e a memorandas

Recordações:—os monges se prostraram,

A face unida á pedra. A mim, a todos

Correm dos olhos lagrymas suaves

De compuncção. Atheu, entra no templo;

Não temas esse Deus, que os labios negam,

E o coração confessa. A corda do arco

Da vingança, em que a morte se debruça,

Frouxa está; Deus é bom: entra no templo.

Tu para quem a morte ou vida é fórma,

Fórma sómente de mais puro barro,

Que nada crês, e em nada esperas, olha,

Olha o conforto do christão. Se o calis

Da amargura a provar os céus lhe deram,

Elle se consolou: balsamo sancto

Piedosa fé no coração lhe verte.

—«Deus compaixão terá!—Eis seu gemido:

Porque a esperança lhe sussurra em torno:

—Aqui, ou lá... a Providencia é justa.»

Atheu, a quem o mal fizera escravo,

Teu futuro qual é? Quaes são teus sonhos?

No dia da afflicção emmudeceste

Ante o espectro do mal. E a quem alçáras

O gemente clamor?—Ao mar, que as ondas

Não altera por ti?—Ao ar, que some

Pela sua amplidão as queixas tuas?

Aos rochedos alpestres, que não sentem,

Nem sentir podem teu gemido inutil?

Tua dôr, teu prazer existem, passam,

Sem porvir, sem passado, e sem sentido.

Nas angustias da vida, o teu consolo

O suicidio é só, que te promette

Rica messe de goso, a paz do nada!—

E ai de ti, se buscaste, emf­im, repouso,

No limiar da morte indo assentar-te!

Alli grita uma voz no ultimo instante

Do passamento: a voz atterradora

Da consciencia é ella. E has-de escuta-la

Mau grado teu: e tremerás em sustos,

Desesperado aos céus erguendo os olhos

Irados, de través, amortecidos;

Aos céus, cujo caminho a Eternidade

Co'a vagarosa mão te vai cerrando,

Para guiar-te á solidão das dôres,

Onde maldigas teu primeiro alento,

Onde maldigas teu extremo arranco,

Onde maldigas a existencia e a morte.

XXVII.

Calou tudo no templo: o céu é puro,

A tempestade ameaçadora dorme.

No espaço immenso os astros scintillantes

O Rei da creação louvam com hymnos,

Não ouvidos por nós nas profundezas

Do nosso abysmo. E aos cantos do Universo,

Ante milhões de estrellas, que recamam

O firmamento, ajunctará seu canto

Mesquinho trovador?—Que vale uma harpa

Mortal no meio da harmonia etherea,

No concerto da noite? Oh, no silencio,

Eu pequenino verme irei sentar-me

Aos pés da Cruz nas trévas do meu nada.

Assim se apaga a lampada nocturna

Ao despontar do sol o alvor primeiro:

Por entre a escuridão deu claridade;

Mas do dia ao nascer, que já rutíla,

As torrentes de luz vertendo ao longe,

Da lampada o clarão sumiu-se, inutil,

Nesse fulgido mar, que inunda a terra.

A VOZ.

Índice de conteúdo

É tão suave ess' hora,

Em que nos foge o dia,

E em que suscita a lua

Das ondas a ardentia,

Se em alcantis marinhos,

Nas rochas assentado,

O trovador medita

Em sonhos enleiado!

O mar azul se encrespa

Co'a vespertina brisa,

E no casal da serra

A luz ja se divisa.

E tudo em roda cala

Na praia sinuosa,

Salvo o som do remanso

Quebrando em furna algosa.

Alli folga o poeta

Nos desvarios seus,

E nessa paz que o cérca

Bemdiz a mão de Deus.

Mas despregou seu grito

A alcyone gemente,

E nuvem pequenina

Ergueu-se no occidente:

E sóbe, e cresce, e immensa

Nos céus negra fluctua,

E o vento das procellas

Já varre a fraga nua.

Turba-se o vasto oceano,

Com horrido clamor;

Dos vagalhões nas ribas

Expira o vão furor

E do poeta a fronte

Cubriu véu de tristeza:

Calou, á luz do raio,

Seu hymno á natureza.

Pela alma lhe vagava

Um negro pensamento,

Da alcyone ao gemido,

Ao sibillar do vento.

Era blasphema idéa,

Que triumphava emfim;

Mas voz soou ignota,

Que lhe dizia assim:

—«Cantor, esse queixume

Da nuncia das procellas,

E as nuvens, que te roubam

Myriadas de estrellas,

E o frémito dos euros,

E o estourar da vaga,

Na praia, que revolve,

Na rocha, onde se esmaga,

Onde espalhava a brisa

Sussurro harmonioso,

Em quanto do ether puro

Descia o sol radioso,

Typo da vida do homem,

É do universo a vida;

Depois do afan repouso,

Depois da paz a lida.

Se ergueste a Deus um hymno

Em dias de amargura;

Se te amostraste grato

Nos dias de ventura,

Seu nome não maldigas

Quando se turba o mar:

No Deus, que é pae, confia,

Do raio ao scintillar.

Elle o mandou: a causa

Disso o universo ignora,

E mudo está. O nume,

Como o universo, adora!»—

Oh sim, torva blasphemia

Não manchará seu canto!

Brama a procella embora;

Pése sobre elle o espanto;

Que de sua harpa os hymnos

Derramará contente

Aos pés de Deus, qual oleo

Do nardo recendente.

A ARRABIDA.

Índice de conteúdo

I.

Salve, oh valle do sul, saudoso e bello!

Salve, oh patria da paz, deserto sancto,

Onde não ruge a grande voz das turbas!

Sólo sagrado a Deus, podesse ao mundo

O poeta fugir, cingir-se ao ermo,

Qual ao freixo robusto a fragil hera,

E a romagem do tumulo cumprindo,

Só conhecer, ao despertar na morte,

Essa vida sem mal, sem dôr, sem termo,

Que íntima voz contínuo nos promette

No transito chamado o viver do homem.

II.

Suspira o vento no alamo frondoso;

As aves soltam matutino canto;

Late o lebreu na encosta, e o mar sussurra

Dos alcantís na base carcomida:

Eis o ruí­do de ermo!—Ao longe o negro,

Insondado oceano, e o céu ceruleo

Se abraçam no horisonte.—Immensa imagem

Da eternidade e do infinito, salve!

III.

Oh, como surge magestosa e bella,

Com viço da creação, a natureza

No solitario valle!—E o leve insecto

E a relva e os matos e a fragrancia pura

Das boninas da encosta estão contando

Mil saudades de Deus, que os ha lançado,

Com mão profusa, no regaço ameno

Da solidão, onde se esconde o justo.

E lá campeiam no alto das montanhas

Os escalvados pincaros, severos,

Quaes guardadores de um logar que é sancto;

Atalaias que ao longe o mundo observam,

Cerrando até o mar o ultimo abrigo

Da crença viva, da oração piedosa,

Que se ergue a Deus de labios innocentes.

Sobre esta scena o sol verte em torrentes

Da manhan o fulgor; a brisa esvaí-se

Pelos rosmaninhaes, e inclina os topos

Do zimbro e alecrineiro, ao rez sentados

Desses thronos de fragas sobrepostas,

Que alpestres matas de medronhos vestem;

O rocío da noite á branca rosa

No seio derramou frescor suave,

E 'inda existencia lhe dará um dia.

Formoso ermo do sul, outra vez, salve!

IV.

Negro, esteril rochedo, que contrastas,

Na mudez tua, o placido sussurro

Das arvores do valle, que vecejam

Ricas d'encantos, co' a estação propicia;

Suavissimo aroma, que, manando

Das variegadas flores, derramadas

Na sinuosa encosta da montanha,

Do altar da solidão subindo aos ares,

És digno incenso ao Creador erguido;

Livres aves, vós filhas da espessura,

Que só teceis da natureza os hymnos,

O que crê, o cantor, que foi lançado,

Estranho ao mundo, no bulicio delle,

Vem saudar-vos, sentir um goso puro,

Dos homens esquecer paixões e opprobrio,

E ver, sem ver-lhe a luz prestar a crimes,

O sol, e uma só vez pura saudar-lh'a.

Comvosco eu sou maior; mais longe a mente

Pelos seios dos céus se immerge livre,

E se desprende de mortaes memorias

Na solidão solemne, onde, incessante,

Em cada pedra, em cada flor se escuta

Do Sempiterno a voz, e vê-se impressa

A dextra sua em multiforme quadro.

V.

Escalvado penedo, que repousas

Lá no cimo do monte, ameaçando

Rui­na ao roble secular da encosta,

Que somnolento move a coma estiva

Ante a aragem do mar, foste formoso;

Já te cubriram cespedes virentes;

Mas o tempo voou, e nelle involta

A formosura tua. Despedidos

Das negras nuvens o chuveiro espesso

E o granizo, que o sólo fustigando

Tritura a tenra lanceolada relva,

Durante largos seculos, no inverno,

Dos vendavaes no dorso a ti desceram,

Qual amplexo brutal de ardor grosseiro,

Que, maculando virginal pureza,

Do pudor varre a aureola celeste,

E deixa, em vez de um seraphim na terra,

Queimada flor que devorou o raio.

VI.

Cáveira da montanha, ossada immensa,

É tua campa o céu: sepulchro o valle

Um dia te será. Quando sentires

Rugir com som medonho a terra ao longe,

Na expansão dos volcões, e o mar, bramindo,

Lançar á praia vagalhões cruzados;

Tremer-te a larga base, e sacudir-te

De sobre si, o fundo deste valle

Te vai servir de tumulo; e os carvalhos

Do mundo primogenitos, e os sobros,

Arrastados por ti lá da collina,

Comtigo hão-de jazer. De novo a terra

Te cubrirá o dorso sinuoso:

Outra vez sobre ti nascendo os lyrios,

Do seu puro candor hão-de adornar-te;

E tu, ora medonho e nú e triste,

Ainda bello serás, vestido e alegre.

VII.

Mais que o homem feliz!—Quando eu no valle

Dos tumulos cahir; quando uma pedra

Os ossos me esconder, se me fôr dada,

Não mais reviverei; não mais meus olhos

Verão, ao pôr-se, o sol em dia estivo,

Se em turbilhões de purpura, que ondeiam

Pelo extremo dos céus sobre o occidente,

Vai provar que um Deus ha a estranhos povos

E além das ondas trémulo sumir-se;

Nem, quando, lá do cimo das montanhas,

Com torrentes de luz inunda as veigas:

Não mais verei o refulgir da lua

No irrequieto mar, na paz da noite,

Por horas em que véla o criminoso,

A quem íntima voz rouba o socego,

E em que o justo descança, ou, solitario,

Ergue ao Senhor um hymno harmonioso.

VIII.

Hontem, sentado n'um penhasco, e perto

Das aguas, então quêdas, do oceano,

Eu tambem o louvei sem ser um justo:

E meditei, e a mente extasiada

Deixei correr pela amplidão das ondas.

Como abraço materno era suave

A aragem fresca do cahir das trévas,

Emquanto, involta em gloria, a clara lua

Sumia em seu fulgor milhões d'estrellas.

Tudo calado estava: o mar sómente

As harmonias da creação soltava,

Em seu rugido; e o ulmeiro do deserto

Se agitava, gemendo e murmurando,

Ante o sopro de oeste:—alli dos olhos

O pranto me correu sem que o sentisse,

E aos pés de Deus se derramou minha alma.

IX.

Oh, que viesse o que não crê, comigo,

Á vecejante Arrabida de noite,

E se assentasse aqui sobre estas fragas,

Escutando o sussurro incerto e triste

Das movediças ramas, que povôa

De saudade e de amor nocturna brisa;

Que visse a lua, o espaço oppresso de astros,

E ouvisse o mar soando:—elle chorára,

Qual eu chorei, as lagrymas do goso,

E adorando o Senhor detestaria

De uma sciencia van seu vão orgulho.

X.

É aqui neste valle, ao qual não chega

Humana voz e o tumultuar das turbas,

Onde o nada da vida sonda livre

O coração, que busca ir abrigar-se

No futuro, e debaixo do amplo manto

Da piedade de Deus: aqui serena

Vem a imagem da campa, como a imagem

Da patria ao desterrado; aqui, solemne,

Brada a montanha, memorando a morte.

Essas penhas, que, lá no alto das serras

Nuas, crestadas, solitarias dormem,

Parecem imitar da sepultura

O aspecto melancholico e o repouso

Tão desejado do que em Deus confia.

Bem semelhante á paz, que se ha sentado

Por seculos, alli, nas cordilheiras

É o silencio do adro, onde reunem

Os cyprestes e a cruz, o céu e a terra.

Como tu vens cercado de esperança,

Para o innocente, oh placido sepulchro!

Juncto das tuas bordas pavorosas

O perverso recúa horrorisado:

Após si volve os olhos; na existencia

Deserto árido só descobre ao longe,

Onde a virtude não deixou um trilho.

Mas o justo, chegando á meta extrema,

Que separa de nós a eternidade,

Transpõe-na sem temor, e em Deus exulta.

O infeliz e o feliz lá dormem ambos,

Tranquillamente: e o trovador mesquinho,

Que peregrino vagueiou na terra,

Sem encontrar um coração ardente

Que o entendesse, a patria de seus sonhos,

Ignota, por lá busca; e quando as eras

Vierem juncto ás cinzas collocar-lhe

Tardios louros, que escondera a inveja,

Elle não erguerá a mão mirrada,

Para os cingir na regelada fronte.

Justiça, gloria, amor, saudade, tudo,

Ao pé da sepultura, é som perdido

De harpa eolia esquecida em brenha ou selva:

O despertar um pae, que saboreia

Entre os braços da morte o extremo somno,

Já não é dado ao filial suspiro;

Em vão o amante, alli, da amada sua

De rosas sobre a c'roa debruçado,

Réga de amargo pranto as murchas flores

E a fria pedra: a pedra é sempre fria,

E para sempre as flores se murcharam.

XI.

Bello ermo! eu hei-de amar-te, emquanto esta alma,

Aspirando o futuro além da vida

E um halito dos ceus, gemer atada

Á columna do exilio, a que se chama

Em lingua vil e mentirosa o mundo.

Eu hei-de amar-te, oh valle, como um filho

Dos sonhos meus. A imagem do deserto

Guarda-la-hei no coração, bem juncto

Com minha fé, meu unico thesouro.

Qual pomposo jardim de verme illustre,

Chamado rei ou nobre, ha-de comtigo

Comparar-se, oh deserto? Aqui não cresce

Em vaso de alabastro a flor captiva,

Ou arvore educada por mão de homem,

Que lhe diga—és escrava» e erga um ferro

E lhe decepe os troncos. Como é livre

A vaga do oceano é livre no ermo

A bonina rasteira e o freixo altivo!

Não lhes diz—nasce aqui, ou lá não cresças»

Humana voz. Se baqueou o freixo,

Deus o mandou: se a flor pendida murcha,

É que o rocío não desceu de noite,

E da vida o Senhor lhe nega a vida.

Céu livre, terra livre, e livre a mente,

Paz intima, e saudade, mas saudade

Que não dóe, que não mirra, e que consola,

São as riquezas do ermo, onde sorriem

Das procellas do mundo os que o deixaram.

XII.

Alli naquella encosta, hontem de noite,

Alvejava por entre os medronheiros

Do solitario a habitação tranquilla:

E eu vagueei por lá. Patente estava

O pobre alvergue do eremita humilde,

Onde jazia o filho da esperança

Sob as asas de Deus, á luz dos astros,

Em leito, duro sim, não de remorsos.

Oh, com quanto socego o bom do velho

Dormia! A leve aragem lhe ondeiava

As raras cans na fronte, onde se lia

A bella historia de passados annos.

De alto choupo através passava um raio

Da lua—astro de paz, astro que chama

Os olhos para o céu, e a Deus a mente—

E em luz pallida as faces lhe banhava:

E talvez neste raio o Pae celeste

Da patria eterna lhe enviava a imagem,

Que o sorriso dos labios lhe fugia,

Como se um sonho de ventura e gloria

Na terra de antemão o consolasse.

E eu comparei o solitario obscuro

Ao inquieto filho das cidades:

Comparei o deserto silencioso

Ao perpetuo ruido que sussurra

Pelos palacios do abastado e nobre,

Pelos paços dos reis; e condoí-me

Do cortezão suberbo, que só cura

De honras, haveres, gloria, que se compram

Com maldicções e perennal remorso.

Gloria! A sua qual é? Pelas campinas,

Cubertas de cadaveres, regadas

De negro sangue, elle segou seus louros;

Louros que vão cingir-lhe a fronte altiva

Ao som do choro da viuva e do orpham;

Ou, dos sustos senhor, em seu delirio,

Os homens, seus irmãos, flagella e opprime

Lá o filho do pó se julga um nume,

Porque a terra o adorou: o desgraçado

Pensa, talvez, que o verme dos sepulchros

Nunca se ha-de chegar para traga-lo

Ao banquete da morte, imaginando

Que uma lagea de marmore, que esconde

O cadaver do grande, é mais duravel

Do que esse chão sem inscripção, sem nome,

Por onde o oppresso, o misero, procura

O repouso, e se atira aos pés do throno

Do Omnipotente, a demandar justiça

Contra os fortes do mundo, os seus tyrannos.

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Release date on Litres:
16 January 2025
Volume:
120 p. 1 illustration
ISBN:
4064066408183
Publishers:
Copyright Holder::
Bookwire
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