Read the book: «Paixão cruel - Três semanas em Atenas»

Font::

Editado por Harlequin Ibérica.

Uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

Núñez de Balboa, 56

28001 Madrid

© 2020 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

N.º 107 - dezembro 2020

© 2009 Janette Kenny

Paixão cruel

Título original: Pirate Tycoon, Forbidden Baby

Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd.

© 2009 Abby Green

Três semanas em Atenas

Título original: Ruthless Greek Boss, Secretary Mistress

Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd.

Estes títulos foram publicados originalmente em português em 2010

Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial.

Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.

Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), acontecimientos ou situações são pura coincidência.

® Harlequin e logótipo Harlequin são marcas registadas propriedades de Harlequin Enterprises Limited.

® e ™ são marcas registadas por Harlequin Enterprises Limited e suas filiais, utilizadas com licença.

As marcas em que aparece ® estão registadas na Oficina Española de Patentes y Marcas e noutros países.

Imagem de portada utilizada com a permissão de Dreamstime.com

I.S.B.N.: 978-84-1375-273-0

Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.

Sumário

Créditos

Paixão cruel

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

Três semanas em Atenas

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Se gostou deste livro…

Paixão cruel


Capítulo 1

Kira Montgomery encostou a cara contra a marquesa e mexeu-se ligeiramente, tentando relaxar a tensão que lhe intumescia o pescoço e os ombros. Impossível.

A massagista tinha «saído por um momento», mas deixar um cliente à espera durante quinze minutos era um comportamento totalmente inapropriado.

O Château Mystique não suportaria mais publicidade negativa.

As mortes trágicas recentes, juntamente com os consequentes escândalos associados ao hotel de cinco estrelas de Las Vegas, tinham tido um impacto negativo tanto no sector económico como no pessoal.

Para desestabilizar ainda mais a sua vida pessoal, o médico confirmara os seus receios. Estava grávida.

Tremendo de raiva, Kira respirou fundo e susteve a respiração. Depois, expirou lentamente, tal como lhe fora recomendado pela massagista, mas isso também não conseguiu tranquilizá-la. Nem isso nem nada.

Desde que seguira o conselho do seu advogado e aceitara viajar para a ilha caribenha de Petit Saint Marc para uma reunião com André Gauthier, a vida de Kira transformara-se num pesadelo caótico.

O multimilionário assegurara-lhe que ele não sabia daquela reunião e recusara-se a divulgar como conseguira ficar com parte das acções do seu hotel. Embora ela se sentisse frustrada e furiosa com ele, ficara totalmente dominada pela força da sua personalidade e pela sua capacidade para debater qualquer assunto.

O homem estimulara-a mentalmente com os seus argumentos e, fisicamente, fora capaz de a excitar como nenhum homem fizera antes, mas ela recusara aceitar a sua oferta de compra das suas acções. André Gauthier tinha uma participação menor e era tudo a que podia aspirar.

O Château Mystique era o seu lar, o seu sonho, o seu legado e para ela não fazia sentido continuar mais tempo na ilha.

Não tinha nenhum motivo senão o puro desejo.

Porque André Gauthier despertara nela uma paixão ardente e um desejo profundo. Por outro lado, ela era uma mulher adulta e tinha todo o direito de ter uma aventura sem mais consequências.

No entanto, treze semanas mais tarde, Kira continuava a ser incapaz de esquecer a sua noite de paixão fugaz e o escândalo que se seguira na manhã seguinte ao seu encontro em todas as publicações de imprensa cor-de-rosa do país. E não conseguia esquecer André Gauthier, o pai do filho que esperava, o homem que aparecera na imprensa económica como autor de uma tentativa desumana de destruir a Bellamy Enterprises.

Porque é que os accionistas obrigariam Peter Bellamy a vender o império do seu pai?

Talvez estivessem dispostos a uma fusão, como a que ela procurara com André antes de perceber a sua perfídia.

Que ingénua! Se no início só se preocupava com o acordo com André sobre o Château, agora a ideia de ter um filho em comum desestabilizava-a pessoalmente. Como conseguiria contar a um amante fugaz, do qual se separara com hostilidade, que seria pai em breve?

As náuseas que a tinham acompanhado constantemente durante as últimas semanas ameaçaram aparecer novamente. Kira concentrou-se nas instruções do médico em vez de pegar no telefone e telefonar a André para lhe contar a notícia.

A porta abriu-se e ela afastou André da sua mente para enfrentar a massagista.

– Espero que tenha uma boa desculpa para me deixar à espera durante quinze minutos – disse, sem se endireitar.

Mas as suas palavras não obtiveram resposta.

Kira franziu o sobrolho, com a sensação inquietante de que havia alguém à porta a observá-la.

Alguém que não devia estar ali.

Um arrepio de ansiedade percorreu-lhe as costas e ela tremeu, apesar da manta deliciosa que lhe cobria o corpo nu.

– Quem está aí?

– Bonjour, ma chérie – disse um homem, num tom grave e penetrante.

André Gauthier! Em vez de retribuir a sua chamada, fora vê-la!

O primeiro impulso de Kira foi levantar-se da marquesa e precipitar-se para os seus braços, mesmo que fosse apenas para se certificar de que não era um sonho. Mesmo que fosse apenas para o acariciar, para o beijar, para sentir novamente as suas mãos e a sua boca.

– Sugiro que deixemos esta conversa para mais tarde, quando estiver apresentável – disse ela, fazendo um esforço para controlar as suas emoções.

– Não vim para falar.

Ele aproximou-se lentamente da marquesa.

O homem apoiou uma mão nas costas femininas, à altura da cintura, marcando-a com o calor da palma, recordando-lhe que, da última vez que lhe tocara, a perdera num verdadeiro mar de paixão e prazer.

Embora também não precisasse de se esforçar para a fazer lembrar-se.

Mas onde antes sentira o ardor masculino, agora sentia apenas o seu antagonismo. Totalmente dirigido para ela.

A raiva masculina não era o melhor augúrio para a notícia que tinha de lhe dar.

– Então, porque vieste? – perguntou ela, com um tremor incontrolável na voz.

– Para reclamar o que é meu.

Kira cravou as unhas na marquesa. Claro, estava ali para continuar a negociar o hotel Château Mystique. Não por ela.

Kira esperara aquela conversa. Embora numas circunstâncias muito diferentes, com ela vestida e em total controlo das suas emoções, na reunião de direcção que tinham marcado para daí a duas semanas, não nua, deitada numa marquesa e a tremer de desejo.

André percorreu-lhe a coluna vertebral com a mão, deslizando lentamente a toalha sobre a pele. Ela cerrou os dentes, lutando contra as emoções que a embargavam, irritação, desejo, necessidade…

Era uma batalha perdida.

Desde que o vira pela primeira vez, Kira soubera tudo o que ele era, reconhecera a intensidade da sua presença, a virilidade do seu corpo e do seu cheiro, mistura de homem e de mar.

Os dedos masculinos deslizaram sobre as costas nuas numa carícia sedosa, enchendo os seus sentidos de lembranças espontâneas dos beijos embriagadores que continuavam gravados na sua mente, das mãos experientes que a tinham levado ao topo do prazer e da noite partilhada, a experiência mais intensa e apaixonada da sua vida.

Aquela carícia firme, mas suave, impedia-a de pensar. O seu corpo reagiu traiçoeiramente e Kira sentiu como os seus seios reagiam e os mamilos se arrepiavam.

Com muita dificuldade, conteve um suspiro de prazer. Uma sensação intensa e sensual começou a convergir na união das pernas, fazendo-a tremer de desejo. Maldito!

– Este não é lugar para falar de negócios.

– Lamento discordar.

O barulho de papel ouviu-se no silêncio. Uma pasta apareceu à frente dos seus olhos.

Kira deixou escapar um suspiro, certa de que seria outra oferta tão vaga como as anteriores pelo Château. Mas ao ler o título sentiu-se atónita.

Não! Não podia ser! Leu cada palavra sem conseguir acreditar no que via.

– Que é isto? Queres enganar-me? – perguntou ela.

– Nada de enganos, ma chérie. Como podes verificar, sou o accionista maioritário do Château Mystique.

Impossível! As acções de Edouard tinham de passar para as suas mãos depois da leitura do testamento e ainda faltavam duas semanas para isso. Edouard prometera-lhe que, depois da sua morte, ela teria o controlo maioritário do hotel.

No entanto, o documento demonstrava que as acções de Edouard tinham caído nas mãos daquele multimilionário arrogante. Kira duvidou da sua validade, apesar de ter a assinatura do seu advogado, uma assinatura que vira em inumeráveis ocasiões.

Uma vez mais, sentiu-se traída, usada e abandonada.

André controlava o seu hotel, o seu lar, e se lhe permitisse, acabaria por controlá-la também.

A mão masculina deslizou sobre os seus ombros numa falsa carícia e ela tremeu, encolerizada como nunca antes.

André desatou a rir-se, sem dúvida, desfrutando da reacção feminina, e a humilhação de Kira foi completa.

– Levanta-te.

Kira endireitou-se rapidamente, cobrindo o peito com a toalha e abanando a cabeça para afastar o cabelo da cara, tão furiosa e surpreendida que nem sequer viu o brilho de admiração nos olhos masculinos ao olhar para ela.

Pelo menos, estavam sozinhos. Sabia que André nunca saía sem o seu guarda-costas, um valentão que certamente estava no corredor, certificando-se de que ninguém os interrompia.

Levantando o olhar, Kira percorreu o corpo alto e musculado de André, vestido com um fato cinzento de corte impecável que marcava ainda mais a largura dos ombros e do peito poderosa. A camisa, imaculadamente branca, contrastava com a pele bronzeada, e a gravata prateada condizia com o relógio de platina que, certamente, custava mais do que ela ganhava por ano.

Kira sentiu que o seu coração acelerava traiçoeiramente ao recordar como gostara de ter aquele corpo colado ao dela, aquelas mãos compridas e esbeltas a levá-la várias vezes ao topo do prazer.

Com ele, fora assim desde o princípio. Duas horas depois de se conhecerem, estavam nos braços um do outro a fazer amor com uma urgência e uma paixão que a fizera ignorar as consequências de cair na cama de André.

«Diz-lhe qual foi o resultado da aventura», gritava uma voz repetidamente na sua mente. «Diz-lhe de uma vez.»

Com mãos trémulas, Kira olhou para ele nos olhos. Uma onda violenta de emoções caiu sobre ela, deixando-a sem forças. Não, aquele não era o momento.

– Veste-te! – ordenou ele.

Kira virou-lhe as costas e vestiu um vestido de Verão de seda azul sem conseguir evitar o tremor das suas mãos e os batimentos fortes do seu coração por o ter tão perto. Sob o olhar masculino sentia-se tremendamente vulnerável.

– Suponho que agora quererás comprar as minhas acções – disse ela.

– Oui.

– Não estão à venda.

– Não ouviste a minha oferta.

– Não é necessário – disse ela, fingindo uma coragem que não sentia. – Não vou vender.

Ele arqueou uma sobrancelha, como se questionasse a sua afirmação.

– Todos têm um preço.

– Eu não.

– Veremos – André apontou para a porta com a cabeça. – Tu primeiro.

– É melhor despedir-me de ti aqui. Ver-nos-emos na reunião da direcção dentro de duas semanas – declarou ela, mantendo-se firme.

O sorriso masculino era glacial.

– Tu vens comigo, ma chérie.

– Isso querias tu… – disse ela, detestando o tremor na sua voz.

– Vou levar-te ao colo se for necessário, mas tu vens comigo para Petit Saint Marc.

A ilha das Caraíbas? Ficara louco?

– Para quê?

– Para me vingar do teu amante, ma chérie.

– Estás a perder tempo, porque eu não tenho amante.

– Sei que estás nisto com Peter Bellamy desde o começo.

– Peter? – Kira deu uma gargalhada histérica. – Garanto-te que não é meu amante.

– Poupa-me as mentiras. Conheço a verdade.

André não podia estar mais enganado, mas Kira percebeu que, se não acreditava naquilo, nunca acreditaria que ele era o pai do bebé que esperava.

– Não tenciono ir contigo a lado nenhum. Vai para o…

André estalou os dedos e ela deu um salto, batendo com as costas contra a parede.

– Não me custaria destruir o hotel – ameaçou ele. – E, então, as tuas acções não valeriam nada. É isso que queres?

Aquilo era chantagem! E no mínimo sequestro! Mas não podia permitir que destruísse o hotel em que investira todos os seus sonhos e todo o seu futuro.

– Não, mas não posso ir e deixar tudo de um momento para o outro – disse ela, consciente de que as palavras de André eram verdadeiras.

– Claro que podes e fá-lo-ás – André segurou-a pelo braço e levou-a até à porta, embora o contacto fosse surpreendentemente suave.

Está bem, disse para si. Voltaria para a ilha com ele. Talvez lá tivesse a oportunidade de lhe falar do filho que esperava. Talvez lá conseguisse raciocinar com ele sobre o Château e convencê-lo de que era seu por direito.

André Gauthier olhou para a mulher hipócrita que caminhava pelo corredor à frente dele, abanando suavemente as ancas que eram um convite para qualquer homem. Não era de estranhar que Bellamy lhe tivesse oferecido quarenta e nove por cento das acções do Château Mystique.

Kira Montgomery era a sexualidade personificada. Certamente, enganara-o e seduzira-o praticamente sem se esforçar.

Ele sempre se orgulhara do controlo férreo que tinha sobre si próprio e o mundo que o rodeava, até Kira invadir a sua ilha há três meses.

André não se surpreendera ao descobrir que Bellamy enviara uma mulher para negociar com ele depois de ter rejeitado a sua última oferta para comprar o Château. O velho contara com os encantos de Kira para obter os seus objectivos e, certamente, funcionara. Pelo menos por uma noite, André vira-se preso no debate mais estimulante da sua vida e só mais tarde é que percebera até onde chegava o engano.

Não fora o velho Bellamy que a enviara, mas o seu filho Peter. O seu mais feroz rival. O homem que, provavelmente, preparara o caminho que conduzira ao acidente de viação em que morrera a amante de Edouard e que o deixara moribundo no leito de um hospital.

Kira não era apenas a amante de Peter, mas também o cérebro da manobra usada para acabar com o velho Bellamy e que lhe dera finalmente o controlo do Château Mystique.

Mas a sua traição tirara a André algo muito mais valioso do que propriedades materiais.

Participara na destruição do que restava da sua família.

A sua irmã Suzette.

Kira traíra-o e o que ele desejava acima de tudo era vingança. Ela estaria na ilha à sua mercê quando ele lançasse o ataque definitivo para ficar com a Bellamy Enterprises.

Em silêncio, ambos subiram para o quinto andar. Kira ia à frente e André seguiu-a até uma porta que ela abriu com um cartão magnético. A suíte era pequena, nada espectacular, mas muito acolhedora e agradável. André percebeu que tinha alguns toques muito pessoais, próprios do típico salão inglês, e de que cheirava à mesma fragrância floral que ela.

– Não precisarás de muita bagagem – disse ele, irritado com a ideia de aquele ser o lugar onde recebia o seu amante, Peter Bellamy.

– Tencionas manter-me fechada num quarto o dia todo? – perguntou ela, ficando tensa.

– Se for preciso – ameaçou-a ele, com os dentes cerrados. – Conheço-te bem e não quero voltar a arriscar. Tenho provas da tua participação no plano de Bellamy.

Kira olhou para ele, boquiaberta, como se não conseguisse acreditar no que estava a ouvir.

– Não sei a que te referes.

O sorriso de André era tão forçado como a tensão reinava na suíte.

– O trabalho que algumas pessoas têm para destruir todos os vestígios em papel nunca deixa de me surpreender, mas esquecem-se dos registos electrónicos – foi o comentário irónico de André, que ela não compreendeu. – E chega de perder tempo, arruma as tuas coisas e vamos embora.

Kira entrou no quarto como alguém a caminho da guilhotina. Naquele momento, o telemóvel de André tocou e ele atendeu imediatamente. Era o seu guarda-costas.

– O que foi?

– Peter Bellamy acabou de chegar – disse o homem, num tom profissional.

André lançou um olhar acusador a Kira, que parecia estar unicamente concentrada em fazer a mala. Não a perdera de vista, por isso ou Bellamy estava a fazer uma visita surpresa ao Château para ver a sua amante ou algum empregado de Kira avisara-o por telefone.

– Não o percas de vista – André pôs o telemóvel no bolso. – Vais demorar muito?

– Só preciso de mais algumas coisas e do portátil – disse ela, aproximando-se de uma secretária e fechando um computador portátil. – Aqui tenho tudo o que preciso para continuar a gerir o hotel em qualquer lugar do mundo.

– Não pensarás continuar a trabalhar…

– É claro que sim, não sou das que ficam de braços cruzados – garantiu ela. – E não preciso da tua permissão.

– Não tenhas assim tanta certeza.

André teve a satisfação de a ver empalidecer antes de o telemóvel tocar novamente.

– Estão aqui os paparazzi – disse o seu guarda-costas. – Estão atrás de Peter Bellamy.

Não. Era a última coisa de que precisava. Ver-se envolvido noutro confronto público com Kira.

– Temos de sair sem que a imprensa nos veja. Ou preferes repetir o episódio da última vez?

Ela corou e abanou a cabeça.

– A melhor opção é a porta de serviço.

André repetiu-o ao guarda-costas.

– Vemo-nos lá dentro de cinco minutos.

– Mas ainda não estou pronta.

André praguejou em voz baixa e consultou o relógio.

– Tens três minutos. Depois iremos, quer estejas vestida… – deslizou o olhar pelo corpo feminino sem esconder a sua admiração, – ou não.

Praguejando, Kira pegou num conjunto de roupa interior de renda e correu para o roupeiro. André fez menção de a seguir.

– Nem penses em aproximar-te – disse ela.

– Não me passaria pela cabeça – declarou ele, dirigindo-se para a cama para fechar a mala e pô-la no chão.

Com apenas cinco segundos de sobra, Kira saiu do roupeiro com uma saia estampada que lhe marcava as nádegas e as coxas e deixava os joelhos e a barriga das pernas a descoberto e com uma camisola de Verão turquesa perfeitamente moldada aos seios que ele conhecia tão bem. Inconscientemente, ele sentiu-os novamente nas palmas das mãos enquanto ela calçava umas sandálias de salto alto e punha o nécessaire numa pequena mala de viagem. Depois, procurou a sua mala e pegou no telemóvel. Rapidamente, André tirou-lhe a mala e o telefone, que deixou numa estante.

– Portanto, conseguiste telefonar a Peter? – perguntou ele, brincalhão, segurando a mala e dirigindo-se para a porta.

– Deixei uma mensagem ao meu advogado.

– Espero que tenha sido de despedida – André abriu a porta e convidou-a a sair.

Kira olhou para a estante uma última vez e, com a cabeça erguida, saiu para o corredor. André seguia-a, observando o movimento sinuoso das suas ancas. Ela entrou no elevador e André fez o mesmo. A bagagem obrigou-os a ficarem mais próximos.

As portas começaram a fechar-se e, exactamente naquele momento, começaram a abrir-se as portas do elevador da frente. Durante uma décima de segundo, ambas as portas permaneceram abertas e André olhou para Peter Bellamy. O seu rival olhou para ele com raiva e, depois, fixou o olhar em Kira.

Ao vê-la tão perto de André, Peter ficou boquiaberto: a sua amante ia fugir com o seu inimigo. Furioso, fixou novamente o olhar em André.

Ele sorriu, passou um braço pelo ombro feminino e ofereceu um sorriso carregado de ironia ao seu rival.

Capítulo 2

Ao trocar o avião privado de André pela limusina que os esperava no aeroporto internacional de Martinica, Kira perguntou-se quando acabaria aquele dia, cansada depois do longo trajecto de Las Vegas, durante o qual nem sequer pudera falar com André. Ele perdera-se num silêncio absoluto e frustrara as suas esperanças de falar com ele racionalmente durante o voo.

E não era só ela que estava cansada.

As olheiras e a barba incipiente no rosto masculino reflectiam também o seu cansaço. Ao olhar para ele, Kira recordou a sensação daqueles lábios firmes nos seus, destruindo as suas defesas e dissipando os seus medos. Recordou como as suas mãos, a sua boca e o seu corpo a tinham levado ao primeiro orgasmo demolidor e tinham continuado a fazê-lo mais vezes do que ela conseguia recordar, até a deixarem deliciosamente saciada e mais feliz do que nunca.

Isso fora a calma antes da tempestade. O que agora não conseguia imaginar, enquanto a limusina avançava pelos campos de açúcar em direcção a Fort-de-France, era que tempestade se aproximava com André.

Há três meses, ambos, dominados pela raiva, tinham expressado o desejo de não quererem voltar a ver-se. No entanto, pouco depois, ela telefonara-lhe e, agora, ele fora ter com ela. Ou teria planeado ir ao Château de qualquer modo, para a raptar?

Provavelmente, esse era o caso e fora por isso que ela decidira que seria melhor manter o seu segredo durante um pouco mais de tempo. Demasiado cansada para continuar a pensar, Kira esticou as pernas e observou os exuberantes jardins tropicais que se prolongavam para ambos os lados da ampla avenida. À medida que se aproximavam do porto, entraram numa zona de lojas pitorescas e casas às cores com um fundo de colinas de palmeiras frondosas. Música reggae ecoava na zona do mercado ao ar livre, onde as mulheres vestiam roupas de cores vivas e as crianças brincavam, despreocupadas, nas calçadas.

Kira levou uma mão à barriga, ainda plana, e esboçou um sorriso triste. Como é que André reagiria quando lhe dissesse que esperava o seu filho? Aceitaria a sua responsabilidade com uma indiferença resignada, como o seu próprio pai fizera? Não, não podia ser assim tão cruel e tão frio.

– O que se passa? – perguntou André, inclinando-se para ela. – Estás doente?

«Estou grávida». Kira olhou para ele, disposta a dizer-lhe, mas os olhos do homem eram tão pretos e turbulentos como uma tempestade invernal. E ela estava demasiado cansada para enfrentar toda a força e a raiva que o imaginava capaz de desencadear.

– Estou cansada – disse, finalmente. – Foi uma viagem muito comprida.

– Poderás descansar no barco – disse ele. – Só falta uma hora de viagem.

A limusina chegou, finalmente, à baía de Flamands Bay, onde estava atracado um enorme barco de cruzeiro entre um bom número de catamarãs e iates que se balançavam languidamente nas águas turquesa das Caraíbas. André saiu da limusina assim que ela parou e deu a volta para lhe abrir a porta. Baixando-se ligeiramente, estendeu-lhe a mão.

Kira olhou para a mão de dedos compridos e elegantes e pele bronzeada e recordou a sensação daquelas mãos a acariciarem o seu corpo nu e a levá-la várias vezes ao máximo prazer.

– Não mordo – disse ele, ao vê-la hesitar, num tom não isento de arrogância.

– Não seria a primeira vez – respondeu ela e viu nos olhos masculinos o mesmo brilho de paixão que ela sentia. Imediatamente, arrependeu-se das suas palavras.

– Eu não era o único com dentes, ma chérie – defendeu-se ele, segurando na sua mão.

Kira gostaria de se afastar, mas não conseguiu. Desejou apoiar-se nele, mas não se atreveu. No entanto, o calor da sua pele e o contacto fizeram-na sentir-se segura e protegida e, deixando-se levar, saiu do veículo.

Que patética! Só uma parva teria fantasias com o homem que a acusava de levar os paparazzi para a sua ilha, um homem que ficara com as acções maioritárias no seu hotel e que a obrigara a voltar à ilha, ao mesmo lugar onde vivera os momentos mais apaixonados da sua vida, onde tinham concebido um filho.

No molhe, André levou-a até uma pequena lancha atracada no barco. Kira sentiu-se atónita.

– Por favor, diz-me que não tenho de andar naquela lancha.

– Oui, é a forma mais rápida.

Inconscientemente, chegou-se para trás, o que não era fácil, tendo em conta que ele continuava a dar-lhe a mão e tremiam-lhe os joelhos.

– Não, não consigo.

Ele olhou para ela com intensidade.

– Não tens outra alternativa.

Kira engoliu em seco e fechou os olhos, tentando acalmar a sua ansiedade.

– As lanchas pequenas dão-me verdadeiro pânico.

– Não tens nada a recear.

Aterrada, percebeu que ele falava muito a sério, ignorando, é claro, que ela estivera prestes a morrer num acidente de barco no lago Mead, perto de Las Vegas. Aquela lembrança e as suas consequências devastadoras ainda continuavam vivas na sua mente. Não, não conseguia entrar naquela lancha.

Escapou bruscamente da mão masculina, contudo, antes de conseguir virar-se e fugir dali, André pegou nela ao colo e entrou na lancha com ela.

– Calma, ma chérie. Vês aquele iate ancorado no meio da baía?

Efectivamente. Um iate branco e elegante brilhava como uma pérola contra o céu alaranjado do entardecer. Mas estava muito longe.

– No Sans Doute estarás perfeitamente – declarou ele, pondo-a no chão, ao mesmo tempo que dava instruções em francês ao jovem que se ocupava do motor. Depois, sentou-se no banco e puxou-a, sentando-a ao seu lado.

O corpo de Kira tremia com um medo incontrolável e agarrou-se com tanta força ao banco que ficou sem sensibilidade nos dedos. André observava-a com o sobrolho franzido.

– Mon Dieu, tens mesmo medo.

Ela assentiu em silêncio.

André passou-lhe um braço pelos ombros. Com uma mão, traçou círculos tranquilizadores no braço feminino.

– Acalma-te. Não acontecerá nada.

Oxalá conseguisse tranquilizar-se. A lancha zarpou a toda a velocidade, elevando-se sobre a água. Em pânico, Kira encostou a cara no peito masculino, sentindo-se novamente presa num pesadelo.

– Olha para mim. Mon Dieu, olha para mim – insistiu ele.

Kira encontrou os olhos penetrantes que a observavam, consciente de que os seus reflectiam todo o medo que sentia, mas sem se preocupar com o que André pensava dela.

– Odeio-te – sussurrou ela.

– Não esperaria menos de ti – disse ele, baixando a cabeça.

Kira soube que ia beijá-la e que devia afastá-lo ou, pelo menos, virar a cabeça, mas não o fez. Porque queria que a beijasse com um desespero impróprio dela.

A boca masculina fechou-se sobre a dela com uma paixão que devorou as suas últimas renitências. Ela tremeu violentamente e recusou-se a reagir durante uma décima de segundo, mas, então, o beijo mudou, tornou-se mais terno, e um tremor muito diferente ao provocado pelo medo arrebatou-lhe toda a capacidade de um pensamento lógico.

Kira apoiou a palma da mão no peito masculino e sentiu os batimentos do coração de André sob a pele, enquanto ele lhe acariciava as costas com os dedos num baile erótico mais antigo do que o tempo. Sem conseguir nem querer reprimir-se, ela beijou-o com a mesma paixão.

Ele interrompeu o beijo demasiado cedo, quando ela estava prestes a suplicar que acariciasse todo o seu corpo, o peito, o sexo…

– Chegámos ao Sans Doute, ma chérie – anunciou ele. – Aqui estarás a salvo.

Que grande mentira! Desde que ela continuasse a render-se à mais leve das suas carícias, estava em perigo mortal de perder a sua alma e o seu coração com aquele misterioso pirata das Caraíbas.

André orgulhava-se do controlo rigoroso que tinha sobre si próprio tanto nos negócios como na cama, mas beijar Kira fora um erro. Fizera-o para a ajudar a esquecer o pânico que se apoderara dela de forma tão irracional, mas a verdade era que ele estivera prestes a perder o controlo. Se não tivesse interrompido o beijo, quem sabia até onde teria podido chegar.

E ela era uma sedutora, uma bruxa marinha e agora era dele.

Ajudou-a a subir para a coberta do iate, consciente do tremor do seu corpo e da força com que lhe segurava a mão e sentiu o repentino impulso de a abraçar, de a proteger, de fazer amor com ela até dissipar todos os seus receios.

Como detestava aquele desejo que ameaçava fazê-lo perder o controlo por ela! E como odiava o controlo que Bellamy tinha na sua vida!

Sem a soltar, conduziu até à sala principal do iate, decorado em cetim de tons dourados e, dali, subiram pela escada em espiral até à sala de observação. Teve-a sempre ligeiramente presa pelas costas, com a mão apoiada na curva da cintura, por um lado, porque gostava do contacto e, por outro, porque sabia que a inquietava e a excitava. E era assim que a queria, excitada e ansiosa por ele.

André tencionava levar o seu tempo. Era importante que ela o desejasse, que ele ganhasse a sua confiança.

O que não seria difícil, tendo em conta que fora educada para dar prazer aos homens. Sim, antes de tudo aquilo acabar, Kira suplicaria que a levasse para a cama e fizesse amor com ela.

Era inevitável e Bellamy tinha de ter consciência disso. Então, porque é que o seu mais acérrimo inimigo e rival não lhe telefonara?

– Fica confortável – disse ele, dirigindo-se para o bar. – Queres beber alguma coisa antes de zarparmos?

– Água, por favor – disse ela.

Kira sentara-se no sofá circular que dominava a sala, com as pernas dobradas, e pusera uma almofada enorme sobre a barriga. André percebeu que estava ainda mais pálida do que antes e isso preocupou-o.

– Sentes-te bem?

– Só tenho sede – garantiu ela, embora o seu olhar expressasse receio e inquietação. – Já passou muito tempo desde a última vez que bebi alguma coisa e não queria desidratar.

André franziu o sobrolho. Era outra táctica para ganhar a sua compreensão? Para despertar os seus remorsos por a ter levado para a ilha contra a sua vontade? Com irritação, ele serviu-se de um copo de água.

Depois de lhe entregar o copo, André preparou um daiquiri de rum com umas gotas de lima. Imagens de Kira a fazer amor com Bellamy passaram pela sua mente e deixaram uma onda de raiva amarga no seu caminho.

Em vez de saborear o sabor forte e doce a rum, André sentiu o sabor amargo da vingança na língua. Kira tentava fazer-se passar por uma ingénua, mas não era inocente. Não, não conseguiria enganá-lo. Observou a sua expressão preocupada quando achava que ninguém olhava para ela. Era como se tivesse algum segredo.

– Tens internet na ilha? – perguntou ela, depois de beber um gole de água.

– Sim, tenho uma ligação privada no meu escritório – disse ele, atravessando a sala com o copo na mão e olhando para ela com desconfiança. – Porquê? Pensas que Peter virá salvar-te da situação que criaram? Ou precisas das suas instruções para me espiar melhor?

As faces femininas coraram de raiva.

– Preciso de gerir o hotel.

– Oh, referes-te ao meu hotel.

– És o accionista maioritário, mas o Château será sempre meu.

Oh, estava tão errada!, pensou ele, mas não disse nada. Não era seu costume gozar com alguém em situação de fraqueza. As olheiras sob os olhos mostravam que estava muito cansada, por muito que tentasse escondê-lo enquanto defendia o Château com unhas e dentes.

André bebeu o daiquiri e, depois de deixar o copo no balcão com um golpe seco, parou à frente dela sem esconder a sua irritação, que aumentou ainda mais ao vê-la erguer o queixo e olhar para ele com os olhos esbugalhados, mas sem se deixar intimidar. André apoiou o joelho no sofá e as mãos também.

– O Château Mystique é meu e tu também. Não o duvides, estão os dois sob o meu controlo.

– És um selvagem.

– Não me digas que não sabias que nas minhas veias tenho sangue de pirata? – perguntou ele, ao mesmo tempo que lhe tirava a almofada das mãos e apoiava a mão na barriga feminina, tocando-lhe nos seios com os dedos.

Kira, com os olhos muito abertos e as pupilas dilatadas, conteve uma exclamação. Nos seus olhos não havia medo, mas desejo, um desejo tão intenso como o seu. Não, ela não o receava. Desejava-o tanto como ele a ela.

– O que foi? – continuou ele, com um sorriso devastador. – Não tens nada para dizer?

– Nada que tu consigas acreditar – declarou ela.

– Não te faças de inocente comigo – disse ele.

Endireitou-se novamente e atravessou a sala. Saiu para a coberta consciente de que, se continuasse perto dela, não conseguiria evitar estendê-la sobre o sofá e demonstrar-lhe como ela desejava que a possuísse. Render-se-ia facilmente a ele.

Mas aquele não era o momento. Da coberta, observou o horizonte em silêncio durante alguns minutos e, depois, foi para o quarto principal, de onde fez uma chamada.

– Bellamy continua no Château? – perguntou, assim que o seu interlocutor atendeu o telefone.

– Não, saiu uma hora depois de o senhor sair.

– Voltou para a Florida?

– Não, foi para a Califórnia inaugurar um novo hotel – informou-o o homem. – Deseja que continue com a vigilância?

– Sim. Quero saber tudo: com quem fala, o que faz, com quem se relaciona.

– Está bem – disse o detective.

André desligou o telefone e analisou a situação. Porque é que Bellamy continuava com as suas ocupações profissionais como se não tivesse acontecido nada? E mais depois de o ver com Kira no elevador do Château?

Haveria a possibilidade de ela ter sido apenas um peão no seu plano para o humilhar publicamente? Talvez fosse isso e não podia descartar que lhe pagara com acções do Château. Era uma possibilidade que devia ter em conta.

O seu confronto com Edouard fora pessoal, uma simples vingança carregada de emoções de um David contra Golias. No entanto, o confronto com Peter era exclusivamente profissional e, enquanto considerara Edouard apenas um incómodo, estava decidido a destruir Peter Bellamy. E Kira ficara do lado do seu inimigo para o arruinar.

No entanto, ele desejava-a com todo o seu ser.

André atirou a caneta para a mesa e voltou novamente para a sala. Lá, encontrou Kira, aninhada no sofá, a dormir, com as madeixas frisadas sobre a almofada, toda a inocência e provocação na mesma mulher. Como podia ter aquele aspecto e, pior ainda, como é que ainda a desejava tanto, sabendo que ela fazia parte do plano para o destruir?

No entanto, ao vê-la, o seu coração acelerou e desejou passar os dedos pelo cabelo espalhado sobre a almofada. Como reagiria às suas carícias? Derreter-se-ia nos seus braços? Suspiraria de prazer ao senti-lo dentro dela?

Com uma mão, deslizou o nó da gravata e tirou-o. Em breve saberia.

Capítulo 3

Kira mexeu-se ao ouvir a voz aveludada dos seus sonhos. Mal entendia francês, mas o seu corpo reconheceu a promessa de prazer das sensuais palavras que se filtravam nos seus sonhos.

Como sempre, foi incapaz de evitar o desejo que se apoderou do seu corpo e, ensonada, arqueou-se em sonhos, como se suplicasse as suas carícias, os seus beijos.

A mão masculina deslizou sob a sua saia e subiu pela coxa, aproximando-se de onde ela mais a desejava. Uma gargalhada suave destruiu o sonho e Kira ficou paralisada, sabendo, mesmo antes de abrir os olhos, que aquela carícia íntima era tão real como o homem que estava junto dela. André estava ao seu lado, olhando para ela intensamente, com uma expressão indecifrável e os dedos a poucos centímetros da união das suas pernas.

– O que estás a fazer? – perguntou ela, tentando empurrá-lo com as mãos, embora sem muito sucesso.

Ele esboçou um sorriso.

– Isso devia ser evidente.

Ela abanou a cabeça, sem conseguir acreditar que André tentara aproveitar-se dela enquanto dormia e muito menos que ela estivesse prestes a render-se a ele.

– Não cometerei esse erro outra vez.

– Mas desejas-me – declarou ele, com firmeza.

– Não.

– Sei quando uma mulher finge – disse ele, – e quando o desejo a domina.

Um dedo deslizou sob a renda que debruava as cuecas de seda e Kira não conseguiu reprimir o calafrio que a percorreu. Com um sorriso de satisfação, André acariciou o tecido húmido da roupa de roupa interior com o dedo e ela teve de morder o lábio inferior para sossegar um gemido de prazer.

– Sabia que estavas pronta antes de te tocar – disse ele, num tom grave.

– André, não, por favor – suplicou ela.

– Porquê? Não temos nada a perder.

– Enganas-te.

Ela já estava prestes a perder o seu coração, o que era ridículo, tendo em conta que o causador a raptara no seu hotel e a levava para a sua ilha com intenções que não estavam muito claras.

André deslizou a palma da mão para baixo, acariciando-lhe lentamente a coxa e a barriga da perna, perdendo-a num mar de prazer. Depois, segurou no seu pé e acariciou-lhe a planta com os dedos.

– Não! – exclamou ela, de repente, afastando o pé. – Estás a magoar-me!

Era um exagero, mas a verdade era que o pé lhe doía. André examinou-o em silêncio e passou os dedos pelas marcas e pelas bolhas que as sandálias lhe tinham deixado.

– Há quanto tempo tens os pés assim? – perguntou, furioso.

– Começaram a doer-me quando saí do carro.

– Devias ter-me dito.

– Não estavas precisamente de muito bom humor – respondeu ela, tentando afastar o pé.

Mas ele mexeu-se à velocidade da luz e, deitando-a no sofá, pôs-se sobre ela. Apoiou os braços ao lado da cabeça feminina, mantendo a metade superior do corpo no ar, mas não a barriga. Kira conseguia sentir o sexo duro contra a barriga e teve de conter um gemido, receando que a fizesse dele ali mesmo e, ao mesmo tempo, que não o fizesse.

– Descobrir que a amante do meu pior inimigo me enganou deixa-me de muito mau humor – disse ele, com a boca muito perto da dela.

– Não sou a amante de Peter! – protestou ela.

– Porque te empenhas em continuar a mentir?

O rosto masculino estava mais tenso do que nunca.

– Porque te empenhas em não acreditar em mim?

– Porque sei o que és – respondeu ele, – e o que queres.

Kira ficou vermelha de raiva e de impotência.

– Não, só achas que sabes.

– Então, diz-me, como conseguiste o controlo do Château?

Kira teve a verdade na ponta da língua e quis poder revelá-la de uma vez por todas. Já não havia motivo para manter a promessa que fizera a Edouard há anos, mas o que devia ponderar com supremo cuidado eram as possíveis consequências de confiar em André. Porque se a odiava naquele momento, o seu ódio e desprezo multiplicar-se-ia por mil quando soubesse toda a verdade.

– O que foi? Custa-te organizar as mentiras?

Não as mentiras, mas a verdade, podia responder ela.

– Claro que não – declarou ela, desviando o olhar e decidindo que, por enquanto, era melhor calar-se.

Estava cansada de trabalhar muitas horas para conquistar o lugar que lhe correspondia por direito no Château, cansada de estar sempre à margem da vida de Edouard Bellamy para que a sua família não tivesse de saber que ela era a sua filha ilegítima. Cansada de receber apenas migalhas de afecto de Edouard e cansada de ter de discutir sobre o mesmo assunto com André.

– Sou apenas uma trabalhadora que soube investir na sua empresa – disse ela finalmente, repetindo a desculpa que o próprio Edouard inventara para explicar os seus actos.

– Recebeste um prémio por vires à minha ilha seduzir-me? – perguntou ele.

– É claro que não. Vim falar contigo – defendeu-se ela.

– Foi o que disseste, mas encontraste uma forma de te meteres na minha cama.

– Foi uma sedução mútua – recordou-lhe Kira.

– Oui, mas não fui eu que convidei o mundo para ser testemunha da nossa aventura na manhã seguinte.

Kira abanou a cabeça, sem poder alegar nada em sua defesa. Ela fora apanhada desprevenida pelo alvoroço, tal como ele. De qualquer forma, dissesse o que dissesse, ele também não acreditaria.

– Nem eu.

– Talvez tu não tenhas dado a ordem – insistiu ele, – mas estavas a par das intenções de Peter.

– Se soubesse, garanto-te que não teria vindo – declarou ela, furiosa com tanta desconfiança. – E, digo-to pela última vez, o meu advogado garantiu-me que tu tinhas marcado esse encontro entre os dois.

– Tens jeito para manter as mentiras – disse ele, com cinismo. – Talvez depois possas entreter-me enquanto me contas como uma simples empregada conseguiu comprar quarenta e nove por cento de um hotel de Las Vegas como o Château Mystique.

Antes de conseguir responder, a sirene do barco avisou-os de que tinham chegado a Petit Saint Marc. André endireitou-se e vestiu o casaco. Com um suspiro, Kira apanhou as sandálias do chão, pôs a mala ao ombro e, descalça, saiu para a coberta do iate.

A paisagem que se abria à frente dela deixou-a boquiaberta. Uma selva tropical exuberante cobria as ladeiras e a cratera do vulcão extinto que dominava a ilha de Petit Saint Marc. As palmeiras desciam até à água e deixavam-se balançar pela brisa suave das Caraíbas, na qual se sentia o cheiro a sal e a fragrância embriagadora das flores exóticas que povoavam a ilha.

– É linda – comentou ela, ao sentir a presença de André junto dela.

– Oui – disse ele. – Vamos, faz-se tarde.

Sem lhe pedir permissão, André pegou nela ao colo e, sem fazer caso dos seus protestos, tirou-a do iate e levou-a até um dos carrinhos de golfe que havia no barco, onde a depositou com supremo cuidado.

Depois, tirou o casaco, arregaçou-se as mangas da camisa e sentou-se ao volante.

Pôs o veículo a trabalhar e Kira observou o complexo turístico luxuoso com admiração. Deliciosos bangalós de telhados vermelhos adivinhavam-se meio escondidos entre a vegetação exuberante. Ao longe, viu uma pequena praia de areias brancas, onde um casal passeava de mão dada, tão nu como no dia em que chegara ao mundo.

– Tens uma praia nudista?

– Temos quatro praias naturais, todas são privadas e reservadas de antemão pelos nossos clientes – André esboçou um sorriso. – Na praia pública a parte de cima do biquíni é opcional. Aqui somos muito europeus.

– Sou demasiado britânica para o apreciar.

– Aprenderás a desfrutar disso.

Claro que não. Ela não era como a sua mãe.

Kira fechou os olhos para afastar as lembranças terríveis do passado da sua mente. Não, ela não era como a sua mãe. Inconscientemente, levou uma mão à barriga e acariciou-a. Aquele bebé era o seu futuro.

O veículo seguiu o seu percurso, passando vários bangalós, e subiu pela ladeira que conduzia até uma mansão imponente no topo de uma colina. Kira cerrou os punhos e tentou dominar o terror que se apoderou dela. Não pensaria levá-la para sua casa! Mas quando o veículo continuou a avançar e chegou até uma zona na parte posterior da mansão, teve a certeza de que essa era a intenção de André.

– Preferiria alojar-me num bangaló – disse ela.

– Os bangalós são para os clientes – disse ele, saindo do carro e pondo a chave no bolso.

– Está bem, pagarei como um cliente – disse ela. – Não viverei contigo.

– Não tens outra opção, ma chérie.

Kira saiu do veículo e encontrou-o ao seu lado, com um braço apoiado no toldo do carrinho e outro num dos postes.

– Não serei tua amante – disse ela, desafiante.

– Não te convidei.

Era verdade. André não mencionara nada a respeito disso e ela devia sentir-se aliviada, não decepcionada. O que raios se passava?

– Foi uma viagem muito comprida. Anda, ajudar-te-ei a entrar – e, sem lhe dar tempo para se afastar, André pegou nela ao colo.

Kira quis rebelar-se, mas os seus protestos não serviram de nada. André subiu os dois degraus do alpendre com facilidade. Nesse momento, a governanta abriu a porta e sorriu.

– Bom dia, senhor Gauthier!

– Bom dia, Otillie! – cumprimentou ele, com toda a naturalidade, como se fosse o seu costume entrar na sua casa com uma mulher ao colo.

Mas a mulher parou à frente dele e começou a soltar uma enxurrada de palavras em francês que Kira foi incapaz de compreender. Finalmente, a mulher levantou os braços e afastou-se, murmurando em voz baixa.

– Passou-se alguma coisa? – perguntou Kira.

– Otillie está zangada por não a ter avisado de que trazia uma convidada.

– Devias ter-me deixado arrendar um bangaló.

– Devia ter-te expulsado da ilha da primeira vez que vieste com planos de vingança – corrigiu ele, sem a soltar.

– Porque não o fizeste? – perguntou ela, recusando-se a morder o anzol outra vez e a começar a mesma discussão sobre os seus motivos para ir à ilha.

– Porque me intrigaste.

Foi um sentimento mútuo. Kira nunca conhecera um homem como André. E nunca sentira uma ligação tão forte e poderosa. Para ela, fora muito mais do que sexo, embora suspeitasse que era aí que acabavam as semelhanças.

André subiu as escadas e entrou por um corredor amplo na penumbra. Kira percebeu onde estavam. No corredor do seu quarto, o mesmo quarto onde tinham feito amor e do qual ela fugira a correr, embargada pela raiva e pela vergonha. André passou junto da porta e só parou algumas portas mais à frente, numa porta de madeira que empurrou levemente com o ombro.

No meio do quarto havia uma enorme cama com dossel e mosquiteira que dançava suavemente sob a brisa marinha que entrava pela janela entreaberta.

André dirigiu-se directamente para a cama e pousou-a nela com cuidado, embora a expressão do seu rosto evidenciasse a cólera que sentia por dentro.

– Sou um homem muito zeloso da minha intimidade – disse ele depois, ao pé da cama. – Sempre mantive o meu trabalho e a minha vida íntima em privado, porém, numa só noite, tornaste a minha vida pública, para minha tristeza.

– Eu não tive nada a ver com os paparazzi! – protestou ela, mais uma vez.

André passou uma mão pelo cabelo.

– Não esperava que admitisses a tua participação.

– E tu? – perguntou ela. – Tu tens tanta culpa como eu na ruptura do teu noivado.

André deu uma gargalhada fria e dura.

– Tu humilhaste a minha ex-noiva com o teu comportamento.

– Não o fiz sozinha – declarou ela, com irritação. – E não era eu que tinha um compromisso com ela.

– Não me recordes – disse ele, cerrando os punhos e fixando o olhar nela.

Mas Kira sempre lamentaria ser «a outra mulher», a «amante» que a imprensa cor-de-rosa decidira encontrar a todo o custo. Era um papel que jurara nunca aceitar.

– Mas quero dizer-te que lamento profundamente o mal causado à tua noiva.

– Não me digas? – perguntou ele, brincalhão.

– É verdade – garantiu ela. – Se soubesse que estavas noivo, nunca teria permitido que me tocasses e muito menos que me levasses para a tua cama.

– Ou seja, agora sou o mau da fita, por não to ter dito.

– Porque não me disseste? – perguntou ela.

Um silêncio tenso reinou entre ambos. André estava tão furioso que parecia capaz de a matar com as suas próprias mãos. Kira também estava furiosa consigo própria por ter seguido o conselho do seu advogado e ter ido à ilha para uma reunião com André que ele garantia com todas as suas forças que nunca marcara.

Embora não tivessem demorado a acabar entre os lençóis, sem dúvida, André devia reconhecer que ele era tão responsável como ela, se não mais. Porque ele estava noivo de outra mulher.

– Percebes o mal que me fizeste? – continuou ele. – Quando a nossa relação se tornou pública, a minha noiva ficou tão furiosa que retirou a oferta com que íamos unir as nossas duas empresas. Custou-me uma fortuna.

Kira empalideceu, convencida de que estava a exagerar.

– Falas como se o noivado fosse apenas uma fusão empresarial.

– E era – confirmou ele. – E agora já não é nada. Por isso tens de sofrer as consequências dos teus actos.

Aquele era o motivo por que agora decidira comprar o Château e destruí-la, embora ele ainda desconhecesse a verdadeira razão por que o seguira até ali. Ele era o pai do seu filho.

Sem outra palavra, André saiu do quarto e fechou a porta à chave atrás dele.

Kira saltou da cama e verificou que não era possível abrir a porta.

– Abre a porta! – gritou, batendo na madeira. – Temos de falar.

– Disse tudo o que tinha de dizer.

– Não podes deixar-me aqui fechada.

– Veremos…

Kira não queria desesperar-se, mas estava fechada numa ilha com um homem que só queria vingar-se dela e ainda por cima estava grávida dele.

Mas se André achava que conseguiria desarmá-la, estava muito enganado.

Capítulo 4

André ficou de pé no corredor, ofegando e com os punhos cerrados. Não fora a sua intenção fechá-la no quarto, mas, assim que a abraçara e a beijara, soubera que, se não se afastasse dela, teria de a possuir ali mesmo. Sabendo de antemão qual era a reacção feminina cada vez que se aproximava dela ou lhe tocava, o desejo de a possuir era mais forte do que nunca.

Por isso fechara a porta, para evitar que o seguisse.

Nunca sentira uma intensidade sensual como aquela com nenhuma mulher. Com Kira, alcançara um nível de prazer que sempre temera, mas que sempre conseguira controlar com uma força de vontade poderosa.

Fora apenas uma noite de paixão. Só uma, mas ele recordava cada detalhe. O sabor da sua pele, a força sedosa dos músculos femininos tensos contra os dele, a reacção apaixonada a cada carícia das suas mãos, da sua boca, do seu corpo.

Mas não, ele não repetiria os erros do seu pai. Ele não ficaria cego de paixão por uma mulher.

Ele não tropeçaria na mesma pedra que o seu pai.

Além disso, Kira era a amante do seu inimigo. Fora lá para o seduzir, para arrastar o seu nome pela lama. E conseguira, destruíra o negócio mais lucrativo da sua vida e fizera com que fizesse uma figura ridícula com a sua noiva e com o mundo.

O seu inimigo ganhara a primeira batalha, mas não ganharia a guerra.

Praguejando, André foi para o seu quarto para tomar um duche para relaxar.

Estava cansado, excitado e enojado consigo próprio. Passar boa parte do dia perto de Kira estava a enlouquecê-lo de lascívia.

Entrou na casa de banho do seu quarto e pôs-se sob a água fria do duche. Apoiou as duas mãos nos azulejos e baixou a cabeça, deixando que a água fria diminuísse o seu ardor e a sua raiva. As emoções intensas que lutavam no seu interior eram totalmente novas e ele detestava ter voltado a perder o controlo com ela.

Sim, aquilo tinha de ser semelhante ao inferno que o seu pai suportara durante o seu casamento. E André não estava disposto a passar pelo mesmo.

Reviu a situação. Levara Kira para Petit Saint Marc, o que significava que Peter Bellamy tinha de estar furioso, sabendo que a tinha prisioneira e que ele podia usar qualquer meio necessário para lhe tirar a informação que quisesse sobre a Bellamy Enterprises. No entanto, Bellamy não dera sinais de vida. Mais ainda, continuara com a sua vida como se não tivesse acontecido nada. Quais eram os seus planos?

André não podia descartar que Bellamy antecipara a sua reacção, que tentaria usar Kira para o vencer. Talvez fosse por isso que Kira não mostrara muita resistência a deixar o Château.

Era uma possibilidade que não podia ignorar.

Talvez o seu plano fosse deixar que os paparazzi o surpreendessem novamente na ilha junto da amante bela e sedutora do seu inimigo. Com raiva, fechou a água, decidido a não se deixar iludir outra vez.

Saiu para o quarto encharcado e ainda meio excitado. Olhou para o painel de segurança, sorriu e depois escreveu os números que desactivavam a fechadura da porta de Kira.

A aparente falta de interesse de Bellamy face ao desaparecimento de Kira despertava as suas suspeitas. Se ela não tentasse fugir, provavelmente significava que já tinha outro plano preparado com Bellamy, no caso de André tentar usar Kira para destruir Bellamy.

Mas não voltariam a gozar com ele. Alertara os guardas de que ninguém podia aproximar-se da ilha excepto os clientes do hotel e dispusera patrulhas costeiras pela mesma razão.

Kira apoiou uma mão na porta da casa de banho do quarto e segurou a maçaneta da porta com a outra, com o coração acelerado. Fora precisamente quando ia tomar um duche que ouvira o barulho da fechadura da porta, embora não ouvisse que se abrira a porta.

Com o coração cada vez mais acelerado, ouviu com atenção, mas o único som que detectou foi o barulho da ventoinha do tecto e os batimentos do seu coração.

Esperou pelo aparecimento de André com uma mistura de ansiedade e receio, mas a espera foi em vão. Com um suspiro de resignação, saiu para o quarto e verificou que a porta já se abria.

Espreitou para o corredor, mas não viu ninguém.

No entanto alguém abrira as cortinas pesadas do hall e abrira as janelas para deixar entrar a brisa do oceano. Aguçou o ouvido, mas só ouviu um ligeiro murmúrio de vozes no andar inferior.

Kira fechou a porta e passeou pelo quarto, nervosa. Porque a fechara ali? Porque não a deixava em paz?

Não, ela não teria paz até André aceitar um acordo a respeito do seu filho. Ainda que, tendo em conta quem ela era, soubesse que a odiaria quando descobrisse. E o que seria do bebé?

Não tinha a menor dúvida de que insistiria em ter um papel fundamental na vida do seu filho. E na dela também?

Se fosse sincera consigo própria, tinha de reconhecer que queria o conto de fadas completo: constituir uma família com um homem maravilhoso que a amasse.

Queria André.

Ele achava que era a amante de Peter, o seu inimigo. O que tencionava fazer com ela? O que faria quando descobrisse a verdade?

O fascínio perigoso que sentia por ele não tinha explicação. Na verdade, detestava a sua infidelidade, a sua arrogância, as suas contínuas intenções de pegar no que queria sem pensar nos seus sentimentos.

Levou uma mão à barriga e sentiu que os seus olhos se enchiam de lágrimas. André já fazia parte dela, no filho que os uniria para sempre, mas que futuro os esperava? Encontrariam uma forma de resolver as suas divergências pelo bem do bebé?

André era demasiado dominante.

Demasiado viril.

Demasiado viciante para os seus sentidos.

Ela precisava de relaxar, de desabafar a tensão que a dominava e de procurar o equilíbrio emocional para poder enfrentá-lo.

Aproximou-se do terraço e viu a piscina enorme que havia no meio dos jardins.

Não sabia se tinha de jantar com André ou sozinha no seu quarto. A verdade era que não tinha a certeza de nada, mas pensou que tinha tempo para nadar na piscina.

Rebuscou na mala e encontrou um simples fato-de-banho cor de coral. Dentro de pouco tempo, a sua gravidez não lhe permitiria vestir uma coisa tão reveladora, pensou, portanto, bem podia aproveitar aquela oportunidade.

Sem se dar tempo para pensar, vestiu um fato-de-banho e viu-se ao espelho. Ainda não se notava nada.

Da casa de banho tirou uma toalha e embrulhou-se nela em jeito de pareo.

Por um instante, permaneceu imóvel, ouvindo, receando que André aparecesse de um momento para o outro.

Ou pior. Que a abraçasse, beijasse e derrubasse todas as suas defesas.

Mas não viu nem ouviu ninguém. Sem fazer barulho, correu pela escada e saiu para o jardim.

Hesitou por um momento, até verificar que não havia ninguém. Com passos rápidos, dirigiu-se para a piscina. Lá, deixou cair a toalha, aproximou-se da parte mais profunda e atirou-se de cabeça. Embora estivesse cansada, começou a nadar, com uns movimentos monótonos e controlados com que tentou apagar a imagem de André da sua mente.

André observava o monitor, excitado com a mulher de corpo esbelto e atlético que percorria várias vezes a sua piscina olímpica. Não parara para estudar o seu corpo com imparcialidade. Se o tivesse feito, teria percebido que tinha um corpo de atleta.

O fato-de-banho elegante fora desenhado para minimizar a resistência da água e colava-se ao corpo feminino sem deixar nada à imaginação. Embora ele não tivesse de adivinhar o que havia por baixo.

Recordava cada centímetro da sua pele, cada curva do seu corpo e não conseguiu evitar a forte reacção do seu sexo enquanto a observava a deslizar elegantemente pela água várias vezes. Era como uma ninfa marinha a seduzi-lo com cada movimento, a convidá-lo a aproximar-se. Provavelmente, esse era o seu plano, voltar a seduzi-lo, contudo, dessa vez, ele estava preparado. Dessa vez, usaria o desejo feminino contra ela. Dessa vez, daria a volta ao jogo.

Ele era um tubarão, enquanto ela era um golfinho elegante, esbelto, veloz e muito desejável. Ardiloso também?

Levantou-se da cadeira e saiu do quarto, com apenas uns calções de ganga, com os pés e o peito tão nus como a sua excitação.

Com a ajuda de Bellamy, Kira conseguira derrubar as suas defesas. O desejo que sentia por ela tivera mais poder do que o seu controlo e as suas defesas. Nunca se sentira tão atraído por uma mulher.

Mas não voltaria a cometer o mesmo erro. Dessa vez, conhecia muito bem as suas intenções.

Quando acabasse com ela, Kira Montgomery estaria economicamente arruinada e emocionalmente humilhada. Quanto ao seu amante, ele ocupar-se-ia de deixar Peter Bellamy sem a sua fortuna e sem o seu império.

Só então é que a sua vingança seria completa.

Kira sentiu a mudança na pressão da água atrás dela e soube que não estava sozinha.

Alguém se atirara para a piscina e abria caminho sob a água. André?

A ideia de ele estar na piscina toldava-lhe os sentidos. Tinha de ser ele, porque até a água estava carregada de uma energia nova e poderosa.

O seu coração acelerou e começou a nadar mais depressa, decidida a não deixar que André a alcançasse.

Ganhando forças, Kira continuou a nadar à mesma velocidade, concentrando-se em alcançar a beira antes dele.

Tinha de sair da água. Para o enfrentar, tinha de estar em terra firme.

Nadar esclarecera a sua cabeça e alegrava-se por não lhe ter contado a verdade. André estava demasiado furioso para poder raciocinar com ela, demasiado decidido a seduzi-la por algum plano estranho de vingança. Não era o momento de tentar falar com ele sobre o futuro.

Haveria tempo mais adiante para lhe explicar tudo. Ela conseguiria fazê-lo e conseguiria fazê-lo entender que não participara nos planos de Peter Bellamy. Que ela era tão vítima das suas maquinações como ele.

Que, apesar do confronto entre os Bellamy e ele, entre os dois tinham criado algo bonito e que tinham a oportunidade de um futuro maravilhoso.

Mas não era o momento de falar disso. Estava cansada e não se sentia com forças para o enfrentar.

Esperaria até ao dia seguinte.

Mexendo os braços na água com precisão, continuou a avançar, ignorando o ardor dos ombros, a tensão das coxas e a pressão dos pulmões.

À frente dela apareceram os azulejos intrincados do extremo da piscina, em tons vermelhos, azuis e amarelos, cada vez mais intensos. Já quase chegara. Quase.

No entanto, sentiu a pressão da água a empurrá-la por baixo e, em pânico, percebeu que estava prestes a colidir com ele. Um enorme tubarão branco a persegui-la, a preparar-se para o ataque.

Alguns segundos depois, sentiu o corpo masculino e potente a elevar-se do fundo, deslocando a água e segurando-a pela cintura. Sem poder fazer nada, sentiu umas mãos fortes que a elevavam para fora da água.

A brisa nocturna sussurrou por um momento sobre a sua pele e apoiou-lhe as duas mãos no peito para o empurrar, contudo, o desejo descarnado reflectido nos olhos masculinos parou-a.

André sorriu, arrogante e irresistível, e, em seguida, beijou-a. Kira rendeu-se com um gemido.

Juntos caíram novamente à água. André segurou-lhe o pescoço com a mão e, juntos, mergulharam sob a água, sem se afastarem, intensificando o beijo cada vez mais.

Ele era a sua âncora e a sua perdição e, como em vezes anteriores, Kira sentiu que o beijo lhe dava vida, enchendo-a de ar, lançando ondas de paixão por todo o seu corpo e derrubando os muros de contenção que se apressara a levantar.

Não havia razão para continuar a resistir. André ganhara a batalha.

Ela desejava-o e detestava-se por ser tão fraca com ele.

Só um beijo e rendera-se por completo a ele. Com apenas um beijo, André reduzira o seu mundo a eles e ao bebé que esperara.

Mas ele ainda não sabia.

Impulsionando-se com os pés contra o fundo da piscina, André empurrou-os para cima.

E para outro confronto com André.

André era accionista maioritário do seu hotel e tinha-a totalmente nas suas mãos.

Ela devia receá-lo, mas estava convencida de que ele a protegeria, mesmo apesar de a sua intuição a avisar de que, a nível pessoal, só ela seria a perdedora.

Mesmo sabendo o perigo que corria, deixou que lhe arrebatasse o coração.

Saíram à superfície, procurando ar, com os corpos colados, o de André nu e excitado contra ela, coberta apenas pelo fato-de-banho.

– És uma excelente nadadora – ele ofegou, muito perto da sua boca.

– É um bom exercício.

Mas agora já não era a sua paixão. O seu sonho de competir em desportos aquáticos morrera há muito tempo, em princípio de forma temporária devido a uma lesão, mas, depois, de maneira definitiva por causa dos planos que Edouard tinha para ela.

Não voltaria a deixar os seus sonhos por um homem, por muito que o desejasse. No entanto, tinha de reconhecer que queria ter uma família, que queria ser amada.

André mexeu-se, elevando-a para lhe acariciar os seios através do tecido fino do fato-de-banho. Kira pôs-lhe os dedos nos ombros, tremendo e arqueando-se para trás, oferecendo a sua boca.

– Desejo-te – disse ele, mordiscando um dos mamilos com os dentes. – E tu a mim.

Kira gemeu, recusando-se a esconder ou a negar o que sentia.

– Isso é evidente.

Ele franziu o sobrolho, como se as suas palavras o irritassem.

– Mas não te farei minha, agora não.

Ouvira bem?, perguntou-se Kira.

Ele deu-lhe a resposta ao afastar-se dela, fechando a porta ao desejo que Kira vira a brilhar nos seus olhos.

– Então, o que foi isto? – perguntou ela, consciente de que tinha as faces acesas e o corpo a tremer de desejo.

– Precisava de um aperitivo – André deixou-a a flutuar na água e nadou até à beira. – Desfrutaremos do manjar completo mais tarde.

Saiu da piscina, encharcado, totalmente nu e excitado.

– Não irei para a cama contigo.

– Oh, sim, é claro que o farás – garantiu ele. – Mas esta noite preciso de descanso e de comida – disse ele, deslizando os olhos famintos pelo corpo feminino. – Agora ambos estamos cansados. Quando fizermos amor, será de forma lenta, sensual e interminável.

Kira tremeu ao ouvir aquela promessa, sem saber como reagir para não trair os seus verdadeiros desejos.

Também não sabia se devia enfurecer-se com a sua arrogância ou deixar-se levar pela paixão.

– O jantar será servido dentro de quinze minutos – disse ele.

Sem se incomodar em secar-se, vestiu os calções de ganga afastou-se para a casa sem olhar para trás.

Completamente frustrada, Kira começou novamente a percorrer a piscina de uma ponta à outra, apesar de os seus músculos lhe pedirem um descanso.

Depois de um duche rápido, Kira vestiu um vestido estampado em tons azuis e uma cor castanha intensa que condizia com os olhos de André. O facto de fazer aquela comparação confirmava que ainda continuava em terreno pantanoso com ele. E o facto de as suas emoções dançarem como num carrossel devido à gravidez também não a ajudava muito.

Tão depressa o odiava como desejava as suas carícias, os seus beijos. Até pensara em iniciar um debate com ele, mas rapidamente o descartou. O seu primeiro confronto verbal levara-os directamente para a cama.

Tendo em conta como se derretera nos seus braços na piscina, Kira receou o momento de se sentar em frente dele na mesa. Mas os seus receios foram em vão.

Pouco depois de se sentar à mesa com ele, André recebeu uma chamada que não podia esperar.

Kira olhou para ele, alarmada. O seu primeiro receio foi que estivesse a levar a cabo as ameaças de destruir o hotel.

– Se isto tem a ver com o Château… – começou ela.

– Nada disso – disse ele e, depois de acabar o seu copo de vinho, levantou-se. – Desfruta do jantar.

E, sem olhar para trás, saiu da sala de jantar sem tocar na comida.

Kira tinha os nervos à flor da pele. Não sabia se André lhe contaria a verdade, já que estava convencido de que era a cúmplice vingativa de Peter Bellamy.

Seria por alguma coisa relacionada com o Château? E a que se referia quando dissera que tinha provas electrónicas das suas maquinações com Peter Bellamy? Não podia ser verdade, a não ser que alguém as tivesse criado sem ela saber. Sabia que muitos empregados do Château a desprezavam, mas ninguém tinha o poder de vender as acções de Edouard Bellamy.

Ninguém, excepto Peter. O seu filho e testamenteiro do testamento do seu pai. Seria ele quem quereria arrebatar-lhe a sua herança? Kira deixou o garfo no prato e esfregou as têmporas. Talvez Peter tivesse descoberto a sua verdadeira relação com Edouard e a odiasse tanto como Edouard previra.

Desde o acidente de Edouard e da sua morte, o mundo de Kira ficara destruído. As suas acções tinham desaparecido quando André comprara as acções do Château.

Fora por isso que tivera de ir à ilha pela primeira vez, para falar com ele, embora André jurasse que ele nunca acedera àquela reunião. Ter-lhe-iam armado uma cilada?

André estava convencido de que ela estava a conspirar com Peter para o arruinar. Não era verdade, mas ela não sabia como provar a sua inocência. Não sabia o que fazer, nem em quem confiar, para além de Claude, o seu advogado.

Recostou-se na cadeira. Já perdera todo o apetite e também a pouca energia que restava. Só queria deitar-se na cama e dormir. Queria esquecer aquele pesadelo em que se transformara a sua vida.

Levou a mão à barriga. Apesar dos seus receios e preocupações, sorriu. Acima de tudo, o mais importante era proteger o seu filho. E a melhor maneira de o fazer era descansar.

Deixou o guardanapo na mesa e levantou-se. O seu olhar encontrou-se com o de André.

Como antes, a postura dele era aparentemente indiferente, apoiado na ombreira da porta, com os braços para baixo e um pé cruzado sobre o tornozelo.

Mas a sua expressão era sombria e implacável e, nos seus olhos, via-se uma clara expressão de censura. Estava furioso e Kira perguntou-se se se devia à conversa telefónica ou a ela.

– Há quanto tempo estás aí? – perguntou ela.

– Há tempo suficiente para saber que não comeste praticamente nada – reprovou-a ele.

– Não tenho muito apetite – disse ela.

– Sim, claro. Tens de fazer com que o teu corpo continue a ser desejável – disse ele, brincalhão.

O belo rosto masculino aparecera em muitas revistas económicas, mas ela só vira aquela expressão feroz uma vez. Há três meses, quando ela fugira de Petit Saint Marc.

Depois, tinham acontecido tantas coisas… Parecia quase surreal como ela passara de ser relações públicas no Cygne em Londres a accionista do Château Mystique de Las Vegas e a amante inesperada de André.

Embora tudo estivesse tão longe que parecia ter acontecido noutra vida.

Ele estava furioso, totalmente rígido, com os dentes cerrados. A sua expressão era mais a de um pirata sanguinário do que a de um magnata internacional.

– Passa-se alguma coisa? – perguntou ela, ao vê-lo tão tenso.

– Os meus guardas interceptaram um grupo de paparazzi à frente da ilha – respondeu ele, encolhendo os ombros, embora a sua desconfiança fosse evidente.

– Isso devia agradar-te – disse ela, suspeitando que a presença dos meios de comunicação social era frequente na ilha.

Ele endireitou-se e entrou na sala de jantar como um predador a cercar a sua presa.

– Quanto te pagam por continuares com esta farsa? – perguntou ele, furioso, aproximando da mesa.

– Suponho que te referes a Peter – disse ela, com um sorriso amargo. – Mas a resposta é a mesma. Não conheço Peter Bellamy pessoalmente e nunca segui as suas ordens.

– Claro, só de Edouard – disse ele, cuspindo as palavras com raiva. – Escolheu-te bem quando te seleccionou para o seu filho – acrescentou.

Kira sentiu vontade de lhe atirar o jarro de água à cabeça.

– Porque o odeias tanto? – Kira percebeu que, antes de contar o seu segredo a André, devia conhecê-lo muito melhor.

– Porquê? – à pergunta seguiu-se uma gargalhada cáustica e carente de humor. – Edouard Bellamy destruiu a minha família.

Kira sentiu náuseas.

– Foi por isso que planeaste ficar com o Château e destruir Bellamy?

– Pura vingança, ma chérie.

– Mas Edouard morreu.

O sorriso de André fê-la sentir-se como se a tivessem atirado para um mar de gelo.

– Não sabes que os pecados dos pais recaem sempre sobre os filhos?

Kira conseguiu assentir fracamente, embora lhe tremessem os joelhos.

– Mas o que é que Peter te fez?

– É um Bellamy.

Aquela resposta dizia tudo. Porque ela também era uma Bellamy, a filha de Edouard. E o seu filho, o filho dos dois, tinha o sangue dos Bellamy nas veias. Tinha de fugir de Petit Saint Marc antes que descobrisse a verdade, antes que a sua vingança contra os Bellamy a destruísse, a ela e ao seu filho.

Capítulo 5

André observava Kira com intensidade. Ela estava tão pálida que parecia prestes a desmaiar. Viu-a cambalear ligeiramente, tudo por lhe confessar a sua intenção de destruir o império de Edouard Bellamy.

– Foi um dia muito difícil – disse ela, finalmente. – Preciso de dormir.

Ele também, mas estava furioso com o relatório inicial do seu detective privado.

– Acabei de descobrir que Edouard Bellamy pagou a tua educação e o teu carro e que, além disso, te deu o apartamento espaçoso que tinha sido o lar do Peter durante mais de um ano.

– Investigaste-me? – perguntou ela, tensa e sem esconder a sua preocupação.

– Sim.

Era filha de mãe solteira, de «pai desconhecido», tal como dizia na sua certidão de nascimento e fora educada num internato britânico.

– Bellamy deu-te o teu primeiro emprego no hotel de luxo Cygne em Londres. Então, já eras a amante de Peter?

– Não! – protestou ela, com as faces acesas. – Edouard ofereceu-me uma bolsa para continuar com a minha formação, mas eu consegui o emprego através das minhas notas. Não fazia ideia de que o seu filho tinha vivido antes no apartamento que me deram.

André não acreditava em nenhuma palavra.

– Como conseguiu ficar com quarenta e nove por cento do Château Mystique?

– Falaremos disso mais tarde – declarou ela, sem querer dar mais explicações.

Virando-se, quis ir para a porta, mas os seus passos eram incertos e os seus movimentos cambaleantes. André segurou-a, alarmado com a sua palidez e a sua fraqueza.

– Devias ter comido mais – disse ele.

– Não teria conseguido engolir a comida.

– Estás doente? – perguntou ele, preocupado. – Devo chamar um médico?

– Não, a única coisa que tenho é sede e cansaço. O médico disse-me que no meu estado devia tentar beber mais e… – interrompeu-se de repente, ao aperceber-se de que falara mais do que devia.

André fixou os seus olhos semicerrados nela.

– Que estado?

Kira engoliu em seco, mas não desviou o olhar.

– Estou grávida de três meses.

Grávida! André passou os dedos pelo cabelo. Se soubesse, se tivesse a mínima suspeita, nunca a teria obrigado a deixar o Château.

– Claro, estás grávida de Peter.

– Não, de Peter não – disse ela, escapando da sua mão. – Tu és o pai.

Era mentira. Tinha de ser. Contudo, na sua mente, apareceu a imagem clara da única vez na sua vida que se esquecera de usar protecção. Desejara-a tanto que nem sequer lhe passara pela cabeça até ser demasiado tarde.

Agora, pagaria as consequências. Se fosse verdade.

– Quando tencionavas contar-me, ma chérie?

– Ainda não tinha decidido – declarou ela, recriminando-se por não ter sabido guardar o segredo.

Mas ela fora uma filha não desejada, abandonada pela sua mãe e vista pelo seu pai como uma obrigação e não ia permitir que o seu filho passasse pela mesma situação.

– Há provas que demonstrarão se o filho que esperas é do teu amante ou…

– Não porei o meu filho em perigo para satisfazer a tua curiosidade – interrompeu-a ela, levando uma mão protectora à barriga.

– Mon Dieu! Achas que quero pôr a vida de um bebé em perigo?

– Não sei – respondeu ela, sem se deixar intimidar. – Não fizeste nada para ganhar a minha confiança.

– Está bem – admitiu André, passando uma mão pelo queixo e amaldiçoando o leve tremor que lhe agitava o braço.

De certeza que o bebé era de Bellamy, mas também podia ser dele.

– Para mim, o mais importante é a saúde do meu filho – disse ela e ele assentiu em silêncio. – Deixa-me voltar para o Château. Tenho de ver o meu médico regularmente…

– Farei com que venha um obstetra de Martinica ver-te semanalmente…

– Semanalmente? Não pensarás deixar-me aqui raptada?

– Não raptada, mas sim, ficarás na ilha durante a gravidez.

«Até se provar a paternidade», pensou Kira, com irritação. Petit Saint Marc seria a sua prisão durante os próximos seis meses, a menos que ela fosse capaz de derrubar o muro de ódio que André erguera. Até ela conseguir ganhar a sua confiança.

– Não era a minha intenção deixar que descobrisses assim – disse, finalmente.

– Perdoa-me por não acreditar em ti – disse ele, com uma gargalhada amarga, e puxou-a pelo braço. – Vamos, acompanhar-te-ei ao teu quarto.

André não tencionava perdê-la de vista até ter total certeza de que estava grávida e de que o filho era dele.

Kira acordou quando já amanhecera e espreguiçou-se lentamente na cama. Há muito tempo que não se sentia tão descansada e suspirou com satisfação. O rangido de uma poltrona de vime fê-la ficar tensa. Não estava sozinha. Tapou-se com o lençol até ao queixo e olhou para a poltrona.

– Bom dia! – cumprimentou André, levantando-se e aproximando-se da cama. Lá, deixou uma caixinha na mesa-de-cabeceira. – Acho que estes testes são de confiança.

– Queres que faça um teste de gravidez? – perguntou ela, com incredulidade.

– Sim. E aqui sugere que se faça logo de manhã.

Coisa que ela sabia perfeitamente, visto que já o fizera ao princípio da sua gravidez, para ser confirmado mais tarde pelo seu médico. Mas se André queria outro teste, fá-lo-ia.

Dez minutos mais tarde, André tinha a confirmação inequívoca da gravidez.

– Continuarás a ser minha convidada até teres o bebé.

– Quererás dizer tua prisioneira.

– Se quiseres chamar-lhe assim – disse ele, dirigindo-se para a porta.

Kira não queria montar uma cena e deixar-se levar pela histeria, portanto, respirou fundo e manteve a calma.

– Está bem, posso trabalhar com o meu portátil daqui sem nenhum problema.

– O teu único trabalho até dares à luz é cuidares de ti e do bebé – disse ele, abrindo a porta.

– Ainda faltam seis meses de gravidez! – protestou ela. – Se não tiver nada para fazer, ficarei louca.

André esboçou um sorriso lento, carregado de insinuação.

– Eu farei com que não te aborreças, ma chérie – garantiu e desapareceu.

Kira levou os punhos às têmporas, com vontade de gritar. Se ficasse ali, acabaria por ser sua amante, mas, quando André descobrisse que era uma Bellamy, tratá-la-ia com o mesmo ódio que sentia por Edouard e Peter. E o seu filho também. Tinha de entrar em contacto com o seu advogado e descobrir quem urdira o plano para que André achasse que era cúmplice de Peter.

Depois de tomar o pequeno-almoço, saiu para dar um passeio pelos arredores da casa. Petit Saint Marc era uma bonita prisão, um bosque tropical exuberante de diferentes tonalidades de verde e rodeado de uma franja de areias brancas. O mar turquesa prolongava-se interminavelmente para o horizonte, salpicado de vez em quando pela passagem de algum barco. Kira caminhou pela areia até à água e chegou até um recife isolado.

Viu um guarda a patrulhar a praia e, mais perto dela, um jovem caribenho estava sobre um montículo a observar o horizonte. Kira seguiu o seu olhar e, não longe da margem, avistou um caiaque que deslizava sobre a água com aparente facilidade. Certamente, era o que o jovem esperava. Ao longe, viu também o inconfundível verde das árvores. Seria outra ilha? É claro. Provavelmente, o caiaque vinha de lá.

Quando o caiaque chegou à margem, o rapaz de pele morena saltou para a água e, com a ajuda do outro jovem, puxou a embarcação até à areia. Depois, os dois rapazes viraram-se e desapareceram no bosque.

Certa de que na outra ilha haveria um telefone para telefonar ao seu advogado, Kira ignorou o pânico que sentia das embarcações pequenas e aproximou-se do caiaque. Com determinação, empurrou-o até à água, dizendo para si que, se um jovem adolescente conseguia manipulá-lo, ela também.

Uma vez na água, segurou com força no remo e afundou-o na água, mexendo-o ritmicamente e fazendo avançar o caiaque para o seu destino. Só virou a cabeça uma vez para olhar para Petit Saint Marc, mas continuou a remar para a frente, para a pequena ilha que se elevava à frente dela, ainda demasiado distante e pequena.

Demasiado tarde, viu as nuvens cinzentas que se aproximavam pelo horizonte com uma velocidade inesperada e o pânico voltou a apoderar-se dela. Seria impossível chegar a terra firme antes de começar a tempestade.

O vento começou a levantar ondas cada vez mais altas e era difícil manter o rumo. Um relâmpago rasgou silenciosamente o céu, como um aviso mudo do que se aproximava. Kira segurou com força o remo, pensando que talvez aquilo fosse um erro que podia pôr em perigo a sua vida e a do seu filho, mas decidida a seguir em frente.

A chuva não demorou a chegar, em forma de uma cortina densa que a cercava várias vezes. Tinha a roupa encharcada e o cabelo colado à cara e às costas. O caiaque encheu-se de água. Cansada, continuou a remar, consciente de que parar significaria o lançamento do caiaque contra as rochas. Mas cada vez tinha menos forças.

Sem saber o que fazer nem para onde se dirigir, à mercê do vento e da chuva, Kira achou ouvir o ruído de um motor. Alguém saíra para o alto-mar com a tempestade! Seria o pai do jovem caribenho que vira na praia? Talvez alguém que pudesse ajudá-la? Arriscou-se a virar a cabeça, com a esperança de ver alguém por perto que pudesse ajudá-la. Ofegou de cansaço, mas verificou, aliviada, que alguém viera ajudá-la.

Era André! Não! Como a encontrara tão rapidamente?

Mas o importante era que estivesse ali. Confiava totalmente nele, mesmo que fosse apenas para a salvar das garras daquela tempestade.

Naquele momento, a natureza pareceu gozar com ela e uma rajada de vento virou o caiaque de costas e a força da água arrancou-lhe o remo das mãos. O vento apagou os seus gritos. E, de repente, o caiaque virou-se. As ondas envolveram-na e arrastaram-na para baixo e, então, viu-se novamente a afogar-se num lugar escuro que lhe arrancava a vida.

O seu pesadelo voltava a tornar-se realidade.

O coração de André parou, embora fosse apenas por um instante, e pensou em matá-la por fazer semelhante loucura, por se pôr em perigo.

Mas, antes de a estrangular com as suas próprias mãos, tinha de a salvar das ondas e de a levar sã e salva para Noir Creux, a ilhota desabitada que era uma reserva natural. Desligou o motor da mota aquática e mergulhou de cabeça no lugar onde a vira desaparecer sob as ondas, contando os segundos, consciente de que o tempo era de vital importância. Procurou no redemoinho e, finalmente, conseguiu tocar numas madeixas de seda. Segurou o cabelo dela e puxou-a com ele para cima, contra a força das ondas.

Saíram juntos para a superfície, sob a chuva e a fúria das ondas e, então, viu o receio e o alívio nos olhos femininos.

Muitas emoções invadiram-no, mas tentou ignorá-lo. Não queria sentir mais do que simples desejo físico por ela. Porque agora, depois da reunião em Martinica com o seu advogado, sabia que Kira era apenas uma oportunista, que passava de um benfeitor para outro, tentando tirar o máximo proveito.

Mas não com ele e muito menos agora que tinha consciência de que era apenas uma encantadora de serpentes que não hesitaria em usar a fraqueza que sentia por ela para tentar destruí-lo.

Passando-lhe um braço pela estreita cintura, nadou para terra firme e, depois do que pareceu uma eternidade, sentiu a areia vulcânica da margem sob os pés. A chuva continuava a cair com força e ele dirigiu-se para a gruta que se abria atrás das rochas. Vendo-se finalmente a salvo da força das ondas, André respirou fundo e olhou para ela.

– Estás bem? – atreveu-se a perguntar, sem conseguir compreender como se atrevera a entrar no mar com o pânico que sentia pela água, pondo a sua vida e a do seu filho em perigo.

– Sim – respondeu ela. – Estamos bem.

Ela e o seu filho. Os três estavam a salvo.

– Só queria telefonar e voltar para Petit Saint Marc.

Sem dúvida, estava desesperada por entrar em contacto com Peter e confirmar que conseguira o seu objectivo.

– Terias esperado uma eternidade – respondeu ele. – Noir Creux está desabitada. É um santuário natural sob protecção francesa e a minha também.

Kira olhou para ele com incredulidade.

– Tu vigias um espaço protegido?

– Um espaço protegido e muito mais coisas – disse ele. – Como o Château Mystique. Na verdade, esta manhã recebi uma chamada a oferecer-me as tuas acções, tal como aconteceu com as de Edouard.

– Isso é impossível – disse ela. – Quem te telefonou?

– Isso não importa.

– Sim, claro que importa, porque as minhas acções não estão à venda nem nunca estarão.

– Agora não podes voltar atrás.

– Não é necessário. Nunca autorizei nenhuma venda – disse ela, esfregando os braços. – Tenho de telefonar ao meu advogado e parar tudo isto antes de…

– Já é demasiado tarde. Paguei o preço que pediam – disse ele. – Há uma hora, o Château Mystique é meu a cem por cento.

Capítulo 6

Kira caminhou para a entrada da gruta com pés de chumbo, sentindo-se gelada por dentro. Achava que sobrevivera ao pior que podia acontecer-lhe, mas fora uma ingénua!

Quando Edouard a promovera a directora do seu hotel londrino Cygne e a accionista minoritária do Château Mystique, ela sentira-se ansiosa e aterrada ao mesmo tempo, desejando demonstrar-lhe que era capaz de gerir um hotel de luxo.

Mas mal começara a trabalhar lá quando acontecera a desgraça da morte de Edouard, num acidente de viação que levara a vida da sua amante e o deixara em estado crítico.

Fora então que aparecera André Gauthier em cena, desejando comprar o Château a qualquer preço. Edouard, através do seu advogado Claude, respondera que o Château não estava à venda, mas André insistira. Kira temera que a insistência pusesse em perigo a recuperação de Edouard e assim o dissera a Claude.

Fora então que Claude marcara a reunião entre Kira e André em Petit Saint Marc, uma reunião que André garantia não conhecer.

E fora então que ela se envolvera no debate mais apaixonado da sua vida e que começara a perder o coração.

Nunca mudara de opinião a respeito da venda do Château, embora se rendesse às exigências sensuais de André.

No dia depois de regressar a Las Vegas, Edouard falecera e ela chorara à sua maneira, porque, embora fosse o seu pai, mal o conhecia.

Edouard deixara claro desde a sua infância que ele se ocuparia dela, mas que nunca lhe daria o seu nome. Que a manteria afastada da sua família legítima e que nunca faria parte dela. Ela não devia confessar a sua paternidade a ninguém e, se o fizesse, ele deserdá-la-ia.

Desde pequena, Kira obedecera às suas ordens, porque era a única coisa que podia fazer.

Edouard oferecera-lhe uma educação e um emprego no seu hotel londrino, mas a maior surpresa chegara quando a levara para os Estados Unidos e lhe dera uma participação no Château, embora as acções só passassem a ser dela depois da morte dele.

Para ela, isso era suficiente. Tinha grandes planos para melhorar o hotel de Las Vegas e, finalmente, tivera a oportunidade de conhecer o seu pai.

Mas chegara a tragédia e, naquele momento, graças a um engano, André era o proprietário de tudo.

E ela só tinha falsas promessas.

Kira observou a chuva que caía sobre a ilhota, perguntando-se quem a traíra. Teria sido a mesma pessoa que preparara tudo para que parecesse que ela conspirara com Peter Bellamy para arruinar André? Quem pudera falsificar o seu nome para vender as suas acções? Teria feito o mesmo com as acções de Edouard?

Quem tinha tanto poder? Peter Bellamy?

Segundo Edouard, quando Peter descobrira a existência de Kira enfurecera-se. Seria ele quem queria arruiná-la? Porque se fosse assim, fizera um bom trabalho, já que os seus planos tinham conseguido enganar também Claude, o advogado de Edouard e o seu.

Recuperar as acções no tribunal podia levar anos. E ela não tinha dinheiro, nem recursos, só o filho que esperava.

Sem o Château não ficava nada, à excepção do bebé.

Fora tão parva ao pensar que conseguiria entender-se com ele!

– Quanto pagaste? – perguntou ela.

– Tu sabes.

– Quanto? – insistiu ela, num tom emocionado.

O silêncio de André pareceu uma eternidade.

– Dois milhões de dólares.

Uma fortuna, que devia ser dela.

Kira apoiou a cabeça contra a parede rochosa e húmida da gruta, sentindo-se devastada por dentro.

Não sabia o que fazer, nem como enfrentar aquela situação.

Observou a chuva que caía sobre as rochas e sentiu inveja, pois cada gota sabia qual era o seu destino: fundir-se com a imensa massa de água que era o oceano.

Não como ela, que não tinha para onde ir, nem a quem pedir ajuda.

– Quem tas vendeu? – insistiu ela finalmente, quase sem voz. – Tenho o direito de saber o seu nome.

– Como queres que saiba?

Kira virou-se para ele, pestanejando. André estava meio escondido entre as sombras da gruta e Kira não conseguiu ler a expressão do seu rosto.

– Não me mintas – disse ela. – Tiveste de pagar a alguém no Château para me trair. Para falsificar o meu nome nos documentos sem levantar suspeitas.

– Eu não recorro a esse tipo de artimanhas sujas.

– Só ao sequestro?

– Não me provoques, ma chérie.

– Porquê? – Kira dirigiu-se para ele, tremendo de raiva e de ansiedade, cansada da sua arrogância e da sua perseguição. – Tu tiraste-me o meu lar e o meu trabalho. O meu sonho. Não tenho nada a perder.

– Não?

André rodeou-a com um braço e aproximou-a ele, encostando os seus seios contra o peito.

Kira sentiu o seu domínio total e, consciente de que fisicamente era muito mais fraca, manteve-se tensa como uma estátua, disposta a receber um beijo cuja finalidade era dominar, castigar.

André baixou lentamente a cabeça, contudo, em vez da reacção violenta que ela esperava, deslizou uma mão entre os dois e apoiou-a sobre a barriga feminina.

Um tremor incontrolável sacudiu o corpo de Kira, mas o seu coração enterneceu-se.

Porque é que aquela mão não era protectora, cobrindo o lugar onde o seu filho crescia, um indício de que sentia alguma coisa por eles?

– Pedirei a custódia total – disse ele, num tom ameaçador, ao mesmo tempo que acariciava com os lábios a pele atrás da orelha.

Foi como se tivessem espetado uma lança no mais fundo do seu ser.

– Não podes estar a falar a sério – sussurrou ela, quase sem voz.

– É claro que estou – continuou ele, sem elevar o tom de voz. – Agora este bebé une-nos, mas, quando nascer, isso mudará. Depois do que fizeste hoje, não podes ficar ao cuidado de um inocente.

Com os olhos cheios de lágrimas, Kira desviou o olhar, mas não se deixou amedrontar. Nenhum homem podia ser suficientemente cruel para afastar um filho da sua mãe.

– Lutarei contra ti com todas as minhas forças – garantiu ela. – Nunca renunciarei ao meu filho.

Um silêncio tenso ricocheteou nas paredes rochosas da gruta, enquanto no exterior a chuva começava a parar e até o ar amainara.

– Eu também não – disse ele, apertando os braços à sua volta antes de a soltar.

Kira afastou-se dele, consciente de que as coisas só piorariam quando toda a verdade se descobrisse.

Lá fora, as nuvens começavam a abrir-se, deixando passar timidamente alguns raios de sol.

– Temos de voltar – disse André, dirigindo-se para a entrada da gruta.

– Como? – Kira não se sentia com forças para voltar a remar no caiaque, no caso de conseguirem encontrá-lo. Provavelmente, afundara-se para sempre no mar.

– Com um pouco de sorte, a mota aquática terá conseguido superar a tempestade e chegar a terra – disse ele, caminhando para a praia sem esperar por ela.

Ao sair para o exterior, Kira viu André com a água até aos joelhos, inspeccionando uma mota aquática que balançava languidamente sobre as ondas.

André tirara a t-shirt, deixando a descoberto umas costas bronzeadas e musculadas e, ao vê-lo nu da cintura para cima, não conseguiu reprimir a reacção traiçoeira do seu corpo: o desejo entre as suas pernas, a secura na garganta, o sangue quente e acelerado nas veias…

Assustava-a reagir daquela maneira com um homem, porque isso a punha numa posição de fraqueza e a impedia de pensar e com André era ainda mais perigoso.

Estava cansada de se sentir dominada por homens poderosos, como acontecera com Edouard. Aquele ciclo tinha de acabar.

Ainda que, pelo menos, Edouard lhe tivesse dado carta-branca para contratar novos serviços no Château. Claro que, na situação actual, as longas horas que dedicara ao projecto de melhoria do hotel não servissem para nada.

Perdera o hotel. Mais do que perder, tinham-lho arrebatado. Outro sonho destruído, tudo por causa de André.

Mas ele enganava-se se achava que conseguiria arrebatar-lhe o seu filho. Se não conseguisse fazê-lo mudar de ideias, ela desapareceria e nunca mais voltaria a vê-la. Nem a ela nem ao seu filho.

Fizeram o trajecto de volta a Petit Saint Marc praticamente em silêncio. Não só o ruído do motor tornava a conversa praticamente impossível, mas André também suspeitava que Kira estava demasiado ocupada a lutar contra os medos que se apoderavam dela cada vez que estava numa pequena embarcação aquática.

Sentia os dedos femininos cravados na barriga, a cara colada às suas costas e o tremor do corpo feminino contra o seu, sem dúvida, por causa do medo.

Queria odiá-la por se ter aliado com Peter Bellamy contra ele, no entanto, desejava-a com uma intensidade que nunca sentira por nenhuma outra mulher. Nem sequer saber que era a cúmplice do seu inimigo apagava o seu desejo. Tinha as provas tangíveis da sua participação nos planos de Bellamy no cofre e, no entanto, queria-a na sua cama.

Queria ouvi-la gemer o seu nome quando alcançasse o clímax. Queria tê-la rendida de desejo aos seus pés.

Ao chegar a terra firme, André ajudou-a a desmontar e, então, viu um brilho de determinação nos olhos femininos que o intrigou. Certamente, ela já estava a pensar na forma de o convencer para que a deixasse fazer parte da vida do seu filho.

– Monsieur Gauthier!

André olhou para o jovem que corria para ele com uma mão no ar, brandindo um envelope branco e sorriu. Provavelmente, Georges decidira que a carta precisava da sua atenção imediata e apressara-se a levar-lha, sabendo que com isso ganharia alguns dólares para ajudar a sustentar a sua mãe doente e os seus irmãos mais novos.

– Para si, senhor – disse Georges, entregando-lhe o envelope.

A missiva era do seu detective, provavelmente, o relatório definitivo sobre Kira Montgomery. André, que não tinha vontade de subir até à casa para dar algum dinheiro ao jovem, atirou-lhe as chaves da mota.

– Toma, para ti.

O jovem apanhou as chaves no ar e esbugalhou os olhos.

– Merci, merci.

André virou-se para Kira e apontou para a porta que levava à sua praia privada.

– Vamos dar um passeio.

– Vais deixá-lo conduzir um veículo tão perigoso?

– Pode fazer o que quiser com a mota. É dele.

– Porquê?

– Porque é leal e porque gosto dele.

Kira deitou a cabeça para trás e olhou para ele com curiosidade e estranheza, com uma expressão de inocência que o surpreendeu.

Sem dúvida, Kira Montgomery era uma contradição. Por um lado, o retrato perfeito da inocência e, por outro, a personificação da sensualidade mais deliciosa e selvagem. Era uma combinação que nunca vira numa mulher. Seria possível que Bellamy tivesse sido o seu primeiro amante?

A ideia de a imaginar na cama junto do velho Bellamy deu-lhe náuseas. Sem pensar, segurou na mão da Kira e entrelaçou os dedos com ela.

Uma mulher tão apaixonada como ela merecia um homem viril que estivesse à sua altura na cama, que soubesse explorar todas as formas de prazer e de entrega.

Um homem que soubesse como tratar uma mulher.

Porque ele sabia com toda certeza que Edouard Bellamy era tudo excepto um cavalheiro com as mulheres e sabia porque vira as marcas e os golpes numa das amantes do idoso.

André ouvira em silêncio as desculpas que a sua irmã Suzette dava várias vezes pelo comportamento indesculpável de Bellamy, mas a jovem continuara com ele, porque o homem lhe dera tudo o que desejava. Até o escolhera em vez da sua própria família. Apaixonara-se pelo inimigo.

Kira teria caído na mesma armadilha? Seria leal a Edouard Bellamy até ao final? Traí-lo-ia pelas costas?

– Porque estás tão zangado? – perguntou ela, quebrando o silêncio.

André olhou para ela e encolheu os ombros, devolvendo o passado ao mais recôndito da sua mente.

– Depois da tua aventura no Noir Creux, acho que tenho motivo para estar zangado, não achas?

– Talvez. Mas pensei… – Kira abanou a cabeça com um ar pensativo. – Temos de falar, André.

Ele franziu o sobrolho, sabendo que ela procurava palavras tranquilizadoras.

André apontou para uma enorme rede pendurada entre dois postes cobertos de ramos de palmeira.

– Por aqui – disse ele. – Eu já vou ter contigo.

Kira mordeu o lábio inferior, mas não disse nada e obedeceu.

André observou-a a afastar-se e reparou que a roupa húmida já não se colava ao corpo feminino como antes. Aquele era o seu principal desafio, porque embora lhe tivesse mentido e o tivesse enganado, ele queria acreditar nela. O desejo que sentia por ela dominava-o por completo.

Abriu o envelope e leu rapidamente a breve mensagem escrita no seu interior, que acabava com a frase de que esperava a confirmação definitiva quando tivesse provas concludentes.

André reviu a carta mais uma vez, absorvendo cada palavra e ficou tenso. Seria um erro?

Não, impossível! O detective era muito meticuloso no seu trabalho e tinha por costume verificar todas as suas descobertas. O que tornava tudo aquilo muito mais perturbador.

O que raios estava a acontecer? Pôs a carta no bolso e atravessou a areia branca da praia.

Desde o começo, soubera que Kira agia sob as ordens de Bellamy, já que tinha provas da sua participação. O mais provável era que Kira tivesse vendido as suas acções no Château para ganhar o dinheiro e começar uma nova vida, para fugir dele e da sua vingança, no caso de o seu filho ser de Bellamy, ou das suas garras, no caso de ser dele, tal como suspeitava.

Mas os dois milhões de dólares que André pagara para ficar com o total controlo do Château pareciam ter desaparecido. Não estavam na conta bancária de Kira em Las Vegas nem na que ainda conservava em Inglaterra. Provavelmente, enviara-o para um banco suíço ou para algum outro paraíso fiscal.

Mas para isso teria tido de dar a ordem e Kira não tivera acesso a um telefone para o fazer, tinha a certeza absoluta. Não, a única forma de o fazer era tê-lo deixado preparado antes de sair de Las Vegas.

Não era impossível, já que ela própria reconhecera ter telefonado ao seu advogado, mas então Kira ainda não conhecia os seus planos. E, além disso, porque rejeitara a primeira oferta de compra, se tencionava oferecer-lhe as acções depois pelo mesmo preço que ele propusera ao princípio?

Não tinha nenhuma lógica.

Kira não era uma mulher de negócios frívola, tinha a certeza.

André recordou a surpresa no rosto feminino quando Kira descobrira que ele comprara o Château e também ao ouvir a quantia que pagara. A raiva e desolação que a embargaram quando percebera de que o acordo era definitivo.

E o seu reconhecimento de que arriscara a sua vida e a do seu filho para poder entrar em contacto com o seu advogado e saber a verdade.

Virou-se para a pérgula coberta de folhas de palmeira e procurou-a. Kira estava deitada na rede, a olhar para o mar com uma expressão de infinita tristeza.

André sentiu um calafrio ao pensar em como estivera perto da morte.

A sua mulher, o seu filho. Quase perdera os dois.

Uma estranha sensação de calor embargou-o ao pensar que, se ela estivesse a dizer a verdade, em breve seria pai. Não Bellamy, mas ele, André Gauthier.

Era instrutivo.

Com a sua anterior noiva tinham falado de ter filhos, sim. Ela queria ter dois, mas não mais. E, é claro, não antes de estarem casados há três anos.

Ele acedera porque era um plano sólido. Um plano controlado, como todos os aspectos da sua vida. Porque aquele casamento, no fundo, era apenas um acordo empresarial.

Mas, então, Kira aparecera na sua vida, vibrante e apaixonada, com os seus olhos brilhantes e o sorriso espectacular e a sua presença mostrara-lhe que a sua vida era rígida e rigorosa. Também despertara e desejo ao mesmo tempo. Desejara-a então, sabendo que era cúmplice do seu inimigo, e desejava-a agora, sabendo que queria arruiná-lo.

E ia fazê-la sua.

Descalço, aproximou-se da rede onde Kira estava deitada e tirou a t-shirt. Depois, fez o mesmo com as calças de ganga e suspirou, aliviado, quando o seu sexo ficou livre.

– O que estás a fazer? – perguntou ela com incredulidade, ao vê-lo totalmente nu à plena luz do dia.

– Estou a pôr-me confortável – disse, dirigindo-se para ela com um brilho sensual nos olhos que não deixava dúvida das suas intenções. – Tira a roupa, ma chérie.

– Nem pensar! Alguém pode ver-nos…

– Aqui não, é a minha praia privada. Aqui só te verei eu.

André teve a satisfação de ver como se dilatavam as pupilas femininas e como a sua respiração acelerava. Era evidente que ela o desejava tanto como ele, mas não parecia disposta a esquecer-se das suas inibições nem da sua roupa.

Aquela não era a conduta própria de uma mulher coleccionador de amantes ricos, mas ele percebeu que Kira não era uma mulher normal. Não, era uma contradição.

Sexy e tímida.

Apaixonada e delicada.

Com audácia e reservada.

Inclinou-se sobre ela e acariciou-lhe lentamente a face com os lábios, descendo para o pescoço esbelto, despertado um sem-fim de sensações nela.

Nunca desejara tanto uma mulher como a ela, mas também nunca se contivera tanto na hora de a seduzir. Embora também não soubesse até quando duraria a sua paciência.

– Vi-te nua – murmurou ele, sem parar de a acariciar com os lábios. – Porque ages assim agora?

The free sample has ended.